sexta-feira, 17 de junho de 2016

FanFic: "A conturbada história em Forest Grove" (+18)





A conturbada história em Forest Grove, mostrará a vida de Michael Jackson. Sua infância conturbada no orfanato, sua adolescência controvérsia, até o momento em que se tornou o assassino frio da cidade interiorana do Oregon. Michael irá se deparar consigo mesmo, em situações difíceis e assustadoras, dentro de uma prisão. Onde irá enfrentar sua própria personalidade. 
Será uma história intensa, de tirar o fôlego. Novos personagens irão aparecer, pessoas ligadas ao seu passado e seu futuro. 
Será que Michael irá finalmente alcançar sua paz e afastar de vez os demônios que o assolam?








Capítulo 1 
O início 


Fazenda Wood, 1964


—O jantar está na mesa. Vamos jantar, querido?


Mamãe se agacha, se pondo em joelhos, diante de mim. Para ficar na mesma altura, ali sentado no tapete, espalhado pelo chão. Ela fazia questão de trocá-lo todos os dias, mesmo que estivesse limpo. No dia anterior era um vermelho florido, naquele instante, um bege sem nenhum desenho. Meus olhos vidrados no desenho, na pequena TV Mitsubishi 14 polegadas, volta-se a ela.

Seus rosto era muito bonito, apesar dos cabelos louros, de tonalidades quase brancas, revoltos e bagunçados. Mamãe não gostava de pentear os fios, eles secavam natural. Nunca vi um único pente em sua penteadeira, apenas remédios controlados para depressão que usava diariamente. Seus olhos bem azuis transmitiam nada além de tristeza, mas não que ela esteja triste o tempo todo, é apenas o jeito dela, ou o seu estado de espírito.

Eu gostava do seu sorriso, quando me avisava sobre o jantar ou o almoço. Eram alegres, mostrava que se preocupava comigo. Eu me sentia acolhido, protegido.

Sempre pensei que convidar uma pessoa para almoçar e jantar fosse uma forma de dizer que a aprecia, pois me lembro de mamãe e o jeito que ela cuidava de mim. Deve ser assim que as pessoas demonstram que gostam uma das outras.

Assinto apenas, em resposta ao seu aviso. Eu não me sentia faminto, mas era um costume jantarmos sempre naquele horário. Depois escovávamos os dentes e ela me colocava na cama.

Mamãe se levanta do carpete, e eu a sigo para a mesa de jantar. Papai já está sentado no seu costumeiro assento. A cadeira posta na cabeceira da mesa retangular, ao lado da pia da cozinha. Está lendo o seu jornal, papai sempre está lendo o seu jornal.

Se concentrava nas linhas daqueles papeis tanto que mal me lembro como é a cor de seus olhos, ou o jeito que sorri. Penso que não sorri, nem o som da sua risada passa pelas minhas lembranças. Ele era bastante distante de mim, mas não da minha mãe. Sempre estavam conversando, mesmo que fosse assuntos sérios, ou discussões.

Me sento no meu lugar, na lateral, o lado oposto da pia da cozinha. Meu jantar já está no prato. Era bife e batatas fritas, o meu favorito. Sorrio para mamãe como confirmação do meu agrado. Ela retribui, como se houvesse preparado especialmente para mim.

Capturo o garfo e a faca cada um de um lado no prato. Minhas mãozinhas pequenas não conseguiam segurá-los entre os dedos, mas não desisto. Faca na mão esquerda e garfo na mão direita. Cravo os dentes do garfo no meio do bife, e tento cortá-lo, mas é duro e trabalhoso, derramo um pouco de batatas fritas na mesa, no meu colo e no chão.

—Michael! —mamãe me repreende. —Tome mais cuidado, já arrumei a casa toda hoje. Não tenho que arruma todas às vezes que sujá-la. —Ela fica brava comigo, começa a catar as batatinhas pelo chão, no meu colo e na mesa.

Seu semblante está diferente da outra vez, não é como eu gosto. É austero e duro, me atinge por dentro. Eu não digo nada, apenas a olho com atenção, o jeito que me ajuda a cortar a carne. Ficam em cubinhos, bem melhor para comer. Percebo que mamãe, na verdade, não está brava, apenas quer me ensinar como devo fazer.

Coloco o primeiro pedaço na boca, está saboroso, bem do jeito que gosto. Minha apetite aumenta, resolvo experimentar uma batata frita.

—É inacreditável! —Papai se manifesta na mesa do jantar todo estressado, após ler algo do jornal. —O preço dos produtos aumentaram em vinte por cento. Aonde esse mundo vai parar? Terei mesmo que cobrar a mais dos meus clientes, para poder suprir o que gastei tentando crescer o meu negócio?

Papai era vendedor de móveis em uma pequena loja no comércio de Forest Grove, naquela época o governo fazia de tudo para levar embora os nossos salários. Aumentando a tarifação e impostos nos produtos para enfiar em seus próprios bolsos. Não é diferente de hoje em dia, mas naquele tempo o custo de vida era bem mais inferior do que de agora. Vivíamos quase na miséria. Sorte que mamãe tinha poses, e o meu avô havia deixado uma fortuna para nós. Mas meu pai não aceitava este dinheiro. Queria ele próprio, como chefe de família, alimentar sua gente.

—Você deveria colocar a sua loja aqui na fazenda. Não teria que pagar o aluguel da loja minúscula em que se enfiou. E ainda teríamos mais lucro. Sabe que não precisa se desdobrar tanto. — Mamãe fala sobre o dinheiro que possui, mas papai nunca aceitaria.

—Ficou maluca, Norah? Ninguém aparece nessas bandas, a Fazenda Wood é praticamente longe da civilização. O máximo que teríamos eram moscas se aproveitando dos nossos produtos. Traças roendo cada móvel, um por um. Seria a falência da década. —Mamãe bufa chateada com as reclamações dele. Está cansada de sempre falar do mesmo assunto e não obter sucesso algum.

Para a falar a verdade, eu não entendia nada do que eles estavam falando, mas eu sabia que era algo ruim. Eu não conseguia parar de olhá-los enquanto discutiam sobre a melhor maneira de fazer os negócios darem certo. Mamãe estava chateada e papai irritado. Ele sempre ficava irritado quando ela lhe dava uma solução que não condizia com a opinião dele. A maioria das vezes eles brigavam por isso.

Papai não concordava pelo fato de ela ser mulher. Na maioria das vezes mulher não tinha opinião, e se tivesse, não pode ser uma boa coisa. Não é fácil para uma criança de seis anos ter que estar no meio daquela discussão, não dava para ignorar, eu só conseguia encará-los enquanto papai gesticulava sobre os contras de continuar o negócio em Forest Grove, e mamãe oferecendo a grana da sua herança, diversas vezes e papai recusando. Para ele, era como se fosse uma ofensa.

—Você deveria ser menos orgulhoso. Sabe que a minha família ganha bem. Isso é um idiotice, Reymond. Coisa de homem machista e estúpido.

Eu odiava vê-los discutir por esses assuntos, mamãe ficava magoada e papai nem se importava com ela. Perco a apetite quando ele bate a mão na mesa, como uma ordem para ela se calar. Levo um susto e meu coração começa a palpitar. Só queria que terminasse logo.

—Cale essa boca, Norah! Eu não sou homem de viver embaixo da saia de mulherzinha. Eu sou um homem! Homens trabalham, homens sustentam a casa. —O berro dele é tão forte e intenso que saem baba da sua boca. Ele está furioso.

Mamãe começou a chorar, odiava quando ela chorava. Doía em mim. Ela deixou a cozinha e subiu as escadas as pressas. Acabam esquecendo que eu existo, é como se eu não estivesse ali. Olhei para papai, o analisando. Tentei entender porque tanta fúria sobre aceitar uma solução mais favorável. Os adultos complicavam tudo por causa do orgulho, deve ser esta a natureza humana, somos orgulhosos, pensamos em nós mesmo. Eu era um menino, pensava que é assim que um homem deve ser.

—O que foi? Por que está me olhando desse jeito? --Papai me encara nervoso. Eu sei que eu não fiz nada, mas é como se eu estivesse feito. —Pare de me olhar assim, Michael. Os adultos brigam todos os dias. —Eu não sabia como eu o olhava, mas sei que dentro de mim estava revoltado, furioso com ele. Papai fez minha mãe chorar, e eu fico bravo quando alguém a faz chorar.

— Norah, leve esse menino pra cama!

Olhei para a direita, havia o vidro da janela ao lado. Pude saber pelo o meu reflexo e entender o jeito que olhei para o meu pai. Meu cenho está franzido, e meu olhar está profundo. Pareço estar revoltado, muito mesmo, mais do que sinto por dentro. Minhas feições eram ameaçadoras, indignada. Na verdade, eu não me sentia bravo, apenas chateado. Não concordei com as atitudes dele em relação a ela.

—Norah! —Berrou e meu olhar fica cada vez mais profundo e raivoso, não consigo entender o porquê. —Leva logo esse menino.

Mamãe desceu as escadas quase correndo. Resmungou para papai antes de me pegar no colo. Não! Ela me arrancou da cadeira e me colocou em seu colo. Eu ainda não tinha terminado de jantar, ainda queria terminar a minha batata frita, mas ela subiu as escadas comigo sem se importar com nada.

A energia acabou de repente e tudo fica um breu. Faltando pouco para chegar no meu quarto.

Agarrei as costas da minha mãe com força, odeio escuro, morro de medo. Ela segurou a minha cabeça, me mantendo deitada em seu ombro. Ela é tão cheirosa, tem cheiro de mãe, da minha mãe. Eu me sentia protegido nos braços dela, como se nada pudesse me deter. Eu estava livre dos perigos do mundo, estava protegido do meu pai.

—Droga! Era só o que faltava. —mamãe reclama, mas continuou caminhando até o meu quarto.

Me colocou na cama, com o maior cuidado do mundo.

—Vou pegar uma vela, não saia daí. —Balancei a cabeça concordando.

Saiu do quarto, acho que demora menos de alguns segundos para voltar com a vela acesa em mãos. Mamãe descansa o suporte de vela ao lado do meu criado-mudo. Adorava ficar observando as chamas, aquele colorido amarelo e vermelho se misturando e cruzando, era lindo. Também tinha a fumaça preta mal cheirosa que eu me perguntava como dissipava tão rápido. Talvez fosse o vento. Mas por onde passava se toda as janelas estavam fechadas?

—Vamos vestir o pijama e escovar os dentes, querido? Está na hora de dormir, sim?

Eu não queria me levantar da cama, não queria parar de olhar para aquela vela. Não queria ter que andar pelo escuro, porém não tenho escolha. Mamãe me pega pela mão e me leva para o banheiro. O meu banheiro! O creme dental arde, parece que vai cortar a minha boca, o gosto é horrível. A escova esfregando de um lado para o outro também é ruim, mas mamãe faz de um jeito que parece que tudo fica melhor. Enxáguo a boca e já estou pronto depois de fazer xixi.

A energia ainda não havia chegado, mas não me preocupo, tem a luz da vela que eu admiraria até pegar no sono.

Sou colocado em cima da cama, mamãe retira a minha blusa de frio.

—Não liga para o seu pai, Michael. Ele é assim mesmo.— Levantei a minha mão para que ela retira a minha blusa. —Gosta de sempre estar no controle. É o modo de dizer que é homem e não precisa que uma mulher lhe diga o que fazer. —Seus olhos reviram ao falar. Há um sorriso no seu rosto. Percebo que ela está bem. —Não seja como ele. Os homens precisam de soluções, não importa quem vá lhes oferecer. Não é errado precisar dos outros, e muito menos lhes pedir ajuda. —Balanço a cabeça.

—Ele está bravo? —Perguntei torcendo para que a resposta seja negativa, e ela é. Percebo quando mãe nega com a cabeça.

—Claro que não, vai dar tudo certo. É só um chilique, igual todos os dias. —Deu um tapinha no ar, como se não fosse nada. Suspirei aliviado.

Vestiu em mim um pijama listrado em branco e azul escuro. Ele é quentinho, e bem fofo, me sinto confortável.

—Não se preocupe com o seu pai. Não se preocupe com ninguém além de si mesmo, querido. As pessoas são ingratas, elas nunca vão retribuir o bem que você fez a elas.

Eu sabia que àquela analise de mamãe tinha a ver com o meu pai, entendia que nutria uma mágoa por ele ao qual eu não soube compreender. O por que eu saberia? Aquilo era inalcançável para um garotinho de seis anos de idade. Porém aquele aviso se tratava do quanto ela esteve ao lado dele, mas sem receber nem um obrigado de volta.

—Agora deite. Amanhã vamos à floricultura. Gosta de gardênias? —Ela estava contende, animada. —Sim, eu sei que gosta. —Assenti confirmando que gostava, mas é ela que ama. Nosso jardim é cheio de gardênias.

A fazenda toda era repleta de plantações maravilhosas que mamãe cultivava. Ela se dedicava àquele lugar como nunca. Até mais do que eu, o seu filho. A Fazenda Wood tinha um colorido lindo na fachada. Era salmão e amarelo. Papai odiava, achava que eram cores de "mulherzinha" sempre repudiava os gostos femininos como um verdadeiro machista. Eu ficava dividido entre concordar com ele, e não achar nada demais mamãe apreciar. Na verdade, tudo que mamãe fazia parecia mais correto.

—Cante uma música pra mim?

Peço tímido, torcendo que ela ficasse mais tempo comigo. Eu sempre acreditei que mamãe ficava melhor ao meu lado do que do lado dele. Ela sorria, parecia feliz. Ou talvez seja o jeito dela de demonstrar a um menino que a vida não é tão cruel. De qualquer forma, eu a queria do meu lado.

—Está bem. —Me ajeito na cama e ela me cobre com o cobertor.

Deitou ao meu lado, de ladinho. Acariciou o meu cabelo, começando a recitar as primeiras palavras da cantiga que sempre cantarolava para mim.

—"Dorme, dorme, meu amor. Dorme, dorme, que a noite chegou. A madrugada, pode ser fria, mas logo amanhã aparece um um novo dia. Não se preocupe com as sombras da noite, mamãe está aqui para te proteger."

A voz dela era suave, doce, me acalmava. Me fazia realmente acreditar naquela canção. Me convencia de que ela sempre estaria comigo, me protegendo de todo o mal.

Recebi um beijo na testa.

—Agora dorme. Vejo você amanhã.

Saiu do quarto. Fiquei olhando para a porta até desaparecer. Me ajeito virando para o lado da vela, o meu desejo de contemplá-la ainda é válido.

Estava tão perto de mim que podia sentir a chamas me queimarem, era divertido. Não tive sono naquela noite. Meus pensamentos de criança voavam, em saber como surge o fogo. Como aquela cera branca faz o fogo do fogão permanecer ali? Talvez seja o fiapo do barbante na ponta. Havia líquido derramando nos lados, é como se a vela chorasse pela dor da queimadura, deve ser por isso que diminui cada vez mais. Uma vez mamãe disse que chorou tanto que parecia que ia derreter. Deve ser assim que funciona com as velas também.

Toquei com um dedo na lateral dela. Percebi que o líquido depois de seco, volta a ser uma cera de novo. Talvez se eu recolhesse todo àquele líquido pudesse reconstruir uma nova vela. Assim mamãe não teria que sempre estar usando uma nova.

Estico o meu dedo até o líquido, estico o máximo que eu posso. Chego bem perto e encosto o meu dedo ali, na cera branca. Mas uma "lágrima" está preste a ser derramada. Ela escorrer com pressa e impaciente. Toca no meu dedo. Caramba! Queima muito. Sinto a minha pele fritar.

—Ai! —Recolho o meu dedo na hora

O impacto faz com que a vela balance. Estou sacudindo o meu dedo pela dor, na tentativa de fazer a ardência passar. A vela cambaleia algumas vezes, parece que ficará firme, mas então despenca ao chão. Tento me mover para salvá-la, mas é tarde demais.

As chamas espalham no forro da minha cama. É tão rápido que não posso fazer nada. Não há o que fazer. É tão bonito! O amarelo fica vívido, a fumaça preta fica bem maior. O forro se consume, é ainda mais legal de vê-la diminuir e se acabar. O fogo é tão poderoso, vai acabando com tudo que vier pela frente. Meus olhos estão vidrados, eu deveria chamar a minha mãe quando as chamas subiram até a parede, mas não consigo. Estava paralisado contemplando aquele espetáculo. Ela ameaçou se aproximar de mim, mas me afasto um pouco. Fiquei de joelhos na minha cama. As chamas já estão no teto, mas não me atinge. Olho para o rastro negro que ela deixou na pintura azul do meu quarto. A pintura que minha mãe fez.

Desço da cama, fico em pé no meio do quarto, está crescendo cada vez mais. Estou curioso para saber qual tamanho ficaria.

—Que cheiro de fumaça é esse? —Ouço a voz de mamãe pelo corredor. Ela entra no meu quarto e grita bem fino. —Está pegando fogo! —Ela me pega pelo colo, ainda estou em transe olhando para a fumaça que está acabado com a cortina, e com o varão.

—Reymond! Reymond, o quarto do Michael está pegando fogo! —Ela berra.

As chamas envolve todo o quarto, está por todos os lados. É como a queda de uma torre de dominó, um desastre levando o outro. Mamãe não tem saída. Ela segura nos meus cabelos, me protege contra o seu peito.

—Minha nossa! Vamos morrer, Michael. —Ela está chorando. Odeio quando ela chora. Papai não aparece. Percebo a gravidade da situação quando ela não tem mais para onde ir.

—Meu Deus do céu, Norah! —Papai finalmente aparece. Ele tentar entrar no meu quarto, mas as chamas o impedem.

Eles estão se olhando com pavor. Papai, desvia das chamas e consegue chegar ao centro do círculo que o fogo forma entre a gente. Ele segura na mão dela.

—Norah, o que vamos fazer? —Ele tenta apagar o fogo com a camisa, mas é inútil. O poderoso fogo consume sua camisa também.

—Eu não sei, Reymond. —Sua voz é falha, penosa. A culpa é minha!

—Vou entrar, abrir espaço e você passa com o Michael.

Ele serve de escudo, abrindo espaço para que mamãe passasse. Sua pele queima, ele grita. A fumaça doía os meus pulmões. Eu começava a tossir com aquele cheiro intoxicante. Mamãe consegue atravessar, mas suas pernas queimam, ela grita. Ainda bem que as pernas estão de fora, assim o fogo não queimaria o tecido e espalharia pelo seu corpo todo. Mamãe já está na porta comigo, estamos quase chegando. Mas o varão que sustentava a cortina despenca, e bate nas costas de papai. Ele geme de dor e vai ao chão imediatamente. Fica desacordado por bater a cabeça.

—Reymond!! —Mamãe está apavorada, ela tenta voltar para salvar o meu pai. Na verdade ela está em dúvida entre me colocar fora de perigo e ajudá-lo.

Ela decide voltar. As chamas estão altas, papai não responde mais. Ela começa a tossir, está sem ar. Fica tonta, sei por causa dos seus olhos virando. Mamãe se desequilibra e vai ao chão. Ela cai exatamente por cima do meu corpo, fico embaixo dela. Meu nariz está dentro de sua camisa, não há fumaça ali, mesmo com dificuldade, consigo respirar.

Tento chamá-la, mas ela não responde. Tento sair debaixo dela, mas ela é muito pesada. O meu pobre corpo de menino de seis anos não pode fazer nada para ajudá-los.

O zumbido do fogo consumindo tudo que ver pela frente não é mais agradável. É apavorante, estou morrendo de medo. Aquele colorido se torna um tormento, não sei o que fazer. Ele havia devastado tudo, inclusive os meus pais. Talvez se eu tivesse feito algo antes, nada disso teria acontecido. Talvez se eu não tivesse tocado na vela, nada disso teria acontecido. Não consigo mais respirar, acho que a fumaça atravessou as roupa da minha mãe. Apago.

***

Começo a abrir os olhos lentamente, ao redor é tudo branco. Estou deitado de uma forma bastante dura e desconfortável. Há algo no meu nariz, e meus braços estão imóveis. Não posso me mexer. Acho que é um hospital, mas não tenho certeza. Tem um cara ao meu lado, percebo quando olho para minha direita. Ele é negro, e tem um bigote estranho. Usa um traje azul-marinho, e tem algo na cintura dele. Deve ser um policial. Quero saber onde está os meus pais. Se estou ali provavelmente eles deveriam está lá também. Mas eu não os vejo, em nenhum momento.

O homem me encara, me encara de verdade. Não sei porque me encara tanto. É como se quisesse dizer alguma coisa, mas algo o impede de dizer. Percebo que deve ser difícil ele dizer algo, seja lá o que queira dizer.

Não falo nada, eu também o encaro, encaro tanto que ele suspira fundo, se preparando para dizer algo finalmente.

—Moleque, você é mesmo um menino de sorte! —Não sei porque sou um menino de sorte, mas talvez seja porque eu venci à fúria do fogo. É assim que chamaria a partir dali. —Está aqui pra contar o que houve. —Ele parece que tem orgulho de mim, pelo meu escape. Talvez eu também devesse me orgulhar. —Um dia você vai poder dizer que sobreviveu a um incêndio, com apenas seis anos de idade. Sabe o que esta história acarretará na sua vida? —Continuo encarando esperando que me responda. —Nada. Porque as pessoas não ligam o que aconteceu no seu passado, elas só se preocupam no que você dará a elas no presente, talvez futuro. O passado de ninguém causa efeito. Só diz respeito a nós mesmos.

Não faço ideia do que ele estava tentando me dizer, mas eu sei que é algo de muita importância. Algo que eu levaria para a minha vida futuramente.

—A dor é sentida somente pela própria pessoa. Não tente fazer com que alguém se importe porque não vai acontecer. Nem se você quisesse muito, nem mesmo se a outra pessoa quisesse muito.

—Onde estão os meus pais? —Pergunto, tentando mudar aquele papo confuso. Ele suspira de novo, perpassa as mãos pelo rosto. Está chateado, continua me encarando.

Há algo em seu olhar que percebo que não é nada bom. Fico um pouco com falta de ar pela sua demora. Os meus pulmões voltam a arder e não é apenas pela fumaça que inalei, pode ser que contribuiu, mas o nervoso daquele suspense que aumentar o trauma dentro de mim.

—Onde estão os meus pais! —Grito, ele fica sério.

—Seus pais estão mortos. Morreram fritos por causa de uma vela. Bela forma de morrer, não acha?

Sinto as lágrimas quentes rolando dos meus olhos, mas não me esforço para isso. Elas rolam sem pedir permissão. Meu rosto, porém, não esboça reação alguma. Estou olhando para o mundo, sentindo uma dor cortante dentro de mim, parece que estou morrendo junto com eles. Eu queria morrer junto com eles.

—Ora, pare de chorar. Agora será somente você nesse mundo e mais ninguém. Você vai ter que ser forte, garoto. O mais forte que você puder. Vai ter que crescer sozinho, se transformar um homem por si só. Você é bonitinho, pode ser que encontre um lar que possam cuidar bem de você, mas senão... O mundo é obscuro, atroz. Vai ter que aprender desde muito cedo como é levar na cara.

Eu não queria levar na cara, não queria ter de enfrentar nada, a culpa era minha. Os meus pais morreram por minha causa. As lágrimas continuam rolando.

Alguém bate na porta do quarto, interrompendo aquela conversa. É uma mulher, elegante e bonita. Tem cabelos cacheados, e pele morena.

—O pessoal do abrigo chegou. —Ela avisa ao homem, e ele assente.

Alguma coisa me diz que aquele abrigo tem a ver comigo. Eu sinto que tem. Ela se retira e o homem se levanta.

—Bem, chegou a hora de ser forte.

Eu não gosto daquele cara ele me irrita, me deixa mal. Sinto a mesma sensação de olhar para o meu pai quando ele briga com a minha mãe. Ou brigava, pelo visto até isso seria arrancado de mim de uma hora para outra.

Um médico adentra o quarto e remove os aparelhos de mim. Enfia uma luz forte no meu olho, e me remexe de um lado para o outro, para me examinar.

—Ele está pronto.

O primeiro homem, o negro que não vou com a cara, me ajuda a me vestir. Ele está com uma mochila minha. Não sei como conseguiu, mas eu sei que tem roupas lá dentro, porque ele me entrega algumas. Começo a vestir a minha calça jeans, blusa branca e um casaco surrado que mamãe sempre reclamava que precisava comprar um novo, mas papai achava um bobagem, já o que o pano me aquecia da mesma forma.

Sou guiado para fora do hospital, há algumas macas com pacientes agonizando adentrando a porta que eu estava saindo. Havia um carro parado em frente. Uma mulher ergueu os braços para mim, como se fosse ali que eu devesse entrar. Faço sem questionar. Não faço ideia para onde estou indo, mas vou.

O caminho é silencioso, perturbador. Sinto vontade de chorar, mas não faço. Lembro das palavras do cara. Só quero dormir, talvez dormir me acalmasse. Talvez eu devesse fazer isso, mas não faço. Estou sentindo algo ruim dentro de mim, um vazio, solidão. Algo que eu sabia que duraria por uma vida inteira. Eu sei, pois ela me acompanhou durante toda a minha vida.

O carro estaciona em frente à um casarão bonito. Está coberto por uma floresta exuberante. As folhagens amareladas cobrem o vasto quintal. Uma mulher me guia para fora do carro. Ela é ruiva e tem umas sardas por todo o rosto. Ela me coloca em frente a um portão enorme. Eu nunca vi portões como estes. É alto e sombrio. Sinto um arrepio dentro de mim.

Olho para trás, e o carro está indo embora, sem mim. Eles me largaram ali e foram embora. Me abandonaram. Mas continuo olhando para a casa, não tenho expressão, apenas contemplo curioso em saber o que há lá dentro.










Capítulo 2 
Inimigos à vista




Caminho de um lado para o outro naquela cela solitária. Pareço mais um leão enjaulado do que o Michael. Michael sumiu, apenas existe alguém furioso querendo aplacar a sua fúria em quem quer que seja. Todos têm o mesmo grau de importância para mim: Nula e vazia. Bem distante dos meus sentimentos, pessoas não fazem parte dos meus sentimentos nem por um momento. 

A cadeia é fedorenta. Fria e escura, exatamente como a minha alma se encontra. Não há como sair, eu não escaparia daqui tão cedo. Esperaria alguns dias até o julgamento, e se condenado — com certeza serei — pegaria dez anos de prisão até a pena de morte. Estou ficando maluco, meus batimentos cardíacos estão a mil. Começo a suar, aquele uniforme branco e marrom está me queimando, me sufocando. Começo a ofegar. Fico tonto, mas me mantenho em pé. Meus olhos piscam sem parar, está difícil me acalmar. 

Paro para pensar o babaca que fui ao me entregar para a polícia, mas acredite, mesmo com está pressão toda, ainda é melhor aqui do que por aí. Claire estava com medo de mim, eu também teria se fosse como ela. Claire é inocente demais para conviver com aquilo que me tornei, e eu não suportaria que tenha nojo de mim. Claire sim é importante para mim, mas do que qualquer outro. A verdade é que tenho medo do que posso fazer, se por algum motivo ouvi-la questionar, mais uma vez, sobre os meus motivos. Os meus nervos são incontroláveis quando me dominam. Eles são bem mais fortes do que eu. Vê-la me olhar daquela forma, saber o que sente em relação a mim. Nunca ninguém pôde me destruir tanto com o olhar como ela pôde. Acho que naquele momento enxerguei quem sou, o tipo de monstro que posso ser. Sem controle, sem rédias, sem compaixão. Eu precisava ficar longe dela, e só aqui nessa cadeia repugnante, a mulher que amo teria a paz que precisa. 

Me sento finalmente naquela cama suja, tentando me aquietar. Os lençóis são velhos como o banho de sangue que já derramei. Estou merecendo também. A sujeira me causa repulsa, e até com ela eu teria de conviver. Além de conviver comigo mesmo, com as lembranças, o meu passado me massacrando como os crânios das pessoas ao qual eu tirei a vida. 

Olho para a frente, um sujeito feioso me encara com um sorriso idiota nos lábios. Ele é deprimente, um ser inferior. Um bandido de quinta categoria, se é que exista alguma categoria para ser bandido. Estou irritado, com vontade de desfazer aquele sorriso idiota com as minhas próprias mãos. 

—O que que foi? Por que me olha tanto? Perdeu alguma coisa aqui? 
Ele continua rindo, levanta-se da sua cama e caminha até a grande. Aquela pança exagerada é tão ridícula quanto a cara dele. 

Sua cabeça calva, deixa suas orelhas enormes e pontudas. Os dentes podres e tortos me dá vontade de vomitar. Me sinto diante daqueles filmes medievais, com seres de aparência bruta e bárbara, desprovido de higiene, ou de cuidados médicos. Odeio aquele tipo de filme, justamente por não suportar aquele visual tão primitivo. 

—Você é o assassino de galochas, não é ? —Não respondo. Reviro os olhos , querendo nem começar aquele assunto. —Soube muito de você. Aquelas mortes. Cara, você é sinistro! 

Ele sorri com deboche. Tenho vontade de socá—lo. Eu até faria, se não houvesse grades que me impedissem de ir até lá. Sorte dele que existe algo que pode me parar. 

—Cara eu... —Tento abrir a boca para falar uns desaforos, mas sou interrompido. 
—Petrus... Petrus Sevada. —Faço cara de riso, por conta daquele nome que combina perfeitamente bem com ele. Ridículo! 
—Estava o tempo todo ali, diante de nós e nunca desconfiamos. —Continua sem ao menos se importar que está incomodando. — Bem que você se escondeu direitinho naquela capa de professor intelectual. —Ficou pensativo, olhando para o teto. E eu, olhar semicerrado, o fulminando silenciosamente. —Como você fez aquilo? —Parece admirado, como se eu fosse uma grande coisa. Não parece uma grande coisa agora, nem nunca pareceu. —Se esconder durante toda esse tempo? Me ensina alguns truques? 

O encaro sem desviar o olhar, continuo analisando—o. É digno de pena, um amador desgraçado que deveria sumir da minha frente. Não tenho nenhuma vontade de lhe responder. Para falar a verdade, meu peito está carregado de ódio só por olhar para ele. Parece que vou sufocar se fizesse mais tempo. 

—Vá se ferrar, filho da puta! —Falo com calma, como se desse bom dia. Ele desfaz o sorriso patético, ficando sério. 
—Não folga comigo não, Jackson. Você vai ter a sua vez também. Fique esperto. Logo, logo essa banca toda vai cair feito um império derrotado. Isso é só questão de tempo. 

Sua ameaça não me atinge em nada. Parece até que estou ouvindo um comercial engraçado que na verdade não tem graça nenhuma. São apenas comediantes patéticos tentando fazer o público rir, quando na verdade estão debochando por ser tão retardado. 

O carcereiro passa pelo corredor, está inspecionando o lugar. Eu precisava saber de notícias de fora. Notícias da única pessoa que me importo na vida. Queria saber quando Claire viria. A saudade que sinto por ela parece que vai me matando aos poucos. Preciso dela perto de mim, ao meu lado, nem que fosse de longe. 
Me levanto de uma vez da cama, aproximando—se da grade. Coloco o meu braço para fora o chamo:

—Ei, venha aqui! —No final do corredor ele volta. Se posiciona em frente a grade da minha cela, mas fica bem distante dela, tentando evitar ao máximo de aproximação. Cara esperto! Não quer arriscar o seu pescoço. —Alguma visita? Alguém perguntou sobre mim? —Ele apenas nega com a cabeça. 
—Quando alguém vir visitá-lo, será o primeiro informado. —É hostil e irônico. Odeio pessoas assim. Apesar de ser até pior. 
—Ela não virá, Jackson, esquece. —O tal, que não tem nenhum amor pela vida, me confronta. Minha cara de tédio para ele é plausível. —Mulheres não toleram um assassino por perto. Elas têm medo de serem a próxima vítima. 

Aquela última frase me atinge certeiro. Volto para o meu lugar e me sento ali. Óbvio que Claire teme e muito. Mas com ela é tudo tão diferente. Eu não sinto ódio, não sinto raiva o tempo todo. A fera que existe dentro de mim amansa. Sou conduzido por um outro tipo de sentimento que pela primeira vez na vida, me traz tranquilidade. Eu poderia viver com este sentimento pelo resto da vida. Mas longe dela, é como se eu fosse explodir tudo de uma vez novamente. E não seria bom para quem estivesse ao redor. Sou feito de explosivo, um aperto no detonador e tudo vai para os ares. 

Claire é linda, inocente. Ela se parece com a minha mãe apesar de ser morena. Tudo que sentia ao lado dela quando era criança, sinto de novo em Claire. Essa sensação aconteceu apenas duas vezes na minha vida. Porém sei que com ela era possível durar mais tempo. É isso que Claire representa. O amor que tanto senti falta. 
Ela estava certa em não vir, tinha toda razão eu não a culpo. Mas aquele olhar que me lançou quando me entreguei a polícia. As lágrimas em seus olhos, me convenceu de que tudo ficaria bem entre nós. Ou pelo menos o amor que ela sente por mim continua intacto. Sinto tanta a falta dela, que parece que vai me corroer. 


***


O segundo dia fora o pior. Parece até que passei a vida inteira aqui. As horas custam a passar e cada vez fica mais lenta, talvez vem daí a sensação de eternidade. Viver aqui é como viver no inferno. 
Sinto falta das montanhas, de contemplar a natureza. Caminhar pelo bosque durante à noite onde ninguém pudesse me ver pelas sombras.

Aqui dentro até mijar é complicado. Aquele gordo idiota fica me olhando o tempo todo, e o único sanitário da minha cela não há nenhuma privacidade. Estou em um lixão, submundo bem diferente do meu. Quero o meu banheiro, a minha cama, as minhas roupas. Minhas coisas! 

Lavo o meu rosto naquela lavado estreito, o vento trata de secá-lo, pois não há toalhas. Escovo os dentes, ao menos está higiene era me permitido fazer direito. 

Existem pessoas que adoraria me ver nesta situação. Seria um prato cheio, aplaudiriam a minha derrota, e tudo que eu poderia fazer é concordar com cada um. Eles estavam em seu direito. A cidade estava livre de caras como eu. Um louco sem controle algum em suas próprias ações. Eu também aplaudiria se pudesse fazer. 

Vou ao refeitório tomar o café da manhã. Há presos e mais presos naquele lugar. Mais do que a população de Oregon inteira, parece que existe mais pessoas de mal do que de bem em Forest Grove. Todos pagando pelos seus pecados. Sinto a atmosfera ruim daquele lugar, apesar de ter me acostumado com ela. Os caras tinham cicatrizes nos rostos, tatuagem. Eram dez vezes maiores do que eu. Me vejo no internato quando criança. Com aquele bando de pessoas desconhecidas, no mesmo lugar, que eu passaria o resto da minha vida. 

Me sento entre os bancos longilíneos para tentar fazer descer aquele pão com gosto de privada. O café com leite amargo ajuda descer. Sinto que vou passar fome, queria a minha cozinha agora, para que eu mesmo pudesse preparar o meu café da manhã. 

Eles olham para mim torto, sei que querem confusão. Eles sempre querem, ainda mais sabendo quem sou. Não me intimido, se levasse umas boas surras, é o que mereço mesmo. Continuo comendo sem parecer que estou prestando atenção, já estou acostumado a passar por esta situação. Eu já estive em uma prisão antes, não exatamente como esta, mas era a mesma coisa. 

Eles cochicham entre si, olham para mim. Sou a atração principal. 
Petrus senta-se ao meu lado sem pedir licença. Continuo comendo aquele pão sem graça. 

—Eles sabem sobre você. Todos aqui conhecem a sua história, Jackson. Não há um único homem aqui dentro que não queria ficar frente a frente com você. 

Olho para as faces de cada um, me sinto uma fortuna recém descoberta, mas não necessariamente eles fariam bom "uso" de mim. Sou um prato cheio, uma recompensa, para quem conseguir me "capturar". 
—E o que eu tenho a ver com isso? 
—Ora, pare de bancar o despreocupado. Esses caras gostam de se sentirem os donos do pedaço. Eles matam para continuar no páreo. Vê aquele loiro bombado, com tatuagens de dragão, à esquerda? 

Olho na direção do cara, ele estava me olhando parecendo um rinoceronte bravo. Posso ouvir até o relinchar daqui. 

—O nome dele é Steak. —Ri com ironia do nome. —Ele é que é o dono do pedaço, Michael. E seria muito bom continuar sendo. Faria qualquer coisa a quem quer que seja se sua diplomacia estiver ameaçada. —Olho para Petrus, não vejo o porque o problema é meu, mas sei que está tentando me avisar sobre alguma coisa. 
—Não estou interessado em arrumar briga e muito menos tomar o lugar de quem quer seja. Eu só quero sair logo dessa porra! Pare de me encher o saco. —Jogo aquele pão na mesa, de saco cheio daquele cara, e do gosto ruim que sou obrigado a conviver. 

Levanto do banco e caminho rumo a saída, afim de voltar a minha cela e ficar por lá algum tempo. 
Passo pelo tal Steak, ele me encara por cima dos olhos, faz questão de evidenciar os músculos exagerados, só para mostrar que é mais forte. Essas caras que gostam de bancar o invencível sempre têm suas fraquezas, falo por mim mesmo, não por ninguém. Ele queria manter o seu lugar, ele o teria. Mas eu também descobriria qual era sua fraqueza, só por segurança. Às vezes um homem deve estudar o outro, conhecê-lo bem antes de dar qualquer passo a diante. Desta forma, somos capazes de manipular, jogar conforme as cartas à mesa. Tudo fica ao seu favor, é aí que você ganha por esperteza quando desarma o sujeito. 

"Mantenha seus amigos perto, seus inimigos mais perto ainda" como diria o Poderoso Chefão. Eu estava no meio de uma guerra onde, pelo que vejo, minha cabeça está a prêmio. Caberia eu fazê-los jogar no mesmo time que eu. 







Capítulo 3
Orfanato River Grove

30 anos atrás 

Os passos por aquele corredor parecia que nunca acabaria. Eu estava com fome, e com muito frio. Perdido também, não sabia direito o que estava fazendo em um lugar como aquele, ou até quanto tempo eu ficaria. 
Meus tênis deslizavam no piso bem encerado daquele prédio. Consigo ver o meu rosto refletido lá. É maravilhoso! 
Na mão esquerda, estava segurando a minha mochila como se não quisesse nunca mais soltá—la. É tão forte que a sensação que dá é que a protejo com a minha vida. Na direita, seguro na mão de uma mulher bonita e jovem. Está com uma camiseta de cetim branca e uma saia lápis azul marinho. Seus cabelos comportados e presos, é bem arrumado. E seus olhos são bem expressivos. Eu nunca esqueceria aquele olhar, a tranquilidade que sempre me envolveu. Eu me sentia em casa ao lado dela. 

—Onde é que está me levando? —Pergunto apreensivo. Aquele caminho parece uma sentença de morte. É dolorido e triste. Me senti em um pesadelo. 

Para uma criança de seis anos estar em um lugar completamente diferente onde não há os seus pais, ou ninguém da sua família, pode ser pavoroso. Aquele medo, e uma sensação ruim de desespero estaria comigo, por mais tempo que eu imaginei. 

—Estou levando você para o seu quarto, Michael. É aqui que vai morar de agora em diante. Vai ter comida, banho, um lugar para dormir e estudar. Não parece maravilhoso? —Indaga olhando para mim. Levanto a cabeça para olhá-la nos olhos. 

Não parecia maravilhoso, parecia desconfortável. Eu queria voltar para minha casa. Queria abraçar os meus pais. Minha cabeça estava tão confusa, que parecia girar. 
Olho assustado para ela, é só mais um reflexo do que eu me sentia por dentro.

—Por que me trouxeram para cá? —Ela para de caminhar, olha nos meus olhos com compaixão. Se ajoelha na minha frente. 

Seu olhar me tranquilizou naquele dia. Foi como ser abrigado de novo.
—Este é o único lugar apropriado pra você, querido. Seus pais não estão mais conosco. As autoridades acharam por bem trazê—los para cá. Tudo que precisar é para você. Vai ser bem tratado e muito bem cuidado. Pode contar comigo. 

Parecia legal, mas tem algo em seu olhar bonito e sereno. Não parecia ser verdade. É só para tentar me tranquilizar, assim como quando minha mãe me dizia que tudo ficaria bem entre o papai e ela, mas não era verdade. Nunca ninguém diz a verdade. É mais uma artimanha para nos calar. Mas sempre fui uma criança esperta e observadora. 

—Qual é o seu nome? —Ela sorri, por ter me convencido a me acalmar. Eu realmente acreditei nisso. 
—Dina Jackson. Sou sua nova tutora, pelo menos aqui dentro das instalações. Irei cuidar de você pessoalmente. As crianças precisam de tutores até completarem dez anos de idade. Sabe? Nas suas condições... —Dá uma pequena pausa, como se estivesse com receio de continuar. —Um órfão. —Está toda sem jeito, com medo de me magoar. — Onde perdeu os pais. Todo aquele processo de formação de caráter e tudo mais. Vai ser um prazer, Michael. —Assinto sem falar nada.
—Sabe? — Continua. Voltamos a caminhar pelo corredor. —Às vezes perder o que amamos, nem sempre é o fim. É uma forma de nos tornamos mais fortes e mais corajosos. A vida vai seguindo e você percebe que tudo vai se encaixando em seus devidos lugares, Michael. Confie em mim. 

Por que as pessoas adoravam dizer a um menino de seis anos que ele precisava ser forte? Havia perdido os meus pais e estava sofrendo por isso. Aquela vida não era minha, aquele lugar estranho não era a minha casa. Eu queria ir embora, mas não tinha forças o suficiente para fazer isso acontecer. Eu não precisava ser forte coisa alguma. Eu nunca precisei. 

Chegamos em frente a uma porta, senhorita Jackson nos para bem ali. Parece que chegamos no lugar em que eu deveria estar. 

—Aqui é o seu quarto. Vai passar uma boa parte da sua vida aqui, espero que se acostume rápido. Qualquer coisa que precisar é só me chamar. — Ela toca no meu rosto. Analisa-me de cenho franzido. —Você está bem, Michael? Tá tudo certo? 

Não, não estava tudo certo. Minha cabeça estava confusa e eu estava morrendo de medo de tudo aquilo. O futuro parecia sombrio e longo. Me sinto enclausurado, preso pela própria circunstância. 

—Estou. —Foi somente que eu disse. Não choro, eu não conseguia chorar. Os meus olhos estavam secos, é somente o que sinto por dentro que parecia que me sufocaria. 
—Você parece bem, Michael. Mas eu sei que não está. Não pode está. —Seu tom é pesaroso, como se sentisse pena de mim. Acho que por isso detesto até hoje quando alguém sente pena de mim. É humilhante. —Se não estiver, pode falar. —Ergui um ombro sutilmente. Não digo que sim e nem que não. 

Ela toca na maçaneta da porta, não para de olhar para mim, eu também não deixo de olhar para ela. 
A porta se abre revelando um quarto aconchegante a acolhedor. As paredes são azul bebê. Há algumas decorações masculinas de um garotinho como eu naquela idade. Carrinhos, palhaços e toda esta baboseira que precisei olhar durante um longo período da minha vida. Parecia incrível. Era como encontra um pouco de refúgio no meio do caos. 

Tudo que vejo ao olhar para frente, é uma cama vazia, e uma segunda ao lado. Tipo de um dormitório de orfanatos. Naquela época eu não me liguei a este fato, mas que bom que não havia aquele amontoado de moleques um disputando a cama do outro como se fossem animais. Eu com certeza teria pirado mais cedo. Até que o Orfanato River Grove era de um ambiente acolhedor e organizado. Digo, a estrutura, porque as pessoas mesmo... 

—Esse será o seu quarto, querido. —Ela acende a luz. —Pode arruma suas coisas naquele armário. —Aponta o armário ao lado direito do quarto. —Qualquer coisa só precisa me chamar. 
—Ei, apaguem a luz. Estou tentando dormir aqui. —Alguém reclama do outro lado do quatro. Olho na direção da voz, e encontro um menino deitado na segunda cama. Todo irritado por causa da luz acesa.
—Desculpe, Max, já estamos terminando aqui. —Ela ajoelha mais uma vez diante de mim, segura o meu rosto a fim de me dar o último aviso. —Se precisa de alguma coisa, me chame. —Reforça seu pedido. Parece uma súplica. Ela sabe que não estava bem. Balanço a cabeça em positivo. 

Adentro o quarto ouvindo um "Boa noite" da senhorita Jackson. Mas não me importei com a sua cordialidade, estava interessado em coisas que qualquer criança estaria em um mundo diferente, em conhecer aquele quarto. Ele é bem diferente do meu. O cheiro não é igual ao cheiro de lavanda do meu quarto, mas também não era um cheiro ruim. Me senti na casa de algum vizinho, cuja a mãe é tão zelosa quanto a minha. Me senti em casa e acolhido, incrivelmente acolhido. Com vontade de explorá-lo e saber o que podia ganhar com esta nova vida. 
Me sentei na cama vazia deixando a mochila de lado. Continuei olhando para o teto. Aquele candelabro é lindo. Tem um formato de um grande peixe, a impressão que dá, é que vai desprender e me engolir. Eu achava aquilo maneiro além da conta.


—E aí, qual é o seu nome? —O menino chama a minha atenção, e consegue. O olho rápido, ainda não consegui me acostumar com a sua presença. 
—Michael. —Respondi somente. Eu ainda estava com receio de faz amizade com quem ainda não conhecia. Nunca fui bom em fazer novas amizades, ainda mais aos seis anos. 
—E o que faz aqui, Michael? Também é órfão? —Não disse nada, apenas o encaro sem esboçar nenhuma reação. 

Não dá para falar sobre o que houve com os meus pais. Era estranho afirmar o que aconteceu. Para mim, eles estavam somente viajando, e um dia chegaria para me buscar. Dia este que nunca chegou. 

—Senhorita Jackson é sua tutora. —Comentava como se fosse uma grande coisa. —Se deu bem, ela é uma ótima pessoa. Já a minha... é uma filha da puta. 

Arregalei os olhos pelo palavrão que saiu de sua boca. Para mim era uma imoralidade. Se mamãe me visse falar desse jeito, com certeza eu levaria um tapa na boca. Ela odiava que papai mencionasse este nome. Mamãe! Me senti deslocado de novo e sozinho. A tristeza me dominou ao lembrar dela. Partiu o meu coraçãozinho pequeno e frágil. 

—Você não é muito de falar, não é Michael? Qual é? O gato comeu sua língua? —Balancei a cabeça algumas vez. Para mim era quase um terror um gato comer a minha língua. Coloco a língua para fora mostrando que ela estava ali, em seu devido lugar. Ele começa a gargalhar. —Legal. 
Balança a cabeça. Ele tem a certeza que eu não vou abrir a boca. Então continua tagarelando. 
—Meu nome é Max. Nunca conheci os meus pais, fui jogado nesse lugar recém—nascido. Já tenho quase dez e ninguém me adotou. O lado bom é que vou me livrar da tutora. —Ele ergue os ombros em resignação. — A gente se acostuma. —Ele olhou para mim, me encarou. —E você? Deve ter uns cinco anos, ou seis. Me diz sua idade pelo menos, se vamos dividir o quarto. 
—Seis. 

Ele começou a rir, adorando por ter quase acertado. 

—Beleza. —Ficou um instante pensativo. —Só vai dizer o que eu perguntar, não é mesmo? Não tem problema, Michael. Mas isso não vai me impedir de conversar com você, ou vai? —Neguei com a cabeça. Gosto de ouvir o som da voz das pessoas, às vezes não é torturante. Serve como companhia. Ouvir o silêncio é que é perturbador, eu sei. —Ótimo. 

Deitei na cama, depois de ter tirado os meus tênis. Fiquei olhando para o teto, pensando em um monte de coisas enquanto Max permanece tagarelando. Ele não cansa nunca, mas há uma única coisa que presto atenção no que diz. 

—Teve uma vez que quis conhecer os meus pais. Perguntei pra minha tutora e para a diretoria do orfanato. Mas ninguém souberam me dizer. Resolvi esquecer. Eu não os acharia nunca mais, eu teria que seguir por mim mesmo. Sou eu quem faz o meu futuro, e mais ninguém. 

Esta frase do filho da puta do Max, grudou em mim como um chiclete.
Eu gravei aquilo na minha cabeça, apesar de não ter ideia do que era "Fazer o futuro" com seis anos de idade. Porém depois de adulto, entendi o verdadeiro significado daquilo e o que mudaria na minha vida. 

Esquecer os meus pais? Acho que seria impossível. Mas me conformei em viver naquele lugar. Me conformei tão rápido que chego a pensar que sou um tipo de camaleão, mas não tem nada a ver com mudanças de aparência, e sim de adaptação, aos obstáculos da vida. 
Adormeci naquela mesma posição, sem me dar conta do quanto estava exausto. 


***

O caminho até o refeitório é assustador. Há várias crianças sentadas em uma mesa ampla com capacidade de quinze pessoas. Mesas como estas estavam espalhadas pelo salão. E todas ela estavam repletas de crianças da minha idade, ou maiores que eu. Todas estavam tomando o seu café, conversando alto e fazendo um monte de bagunça. Me vi em uma guerra, onde todos disputavam pelo um pedaço de pão. 
Não existia adultos ali, não havia nenhum responsável para controlar a bagunça. 

Sigo Max até um lugar vazio, ele me levou para o refeitória após acordarmos de manhã. Disse que nos alimentávamos e depois íamos para a sala de aula. Eu não sabia escrever e nem ler, por este motivo eu teria que perguntar a senhorita Jackson qual seria o meu lugar. Provavelmente eu ficaria na sala com outras crianças da minha idade, desenhando e pintando. Eu adorava este trabalho, pareceu divertido. Mamãe deixava eu pintar nas paredes do celeiro da fazenda com suas tintas de trabalho em tela. Era uma dos meus passatempos favoritos. 
Me sento no banco longínquo da mesa. Há pelo menos umas três crianças na minha frente. Max vai buscar um pedaço de pão para nós e um copo de leite. Ele está se empenhando para cuidar de mim. Acho que me ver como o seu irmãozinho menor que nunca teve. 

Estas tais crianças que me olham, estão rindo de mim, cochichando de mim umas com as outras. Eu não entendo direito o porquê. Não há nada de errado comigo. Talvez seja porque meus pais morreram, e estou sozinho neste lugar estranho. Talvez porque não gostaram de mim, ou algo parecido. 
Mordo o meu pão duro, e pego o copo de leite entre as minhas mãos pequenas. Continuo os encarando, porém sem dizer uma única palavra. 

—Olha só Dylan, que menino mais estranho. —Eles me provocam. 
—Deve está cheio de piolho. Olha só essa cabeleira enorme. —O outro me olha como se eu fosse um mendigo. 
—Se soubesse o fedor que sai desse casaco. —Ele me encara e eu faço o mesmo. —Você tá fedendo. 

Largo o pão, e começo a cheirar os meus braços, debaixo deles também. Estou cheirando um pouco a suor, há cheiro de fumaça, provavelmente do incêndio. 

—Deixa o Michael em paz, seus idiotas! Ele é só uma criança que perdeu os pais. —Max tenta me defender. 
—Agora você tem babá pra te defender? 

Eu não entendo o porquê do deboche. Era como se fosse crime ser quem sou. Estavam tentando me magoar. Aprendi muito cedo que as pessoas sempre dão um jeito de fazer isso com você. O pior de tudo é que sempre conseguem.

Me enfureci, por dentro estou com raiva chateado. Parece que há uma bomba dentro de mim prestes a explodir, mas que de alguma forma eu a mantenho contida. Eu conseguia fazer isso mais quando era criança do que agora. Me esforçava tanto que sentia meu estômago doer e minha garganta latejar. Era dolorido conter tudo aquilo. Deve ser por este motivo que não pude mais. 

—Max agora é sua namorada, bebezinho? É por isso que te defende tanto? —O outro começa a rir. —Viu só, galera! —Ele gritou para que os outros meninos ouçam. Fiquei apavorado. Eu não queria ser o centro das atenções, no entanto estava sendo. —Max é o namoradinho dele. —Caçoaram de mim, me atormentaram, e eu nem sequer conseguia fazer nada. 

O lugar rompe em uma gargalhada debochada e cruel. Precisei tapar os meus ouvidos, para não ficar surdo, ou somente para não doer mais. Suas risadas divertidas as minha custas, era como morrer. Eu queria muito encontrar um buraco e me enfiar dentro dele. Apontavam e zombavam. Sinto vontade de chorar, queria sair dali o mais rápido possível, mas não conseguia. 

—Qual é, mendigo. O gato comeu sua língua? Não vai responder? —Não dava para falar nada, minha boca estava presa. Era difícil movê—la. O que eu falaria afinal? Eles eram maiores do que eu. No mínimo iam me bater. 
—Olha aqui Greg, se não deixa o Michael em paz... —Max se joga em cima da mesa para chegar bem perto do rosto dos otários. Aponta o punho fechado, mas eles não temem.
—Vai fazer o quê? —Greg o enfrenta, sem vacilar. 

Prestei atenção nele. Não parece ter medo de nada, é valente. Um babaca, mas ele é forte. Eu por outro lado, era fraco e pequeno. Nunca me senti com tanta vontade de crescer e ser e alto como naquele momento. Papai me dizia que um homem deve ser corajoso e forte. Greg parece ser a pessoa que papai descreveu. A pessoa que eu queria ser. 

Uma voz de mulher adentrou o lugar berrando, pedindo silêncio. Me senti aliviado, pois seu grito faz com que toda àquela bagunça seja dispersa. E feito com que eu ficasse em paz. Era uma senhora, bem mais velha que a senhorita Jackson. Diretora Spencer, a senhora que todo mundo temia ali por ser a autoridade máxima naquelas paredes. Ela era bem durona. Mas eu só queria voltar para o meu quarto. Ou ficar ao lado da senhorita Jackson. Pensava que ela cuidaria de mim, na ausência da minha mãe. Me sentia seguro perto dela. 

—Vem, Michael, vamos voltar. 

Eu não tinha terminado o meu café, quando Max me puxou para ir embora. Ainda estavam faminto, mas sigo Max até a saída. Tudo que quero é ir embora dali mesmo. 

Sai correndo pelo corredor, Max também corria atrás de mim. Estavam em pânico, diante do que houve. Queria me esconder e não sair dali nunca mais. Eu nunca havia passado por isso antes. Naquela idade, eu era tão inocente que pensava que ir para escola fosse divertido. Mamãe disse que haviam outras crianças e eu iria brincar e fazer amizades. Por este motivo que me sentia um ser repugnante, com todas àquelas outras crianças que deveriam gostar de mim, com ataques moral. 

Max segurou pelo meu braço e me fez parar de correr. Bato as costas na parede por conta do impacto. Estava ofegante, e com vontade de chorar.

—Não pode deixar aqueles otários caçoar de você, Michael. Por que ficou calado? É tudo que eles querem. São só mais uns babacas que adoram mexer com quem é frágil. Você quer ser frágil? —Balanço a cabeça compulsivamente. —Então aja como um homem!

Aja como um homem! Papai dizia isso o tempo todo praticamente. Como é agir como um homem? Eu não sabia como agir como um homem. Talvez não saiba até hoje, e nunca saberia.

—Michael? —Ouço a voz da senhorita Jackson chamar o meu nome pelo corredor. —Michael onde você estava? Procurei você pelo o quarto. 

Ela caminhou em nossa direção. Mas não entendo o porquê Max sai correndo e entra dentro do quarto, nos deixando a sós. Ela aproxima de mim, agacha para olhar nos meus olhos. 

—O que aconteceu? Por que está tremendo? —Balancei a cabeça somente. Não digo a ela o motivo, não queria contar para ninguém que fui humilhado. Não queria confusão por minha causa. 
—Não é nada. —Deu certo, porque ela se convence. Abriu um sorriso terno para mim. Eu sempre sabia que aquele sorriso de Dina, é porque ela acreditava em mim. 
—Estava correndo, não é mesmo? —Assinto. —Que bom que já está se divertindo. —Assinto de novo.
Que bela diversão em que me meti. 
—Você tem olhos lindos, Michael. Principalmente durante o dia. Eles são negros, mas ficam castanhos de vez em quando. Como uma lobo. Profundos e interessantes. —Pisco os meus olhos várias vezes. 

Eu sabia que era um elogio. Senti o reboliço que se formou dentro de mim atenuar—se. Não há mais tempestade. Meu coração se acalmou e pude até respirar com mais facilidade. 

—Anda, venha. Vamos conhecer sua sala de aula. —Ela estendeu suas mãos para mim, e eu a segurei. 

Queria tomar um banho, para ficar um pouco cheiroso, mas não foi possível. Ela me arrastou para a sala de aula, sou incapaz de lhe pedir. Estou com vergonha, ela sempre me causou vergonha. 



***



Estava deitado sob um carpete felpudo tão macio que me senti em cima de uma nuvem. Era o lugar que eu mais gostei de estar na infância. Era o meu espaço de ser quem era. fazer as coisas que eu gostava, me distrair. Não pensar em mais nada. Fora um dos poucos momentos de paz que tive. 

Pintava um desenho feito em uma máquina de desenho. É um urso e algumas nuvens. Segurei o lápis de cor nos dedos pequenos, com a intenção de criar vida naquele desenho em branco, assim como as paredes da minha casa criava vida nas mãos na minha mãe. Não tinha a menor noção qual cor pertencia ao seu lugar, mas não me importo, continuo pintando. 

Fiquei imaginando o quanto aquele urso está feliz. Ele tem um sorriso na boca, segurando aquela borboleta nas mãos menores do que as minhas. Não era mãos humana, e sim de urso. Foi bom perceber que existe mãos ainda menores do que as minhas, mesmo que não seja humana. 

"Talvez se chovesse, o urso não estaria tão feliz assim." pensei analisando aquela nuvens. Pinto—as com lápis preto, imitando uma nuvem nublada. Provavelmente a borboleta iria embora também. Adoro chuvas até hoje, não entendo porque a maioria das pessoas não gostam. Me traz tranquilidade, é o único momento que consigo me fechar dentro de mim e não ser capaz de fazer mais nada. Minha mente esvazia. 

Olho para a janela, Max estava conversando com a senhorita Jackson. Ela me olhou com pena quando ele lhe diz seja lá o que for. Eu odiava esse olhar dela. Temi ser o assunto dos garotos no refeitório. Não queria problemas para mim e se ela soubesse, eu teria um problemão.

Antes de Max se retirar ele olhou para mim, como se houvesse feito algo importante, na sua concepção era o correto a se fazer. O aceno da Senhorita Jackson sinaliza que quer falar comigo. Me levantei com cautela, não querendo percorrer este caminho. Chego até ela. 

—Greg e Dylan, estavam mexendo com você? —Neguei com a cabeça, eu não iria confessar. Ela não acreditou. —Diz a verdade, Michael. Eles estavam caçoando de você? —Com muita dificuldade e resistência, lutando para não afirmar, por fim assinto. 
—Eu estou fedendo. —Repeti o que eles disseram, como um fato. 

Minha tutora e professora, especulou as minhas roupas, colocou a mão na boca como se houvesse esquecido de algo gravíssimo. Minha mãe nunca esquecia o meu banho, mas já era querer demais. 

—Meu Deus, você não tomou banho! É tudo culpa minha. Eu sou uma péssima tutora. —Se chateia e eu não digo nada. —Michael dá próxima vez que eles faltarem com respeito com você, eu quero que me diga, entendeu? —Não respondi nada. Eu não diria nada. Para quê? Para me encrencar? —Michael! Entendeu? —Assinto e ela fica contente. É somente o que importava. —Vem, vamos tomar um banho e trocar de roupa. 

Não havia regras naquele lugar. Eu poderia entrar e sair das aulas a hora que quisesse. Nem sei se devo denominar como aulas. Talvez sim, já que havia outras crianças da minha idade. Mas senhorita Jackson não se importou com eles. Ela queria voltar a sua atenção toda para mim. Deixou alguém para tomar de conta dos demais e seguiu comigo para o banheiro. 

Senhorita Jackson me colocou no banho e me esperou do lado de fora. Estava sozinho, precisava tomar conta de mim mesmo. Mamãe que me dava banho, mas tentei imitar o que ela fazia. Lavei o meu corpo com sabonete e os meus cabelos também. Esfrego os meus pés uns nos outros. As orelhas é essencial. Se eu não lavasse as orelhas, eu não tomei banho. Mamãe sempre gritava isso para mim também. 

Me senti cheiroso, bem perfumado, e mais fresco. Parece que um peso saiu de mim. Aquela sujeira era como se fosse algo pesado e incomodo. O mais que eu puder me sentir livre de toda bagagem que carrego era válido. Um banho, tão simples, para mim sempre foi tudo. 

Recebo a minha toalha e me revisto. Visto as roupas que a senhorita Jackson escolheu para mim, era uma calça jeans e uma camiseta verde. Minha mãe havia as lavado, então tinha o cheiro dela. Me senti no meu mundo finalmente. 

Minha tutora falava sem parar sobre desrespeito e como as crianças hoje em dia estão cada vez mais mal educadas. Me dizia que eu deveria saber me impor e mandá—los parar com as provocações. Ela reclamava também sobre ser uma péssima pessoa, por não ficar me vigiando o tempo todo. Ela se punia por àquelas coisas acontecerem comigo e ela não ser capaz de impedir nada. Vejo que se assemelha com a minha mãe, era como ela agiria se estivesse aqui. 

Ela falava o tempo todo, eu gostava do som da sua voz. Gosto do som da voz a senhorita Jackson. Eu queria que ela fosse a minha mãe. Eu queria que minha mãe estivesse aqui, mas ela não estar. 

—Você pode falar, Michael. Quando quiser, entendeu? —Todos ali se incomodavam com a minha falta de diálogo. Ninguém estava acostumado com um menino tão calado quanto eu. Mas eu sabia que ela entendia o meu lado. Talvez pensasse que me calo por causa do trauma em que vivi. Sei que não é somente por isso, sempre fui calado, quieto na minha. Porém os meus pensamentos voavam como balões ao vento. 

Maneio a cabeça com a promessa de que faria o que me disse, contudo eu sabia que não era verdade. 
Estou vestido e limpo, finalmente. Meus cabelos cumpridos estão penteados para trás. Senhorita Jackson gosta dos meus olhos, da cor deles. Ela sempre fala sobre eles. 

—Só não gosto do que eles transmitem, Michael. —Comenta terminando de amarrar os cardaços dos meus tênis. — Você deveria sorrir um pouco. Eu sei que é difícil, mas tenta ser feliz, tenta fazer com que as outras pessoas gostem de você. Vai se dar bem se fizer isso. Pense bem no que estou falando, tudo bem? —Assinto. —Agora vamos voltar para sala. —Ela se ergue do chão.

Recebi um beijo na testa, do jeito que minha mãe fazia, depois do banho. Logo depois me chamava para almoçar e jantar. Eu sempre tomava banho antes das refeições. 

Gostava dela, do fundo do meu coração. Sentia um carinho especial de mãe ao lado dela. Não sentia mais medo, me sentia um pouco mais leve. Protegido finalmente, apesar do lugar ainda ser estranho para mim. 

Voltamos à sala. Continuei pintando o meu desenho. Não queria mais pintar as nuvens de preto, o urso merecia um dia de sol. Pensando sobre isto, cobri o preto com azul. Preenchi as partes em branco, com azul. Um menino mais novo do que eu, também está pintando. Ele lançou um sorriso para mim, e eu retribui. Me mostrou o seu desenho pintado. Estava mais borrado do que o meu, mas acho perfeito o jeito que me acolhe. Não sou completamente intruso ali afinal. 






Capítulo 4
Se com o ferro fere, com o ferro será ferido 


—Vou perguntar mais uma vez, Michael Jackson. Você matou os seus pais? 

Subo as vistas para encarar aquele advogado de merda diante de mim. As algemas nos meus pulsos, presas no suporte da mesa de aço, estão tão apertadas que a sensação que dá é que vai quebrar os meus punhos. 
Me sinto encurralado naquela saleta fria e escura. O aço da cadeira é gelado e doía a minha coluna, deve ser por causa da forma que me sento. Todo largado. 

Hason está me irritando com aquele questionário ridículo. Estamos a meia hora comentando sobre assuntos que eu não estou interessado. Preferia estar na minha cela agora, encarando o idiota gordo da frente. Pelo menos eu não teria que responder toda essa ladainha tudo de novo. 

—Michael, eu preciso que seja sincero comigo. 

Batuco os meus dedos na mesa de aço. Balanço os meus pés uns nos outros embaixo da mesa. Eu não quero tocar nesse assunto. Lembrar de tudo que aconteceu me afeta, minha vida mudou drasticamente depois daquele incêndio. Não seria nada bom reviver essas lembranças. 
Ele está sem paciência, porém não mais do que eu. Por mim essas sessão ridícula acabaria agora mesmo. Hason, perpassa as mãos pelos cabelos, balança a cabeça por diversas vezes, observando eu o encarar, sem esboçar nenhuma expressão. 

—Às vezes você me assusta, Michael. Sabe disso, não é? —Ergo os ombros totalmente desinteressado. 

Eu assusto todo mundo, e para falar a verdade, não me preocupo nenhum pouco. A única pessoa que me importa é a Claire, e é nela que eu penso agora. Deveria ser ela na minha frente e não o advogado babaca. Eu deveria estar conversando com a mulher da minha vida, no entanto estou sendo interrogado por uma coisa que todo mundo sabe a resposta. 

—Michael! —Ele é firme, não está a fim de me deixar em paz. —Você matou os seus pais? 
—Sim. —Respondo em fim, sem esboçar nenhuma expressão. —Eu derrubei a vela, então é mesma coisa. 
—Você tinha somente seis anos de idade. Não sabia direito que estava fazendo. Já os assassinatos desde os seus dezessete anos pra cá, estava consciente, sim? É o que você queria fazer? —Assinto vacilante, isso veio de muito antes. 

Ele me analisa 

Mordo a pelinha da bochecha me sentindo ansioso para acabar. 

—Eu preciso de algo que inocenta você. Talvez provar que tem problemas psicológicos, ou algo distúrbio. —Suspiro irritado. —Não vai livrá-lo da culpa, mas pelo menos consigo reduzir sua pena, até mesmo livrá-lo da pena de morte. 
—Eu matei, doutor. Confessei o meu crime. Eu estava consciente em todos os ataques. Acho que devo pagar pelo o que fiz, não acha? —Ele se irrita com a minha resposta. 
—Então que eu estou fazendo aqui? Precisamos fazer o possível para tirá-lo daqui. Tenho plena confiança de que se provarmos a sua deficiência, as coisas podem melhorar para o seu lado. Eu sou pago para encontrar uma saída, senhor Jackson. Eu não costumo perder. Se não provarmos que você tem problemas, o júri lhe condenará a pena de morte. —Ergo os ombros de novo. 
—Talvez este seja o meu castigo. —Ele sobe as sobrancelhas e desta vez é ele que me encara. 
—Está entregando o jogo? Passar dez anos aqui e dentro e depois ser executado? 

Penso sobre o que eu quero. Eu quero ir embora daqui, sumir junto com a Claire. Ir para bem longe, onde ninguém nos acharia. Eu estaria protegido ao lado dela, ela estaria protegida ao meu lado. Disso eu não tenho dúvidas. Claire se tornou o meu mundo inteiro, eu não faria nenhum mal ao meu mundo. Muito pelo contrário, eu sempre protegi o meu mundo. 

—Faça o que tiver que fazer, doutor, mas faça logo. —Antes de chamar o carcereiro para me tirar das algemas e me conduzir à minha cela, tenho algo para lhe perguntar. —Claire Connon. Deu o meu recado a ela? Disse que eu preciso vê-la? —Ele nega com a cabeça em uma expressão de lamento. 
—Xerife Graham, não deixou eu chegar nem perto dela. Disse que não quer saber de advogado corrupto que defende assassinos. Ela está protegida, Michael. Eles estão formando um escudo envolta dela, onde você não pode ultrapassar. 

Sinto um nó férreo se formar na minha garganta. Não é por causa de nenhum choro, é por causa de uma ira quase insuportável que me domina. Mas é tudo por dentro, por fora sou o Michael controlado e bem educado de sempre. Que aparentemente aceita tudo que fazem com ele, mas talvez não seja bem assim. 

—A sessão já acabou, doutor. Volte quando tiver alguma solução melhor para o meu caso. Eu não vou parar em manicômio. —Ele maneia a cabeça, levanta-se e se retira da saleta. 

Eu precisava sair daquele inferno de uma vez por todas. Nem que para isso eu teria que arriscar a minha própria vida. 

***


—Sei como é isso. Converso com advogados. —Petrus força uma conversa comigo. 

Não tiro os meus olhos da parede em frente a cama. Sento-me nela abraçando os joelhos. Parecia confortável, ainda mais depois de ficar um tempo generoso sentado naquela cadeira que detesto.

—Sempre tentando arranjar soluções que não levam a lugar algum... —Fica em silêncio por um momento, em seguida, mas depois começa a falar de novo, me fazendo saber que estava apenas pensando sobre algo. —Deixa eu adivinhar? Quer tentar provar que você é louco e que pode reduzir a sua pena? 

Olho para ele, Petrus parece saber de tudo que rola comigo ali dentro. Ele presta bastante atenção em mim, mas não entendo qual é o proposito. 

—Parece que você sabe muito bem como funciona. —Ele sorrir. 
—Não é novidade pra mim estar em um lugar como este. É sua primeira vez? 
—Pois é, pelo visto não sou tão burro para cometer um vacilo desse. —Petrus gargalha, não sei se acha graça ou se apenas debocha. 
—É, você deve ser esperto mesmo. Tão esperto que agora está aqui, por causa de uma mulher. —Olho com a cara feia para ele. —Não faz essa cara, sabe que é verdade. Você deveria dizer que tem problemas mentais, sairia daqui hoje mesmo. Eu tentei fazer este teste, mas não passei. Pode ser que você passe, é louco mesmo. —Ele dar de ombros. Bufo uma risada. Gosto de pessoas sinceras que falam o que eu sou na lata. Talvez aquele cara não seja de todo mal, mas que é um pé no saco, isso é. 
—E parar em um lugar pior do que este? Manicômio judiciário? Prefiro cadeira elétrica. 
—Pelo jeito que vi aqueles caras olhando pra você no refeitório, pode ser que aconteça bem antes disso. Um banho de sangue, Michael Jackson. Bela forma de morrer, não acha? —Entorto a boca, e ergo um ombro.
—Estou sengo julgado pelas obras das minhas mãos. Não é o que diz a bíblia? —Sobe as vistas após os meus dizeres bíblicos, está surpreso. 
—Ainda por cima é religioso? —Agora sim tenho certeza que ele debocha. 
—Apenas gosto de ler. Já li muitos livros, faço isso o tempo todo. A bíblia só foi mais uma das minhas curiosidades. 
—A bíblia! —Cantarola contemplativo. —Ela nos leva mais perto de Deus, não acha? —Dou de ombros de novo.
—Talvez ele nem lembra que eu existo. Minha vida é uma sujeira, se eu não pagar aqui com certeza pago lá. Minha alma é mais podre do que o esgoto, e pelo que eu sabia, ele não tolera o fedor. Não há absolvição pra mim, irei direto ao inferno, mas antes disso terei o perdão da Claire.

Penso sobre o que o advogado disse, sobre a família de Claire protegê-la de mim. Sei que minha menina não colocaria empecilho para vir me visitar ,só porque os pais a impediram. Ela também sente raiva de mim, medo talvez. Porém uma vez soube de que o amor é capaz de tudo, até perdoar pecados. Faria como Maria Madalena quando esteve frente a frente com Jesus. Seguiria o meu caminho e não pecaria mais. 

—Claire pode até perdoá-lo, mas e a sociedade? Você não imagina como é ter uma cidade inteira contra você. Todos apontando o dedo na sua cara, mencionando sem parar os seus erros. Não, você não pode culpá-los, pois estão em seus direitos. Você é uma ameaça à vida. E tudo que se torna ameaça, é exterminado, rapaz, de um jeito ou de outro. É como um vírus, ou uma bactéria. 

—Você tem razão, Petrus. Mas não antes de olhar no olho dela e saber que também me condena. Não precisarei ser exterminado, porque já vou morrer mesmo. De qualquer forma sou um filho da puta de merda! Um pobre desgraçado que se achou demais, mas que agora não passa de um lixo ambulante. 

Petrus senta-se em sua cama, me analisa por um instante. Eu também o olho. Penso em tudo que vivi até aqui. É turbilhão de coisas tudo junto. Para falar a verdade, nem eu mesmo sei quem sou. Não me identifico, não sei me encontrar. Acho que me perdi de mim mesmo e não posso recuperar caminho. 

***


São imagens aleatórias na minha mente, um turbilhão de imagens, de cores e cenas. Não consigo identificar. Pode ser peças embaralhadas da minha infância, meus pais brigando, a vela caindo ao chão por minha causa. Meus pais pegando fogo. Só sei que estou sofrendo naquele pesadelo, tudo em mim se paralisa, preciso sair deste inferno que sou obrigado vivenciar todas as vezes que fecho os meus olhos para dormir. 

Meu peito está acelerado, e minha respiração não flui como deveria fluir. Sinto meu sangue ferver. Minha cabeça grita para que eu pudesse acordar, mas não consigo. Estou preso, preso dentro de mim mesmo. 
Estou de máscaras, coloco a minha galocha. Eles não me conhecem, não sabem quem sou. Eles precisam sair da minha casa. Precisam entender que minha mãe não quer que nada se modifique. Já basta terem pintado a fachada de branco. Mamãe queria salmão e não branco. O jardim está destruído. Querem fazer do meu lar o lar deles, a única lembrança boa que restou da minha mãe. O cheiro deles me causa náusea, preciso sentir o cheiro dela. É jasmim com lavanda, tudo misturado. 

Caminho para a fazenda, eles zombam, dizem que a casa está velha, que não há nada de bom para aproveitamento. Estou tão furioso que sinto que vou explodir. Me debato na cama, meto meu pé com força nas grades da janela ao meu lado. Acho que levei uma pancada violenta, mas ainda assim não é o suficiente para me fazer acordar. 

Mudo a foice da mão esquerda para a direita. Vi todos indo embora, todos me abandonando aos poucos, eu não deixaria qualquer um levar embora o que restou dela também. 

Meus passos são rápidos em direção a um homem. Não sei quem é, nem me importo com quem seja. Sou um assassino, sinto no meu sangue, correndo nas minhas veias. A vontade que tenho em prosseguir com o que há na minha cabeça, gritando. Meu coração também grita, sou tomado por uma raiva sobre-humana. 
O homem me encara, ele sabe que não estou para brincadeiras. Levanto a foice. O olhar dele é de pavor ao vê—la, todos têm medo dela quando eu a seguro. O encaro de volta, não tenho pretensão de recuar, eu iria até o fim. Com o urro desfiro a foice de uma só vez. O homem vai ao chão desfalecido. 

Olho bem para ele, não é o homem, ele se transforma. Vejo cabelos longos, tem cheiro de jasmim, misturado com lavanda. Não é a minha mãe, pois os cabelos são castanhos. Estou diante daquele rosto angelical, ela tem um olhar doce, quando está desfalecida, sangrando diante de mim e por minha causa. Sinto que morro junto dela, meu coração bombeia rápido demais, mas em um instante ele para completamente. Estou sem ar, Claire vai caindo lentamente ao chão, ela ainda tem um fio de fôlego de vida. Seguro o seu corpo, pela cintura. Estou gritando, pedindo que ela falasse comigo, que me perdoasse, mas é tarde demais. Sua cabeça rola para o lado, caindo ao chão.

—Claire!


—Não! 

Sou arrancado daquele pesadelo tão violentamente que me arranco da cama. Meu corpo está chacolhando, tento respirar, mas não consigo. A ofegância faz meus pulmões arderem. Consigo me levantar, fico sentado na beirada, minhas mãos tremem parecendo que sou um paciente de Parkinson. O sangue flui quente pelas minhas veias. Me livro do pesadelo, mas não me livro de mim mesmo. Eu estava matando a Claire, a única pessoa que mais amo na vida. A única ao qual me importo, mas não era ela. Talvez aquele sentimento, aquela fúria faça parte de mim, e Claire deve ficar longe de quem eu sou. Mas ao mesmo tempo, eu não posso, porque e ela a responsável de me trazer paz quando eu preciso. 

Passo a mão no rosto, ainda estou assustado, chocado comigo mesmo. Eu nunca havia me deparado comigo, nunca senti tanto medo de quem sou, ou do que posso fazer. Estou apavorado com a cena que passa e repassa na minha cabeça por várias vezes. A imagem dela morta diante de mim. 
Começo a cantar baixinho. 

—"Dorme, dorme, meu amor. Dorme, dorme, que a noite chegou. A madrugada, pode ser fria, mas logo amanhã aparece um um novo dia. Não se preocupe com as sombras da noite, mamãe está aqui para te proteger."

Meus batimentos normalizam devagar, a ofegância alivia e meu sangue não esquenta mais nas veias. Tento engolir a saliva, mas minha boca está seca. Levanto da cama, vou até o lavado, lavo o meu rosto, retirando o suar dele. 

Me sinto mal, não consigo me manter em pé, minhas pernas estão bambas. Me jogo na cama de novo. Encaro o teto, me sinto um zumbi. Minha cabeça está vazia e não ouço nada do que diz, do que sempre diz. Pelo primeira vez a ignoro. 

E mais uma vez Claire consegue me salvar, me acalmar mesmo não estando aqui. Eu não podia ser quem sou, ao lado dela, porque simplesmente eu não consigo. Me torno algo melhor, algo que eu gostaria de ser, e posso, porque ela está lá mais uma vez para me salvar. 
Consigo dormir de novo. 



89 comentários:

  1. NÃO DEMORA POR FAVOR... MUITO ANCIOSA.

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  2. NÃO DEMORA POR FAVOR... MUITO ANCIOSA.

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  3. Cheguei com o primeiro capítulo \o
    Obrigada por estarem aqui *-*

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  4. Quais os dias que você vai postar?

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  5. Quais os dias que você vai postar?

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  6. Tadinho do MJ. A morte dos pais não foi culpa dele. Não gostei dele ser o assassino.

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  7. Estou com dó do Michael 😥😭
    Não queria que ele fosse o assassino ! Continua vc escreve super bem!

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  8. Estou com dó do Michael 😥😭
    Não queria que ele fosse o assassino ! Continua vc escreve super bem!

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  9. Kd as postagens? ta demorando muito. Vc havia dito no volume anterior que ja estava escrito. Porque não está postando? como que que suas leitoras continue lendo?

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  10. Esperando ansiosamente...💓💓💓

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  11. Tadinho do Michael! Eu esperando...
    Continua, por favor.

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  12. Estou ansiosa pra ler os próximos capítulos. Começo a entrar em outro mundo, parece que estou vivendo a história. Muito emocionante.

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  13. O continua
    Tá tão foda a fic

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  14. ôooo derrota, ter que ficar relendo uma história, porque a pessoa não da sequência ao segundo livro. Isso é o apocalipse. Cadê as postagens autora..... Não consegue da sequência.

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  15. Cade o segundo capítulo??

    Ansiosa demaisss, ta lindo <3

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  16. Continua! Ansiosa demais pelos próximos capítulos!

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  17. Onde esta você? Não vai postar mais?

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  18. ADOREI <3
    CONTINUAAAÁAA

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  19. Gente!!!! kkkkkkk eu tava sem internet, pera. Vou postar hoje à noite dois capítulos.

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  20. �������� continua toda vez venho aki e agora nada

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  21. Amiga o que aconteceu? Se perdeu ma fic?
    Essa historia é maginifica contimua flor...to aguardando,amo ler suas fics.

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  22. Cade os dois cap que vc ia postar? :'((

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  23. Não vai mais postar? Você disse que estava sem internet continua sem?

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  24. Espero que você logo possa postar e dar sequência a esta história não a deixe de lado você tem criatividade que tudo dê certo pra você bjs Nani Jackson.

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  25. Tay ? Cadê você ?
    Continua pfv . :'(

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  26. Meninas Tay mandou avisar que esta sem internet (Wi fi) essa semana e só irá postar semana que vem ... Bjos

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  27. nossa vai fazer quase 1 mes que ela não posta

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  28. Genteeeeeeeeeeee eu tava sem Wifi pensa na tortura??? :S Mil desculpas pela demora, perdão mesmo. Consegui um Wifi e nem tá lá essas coisas, então vou tentar postar agora, uns dois capítulos. E prometo que vou postar toda semana. Vamos lá.

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  29. Tadinho do pequeno Michael :(
    Continua, Tay !!! Estou amando !!!

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  30. Tadinho do meu bebê!
    Continua, estou gostando!

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  31. Coitadinho do Michael !
    Continuaaa, estou adorando !!!

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  32. Está demorando... não vão mais postar???

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  33. Voltei!!
    Obrigada pelos coments <3
    Vamos ver o que o orfanato reserva à Michael
    E seus momentos na prisão
    Será que a Claire irá ajudá-lo? Quem sabe?

    Amore, vou postando quando eu tiver um tempinho pra postar. Eu tõ na correria. Mas não deixo de vir, tá?

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  34. Este comentário foi removido pelo autor.

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  35. Torcendo por um milagre e que os dois tenham um final feliz juntos! Continua

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  36. Ahhh! Que triste! Penso que sofre por se sentir culpado da morte da sua amada mãe e que, por conta disso, tem um problema psicológico ou vários. Não sei . E a Claire como ela estará? E se ela esquecer dele e construir sua vida ao lado de outro? Como MJ sairá dessa situação? Não vejo saída para ele. Só a pena de morte. E é por isso que fico triste pelo que está acontecendo com ele, pois o que fez foi hediondo. Continua por favor , só quero vê o que vai acontecer. Continua. Bjs.

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  37. Nossa que pesadelo horrível :/
    Continua <3

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  38. Nossa Tay Você esta demorando demais a postar os capítulos. É uma pena, porque a Fic me parece boa. Mas demorar uma semana para postar fica complicado.

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  39. Acho que ela desistiu de continuar escrevendo essa fic.

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  40. Agora que eu estou gostando e querendo saber o que vai acontecer, vc desiste?

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  41. A pessoa responsável por essa pagina, devia conversar com as autoras. Começar uma estória mesmo que seja ficção como esta, deveria respeitar mais suas leitoras, e ao começar uma postagem ter a responsabilidade de dar continuidade e termina-las. Algumas destas estória tem meses e não foram terminadas. Na minha humilde opinião total falta de respeito com as leitoras.

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  42. Todo dia eu entro aqui na esperança de ter um novo cap e nada </3

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  43. QUE DEMORA!! E SÃO 3 LIVROS... JÁ PENSARAM QUANTO VAI DEMORAR PARA TERMINAR!

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  44. Estamos todos perdendo tempo. Essa estoria pelo jeito não será terminada. É uma pena.

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  45. Olá, gente. Eu vim aqui dá uma explicação sobre o que acontece com a história. O segundo livro está terminado, mas é necessário uma revisão bem feita dos capítulos. O segundo livro, eu apenas comecei. Estou em um momento bastante difícil, não tô conseguindo conciliar nada. Estou fazendo faculdade, tenho outro livro que minha dedicação está completamente voltada a ele, pq é um livro grande e cheio de detalhes. Eu sinto muitíssimo por não está conseguindo terminar Mistério em Forest Grove. Mas é muito melhor não postar, do que postar do jeito que tá. Eu sinto muitíssimo mesmo, mas para que vcs não esperem demais, vim avisar que não irei mais postar a história. Desculpa a "falta de respeito" peço mil perdões.

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    1. Que pena! Estava gostando e fiquei muito curiosa. Você escreve muito bem! Tanto que cheguei a confundir ficção com realidade. Você passa sentimentos, raiva e medo quando escreve. E por conta disso acabamos nos envolvendo na história.Parabéns! E boa sorte para vc e que consiga alcançar seus sonhos. Bjs.

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  46. Eu imaginava. Resolveu escrever um livro complexo e agora realmente é difícil terminar. aprofundou demais o drama. É uma pena. Mas continue, com outros menos complexo. Você é ótima.

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  47. Eu entendo Tay ... Fiquei um pouco triste pois me apeguei demais a essa estória, é diferente de tudo que eu ja li com o Michael, mas eu entendo seu lado :) bjos e sucesso <3

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  48. Eu até entendo que ta dificil ela conciliar as coisas mas é muita falta de consideração com suas leitoras, se fosse pra ser assim era melhor ter terminado logo na primeira temp e nem deixar essa pela metade, é muita sacanagem, a pessoa vir aqui todos os dias pra ver um capitulo novo e nunca tem nada, era melhor nem ter postado essa. Realmente, MUITA falta de respeito porque também temos nossas obrigações e responsabilidades mas mesmo assim usamos um pouquinho do nosso dia pra vir ver e comentar. '-'

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  49. Escrever uma história como esta não é fácil. Vc precisa se dedicar ao extremo. Entrar na cabeça de uma pessoa com problemas mentais suga todo o nosso sangue. Não posso simplesmente escrever um monte de abobrinhas e postar pra vcs comentar e ler. No mínimo eu seria xingada de novo, como fui na primeira história. Eu já tinha escrito ela até o final do segundo, tá aqui, sem revisão nenhuma. Podia muito bem postar, quer? Mas eu não me sentiria bem, e de novo seria uma falta de respeito com vcs. Não tem como eu me dedicar mais a MEFG, eu tô mais sentida do que vcs, podem ter a certeza disso. Sinto muitíssimo.

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  50. Poxa vida, posso imaginar como é difícil, principalmente com a forma que você escreve, é simplesmente incrível! Desde de que comecei a ler esta série eu me apaixonei logo de cara, por que amo histórias de mistérios e desse universo! Comecei a ler uma muito legal em que o Mike era um assassino que enterrava suas vítimas embaixo um roseiral, acho que era "colecionador de corpos", uma coisa assim, mas ai ela sumiu e eu fiquei bem triste.
    Eu não quero abusar da sua paciência mas, dê pelo menos a possibilidade de que quando você concluir o seu trabalho atual você possa voltar a dar uma olhadinha na história, por que eu procuro historias do Mike assim a um tempão e queria muuuuuuuito ver o final dessa. Te acompanho a um tempinho e de todos os fóruns que acessei você é minha escritora favorita! ( Não to puxando saco, é sério!)

    Não precisa ter presa, conclua seu trabalho com calma, mas pensa no que eu pedi depois, tudo bem?
    God bless you Tay ❤

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  51. Oh minha linda, eu realmente tô pensando em fazer isso mesmo. Eu amo MEFG, mas quando vc não tem mais ânimo pra escrever é um saco. E agora com essa história ficou bem ruim, mas eu tô pensando nisso sim. Vou voltar a escrever e vou postar com certeza. Obrigada pela apoio. Vá no Wattpad, tem outras histórias minhas por lá. :*

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  52. Essa história deveria ser excluída da página, por ela não ser concluída.

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  53. Essa história deveria ser excluída da página, por ela não ser concluída.

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  54. Gente temos que ter paciência !
    Ser escritor não é fácil, são muitas pessoas em apenas uma mente, vários gritos, discursões, momentos de amor, momentos de tristeza de várias pessoas de uma única vez. Ser escritor é uma socialmente aceitável de esquizofrenia.
    Sei que a Tay deve esta tentando ao máximo, mas, compreendam !
    Tenho acompanhado a história dela desde o começo, como também acompanhei muitas outras da L.M Souza, elas escrevem divinamente, até me arisquei a entrar no meio das escritoras aqui ! Porém não é fácil como postar uma simples fanfic em Facebook, ocorrem imprevistos, coisas dão errado, as vezes falta tempo. Entendam, enquanto ela não dá continuidade a essa história, leiam outras, como as da Paula, dá sim para acompanhá-las, as meninas aqui são maravilhosas, esperem mais um pouquinho e não vão se arrepender...
    #L.A.J 👑💙
    PS: Tay, vou continuar acompanhando tudo rs, amo sua história.
    *beijos...

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  55. Não acredito que você tenha abandonado uma história maravilhosa como essa, sei que você não está com inspiração alguma, mas não deveria ter feito isso com nós, leitores. Li o primeiro volume e agora li o segundo, agora estou frustrada para saber o final, não sei o que acontece com o michael ou com a claire. Será que o michael iria conseguir sair dessa e viver a sua vida ao lado de claire? Ou será que iria pagar por todos os seus crimes? Acho que você deveria entender o nosso lado também.

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