segunda-feira, 19 de setembro de 2016

FanFic: "Sinto sua falta" (+18)

Autora: Josiane Santos



Gênero e Subgêneros: Romance, Tragédia, Drama, Ação, Vingança, Melodrama, Morte, Palavras de baixo calão, Hot, Amor, Cenas de agressão, Morte

Censura: +18

Sinopse

Não é um conto de fadas e está muito longe de ser. É a história de um belo e trágico amor, aos moldes do clássico “Romeu e Julieta”, que fará você duvidar se o amor realmente poderá vencer uma única barreira que o destino irá impor contra duas pessoas que se amam.  

OBS: As pessoas e os incidentes neste livro são todos fictícios!

Michael Jackson é o filho mais velho do prestigioso Jonathan Jackson e o herdeiro do Grupo Chromish. Um rapaz bonito, saudável, sagaz e com um QI muito alto, no entanto, possui uma relação extremamente delicada com o pai, justamente por não ter interesse e não querer assumir o conglomerado da família, tendo sempre em mente construir o seu próprio futuro.

Clarke Bradshow é a corajosa e determinada filha de Robert Bradshow, o terceiro maior acionista do Grupo Chromish, sendo o majoritário o pai de Michael. Uma jovem garota esperta, bonita e com uma personalidade um pouco ousada; o tipo de garota que não é feita de maquiagem e sapatos caros. Acaba sempre se metendo em apuros, sendo salva algumas vezes por Michael. 

Os dois jovens se conhecem de maneira inusitada e inesperadamente acabam apaixonando-se um pelo o outro durante alguns eventos cômicos. O problema é que, Robert, pai de Clarke, é um homem ganancioso que não mede esforços para conseguir o que quer, e no altar da sua vil cobiça, comete uma atrocidade que acaba destruindo a família de Michael, o único que escapa das garras da morte e volta, transformado em um homem sedento por vingança, onde as sombras da noite se tornam suas parcerias habituais.

Sua definição de vingança torna-se ilimitada, mas conseguirá Michael cumprir com seus planos, quando perceber que ainda ama a filha do homem que matou a sua família? Conseguirá o amor expulsar o ódio do seu coração e preenchê-lo com sua essência? E o que Clarke fará com o homem que ama, quando descobrir que ele jurou o seu pai de morte? 




Prólogo

 OBSERVANDO O CÉU ESTRELADO SENDO coberto pelas grandes nuvens, trazendo para a cidade uma noite nublada, — assim como o seu estado de espírito — Michael estava à espreita, esperando à hora certa para invadir a mansão. Seu inimigo sabia que mais cedo ou mais tarde ele iria encontrá-lo, e como resposta desse conhecimento, era a segurança reforçada ao redor daquela mansão luxuosa.

Michael tinha que ser mais cuidadoso do que nunca, principalmente porque agora sabiam a identidade do homem de preto que andava fazendo justiça com as próprias mãos. 

Nada iria interromper a sede de vingança do rapaz, não permitiria que a compaixão e muito menos o amor atrapalhasse os seus planos. Pois o desejo que carregava era tão grande que ninguém havia de entender o ódio descomunal de massacrar aquele que conspirou e matou a sua família. Ele desejava tanto aquilo, até mais do que viver. Escapou das garras da morte e voltou para enfrentar o responsável por toda a sua tristeza, por tê-lo transformado no que ele havia se tornado.

Atravessou grandes vicissitudes só para poder estar frente a frente com o seu principal inimigo, como estava prestes agora, e jurou a si mesmo que mataria o desgraçado, nem que fosse a última coisa que ele fizesse em sua vida.

Kamon e Araya, os seus amigos e os que sempre estiveram ao seu lado nos seus momentos mais sombrios, o olhavam com aflição, enquanto tentavam convencê-lo de que aquilo sim era um plano suicida. Que fosse, pois nem mesmo da morte o rapaz tinha mais medo. 

— Michael, o que você está pensando, cara? Aquela mansão é um lugar impossível de entrar com esses seus métodos de invasão! — Kamon protestou, temeroso do que poderia acontecer com o amigo. .

— Mike! Mike! Escute! — Araya segurou em um dos braços de Michael, quase entrando em desespero. — Pelo o amor de Deus, desista enquanto é tempo, hum? E se algo acontecer com você? — Demonstrou mais aflição, com medo de que aquele lado sombrio do rapaz estivesse o levando de vez para escuridão. As lágrimas escaldantes que inundavam os olhos pequenos e puxados da garota escorreram como torrentes pelo o seu rosto. Ele pegou as mãos dela que apertava o seu braço e a fez soltar com delicadeza.

Ele sabia que seus amigos estavam preocupados com ele, uma vez que era ciente da sua teimosia, mas, mesmo estando confiante de que finalmente tudo aquilo iria acabar, ele não pôde jurar aos seus amigos que iria ficar bem.

— Mike, você já foi longe demais com essa sua vingança. Esqueça isso e venha com a gente para Bangkok, hum? Recomece uma nova vida. — Araya tentou persuadi-lo, mas o rapaz estava inflexível.

— Robert Bradshow tem algo que me pertence. — Murmurou, divagando em seus pensamentos. De todas as coisas que ele já pôde querer em toda a sua vida, a vida de Robert Bradshow foi o que ele mais almejou.

— Isso é loucura. É impossível invadir aquela casa, uma vez que ela está cheia de seguranças. — Kamon voltou a alertá-lo.

Ninguém realmente entendia que a razão de Michael ter sobrevivido até ali foi para àquele propósito, e voltar atrás estava fora de questão. Abdicou tudo, inclusive a mulher que amava para não ter que fazê-la escolher entre ele e o próprio pai. Não por causa dele, mas sim por causa dela, seria injusto colocá-la no meio de uma vingança sangrenta. 

 O ressentimento que havia em seu coração era tão grande que, se sua morte pudesse acabar com o seu sofrimento de alguma forma, ele morreria feliz. Mas o ódio, foi ele que o pôs de pé, foi ele que o fez suportar tal dor angustiante que ele se convenceu de que não podia morrer antes de devolver a inocência do seu pai e castigar com as suas próprias mãos o culpado da morte da sua família. E quem na terra seria capaz de detê-lo?

Michael cobriu o seu rosto e passou por seus amigos, determinado a invadir a mansão, mas antes que ele sumisse do campo de visão deles, ele parou de costas e girou um pouco a sua cabeça.

— Se eu não pôr um fim de uma vez nisso, não serei capaz de continuar sob este céu. Sabe por quê? — Voltou a olhar para frente e completou: — Esqueceram? Eu sobrevivi para isso. — Sem olhar para trás e num piscar de olhos, sumiu do campo de visão de Kamon e de Araya, como neblina que se dissipa no ar. 



Capítulo 1
“O início”

Um ano antes...

AS FRESTAS DAS PERSIANAS DE plástico branco foram abertas e os raios solares entraram no quarto batendo contra o rosto do rapaz que, exausto pela ressaca causada pelas bebidas da noite anterior, dormia tranquilamente em sua enorme cama king size. Sem nenhuma intenção de se levantar, virou-se de bruços e colocou o travesseiro em cima da própria cabeça para evitar a claridade que fazia seus olhos doerem.

— Esse sujeito! Daqui a pouco o sol se põe, e você não vai se levantar?! — Os berros do seu pai, o virtuoso Jonathan Jackson, entraram nos seus ouvidos, fazendo aumentar a sua infernal dor de cabeça.

Embora quase todas as manhãs fossem assim, Michael realmente odiava isso!

        — Arg... O que você quer de mim tão cedo? — Resmungou, a fim de continuar no seu sono.

— Cedo?! O que você está falando, seu malandro?! — Jonathan puxou o cobertor do copo do filho e tomou o seu travesseiro; Michael piscou seus olhos e os protegeu com o braço assim que a claridade o atingiu novamente.

Michael e Jonathan não tinham um bom relacionamento desde a morte da mãe. Talvez porque uma vez ou outra, o rapaz cometia alguns deslizes, causando problemas ao pai, e, sobretudo, porque ele não tinha interesse nenhum nos negócios da família. Como o maior acionista e presidente do grupo Chromish, Jonathan não aceitava que o filho mais velho não tivesse interesse em assumir os negócios. A sua grandiloquente ética não se aplicava ao rapaz, — pelo menos não do jeito que ele queria — e era por isso que eles estavam sempre brigando.

Michael era uma espécie de “príncipe herdeiro” que a todo custo não queria ascender ao trono.

— Você continua causando problemas! — Começou com os sermões — Eu sabia que a sua pervertida baixeza logo traria problemas maiores! — Com o mesmo travesseiro que tomou do filho, Jonathan começou a batê-lo. — Por que você não se levanta rápido e vai lá em baixo lidar com o problema que conseguiu dessa vez, seu irresponsável?!

— O quê? O quê? Que problema? — Michael resmungou com a voz sonolenta.

— Nem sequer quando as suas travessuras me forçaram encobrir os teus erros, me senti tão desiludido com você, mas dessa vez você extrapolou todos os limites!

Michael certo de que era apenas mais um dos sermões matinais do pai, não moveu sequer um músculo para lhe dar atenção.

— Anda! Desça e resolva você mesmo o seu problema!

Ah, ele queria mesmo ignorá-lo, mas Jonathan passaria o dia todo no pé do seu ouvido.

— Sinceramente... Se você fosse mais claro, talvez eu entendesse do que se trata dessa vez todo esse barulho. — Murmurou sarcástico, provocando o pai, este que preferiu não fazer caso dessa vez da rebeldia do filho.

— O da garota grávida.

— E?

— E que ela está alegando que VOCÊ é o pai! — Jonathan rosnou, proferindo por entre dentes.

Uma vez que Michael ouviu tais palavras, seus olhos se esbugalharam, e com o impacto da palavra ‘grávida’, sobressaltou da cama num pulo só. Foi como um despertar. O sono e a ressaca desapareceram imediatamente.

— O-o quê? Uma garota grávida? Pai, o que você está falando? — Perguntou só para confirmar que não ouvira errado.

— Por que você ainda está aqui? Desça e resolva logo isso! — Bradou Jonathan, impaciente.

— Re-resolver?! — O rapaz olhou para o pai com a expressão confusa.

Uma garota grávida? Realmente uma das garotas com quem já ficara havia chegado a esse ponto com ele? Ou ele realmente havia engravidado uma garota? Chacoalhou a cabeça para espantar tal possibilidade. Não, não, não... Ele podia ser uma decepção para o pai, um cretino, patife bastardo com as mulheres, mas ele não era estúpido para engravidar uma. Nessa questão ele podia garantir não era irresponsável.

Colocou suas mãos nos quadris e passou a andar de um lado para o outro dentro do quarto, tentando imaginar quem seria essa garota que estava tentando prendê-lo com uma barriga.

— Você vai mesmo fazer um buraco no chão ou vai descer e resolver logo isso? — Jonathan disse tirando sua concentração. Michael encarou-o por alguns segundos em silêncio, e viu que estava em confusão quando percebeu que qualquer argumento evasivo que saísse da sua boca seria em vão.

Jonathan balançou a cabeça com a expressão decepcionada e saiu do quarto do filho.

Sem perder mais tempo, Michael pegou uma camiseta que avistou jogada em um canto qualquer do quarto e saiu. Desceu as escadas descalço e vestindo a camiseta, e assim que terminou, encontrou algumas pessoas na sala da sua casa, sentadas no sofá.

Seu pai estava em pé, e ao seu lado estava a sua irmã mais nova, Natalie, que estava de braços cruzados e emburrada, encarando os senhores e a garota que queria “roubar” o seu irmão. — Era bem a cara dela.

Ele passou uma mão nos seus cabelos bagunçados e deu uma tossidela para anunciar a sua presença. Todos o olharam. Uma senhora de cabelo ruivo e elegante, mas de expressão nada agradável o encarou, estudando-o. Ao seu lado havia um senhor que o fuzilou só com o olhar. Eles o olhando daquela forma, Michael logo deduziu que eram os pais ou os avós da garota supostamente grávida.

E finalmente ao lado do senhor estava ela. Quando os olhos dela se encontraram com os do rapaz, ele logo a reconheceu. Cíntia, aquela garota erra um porre, completamente um pé no saco. Ela já havia feito algo parecido antes, Michael deveria ter previsto isso. Pois de todas as garotas, essa era a pior.

Então, ao constatar que se tratava de um golpe, o rapaz colocou uma mão na cintura, a outra na nunca e sorriu da situação que ela o colocara.

— Ah... Fala sério. — Sibilou coçando levemente o pescoço. — Se eu soubesse que a Cíntia estaria aqui, teria preparado uma recepção para ela lá em cima. — Completou sarcástico.

— Michael! Você realmente...! — Jonathan o censurou. 

— O quê? — Perguntou se fazendo de desentendido. Em seguida olhou para os senhores e sorriu. — Meu pai disse que a senhora e o senhor têm algo para falar comigo. Estou curioso para saber do que se trata. — Falou, encarando a garota descaradamente enquanto sentava-se no sofá.

Cíntia simplesmente desviou o seu olhar, se dando conta que na tentativa de conseguir a pessoa que gostava, havia cometido um grande erro, e estava agora se praguejando por isso.

Os pais da garota se recompuseram e se ajeitaram no móvel.

— Sim. Somos os pais da Cíntia e é com você mesmo que queremos ter uma conversa delicada. — Pronunciou-se o senhor, com um ar muito sério e preocupado ao mesmo tempo.

— Hum, é mesmo? Então sou todo ouvidos.

O senhor respirou fundo, indignado com o cinismo de Michael. A senhora ao seu lado vendo que o marido estava a ponto de perder a paciência, intrometeu-se na conversa. 

— Bem... é que... é difícil para uma mãe e para um pai conversar sobre essas coisas... mas é que estamos muito preocupados com a nossa filha. — Disse olhando para Cíntia, esta que agora tentava esconder o rosto, envergonhada.

Michael se remexeu no sofá, e com a cara mais cínica fingiu estar interessado no assunto.

A senhora continuou:

— Cíntia sempre foi uma menina quieta, interessada nos estudos e muito recata. Talvez seja por ela ser assim que ela sempre foi um alvo de garotos interesseiros na sua ingenuidade e pureza...

Ingenuidade? Pureza? Cíntia? Eram coisas que ele desconhecia naquela garota. 

Quando ouviu os últimos adjetivos, ele não conseguiu conter-se e quase se engasgou com a sua própria saliva, interrompendo a senhora que se sentiu constrangida e desrespeitada.

Com Jonathan não foi diferente, pois a vergonha que estava sentindo do comportamento do seu filho era tão grande que ele estava a ponto de pular naquele sofá e matá-lo com as próprias mãos. A quem aquele patife havia puxado? Jonathan não entendia. 

— Me desculpe. Continue, por favor! — Michael os instigou com um gesto de mão, apertando os seus próprios lábios para não sorrir. 

— Sim, a nossa filha é uma menina que...

— O fato é que... — o senhor interrompeu a esposa. — a nossa filha está grávida e você terá que se responsabilizar por isso. — Concluiu sem fazer mais rodeios, encarado o rapaz à sua frente, enquanto ao lado, Natalie bufava de raiva, cruzando os braços novamente, odiando cada vez mais a garota que disse estar esperando um filho do seu irmão.

Todos contribuíram com o silêncio por alguns instantes, até que Michael decidiu quebrá-lo.

— E por que eu tenho que me responsabilizar se é a sua filha quem está grávida? — Indagou, agora com seriedade.

— Michael! Se eles estão aqui... — Jonathan começou a proferir, mas foi interrompido pelo o filho.

— Hein? Me respondam. Por que eu tenho que me responsabilizar por isso?

— Como assim “porque você tem que se responsabilizar”? Por que você é o pai, oras! — O pai de Cíntia se manifestou, irritado e pondo-se de pé.

— E quem disse isso? Cíntia? — Perguntou, e o olhar de ira do pai da garota aumentou mais ainda em cima dele, este que também se pôs de pé. — Olha aqui senhor, eu não sei qual foi a história que a filha de vocês contou, mas se há uma coisa que eu estou acostumado, é perceber quando estou sendo alvo do golpe da barriga. — Evidenciou encarando a garota.

— O que foi você disse? — Berrou a senhora, descrente com a ofensa.

Michael apenas respirou fundo e continuou do mesmo jeito que estava.

— Mãe, pai... Vamos embora, hum? — Sugeriu Cíntia, numa tentativa de fugir da confusão que havia causado.

— Mas filha, você disse que estava grávida e que ele era o pai.

— Eu-eu não... disse exatamente isso... — Balbuciou nervosa. 

A senhora a encarou confusa. 

— Então você mentiu? — Seu tom era de incredulidade.

— Eu também não disse isso! — Apelou para a mãe.

Michael rolou os olhos e suspirou audível.

— É, ela não disse isso, estão vendo? Agora que tal vocês irem e deixarem a paz reinar novamente na minha casa? Hum?

Silêncio...

— É... Eu acho que precisamos verificar essa história cautelosamente. — Pronunciou-se Jonathan dessa vez cauteloso com as palavras. — Por agora, é melhor vocês irem para casa e conversarem novamente com a filha de vocês. — Completou num tom apaziguador.

— Sim... Talvez seja uma boa ideia. É que... queríamos resolver logo isso e acabamos... Enfim... — Tentou desconversar a mãe, envergonhada.

Michael apertou os lábios e balançou a cabeça, assentindo veementemente com falsidade.

O senhor segurou no braço da filha e praticamente começou a arrastá-la até a direção da saída principal da casa, mas antes que saísse, parou e virou-se para encarar o rapaz, dizendo em seguida:

— Voltaremos! — Ameaçou com um tom rígido e saiu porta a fora da casa.

É verdade que Michael antes de saber de quem se tratava, havia ficado um pouco assustado com a notícia de um filho, mas quando viu a garota maluca que vivia atrás dele após terem ficado algumas vezes, foi como tirar um peso das suas costas. 

— Mike, você não está namorando essa garota, não é? — Natalie indagou, quebrando o silêncio que se instalara.

Ele franziu o cenho e negou com a cabeça.

— Claro que não.

— Eu sabia. Você é muita areia para o caminhãozinho daquela garota. Ela nem é bonita. — Comentou a menina, fazendo o irmão mais velho sorrir. A relação dos dois era a única coisa que salvava o ambiente daquela enorme casa.

Sentindo-se aliviado e disposto a voltar ao que estava fazendo, — que era dormir — o rapaz caminhou até as escadas, mas foi parado quando sentiu as mãos pequenas de Natalie envolvendo sua cintura.

— Você é o melhor irmão do mundo. — Disse ela, apertando a cintura do irmão. — Obrigada por não ter engravidado aquela garota maluca. — Completou.

Ele virou-se para frente e sorriu, fazendo um afago nos cabelos longos dela.

— Você acredita em mim?

— Claro que acredito. Eu jamais teria um irmão tão idiota. — Brincou.

— E você acha que eles não irão voltar novamente com essa história? — Disse Jonathan, de longe, tirando a atenção dos filhos. 

— Não precisa se preocupar com isso. Aquela garota não está grávida, e mesmo se estivesse, não haveria como eu ser o pai. — Respondeu, tentando transmitir para o pai a mesma confiança que ele tinha. — Seu filho inútil nunca traria uma criança inocente a esse mundo imundo.

Michael deu um beijo carinhoso na cabeça da irmã e subiu as escadas, rumando para o seu quarto.

Essa era a sua vida: dormir durante o dia e ir farrear à noite.

Uma parte de Michael também era revoltada com o seu pai por causa disso. Jonathan nunca confiava no filho, sempre acreditava nas pessoas antes de sequer ouvi-lo primeiro. Mas em parte isso era culpa de Michael, que nunca deu sequer um motivo para o pai ter confiança nele.

Empresa? Negócios? Estava longe do sonho do rapaz. Muito longe mesmo. Queria ser livre para fazer aquilo que ele mais gostava. Desejava entrar na maior academia de artes marciais, aprimorar suas habilidades e se tornar um profissional com base em toda a sua aptidão. Queria ganhar a vida dessa forma, uma vez que já dominava alguns estilos do kung fu, incluindo wushu moderno. Sem contar que, sabia manejar uma espada com uma destreza impressionante. E pode-se dizer que, já estava no início, já que atuou algumas vezes como dublê em filmes de luta, claro, sem o conhecimento de Jonathan. E ele também era conhecido por causa das apresentações que ele e o Kamon faziam no clube que frequentavam, tornando-se a atração.

Kamon era um amigo que Michael havia conhecido na escola de artes marciais quando era garoto, eles se tratavam como irmãos. Kamon praticava wushu, mas devido a sua origem e cultura, ele já dominava o Muay Thai — a arte do seu país, Tailândia. 

Michael começou a praticar artes marciais quando a sua mãe ainda estava viva, e depois da sua morte, continuou apenas como uma forma de extravasar seus sentimentos e tentar esquecer um pouco a falta que ela fazia. Mas desde então, não parou mais, e foi percebendo que ele realmente amava aquilo e era aquilo que ele queria fazer para o resto da sua vida, e não ser o homem de negócios que o seu pai queria que ele fosse. Não o herdeiro desinteressado de um grande conglomerado que era o Grupo Chromish. 

(...)

Michael  deslizou seus braços pelas mangas compridas do seu blazer preto, limpou uma poeira imaginaria nos ombros e encarou-se no espelho, agradando-se com a visão que ele refletia. Embora ele tivesse uma péssima relação com pai e um gênio difícil, aquele que não soubesse que ele era um herdeiro, só de olhá-lo ainda dava para perceber devido a sua aparência e os bons modos — que ele só usava quando queria — que ele era de origem nobre.  Afinal, ele tinha sido bem criado.

Foi até o closet repleto de roupas e acessórios caros e abriu uma gaveta, tirando de lá um rolex prateado. Enquanto o colocava no pulso, ouviu batidas na porta do seu quarto, e antes que pudesse responder, Natalie entrou soltando gritos estridentes que ecoavam por todo o cômodo.

— Mike! Mike! Kamon está lá em baixo! — Seus gritos de euforia fizeram Michael sair do closet e encará-la com o olhar repressor.

— Por que você grita? — Reclamou com divertimento.

— Kamon está lá em baixo. — Jogou-se na cama do irmão.

— Quero saber por que você grita toda vez que o Kamon está lá em baixo.

— É porque... — A menina limitou-se a falar, sentindo suas bochechas se ruborizarem. Sentou-se na cama e encarou o irmão. — Pra onde é que vocês vão? — Desconversou.

Michael sorriu e voltou-se para o espelho, arrumando o desalinho imaginário da sua roupa. Sabia que a irmã tinha uma queda pelo o seu amigo tailandês.

— Quer saber do seu irmão ou de Kamon? — Foi incisivo, tirando sarro da cara da menina que, esbugalhou os olhos e ergueu o queixo.

— De você, ué! — Ela arrebitou o nariz, tentando disfarçar.

— Eu? — Ela assentiu e ele respondeu: — Para um lugar que você não precisa saber. — Enfatizou.

Ela pegou um travesseiro e jogou contra o irmão que a olhou de sobrancelhas arqueadas.

— Na última vez que você disse isso, no dia seguinte apareceu uma garota dizendo que estava esperando um bebê seu.

— O que você quer dizer? — Ele franziu o cenho e a menina agora ficou séria.

— Estou dizendo para não aborrecer mais o papai. Por favor! — Foi como uma súplica que fez ele se sentir péssimo com isso, mas não a respondeu. Natalie também não estendeu o assunto, pois sabia que a relação do seu pai com o seu irmão não era nada boa.

— Não fique acordada até tarde, hum? — Disse pegando o seu celular e as chaves do carro que estavam em cima do criado mundo. E então saiu do quarto. Desceu as escadas e encontrou Kamon numa conversa amigavelmente com Jonathan. Pigarreou para chamar a atenção deles.

— Oh! Você desceu. — Disse Kamon quando viu Michael.

— Hum. — Olhou do amigo para o pai. — Estou saindo. — E sem esperar qualquer resposta, dirigiu-se a porta, pronto para sair.

Kamon que já tinha conhecimento da relação entre pai e filho, sentiu-se desconfortável com o clima tenso.

— Foi um prazer vê-lo, Sr. Jackson — Kamon despediu-se de Jonathan e seguiu o amigo.

Jonathan foi até a janela e observou o carro de Michael saindo da garagem, acompanhando até ele sair do território da casa. Respirou profundamente, pensando em uma maneira de fazer o rapaz se interessar pela empresa, o que seria uma tarefa difícil. Na verdade quase impossível. Mas ele não tinha escolha, uma vez que descobrira que a empresa estava entrando em perigo sob a ganância de um certo indivíduo, e já havia passado da hora do seu sucessor dar as caras. 




Capítulo 2
“Esbarrar em alguém é como uma afinidade”

 AS ROUPAS MASCULINAS NO CORPO magro da garota caíam perfeitamente bem, escondendo suas curvas femininas. Os cabelos curtos e castanhos claros no estilo chanel foram escondidos dento do boné, deixando de feminino apenas o seu rosto fino e delicado.

Sendo a doçura em pessoa, Clarke Bradshow também era a definição de coragem. Como uma estudante de jornalismo, sempre usou esse seu lado para se sobressair em tudo o que fazia. Considerando o outro lado meio ousado que não deixava nada escapar, uma vez que chamasse a sua atenção.

Seu alvo agora era o Secret Man, um clube só para homens. Quando ela descobriu esse detalhe, a vontade de saber o que um bando de marmanjos faziam todas as noites dentro daquele lugar além de encher a cara e falar de sexo, deixou sua curiosidade ainda mais inflamada. Imaginou que o que acontecesse ali dentro seria um bom assunto para uma matéria inédita e peculiar que teria de apresentar na faculdade.

Como ela não podia entra pelo o fato de não ser homem, então ela decidiu vestir-se como um.

— Eu realmente sou mais louco que você! — Clarke ouviu Grant resmungar ao seu lado, enquanto estavam na fila para entrar no clube.

Ela não deu atenção ao amigo, apenas continuou caminhando de acordo com a fila que dava acesso a entrada.

— Não está me ouvindo? — Ele sussurrou, inclinando-se para dizer perto do ouvido da teimosa amiga: — Esse clube é só para homens. Se te descobrirem, você sabe que estaremos em apuros. — O medo na voz dele era perceptível.

— Shiii... Se você continuar falando essas coisas, ai sim irão nos descobrir. — Clarke o censurou, e ele balançou a cabeça em sinal de positivo e continuou andando, olhando para os lados, assustado, seguindo a amiga que estava vestida como um homem a fim de entrar naquele lugar.

Uma vez dentro do Secret Men, ela tentou ao máximo agir como um homem, mesmo com o Grant aflito ao seu lado. 

O fato da maioria daqueles caras já estarem chapados e a penumbra do lugar, ajudava a garota a se camuflar melhor.

— Ainda temos chance, Clarke. Vamos embora.

— Shiii... Realmente... — Lançou novamente para o amigo um olhar repreensor.  — Se está com tanto medo assim, apenas vá. — Estalou a língua nos dentes num amuou.

— Está brincando? Como posso ir se já estou aqui dentro?  

— Então... Dá pra pelo menos você mudar essa sua cara? Se alguém me descobrir, a culpa será toda sua. — Ela disse.

— Desculpe, oh machão, mas essa é a única cara que eu tenho. — Retrucou.

Ela revirou os seus olhos e respirou fundo.

— Olha só. Vou dar uma ronda por aí e procurar alguma coisa interessante. E, não se atreva a ir embora sem mim! — Falou num tom ameaçador, esbugalhando os seus olhos num aviso.

Grant não estava confiante de que aquele plano iria dar certo até o fim, mas como a sua amiga era teimosa demais, ele não tinha escolha a não ser assentir e seguir como ela dissera.

Quando se separaram, Clarke começou a estudar o clube, e a princípio ficou até triste porque ainda não havia nada de interessante, a não ser um bando de homens bebendo e conversando sobre mulheres. Mas quando ouviu dois homens comentando sobre um tal show de artes marciais, o seu entusiasmo voltou com força total.

Pigarreou e tentou fazer com que sua voz ficasse ridiculamente rouca e grossa, como a de um homem. Cautelosamente, e com medo de que eles desconfiassem que ela fosse uma garota, ela se aproximou deles.

 — É... Com licença, é que eu sou novo aqui e ouvi vocês falando sobre um show de artes marciais... e...

Os dois homens se entreolharam e franziram o cenho. Voltaram a encarar o ‘garoto’, estudando-o, certamente os seus traços afeminados. Mas para a sorte da garota, não fizeram muito caso, e um deles respondeu:

— Você só pode ser novo aqui mesmo para não conhecer o Michael e Kamon. Os mestres das artes marciais. 

— Mestres das artes marciais? — Ela franziu o cenho.

— Sim, os caras têm uma habilidade incrível. — O baixinho se empolgou e começou a gesticular. — Quando eles pegam aquelas espadas com aquela lâmina assassina, e mexe pra lá, e para cá... Chega a me dar um frio na barriga.

— Eles são... realmente bons assim? — Clarke perguntou, mostrando interesse.

— Estou dizendo, cara. Espera só até você vê-los. — O homem assegurou e bateu no ombro da garota, saindo em seguida acompanhado pelo o outro.

Clarke cambaleou um pouco para trás e ajeitou o boné.

— Seriam dois espadachins ocidentais? Hum... Parece interessante. — Murmurou para si mesma e começou a olhar em volta para ver se encontrava o Grant.

Nesse momento, três rapazes sem camisa e bastante bêbados passaram esbarrando nela, de modo que seus corpos a tocavam, deixando-a sem jeito com toda aquela nudez, e fazendo-a rodopiar algumas vezes. Sem querer, ela tropeçou no seu próprio pé e perdeu o equilíbrio do seu corpo. E por sorte, ou destino, um corpo que ela esbarrou de frete a salvou de aterrissar no chão, também quase perdendo o equilíbrio.

Clarke sentiu duas mãos firmes segurarem os seus ombros, e então subiu devagar seus olhos pela clavícula masculina de Michael, o rapaz que a segurava. Quando os olhos de ambos se encontraram, Clarke esbugalhou os seus ao se deparar com aquele rapaz charmoso e bem dotado, de um olhar marcante que podia penetrar a sua alma.

Ela continuou encarando-o, mas o que era mais estranho era que Michael também a encarava, achando aquele rosto delicado demais para pertencer a um homem.

— O que você está fazendo? — Foi quando ele finalmente perguntou pacificamente. Sua voz áspera, mas ao mesmo tempo aveludada a atingiu como uma bomba.

— É que... — Clarke parecia perdida, deixando a frase inacabada, tropeçando nas palavras ao encher seus olhos com aquele rapaz à sua frente.

Ela não era do tipo de garota que se deixava se impressionar tão facilmente pela beleza masculina, mas não havia dúvidas, ela o conhecia de algum lugar. Mas de onde?

A princípio, ela não pôde observar o seu físico, mas seu rosto ela estudou minuciosamente enquanto ele a mantinha em suas mãos. A pele do rapaz era levemente bronzeada. Seus olhos grandes eram negros, não aquele negro desbotado, mas sim negros brilhantes que lembravam pérolas negras do mais subido quilate. Os mais expressivos e fascinantes olhos que Clarke já tinha visto.

Ao contrário da garota que parecia hipnotizada pela beleza do rapaz, o mesmo simplesmente franziu o cenho enquanto a encarava estranhamente.

Como Michael era um homem dotado de sagacidade, sua perspicácia o deixou bastante desconfiado do ‘garoto’ à sua frente. Havia alguma coisa errada com ‘ele’, e o rapaz brevemente pôde sentir isso.

O som de uma voz com uma pintada de sotaque e um sorriso ao lado de um outro rapaz com traços orientais que, até então Clarke não havia notado, a fez regressar de volta à realidade.

— Michael, isso é realmente embaraçoso. — Kamon fez careta, olhando para o amigo. — Vocês dois aí assim... Pega mau, cara!

Foi então que Clarke percebeu o que estava fazendo. 

— Oh meu Deus! — Murmurou, desgrudando rapidamente seu corpo do de Michael. — Me-me desculpe! — Gaguejou, se sentindo intimidada sob o olhar intrigante e desconfiado do rapaz.

— Vamos! — Disse Kamon, e saiu na frente.

Michael encarou a garota vestida de homem da cabeça aos pés, achando mais uma vez o seu rosto bonito demais. E sem proferir nada, afastou-se. Clarke virou-se para acompanhar os passos dele, agora prestando atenção na sua estrutura física naturalmente magra, mas que ainda sim eram notáveis os músculos por debaixo das roupas caras que vestia, fazendo-a constatar que ele era um nobre.

Meu Deus, o que foi isso? — Perguntou a si mesma depois que ele sumiu do seu campo de visão, sentindo que finalmente podia soltar o ar que estava preso nos pulmões. Respirou fundo, e com muita coragem, enfiou-se no meio de todos aqueles homens na tentativa de encontrar o Grant.

De repente, um instrumental no fundo começou a ecoar pelo o salão, um estilo rock’n roll com uma mistura de violino, fazendo os homens que estavam ali irem à loucura, gritando e erguendo os seus copos de bebidas. A aglomeração que estava na pista de dança da clube começou a se dissipar, e todos que passavam por Clarke esbarravam em seu braço. Isso já estava irritando-a.

Por um instante, sem entender o que estava acontecendo, ela ficou a esquerda na pista, mas logo se juntou aos outros quando percebeu que algo estava prestes a acontecer.

Um corredor foi aberto entre alguns homens, e para a surpresa dela, Michael, a pessoa que ela esbarrara há poucos minutos atrás, caminhou até o centro da pista de dança com as mãos para trás e ostentando uma postura muito misteriosa, o que tornava aquele momento bastante interessante.

— Aí! — A voz de longe em alto e bom som chamou a atenção de todos, inclusive a de Clarke. Kamon, o amigo de Michael, estava perto do DJ. Um breve sorrisinho de lado surgiu nos lábios do tailandês. — Pensa rápido. — Ele arremessou em direção a Michael, que estava na pista, uma maçã, este que rapidamente desembainhou uma espada de trás de si e cortou a fruta em quatro pedaços antes mesmo dela de ir ao chão, fazendo a galera gritar.

— Ua! — Clarke murmurou, maravilhada com o talento de Michael. Achou tão impressionante que, instintivamente tampou a boca com uma mão. Bem, ela já vira alguns truques como aquele, mas foi em filmes de artes marciais. Porém, ao vivo e a cores era totalmente diferente.

Kamon saltou lá do alto fazendo uma acrobacia incrível, caindo com uma perna dobrada e um joelho no chão, da forma que seu corpo parecia leve como uma pluma.

Agora que os dois estavam juntos, Kamon puxou um nunchaku e começaram um número incrível, prendendo a atenção de Clarke que observava os dois amigos se movimentando, mostrando algumas técnicas, incluindo acrobacias e golpes, chegando até a trocarem as armas. Eles eram dotados de uma destreza técnica impressionante, incluindo velocidade, precisão e força. Até pareciam dubles de filmes de luta.

Clarke não sabia ao certo que tipo de luta era aquela, mas eles eram realmente bons. E claro que aquilo era um bom tema para fazer uma matéria para a faculdade. Era inédita e interessante. Sem contar que além de serem bons, eles também eram bonitos. 

Kamon chamou a atenção dela pela flexibilidade do seu corpo e sua aparência, claro, a suas pálpebras duplas nos seus olhos puxados, mas Michael além de lhe parecer muito familiar, ele tinha algo especial que lhe deixava intrigada.

Os cabelos negros e sedosos num corte mediano do rapaz esvoaçavam cada vez que ele se movia, e nas partes que ele permanecia parado, ela não enxergava mais nada, suas veias saltadas toda vez que ele apertava a empunhadura daquela espada era verdadeiramente sexy aos olhos dela.

Talvez ela parecesse estar ficando louca em ficar observando essas coisas, mas era o que estava fazendo.

Concentre-se Clarke! Concentre-se! — Ela disse em mente, chacoalhando a cabeça.

 Meteu a mão no bolso do casaco e pegou o seu celular para começar a filmar tudo. Ela teria tido para fazer a matéria para o trabalho da faculdade um bom e longo vídeo de Michael e Kamon, se o clube não tivesse sido invadido por policiais de repente, que obrigaram o DJ a interromper a música, dando início a um burburinho de reprovação.

Clarke ficou parada, apenas observando de olhos confusos.

O que parecia ser o líder da equipe dos policiais deu um passo à frente e mostrou a sua identificação.

— Sou o detetive Macalie da delegacia local. Estamos no meio de uma investigação na equipe de narcóticos e estamos fazendo uma inspeção em todos os estabelecimentos noturnos. — O detetive tirou do bolso um papel e o desdobrou. — Aqui! — Estendeu para que todos pudessem ver. — Isso é um mandado de busca e apreensão. Então...

Os burburinhos começaram novamente.

— Cooperem, por favor! — O jovem detetive bradou, mostrando irritação. — Teremos que revistar o local e todos que estão aqui. Vocês só têm que cooperar. — O detetive não fez mais caso do barulho, e deu a ordem aos seus subordinados para que eles começassem a revistar o local e as pessoas.

Clarke arregalou os olhos, tendo consciência que logo estaria em apuros. Se um daqueles policias a revistassem, ela seria descoberta na hora. E a última coisa que ela queria era que o seu pai, que tanto confiava nela, soubesse que ela havia se metido em problemas.

Passou sua vista no meio daqueles homens na tentativa de encontrar Grant, mas a única pessoa que encontrou a encarando foi Michael, que estava intrigado com a beleza exagerada do “garoto”. Será que ele desfiava de que ela era na verdade ele?

Num ato desesperador, Clarke saiu discretamente do meio dos homens e entrou no primeiro corredor que avistou. Foi caminhando devagar, se afastando daquele tumulto todo até que encontrou um banheiro. Depois de ficar um bom tempo pensando numa tentativa de escapar, ela decidiu entrar e se esconder em uma das cabines. Aquele era um plano idiota, ela sabia, até porque quando os policiais entrassem ali, olhariam nas cabines. Mas ela não tinha outro plano.

Por um momento, ela decidiu abrir um pouco a porta da cabine, mas só depois do feito foi que percebeu que tinha sido uma má ideia. Pois Michael a encarava com o olhar acusador. Sua saída do meio dos homens bem na hora que a polícia chegara, foi tão estranha e suspeita que, Michael agora tinha certeza que o garoto bonito era na verdade uma garota. 



Capítulo 3
“Ele é uma garota”

EMBORA CLARKE FOSSE UMA GAROTA corajosa e esperta, ela não era páreo para a perspicácia afiada de Michael; sendo considerado por alguns como o Casanova, ele tinha a capacidade de reconhecer uma mulher mesmo se ela tivesse feito uma cirurgia plástica ou uma troca de sexo. E não fora diferente com Clarke. Quando ela esbarrou nele, a princípio, ele apenas ficou desconfiado, mas os traços exageradamente femininos e os movimentos suspeitos da garota foram o fator x para que ele tivesse a confirmação.

Quando ela foi ao banheiro na tentativa de se esconder, ele a seguiu e também entrou assim que ela adentrou em uma das cabines. Ele caminhou silenciosamente olhando para o chão de cada divisão, foi bem na hora que Clarke decidiu por um pé no piso. Quando ele viu o tênis pequeno da garota, um sorriso ardiloso surgiu em seus lábios. Colocou as mãos nos bolsos do seu blazer e encostou-se na parede, esperando o momento em que ela abrisse a porta.

Clarke por sua vez, fez exatamente o que Michael esperava. Ela abriu uma brecha na porta da cabine e ele a fitou.

— Aishiii... Que droga! — Clarke murmurou, e rapidamente voltou a fechar a porta, se praguejando por tê-la aberto.

O sorriso preguiçoso de Michael se fez audível dentro do banheiro.

— Você acha isso inteligente? — Perguntou, deixando-a em alerta. — Acha mesmo que aqueles policiais não estarão aqui em poucos minutos? — A voz dele era firme, mas extremamente calma.

Silêncio...

Clarke não sabia quais eram suas intenções, mas ela estava começando a ficar assustada. Por que ele tinha seguido ela?

— E agora, o que você vai fazer? — Indagou a ela. 

— Vo-você está falando comigo? — Ela gaguejou, sem ter certeza do que ele estava falando. 

— Hum! Você está com posse ilegal de drogas. Não é por isso que está se escondendo? Seria mais fácil se você tivesse jogado-as fora.

Essa acusação tinha sido uma isca de Michael para Clarke, esta que se sentiu estranhamente incomodada por ele estar pensando que ela estava se escondendo por causa de drogas.

Ela saiu da cabine e o encarou.

— Eu não uso drogas! — Esclareceu.

Ele sorriu, um sorriso debochado que a deixou irritada.

— Acha mesmo que uso drogas?

 Ele desencostou-se da parede, deu três passos em direção da garota, ficando bem perto dela, e começou a fazer um exame minucioso em seu rosto angelical.

— Rosto brilhante, cílios longos, nariz reto e os lábios proporcionais. — Sorriu de lado, do jeito que só os homens fazem.  — O que você está tentando fazer?

Clarke franziu o cenho.

— O que você está falando, cara? — Tentou ser evasiva, mas isso não funcionaria com Michael.

Ele olhou para o lado e respirou fundo. 

— Eu não entendo o que...

Ele não a deixou concluir a frase, pois o que aconteceu em seguida foi algo que Clarke não esperava.

— Vem aqui. — Ele segurou nos braços da garota e a puxou de encontro ao seu corpo. — Acha que eu não posso sentir isso? — Referiu-se aos seios dela, que mesmo sendo pequenos, dava para senti-los perfeitamente.

Clarke esbugalhou seus olhos e engoliu em seco, percebendo então que ele tinha atraído ela para fora da cabine para comprovar as suas suspeitas, sentindo o seu corpo.

Ela forçou suas mãos na barriga dele e o empurrou para longe.

— O que você está fazendo? — Levantou o queixo em indignação.

— O que você — ele apontou um dedo para ela — está fazendo? — Completou.

— Se encostar um dedo em mim novamente, considere-se um homem morto! — Ameaçou, o que fez Michael achar engraçado a postura que ela ostentava agora.

— Você não deveria estar nesse lugar.

— Isso é... — Ela tentou argumentar.

— Por que entrou nesse lugar com roupas de homem, sendo na verdade uma garota?

— Isso... Isso não é da sua conta. — Foi a sua resposta. 

— Quem é você? Por que está nesse lugar? — Ele questionou novamente.

— Eu já disse que isso não é da sua conta! — Para uma garota que estava em apuros, ela estava sendo orgulhosa demais, dessa forma ele não poderia ajudá-la. Também ele não era do tipo de fazer caridades mesmo.

Ele ficou encarando-a por alguns segundos, balançou a cabeça e se afastou dela, indo em direção a porta.

— Estou curioso para saber como isso vai acabar. — Disse com ironia, fazendo menção de sair.

Foi aí que Clarke lembrou que, a qualquer momento os policiais poderiam entrar naquele banheiro, e com a sensação de que talvez aquele intrometido pudesse ajudá-la, ela correu até ele e segurou o seu braço, impedindo-o de sair.

— Me ajude! — Pediu, jogando fora o seu orgulho.

Michael virou a cabeça, olhou para a mão da garota que segurava o seu braço e depois a olhou.

— O que disse?

— Me ajude a sair dessa, hum?

Ele puxou o braço.

— E por que eu te ajudaria? — Disse mesquinho.

— Porque... porque... os seres humanos devem ajudar uns aos outros.

Ele sorriu, agora lhe lançando um olhar profundo como quem estava se divertindo com tudo aquilo.

— E quem te garante que eu sou um ser humano?

Ela rolou os olhos e respirou profundamente.

— Se você me ajudar, — ponderou — eu faço o que você quiser. — Propôs, e imediatamente a expressão de Michael mudou, causando arrependimento em Clarke por ter falado tal coisa.

— Qualquer coisa? — Seu tom agora carregava um pouco de lascívia, o que fez com que ela demorasse a responder. 

— Sim. — Assentiu, mas se por acaso aquele sujeito tentasse tirar proveito, ele com certeza seria um homem morto.

Descaradamente, os olhos de Michael desceram pelo o corpo dela, mas não pôde imaginar nada com tanto pano que a cobria. 

— Com toda essa roupa aí... Não sei se é bom, mas só provando para ter certeza. — Caçoou, olhando nos olhos dela e com um sorrisinho de escárnio brotado no seu rosto.

Sentindo-se constrangida, Clarke deu três passos para trás.

— O que você está pensando? Está maluco?

Ele sorriu novamente, colocando a mão em punho perto da boca.

Nesse exato momento, vozes e passos eram audíveis. Isso significava que os policiais estavam indo para o banheiro.

— O que eu vou fazer? — Clarke arregalou os olhos em desespero.

Michael aproximou-se da porta e encostou sua orelha na mesma.

— Tire a sua camisa. — Ele disse.

— O quê?

Ele voltou-se para ela.

— Tire a sua camisa. — Repetiu, enquanto tirava o seu blazer.

— Como eu posso tirar a camisa na sua...? — Clarke praticamente gritou, mas parou espantada quando Michael subiu a sua camiseta preta e a tirou, revelando o seu peito e músculos definidos e bem traçados. Ela engoliu em seco e ficou olhando sem emitir nenhum som, enquanto o seu rosto branco era tomado pelo o rubor.

Quando Michael olhou para o rosto vermelho dela, teve vontade de sorrir, mas se conteve

— O que está fazendo? Pensei que queria a minha ajuda. — Falou, tirando-a do torpor.

— Mas é que... — Ela não queria tirar a camisa na frente de uma pessoa completamente desconhecida, era constrangedor. Por mais que ela fosse uma pessoa corajosa, sua ousadia não chegava a esse ponto. Mas ela não sabia o que fazer, a não ser confiar nele naquele momento. Mesmo estando um pouco acanhada, ela tirou a camisa e ficou só de sutiã. — Pronto. — Murmurou, segurando a camisa na frente do seu busto. Perguntava-se se ele a mandaria tirar a calça também, e isso ela definitivamente não iria fazer. Preferiria ser descoberta a ter que ficar de calcinha. Mas felizmente, para Michael só a parte de cima era o suficiente.

Ele olhou para ela e tomou o pano, revelando o seu sutiã branco, deixando-a com mais vergonha.

Depois de jogar as roupas em cima da pia, ele a puxou pelo o braço, segurou firmemente a sua cintura e a sentou sobre o mármore frio da bancada, de modo que ficou entre as pernas dela.

— O que está fazendo? — Perguntou ela, olhando para o corpo dele tão perto do seu, em seguida empurrando-o, afastando-o um pouco.

— Estou te ajudando. — O rapaz estalou a língua nos dentes. — Não é como seu eu quisesse te tocar. — Disse com falso desprezo.

Ainda um pouco desconfiada das intenções de Michael, Clarke o deixou aproximar-se novamente.

Ele tirou o boné dela, fazendo com que os seus cabelos lisos e curtos caíssem até a altura do pescoço e o franjão tomasse forma em um lado do seu rosto delicado, dando a Michael uma das visões mais lindas que ele já contemplou. Mas o que diabos era aquilo? Como ela poderia ser tão... bonita?

Por um momento, Michael ficou admirado e hipnotizado pela beleza da garota. Os olhos delineados dela eram um capricho da natureza, do mesmo tom dos seus cabelos, castanhos claros e brilhantes. Era a perfeita harmonia de cores. Os cílios longos e pestanas longas faziam sombras na altura da face dela... Os olhos dele desceram para os lábios pequenos e carnudos, e sem que percebesse, seus instintos primitivos já estavam querendo beijá-la de verdade. Mas ele não ousaria a fazer isso, uma vez que percebeu que Clarke não era como as garotas que ele conhecia. Também foi por essa razão que ele não ousou a descer seus olhos para os seios dela, por mais que ele quisesse dar uma breve olhadinha.

— Olha só, você realmente é uma garota. — Comentou com sarcasmo, disfarçando que ficara admirado.

Clarke piscou duas vezes, e com timidez colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.

— Claro que eu sou uma garota. O que eu mais seria? — Murmurou.

Michael sorriu, achando graça da timidez dela.

Os olhos de ambos voltaram-se para a porta do banheiro quando as vozes dos policias se fizeram muito mais audíveis.

— E agora? O que vão fazer comigo se me descobrirem em um lugar que só tem homem?

— É só fingirmos que estamos nos pegando. — Michael disse para ela.

— Nos pegando? — Ela o olhou confusa.

— Você tem que fingir que está comigo. Entendeu?

Clarke assentiu, balançando a cabeça freneticamente.

Ele aproximou seu rosto do dela, e por um momento Clarke pensou que ele iria beijá-la, tanto que se ele realmente fosse, ela tinha que fazê-lo também. Afinal, foi ela quem pediu a ajuda dele.

Ela apertou a beira da bancada por causa do nervosismo, fechou os seus olhos e esperou que os lábios dele encostassem nos seus. Mas não foi exatamente o que aconteceu. Pois ele apertou a cintura dela e mergulhou o rosto no seu pescoço.

— Só finja que está gostando. — Sussurrou rente ao ouvido dela. A temperatura da boca dele que bateu contra a pele sensível do pescoço dela, a deixou completamente arrepiada, tanto que ela nem percebeu que suas mãos pousaram nas costas dele. E eles nem estavam se pegando de verdade.

A porta do banheiro foi aberta e três policiais e o detetive Macalie entraram, e quando viram a cena que Clarke e Michael estavam protagonizando, arregalaram os olhos. Os três policiais achando aquilo excitante e engraçado, mas o detetive que era cismado com tudo, na realidade estava se questionando porque havia uma mulher ali, já que era proibida a entrada delas. Ele pigarreou para chamar a atenção de Michael e Clarke.

Os dois que estavam fingindo que estavam se pegando, pararam de se tocar. Clarke virou a cabeça e puxou mexas de cabelos para frente do seu rosto, para que aqueles policiais não a vissem, e Michael virou-se por completo e encarou o jovem detetive, este que quando lhe viu, o encarou como quem já não se impressionava mais.

— Há quanto tempo, detetive. — Michael o saudou com falsidade.

O detetive respirou fundo, piscou os olhos demoradamente e o encarou. 

— Saudades de me visitar, Michael Jackson? — Retrucou com ironia, fazendo Michael sorrir. Os olhos do detetive pairaram sobre Clarke que escondia o rosto com os cabelos. — O que você esta fazendo? — Perguntou.

— Eu preciso explicar? Não é obvio? — Respondeu com tranqüilidade, enquanto Clarke mordia os próprios lábios com a tensão. Como ele conseguia agir assim?

— Eu quero saber quem é ela e o porquê dela estar aqui. — O detetive respondeu impaciente.

Michael virou sua cabeça para olhá-la e voltou a encarar o detetive.

— Ela? Não se preocupe muito, ela é uma... prostituta. — Foi a sua resposta.

Os olhos de Clarke se esbugalharam e os seus lábios se enrugaram de raiva que sentiu ao ouvir o que Michael falara. Prostituta? Não tinha outra coisa para falar não? E o pior, era que ela nem podia virar-se para dizer que era mentira.

— Prostituta? — O detetive estava um pouco intrigado.

— Hum. — Michael confirmou.

— As prostitutas podem entrar aqui? — Indagou meio desconfiado.

— Bem... Se eu quiser que uma prostituta entre, então ela entra. — Respondeu altivo. — Você sabe, detetive. Eu sou Michael Jackson. — Sua presunção fez o detetive sorrir com deboche e Clarke resmungar em silêncio um “grande coisa”. — Mas como eu sei que você não vai com a minha cara, pode perguntar ao responsável pelo o estabelecimento e...

— Acho que não será necessário. — Cortou-o. Conhecendo Michael Jackson, o detetive Macalie sabia que seria perda de tempo fazer isso, uma vez que Michael era um herdeiro rico e carregava muitos privilégios. E também ele não se importava se uma prostituta estivesse dando para aquele patife arrogante. — Nos vermos por aí, Sr. Jackson. — Disse como uma promessa e saiu do banheiro acompanhado pelos os outros policiais.

Michael foi indiferente com as palavras do detetive; suspirou e foi até a porta para trancá-la. Quando o fez, vou-se para Clarke. Ele observou-a enquanto ela vestia a camisa, e quando terminou, recebeu um olhar mortífero da mesma

— O que foi? — Ele perguntou, com as sobrancelhas arqueadas.

— Prostituta? Não tinha outra coisa melhor para falar não?

Ele sorriu daquela garota mal agradecida.

— Se quer agradecer, apenas faça. Hum?

— Agradecer?  — Riu sem humor. — Por ter dito que eu era uma prostituta?

Michael já estava ficando impaciente.

— Qual é o seu problema? Você estava em apuros e eu te salvei. Apenas agradeça.

— Não precisava chegar a tanto. — Resmungou.

Michael a encarou impacientemente, agarrou um braço dela e a puxou de encontro à porta, mas deteve-se quando ela puxou o braço.

— O que está fazendo?

— Ué. Vou levá-la até o detetive para dizer que menti e dizer que na verdade você entrou aqui vestida de homem para fazer O QUÊ eu não sei. — Ele ameaçou.

Ela arregalou os olhos e puxou o braço.

— Esqueça! Já está feito. — Disse.

Michael reprimiu o sorriso enquanto a encarava. De qualquer forma, ele sabia que ela estava agradecida, só não entendia como que ela não tinha medo. Ela era uma garota, era para estar fazendo coisas de garotas. 

— Como uma mulher pode ser tão destemida para entrar em um lugar como esse? — Ele resmungou, ela então o encarou com um olhar interrogativo. — Se você fosse um homem, eu mesmo já teria te dado uma surra. — Completou.

Clarke respirou fundo, procurando paciência, e sorriu a contragosto.

— Olha aqui, Sr. Jackson — lembrou-se quando o detetive disse o nome dele. — Obrigada! — Disse para parar com aquela discussão ridícula.

— Está vendo, foi simples e fácil. — Provocou-a altivamente.

Clarke cerrou os dentes e apertou os lábios um no outro, contendo-se para não retrucá-lo. 

Enquanto Michael vestia as suas roupas, ela pegou o seu celular e mandou uma mensagem de texto para Grant, dizendo que estaria ao lado de fora esperando por ele. 

Pegou o boné e escondeu seus cabelos por debaixo dele.

— Será que eles ainda estão aqui? — Perguntou ela, referindo-se aos policiais.

— O que é que você acha? Claro que eles estão. — Ele respondeu rabugento.

— Aishiii... Por que eles tinham que vir logo hoje? — Resmungou, em seguida olhou para Michael com um olhar implorador. Michael sabia que ela iria pedir mais alguma coisa.

— Não! — Ele respondeu antes mesmo dela pedir.

— Só mais dessa vez, hum?

— Você não acha que está sendo demais não?

— Eu só quero sair daqui. — Implorou.

Michael fechou os olhos por um instante, coçou a cabeça e deu as costas a Clarke. Ela não estava querendo demais não? Por que ele tinha que ajudá-la?

O rapaz levou a mão aos cabelos, embrenhando os seus dedos e os puxando insatisfeito com o seu próprio comportamento.

— Me siga. — Disse apenas. Ela não contestou, simplesmente o seguiu.

Trocaram alguns olhares de canto de olho enquanto caminhavam por um corredor onde dava acesso à porta dos fundos do clube. O lugar estava um pouco escuro e havia alguns carros estacionados por ali.

— Agora é com você. — Michael disse, e antes de entrar novamente no clube, parou e girou um pouco a cabeça para fitá-la. — Você. Tome cuidados e não faça mais coisas assim. — Aconselhou e adentrou no clube.

Embora estivesse verdadeiramente agradecida, Clarke o achou intrometido, irritada por ter sido descoberta justamente por ele.

Ela olhou ao redor e sentiu um frio na barriga quando se encontrou sozinha naquele lugar escuro. Olhou para o outro lado e avistou apenas duas pessoas encostadas em um carro aos amassos, e ninguém mais. Se ele sabia que ali era assim, por que a levou e a deixou sozinha? Questionou-se.

Pegou o celular do bolso e discou o número de Grant, mas o rapaz não atendia o celular. Ligou de novo, de novo e de novo, mas a resposta era mesma. Ela iria matá-lo quando o encontrasse.

Caminhou até o outro lado do clube, e depois de esperar pelo amigo por mais de vinte minutos, decidiu ir embora sem ele, praguejando-se por não ter ido com o seu carro.

(...)

Michael e Kamon estavam dentro do carro quando passaram por Clarke, mas quando Michael olhou pelo retrovisor e viu a garota perambulando sozinha alguns metros depois do clube, parou o carro de supetão, fazendo Kamon, que estava ao seu lado, franzir o cenho.

— O foi cara? Por que parou? — Perguntou Kamon.

Michael nada disse, apenas apertou os olhos e resmungou um palavrão. Não costumava se meter nos problemas dos outros, e por ela, ele já tinha feito até demais. Mas porra... Ele realmente não se sentia bem em deixá-la sozinha ali. No final das contas, ela ainda era uma garota. Então ele andou de ré com o carro e parou assim que chegou perto dela, fazendo a mesma se assustar. Desceu o vidro da janela do carro e a encarou.

— Suponho que não esteja de carro, e o ponto de taxi é longe daqui. Então se não quer ficar perambulando como uma alma penada por essas ruas escuras, entre no carro. — Autorizou.

Ela olhou dele para o tailandês que estava ao seu lado, ponderando se poderia confiar ou não. Olhou para os dois lados e viu que realmente aquela rua era assustadora. Então mesmo um pouco hesitante, ela entrou no carro, no banco traseiro. 

Quando a garota se acomodou no banco, os olhos de ambos se encontraram pelo o retrovisor interno.

— Onde você mora? — Ele perguntou.

— Me deixe no centro da cidade. — Foi a resposta dela, não achou conveniente ele levá-la em casa, então quando chegasse no centro da cidade, pegaria um taxi. Ele assentiu.

Kamon olhou de Michael para Clarke, reconhecendo o “garoto” que tinha esbarrado no amigo.

— Oh! Você! — Exclamou esbugalhando seus olhos pequenos e puxados, apontando o dedo para ela. — Certo, você é aquele garoto que esbarrou nele. — Apontou para Michael

Clarke o encarou com curiosidade quando notou novamente a pequena diferença no sotaque de Kamon, que mesmo falando inglês fluentemente, ainda sim carregava uma pintada de outra língua que provavelmente era o seu sotaque nativo. Ela só não sabia ao certo qual era.

— É uma garota. — Michael revelou, dando partida com o carro.

— O quê? — Kamon ficou confuso.

— Essa pessoa, é uma garota. — Repetiu, fazendo Kamon olhar novamente e imediatamente para Clarke, essa que se sentiu envergonhada sob o olhar minucioso dele.

— Sério? Você realmente é uma garota? — Perguntou. Clarke apenas assentiu com um gesto de cabeça. — Mas... por que você está vestida assim? — Perguntou curioso.

Michael franziu o cenho.

— Agora que você perguntou, eu também gostaria muito de saber. Mas esqueça, ela não vai dizer. — Michael intrometeu-se na conversa enquanto mantinha sua concentração na estrada.

— Mas... como vocês...?

— É uma longa história. — Respondeu antes de Kamon concluir a pergunta.

Clarke não iria dizer o motivo de ela ter se vestido de homem, mesmo se eles ameaçassem matá-la. Primeiro porque perderia a graça fazê-la, e segundo, porque eles eram os protagonistas da sua matéria. Não tinha certeza qual seria a reação deles se soubessem que foram filmados.

Os amigos entraram numa conversa não muito interessante, deixando a garota de fora, essa que finalmente olhou para o lado do banco e viu a mesma espada que Michael usou mais cedo na apresentação. Sorriu, e quando iria tocá-la na bainha, percebeu que o carro tinha acabado de ser estacionado. Olhou para Michael através do retrovisor interno e viu que ele também a encarava profundamente.

— Cai fora o meu carro. Hoje você está com sorte. Mas se nos encontrarmos novamente, eu realmente darei em cima de você. Então se prepare. — Ele patenteou com seriedade, fazendo ela engolir em seco.

— Puxa vida, não seja assim com a menina. — Kamon repreendeu o amigo com divertimento e olhou para a garota. 

Clarke apreciou a defesa do tailandês, então retribuiu com um sorriso amigavelmente, em seguida fechou o semblante e olhou seriamente para Michael.

— Tente e você verá. — O desafiou, saindo do veículo. Depois de alguns passos que ela deu pelo o meio-fio, Michael aproximou-se com o carro.

— Ai! Não se esqueça que você me deve uma. — Lembrou-a com um sorrisinho no canto dos lábios, de uma maneira singular que só ele sabia fazer.

— Eu não vou esquecer, ok? — Ela retrucou, e ficaram os dois ali, ela em pé e ele dentro do carro, entreolhando-se; os olhos imóveis pelo que pareceu ter durado um minuto inteiro, embora pudessem ter sido apenas alguns segundos.

Era Incrível! Meio absurdo! Ambos sentiam como se estivessem ficado loucos tentando entender o que tudo aquilo significava. Mas eles realmente tinham uma conexão inexplicável.

Michael desconectou seus olhos dos dela e saiu cantando pneu. 




Capítulo 4
“O príncipe herdeiro”


ASSIM QUE PASSOU PELA PORTA principal de sua casa, Clarke se colocou na ponta dos pés e caminhou minuciosamente pela sala da casa, tentando no mínimo não fazer barulho. Assim que colocou um pé no primeiro degrau da escada, a voz baixa e rouca de Robert, o seu pai, soou da penumbra abaixo da escada.  

— Me pergunto o que você estava aprontando agora. — O tom de falar não era de reprimenda.


Clarke mordeu o lábio inferior quando viu a figura do homem de rosto enrugado e de cabelos parcialmente brancos, lhe encarando com os braços cruzados.


— Pai. Vo-você me assustou. — Tentou desconversar, murmurando a última frase.

Robert aproximou-se da filha e passou os olhos nas roupas masculinas que ela trajava.


— O que é isso? — Perguntou de cenho franzido.


— Isso? É que... eu estava em uma festa... fantasia. — Inventou descaradamente, fazendo Robert sorrir.


— Essa garota... Realmente...! — Limitou-se com falsa indignação, prendendo um sorriso.


Robert Bradshow era o pai de Clarke, um homem que escondia inúmeros segredos da família, especificamente o seu verdadeiro caráter. Com uma ganância pelo o dinheiro e poder que ultrapassava o nível normal, conseguiu chegar aonde chegou pisando nas pessoas sem sentir o mínimo de remorso, em outras palavras, era um louco com máscara de anjo que conseguiu ser o terceiro maior acionista do Grupo Chromish, comprando um pequeno pedaço das ações num momento difícil que o conglomerado estava passado.


Embora fosse um sujeito mau-caráter, a única coisa que não lhe era falso, era o amor desmedido pela sua família, principalmente pela sua preciosa filha, a Clarke, que para ele era como a jóia mais rara de todo o mundo. Seu amor era tão grande que, perante a garota ele facilmente se tornava um tolo e um pai babão; escondia da esposa as travessuras da filha e até mesmo abriu mão da profissão que queria para ela, deixando ela livre para escolher o que quisesse.


A relação entre pai e filha expressava um elevado grau de amor e confiança, que nada e nem ninguém um dia seria capaz de quebrar, — aparentemente. Do jeito que ela era preciosa demais para ele, para ela o seu pai era uma espécie de herói, o melhor pai do mundo. Acreditava cegamente que Robert era honesto e modesto, e nada naquele mundo poderia fazê-la pensar o contrário.


— Por favor, não diga a mamãe, hum? — A garota pediu em tom de súplica e subiu as escadas antes mesmo de Robert falar alguma coisa.


Uma vez já dentro do seu quarto, tirou o boné, jogou-o em um canto qualquer do cômodo e se jogou sobre a cama com os braços abertos. Assim que fechou os olhos por um instante, o toque padrão do seu celular soou dentro do seu bolso. Com muita preguiça, ela pegou o aparelho e o atendeu sem mesmo ver de quem era a chamada.


— Hum? — Resmungou preguiçosamente.



— O que aconteceu? — Grant perguntou do outro lado da linha.

Ela esbugalhou os olhos e sentou-se na cama quando reconheceu a voz do amigo. Ela iria matá-lo!

— Eu é que pergunto. Por que não respondeu a mensagem que eu enviei? — Perguntou irritada.

— É que...

— Ah... Esquece! — O interrompeu. — Estou cansada. Amanhã ligo pra você. Estou desligandooo! — Cantarolou e desligou o celular, deitando-se novamente na cama. Sabia que não podia dormir sem antes tomar um banho, mas queria ficar ali, naquela posição só mais um pouquinho. A noite tinha sido tão agitada.

Suas pálpebras tremularam rapidamente e logo desceram sobre os olhos. Os cílios grandes caíram sobre a face levemente rosada, e sem se dar conta, seus lábios carnudos curvaram-se como o arco de Eros quando a imagem do rapaz bonito que lhe ajudara mais cedo perambulou por sua mente. Não entendia porque de repente começou a pensar nele, mas aquele pensamento era tão gostoso que, ela tinha medo de abrir os olhos e ele simplesmente sumisse. Mas aquele sorriso foi sumindo ao lembrar-se do nome dele.

— Michael... Jackson. — Murmurou com lentidão... — Espera! — Ela abriu os olhos rapidamente. — Michael Jackson. — Sibilou. Já ouvira aquele nome, não uma ou duas vezes, mas sim várias. Tinha certeza. Mas aonde?

Ela levantou-se levando o celular junto e pesquisando no Google o nome de do rapaz, nome este que estampava alguns sites, nomeando-o como o herdeiro de um grande conglomerado.

— O quê? Herdeiro? — Perguntou a si mesmo. — Do grupo Chromish...? Espera! É aonde meu pai tem ações... — Vasculhou uma galeria de fotos que o Google disponibilizava só de Michael, entendendo agora de onde saia tanta presunção dele. Ironia, não? Ela tinha conhecido pessoalmente o herdeiro do grupo onde o seu pai era o terceiro maior acionista.

Então era isso? Era por isso que ela sentia que o conhecia de algum lugar?
Jogou-se novamente na cama com um sorrisinho nos lábios, achando aquilo um tanto engraçado.

(...)

Michael saiu do seu quarto e rumou até as escadas preguiçosamente, arrastando um chinelo nos pés e trajando uma calça moletom e uma camiseta, ambos brancos. Os olhos inchados e os cabelos desalinhados denunciavam que ele acabara de acordar, em pleno meio-dia. Antes de descer as escadas, parou no alto e jogou os braços para trás de seu corpo, cruzando os seus dedos na altura das suas costas, espreguiçando-se. Quando viu Matilde, a jovem senhora que trabalhava na casa, desceu as escadas correndo e a abordou, dando-lhe um abraço carinhoso de lado e um beijo terno na bochecha.

— Bom dia, minha esposa. — Brincou com a mulher, esta que se assustou com a abordagem surpresa do rapaz.

— Como assim “bom dia”? Não seria “boa tarde”? — Ela olhou com repreensão para ele, o que fez o rapaz sorrir. Michael adorava aquela mulher, pois desde a morte da sua mãe, fora ela quem cuidou dele e de Natalie, já que Jonathan na época vivia mais na empresa.

— O pai está em casa? Já veio para o almoço? — Perguntou assim quando a soltou.

— Nesse momento, ele já está almoçando.

— Ok. — Ele murmurou e fez menção de afastar, mas a mulher o chamou.

— Michael. — Ele virou-se e a encarou. — Seja bom com o seu pai. — Aconselhou. Ele apenas balançou a cabeça e rumou para a sala de jantar, onde encontrou Jonathan e Natalie em volta da enorme mesa, já almoçando. Aproximou-se e sentou-se ao lado da irmã, de frente para o pai.

— Não tem mais modos, garoto? — Jonathan reclamou, mas de forma pacífica, por ele ter sentado antes mesmo de cumprimentá-lo e a sua irmã.

Michael olhou para ele e respirou fundo. Não queria começar brigando com o pai, já que foi ele quem começou errado naquele dia. Reconhecia isto. Mas quando abriu a boca para cumprimentá-lo, Natalie interveio, não tendo a certeza do que exatamente Michael iria falar, conhecendo o temperamento dele.

— Pai, ele está assim porque acordou agora. Está meio desorientado. — Disse ela, tentando aliviar a tensão que se instalou em tão pouco tempo desde que pai e filho se encontravam no mesmo cômodo.

Sempre fora assim na hora das refeições, exceto no café da manhã, já que Michael nunca acordava cedo.

Depois que o rapaz foi servido pela empregada, eles comeram em silêncio. Como Jonathan fora o primeiro a começar a almoçar, terminou antes dos filhos, passou o guardanapo nos lábios e jogou-o sobre a mesa.

— Michael — Olhou para o rapaz, este que interrompeu a refeição e o encarou. — Quando terminar venha falar comigo no meu escritório. — Disse com a voz séria, em seguida se pôs de pé e saiu da presença dos filhos.

Natalie olhou para Michael apreensiva, pensando no que o irmão poderia ter aprontado dessa vez.

— Esse cara... O que você fez agora, hein? — Indagou com cara de irritada.

— Eu?

— Hum! Você! — Assentiu.

Michael balançou a cabeça em negativo.

— Eu não fiz nada. — Defendeu-se achando graça da cara da menina.

— Então por que ele quer conversar com você no escritório?

— Eu não sei. — Disse desinteressado. — Mas estou indo saber agora. — Colocou-se de pé e rumou para o escritório do pai.

Ele realmente não sabia o que Jonathan queria com ele, mas tinha alguns palpites. Talvez repreendê-lo por estar frequentando lugares inapropriados que pudessem prejudicar a imagem da empresa, já que querendo ou não ele ainda era o herdeiro; tentar convencê-lo de ir para a empresa, ou reclamar de alguma outra coisa... Michael poderia fazer uma lista. 

Bateu na porta do escritório de Jonathan para anunciar que estava entrando. Assim que entrou, encontrou o pai encostado no espaldar na cadeira, encarando um canto fixo da parede. Na verdade, Jonathan estava pensando em uma maneira de convencer o filho a fazer o que ele queria pedir, pois sabia que seria quase impossível, sabendo que ele não tinha interesse na empresa.

— Qual é o problema? Sente-se. — Disse Jonathan, apontando para a poltrona a sua frente.

Michael aproximou-se e fez o que o pai disse, sentando em uma das poltronas de couro de frente para a mesa.  

— Por que você me pediu para vir aqui? — Ele perguntou.

Jonathan permaneceu calado por alguns segundos, pensando em uma forma de começar aquela conversa, para que Michael não fugisse antes mesmo dele terminar de mencionar a palavra “empresa”. Girou a cadeira e fitou o rapaz.

— Peço que não me interrompa até que eu termine o que tenho a dizer. — Pediu com seriedade. 

Michael respirou profundamente, por já imaginar do que o pai queria tratar, cruzou suas longas pernas e assentiu balançando a cabeça em positivo.

— Eu preciso de você. — Jonathan começou a falar, sendo cuidadoso com as palavras. — Eu preciso de você na empresa.

Michael fechou os olhos por um instante e respirou fundo. No final das contas, acabou acertando o que o pai queria falar com ele. Ele realmente odiava aquela conversa. Já estava cheiro de ouvir “empresa, empresa, e empresa”, era sempre a empresa! Quando ele fez menção de falar, Jonathan passou na frente com as palavras.

— A empresa está passando por um momento difícil. — Disparou com desespero.

— E o que eu tenho a ver com isso? — Michael murmurou pacífico.

— Você é o herdeiro do grupo.

— Eu já disse que não tenho interesse na sua empresa. — Patenteou. — Tem a Natalie. Você não precisa exatamente só de mim.

— Sua irmã ainda é muito jovem.

— Esqueça. Eu não quero! — O rapaz era inflexível, tão inflexível que a vontade de Jonathan era surrá-lo ali mesmo. Mas isso só pioraria a relação dos dois, algo que era muito desvantajoso para Jonathan.

— Tem uma pessoa dentro da empresa que está tentando me ferrar. Essa mesma pessoa vazou acusações falsas, e por isso eu estou sendo investigado pelo o ministério público nesse exato momento.

Michael passou a mão no rosto impacientemente, e encarou o pai.

— Você fez alguma coisa errada ou fora da lei? — Perguntou retoricamente, pois apesar de não se dar bem com Jonathan, ele sabia que o pai era incapaz de cometer algum delito que pudesse prejudicar o grupo.

— Informações e poder financeiro para lavagem de dinheiro. É por isso que estou sendo investigado agora.

— Impossível! Você não fez isso! — Disse convicto.

— Você está certo. Eu não fiz, mas de alguma forma, alguém fez usando o meu nome no intuito de me prejudicar.

Michael sorriu sem humor.

— E você quer que eu faça o quê? Que eu entre na empresa e descubra quem é? — Perguntou sarcástico.

— Não é necessário, eu já descobri quem foi.

— Então, por que não resolve isso já que sabe quem foi?

— Você acha que é fácil apontar para alguém com base apenas nas palavras? Sem provas suficientes? — Jonathan sabia claramente quem estava tentando prejudicá-lo a todo custo, aquela não tinha sido a primeira vez. Pois desde que o mundo podia ter um homem integro e virtuoso como ele, que sempre visou fazer as coisas certas sem prejudicar ninguém, então da mesma forma, este mundo também tinha um egoísta e ganancioso completo, um demônio chamado Robert Bradshow. E também pelo o fato de algumas pessoas saberem que Michael não tinha interesse no grupo, acabou despertando ambições daqueles que já tinham olhos grandes em cima do grupo, e isso deixava Jonathan muito mais preocupado. Tinha que levá-lo para a empresa o mais rápido possível para todo mundo ver que além dele, o grupo já tinha um sucessor. E claro, para garantir que o grupo estaria nas mãos certas caso algo lhe acontecesse. — Deixe de brincar. Já está na hora de você assumir o seu lugar. — Disse com um pouco de rigidez.

Michael suspirou profundamente, cansado da conversa que mal tinha começado e decidiu deixar a sala antes que começasse uma discussão com o pai, coisa que ele não queria.

— Se você não tem mais nada a dizer, estou saindo. — Levantou-se da poltrona e deu meia-volta, mas antes que saísse, Jonathan saltou da sua cadeira e falou:

— Um ano. — A voz do seu pai o fez parar. — Passe um ano na empresa e depois não me oponho mais as escolhas que você fizer para o seu futuro. — Propôs.

Michael continuou de costas durante alguns instantes, enquanto Jonathan esperava com o olhar ansioso por uma resposta. O rapaz repudiava a ideia de trabalhar na empresa do seu pai, mas... o que Jonathan havia lhe proposto.. pensando bem, não era tão ruim. Depois de ponderar mais um pouco, ele virou-se, dando a entender de que estava interessado na proposta.

Jonathan soltou um leve suspiro vendo a atitude do filho, embora ele ainda não tivesse dito uma palavra.

— Muito bem. Eu quero um ano. Se você não quiser ficar depois desse tempo, eu irei aceitar. — Reformulou a proposta.

Michael colocou as mãos nos bolsos e soltou um sorrisinho.

— Quer que eu passe um ano na empresa e então depois não irá mais se opor as minhas escolhas. É isso mesmo? — Arqueou as sobrancelhas.

— Hum. Foi contra a sua vontade, mas você estudou administração de empresas e é apto para trabalhar.

— Você acha que eu sou apto para trabalhar? Então você realmente enxerga alguma qualidade em mim. Estou comovido. — Disse sarcástico, mas Jonathan não fez caso e apenas continuou.

— Você é inteligente, tem um julgamento rápido e uma notável determinação. Assuma um cargo por um ano e depois deixarei você trilhar o seu próprio caminho. — Prometeu a contra gosto.

— E o que me garante que você irá cumprir a sua promessa? — Michael ainda estava um pouco encabulado.

Jonathan ergueu o queixo. Embora ele soubesse que nunca iria se conformar com a escolha do filho, ele tinha que manter a sua palavra. Promessa é uma promessa.

— Eu sou um homem de palavra. Sabe disso. — Reforçou.

O rapaz se aproximou e repousou-se novamente na poltrona em frente à mesa do pai, este que também voltou a se acomodar na sua.

— Certo. Vamos supor que eu aceite. Então que cargo você iria me dar?

Jonathan sorriu audível. Aquele patife estava mesmo negociando com ele?

— Como você é meu filho e é o herdeiro, o cargo de diretor executivo é o que lhe encaixa melhor.

— Sério? Não acha isso demais pra uma pessoa que sequer vai à empresa?

— Você é o meu filho.

— Você não é o único acionista.

— Seu avô construiu o Grupo Chromish e eu herdei dele. Então eu sou o dono, não sou?

Michael revirou os olhos em tédio e se levantou.

— Tá certo. Nem um dia a mais e nem um dia a menos. — Olhou profundamente nos olhos do seu pai. — Mantenha a sua palavra depois de um ano. — E saiu do escritório, deixando Jonathan sozinho.

Talvez a proposta feita ao seu filho não tivesse sido feita da forma correta. Não era exatamente o que ele queria, mas o que estava feito já estava feito. Não tinha mais como voltar atrás. Era a única maneira de levá-lo para a empresa nem que fosse apenas por um ano.

Durante esse pouco tempo, planejava arrumar as coisas na empresa com a ajuda de Michael, já que o rapaz era muito inteligente. Sim, ele também ainda tinha uma esperança de que talvez o rapaz pudesse se interessar pelo o grupo durante o ano. Para ele que acreditava que princípios eram mais importantes quanto à vida em si, ver o seu filho primogênito ocupando um cargo na empresa, pode se dizer que era algo excepcional, mesmo sabendo que depois de um ano ele abandonaria tudo aquilo e seguiria o seu próprio caminho.   



Capítulo 5
“Você de novo?”

AS PORTAS DE VIDRO ESPELHADO da faculdade foram abertas e alguns minutos depois uma aglomeração em frente ao prédio foi criada pelos alunos. Entre eles estava Clarke, carregando uma bolsa de alça comprida pendurada em seu ombro, com fones de ouvido e um sorriso de satisfação escancarado nos lábios, enquanto assistia pela milésima vez no seu celular ao vídeo que tinha gravado há duas noites.

Assim que desceu do último degrau da escada, foi surpreendida quando Grant e Gina aproximaram-se e agarraram os seus braços. Ela os encarou rapidamente, alternando o seu olhar de um para o outro.

— Caramba! Vocês me assustaram! — Resmungou com falsa irritação no tom da sua voz, puxando os fones de ouvido e enfiando-os junto com o celular dentro da bolsa.

— Você. Por que não veio à faculdade ontem? — Grant perguntou.

— Estava indisposta. — Foi a sua resposta. 

Os três amigos caminharam pelo gramado em frente à faculdade enquanto jogavam conversa fora. Grant ainda foi alvo dos ataques da Clarke quando ele tocou novamente no assunto do clube Secret Man.

Por mais que ele perguntasse como ela tinha conseguido sair daquele lugar, ela não queria dizer como conseguiu e muito menos com ajuda de quem. Só de lembrar-se da forma que tinha sido, lhe deixava envergonhada. Ficar de sutiã na frente de um cara que ela sequer conhecia, — pessoalmente — seria vergonhoso contar aos amigos.

Depois de mais algum tempo conversando, Grant disse que teria de fazer uma coisa para o seu pai e Gina disse que teria que ir para as aulas particulares dela. Então assim os amigos se despediram dela e se afastaram, deixando-a sozinha.

Clarke caminhou até o seu carro e entrou, jogou a sua bolsa no banco ao lado e arrancou com o carro em seguida. Enquanto dirigia pelo o centro da cidade, avistou a loja de conveniência que ela costumava frequentar com o Grant. Ela não planejava dar uma parada por lá, mas começou a sentir a necessidade quando a sua barriga começou a roncar. A causa de ter saído de casa sem tomar o café da manhã.

Assim que estacionou o carro e entrou na loja, comprou duas barras de cereais, uma garrafinha de suco natural de laranja e sentou-se em uma mesinha próxima a janela de vidro, colocando a sua bolsa na outra cadeira.

Enquanto ela comia e olhava o movimento do lado de fora do café, não notou que um homem baixinho de pele branca e outro de pele morena de altura mediana, ambos mal encarados, tinham entrado na loja e ficado com os olhos fixos na bolsa dela. Esses mesmos homens tapearam, rondando pelos corredores da loja, escondendo alguns itens dentro do blusão que usavam, passando até despercebidos pela funcionária que estava no caixa. O moreno rapidamente saiu e ficou esperando em frente à loja, enquanto o outro se aproximava de Clarke. Em um movimento rápido, o homem deu um bote na bolsa da garota e saiu correu.

Clarke jogou o que comia sobre a mesa e sobressaltou da cadeira, observando o ladrão escafeder-se porta a fora da loja.

— Yah! Esse filho da mãe ladrãozinho! — Vociferou, apontando o dedo para a porta. Pretendia deixar para lá, uma vez que sabia que era muito perigoso reagir a um assalto, mas quando se lembrou que o seu celular estava dentro daquela bolsa, seus olhos esbugalharam-se instintivamente e suas penas ganharam vida própria. Ela saiu da loja de conveniência rapidamente e avistou os dois ladrões balançando a sua bolsa para um lado e para o outro enquanto fugiam.

Achava aquilo injusto. Era muito injusto! Naquele celular estava o conteúdo do trabalho da faculdade dela; tinha passado por muitas coisas para conseguir aquele vídeo e agora iria perdê-lo para dois ladrõezinhos assim tão facilmente? Não! Ela definitivamente não iria!

Seus punhos de fecharam e seus dentes se cerraram. Logo mais ela estava correndo atrás dos ladrões como se estivessem com fogo nas canelas e proferindo inúmeros palavrões, dando a entender às pessoas, as quais ela quase esbarrava que, ela era realmente louca por estar correndo atrás de ladrões.  

(...)

No outro lado da rua, situava o restaurante tailandês dos pais de Kamon que Michael costumava frequentar de vez em quando. Ele estava sentado em uma cadeira enquanto os seus olhos negros encaravam com desinteresse uma miniatura de Buda de ouro, um dos mais preciosos tesouros da Tailândia e do budismo, a religião predominante da população thai. 

Michael estava pensando na conversa que teve com Jonathan, julgando ter sido uma burrice de sua parte ter aceitado a proposta do pai. Não sabia ao certo se aguentaria passar um ano trancafiado nos deveres de uma empresa que ele sequer tinha interesse. E o pior, era que ele já tinha aceitado e voltar atrás era como ferir o próprio orgulho.

— O que há com você, cara? Acordado há essa hora? — Kamon o encara embasbacado ao vê-lo tão cedo.

— Isso é tão... — Resmungou. — Eu acho que fiz merda. Puta que pariu! Como eu pude concordar com o que ele disse? — Rezingou, ainda encarando a pequena estátua dourada.

— O que você está falando, cara? — Kamon mudou de embasbacado para confuso.

— Eu deveria pelo menos ter apelado para seis meses. Porra, isso é tão frustrante! — Bateu uma mão na mesa, deixando Kamon ainda mais curioso para saber do que ele estava falando.

— Eu perguntei sobre o que você está falando! — O tailandês gritou agoniado, só assim finalmente chamando a atenção de Michael que o olhou rapidamente.

— Eu disse que fiz merda, cara!

— Isso eu já ouvi. — Kamon fez cara de tédio.

— Não cara. Agora é a merda das merdas, sabe? Eu... eu aceitei uma proposta do meu pai e em troca terei de passar um ano como diretor executivo do grupo. — Confessou, irritado consigo mesmo.

— E daí? Aquele grupo será seu um dia.

— Nunca! — Repreendeu o amigo. — Você mais do que ninguém sabe que eu não quero ser como o meu pai, que vive só para aquele grupo.

— Então você está desistindo de ir? — Kamon perguntou.

— Eu já aceitei. Não posso voltar atrás. — Respondeu, agora desviando os seus olhos para a janela de vidro enorme do restaurante. Kamon havia perguntado mais alguma coisa, mas Michael não pôde ouvi-lo, pois a sua atenção estava voltada agora em dois homens que passaram correndo pela calçada enquanto eram seguidos por uma garota que movia os lábios, fazendo o rapaz ter a certeza que ela estava xingando-os.

Nos primeiros instantes, ele achou a cena um tanto engraçada vendo aquela garota maluca correndo atrás de dois homens, mas quando notou que havia algo familiar nela, ele estreitou os olhos e a estudou rapidamente enquanto ela continuava correndo. Em um segundo que a Clarke virou a cabeça rapidamente, os olhos dele custaram a acreditar que era a “garota masculina”.

Michael olhou, olhou, olhou e olhou mais uma vez, debruçando o seu corpo sobre a mesa para não perdê-la de vista. Franziu o cenho. Era ela mesma! Estava um pouco diferente por causa das roupas que usava: uma calça jeans e uma blusa polo branca que combinava com seu tênis da mesma cor. O corte dos cabelos dela e a cor que combinava com os seus olhos, ele podia lembrar perfeitamente, e foi esse o fator x para que a certeza que ele tinha se fortalecesse. Definitivamente era ela! Mas... o que diabos ela estava fazendo?

— O que essa garota maluca está fazendo agora? — Murmurou, em seguida sobressaltou da cadeira, passou esbarrando de leve em Kamon, que ficou completamente confuso, e saiu porta a fora do restaurante. Não sabia exatamente o que estava fazendo, mas sentia que tinha que correr atrás dela.

Ele a seguiu, vendo-a correr atrás dos ladrões e proferindo coisas que ele não conseguia ouvir.

Os ladrões entraram num beco e sem ver o quanto era perigoso, Clarke também entrou, fazendo Michael arregalar os olhos, pois ele sabia perfeitamente que aquele beco não tinha saída.

O rapaz correu com mais velocidade, e finalmente quando conseguiu chegar até o beco, viu Clarke e os dois ladrões se encarando e discutindo.

— Está maluca, sua vadia? — O ladrão baixinho bradou nervoso com a ousadia da garota.

— Sério, pode ficar com a bolsa, eu só quero o meu celular. — Ela disse esbaforida. 

— Essa garota... — Ele sorriu nervosamente, em seguida puxou um canivete e apontou para ela. — Quer morrer?

Clarke engoliu em seco e deu um passo para trás com as mãos estendidas, sentindo o seu corpo ser envolvido num pequeno torpor de medo.

Michael que até então havia acabado de chegar à cena, aproximou-se de Clarke e a puxou pela mão. Ela olhou rapidamente para ele com os olhos esbugalhados e ficou completamente surpreendida quando lembrou claramente daqueles olhos negros e dos traços marcantes e esculpidos.

— Você está bem? — Ele perguntou num murmúrio de voz, enquanto encarava atentamente os ladrões.  

— Hum. — Ela murmurou ainda surpresa. — Mas... o que você...?

— Por que você veio atrás desses caras? — Perguntou com um tom de voz irritado.

— É que... Meu celular. Tem uma coisa muito importante no meu celular, então...

— Quem é esse otário? Por que está se metendo nos assuntos dos outros? — O ladrão baixinho a interrompeu, esbravejando atordoado enquanto mantinha a faca erguida.

— Otário? — Michael sorriu sem humor e respirou profundamente, se contendo para não pular naqueles caras e espancá-los. — Ai, ela disse que tem uma coisa importante no celular dela. Por que vocês não devolvem apenas o celular e acaba logo com isso? — Sugeriu pacificamente. Ele achava aquilo muito estúpido, mas já que estava ali mesmo...

— O que é que esse otário está falando? — O moreno resmungou enquanto se entreolhava com o comparsa, em seguida, o outro que portava o canivete, impulsivamente e tomado pelo nervosismo avançou pra cima de Michael, este que numa forma de proteger Clarke, a empurrou repentinamente contra a parede ao lado, onde ela se manteve. Ele bloqueou o ataque com um chute que deu na caixa dos peitos do ladrão, fazendo-o cair sobre uma pilha de caixas de papelão que havia ali.

— Que droga! Esse kung fu nojento!  — O outro resmungou olhando do comparsa para Michael, espantado pela peculiaridade do rapaz na forma de se defender. — Eu... Depois que eu te matar eu vou espancar essa vadia e depois brincar um pouquinho com ela. Já assistiu “doce vingança 2”? Então, vou fazer do mesmo jeito que aqueles caras fizeram com a Katie.

Ao ouvir isso, Clarke sentiu um frio na espinha, horrorizada ao imaginar a cena do filme. Michael arquejou fortemente e meneou a cabeça, indignado com a nojenta ameaça daquele troglodita.

— Sabe qual é o pior homem do mundo? Aquele que bate e abusa de mulheres. Como você descobriu? Eu odeio ver mulheres sendo agredidas ou abusadas. O que fazer, cara? Eu odiei o que você falou. — Disse calmamente enquanto passava as mãos nos cabelos, fervendo por dentro de raiva mal contida. Embora Michael fosse um pouco áspero por fora, ele tinha muito mais coisas positivas do que negativas a seu favor, e uma das coisas que ele mais odiava, aquele homem tinha acabado de dizer que iria fazer.

Ser um “Casanova” era uma coisa, mas abusar de mulheres era totalmente repugnante.

Então depois de ter a sua revolta inflamada, ele aproximou-se do ladrão, — que tentou fugir, mas não conseguiu — pegou-lhe pela gola do blusão, o golpeou no rosto e o chutou, fazendo-o cair no chão. Porém, o outro que ainda estava jogado sobre a pilha de caixas, lançou um pedaço de madeira que havia ali contra Michael, atingindo-o bem na testa. Instintivamente, o rapaz colocou uma mão sobre a sua testa e deu um passo para trás. Encarou aquele malfeitor, não crendo que tinha sido acertado por aquele filho da puta. Aquilo feria o seu orgulho como um lutador. Um sorriso maléfico surgiu em seus lábios. Ele iria matá-los na porrada.

Ele se aproximou do ladrão que agora já estava de pé novamente, pulou dando-lhe outro chute, fechou o punho e fez menção de socá-lo, mas foi detido quando sentiu os braços de Clarke agarra-lhe pela cintura por trás, lhe impedindo.

— Não faça isso. — Pediu, a fim de evitar uma tragédia. Pois ela já havia visto as habilidades de Michael antes, e com certeza se ele pegasse aquele cara de verdade, ele seria capaz de matá-lo com apenas alguns golpes.

Michael podia sentir a respiração descompassada da garota batendo contra as suas costas, percebendo que ela estava assustada.

— Cai fora antes que eu te pegue! — Falou para o bandido que o encarava assustadíssimo. Olhou para o outro. — Você também.

— Esse Shaolin mizerázel! — O mesmo ladrão resmungou, e só não ele como o outro também meteu no pé, deixando inclusive a bolsa de Clarke jogada no chão.

E ficaram ali por mais alguns segundos, e Clarke nem percebeu que já podia soltá-lo.

— Gostou tanto assim de mim que quer ficar agarrada comigo? — Michael perguntou sarcástico, tirando-a do torpor.

Ela soltou rapidamente o corpo dele e virou-se para o outro lado, mas ele se pôs na frente dela, segurou seus ombros e lançou-lhe um olhar indignado.

— O que exatamente você é? — Perguntou irritado.

— Eu só queria o meu celular e...

Ela tentou explicar, mas ele a interrompeu.

— Você não tem medo? Como uma garota pode ser assim tão impetuosa? Primeiro entra em um lugar cheio de homens, agora corre atrás de ladrões? Você não tem noção do perigo, garota?

— Não é assim... Eu só ia pegar o meu celular!

A desculpa dela só piorava a situação. Ele simplesmente não acreditava que ela arriscou a própria vida por causa de um mero celular. E se ele não tivesse a seguido?

— Você realmente é uma garota? Tão audaciosamente... — Ele estava incrédulo com a atitude dela.

— Está dizendo que sou audaciosa? — Ela ergueu o queijo em protesto.

— Se não é, então o quê?

Ela com certeza iria retrucar, inclusive já estava com a resposta na ponta da língua, mas quando viu que sangue começou a escorrer na testa dele, seus olhos se arregalaram.  

— Sangue...! — Murmurou horrorizada.

— O quê?

— Tem sangue aqui. — Disse apontando para a testa dele.

Michael passou a mão na testa e viu que realmente havia sangue quando olhou para os seus dedos melados.

— Ah, pode ter certeza de que se eu encontrar aqueles filhos da puta novamente irei matá-los! — Falou raivoso.

— Você precisa limpar isto. Vamos. — Clarke que antes viu que a sua bolsa tinha sido largada no chão, a pegou rapidamente e segurou o braço de Michael, que a olhou de cenho franzido.

— Não precisa fazer isso.

— Quer que eu me sinta mais culpada se isso infeccionar ou se você sofrer algum dano cerebral?

Ele sorriu rabugento.

— Seja menos, hum! — Respondeu desdenhoso.

— Vamos! — Ela insistiu mesmo assim, puxando-o para fora do beco, até estarem em frente a primeira farmácia que avistou. Lá ela comprou uma pequena pomada para ferimentos e alguns band-aids.  

Michael disse que se ela quisesse realmente ajudá-lo, teria que fazer isso em um lugar que não fosse público. Então teve a ideia voltar para o restaurante dos pais de Kamon que era próximo dali, já que ele só funcionava à noite.

Assim que os dois colocaram os pés dentro do restaurante, foram recepcionados por Gun, o pai de Kamon — que também era Tailandês.

— Michael, o que aconteceu com a sua testa? — Gun perguntou de cenho franzido.

— Não precisa se preocupar. Foi só um acidente. — Mentiu.

Gum olhou dele para Clarke, estranhando por não conhecê-la. 

— Quem é ela? — Perguntou.

— Ela? É só alguém que eu conheço. — Falou olhando-a com desdém. Clarke não se abalou com o olhar dele, sabia que ele ainda estava indignado com ela.

— Por favor, o senhor tem álcool e um pedaço de algodão? — Ela perguntou, dirigindo-se ao tailandês a sua frente.

— Claro. — Ele assentiu e afastou-se.

Clarke e Michael sentaram-se em uma mesa, ele a encarando ainda irritado e ela o olhando se sentindo culpada.

— Você! — Ele disse quebrando o silêncio que se instalara.

— O que tem eu?

— Qual é o seu nome?

— Bem... Meu nome é Clarke.

Michael sorriu sarcasticamente.

— Isso é incrível. — Resmungou com um olhar falso de asco.

— O quê? — Ela ficou confusa.

— Eu nem sabia o seu nome há alguns segundos, mas sempre quando encontro você, tudo se torna perigoso.

Ela sorriu se sentindo um pouco envergonhada.

— Me desculpe. — Murmurou.

— Você simplesmente não consegue evitar que os perigos aconteçam, não é mesmo? Eu sempre acabo te protegendo. Isso é tão irritante.

— Ei! Pra começo de conversa, quem pediu pra você se meter nos assuntos dos outros?

Michael arregalou os olhos ao ouvi-la.

— Olha só pra essa mal agradecida... Eu te salvei duas vezes, com quem você acha que está falando assim?

— Me desculpe. É que você...

— Esqueça! — Ele cruzou os braços e desviou os seus olhos dos dela.

Michael, é sério. Eu já me desculpei. — Choramingou.

Ele voltou a olhá-la rapidamente.

Michael? Como você sabe o meu nome? Você é uma stalker ou algo assim?

— Quem não sabe quem você é? Eu apenas sei. — Desviou o olhar do dele.

 O rapaz ficou um pouco intrigado. Ele era ciente de que era bastante conhecido por causa da família que veio, mas aquilo era estranho. Ela parecia não saber quem era ele da última vez e agora simplesmente o chama pelo o seu nome? Por mais que fosse intrigante, nos segundos seguintes esses seus pensamentos sumiram, pois agora que tinha notado mais uma vez o quanto aquela garota era bonita e completamente diferente de todas que ele já pôde conhecer. Tão ousada, destemida, mas completamente doce e fofa do jeito dela. Aquilo de certa forma o deixou encantado. Era como se aquele jeito dela o seduzisse.

Chamando a atenção de Michael que estava absorto em seus pensamentos e a de Clarke que olhava para um ponto insignificante daquele lugar, Gun reapareceu novamente com um saquinho de algodão e um frasco de álcool.

— Aqui está... — Gun limitou-se por não saber como chamá-la.

Clarke se pôs de pé.

— Clarke. — Completou amistosamente. — Obrigada, senhor.

Gun apenas assentiu e se afastou. 

Clarke pegou um pedaço de algodão e molhou com álcool, enquanto o rapaz apenas a observava. Aproximou-se mais dele ao ponto de ficarem a centímetros, afastou as mechas de cabelo que cobria a testa dele e encostou de leve o algodão no ferimento, fazendo ele afastar a cabeça bruscamente quando sentiu a ardência. 

— Ah, vá com calma! Michael resmungou. 

— Eu sequer toquei em você direito! Você é um bebê chorão? — Ela reclamou e deu um tapa no peito dele.

— O quê? Um bebê chorão? Não estou sendo. — Defendeu-se.

— Não? Você nem sabia que tinha se machucado até ver o sangue.

— Certo, eu não sabia mesmo. Mas agora que sei dói! — Reclamou. — Você é uma garota, deveria ser mais delicada.

— E você é um homem. Não deveria reclamar tanto de um simples ferimento.

— E de quem é a culpa de eu ter me ferido?

Clarke o encarou, mas não tinha o que responder. Ela sentia que a culpa era dela mesmo. Certo que não tinha pedido para ele se meter, mas de qualquer forma, ele a salvou novamente e ela estava realmente muito grata.

Quando ele finalmente ficou quieto, Clarke concentrou-se e limpou o ferimento da testa dele. Depois que aplicou um pouco da pomada, ela pegou um dos band-aids e inocentemente aproximou mais o seu rosto do dele na intenção de cobrir bem a ferida. Como nunca havia acontecido antes, Michael sentiu-se muito estranho quando olhou nos olhos da garota, tão concentrada no que estava fazendo, e os lábios pequenos e carnudos dela só pioravam a situação.

Clarke colocou o band-aid e passou levemente o polegar por cima, um pequeno sorrisinho brotou-se em seus lábios, este que não durou muito, pois instantaneamente os seus olhos cruzaram os dele, que também lhe fitava; e ela ficou presa lá.

Ambos tentavam entender o que aquilo significava, mas sentiam que era cedo demais para deduzir alguma coisa.

Tirando os dois do torpor, Kamon surgiu gritando estridente, acompanhado por mais outro amigo. Clarke rapidamente ergueu-se e Michael se recompôs na cadeira, pigarreando numa forma de disfarçar o clima que estava.

— Por que você saiu correndo daquele jeito? O que aconteceu com você, cara? — Kamon questionou assim que chegou perto dele, tocando no corpo do amigo a procura de danos.

— Foi um acidente. Não exagere. — Michael resmungou achando o tailandês um tanto exagerado.

Kamon olhou para Clarke e rapidamente a reconheceu.

— Oh! É aquele garoto... Espera, a garota. Uau. Você realmente é bonita. — Sorriu contagiante, fazendo todos sorrirem da forma alegre dele. — Mas... por que vocês estão juntos? — Franziu o cenho e chegou perto de Will, o outro rapaz que estava com ele. — Ai. Você não acha isso estranho? — Disse num tom insinuativo agora.

Michael e Clarke se entreolharam muito suspeitos. Ela tinha ficado muito sem graça, e quando Michael notou, decidiu aproveitar e brincar um pouco com  garota.

— Como assim “por que estamos juntos”? Ela é a minha namorada. — Disse com tranquilidade. O anuncio foi seguido por saudações e assobios de Kamon e de Will, enquanto Clarke o fuzilou de olhos esbugalhados. Ele era louco!  

Para provocá-la ainda mais, ele pegou a mão dela e fez um carinho no dorso com o polegar, o que desencadeou uni coro de gozações por partes dos amigos.

— Ela é gata. Vocês não concordam? — Perguntou sorrindo cinicamente.

Clarke se desvencilhou da mão dele com rapidez, sentindo o rosto enrubescer. Aquilo era tão embaraçoso.

— Na-não é assim... — Tentou esclarecer, mas Kamon a cortou, uma vez que sabia que Michael estava apenas caçoando com aquela garota. 

— Puxa! Você realmente é rápido.

— Para aguentar esse cara... Isso é que é amor de verdade. — Acrescentou Will que, até então só observava sorrindo, e o comentário foi acompanhado pela peculiar gargalhada animalesca.

— Mal posso esperar para ver o que acontecerá quando os dois tiverem a primeira briga.

— Briga? Isso a gente faz toda vez que nos vemos. — Michael falou divertido, enquanto a encarava.

Kamon e Will trocaram olhares cúmplices e começaram a incitar em uníssono:

— Beija! Beija! Beija!

— E agora amor, o que iremos fazer? Querem que nós nos beijemos. Devemos? — Aquela expressão cínica dele a fez ficar irritada e estalar a língua nos dentes.

— Esse cara realmente... — Sibilou, pegando a sua bolsa e pendurando-a em seu ombro. — Pelo o que aconteceu mais cedo... Obrigada! Agora estou saindo. — Girou o corpo e rumou em direção à porta.

— Aí. Espera! E se aqueles caras aparecerem?! — Gritou levantando-se e correndo atrás dela, deixando Kamon e Will confusos em relação ao que realmente havia acontecido entre eles.

Assim que Michael a alcançou, segurou-a pelo o braço, fazendo-a parar.

— O quê? Eu não já agradeci?

O rapaz coçou a cabeça e franziu o cenho.

— Você está brava? A gente só tava brincando.

— Deveria parar de brincar assim. É embaraçoso. — Levantou o queixo em protesto.

Ele ergueu as mãos em rendição e de repente ficou curioso sobre como ela iria voltar.

— Você... pra onde você está indo? Diga que eu te levo. — Se ofereceu amigavelmente.

— Não é preciso. Eu estou de carro.

— Está? — Ele arqueou as sobrancelhas. — E onde ele está?

— Um pouco mais lá na frente.

— Certo. Então eu te levo até ele. Vai que aqueles caras apareçam de novo.

Clarke apenas assentiu e os dois caminharam até o carro dela. Quando ela parou ao lado de um SUV prateado, Michael encarou o veículo, constatando ser o carro dela, e depois a encarou.

— Esse é o seu carro? — Indagou um pouco surpreso. Não imaginou que ela era pudesse ser rica, embora a carro não pudesse confirmar isso. Ela assentiu balançando a cabeça em positivo. — Nada mal. — Comentou.

Ficaram se olhando por alguns segundos, até que Clarke decidiu quebrar o silêncio constrangedor.

— Você... está realmente bem? — Fincou seus olhos na contusão dele com o olhar preocupado.

— Sim. Eu estou bem. — Foi a resposta. 

Ela pegou de dentro da sua bolsa a pomada, os outros band-aids e estendeu para ele.

— Aqui. Troque por estes depois.

Ele pegou os itens da mão dela e teve uma ideia.

— Me empresta o seu celular. — Pediu.

— Meu celular? — Pigarreou, achando estranho o pedido dele.

— Hum. Seu celular. Me empreste.

Clarke hesitou um pouco, mas deu.

Ele discou o próprio número no celular dela e ligou para ele mesmo, fazendo o celular vibrar no bolso do seu blazer.

— O que você está fazendo?

— Eu não disse antes? Que dá próxima vez que a gente se encontrasse, eu iria dar em cima de você?

Clarke sorriu sem humor.

— Então... Você está dando em cima de mim? — Perguntou.

O rapaz puxou o ar entre os dentes, olhou rápido para o lado e voltou a fixar seus olhos nos dela.

— Talvez. O que você acha? — Sua linha de expressão séria fez a garota ficar estática e presa no seu olhar.

Quando ela notou que estava demonstrando interesse demais no que ele tinha dito, com medo que ele percebesse isso, ela desvirou o seu olhar, pigarreou e voltou a encará-lo com um olhar evasivo.

— Não deixe que o seu ego infle, hum? — Disse estendendo a mão, pedindo o seu celular de volta. Ele sorriu e lhe devolveu. — Então... Eu vou indo. Obrigada mais uma vez. — Ela entrou no carro e deu partida, saindo dali, enquanto Michael acompanhava o veículo com os seus olhos.

— Se está mesmo grata, então não se meta mais em problemas. Só assim não terei que me meter. — Murmurou para si mesmo. Olhou para a pomada e os band-aids que estavam em suas mãos e sorriu, enquanto os seus olhos brilhavam. Enfiou os itens no bolso e voltou para o restaurante dos pais de Kamon.
 


Capítulo 6
“De frente com o futuro inimigo”

A MADRUGADA TINHA SIDO CURTA para Michael, que dormiu tarde, mas que a contragosto, teve que acordar cedo. Pois como ele tinha prometido ao pai, começaria a trabalhar naquele dia. 

Olhando-se no espelho, ele abotoou os botões da camisa branca, colocou a gravata em volta do pescoço e fez o nó. Embora estivesse muito bonito e elegante dentro daquela roupa social, ele não estava acostumado a vestir-se daquele jeito, sentia-se estranho. Por que tinha que vestir um terno? Era desconfortável. Tão agonizante, como se aquela gravata fosse sufocá-lo. Em outras palavras, ele estava começando a viver o inferno na terra.

 Depois de colocar o relógio no pulso, recolheu o seu celular que estava em cima do criado mudo, pegou o paletó que estava sobre a cama e saiu do quarto.

Desceu as escadas com uma mão no bolso, enquanto com a outra segurava o paletó jogado sobre um ombro. Quando avistou Jonathan e Natalie sentados no sofá da grandiosa sala, aproximou-se e pigarreou para chamar a atenção deles.

— Já está pronto? — Jonathan perguntou, olhando-o maravilhado. Ainda não podia acreditar que o filho estava indo à empresa.

— Hum. — Ele assentiu.

— Olha só pra esse cara! — Natalie sobressaltou do sofá e correu até o irmão, agarrando no braço dele. — Uau. Terno cai bem em você. — Analisou-o, achando ele o homem mais bonito do mundo. — Você vai mesmo trabalhar com o papai? — A menina perguntou em seguida.

— Sim. — Michael respondeu com um tom desanimado.

— Isso é tão incrível! — Natalie comentou eufórica, com esperança de que agora, talvez, a tensão entre eles atenuasse, já que o motivo do desentendimento deles era o fato de Michael não querer ir à empresa. — Mas, o que aconteceu com o a sua testa? — A menina perguntou quando viu um band-aid que estava sendo escondido pelo o cabelo dele.

— Nada demais. Eu apenas me machuquei. — Mentiu.

Jonathan olhou para a contusão no rosto do filho e embora tivesse preocupado, não perguntou como ele conseguira aquilo, pois aquela não tinha sido a primeira vez que ele aparecera assim.

Natalie fez menção de tocá-lo na testa.

— Mas você...

— Não está na hora de você ir à escola? — Michael a cortou, numa tentativa de mudar de assunto.

— Ah. É mesmo. — Voltou-se para Jonathan. — Papai, me dê carona hoje, hum? — Natalie não conseguia esconder o tamanho da sua felicidade, alternando o olhar entre o pai e o irmão, com um sorriso esboçado nos lábios. 

(...)

Dentro do carro, Natalie não parava de falar. Como ela estava no banco de trás do carro, ela jogou o seu corpo para frente, pondo a cabeça entre Jonathan e Michael que estavam nos assentos da frente. 

— Mas Michael, agora que você está se tornando um homem sério, não acha que está na hora de arrumar uma namorada e casar-se com ela, só pra consolidar a sua nova reputação? — A menina perguntou, que com tão pouca idade, achava que o irmão teria que arrumar uma mulher que lhe merecesse, já que para ela, ele era bom demais para qualquer uma.

Jonathan sorriu da filha, enquanto mantinha a sua atenção no trânsito.

Michael olhou para ela e estalou a língua nos dentes, numa repreensão indulgente. 

— Você é tão... impossível com essa idade, menina. — Ele resmungou, vendo-a dar de ombros. — Desde quando entende de relacionamento?

— Eu apenas entendo. — Respondeu ela, erguendo o nariz.

— Por favor, Natalie! Seja apenas uma garota de quinze anos, sim?

Quando a menina abriu a boca e fez menção de falar mais uma fez, Michael olhou para o lado e suspirou, mas sentiu-se completamente aliviado quando avistou o colégio da menina.

— Aí. Já chegamos. — Disse cortando-a.

— Ah, é mesmo. — Ela pegou a sua mochila, esticou-se, deu um beijo na bochecha do pai, em seguida na do irmão e desceu do veículo. — Tchau meninos. — Fez um breve aceno para eles e rumou para dentro da escola.

(...)

As portas gigantescas feitas de vidro da empresa matriz abriram-se automaticamente assim que Jonathan e Michael aproximaram-se. Uma vez que a atravessaram, pai e filho andaram lado a lado em passos longos e firmes, ganhando a atenção dos funcionários que os cumprimentavam.

Por mais que Michael fosse indiferente com os olhares daqueles que o detestavam dentro daquela empresa, ser o centro das atenções pelo o fato dele ser o filho do dono e presidente/CEO do conglomerado, lhe incomodava. Mas ele preferiu não fazer caso, apenas colocou as mãos nos bolsos e continuou andando, enquanto seus cabelos fartos esvoaçavam um pouco, deixando seu ar de sexy aos olhos das funcionárias que o olhavam mendigando por uma migalha.

Esperaram o elevador calmamente e quando o mesmo chegou, os dois entraram. Duas jovens funcionárias também adentraram e se puseram ao lado de Michael, que manteve o seu olhar fixo para frente. As duas funcionárias encararam o rapaz de lado e ficaram boquiabertas ao repararem os traços daquele homem extremamente bonito, e só quando uma delas cochichou para a outra que ele era Michael Jackson, o herdeiro do grupo, que ele pôde ouvir. Era sempre assim. Quando as pessoas ficavam sabendo quem ele era, um prota, ele automaticamente tornava-se mais interessante, e como ele já estava familiarizado com aquele tipo de situação, sabia muito bem o que fazer. Ele virou um pouco o rosto, as encarou e abriu um sorrisinho sínico para elas, e esse ato dele foi como uma bomba para as duas funcionárias que pensaram que estavam sonhando que o herdeiro do grupo havia sorrido para elas.

As portas do elevador se abriram no último andar, e Jonathan e Michael andaram a passos longos e firmes até a porta à frente deles, que estava sendo protegida por duas secretárias vestidas elegantemente. As letras que indicavam que aquela era a sala de reunião proporcionaram novamente para Michael a ideia de que ele tinha errado ao aceitar a proposta de Jonathan, mas como ele já estava ali mesmo, apenas cumpriria com a sua parte. 

A sala de reunião estava lotada, fazendo-se presente os outros acionistas, os diretores executivos e alguns advogados que trabalhavam para o grupo, esperando o presidente chegar para dar início à reunião.

As portas foram abertas, e por um momento, todos que estavam ali presentes se calaram quando viram Michael. A feição de todos era de total surpresa.
Jonathan adentrou seguido pelo rapaz que, ganhou todos os tipos de olhares do batalhão que rodeava a enorme mesa.  

— Bom dia. — Jonathan disse enquanto fazia o encalço até a cadeira majoritária. Michael o seguiu e assim que o Jonathan sentou-se, ele também se sentou na lateral da mesa, justamente em frente ao terceiro acionista chamado Robert Bradshow, este que o encarou com o olhar curioso, deixando o rapaz já de cara intrigado.

Michael já estava ciente da situação, já que antes de vir trabalhar, Jonathan havia lhe dito algumas coisas e lhe dado algumas orientações, inclusive falando um pouco dos funcionários de cargos importantes e dos outros acionistas. Só não lhe disse quem exatamente era a pessoa que estava tentando prejudicá-lo.

— Me desculpem pelo o atraso. Mas pulando as formalidades, hoje tenho um anúncio para dar a vocês. — Jonathan começou a falar, ganhando a atenção de todos; respirou fundo já sabendo que o que ele estava prestes a anunciar seria motivo para um burburinho. — Eu sei que por muito tempo houve rumores pelos corredores e até mesmo fora da empresa de que o meu filho não tinha interesse no Grupo Chromish. — Ele colocou os cotovelos sobre a mesa e entrelaçou os dedos embaixo do queixo. — Mas... que tipo de filho não se interessaria pelo o que já lhe pertence por direito? Isso não é meio absurdo? — Sorriu calmamente, tentando passar para as pessoas a certeza de que o boato era falso, embora ele fosse verdadeiro. Mas esconder isso daquelas pessoas era a coisa certa.

Michael que até então tinha os olhos detidos em uma garrafinha de água mineral à sua frente, olhou para Jonathan.

— Então para provar que rumores são apenas rumores, hoje anuncio que meu filho, Michael Jackson, o herdeiro desse grupo, oficialmente está entrando para a equipe como diretor executivo e responsável pelo projeto da empresa filial Chromish Construction, na construção do parque temático. — Ele olhou para Michael, e o mesmo se pôs de pé por breves segundo, voltando-se a sentar novamente.

Como já estava previsto, todos ali se entreolharam e deram início aos burburinhos de oposição contra ao que Jonathan tinha dito. Michael não se importava com o que aquelas pessoas falavam sobre ele e manteve-se calmo e indiferente sobre os comentários negativos.

— Pessoal, por favor! — Jonathan aumentou um pouco o tom da voz, fazendo todos se calar. — Não entendo o motivo de tanta objeção! — Ah, ele entendia sim!

— Isso é um absurdo! Como pôde ter tomado uma decisão sem antes consultar os outros acionistas? — Protestou um dos acionistas, indignado.

— Consultar? Vocês todos que possuem ações, se juntarem todas não chega nem a metade da quantidade que eu possuo. Eu não sou o dono desse grupo apenas porque possuo a maior quantidade das ações, mas também porque eu o herdei. E ele é o que é hoje por minha causa! Então, estão querendo me dizer que eu tenho que pedir permissão para dar um cargo ao herdeiro, o futuro dono? — Jonathan falou com autoridade. 

Michael olhou para Jonathan extremamente surpreso, pois nunca tinha visto o pai se exaltar daquela forma com outras pessoas, exceto com ele.

— Mesmo que ele seja o seu filho, como pode nomeá-lo como diretor executivo, quando ele nem dava as caras direito ou mostrava interesse?

— Eu concordo. E também que experiência ele tem sendo tão jovem? — Outra pergunta foi feita.

Jonathan suspirou impacientemente. Já Michael sabia que iria ser assim, e também não era pra menos, ele nunca dava as caras e agora estava tomando posse de um cargo que para outras pessoas era anos de trabalho árduo para conseguirem. No entanto, o fato de ser julgado pela sua idade era realmente muito ridículo, ao ponto de fazê-lo sorrir sem humor.

— Então... eu deveria morar na empresa para vocês verem o tamanho do meu interesse? — Michael soou ironicamente, mas mantendo o seu tom de voz polido. — Se vocês estão tirando conclusões precipitadas sem antes saber do que eu sou capaz, deveria saber que se eu por acaso cometer um erro, coisa que não acontecerá é claro, o maior prejudicado entre todos será eu mesmo, o herdeiro. Por que simplesmente não esperam pra ver, hum? Eu não sou só um rostinho bonito... São vocês que apenas não me conhecem.

— E o que você entende de empresas? — Foi questionado outra vez.
Michael definitivamente não queria responder, achava aquilo muito humilhante para ele ter que ficar dando explicações para aquelas pessoas, mas decidiu ser paciente.

— Eu cursei administração de empresas e ao contrário do que vocês todos pensam, estou familiarizado com assuntos que ouvi o presidente de vocês falar sobre. Querem que eu dê uma palestra? — Soou irônico.

Robert Bradshow o encarou furiosamente, mas não demonstrou no seu semblante. Ele definitivamente nunca fora com a cara daquele rapaz sem antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente, mas agora que eles se encontraram as coisas pioraram. Ter que lidar com Jonathan já era arduamente difícil, e com o seu filho que mostrava petulância e perspicácia seria o dobro.

— Isso é interessante. — A ambição em pessoa se pronunciou. — Ele parece ser muito inteligente e seguro sobre si mesmo. Isso é muito bom, no entanto, isso é uma jogada muito arriscada. Quando os investidores estiverem a par da situação, ficarão inseguros sobre nós. Mas, como não há vitória sem antes ter que pisar nas pedras do caminho, deveríamos aceitar. Vamos dar uma chance, afinal, ele é herdeiro. — Só pelo tom que Robert falou, Jonathan e Michael notaram que ele não estava sendo sincero.
Michael sabia que no mundo havia muitos humanos que desistiam de serem humanos e que a ganância e as mentiras estavam se tornando norma. Aquele mundo estava cheio de depravação e difamação. Por isso, no início ele desconfiou de todos, analisando um por um toda vez que abriam a boca para falar, mas foi quando ouviu o que Robert disse que percebeu que algo de errado estava ali além da sua falsidade nítida. Seu tom era sombrio e maléfico, o rapaz podia perceber isso.
Aquelas pessoas se entreolharam novamente, ainda não conformados com a decisão do presidente, mas ficaram em silêncio.

— Então, — Jonathan se levantou. — a reunião está encerada! — Decretou e saiu da sala, deixando todos, inclusive Michael.

Quando Michael estava prestes a deixar a sala, Robert o abordou. O rapaz o encarou profundamente, vendo o mal no olhar daquele homem.

— Seja bem-vindo, diretor Jackson. — Robert estendeu uma mão para felicitar o rapaz e abriu um sorrisinho falso.

Michael olhou para a mão enrugada dele e depois voltou a encará-lo.

— Não precisa fingir que gosta de mim e nem que concordou com a decisão do meu pai. Eu não preciso disso. — O rapaz foi incisivo, fazendo com que o sorriso de Robert sumisse. — Nós iremos trabalhar juntos, então eu peço que quando for se dirigir a mim, que seja por um motivo relacionado ao trabalho. — Sorriu sem humor. — Me desculpe pela minha sinceridade desconcertante, mas eu não consigo receber felicitação de pessoas que não gostam de mim. Você não precisa se esforçar tanto. 

Robert ficou encarando-o por alguns segundos, completamente furioso pela arrogância do rapaz, mas ele não demonstrou isso, simplesmente abriu um sorriso de escárnio e ardiloso.

— Eu não sei quanto ao seu pai...

— Presidente. — Michael o cortou, corrigindo-o.

— Certo. Presidente. Eu não sei quanto a ele, mas você parece muito seguro de si mesmo, garoto.

Michael respirou profundamente e ficou com a expressão mais rígida.

— Garoto? Certo. Então espere só e veja o que esse garoto sabe fazer. — Falou altivamente, seco, polido e objetivo, em seguida afastando-se de Robert.

Michael sabia que conviver com aquelas pessoas seria muito cansativo e estressante, principalmente com Robert Bardshow que demonstrava ser um homem ganancioso e ardiloso. Só assim ele pôde realmente ver o que o Jonathan enfrentava sozinho, e isso ascendeu um pouco de motivação para ele ajudar o pai.

Certo! Ele iria trabalhar duro durante os doze meses até o grupo estar totalmente fora de perigo e depois disso, voltaria para o que ele realmente queria fazer.

(...)

Michael jogou-se com roupa e tudo na cama, sentindo-se extremamente cansado, visivelmente duas vezes mais cansado do que quando ele passava a noite fora. Havia passado o dia inteiro estudando algumas papeladas para ficar a par da situação atual do grupo; havia visitado a Chromish Construction para assumir oficialmente a construção do parque temático e até foi ao local onde iria ser construído. E se isso já não bastasse, ainda teve que voltar para a matriz antes de finalmente poder voltar para casa. Aquela rotina só consolidou mais ainda a sua certeza de que ele não queria ter uma vida como aquela para sempre. Era tão cansativa e estressante que, sendo o primeiro dia, ele já esperava ansiosamente pelo último.

Ele olhou o para o relógio em seu pulso que apontava para 20:45 PM e resmungou um palavrão por ser tão tarde. Seu celular vibrou no bolso e quando ele o pegou, o nome de Kamon aparecia na tela. Deslizou o dedo sobre ícone verde e atendeu.

— Hãm. — Murmurou preguiçoso.

— Chegou agora? — Kamon perguntou do outro lado da linha.

— Hum. — Michael disse apenas.

— Shiii... Pela sua voz já vi que hoje não irá para o clube.

— Realmente hoje não vai rolar. Me sinto tão exausto que acho que nem consigo nem levantar uma faca, quanto mais uma espada.

Kamon sorriu do outro lado da linha. 

— Então já que você é um homem de negócio, desligarei e deixarei você descansar, Diretor Jackson. — Disse zombeteiro.

— Isso, continue fazendo piadas. — Michael falou num tom repressor com falsidade, que fez o tailandês sorrir novamente.

— Nos falamos depois. — Kamon disse, ele assentiu e ambos finalizaram a ligação.

Michael fechou os olhos por alguns segundos, pensando se realmente teria que ir dormir cedo. Para o clube ele não podia ir, pois não tinha certeza se iria voltar antes da meia-noite, mas sair sozinho e ainda por cima cansado seria entediante demais. Foi aí que uma luzinha ascendeu na sua cabeça e ele levantou-se da cama, levando o celular junto, vasculhando a sua agenda telefônica até encontrar o nome de Clarke. Sem que ele percebesse, um sorrisinho estúpido tomou conta dos lábios e ele finalmente colocou o número dela para chamar.

(...)

Clarke estava sentada na sua cama, pernas cruzadas e o seu notebook sobre elas. Seu dedo deslizava-se pelo touchpad e sua atenção estava voltava para a tela. Ela já havia visto novamente o vídeo que gravara em seu celular dos meninos no clube e agora estava pondo o seu trabalho em prática, editando o vídeo e colocando algumas legendadas.

Sua atenção foi cortada quando o seu celular tocou sobre o criado-mudo e ela foi obrigada a colocar o notebook sobre a cama e esticar o corpo para alcançar o aparelho. Olhou para a tela e franziu o cenho por não reconhecer o número. Deslizou o dedo sobre o ícone verde na tela e encostou o aparelho na orelha.

— Alô? — Disse, mas não recebeu nenhuma resposta, apenas conseguia ouvir a respiração da outra pessoa do outro lado da linda. — Alô? — O silêncio continuou, deixando Clarke impaciente. — Se não vai falar, então irei desligar. — Quando a garota afastou o celular e estava quase desligando, ouviu a voz do outro lado da linha finalmente falar.

— Onde você está? — A voz era rouca, mas refinada.

Clarke aproximou novamente o celular da orelha.

— Alô?

— Eu perguntei onde você está. — A voz do outro lado da linha falou novamente.

— Quem está falando? — Perguntou confusa.

— Serio que não reconhece a minha voz?

Clarke meneou a cabeça para o lado, ponderou, ponderou e ponderou, até que se lembrou perfeitamente a quem pertencia àquela voz.

— Por acaso... é o Michael? — Indagou só por via das dúvidas.

— E quem mais seria? Seu namorado?

A garota arregalou os olhos e sobressaltou da cama, surpresa pela ligação.

— Por que... está me ligando? — Perguntou debilmente.

— Você está ocupada?

— Eu? — Ela olhou para o notebook aberto em cima da cama. — Não. — Mentiu.

— Então vamos nos encontrar. — Não foi nem uma pergunta, mas sim uma intimação.

— O quê? Nos encontrar?

— Hum. — Assentiu.

— Agora? Aonde? Por quê? — Questionou nervosamente, ainda abalada pelo o impacto da notificação.

— Não faça muitas perguntas, apenas me encontre, hum? — Foi a resposta dele.

— Mas... — Clarke olhou a hora pelo o seu celular e respirou fundo. — Se queria me encontrar, por que não ligou mais cedo?

— Eu estava trabalhando.

— Ele trabalha? Isso sim é surpreendente. — Falou baixinho, mas mesmo assim ele pôde ouvir.

— Eu consigo ouvi-la!

Ela pigarreou para disfarçar.

— Então... você está me chamando para um encontro? — Atreveu-se a perguntar.

Michael franziu o cenho e respirou fundo do outro lado da linha.

— Eu nunca convido as garotas para um encontro, mas se você quiser considerar como um, apenas faça.

Clarke fez cara de nojo.

— Você é tão mesquinho e rude. Esqueça! — Deu a entender que iria desligar o celular.

— Espera! Não desliga! — Michael sabia que era infantil o que ele iria falar, mas era a única desculpa estúpida que ele tinha para dar. — Minha testa, por causa daquele ferimento, ela não está bem.

Ela sorriu, sabendo perfeitamente que ele estava mentindo. Que homem em sã consciência ligaria para uma garota por causa de um ferimento pequeno na testa, ainda mais sendo tarde da noite? Ele queria mesmo era encontrá-la e ela sabia disso.

— É mesmo? Então você não deveria ir a um hospital ao invés de estar pedindo para eu ir vê-lo?

— Por acaso foi culpa do hospital de eu ter me machucado? Não, foi sua! Então se responsabilize!

A garota sentiu vontade de sorrir, mas se conteve.

— Certo. Mas vou logo dizendo que será rápido! Aonde quer que eu o encontre?

Em frente ao museu Metropolitano de Arte. Não se atrase! — Depois do seu aviso final, ele finalizou a ligação antes mesmo que ela pudesse falar mais alguma coisa.

Clarke olhou para a tela do celular, não acreditando que ele realmente havia desligado o telefone na cara dela. Poxa, ele às vezes tinha alguns gestos de um cavalheiro, mas em compensação disso, ele era tão rude. Clarke não sabia o que mais havia visto nele além da sua beleza, e, realmente não entendia o porquê que havia gostado tanto daquele jeito dele. Era simplesmente incompreensível. 

Quando saiu do seu transe, ela fechou o notebook e correu para o banheiro, tomando um banho rápido, rápido mesmo. Em menos de vinte minutos a garota saiu do banheiro com uma toalha enrolada no corpo e outra nos cabelos. Ela foi até o seu closet e catou algumas roupas a procura da mais digna de um encontro, mas como o estilo dela não incluía nada curto ou esvoaçante, um short jeans claro um pouco folgadinho e uma blusa bem leve e solta branca de mangas compridas não era tão mal. E além do mais, o short era bonito e caia bem no seu corpo magro e a blusa apesar das mangas compridas, a gola V mostrava o quanto era bonito o seu colo e pescoço. Pelo menos ela se sentia bem confortável com elas. Para completar o look, ela calçou uma sapatilha preta, secou os seus cabelos que agora estavam úmidos e optou por usá-los soltos. E claro que não pôde esquecer-se de se perfumar.

— Será que eu to legal? — Murmurou para a sua imagem no espelho, tendo a certeza de que ainda faltava algo. Esticou os lábios num sorriso e estalou os dedos quando notou o que faltava. Foi ao encalço da sua bolsinha onde ela sabia que estavam alguns produtos de maquiagem, tirou de dentro um delineador e contornou a parte de cima dos olhos com uma linha fina, depois aplicou rímel e um batom clarinho. Certo que ela sem sempre andava por aí usando maquiagem, tanto que na maioria das vezes os seus lábios ficavam ressecados, mas como ela iria se encontrar com Michael, ela queria pelo menos impressioná-lo uma vez. Pois quando se encontraram pela primeira vez ela estava vestida como um garoto e na segunda estava usando roupas muito casuais, não queria que ele tivesse apenas a imagem dela agindo estranho, como vestida de um garoto ou correndo atrás de ladrões, dessa vez ela queria passar uma boa imagem dela, mostrar-lhe que era uma garota de verdade.  

Quando já estava pronta, ela pegou o seu celular, a sua carteira, as chaves do seu carro e saiu do quarto de mansinho para não acordar os seus pais e nenhum dos empregados.


Capítulo 7
“Uma garota adorável”

CLARKE PAROU O CARRO EM frente ao museu, pegou apenas o seu celular e saiu do veículo. Fez a volta e passou os olhos por todo o local a procura de Michael, mas só conseguia ver algumas barracas noturnas e alguns casais sentados, namorando.

— Cadê ele? — Disse baixinho, vasculhando o seu celular e ligando para ele. Três toques depois ele atendeu a ligação. — Cadê você? — Perguntou enquanto andava para ver se o encontrava.

— Você está atrasada? — A voz aveludada soou do outro lado da linha.

— Não. Só não consigo te ver. — Disse, em seguida parou rapidamente quando avistou o rapaz um pouco mais à frente, encostado no seu carro e com o celular rente a sua orelha. — Já vi você. — Disse apenas e finalizou a ligação antes que ele pudesse falar algo.

Michael olhou para a tela do celular e franziu o cenho. Clarke aproximou-se e ele ergueu a cabeça quando percebeu a presença dela. Ao vê-la, seu corpo petrificou e somente os seus olhos moveram-se, percorrendo lentamente pelo o visual da garota. Que ela era bonita isso era um fato que ele já sabia, mas vê-la daquela forma — tão feminina — o deixou maravilhado, o que era exatamente a intenção de Clarke. 

— O que foi? Por que está me olhando assim? — Perguntou ela fingido não saber o motivo.

— Olha só... Agora eu tenho a certeza que você é de fato, uma garota. — Ele falou enquanto sorria, tentando esconder que na verdade estava surpreso.

Clarke sorriu sentindo-se um pouco enrubescida. Aproximou-se mais e analisou a testa dele.

— Você... estava mentindo, certo? — Perguntou quando notou que não havia nenhum band-aid na testa do rapaz.  

— Claro que não. — Sorriu torto. Ele tirou do bolso do seu blazer um band-aid, depois que mostrou a ela, voltou a aguardá-lo e afastou os cabelos que cobria um pouco a sua testa, para mostrar-lhe a lesão que estava cicatrizando. — Isso dói, e a culpa foi sua!

— Tá, eu já sei. Então foi por isso que você me chamou?

— Também. — Ele desviou os seus olhos por um breve instante.

— Também? — Ela arqueou as sobrancelhas com a certeza de que ele não havia lhe chamado por causa daquilo, e perguntava-se qual poderia ser a verdadeira razão.

— Hum. Primeiro vamos comer. Eu estou morrendo de fome. — Michael disse fazendo careta e colocando a mão na barriga.

— Comer? — A garota sorriu descrente. — Uau... Você é inacreditável! — Resmungou.

— Eu? Eu sou o inacreditável? — Ele lançou pra ela um olhar insinuante.

Ela desviou os olhos e tossiu.

— E aonde deseja comer a essa hora? — Desconversou com a voz mansa e suave.

Michael não respondeu, apenas esboçou um sorriso malandro, enfiou as mãos nos bolsos da sua calça, deu-lhe às costas e se pôs a andar. Parou alguns passos depois quando notou que ela não estava o seguindo, e virou-se para encará-la.

— Você não vem? — Perguntou em voz alta.

Clarke ficou encarando-o por alguns segundos enquanto cogitava. Ele podia ser perigoso, mas mesmo assim decidiu ir com ele sem medo algum. Não obstante, às vezes mostrava ser um pouco rude e altivo, ela sabia de qual família ele vinha e que ele rescendia a água de colônia cara, em outras palavras, um cara refinado. Além disso, ela o via como os heróis das histórias em quadrinhos que sempre aparece quando a mocinha entra em perigo. Bem, ela não era como as outras mocinhas cem por cento indefesas, mas gostava da ideia de ter sido salva por ele duas vezes.

Clarke ainda o seguia em silêncio, enquanto observava-o andando elegantemente. Ele tinha um porte físico agradável e atlético, porém não chegava a ser como os atletas brutamontes. Pelo o contrário, ele era magro, mas por causa do treinamento intensivo que teve enquanto aprendia artes marciais, ele ganhou alguns músculos e uma postura atraente. E quer saber? Ela estava adorando aquela visão, tanto que estava com um sorrisinho desenhado em seu rosto, — que não durou por muito tempo, inclusive.  Pois quando Michael virou-se para conferir se ela ainda estava o seguindo, quase a pegou em flagrante.

Um pouco mais a frente, havia uma barraca de petiscos que era famosa por vender os melhores barquinhos com provolone, gorgonzola, cupim desfiado e vários outros petiscos. Por trás da barraca estava uma senhora preparando alguns pedidos e uma mulher morena lhe ajudando.

Michael aproximou-se e se sentou em um banco em frente a uma mesinha de plástico. Clarke também fez o mesmo, de cenho franzido, não entendendo o motivo deles estarem ali, naquele lugar.

— Por que... estamos aqui? — Ela perguntou hesitante, recebendo o olhar dele.  

— Por quê? Não gosta desse tipo de lugar? 

— Não é isso. — Apressou-se em responder com medo de que ele a entendesse mal. — É que... Você não parece o tipo de pessoa que frequenta lugares assim. — Explanou nervosa. Não que ela fosse uma pessoa que abominasse aquele tipo de lugar ou como uma daquelas pessoas cheias de frescuras que vinham de família rica, ela só não fazia ideia que o herdeiro de um grande grupo era adepto àquele ambiente.  

— Bem, — Michael cruzou as suas longas pernas e apoiou um cotovelo sobre a mesinha. — não são todas essas barracas que tem o privilégio de ter Michael Jackson como cliente. — Disse com presunção, mas numa forma de brincadeira. — Mas então, aqui vende o melhor barquinho de provolone e a melhor batata frita. Você vai ver. — Desviou o olhar e rapidamente voltou-se a ela novamente. — Espera! Não me diga que você não come essas coisas com medo de engordar. — Caçoou.

— Eu não tenho tempo pra ficar me preocupando com essas coisas. — Ela resmungou e estalou a língua nos dentes num amuo.

— Uau. Você é realmente diferente das outras mulheres.

— Percebeu isso agora? — Ela arrebitou o queixo.

Ele sorriu e olhou para o lado quando alguém proferiu o seu nome.

— Michael Jackson. — A morena alta aproximou-se de Michael com um sorriso desenhado nos lábios carnudos, sorriso este que lhe foi retribuído pelo rapaz.

— Julie. — Ele se levantou e os dois se cumprimentaram com um rápido meio abraço, enquanto Clarke os observava tendo uma ideia errada sobre o relacionamento dele com a morena.

Julie era uma sobrinha distante de Matilde, a governanta da casa de Michael, que ele conheceu alguns anos atrás quando a mesma tinha ido buscar a tia no trabalho. Ela era uma mulher bonita e mais velha que Michael, inclusive, embora fossem apenas amigos, foi com a morena que o rapaz teve a sua primeira transa. Em outras palavras, Julie tirou a virgindade do rapaz quando o mesmo estava na adolescência. Mas, esse ocorrido não afetou a relação dos dois, pois desde então eles continuaram com a amizade.

— Você estava sumido. Como vai? — A voz de Julie era forte.

— Bem, e você? — Michael também a cumprimentou.  

— Eu também estou bem. — A morena olhou para Clarke estranhando o fato de ela estar com Michael. — A propósito, porque o Tai não está com você hoje? — Ela se referia a Kamon assim por causa da sua nacionalidade.

— Não pudemos nos encontrar hoje. — Foi a resposta dele.

— Isso é um milagre. — Brincou. — Ah... — olhou para Clarke. — É a sua namorada?

Michael deu um sorriso de viés e Clarke arregalou um pouco os olhos.

— Não... Nós não somos namorados. — A garota respondeu não entendo o razão de ele não ter respondido, e tampouco o motivo daquele sorriso.

— Sério? — Ela olhou para ele e sorriu. — Que pena. Ela é bonita. — Elogiou a garota com sinceridade. — Oi, eu sou a Julie. — Se apresentou.

— Clarke. Muito prazer. — Ela sorriu também.

— Mas então. O que vocês vão querer?

— O de sempre. E ah, traga também uma porção daquelas batatas deliciosas que a sua avô faz, por favor. — Pediu.

— Certo. Vai querer alguma bebida?

— Traga dois refrigerantes. — A morena olhou pra ele estranhando a escolha, porque sempre quando ele ia ali com Kamon, o pedido era o mesmo: cerveja ou qualquer outra coisa que tivesse álcool. — Eu não posso beber hoje. Sou um homem sério agora. — Explicou para a morena.

— Olha. Se você está dizendo. — A morena falou em tom de brincadeira e logo em seguida se afastou para atender ao pedido. 

Michael pegou o celular e passou a vasculhá-lo por um momento, enquanto Clarke o observava tentando entender como realmente ele era. Certo que essa era a terceira vez que eles se encontravam, mas como ela sabia quem ele era — o herdeiro do grupo onde Robert, seu pai, tinha algumas ações — vê-lo assim, deixava-lhe muito mais curiosa pra saber como era o seu verdadeiro “eu”.

Michael levantou o olhar e viu que a garota lhe encarava de forma estranha.

— O quêêêêê? O que há de errado com você pra me olhar assim? — Questionou, guardando o celular no bolso do seu blazer e tirado Clarke do estado de transe.

— Vamos falar a verdade. Por que estamos aqui? — Perguntou curiosa.

Ele arqueou as sobrancelhas em conjunto.

— Eu já disse que estou com fome. — Respondeu. — A propósito, eu estou muito curioso sobre uma coisa.

— Sobre o quê?

— Você. Qual foi a verdadeira razão para você ter seguido aqueles dois ladrões? — Indagou, tendo em mente a imagem dela correndo.

— Eu já disse. Porque tinha uma coisa muito importante no meu celular.

Ele arquejou.

— Era tão importante assim, ao ponto de fazer você arriscar a sua vida? 

— Bem... — A garota mordeu o lábio inferior, ponderando se contava a ele ou não. Não sabia ao certo qual seria a reação do rapaz, mas mesmo assim achou que ele deveria saber, já que ele estava no vídeo. — A verdade é que... você está naquele vídeo. — Confessou.

Michael pestanejou algumas vezes antes de falar.

— Eu? — Seu olhar agora era confuso. Como assim ele estava no vídeo? Aliais... Que vídeo?

— Hum. — Ela confirmou.

Ele sorriu, achando aquilo engraçado. Olhou para o lado, coçou a nuca e voltou a fitá-la. 

— Por eu estaria em um vídeo no seu celular? Não me diga que você é uma... Stalker? — Arregalou um pouco os olhos, caçoando da garota.

— Não é isso. — Ela disse rapidamente. — Não me entenda mal. Eu só precisava de algo interessante para apresentar o meu trabalho da faculdade.

— Trabalho da faculdade? Espera aí, que tipo de vídeo é esse? — Indagou.

— É que... É de você e aquele seu amigo chinês lutando no clube. — Respondeu baixinho. 

Foi então que tudo começou a se encaixar na cabeça de Michael.

— Então quer dizer que... Naquela noite que você entrou no clube vestida como um homem, foi para nos filmar?

— Não exatamente. Apenas aconteceu. — Respondeu, não sabendo ao certo se ele estava irritado ou não.

Um brilho ofuscante nos olhos negros do rapaz foi aceso e um sorriso bobo foi desenhado nos seus lábios.

— Então... Você filmou muita coisa? — Perguntou na expectativa, deixando Clarke confusa.

— Você... não está zangado? — Murmurou temerosa.

— E por que eu ficaria zangado com isso?

— Não sei. Geralmente quando alguém lhe fotografa ou lhe filma sem a sua permissão, é inconveniente. Direitos de imagens autorais... Essas coisas, sabe?

— Isso é besteira. — Disse desdenhoso. — A propósito, você cursa o quê? — Puxou mais assunto.

— Hãm... Jornalismo. Estou no penúltimo semestre. 

— Ah, agora eu sei de onde vem tanta coragem. — Brincou. — Então você nos filmou para apresentar um trabalho. Você não acha isso meio... bobo?

— De jeito nenhum! Muitas pessoas que não podem entrar naquele clube têm a imensa curiosidade de saber o que um bando de marmanjos fazem ali dentro. Não foi muita coisa, mas é interessante, uma vez que vocês são bons. Então eu irei fazer uma matéria sobre isso e apresentar no final deste mês. Se você e nem o seu amigo chinês se importarem, é claro. — Disse receosa.

Michael  se remexeu no banco e desviou a sua vista por alguns instantes, em seguida voltando a fitá-la.

— Deixe-me ver o vídeo. — Pediu. A garota o encarou com confusão, mas rapidamente e de um jeito meio desajeitado, pegou o seu celular, colocou o vídeo e lhe entregou o aparelho.

Michael assistiu ao vídeo, e como o ambiente do clube era um pouco escuro e ele e o Kamon se moviam com rapidez, dificilmente dava para ver os seus rostos. Se fosse antes, mesmo se desse para vê-lo, ele não ligaria, mas como agora ele estava dentro da empresa, ter a sua imagem em qualquer tipo de escândalo seria muito prejudicial ao grupo Chromish.

— Como eu disse, — Devolveu o celular a ela. — eu não ligo pra essas coisas. Mas... se por acaso você for citar o meu nome, prefiro que use outro nome.

— Outro nome? 

Sim Eu já percebi que você sabe quem eu sou, então você deve imaginar o tamanho do peso que o meu nome carrega. Estou certo?

— Ah, entendi. — Ela assentiu, entendendo-o completamente. Afinal, não pegava bem o herdeiro do Grupo Chromish frequentar um clube e praticar aquele tipo de coisa, embora não fosse nada demais. Não seria bom para a imagem dele, visto que a mídia é gananciosa e tem o poder de distorcer as coisas. — Então, que nome você gostaria que eu usasse?

— Eu não sei. Invente um. — Deu de ombros. — Ah, certo. E se por acaso você for citar as origens do Kamon, faça um favor a si mesma e não diga que ele é chinês. — A garota fez uma expressão interrogativa. — Embora ele saiba kung Fu, ele é tailandês.

— Mas... é quase a mesma coisa. — Ela agiu com indiferença.

— Nunca foi! Acredite! — A corrigiu. — E pelo o amor de Deus, não diga isso na frente dele, isso lhe irrita.

— Sério?

— Mais do que sério. Você não sabe como os asiáticos se ofendem quando são confundidos ou comparados.

— Ah... — Nessa hora, uma travessa de vidro com batatas fritas e uma bandejinha com barquinhos de provolone surgiram na frente deles e duas latinhas de refrigerantes foram postas na frente do rapaz.

— Aqui está. Tenham um bom apetite. — Julie disse e se afastou em seguida.

A comida parecia surpreendentemente apetitosa. Michael abriu as duas latas de refrigerante e pôs uma na frente dela.

— Aqui. Vá em frente e experimente um pouco. — Ele pegou duas batatas fritas para si e empurrou a travessa para ela. 

Clarke assentiu, pegou uma batata frita coberta com queijo derretido e deu uma mordida, então ela pegou outra... outra e depois partiu para os barquinhos de provolone que, para a sua surpresa, estava uma delícia.

— Uau... Você come bem, hein? — Ele comentou e tomou um pouco do seu refrigerante. 

— Isso é muito bom. — Ela colocou o pedaço do barquinho que segurava na boca e mastigou bem, fazendo-o sorrir.

— Melhor do que qualquer outra coisa, não é? — Perguntou ele, com um sorriso de provocação.

Ela assentiu e também tomou um gole de refrigerante.

— Não, isso é realmente muito bom. Mas acho que já estou cheia.

— Depois que come quase tudo, diz que está cheia. — Ele resmungou para irritá-la.

Ela não fez caso e o ignorou. Pegou o refrigerante e deu um último gole enquanto Michael se levantava.

— Irei pagar a conta. Me espere aqui, hum? — Ele não esperou por uma resposta e foi até Julie.

Clarke continuou sentada. Pegou o seu celular e passou a vasculhá-lo, mas foi obrigada a interromper o que estava fazendo quando sentiu uma mão pousar-se no seu ombro. Ela rapidamente ergueu a cabeça para olhar quem era o dono daquela mão ousada. Havia dois jovens em pé ao lado dela, e o loiro de olhos azuis era o dono da mão que estava pousada no seu ombro. Assustada, ela desvencilhou-se, colocou-se de pé e o os encarou cenho franzido.

— Quem são vocês? Por que chega colocando a mão no corpo das pessoas assim? 

— Calma gatinha. Foi mal. É que... a gente viu você sozinha e solitária aqui, então decidimos dar um chega pra te fazer companhia. — O jovem loiro com o par de olhos azuis disse em um tom malicioso.

Ela sorriu sem humor.

— Obrigada, mas eu dispenso a sua intenção. — Foi a resposta dela. Curta e grossa. 

Os dois jovens se entreolharam e sorriram com sordidez.

— A garota é marrenta. — O loiro deu um passo à frente e segurou um dos pulsos de Clarke; ela tentou puxar, mas ele estava segurando com muita força. — Não faz assim não, se não eu me apaixono mais. — Os dois jovens sorriram se encarando. 

Clarke tentou se desvencilhar mais uma vez puxando o seu braço, mas a tentativa foi em vão.

— Me solte agora! — Exigiu com asco, mas ele continuou segurando-a e olhando-a com malícia.

Michael que tinha acabado de pagar a conta e estava voltando ao encalço de Clarke, quando avistou aquele cara segurando o braço dela, ele apressou os seus passos e a alcançou, em seguida fazendo a sua voz imponente chegar aos ouvidos do loiro.

— Continue com essa sua mão imunda aí, se quiser saber como é ser canhoto. — A ameaça foi direta e objetiva. Tanto Clarke como os dois jovens o encarou imediatamente. — Você é surdo ou o quê?

— E se eu não quiser? — O loiro o desafiou ainda segurando o braço da garota. 

Michael sorriu debochado.

— Acho que você não entendeu. — Deu mais um passo à frente, colocou a sua mão sobre a do sujeito e a empurrou bruscamente, fazendo-o soltar o pulso da garota. — Isso não foi uma opção.

O loiro olhou para Clarke.

— Ele é o seu namorado? — Perguntou rabugento

— E daí se eu for? Algum problema? — Michael respondeu no lugar dela.

O outro jovem que até então observava, cutucou o amigo e sussurrou:

— Qual é, cara? Vamos embora. Você não sabe quem é ele? Michael Jackson.

Ele sabia muito bem quem Michael era, e era isso que lhe deixava mais irritado. Mas para evitar confusão, ele decidiu dar as costas e se retirar.

— Mauricinho otário! — Resmungou baixinho, mas Michael ainda pôde ouvi-lo.

Ser chamado dessas coisas só porque ele vinha de uma família rica lhe deixava muito puto, ao ponto do seu sangue ferver. Michael fechou os punhos e deu um passo à frente, fazendo menção de ir pra cima daquele cara, mas Clarke pulou na sua frente e lhe deteve segurando nos seus braços.

— Saia da minha frente! — Ele olhou para a garota com a expressão muito intensa, aquele olhar de quem iria bater em alguém.

— Está doido? Quer resolver tudo no punho?

— Mas que droga, Clarke! Eu disse para sair da minha frente! — Alterou um pouco a sua voz. .

— Eu não quero e não vou! — Ela se manteve firme.

Ele respirou profundamente encarando-a com incredulidade. Aquela garota definitivamente era dona de medos bobos e coragens absurdas. Atrevia-se até mesmo a detê-lo.

— Quando você ficar calmo, eu te solto.

— Eu estou calmo. — Murmurou pacientemente.

Ela levantou a cabeça e os seus olhos encontraram os dele, que agora diziam que ele estava mais calmo. Ficaram se encarando por alguns instantes, até que ele quebrou o contato visual e afastou-se dela, rumando em direção ao museu Metropolitano de Arte.

Clarke sabia que ele tinha ficado irritado com o que ouvira daquele jovem, por isso decidiu segui-lo em silêncio. E assim que ele parou em frente ao museu e sentou-se, ela fez o mesmo, sentando-se ao lado dele.

Houve um grande silêncio que durou alguns minutos, que, pareceram mais uma eternidade. Ao contrário de Michael, sentindo-se já incomodada, Clarke decidiu por um fim naquele silêncio absurdo entre eles.

— Não precisava você ter se irritado. — Ela murmurou, ainda um pouco hesitante.

Lentamente, Michael virou a cabeça e a encarou.

— Acha que eu posso me controlar quando estou sendo provocado? Além disso, eu odeio ver uma mulher ser intimidada. Sorte a dele de você ter ficado na minha frente.


Certo! Aquela reação dele era intrínseca. Era uma parte dele. 

Ela respirou fundo. 

— Mesmo assim. O ocorrido dos ladrões foi diferente, você estava nos protegendo. Mas falando de agora a pouco, você não pode sair por aí batendo nas pessoas todas às vezes que elas te insultarem. Se é que isso pode ser chamado de insulto. — Defendeu o seu ponto de vista. — E eu não me senti nem um pouco intimidadas por eles. — Evidenciou.

Ele sorriu sem humor. Ele não entendia o porquê que ela apenas não o agradecia ao invés de ficar lhe dando sermões. Como se já não bastasse Jonathan para fazer isso. Ela era tão confiante que não sabia que, aquela confiança demais era o seu maior inimigo.

— Antes de discutir sobre isso, você deveria pelo menos me agradecer. Realmente não sabe como fazer isso? — Ele falou voltando o seu olhar para frente.

Ela iria retrucar, mas optou por ficar calada. Estava querendo muito mudar de assunto para fazer isso. Então numa forma de mudar aquele climão, ela estendeu a mão aberta pra ele. Michael olhou da mão pequena à sua frente para ela.  

— Me dê o band-aid. — Clarke pediu balançando a mão.

— Esqueça! Isso não dói... — Ele deteve-se. Quase tinha confessado a sua verdadeira intenção, a de tê-la chamado.  

— Me dê o band-aid! — Ela insistiu balançando mais forte a sua mão na frente dele.

Michael hesitou, mas decidiu dar o que ela queria. Clarke sabia que aquele ferimento não doía mais, inclusive já estava cicatrizando e tudo, mas não sabia outra maneira de evitar que aquele clima chato continuasse entre eles.

— Não fique choramingando dessa vez, hum? — Advertiu com divertimento. Então quando tirou o plástico do band-aid e se ajeitou no banco, ficando de lado, ela se aproximou mais de Michael. Tocou com delicadeza no rosto do rapaz, fazendo-o virar, tirou as mechas de cabelo que caia deliciosamente sobre a testa dele e colou o band-aid sobre a contusão. — Missão cumprida. — Falou passando o dedo de leve por cima, sem notar que o rapaz lhe fitava intensamente.

Michael encarava a garota completamente enfeitiçado. Ela tinha lá aquele jeito diferente de se comportar, mas a beleza estonteante dela calava tudo... E os seus lábios eram tão convidativos que, a inquietação o perturbava pela vontade de se deliciar com aqueles lábios que tanto lhe atraia.

Sem querer, quando os olhos dela cruzaram com os negros intensos e profundos que persistiam moldados no rosto de traços marcantes e esculpidos do rapaz, ela ficou estática e engoliu em seco. Para agravar mais a situação, o perfume másculo e inebriante dele adentrava em suas narinas e fazia o seu coração acelerar. Quando notou que estava ficando estranho demais o clima entre eles, Clarke recuou com a cabeça, mas Michael agiu rápido e segurou no pulso dela firmemente puxando-a para si, fazendo os seus rostos ficarem a exato cinco centímetros de distancia e os corações baterem na mesma sintonia.

— Eu posso ver claramente. — Michael sussurrou com a voz serena e tranquila, que soou sexy aos ouvidos de Clarke.

— O que é que você pode ver? — Ela também sussurrou, com nervosismo.

— O seu rosto vermelho.

— Quem está com o rosto vermelho aqui? — O coração da garota acelerou ainda mais e as suas mãos começaram a suar.

Ele examinou minuciosamente a expressão dela.

— Por que está tão nervosa? — Continuavam conversando em sussurro.

— Eu não estou nervosa. Por que estaria? — Mesmo com as respostas evasivas da garota, o seu rosto não mentia.

Ele desceu a vista ligeiramente para os lábios entreabertos dela, voltando a encará-la novamente nos olhos brilhantes cor de mel que refletia o sinal da sua integridade.

— Vai me bater se eu te pedir um beijo, não é? — Pediu assim, desavergonhado.

— O que você acha? Você provavelmente já beijou tantas por aí, porque eu deixaria você me beijar? — Perguntou manhosa.

Michael ficou encarando-a, ponderando. Valia à pena levar um tapa por causa de um beijo? E se ele simplesmente roubasse? Ela o bateria do mesmo jeito? Era tentador.

Ele olhou de novo para os lábios pequenos da garota e novamente a inquietação de beijá-la atingiu-o como uma bomba. Com Clarke não era diferente, mesmo que tentasse mostrar que não, ela também se sentia muito atraída pelos lábios do rapaz, principalmente quando os via se abrindo e fechando lentamente de forma sensual cada vez que ele proferia.

Sem mais conseguir segurar o seu desejo que estava evidente por ela, Michael impulsionou a sua cabeça para frente, e quando ele estava prestes a beijá-la, Clarke olhou já muito rente da boca dele e sussurrou:

— Eu vou te bater depois disso! — Ela estava blefando, mas mesmo se não estivesse, Michael não estava nem aí para o que viesse acontecer depois. Ele só precisava beijá-la logo.

Então depois de respondê-la com um simples “hum”, ele primeiro deu um simples toque nos lábios dela com os seus; quando viu que a mesma não recuou, ele capturou os lábios dela com suavidade, dando início a um beijo lento.

A princípio, ela manteve-se de olhos abertos, mas bastou sentir a língua dele pedindo permissão para aprofundar o beijo, que suas pálpebras caíram por sobre os olhos e ela abriu passagem para ele explorar a sua boca.

Ele encostou a mão dela junto com a sua que a segurava, próximo ao próprio peito. A sua outra mão pousou-se no pescoço dela, logo em seguida migrando para a nuca e embrenhando os dedos por entre os fios do cabelo dela, embaixo da nuca.

O beijo acelerou, demonstrava desejo, interesse e por incrível que pareça, paixão. Embora não se conhecessem direito, estava claro que eles se queriam, e todo esse querer estava sendo colocado naquele beijo que se tornava cada vez mais intenso.

Quando o ar começava a ficar escasso, paravam, mas em uma fração de segundos, após recuperarem o fôlego, suas bocas voltavam a se unir, resultando em um sentimento sôfrego cadenciando o ritmo intenso dos lábios deles.  

Quando finalmente largaram os lábios um do outro, eles se olharam com os rostos ainda muito próximos, enquanto Michael ainda permanecia com os dedos embrenhados nos cabelos da nuca dela. As respirações descompassadas e os corações acelerados denunciavam o quanto aquele beijo havia mexido com ambos, algo que causou estranheza em Michael, pois agora que encarava os lábios inchados da garota, ele queria mais.

Então ele a puxou novamente para dar início ao segundo beijo, mas a garota o deteve dessa vez, cobrindo os lábios dele com a sua mão e recuando com a cabeça.

— Você... está a fim de mim? — Clarke ousou a perguntar totalmente desinibida. Também, depois daquele beijo não havia como ficar envergonhada.

Alguns segundos depois, Michael respondeu:

— Não tenho certeza. — Ele puxou o ar entre os dentes e fez de conta que estava refletindo. — O que você acha?

— Também não tenho certeza. — Foi a resposta que ele recebeu.

— E se eu não estiver? — Perguntou para ver qual seria a reação dela.

— Então por que me beijou? — Perguntou agora com uma pintada de irritação, fazendo Michael esboçar um pequeno sorriso.

— Porque você quis.

— Quem disse que eu queria?

— Aí, não vá se fazer de encabulada agora. Porque eu quero mais. — Sorriu sinicamente, do jeito único que apenas ele sabia fazer.

— Você disse que não estava interessado. Sai por aí beijando as garotas com desinteresse?

Michael queria sorrir, sorrir muito. A expressão de irritação dela era tão adorável que a deixava... fofa.

— Bem, — Dizia ele quando decidiu abrir o jogo pra ela. — eu não iria te beijar sem nenhuma razão. — Sua frase deixava claro para qualquer um que quisesse ouvir que, ele estava a fim dela. Deixava tão claro que ele sequer podia acreditar nisso direito. Ele, Michael jackson, interessado de verdade em uma garota? Era incrível, mas ele não podia evitar, e mesmo se pudesse não iria. Clarke tinha duas coisas que as outras garotas que ele conhecera não tinham: uma personalidade única e um mundo refletido em seus olhos que não era o mesmo que ele costumava a conhecer. Apenas essas duas razões a distinguia de todas as outras, e ele gostava disso.

Clarke, por sua vez, estava perplexa com a frase subentendida do rapaz, embora não tenha sido dita explicitamente. Não tinha nada a ver com ela estar se menosprezando, afinal, ela também era de elite e tinha uma boa aparência sem precisar se embonecar. Mas ele era Michael Jackson, uma figura um tanto conhecida não só por ser o herdeiro de um grande grupo, mas também porque tinha uma lista de garotas morrendo de amores por ele. Em outras palavras, não era impossível, só era difícil de acreditar que ele estava verdadeiramente interessado nela.

Clarke afastou-se dele e recostou-se no banco, olhando para frente.  

— Me diga. Você me beijou. O que vai acontecer agora?

— Vamos ver... — Ele imitou a ação dela, também olhando para frente. — Eu assumirei a responsabilidade.

Ela sorriu baixinho.

— Não é como se você tivesse tirado a minha virgindade. — Resmungou sem recato ao falar de tal assunto, ganhando um olhar incrédulo do rapaz ao lado. 

Sério que ela estava falando sobre virgindade?

— Por acaso... você ainda é virgem? — Ele simplesmente perguntou baixinho por impulso.

Ela olhou para ele.

— Pra que você quer saber? — Indagou meio que rabugenta.

— Foi você quem tocou no assunto. — Ele defendeu-se. — Esqueça!

Houve novamente um breve silêncio, até que foi quebrado pelo sorriso alto e em bom som de Michael. Fora tão alto que as pessoas que estavam por perto o encaram rapidamente.

— Do que está rindo? — Ela o olhou irritada.

— Isso não é engraçado? — Ele parou para se recompor. — Nossas conversas sempre acabam dando um giro de cento e oitenta graus até que acabemos brigando.

— Tem razão, seria estranho se não brigássemos. — Clarke falou ao constatar.

Bastante hesitante, Michael perguntou:

— Então... estamos saindo?

Clarke nada disse, mas o sorriso meio bobo que ela abriu pra ele respondeu a pergunta.

Ele estava interessado, ela também, então não havia o porquê de não começar a sair com ele.

Parece até um conto de fadas, certo? Mas se ambos tivessem pelo menos uma ideia do que o destino reservava para eles, que a desgraça pairava sobre as suas cabeças... Mas o destino não estava apenas conspirando contra, ele também decidiu brincar um pouco. Estaria ele entediado?


O próprio provérbio diz que o sangue é mais espesso que a água, então, talvez, ficassem de lados opostos se previssem o que estava por vir, — ou não. A garota estava prestes a se apaixonar pelo cavalheiro de armadura que lhe salvou algumas vezes. No entanto, estava longe de ser um conto de fadas. Pois a verdade era que o rapaz estava prestes a se apaixonar pela garota cujo pai era um abutre e traria a catástrofe para vida deles, que mudaria o rumo dessa história de amor que estava apenas começando.



Capítulo 8
“Vivendo dias de inferno”

QUANTO MAIS O RAPAZ SE via envolvido com os assuntos do Grupo Chromish, mais ele tinha certeza de que aquilo não era para ele. Ele podia fazer qualquer coisa para ganhar a vida quando o trato que fizera com o pai chegasse ao fim: professor de artes marciais ou até mesmo ser um dublê oficial, qualquer coisa mesmo, contanto que não fosse semelhante à rotina estressante que ele estava tendo agora.


Seus olhos negros viraram-se para os dois lados dentro da ampla sala de reunião, fixado nos rostos daquelas pessoas em volta da enorme mesa, atentos ao que ele explanava. Deu uma breve pausa, respirou fundo, afrouxou o nó da gravata listrada que estava lhe incomodando e continuou com o que estava explicando. 

A noite tinha sido maravilhosa, mas em compensação, a manhã além de estressante estava quente como o inferno. Por isso, não estendeu muito a tese que estava sendo discutida, pois todos que estavam presentes entenderam o suficiente a proposta apresentada pelo o rapaz sobre a construção do parque temático que estava sob a sua responsabilidade.

A apresentação fora tão clara que, para uma pessoa que não tinha experiência e nem ambição para os negócios, ele se saíra muito bem. Os investidores ficaram satisfeitos com a sua didática estupenda ao falar. Jonathan, que também estava presente na reunião, sentia o mesmo que os investidores, pois sabia que o filho era inteligente, só não imaginava que em tão pouco tempo o rapaz pegaria jeito para a coisa.

Quando Michael terminou a apresentação e deixou que os investidores interessados no projeto o questionassem, mesmo absorto nas perguntas que lhe eram feitas e nas respostas que ele dava, ainda não deixou passar despercebido o olhar abutre de Robert Bradshow que encarava aquela apresentação como uma ameaça, mas Michael não fez caso, apenas ignorou o fitar do velho e continuou com a atenção nos investidores.

(...)

A reunião finalmente terminou e Michael ficou na entrada da sala para se despedir dos investidores e lhes agradecer pela atenção e pelo o voto de confiança que lhe fora dado.

Robert Bradshow que permaneceu calado durante toda reunião, esperou até que Jonathan se afastasse de Michael para poder se aproximou do rapaz. Ele agora sentia que havia ganhado mais um obstáculo, obstáculo esse que tinha de sair imediatamente do seu caminho.

Michael encarou o velho com desprezo assim que o mesmo parou em sua frente.

— Parabéns, garoto. Parece que você tem capacidade de dirigir um grande negócio. — A falsidade e o sarcasmo estavam evidentes no seu tom asqueroso.

Michael arquejou com cinismo, seguido de um sorriso nasal. Ele realmente odiava quando o velho lhe chamava de “garoto”.

— Eu não disse? Eu não sou apenas um rostinho bonito. — Retrucou desdenhoso.

— É mesmo? Parece que sim. — Robert sibilou com deboche.

Michael respirou fundo, moveu suas pestanas lentamente uma única vez, mostrando o quanto ele estava desinteressado nas ironias de Robert; deu às costas ao mesmo e fez menção de se afastar.

— Acha que será tão fácil assim? — Disse o velho, fazendo Michael parar e voltar-se para ele.

— O que quer dizer? — Indagou Michael seriamente.

— A sua confiança é louvável, mas em tempos difíceis como este que o grupo está passando, você vai precisar se esforçar mais.

Michael sorriu sem humor.

— É mesmo? Sabe que eu acho que você tem razão. Porém, uma vez que já comecei, parar, só depois da morte. — Ressaltou diretamente. — Não posso fingir que não vejo lama debaixo dos meus pés apenas para não sujar os meus sapatos. Nem se eu quisesse.

— Eu não tenho certeza onde eu ouvi isso, mas permita-me dizer-lhe uma coisa. Os seres humanos são como os tubarões. — Robert dizia calmamente em tom baixo. — Os seres humanos são criaturas muito assustadoras, assim como os tubarões. — Elucidou enfiando as mãos nos bolsos. O que ele dizia parecia não se encaixar no momento, mas logo, logo, Michael saberia aonde ele queria chegar.

O rapaz ergueu um pouco o queixo, mas nada disse, apenas manteve o seu olhar impassível.

Robert continuou:

— Sabe os tubarões? Eles vivem sempre em movimento, porque se eles pararem, certamente morrerão. Em outras palavras: eles têm que estar sempre em movimento para continuarem vivo. Assim são os seres humanos.

O rapaz fitou o chão brevemente, alisou levemente a sua linha mandibular e voltou a encarar o velho.

— Nesse caso, deve ser um saco ser um tubarão. — Michael comentou, entrando no jogo de palavras de Robert.

— Sim, mas de qualquer forma, no reino dos mares, ele reina.

— Verdade? Então... eu acho que não gosto nem um pouco dos tubarões. Sabe... Eles parecem fortes quando na verdade são patéticos. Porque são criaturas que noventa por sento da população não gosta. Eles também devem ter uma vida solitária, além de patética.

— Então... se um tubarão ferisse alguém que você ama, hipoteticamente é claro, o que você faria? — Isso foi uma ameaça e Michael entendeu perfeitamente.

— Vamos ver... — Puxou o ar entre os dentes e fez de conta que estava pensando. — Eu me tornaria o pesadelo dele. — Foi a sua resposta.

— Sério?

— Hum. — O rapaz assentiu. — Não importa o que eu tivesse que fazer, com certeza eu iria encontrá-lo. — Disse convicto, revidando a ameaça indireta de Robert.  

— Sua determinação é admirável. Mas... como faria isso?

— Até que eu morresse, neste mundo, em qualquer lugar, nós nos encontraríamos, porque eu o acharia nem que tivesse que mergulhar em alto mar. Seria injusto eu morrer sem antes encontrá-lo, você não acha? — Michael mantinha o seu aspecto sisudo. Ele não estava desafiando Robert, apenas deixando patente ali que ninguém mexia com a família dele.   

— Quem sabe! — Um sorrisinho malévolo ganhou vida no rosto de Robert. — De qualquer forma, parabéns pelo o seu ótimo desempenho hoje. — E lá estava mais uma vez a sua hipocrisia nas suas palavras. E com a cara mais fingida, ele se retirou, passando pelo rapaz, afastando-se.

Michael sentiu-se inexplicavelmente estranho quando o “diálogo” entre eles acabou, mas não colocou muita fé no que o velho disse. Não fazia ideia do quanto ambicioso era ele.

Ah, se ele soubesse...

(...)

Robert bateu furiosamente a porta da sua sala e foi ao encalço da sua mesa, batendo fortemente na mesma com as mãos e em seguida jogando tudo o que estava sobre ela no chão num único gesto.

Estava ficando cada vez mais difícil suportar aquele garoto que tinha um poder incrivelmente odioso de persuasão sobre os investidores. Isso não era nada bom para ele!

Robert era de personalidade inconstante e tinha um extremo complexo de inferioridade. Se sentir inferior a Jonathan era uma coisa, mas agora ter que aturar a arrogância e a petulância do seu filho era muito pior. Não suportava a ideia de que um dia, aquele garoto viesse a ser o CEO do Grupo Chromish. Ele tinha que fazer algo antes que fosse tarde demais. Sendo mais claro, ele tinha que eliminar àqueles que estavam obstruindo o seu caminho.

Desde quando comprara uma pequena parte das ações numa época em que o grupo estava passando por uma crise, há pouco mais de sete anos, seu único desejo era chegar ao topo. Para ele ser o terceiro maior acionista não era o suficiente. Mesmo que não pudesse ser o majoritário, o cargo de CEO pelo menos teria de ser seu. Assim ele julgava. Já tinha feito muitas coisas para chegar onde estava, e por isso, acreditava veementemente que era digno de tal cargo e não mediria mais esforços para consegui-lo.

 Não importava o quanto ele amasse o dinheiro, ele sabia que deveria ter um pouco de consciência, considerando também que o que tinha em mente era uma jogada muito arriscada. Por isso, há dias vinha ponderando sobre tal assunto, mas depois do resultado da reunião daquele dia, sentiu-se mais motivado em arriscar tudo o que pudesse.

É aquela coisa: se você está a fim de pegar um peixe grande, tem que estar disposto a mergulhar em alto mar com a cara e a coragem. E isso Robert tinha de sobra.

O que estava pensando era ousado e pernicioso ao estremo, mas por sua ambição profunda e a vontade implacável de alcançar seus objetivos para conseguir logo o que queria, ele estava disposto a usar a sua carta Ás.

Ter usado Jonathan como um bode expiatório com o caso do ministério público estava demorando mais do que ele imaginava. Tinha que agir logo.

Sentou-se na poltrona atrás de si e capturou o celular do bolso, vasculhou na sua agenda o nome de uma pessoa que ele vinha rondando já há algum tempo para quando aquela hora chagasse.

Demorou um pouco para o outro lado que estava hesitante atender, mas acabou fazendo-o.

— Alô? — A voz grossa do outro lado da linha disse.

— Sou eu. Temos que conversar.

O homem do outro lado da linha suspirou audível, pois sabia sobre o que o velho queria tratar.

— É sobre aquele...

— Apareça na minha casa esta noite. — O cortou. — Seja discreto. — Robert não deu nem tempo para o homem responder, pois ele desligou sem lhe dar chance.

(...)

Dentro do escritório da casa de Robert Bradshow, o homem alto, de estrutura forte e de pele morena, cujo nome era Daniel, encontrava-se em frente à mesa de Robert, com um olhar um tanto relutante. Não houvera muita conversa, nem mesmo algo para beber foi oferecido, apenas a proposta e a ordem fora dada.

— Precisa mesmo fazer isso, senhor? — O moreno perguntou pela enésima vez.

— Não faça perguntas, apenas cumpra com a sua parte e receba a sua recompensa.  

— Eu não sei não. — O moreno resmungou indeciso. Trabalhava para Jonathan há anos, e fazer o que Robert pedira era um absurdo. O cumulo da traição — Eu não posso fazer isso. — Disse novamente.

Robert estalou a língua nos dentes em forma de censura.

— Preste bem atenção no que eu ou lhe dizer. Isso não foi um pedido, ou você faz o que eu disse ou... voltará pra cadeia.

O moreno esbugalhou os olhos, pois não fazia ideia do que o velho havia feito para lhe pressionar.

— Eu não sei do que você está falando. — Tentou ser evasivo, desviando o seu olhar.

O sorriso sádico no rosto enrugado de Robert mostrava o quanto ele sabia que aquilo iria acontecer, que o moreno recusaria a “proposta”. O velho era inteligente e sabia usar seus contatos e condições uma vez que quisesse saber ou conseguir algo. Por isso investigou tudo sobre a vida de Daniel para usar quando àquela hora chegasse.

Robert tirou de dentro da gaveta um dossiê e jogou sobre a mesa, em frente ao moreno que, olhou dele para a papelada, porém, não pegou para ver. Robert levantou-se, foi até a janela do escritório e abriu as persianas.

— Sabe... Seu histórico é muito interessante. — Dizia enquanto olhava para o jardim pela janela. — Assim quando eu vi você, pensei: “puxa vida, esse homem é realmente honesto, tanto que chegou a ganhar a confiança do virtuoso Jonathan Jackson.” — Sorriu com sarcasmo. — Mas sabe? Você parecia tão honesto que isso se tornou estranho aos meus olhos. Eu tenho um bom olho para julgamento, consigo julgar alguém se apenas ver ou conversar com essa pessoa por cinco minutos. Sabe por quê? Porque eu não confio em ninguém além de mim mesmo. Mas... o que fazer? Parece que Jonathan Jackson está com problemas.

A atmosfera do escritório ficou bastante assustadora. Robert agora parecia um psicopata pela forma que falava, e isso deixava o moreno bastante assustado.

Ele continuou, agora sem fazer mais rodeio.

— Há oito anos, o que era pra ter sido apenas um assalto acabou tornando-se um latrocínio. Você matou um homem que reagiu ao assalto, foi capturado e pegou quinze anos de prisão. — Revelou Robert, fazendo com que o moreno remexesse na poltrona, inquieto. — Porém, você fugiu e falsificou todos os seus documentos, inclusive o seu nome e idade. Foi um plano bom durante todos esses anos, só não foi perfeito porque eu descobri tudo. O que devemos fazer sobre isso? Eu tenho planos pra você. E não se preocupe, nada nessa vida é de graça.   

— Co-como você descobriu tudo isso? — O moreno pigarreou.

— Como eu descobri não é o que importa, e sim o porquê que eu descobri. Acredito que não queira voltar para a prisão. Estou certo, não estou?

— Você não pode fazer isso.

— Não posso? — Voltou-se para encarar o moreno. — Sabe por que o lobo tem um pescoço espesso? Porque nele realiza seu trabalho. Então espere só e veja do que eu sou capaz.

Robert era um abutre que precisava da desgraça humana para se promover, mas em contrapartida, o moreno também não queria voltar para a cadeia, sabendo que agora que se fosse pego, talvez pegasse mais anos de sentença. Sim, ele se arrependera amargamente durante todos aqueles anos que passou fugindo por ter tirado a vida de uma pessoa, mas ele definitivamente não voltaria para aquele inferno. Ele provavelmente não seria perdoado, mas o que podia fazer quando a liberdade dele estava em jogo? Se sentia um miserável só por estar considerando o que Robert dissera, mas para ele, não era um crime querer ser livre.

Então, não tinha mais nada para ser discutido. O moreno, agora sem mais conseguir recusar as ordens diretas do velho ganancioso à sua frente, apenas assentiu e concordou com a proposta que fora feita antes, onde lhe foi garantida a ocultação do seu passado e também uma boa grana preta. 

Daniel saiu do escritório e passou por Clarke que, acabara de chegar de um passeio da faculdade. O moreno não olhou mais que três segundos para a garota e ela também não fez caso da sua presença na sua casa, apenas direcionou a sua atenção ao seu pai que saiu do escritório e abriu um sorriso assim que a viu.

— Você chegou agora? — Ele perguntou, aproximando-se da garota que assentiu com um gesto de cabeça.

— Hum. Onde está a mamãe?

— Suponho que esteja na sala de jantar, como sempre. Você não sabe que ela gosta de ficar dando palpites para a cozinheira?

— É verdade. — Sorriram. — Ah, agora a pouco, quem era? — Ela perguntou mesmo assim sem ter interesse, pois nunca tinha visto o homem que acabara de sair da sua casa.

— Ninguém importante. — Foi a resposta de seu pai. — Agora suba e se apronte para o jantar. Não demore. — Robert advertiu com divertimento.

— E quando foi que eu demorei, hum? — Ela sorriu para ele e em seguida subiu para o seu quarto.



Capítulo 9
“O futuro é imutável”

A ÁGUA MORNA CAIA DELICIOSAMENTE sobre Michael que se permitia tomar um banho demorado. Queria que a água lavasse os seus pensamentos e todo o estresse do trabalho. Que filtrasse todo o cansaço daquela maldita rotina que estava tendo, que era apenas compensada quando ele falava com ela pelo celular, a garota que conseguia suprir tudo aquilo que ele estava sentindo. Passavam muitos minutos conversando, minutos estes que pareciam eternos, falando sobre tudo até mesmo ficarem sem assunto.

Desde que se encontrara com Clarke da última vez, há exatos dois dias atrás, não conseguia tirá-la da cabeça, ainda mais quando conseguia lembrar-se do gosto dos pequenos lábios da garota que insistia em vagar por sua mente.

Naquela noite ele parecia estar com sorte, pois além de ter saído cedo do trabalho, ainda recebera um “sim” da garota quando sugeriu que se encontrassem naquela noite.

Foi a primeira vez que ele considerou em convidar alguém para jantar, mas porra... aquele não era o jeito dele de conquistar uma garota, e também era tão... sem originalidade na sua concepção. Por isso, o que tinha em mente era algo que ele tinha certeza que ela iria gostar.

Vestiu-se com os seus típicos trajes e penteou os cabelos, deixando uma parcela desgrenhada, realçando ainda mais o seu charme.

Desceu as escadas e encontrou Jonathan com o olhar fixo no rosto da mulher do quadro pendurado no norte da enorme sala de estar. Michael não queria tirar a concentração do pai, mas passar despercebido por Jonathan era impossível naquela hora, uma vez que a saída era exatamente no norte do cômodo.

— Você vai sair? — Perguntou Jonathan, sem ao menos virar-se, mantendo o seu olhar sólido no rosto da falecida esposa.

Michael parou e virou-se para o pai.

— Sim. — Disse apenas e quando fez menção de se afastar, Jonathan chamou-lhe a atenção novamente.

— Diga-me! Como se sente trabalhando no grupo? — Perguntou puxando assunto.

O rapaz coçou a cabeça, jogou os braços atrás do corpo, segurando as próprias mãos, e pôs-se ao lado do pai. 

— Quer que eu responda com sinceridade? — Seu tom continha um punhado de monotonia.

— Esqueça. Não precisa responder. — Arquejou Jonathan; conhecendo o filho, já podia imaginar a sua resposta.

Michael também encarou o rosto da mãe no retrato à sua frente, e os dois contribuíram com o silêncio que se instalou. Eles eram assim. Pareciam duas pessoas desconhecidas conversando.

A jovem mulher que ostentava um sorriso na foto tinha os cabelos longos e negros jogados para o lado, e os seus olhos eram iguais aos de Michael e Natalie, negros e brilhantes como duas pérolas negras. Ali sim, estava refletido a sinceridade e o respeito de uma mulher. Ela era exuberante.

— Ela era linda. — O rapaz comentou baixinho, encantado pela beleza da falecida mãe, que Deus a tinha.

— Sim. Ela era a mais linda de todas. — Jonathan concordou, absorto em seus pensamentos.

— A mais linda de todas? — Michael encarou o seu pai de perfil e franziu o cenho.

— Sim. Como você e sua irmã sabem, eu e a sua mãe nos conhecemos no exterior. Eu estava a trabalho e ela estava em uma viagem com três amigas. E ela era a mais bonita de todas.

— Você é suspeito em dizer isso. — Murmurou o rapaz.

— Não, é verdade. Se você tivesse visto as outras, não estaria dizendo que sou suspeito só porque foi com ela que eu me casei. Além de ser a mais bonita, ela era singular. Ela até me deu  um pouco de trabalho no início. Fazia coisas fora do comum sem se importar com o que as pessoas fossem falar. A sua mãe era uma pessoa assim.

Michael não se lembrava desse lado da mãe, mas isso lhe trouxe em mente as imagens de alguém exatamente assim. Um arquejo escapou da sua garganta e um sorrisinho de lado foi ganhando vida nos lábios do rapaz.

Jonathan e Michael não eram de conversar, pois sempre que trocavam algumas palavras, acabavam discutindo por terem opiniões e pensamentos controversos. No entanto, naquele dia algo estava estranho, ambos não haviam percebido, mas naquela altura eles nem se deram conta que já estavam em uma conversa. Se Natalie ou o Kamon tivessem visto tal cena, acharia esquisito, já que Michael e Jonathan não conversavam muito. 

Mantendo o seu olhar fixo no retrato da senhora da casa, pela primeira vez, Michael sentiu-se à vontade para falar com o pai sobre assuntos íntimos.

— Conheço uma pessoa que... na primeira vez que eu a vi, ela estava vestida com roupas masculinas. Ela é do tipo de garota que se veste de homem para entrar em lugares perigosos, para ganhar a vida em base dos seus próprios méritos. Eu realmente também conheci uma pessoa assim. — Sorriu baixinho com a imagem de Clarke perambulando por sua mente. 

Jonathan o olhou e franziu o cenho.

— Você, tem uma pessoa que seja assim pra você? — Perguntou ao rapaz, este que o olhou brevemente.

— Eu? Não tenho certeza. Eu nem a conheço direito. Só sei que ela é o tipo de garota que é capaz de usar roupas de homem pra conseguir o que quer, e até mesmo correr atrás de ladrões. — Michael revelou ao lembrar-se da cena.

— Ela é assim? Então... ela não deve ser uma garota comum.

— Pode crer nisso. — Confirmou o rapaz, com veemência.

— Você gosta dela? — Seu pai questionou novamente.

— Eu? Como eu posso gostar de uma pessoa em tão pouco tempo? — Sua resposta demonstrava incerteza.

— Michael, escute o seu pai. Quando alguém entra na sua vida, é uma coisa importante. Porque toda a sua vida vem junto com ela, seja entre os acontecimentos bons ou ruins.

— Eu acho que... concordo com você. Eu não sei. As garotas que já conheci em toda a minha vida são feitas de sapatos e maquiagem e só sabem falar de shopping e ficar preocupadas de quantos quilos perdeu na semana, mas... ela não. Ela não se apega a essas coisas. Ultimamente a minha cabeça só pensa nela. — Disse um pouco envergonhado, mas continuou. — Quando ela sorri, eu sorrio com ela. Só em tê-la perto de mim, o meu mundo de alguma forma se torna completo. Eu me sinto à vontade, sabe? — Jonathan assentiu. — A minha mãe, era assim pra você?

— Ela ainda é. — Foi a resposta de Jonathan. Michael o encarou quando sentiu o peso da solidão nas últimas palavras do pai. Depois que a sua esposa morreu, Jonathan nunca havia sequer pensando em se casar de novo. A esposa poderia não estar fisicamente junto dele, mas ela ainda permanecia viva no seu subconsciente e no seu coração.

Quando o silêncio novamente começou a ficar incômodo, Michael desatou as mãos que estavam presas atrás de si e pigarreou.

— Estou indo. — Disse baixinho. Jonathan nada disse, apenas assentiu com um gesto de cabeça e Michael se retirou da sua presença.

(...)

Como prometido, Michael foi até o endereço dado pela garota, e assim que estacionou o carro em frente ao enorme muro que escondia a residência, ele saiu do veículo e se deparou com todo aquele luxo estampado nos pequenos tijolos de pedra e nos outros pequenos detalhes. O luxo não era exatamente tão grande assim quanto o da sua casa; ele sabia que aquela garota provinha de uma boa família, mas só agora que acabara de ver a casa que ela residia, foi que teve a certeza.

Deixando tais pensamentos e reparações de lado, ele capturou o celular do bolso e ligou para Clarke.

— Onde você está? — Ela perguntou do outro lado da linda assim que atendeu a ligação.

— Eu acho que já estou em frente à sua casa. — Respondeu Michael, passando novamente a vista no enorme muro.

— Tudo bem, já vou sair, hum? — Finalizaram a ligação.

(...)

Clarke desceu as escadas e dirigiu-se à porta principal da casa, mas antes que saísse, parou quando alguns sussurros lhe chamaram atenção. Deu um passo para trás e seus olhos custaram a ver que Robert, seu pai, e Clarice, a sua mãe, estavam de chamego bem em frente aos seus olhos. Ela franziu o cenho e fez cara de nojo. Bem neste momento, Robert levantou a cabeça e encontrou a filha os encarando.

— Clarke. — Murmurou e desgrudou-se da esposa rapidamente, esta que também virou a cabeça para encarar a filha.

— Isso é tão embaraçoso. Os empregados podiam ver. Vocês têm sorte que foi eu quem os peguei no flagra.

Robert e Clarice sorriram um tanto constrangidos.

— Pra onde você está indo? — Sua mãe perguntou.

— Vou ver alguém.

— Um namorado? — Robert indagou. Clarke sorriu com a pergunta, o que desencadeou mais desconfiança dos seus pais. — Você está namorando?

— Eu não estou namorando, ok? — Respondeu rapidamente. — É só alguém que eu conheci. — Esclareceu.

— Só alguém que você conheceu? Sei. — Sibilou desconfiado.

— É verdade. Mas deixa pra lá, tenho que ir logo porque ele está me esperando.

— Ele está aí? — O velho arqueou as sobrancelhas.

— Ele está ao lado de fora.

— Então... — dizia olhando da esposa para a filha. — eu deveria pelo menos conhecer a pessoa com quem a minha filha está saindo. — Ele começou a rumar em direção à porta, mas quando Clarke viu que o pai estava mesmo determinado, ela pulou na frente dele com os braços abertos.

— Não! Você não pode! — Bradou imperiosa, fazendo o pai franzir o cenho.

— Olha só pra essa garota. — Resmungou. — Por que eu não posso vê-lo? Que tipo de pessoa ele é?

— Pai, eu já disse que ele não é meu namorado. Não há necessidade de vê-lo. — Olhou para Clarice. — Mãe, não o deixe sair, hum?  — Apelou.

— Verdade? Ele... não é o seu namorado? — Robert questionou novamente.
— Hum! — Ela afirmou. 

— Fico mais aliviado. — Passou a mão na cabeça da filha. — Você é preciosa demais para qualquer um.

— Ok... eu sei, mas... Ele também não é qualquer um. — Revelou com um olhar travesso. — Não se preocupe, um dia eu o apresentarei a você. Ficará surpreso.

Sem esperar por uma resposta do pai, ela saiu porta afora da casa, deixando Robert confuso.

Mal sabia ele com quem a sua preciosa filha estava saindo.

(...)

Assim que Michael estacionou o carro em frente à academia “Wudang Kung Fu Wushu”, os olhos castanhos de Clarke reluziram e seus lábios se contraíram num sorriso ao observar a frontaria da academia bem trabalhada em madeira oriental e com o nome realçado em Hanja — caracteres chineses — em cores pretas e vermelhas.

Quando saíram do carro, Michael enfiou as mãos nos bolsos da calça, fez a volta no veículo e postou-se ao lado da garota.

— Por que está sorrido assim? — Perguntou a ela, mantendo o seu olhar fixo na entrada da academia.

Clarke o encarou.

— Como assim? Isso aqui é...

— Isso mesmo. Uma academia de artes marciais. 

— Verdade? Como eu não tive essa ideia antes?

Michael a fitou e confirmou com um gesto de cabeça.

Clarke não sabia muito sobre artes marciais, mas desde o dia que tinha visto Michael praticando no clube, passou a apreciar o estilo sem mesmo saber qual era. Mas agora que ela tinha visto a fachada daquele lugar, percebeu que se trava de um dos estilos do Kung Fu, e aquilo era impressionante para ela.

— Acredito que será útil para o seu trabalho da faculdade. — Disse o rapaz, tirando-a do seu estado de transe. 

Uma vez dento da academia, Michael e Clarke caminharam até o amplo ginásio rodeado por um conjunto de bancos dispostos em fileiras. O centro era vago para a prática dos movimentos, na esquerda havia dois “Muk Yan Jong” — boneco de madeira que substitui uma pessoa —, uma fileira de bastões de madeira e espadas de madeiras usadas para treinamento. Além dos dois mestres chineses, — professores — também se encontravam cerca de oito alunos naquele lugar, todos vestindo uma camiseta branca com o símbolo da academia nas costas, calça preta, faixa e sapatilha.

O rapaz e a garota trocaram sorrisos e dirigiram-se em direção a bancada, mas pararam no caminho quando foram abordados por um ancião e antigo professor chinês de cabelos grandes e grisalhos, atados numa fina trança. O velho tinha um bigode bastante crescido e os seus olhos pequenos e puxados eram rodeados pelas rugas que marcaram o seu rosto ao longo dos anos.

— Jovem Michael. — Ele disse calmamente, com um pequeno sorriso desenhado nos lábios.

— Mestre. — Michael o cumprimentou, curvando ligeiramente a cabeça em reverência. Em seguida, ele olhou para a Clarke. — Esse é o mestre Liu Zeng. Cumprimente-o. — Disse e ela rapidamente imitou o gesto do rapaz, cumprimentado o velho chinês.  

— Você está bem, rapaz? Fazia um tempo que eu não o via. — Liu Zeng disse ainda ostentando o pequeno sorriso.

— Eu estou bem. Sumi um pouco porque andei meio ocupado. — Foi a resposta do rapaz.

— Verdade? Entendo. — O velho sorriu audível e em seguida fitou a garota que estava ao lado do rapaz. Poucos sabiam, mas acreditava-se que aquele velho chinês, que era descendente de uma linhagem de xamãs, podia falar um pouco sobre o futuro; era incerto, mas acreditasse quem quisesse, e ele olhando para aqueles dois jovens à sua frente, por um breve momento, ele pôde sentir uma vibração negativa de modo premonitório e uma nuvem negra pairando sobre a vida de ambos, só não conseguia ver o que aquilo poderia significar. Pois as imagens não eram claras. — O que o destino não faz, não é? Olha só pra vocês. Ficam bem juntos. — Disse o velho. — São um casal?

Michael e Clarke se entreolharam meios que sem jeito.

— Nós? Não, somos apenas amigos. — Respondeu Michael .

— Estranho. Os seus horoscópios são compatíveis. — Liu Zeng não tinha certeza se a resposta do rapaz era verdadeira, mas de uma coisa ele estava certo: aqueles dois jovens já estavam apaixonados e prestes a enfrentar um futuro doloroso, futuro este que nada e nem ninguém conseguiria mudar. O velho Liu Zeng encarou-os por um breve momento com um pesar e respirou fundo. — Sabe, jovens? O momento em que os humanos percebem a vontade dos céus é chamado de destino. E não há o que possa fazer em relação ao que está por vir. É imutável.

Michael e Clarke olharam um para o outro rapidamente e ficaram confusos com as palavras aparentemente desconexas do velho chinês. Não disseram nada, apenas continuaram encarando o velho que continuava falando.

— Nós, humanos, não podemos escapar da vontade dos céus. — Liu Zeng segurou suas próprias mãos atrás do corpo. — “Quando alguém entra na sua vida, é uma coisa importante. Porque toda a sua vida vem junto com ela, seja entre os acontecimentos bons ou ruins.” Você já ouviu essa frase, certo? — Ele olhou diretamente para Michael.

O rapaz sentiu-se estranho e intrigado, pois eram as mesmas palavras que ouvira de Jonathan mais cedo. Mas ele era uma pessoa que não dava lugar a esse tipo de coisa, e por isso questionava-se se aquilo poderia ser apenas uma mera coincidência. Quanto a Clarke, bem... Esta estava inerte, encarando o velho sem entender absolutamente nada, embora aquelas palavras lhe dessem calafrios.

— Deixem as coisas acontecerem da forma que deve ser. — Foram às últimas palavras de Liu Zeng, antes de se afastar dos dois jovens.

Ao se encontrar sozinha novamente com Michael, Clarke finalmente pôde soltar o ar que estava preso nos pulmões. Ela não entendia o que aquelas palavras podiam significar, mas a aura era sinistra.

— O que foi isso? Estou toda arrepiada. — Murmurou ao encarar o rapaz ao lado.

Michael puxou o ar entre os dentes e franziu o cenho.

— Não tenho certeza. — Disse um pouco intrigado, mas logo decidiu não fazer caso do que o velho dissera.  — Vai entender os pensamentos dos orientais. — Deu de ombros e também encarou a garota. — Vamos. — E rumou para a bancada, sendo seguido pela garota.

Uma vez sentados, passaram a assistir dois alunos treinando com espadas de madeira, simulando ataques e fazendo acrobacias incríveis, deixando Clarke maravilhada com a visão e amando cada vez mais aquela parte da cultura.

— Um: olho. Dois: os pés. Três: coração. Quatro: a força. — Dizia Michael enquanto assistia os alunos. Clarke o olhou de lado. — A espada e em primeiro lugar: o olho em que vê. Segundo: os pés se movendo. Em terceiro: um coração forte, e finalmente poder e habilidade. Para superar a espada, significa que você tem que enganar o olho, ligar os pés, nublar a mente e enfraquecer a habilidade do adversário. — As pupilas do rapaz se dilataram, denunciando o quanto ele era apaixonado por aquela cultura.

A garota por sua vez, se sentiu confusa quando viu a paixão refletida naquele olhar.

— Você... parece saber muito sobre isso tudo. — Comentou titubeando.

— Errado. Tenho muito o que aprender, ainda. — Foi a resposta do rapaz, enquanto mantinha o seu olhar fixo agora em outros dois alunos que acabara de fazer o “Kin Lai”, a saudação do Kung Fu, antes de iniciarem uma luta.  — Olhe só pra eles. — Apontou para os alunos e Clarke os olhou. — Observe bem os seus movimentos. Antes de qualquer coisa, a arte do Kung Fu vai muito mais além da luta física. Os movimentos são controlados de acordo com a nossa mente. Ah, e não importa o quão bom você seja, se não estiver determinado, certamente será derrotado. Entendo o que eu quero dizer? Vence aquele que tiver mais determinado. Viu isso? Quando uma pessoa é atingida por um golpe desses, ganha um enorme hematoma. É uma técnica que fere os órgãos por dentro e deixa a vítima com problemas para respirar. Levei seis anos para descobrir como evitar ser lesionado por dentro.

— Olha só pra você? Gosta tanto assim de artes marciais?

— Hum. É o meu segundo talento.

— E qual é o primeiro?

— Ser bonito. — Gabou-se. Embora ele tivesse apenas brincando, Clarke não podia negar isso.

— Não seja tão metido, huh? — Ela estalou a língua nos dentes. — Mas de qualquer forma, você realmente é um perito nisso. Se não fosse o herdeiro do grupo Chromish, poderia levar isso como profissão.

Ao ouvir o que a garota tinha dito, Michael juntou as mãos a apoiou os cotovelos nas pernas.

— Pra falar a verdade... eu não quero e nunca quis ser o herdeiro do grupo Chromish. — Revelou.

Clarke arregalou um pouco os olhos.

— O quê? Como assim? Você... é o filho mais velho! Que absurdo é esse?

Michael sorriu, fitando o chão.

— Chocante, não é?

— Realmente! — Clarke não entendia o porquê que uma pessoa que tinha tudo, queria ter nada, visto que muitos outros caras queriam estar no lugar dele.

— Desde que eu era pequeno, via a falta de liberdade na vida do meu pai, e quanto mais eu ia vendo isso, mas eu tinha certeza de que não queria isso pra mim. Eu só quero ser eu mesmo... fazer o que eu realmente gosto.

— Ah... — A garota murmurou agora começando a entendê-lo. — Então... Posso perguntar uma coisa? — O olhar dela era relutante.

— Hum. Vá em frente. — Ele fez que sim com a cabeça.

— Eu sei que parte da sua vida é afetada pelo o fato de você ser um Jackson. Mas eu realmente estou curiosa. Você já é um homem e pelo o que já percebi, não só é inteligente como também tem capacidade de ganhar a vida sozinho, ser independente. — Michael confirmou com um gesto de cabeça, modéstia à parte. Ela continuou: — Então... por que você apenas não pula para o que realmente deseja fazer, ao invés de fazer uma coisa que não gosta?

Michael respirou fundo e a fitou por um tempo antes de respondê-la.

— Porque... eu quero deixar o meu pai satisfeito comigo pelo menos uma vez na vida, já que eu sempre fui contra os seus desejos. E também tem a minha irmã. Se eu apenas metesse a cara sem a aprovação do meu pai, sem dúvidas, nós ficaríamos brigados eternamente, isso seria muito difícil para ela.

— Ah... — Ela sibilou, constatando que ao invés de ser “rei”, ele preferia ter a liberdade.

— E você? Como é o seu relacionamento com o seu pai. — Agora foi a vez de Michael a questionar.

— Eu? Bem... o meu nunca se opôs à minha decisão.

— Verdade? Seu pai é um cara legal, então.

— Ele é sim. A pessoa que eu mais respeito é o meu pai. Não porque seja o meu pai, mas porque ele é a pessoa mais honesta que eu conheço.

— Pela forma que você diz, o seu pai deve ser uma figura muito conhecida também.

— Nem tanto. Mas sim.

— Será que eu sei quem é ele?

— Será? Vamos fazer assim. Vou deixar você na curiosidade até o dia de conhecê-lo. — A garota não via a hora de apresentá-lo ao pai, porém em momento algum citou que era filha de Robert Bradshow, não de propósito, mas porque queria fazer uma surpresa, não só a ele, mas ao próprio Robert.

— Que estranho. Me sinto ansioso. — Disse Michael e os dois sorriram.

(...)

Por volta das 22:00 horas, Michael estacionou o seu carro em frente à casa de Clarke depois de um momento incrível que teve com ela. Suas conversas foram tão agradáveis que, compensou todo o estresse que teve naquele dia. Ele simplesmente adorava estar perto dela.

Após agradecer ao rapaz por tê-la levado naquele lugar e depois de se despedir, Clarke fez menção de abrir a porta, mas antes que ela fizesse isso, Michael as travou, fazendo ela o encarar rapidamente e um pouco surpresa.

— O que foi? — Pigarreou.

— Preciso falar com você. — Ele disse calmamente.

— O quê?

Ele não a respondeu, pois seus olhos e movimentos foram mais rápidos que suas palavras; ele colocou as mãos sobre os ombros dela, a puxou e encostou os seus lábios nos da garota que sequer fechou os olhos durante o contato inicial. Ela permaneceu imóvel, sem saber o que fazer naquele momento.

Michael afastou o rosto, apenas o suficiente para analisar a expressão dela.

— Não fique assim. Não é como se fosse a primeira vez que nos beijamos. —Sussurrou e realinhou os lábios aos dela novamente, maravilhosamente acariciando-os e estimulando-os a se abrirem. Clarke perguntou-se se deveria retribuí-lo. E seria possível resistir àquele beijo? Então assim que ela cedeu, aconteceu que ele a estava consumindo, usufruindo do contato e do calor dos pequenos lábios dela.

As mãos da garota ganharam vida própria e embrenharam-se nos cabelos dele, puxando-o mais para si, até que um som baixo e rouco escapou da garganta do rapaz — o som que reverberou por todo o interior dela e que a fez render-se cada vez mais. O beijo dele era gotoso, caloroso e sensual ao mesmo tempo.

O beijo foi tornando-se muito mais profundo e acabou devido à falta de ar em ambos.

Clarke soltou-se das mãos dele e o encarou com falsa repreensão.

— Vai me beijar sempre que nos encontrarmos?

— Hum. — Ele assentiu francamente.  

— Você realmente é incrível, sabia? — O encarou com falso asco.

— Sabia. Mas... da última vez... você me perguntou se eu estava interessado em você. Agora vendo o quanto você corresponde bem aos meus beijos, também quero saber. Você... gosta de mim? — Perguntou, deixando Clarke sem saber o que responder a princípio. Por que ele estava perguntou isso a ela? O que ela responderia?

— Pelo o que ouvi, você tem fama de ser mulherengo. Um Casanova. Por que eu iria gostar de um cara assim?

Michael estreitou os lábios antes de retrucá-la.

— Essa é a sua perspectiva sobre mim, e eu não posso mudar isso. Porém, depois que eu conheci você, todas as outras mulheres me parecem chatas. — Disse desdenhoso.

— Do que você está falando?

— Vamos namorar. — O rapaz propôs, com o semblante tranquilo e sem titubear nas palavras.

Os olhos da garota dispararam para o rosto do rapaz, pasmada com o pedido repentino.

— Na-Namorar? Eu e você? — Arquejou seguido de um sorriso incrédulo.

— Hum. Não vejo razão para não fazermos isso. — Ele assentiu com a cara de paisagem. — Você quer que eu entre agora e fale com a sua família? Vamos fazer isso então. — Ele destravou a porta do carro e fez menção de abri-la, mas Clarke rapidamente segurou o braço dele.

— Está maluco? Eu não sei por que você está dizendo isso, mas...

— Você realmente não sabe? — Ele a cortou.

— Não. Eu nunca pensei que você de repente... Hãm... Então... O que eu estou querendo dizer é... — Muito nervosa, ela perdeu-se nas palavras.

— Por quê? Você não quer? — Michael arqueou as sobrancelhas.

— Não é isso... É que... Você me pegou de surpresa. — A garota balbuciou debilmente, desviando os olhos. Suas bochechas estavam coradas.

— Ah... É isso? — Depois de permanecerem em um silêncio profundo, o rapaz bateu as mãos com uma solução em mente, fazendo a garota olhá-lo pelo o susto que levara. — Beleza! Que tal isso? Vou deixar você escapar por hoje. Amanhã você me responde. Tá bom assim?

Não demorou muito para Clarke encontrar no que ele disse, a oportunidade de fugir só por aquela noite. Ela estava muito nervosa.

— Fechado! — Ela praticamente pulou de dentro do veículo e começou a andar em passos rápidos, com um braço estendido sobre a cabeça numa tentativa de se proteger da garoa fina que lhe molhava, anunciando uma futura chuva. Michael também saiu do carro, sem se importar se iria se molhar ou não, e não perdeu tempo em mostrar novamente o seu lado cavalheiro para a garota. Ele tirou o seu blazer preto e correu ao encalço de Clarke, cobrindo a cabeça dela com o blazer.

Ela parou e o fitou um pouco surpresa. Não esperava por aquele gesto.

Os olhos dele ostentavam um negro intenso que penetrava na alma da garota.

— Michael... — Disse baixinho, porém, o rapaz não deixou que ela continuasse, pois ele a virou e a envolveu em seus braços da maneira mais carinhosa do mundo, assustando-a no início. Foi tão inesperado que até ele mesmo ficou espantado com o seu próprio ato. Sentia uma forte e inexplicável necessidade de abraçá-la que não conseguiu se segurar diante dela.

— Não se preocupe. Depois você me devolve o blazer. — Ele sussurrou brandamente e virou um pouco a cabeça para inalar o cheiro doce dos cabelos dela.

Ela não retribuiu o abraço de imediato, mas aos poucos os seus braços foram envolvendo a cintura do rapaz até suas mãos pousarem nas costas dele.

Os dois permaneceram abraçados debaixo do chuvisco por alguns segundos, um minuto talvez, como se naquele mais puro e mais singelo dos toques pudessem demonstrar todo o sentimento que já sentiam um pelo outro. Qualquer um que olhasse para os dois juntos... o jeito que ambos se olharam, era impossível não perceber que eles estavam apaixonados. Era perceptível.

Quando finalmente se soltaram, Michael sorriu ao olhá-la. Clarke por sua vez, por algum motivo se sentiu envergonhada, coisa que não era do seu feitio.

— Está tarde. É melhor você ir. — Balbuciou ela, tentando não parecer inibida.

— Hum. — Ele assentiu e sem que ela esperasse, ele curvou-se e a beijou rapidamente nos lábios.

— Michael? — Ela censurou-o olhando para os dois lados. Estavam em frente da casa dela, afinal...

— Estou indo. — Ele desconversou e afastou-se dela.

Por causa da chuva, Clarke não esperou até ele ir embora. Ela adentrou na casa, rumou diretamente para o seu quarto e uma vez dentro do cômodo, jogou-se sobre a cama ainda descrente do pedido de namoro que recebera de Michael Jackson.

Não é que ela não queria ou estava na dúvida, só havia sido pega de surpresa e com isso ficara estupefata com o pedido repentino de namoro.

 A verdade é que ela já tinha um certo interesse no rapaz, mas depois desta noite, ascendeu um desejo desmedido de saber como era o verdadeiro Michael Jackson, aquele que era referenciado como o herdeiro de um grande conglomerado. Ele era diferente de como era descrito nos jornais e nos sites de fofoca, e só tinha de verdadeiros o seu temperamento e a fama de Casanova. Quanto ao resto, a garota tinha certeza de que o seu caráter ia muito mais além, mas, o que também a deixou surpresa foi a sinceridade estampado no semblante dele. Poderia ele estar gostando dela? Era meio que inacreditável! Mas... ele iria pedi-la em namoro se não gostasse? Não! Ele não parecia ser do tipo, embora tivesse aquela fama.

Ao lembrar-se do beijo, — e que beijo — ela esboçou um sorriso estúpido e cobriu brevemente o rosto com as duas mãos de forma infantil. Em seguida, parou de sorrir e praguejou-se por não tê-lo respondido antes.

Embora não tivesse respondido o pedido, definitivamente a sua resposta era sim. Um sim bem grande!

Sem querer perder mais tempo com a confusão louca que estava na cabeça, ela pegou o celular e enviou para ele a sua resposta por mensagem. Curta e um pouco vaga, mas era objetiva.

Para: Michael Jackson
SIM!

Só deu tempo de ela se levantar e pôr o blazer dele no cabide, que o seu celular soou novamente. Era uma resposta dele. 

De: Michael Jackson
Então... Te ligo amanhã, namorada!


Seus lábios curvaram-se num sorriso.






Notas da autora: Meninas, por causa de um problema com o Gadget, eu tive que postar a continuação dessa fic em outra página, ou seja, eu abri um novo topico, mas basta apenas clicar no link que irei deixar aqui em baixo ou na imagem da fic, hum?  

Link da continuação: Click aqui para ler

86 comentários:

  1. Bem vinda com certeza será uma estória especial boa sorte Nani Jackson.

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  2. Desculpa a sinceridade, mas começo a ficar com receio de ler algumas fanfic. Uma vez que começo a me interessar e depois "do nada" a autora não termina. Entendo que as pessoas têm suas vidas e problemas, mas é frustrante para quem ler. Como vc garante que não acontecerá com essa...vou te dar um voto de confiança. Até o dia 25/09.

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    1. Relaxa, flor! É compreensível o teu receio, pois eu também sou leitora e sei o quanto isso é frustrante uma vez que nos apegamos à história. Como deixei patente lá em cima, eu me dediquei ao extremo a essa história, então isso significa que ela está completa, o que torna mais um motivo de ir até o fim. Eu andei sumida ultimamente por motivos pessoais e também, como disse, passei também um tempo dedicada a esse livro que demorou bastante para escrevê-lo, já que na terceira pessoa é muito mais complexo o desenvolver e tal... Enfim, espero que esteja mais tranquila em relação a isso, hum? E obrigada por marcar presença, pois por ter passado tanto tempo sumida assim, tive receio de que vocês não fossem me querer mais. rsrsrs Bjs ;*

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  3. Oi meninas. Vocês estão bem? Espero que sim! ^^
    Bem, hoje trago o prólogo e o primeiro capítulo pra vocês.
    Hoje vamos ver um pouquinho do nosso Michael herdeiro e lutador, na próxima postagem vamos enfim conhecer a nossa mocinha destemida.
    Se tiverem alguma dúvida obre a fic, é só peguntar, ok? Responderei tudinho. :D E ah, digam o que acharam, please!
    Beijos e até mais! :*

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Estou amando essa fanfic! Continua...

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  6. Esperando!!
    Vai ter capítulo hoje??

    Mariana

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  7. Cadê a fic???
    Já tem cinco dias e nada????

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  8. Oi meninas... Cheguei com mais. :o

    Hoje vamos conhecer a nossa mocinha destemida e corajosa.

    E ah, respondendo a pergunta de algumas: As postagens serão feitas todos os finais de semanas, sábados ou domingos.:) MAS, se eu tiver um tempinho livre no meio dessa semana que está para entrar, quarta-feira talvez, eu trago um capítulo adiantado pra você, capítulo este onde eles têm a primeira conversa. rsrs

    Enfim... Obrigada por estarem aqui.

    Beijos e até breve! :*

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  9. kkkk....agora lascou tudo! Só quero saber o que vai acontecer.Estou ansiosa! Estou amando essa fic!!

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  10. Continuaaa! !!
    Tô adorando ❤❤��

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  11. Oiii meninas. Não foi exatamente na quarta-feira, mas como prometido, eu trouxe um capítulo adiantado pra vocês. \o/

    Como foi um pouco na correria, foi feita uma breve revisão novamente antes de postá-lo. Então se houver algum erro de digitação ou algo do tipo, please, me desculpem e avisem, hum? Obrigada! rsrs

    Enfim... Espero que gostem.

    Beijos ;* e até breve!

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  12. Estou amando essa fic kkk
    O michael tá uma delícia desse jeito rs
    Não demora muito...
    Tô anciosa

    Continuaaa


    Mariana

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  13. Muito bom! Que clima entre esses dois!
    Continua, por favor!

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  14. Continuaaa logo! !!

    Mariana

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  15. Só acho que demora muito pra postar fico ansiosa km muito o a a fic

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  16. Só acho que demora muito pra postar fico ansiosa km muito o a a fic

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  17. Josianne???
    Cadê a fic...POXA NÃO DEMORA NÃO :( :(


    MARIANA

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  18. Este comentário foi removido pelo autor.

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  19. Este comentário foi removido pelo autor.

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  20. Começou tudo de novo! espera,espera,espera,e nada de postar e você não da nem noticia!continua ou para! não deixa a gente nessa expectativa.

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  21. Já tá ficando chato ja! !!! >. <

    Continua com isso LOGO!!!!

    MARIANA

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  22. Gente... Vamos lá!

    Eu primeiro quero pedir desculpas por não ter postado esse final de semana, como eu tinha dito que seria os dias das postagens. Mas deixem-me dizer uma coisa: Eu não avisei não foi porque eu não quis não. Primeiro tem a questão do meu tempo e também foi porque eu fiquei sem internet. Foi isso! E pra falar a verdade, eu ainda estou sem internet e fiquei a semana inteira preocupada de chegar aqui e ter comentários negativos. Acreditem! Eu queria muito tê-las avisado sobre... Porém aconteceu o que eu disse... Então de verdade, eu espero que entendam e que aceitem o meu pedido de desculpas e que continuem comigo, pois a fic vai continuar sim.

    Para recompensar esse atraso, hoje trago pra vocês dois caps, hum?

    Espero que gostem!

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    1. Postados meninas! Demorou, mas foi. rsrsr
      Ah, como foram dois capítulos grandes seguidos, eu tive alguns probleminhas aqui para postá-los. Então se houver algum erro de digitação ou outra coisa do tipo ou estranha,peço desculpas desde já
      Esse final de semana, eu volto com mais!
      Enfim... /espero que gostem, suas lindas! Bjs!

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    2. Já estão começando a se envolver kkkk
      Tô adorando!!!

      Continua sim...

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  23. Que capítulo gostoso de ler!! Parabéns!! E continua, por favor!

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