segunda-feira, 21 de novembro de 2016

FanFic: "Sinto sua falta" (+18) - CONTINUAÇÃO


Capítulo 10
“O início de um pesadelo”

NAQUELA NOITE, DANIEL, O SEGURANÇA chefe da casa, que Jonathan tanto confiava, tinha planejado tudo. Causou uma queda de energia deliberadamente em volta da casa, desligou todas as câmeras que a cercava de dentro a fora e manipulou as CCTVS das ruas. Estava pronto para fazer o combinado: ele mataria Jonathan e o seu cúmplice se encarregaria de Michael. Era o plano perfeito que não deixaria pontas soltas, ele acreditava. Daniel só não podia imaginar que bem naquela noite, Michael não estaria em casa.

(...)

O rapaz estava a caminho da sua casa quando recebeu uma mensagem.
Sem tirar a concentração do volante, ele tateou o banco ao lado até alcançar o seu celular. Sorriu ao ler a o que estava escrito. 

De: Srta. Audaciosa 
SIM!

A resposta era um pouco vaga, mas aquela simples palavrinha lhe deixou feliz. Ele encostou o veículo em um lugar qualquer e respondeu rapidamente.

Para: Srta. Audaciosa 
Então... Te ligo amanhã, namorada! 

Enviou a mensagem e em seguida arrancou com o carro. 

Quando chegou em casa e saiu do veículo, notou que a chuva estava cada vez mais grossa. Por isso correu para a entrada da casa, mas parou quando o seu celular tocou novamente, só que dessa vez era uma chamada de Kamon. 

— Ah, oi — Disse assim que atendeu a chamada e pondo-se a correr novamente. 

— Tô sabendo que não trabalha amanhã. — Kamon disse no outro lado da linha. 

— Cara. É mesmo. Eu me sinto tão sobrecarregado que até esqueci que amanhã estou de folga. — Feliz, o rapaz girou o trinco da porta, a empurrou um pouco e permaneceu parado enquanto conversava com o amigo. 

— Então, já que amanhã está de folga, vamos sair. — Kamon propôs.

— Foi mal, amanhã tenho um compromisso.

— Era de se imaginar. Você não perde tempo mesmo com a murelhada.

— Não é nada disso. Vou sair com a minha namorada. — Revelou ao tailandês sem nenhum vestígio de vergonha.

— Hurum... — Kamon não acreditou.

— É sério. Sabe a garota que estava vestida de homem no clube? Estamos namorando.

— O quê?! Você... está namorando aquela garota? Sério?

— Muito sério. 

— Uau. Michael Jackson namorando? Mas me responda uma coisa. É sério mesmo? Você não está só brincando com ela, não é? — Kamon perguntou hesitante. 

— Você realmente... Acha que eu sou o quê? Se eu quisesse só brincar com ela, não tenha dúvidas de que eu já teria feito isso. Droga! Você faz eu me sentir ainda mais um patife. — Resmungou abrindo de vez a porta da casa e fechando-a atrás de si. 

— Você realmente está evoluindo, Michael Jackson! — Kamon brincou na linha.

Michael iria responder o amigo, mas a escuridão da casa que ele encarou uma vez que entrou, dilatou as suas pupilas e regressou suas retinas numa cor viva, lhe deixando automaticamente despertado, perguntando-se o porquê daquela escuridão fantasmagórica na grandiosa casa. 

Pensou na possibilidade de uma queda de energia, mas na casa havia geradores. Também pensou na possibilidade de um assalto, mas era impossível na sua percepção, pois aquela casa tinha uma boa segurança. E na verdade tinha! O que Michael não podia sequer imaginar era que naquela densa penumbra um plano maquiavélico estava sendo executado sob a ordem de um certo alguém.  

Ele afastou o celular da orelha, — esquecendo-se completamente de Kamon na linha — e entrou com passos de fantasma no íntimo da casa. 

O silêncio sepulcral reinava, fazendo o ambiente tornar-se muito mais assombroso. Eis que, o som de três tiros sendo disparados no andar de cima ecoou por tudo o interior da casa, zunindo um som baixo e agudo nos tímpanos de Michael e fazendo-o girar a cabeça automaticamente em direção ao alto da escada. Seus olhos se esbugalharam e o preto de sua íris ficou gradativamente mais intenso. 

Que porra era aquela? Foi o que ele se perguntou, sem notar que o seu celular havia deslizado por seus dedos e caído no chão, — ainda com o Kamon na linha.  

Embora nunca tivesse pegado em uma arma, Michael estava certo de que aquele som fino semelhante a um barulho de chicote tinha sido feito com um silenciador que não suprimiu totalmente o som dos disparos. E isso lhe deu um frio na barriga ao lembrar-se do pai e da irmã mais nova que provavelmente dormiam no andar de cima. 

Naquele momento, mil coisas passaram pela mente do rapaz, e nenhuma delas eram boas. O mau pressentimento pungiu a sua alma enquanto calafrios transpassavam por seu corpo, causando-lhe estremecimento.  

Sem esperar mais um segundo sequer, suas pernas ganharam vida própria e então ele subiu as escadas correndo de dois em dois graus até estar no corredor, diante da fileira de quartos que tinha naquela casa. 

A princípio, ele não sabia para qual lado se dirigia, para o quarto do pai ou para o da irmã? Até que em meio à penumbra, percebeu que a porta do quarto de Jonathan estava aberta e que havia um corpo caído ao chão. Rapidamente a sua vista se adaptou àquela penumbra e ele logo reconheceu o corpo. Aquele definitivamente era o seu pai, mas... ele não se movia. 

Tomado pelo pânico que envolveu o seu corpo, Michael correu e jogou-se para perto do seu pai. Por que o seu pai estava ali? O que estava acontecendo? Perguntava-se.

— Pai... Pai... O que foi? O que está acontecendo? Por que está aqui assim? — Indagou debilmente e com um olhar insano, tateando o corpo do pai que continuava sem se mover. Ele colocou uma mão embaixo da cabeça de Jonathan e a ergueu, mas ao sentir seus dedos molhados, ele lentamente soltou a cabeça e olhou para sua mão toda tingida pelo o líquido escarlate, que mesmo com a ausência de luz, ele podia ver claramente. 

O desespero do rapaz se inflou, seus olhos marejaram e se arregalaram em desespero. 

Aquilo não poderia estar acontecendo! Ele não conseguia acreditar mesmo estando diante dos seus olhos. O seu pai estava mesmo morto? 

— Pai! Pai! Pai! Levanta daí, hum? Isso não tem graça! Definitivamente não tem! — Ordenou para o pai num tom demente, mas o corpo continuava sem se mover. 

Voltou a tatear o corpo e em seguida balançando numa forma de despertar Jonathan que até então permanecia inanimado. 

— Pai! Pai! Anda logo! Acorda! O que você está fazendo aí assim? — Ele continuava balançando o corpo de Jonathan que, abriu um pouco os olhos e encarou o filho que estava com os olhos vermelhos e o rosto banhado em lágrimas.

— Pai, você acordou? O que está acontecendo? — Indagou ainda com desespero.

Jonathan procurou forças para responder o filho. 

— Robert Bradshow... — dizia lentamente com as poucas forças que lhe restavam. — é um monstro... Apresse-se... Pegue a sua irmã e fuja para bem longe. — concluiu com a voz fraca. 

— O quê? Como assim? Onde está a Natalie? — A voz do rapaz estava trêmula. 

Robert se esforçou e tocou no rosto de Michael, contemplando pela última vez o rosto do filho que ele tanto amava. 

— Michael, escute o seu pai dessa vez. A vida é curta e efêmera, então não deixe que a o ódio preencha o seu coração. Apenas pegue a sua irmã e viva uma vida saudável! Ande! Salve-a! — Esse tinha sido o último fôlego de Jonathan. 

— Mas... — Michael limitou-se quando viu a mão do seu pai cair no chão e a sua cabeça menear. Jonathan tinha acabado de morrer perante os olhos de Michael

A forte dor transpassava-lhe o peito, lágrimas escaldantes começaram a escorrer sem parar pelo o rosto do rapaz e a sua alma ficou em estado em que os seus sentidos se perderam completamente. O seu pai estava morto... Era isso mesmo? Não! Não podia ser! Não conseguia acreditar no que os seus olhos estavam vendo. Aquilo o deixou desnorteado por uns longos segundos.

Em um momento de desespero, ele agarrou a camisa que Jonathan vestia e puxou o corpo desfalecido para si, agarrando-se com ele. Bradou e em seguida começou a chorar em voz alta e clamar pelo o seu pai, entregando-se ao desespero enquanto aquela dor cruciante perfurava o seu coração cada vez mais. 

Ele estava tão absorvido por aquela dor que não sabia o que fazer a se não chorar. Até que, Natalie veio em sua mente e a sensação de angustia ligada ao descontrole e a aflição o fez cair na real. Era isso, a sua irmã. Ele tinha que salvá-la! 

Colocou o cadáver do pai de volta ao chão, se pôs de pé e correu desesperadamente para o quarto da irmã. Ele tinha que salvá-la, não podia perdê-la também. No entanto, ao chegar ao quarto da garota, já era tarde demais. Ela também estava morta. O corpo da menina estava caído ao chão, perto da cama, e o sangue lhe escorria pela face, espalhando-se pelo o chão... Ao lado dela estava Matilde que tentou salvá-la, mas também acabou sendo morta. As paredes pintadas cor de rosa do amplo quarto observavam caladas o corpo exânime da pobre garota e o da mulher que lhe criou. 

Para Michael, aquela cena foi o sentimento de outra faca dilacerando o seu coração. Aquilo só podia ser um pesadelo. Não era possível... Estava vivendo no inferno! Primeiro o seu pai e agora a sua irmã mais nova e a jovem senhora que ele estimava. 

Ainda sem acreditar que a sua irmã também estava morta, lentamente, ele aproximou-se do corpo dela e segurou o seu rosto entre as mãos, notando enfim que a garota também fora alvejada com um tiro na cabeça. 

Arquejou incrédulo e caiu sentado no chão, sem tirar os olhos de Natalie... A sua garotinha... A sua vida. 

Sem conseguir raciocinar direito e enquanto chorava desesperadamente, o rapaz se perguntou quem no mundo seria capaz de cometer tal crueldade. Sequer imaginava que Natalie só tinha sido morta porque tinha visto o rosto de um dos assassinos. 

Então se lembrou das últimas palavras do seu pai, referindo-se a Robert Bradshow. E automaticamente, a dor da perda que ocupava o seu coração foi substituída pelo o ódio e a sua mente preencheu-se de pensamentos destrutivos. Robert Bradshow... Aquele demônio... Michael iria matá-lo!

Com tais pensamentos, o rapaz de levantou, cerrou os punhos e se virou em direção à porta determinado, mas parou imediatamente quando Daniel, o segurança da sua casa, surgiu na sua frente empunhando uma pistola. 

Logo Michael pôde perceber o motim o que estava acontecendo ali. 

— Você... Você fez isso? — Indagou incrédulo num murmúrio de voz. — Por quê? Você está junto com Robert Bradshow? Por que, Daniel? Meu pai confiava tanto em você, e é assim que você o retribui? — Michael ficara ainda mais louco de raiva. Pois outra coisa que ele repudiava e que para ele era imperdoável, era a tal da traição! 

— Sinto muito, senhor Jackson, mas a minha liberdade está em jogo! — E o dinheiro que lhe fora oferecido também. Depois de ouvir tais palavras, a mente de Michael de repente ficou em branco. Incapaz de falar, ele ficou olhando para a cara daquele traidor safado. 

— Você... tornou-se um subalterno daquele desgraçado? — Michael sorriu sem humor e incrédulo, fervendo por dentro e por fora de raiva mal contida. 

— Eu já disse... Eu sinto muito. — Daniel disse apenas e ergueu a arma, mirando-a contra o rapaz, mas quando estava prestes a puxar o gatilho, Michael não pensou duas vezes e agiu rápido. Ele chutou a mão de Daniel, fazendo a arma que o mesmo empunhava ir ao chão. Uma vez que aquele homem se encontrava desarmado, Michael o golpeou fortemente no abdômen com as palmas das mãos, fazendo o corpo de Daniel cambalear, e em seguida, Michael impulsionou o próprio corpo para frente, fechou os punhos embrulhando toda a sua força, ódio e transtorno neles e golpeou o homem novamente, golpe este que na mesma hora fez Daniel cair no chão e jorrar sangue pela boca, resultado de um ferimento interno. 

Sem dar chances do homem se pôr de pé, Michael pulou para cima dele, segurou-lhe pelo colarinho e desferiu um soco no seu rosto. Deu outro, outro e outro enquanto gritava em descontrole. Michael estava transtornado, havia perdido completamente a sua sanidade mental. A raiva queimava-o por dentro... Não... O ódio o queimava por dentro. Seu pai, sua irmã e a mulher que lhe criou foram mortos por aquele traidor e era injusto aquele desgraçado viver depois do que fizera. E depois que o matasse ele iria diretamente à casa de Robert Bradshow para lhe devolver tudo em dobro. 

Porém, o que ele não podia imaginar era que havia mais um assassino na cena do crime, e este mesmo acabara de entrar no quarto de Natalie e se deparara com o comparsa sendo espancado pelo o rapaz descontrolado. Então rapidamente ele aproximou-se de Michael e encostou a arma na nuca do rapaz. 

Quando Michael sentiu o gélido do cano encostar-se em si, ele parou de socar Daniel, que já estava com o rosto ensanguentado e quase desalentado, e fitou um ponto fixo à sua frente, constatando que havia de matar mais outro antes de ir atrás de Robert. 

— Levante-se, rapaz! — A voz rouca e grossa do outro assassino decorreu por seu corpo fazendo o seu ódio descomunal inflar. 

Michael se levantou num ritmo vagaroso e paulatinamente se virou e encarou com os seus olhos em chamas o outro homem a sua frente. Não estava raciocinando direito, e em meio ao descontrole ele também desarmou o assassino com um movimento hábil com os braços.

Inclinando a cabeça de forma perturbadora, ele ergueu os olhos vermelhos e inchados e fitou o homem, fazendo-o dar alguns passos para trás com a expressão de puro medo ao ver o ódio e a determinação estampado no semblante de quem perdera as pessoas que amava. 

Michael  estava muito perto do criminoso quando o mesmo pegou o abajur, que estava sobre a escrivaninha ao lado, e arremessou contra ele de forma desajeitada. Automaticamente, o rapaz virou-se um pouco e o abajur acertou-lhe por detrás do ombro esquerdo, quebrando e lhe causando uma profunda ruptura de pele. O corte fora profundo e o sangue fluía abundantemente, mas o rapaz estava anestesiado pelo o ódio e o descontrole que haviam lhe consumido. 

O assassino pulou primeiro para cima de Michael tentando lhe acertar com um soco, mas o rapaz bloqueou o ataque com os braços, flexionou os joelhos, girou o quadril em direção do oponente e o acertou com um soco com o punho esquerdo. Sem esperar pela reação do homem, Michael agarrou-se nos ombros dele e lhe deu uma ajoelhada no seu abdômen, fazendo-o se inclinar pela dor estomacal. Michael o empurrou contra a parede e fez o mesmo com aquele homem o que fez com Daniel, o golpeou com as palmas das mãos de uma vez só na barriga, causando ferimentos internos nele.

Ele estava tão concentrado descarregando o ódio e a dor que havia em seu coração que sequer havia percebido que Daniel, mesmo ferido, conseguiu alcançar a sua arma no chão, e nos segundos seguintes mais dois disparos foram feitos. O primeiro atingiu as costas do rapaz, fazendo parar de bater no outro bandido. Michael deu dois passos para trás e quando estava prestes a virar-se para Daniel que agora portava a arma de volta, o segundo disparou foi feito. A bala o atingiu na têmpora, e o impacto fez a sua cabeça pender para o lado ao mesmo tempo em que o seu corpo desabou no chão, perto do cadáver magro da irmã. 

Ele olhou para o rosto de Natalie sentindo o chão gelado e tendo os pedaços do seu coração encolhidos. A ideia de saber que a sua pequena irmã, seu pai e a mulher que lhe criara, sentiram aquela sensação horrível e a dor que lhe queimava por dentro fazia ele não apenas odiar Robert e aqueles assassinos, mas também a si mesmo por não ter chegado mais cedo em casa e por não ter sido capaz de salva-los. E deduziu que seria até melhor assim. O que ele iria fazer naquele mundo imundo que tirou a vida de toda a sua família? Acompanhá-los na morte seria melhor o que viver sem eles, — concluiu em pensamento. 

Silêncio mórbido, só o que podia ser ouvido eram as trevas uivando lá fora, trazida pela chuva, e o som do vento sibilando contra as cortinas de todas as janelas abertas da grandiosa casa. Tudo agora estava lento, menos a dor dos tiros e a dor da perda que se alastrava e lhe queimava por dentro. Sentia como se a morte estivesse segurando os seus braços e o puxando para a o outro lado, assim como fez com a sua família. 

Olhando para o rosto já pálido da irmã morta na sua frente, seus olhos marejaram novamente enquanto ele a encarava triste e angustiado. Quando sentiu a morte se aproximando, ele tentou engatilhar a sua mão até a mão pequena da menina, mas estava fraco demais para alcançá-la, estava morrendo. Ele não podia fazer mais nada, a não ser tentar ao máximo de tempo que lhe restava, mesmo que no fim não conseguisse tocá-la pela última vez.

Suas pálpebras pesaram sobre os seus olhos e desceram lentamente sem tirar-los da irmã. 

Finalmente, toda sua dor e sofrimento pareceram chegar ao fim. 

Michael Jackson... também estava morto. — Acreditava-se. 

Daniel e seu capanga observaram a morte do rapaz, e depois de conferirem, bagunçaram todo o andar de cima da casa e enfiaram alguns itens de valor dentro de uma bolsa preta, para passar a ideia de que tinha sido um assalto. 


O plano aparentemente havia dado certo, sem pontas soltar. Porém, os assassinos não podiam imaginar que Michael havia deixado o celular cair com um amigo em linha, este que por sua vez havia escutado tudo, mesmo o celular estando longe de onde tudo havia acontecido.


Capítulo 11
Notícia catastrófica

— MICHAEL! MICHAEL! ESTÁ ME OUVIDO, cara? — Kamon chamou o amigo ao telefone, mas não recebeu reposta; apenas um ruído estranho podia ser ouvido. O tailandês levantou-se da cama levando o celular consigo e encarou a tela do aparelho. 

Passou longos segundos revezando o celular entre a sua orelha e a sua vista, mas continuava no vácuo. Michael não lhe respondia e isso lhe pareceu um pouco estranho. Ficou intrigado por instinto, mas pensou que talvez estivesse ficando maluco por estar pensando besteiras. Michael podia ter algo urgente para fazer que não desse tempo de se despedir e finalizar a ligação, — Kamon pensou. 

Deu de ombros e decidiu por um fim na ligação, porém, antes de deslizar o dedo sobre o ícone vermelho da tela, vozes do outro lado da linha se fizeram audíveis, e isso fez Kamon colocar o celular rente a orelha novamente. Eram duas vozes, mas nenhuma delas pertencia a Michael, o que deixou Kamon muito intrigado. 

Um barulho estranho de coisas sendo quebradas e arrastadas pelo chão fizeram o tailandês sobressaltar da cama e constatar que algo de ruim estava acontecendo, — definitivamente!  Ele não sabia o que de fato poderia ser, por isso não pensou em outra coisa se não ir até Michael e ver por si mesmo. Então, sem esperar mais um segundo sequer, ele pegou as chaves do carro de seu pai e saiu em disparada, rumo à casa de Michael

Dirigiu loucamente e apressadamente até estar em frente à grandiosa casa do amigo. Ao descer do carro, foi até os portões e apertou a campainha algumas vezes, mas por causa da falta de energia a mesma não estava funcionando, o que deixou Kamon muito mais desconfiado. 

Ele não encontrou outra forma de entrar a não ser pulando o muro da casa, e uma vez dentro, rumou às pressas para dentro da casa. E assim como Michael, o tailandês se deparou com aquela escuridão espantosa que fez os seus olhos pequenos e puxados ficarem em alerta. 

Kamon permaneceu estático por alguns segundo até os seus olhos se adaptar à penumbra.

Caminhou silenciosamente até sentir algo sob um dos seus pés. Parou abruptamente e abaixou-se para capturar o celular que pisou. Franziu o cenho e examinou o aparelho rapidamente, em seguida, ele apertou no botão ao lado e o aparelho ascendeu-se, revelando uma foto de Michael ao lado de Natalie, ambos sorrindo e demonstrando afeto fraterno. Definitivamente pertencia a Michael!

Passou a sua vista rapidamente a seu redor e encarou a bagunça que os bandidos fizeram, isso só o fez ter mais certeza de que alguma coisa de ruim acontecera ali, e foi com essa sensação que ele rapidamente subiu as escadas e rumou para o primeiro quarto que avistou com a porta aberto. 

O quarto era de Natalie, quando Kamon surgiu na porta, seus olhos custaram a acreditar no que viam. Michael estava jogado no chão com o corpo abastecido de sangue, podia ver pela pouca claridade que atravessava a janela aberta do quarto... e não só ele, mas também a sua irmã mais nova e a jovem senhora que trabalhava para a família Jackson há anos.

“Que merda é essa?” — Pensou Kamon enquanto entrava lentamente no quarto, ainda meio que incrédulo no que estava vendo. Parou diante daqueles corpos e permaneceu petrificando alguns segundos olhando de um corpo para o outro. 

Seus pequenos olhos encheram-se de lágrimas na medida em que ele ia franzido o cenho. Aquilo era uma desgraça. 

Ele ajoelhou-se entre o corpo de Michael e de Natalie. 

— Droga! Droga! Droga! — Resmungava enquanto tateava o corpo dos irmãos Jackson. 

O corpo da menina já estava pálido e gelado, mas o de Michael ainda havia vestígio de calor, isso ascendeu um pouco de esperanças ao tailandês que rapidamente decidiu verificar a pulsação dos três corpos aparentemente sem vida. Infelizmente, Natalie estava morta e a jovem senhora se encontrava no mesmo estado que ela. Era a vez de conferir a pulsação de Michael agora. Kamon já estava quase sem esperanças, mas ao encostar dois dedos no pescoço do rapaz e sentir a sua pulsação, os pequenos olhos do tailandês se arregalaram e a esperança de poder salvar pelo menos o amigo proliferou-se dentro de si. Só para conferir, ele colocou as costas de uma de suas mãos sob as narinas de Michael para certifica-se de que o amigo ainda estava vivo. Era uma respiração irregular, mas ele ainda estava vivo, mas sabia que se demorasse um pouco mais, ele logo estaria morto de vez. Ele tinha de salvá-lo! Mas antes, também tinha que conferia as suas suspeitas de que Jonathan... o pai do seu amigo, se ele também estava morto. 

Então Kamon pegou o seu celular e ligou para o seu pai, justamente por não saber a quem recorrer primeiro naquele momento uma vez que achara que havia algo oculto por trás daquela tragédia, — de que não fora apenas um assalto como o local apresentava — apenas não sabia ao certo o que era. 

Quando Gun atendeu a ligação, Kamon falou o que acontecera com a família do seu amigo, e ele recebeu algumas instruções do seu pai de como salvar o amigo, lamentando por ter que deixar para trás os outros corpos. 

(...)

Há uma coisa que é certa nessa vida, é que há algo que o ser humano nunca saberá até experimentar por si mesmo, e esse algo é a sensação de perceber que novos sentimentos começaram a crescer dentro de si, e em meio a isso tudo você também  acaba percebendo que não há nada que você possa fazer em relação a isso, é irreprimível, a paixão.  

Naquela manhã, Clarke vestiu uma calça jeans às pressas enquanto murmurava injurias contra si mesma. Pensou tanto em Michael durante a madrugada que acabou indo dormir tarde, e por isso agora estava atrasada para ir à faculdade. 

Era tudo muito novo para ela que nunca havia estado em um relacionamento antes, mas agora aquela sensação de sentir como se estivesse com um rótulo escrito  “namorada de Michael Jackson” era um misto de novos sentimentos e novas sensações que proliferava no seu interior. 

Ela queria muito poder dizer a sua família, mas não queria fazer alarde uma vez que começaram o namoro tão repentinamente. Esperaria o namoro tomar alguns dias... semanas... e enfim revelaria aos seus pais que estava namorando Michael Jackson. 

Mas, por mais que estivesse muito feliz, não podia deixar que aquela felicidade a deixasse se atrasasse ainda mais.  

Vestiu a primeira blusa que avistou assim que abriu o closet, calçou as sapatilhas, — por ser mais rápido que um par de tênis — e passou o pente brevemente nos seus cabelos curtos, molhados. Enfiou o notebook, o celular e alguns livros dentro da sua bolsa, e após pegar as chaves do carro, saiu apressadamente do seu quarto.

Clarke desceu as escadas correndo quando avistou os seus pais com um convidado — um dos advogados do grupo — que ela desconhecia. Ela fez um breve aceno para eles com a mão e rumou ao encalço da porta principal, mas aconteceu de esse tal convidado dizer:

— Infelizmente, essa tragédia iminente aconteceu com a família Jackson. 

Essa frase atingiu a garota como uma bomba, fazendo-a parar abruptamente e juntar os pés. 

— Quem imaginaria que tal coisa fosse acontecer. É lamentável. — Robert respirou fundo e mudou a sua expressão, fingindo estar triste.

Clarke continuava de costa e inerte tentando entender sobre o que eles estavam falando. Foi inevitável, ela de repente começou a sentir algo estranho, um sentimento ruim propagando-se aos poucos dentro de si. 

— Pelo o que parece, houve um assalto na casa dos Jackson e eles acabaram sendo assassinados. — O advogado continuou, agora sendo mais preciso sem sequer imaginar que aquilo fora uma armação de Robert.

Ao ouvir isso, o coração de Clarke acelerou maquinalmente e a bolsa e as chaves do carro, que ela segurava, deslizaram pelos os seus dedos indo de encontro ao chão, só enfim fazendo Robert, Clarice e o advogado notarem a garota ali parada. Sua posição petrificada foi quebrada quando ela virou-se lentamente e deu alguns passos enquanto os encarava. 

— Eu ouvi corretamente? Quem... você disse que... foi assassinado? — Perguntou debilmente, temerosa com a resposta do seu pai, este que encarou a garota sem notar a aflição estampado no seu olhar. Afinal, ele não fazia ideia da relação da a sua filha com Michael Jackson

— Clarke? Você ainda não saiu? Eu pensei que...

— Eu perguntei sobre quem vocês estavam falando, huh? — Ela o cortou. — Que família foi assassinada?  — Reformulou a pergunta com um olhar transparecendo agonia. 

Robert e Clarice franziram o cenho estranhando o comportamento meio rude da filha. Mas mesmo assim, sem saber que Clarke estava gostando do herdeiro do grupo Chromish, Robert deu a notícia desastrosa descuidadamente. 

— Ah, sobre isso? Bem, aconteceu que... houve um infortúnio com a família Jackson. — O rosto de Robert foi tomado por uma fingida expressão triste. — Pelo o que sabemos até o momento, em meio a um assalto durante a noite passada, eles acabaram sendo assassinados. Todos. — Ele também respirou profundamente fingindo que lamentava.

Ao ouvir a resposta do pai, as estruturas da garota foram abaladas de maneira que as suas pernas perderam as forças com o impacto da notícia catastrófica, levando o seu corpo magro a desabar no chão. Era como se as placas tectônicas estivessem tremendo sob os seus pés, de forma que a jogou rusticamente.

— Mo-mortos? — Murmurou ainda entorpecida com a má notícia. 

Robert ficou pasmado com a reação inesperada da garota, realmente não estava entendendo o porquê de tal resposta, mas foi quando os olhos dela encheram-se de lágrimas que logo começaram a escorrer, foi que ele começou a desconfiar o porquê daquela reação

— Co-co-como assim, pai? — Ela balbuciou debilmente.

Clarice aproximou-se dela, se ajoelhou e a tocou no ombro, de cenho franzido. 

— O que você tem? Por que está agindo assim, minha filha? — Sua mãe indagou. 

Clarke estava débil, ela ainda não conseguia acreditar no que tinha ouvido. 

— Isso é mentira, não é mamãe? O pai está mentindo, certo? Huh? — Ela olhou para Clarice com um olhar esperançoso; queria muito que a resposta fosse “sim”, que o seu pai estivesse errado, mas recebeu como resposta uma expressão de lamento e um olhar triste da sua mãe, que foi como uma confirmação. 

Os olhos da jovem garota encheram-se novamente de lágrimas que escorreram em abundância pelo o seu rosto fino. Sua boca abriu inúmeras vezes, mas as palavras tornaram-se escassas. Seus olhos estavam repletos de lágrimas de dor e essa dor feria o seu coração. 

Intrigado e de cenho franzido enquanto encarava a sua filha jogada ao chão, Robert cogitou até tomar a coragem para questioná-la, já que ela parecia ter sido atingida por aquela notícia.

— Clarke? Você... por acaso era íntima de alguém da família Jackson?

Ainda no chão, Clarke fitou um ponto insignificante à sua frente.

— A gente mal havia começado... como isso pôde acontecer, huh? — Choramingou em meio às lágrimas sem perceber o que estava falando. — Michael... A gente tava namorando e agora... — Ela perdeu-se nas próprias palavras ainda desorientada enquanto a dor cruciante lhe consumia por dentro. 

Os olhos de Robert se esbugalharam instintivamente ao ouvir tal coisa. 

— O quê?! Você o quê?! — Robert bradou por impulso, logo em seguida engolindo em seco, se contendo.  — Estava namorando Michael Jackson? Aquele... Michael Jackson? — Indagou incrédulo. 

— Isso não pode ser verdade! Definitivamente não é! Michael... eu preciso vê-lo. — Ela levantou-se custando a conseguir se sustentar sozinha, mas buscou dentro de si todas as suas forças para conseguir ficar e pé. Andou em passos descoordenados ao encalço da chave do seu carro, que estava jogada ao chão, e saiu em disparada. 

— Aonde você vai? Clarke? — Clarice a chamou, mas a garota estava tão anestesiada com tudo aquilo que sequer ouvira a sua mãe lhe chamando.

Neste momento, o celular do advogado tocou e depois de tê-lo atendido, ele virou-se para Robert com mais informações sobre o caso. 

— Senhor Bradshow? Não sei o que está acontecendo, mas o corpo do filho do presidente Jackson não foi encontrado. — A notícia foi outra tremenda surpresa para Robert.

— O quê? Então... há a possibilidade de ele ainda estar vivo? — Perguntou receoso, pois se aquele garoto patife ainda tivesse vivo, seria um grande problema para ele.

— Não se sabe ao certo ainda, pois o corpo desapareceu da cena do crime. Mas de acordo com o detetive responsável pelo o caso, havia uma grande poça e sangue correspondente a uma quarta vítima, Michael Jaqckson.

— Ah... Verdade? — Murmurou receoso. Aquela notícia não era nada boa. 
Mas... uma coisa que ele não conseguia mais parar de pensar era no que Clarke havia dito. Ele simplesmente ainda não conseguia acreditar na ideia da sua filha ser apaixonada por aquele patife do Michael Jackson. Eles estavam namorando? Como? Até onde ele sabia, a garota não o conhecia. Mas agora ela diz que estavam namorando? O velho perguntava-se que tipo de absurdo era aquele? 

(...)

Clarke dirigiu desenfreadamente até as proximidades de classe alta, onde sabia que a família Jackson residia. Seus olhos bem atentos e vermelhos de tanto chorar, capturaram uma aglomeração de curiosos em frente a uma enorme e luxuosa casa. Também havia repórteres de várias emissoras e muitos policiais escudando a residência. Logo a garota deduziu ser a do rapaz. 

Assim que parou o carro em frente à casa que julgou ser a de Michael, ela mal havia estacionado o veículo quando saltou do mesmo. Correu até os portões da casa a fim de entrar para conferir por só si mesma o que ouvira do pai, mas foi barrada pelos policias que bloqueavam a entrada.

— O quê? Me deixem entrar, huh? Eu preciso vê-lo. Deixem-me passar! — Ela estava desesperada. 

— Sinto muito, senhorita, mas ninguém além da polícia pode entrar. — Disse um dos policiais. 

Clarke não queria saber se podia entrar ou não, ela apenas queria ver com os próprios olhos se Michael realmente estava morto. Por isso, ela não pediu mais, apenas jogou-se entre os policiais numa forma desesperada de entrar, porém, sem sucesso. Os policiais a seguraram, impedindo-a de barrá-los. 

— Senhorita, você não pode fazer isso. — Disse um deles novamente. 

— Me larguem! Mas eu preciso vê-lo! — Ela se gritava enquanto d debatia com eles.

De repente, dois braços agarraram firmemente a cintura da garota e logo ela foi puxada pelo o dono daqueles braços. Sem olhar para o rosto da pessoa que lhe segurava enquanto lhe arrastava, ela continuou se debatendo naqueles braços.

— Sinto muito. — A voz soou num murmúrio de voz dirigida aos policias. Foi então que Clarke parou de se debater ao reconhecê-la pelo o sotaque. — Fique calma.

Ela rapidamente olhou para a pessoa que acabou por ser o Kamon. Ela nada disse, apenas deixou ser levada pelo o tailandês até estar longe de toda aquela aglomeração.

Kamon a fez se encostar no capô do seu carro, fazendo o mesmo em seguida. Ficaram em silêncio, mas ela não parava de chorar enquanto fitava o chão. Sem saber o que dizer, Kamon apenas passou o braço pelas costas dela até o outro ombro e a puxou para os seus braços para consolá-la. Queria muito poder dizer o que sabia, mas ele não podia, nem mesmo para ela. Não, pra ninguém!  

Clarke desgrudou-se de Kamon e o encarou, apertando fortemente a camisa dele. 

— Olha, você é amigo dele, não é? Você precisa me ajudar! Eles estão dizendo que Michael está morto. Que toda família está. 

Kamon sentiu pena ao ver o desespero da jovem garota. Mas ele não podia dize.

— O corpo de Michael... desapareceu. — Revelou apenas.

— O quê? O que você está falando? — Balbuciou. 

— Os policiais não encontraram o corpo dele. 

A garota sorriu com incredulidade. 

— O que é isso agora, huh? 

— Estão trabalhando com a possibilidade de assalto seguido de morte com ocultação de cadáver. 

— Não encontraram o corpo dele? Então... ele está vivo! — Disse esperançosa. 

— Não. O mais provável é que ele esteja morto. Há muitos indícios. 

— Realmente... Você acha que ele está morto? 

Kamon respirou profundamente antes de responder.

— Hum. Eu acho. — Mentiu, pois achou melhor que pensassem que o rapaz estivesse mesmo. 

— Ele não está. Nós nos falamos e começamos...  — Limitou-se e balançou a cabeça em negativo. 

O tailandês segurou firmemente os ombros dela, a fez o encarar com veemência e engoliu em seco.  

— Eu não queria dizer isso. Realmente não queria! Mas Michael está morto! Entendeu? — Disse tão convicto que foi impossível não cair na real. Foi como um choque de realidade para a garota que, desatou a chorar novamente enquanto escorregava-se pelo o capô do carro até o chão. 

— Então quer dizer que... ele se foi assim? — A ideia de tê-lo perdido a fez perceber que ela realmente estava apaixonada por ele. 

Kamon abaixou-se, a encarou novamente e disse.

— Infelizmente! 

— Então... o que eu vou fazer? Eu... me apaixonei por ele. — Disse chorosa. 

O coração de Kamon afundou em seu peito ao ouvir tal coisa. Ah, se eu pudesse dizer... 

— Eu sinto muito. — Ele disse apenas. 

— Por que eu não pude dizer isso? Nós tínhamos começado a namorar e eu sequer pude dizer que estava apaixonada por ele. 

— Tenho certeza que ele sabia disso. 

— Não. Do jeito dele, ele deixou claro tantas vezes que gostava de mim, mas eu nem disse apropriadamente que também gostava dele. Tinha tantas coisas que nem fizemos ainda... — Desalentada, a garota fechou os olhos e permaneceu assim por alguns minutos, murmurando o nome dele.  

Kamon se levantou.

— Vamos. Vou levá-la pra casa. — Disse ajudando-a a se pôr de pé. 

Clarke não contestou, apenas deixou ser guiada pelo o tailandês até estar dentro do carro o mesmo e ser levada de volta pra casa. E assim que saíram do carro, Kamon só pôde chegar até o jardim da casa, pois Robert e Clarice surgiram assim que os avistaram.

— Clarke? Onde você esteve, sua garota má? Estávamos tão preocupados você! — A mãe da garota disse assustada, agarrando-a e levando para dentro de casa. 

Enquanto isso, Robert e Kamon se encararam por alguns segundo, até que o velho decidiu quebrar o silêncio que estava. 

— Obrigado por trazer a minha filha, rapaz. — Agradeceu.

— Não há de quê, senhor. — Kamon disse apenas e saiu da área da casa um pouco intrigado com a aura que aquele velho transmitia. Mas não deu muito lugar para aquele sentimento estranho e foi embora assim que entrou no seu carro. 

(...)

Embora estivesse muito preocupado com a possibilidade de Michael ainda estar vivo, Robert ainda tentava entender como a sua preciosa filha acabou se apaixonando por Michael Jackson, a quem ele mandou matar junto com o resto da família. 

Mesmo vendo a garota encolhida na cama agarrada a um blazer preto, que ele deduziu pertencer ao rapaz, Robert ainda não conseguia acreditar. 

Ele aproximou-se da filha e sentou-se na beirada da cama. Ao notar o pai, Clarke encostou-se no espaldar da cama sem soltar o blazer de Michael e com as costas de uma única mão enxugou as lágrimas que persistiam em preencher os seus olhos inchados por causa do choro. 

Robert a encarava angustiado, não suportava ver a sua garotinha chorar daquele jeito. De certa forma, ver a filha tão triste daquela forma lhe deixava triste também. Mas o que estava feito já estava feito, e sinceramente? Não sentia nem um pouco de remorso ou algum sentimento de culpa. Apenas se sentia triste pela sua filha. 

— Você realmente... estava namorando aquele rapaz? — Ele perguntou brandamente. 

Depois de um longo silêncio, a garota disse:

— Eu estava apaixonada por ele. E agora, o que eu vou fazer? O primeiro homem pelo o qual eu caí de paixão está... morto. — As lágrimas que antes estavam presas escaparam pelos olhos da garota em forma de cascata. 

— Você... realmente gostava tanto dele assim?

— Sim, eu gostava muito dele. Eu não consigo entender isso. Por que isso teve que acontecer com ele e com a sua família? Que tipo de monstro entra numa casa e tira a vida de uma família inteira por causa de dinheiro? Deus... havia uma criança entre eles. Pai, que tipo de mundo é esse? 

Robert de repente ficou sem chão ao ouvir as palavras da filha. Mas... arrependido? Não, mesmo vendo a dor da filha, aquele homem não se sentia nem um pouco arrependido. 

— Aconteceu...

— A pessoa que fez isso... — ela o cortou. — é um monstro que não merece o perdão mesmo quando estiver arrependido. 

Tais palavras foram como uma facada no coração de seu pai, e depois dessa, Robert não conseguia mais articular nada em sua mente. 

Clarke também não disse mais nada. Michael não saia da sua cabeça; o seu beijo e muito menos o seu primeiro e último abraço, pelo o que parecia. O milagre de tê-lo conhecido agora parecia ter sido apenas uma fantasia que só existia em sua cabeça. O seu coração estava doendo tanto que chegou a pensar que teria sido melhor se fosse mesmo, porém, essa era uma realidade que ela não podia mudar.




Capítulo 12
“Do pesadelo à realidade”

A ÚNICA COISA TÃO INEVITÁVEL quanto à vida é a morte. A qualquer momento, mais cedo ou mais tarde, ela acaba chegando até você de uma forma ou de outra. Seja até você mesmo ou àqueles que estão ao seu redor. Você acha que não vai perder aquela pessoa tão cedo, e então ironicamente, o destino fica entediado e decide brincar com os seus sentimentos.

Quatro meses já haviam se passado desde aquele acontecimento funesto com a família Jackson, e esses mesmos meses se passaram numa névoa de rostos novos para Clarke. Esta havia se formado com louvor e seu sonho havia se realizado parcialmente, pois logo após a formatura ela conseguira um estágio em um jornal online e trabalhava dez horas por dia de segunda a sábado. Tudo parecia perfeito aos olhos alheios, contudo, bem lá fundo da sua alma, a garota ainda estava consternada, pois, embora tivesse passado pouquíssimo tempo com Michael Jackson, perdê-lo tão cedo e ainda mais de forma tão cruel foi definitivamente um buraco em meio ao cosmo. Era como se a existência dele na vida dela tivesse sido apenas um vento passageiro que persistia sempre em voltar toda a noite, uma vez em seu quarto, trazendo as pouquíssimas lembranças que lhe abrangiam com força total. Quando ele a tocou intimamente pela primeira vez para livrá-la de ser descoberta pelos policiais. Quando arriscou a sua vida para protegê-la de dois ladrões. Por causa disso, agora, ela nunca conseguiria esquecê-lo, e toda noite ela chorava silenciosamente quando pousava a cabeça sobre o leve travesseiro, porque sentia a falta dele. Muita.

Em meio a isso tudo, a jovem garota não havia perdido a sua essência, mas o seu coração que antes batia acelerado tornou-se vazio de forma semelhante a um manequim.

Nesse espaço de tempo, após recuperar os sentidos e depois de ter pensado bastante até a cabeça doer, Clarke começou a desconfiar de que algo estava errado, definitivamente! Tudo bem... poderia ser paranoia da cabeça dela ou talvez pudesse ser apenas os seus sentidos de repórter fluindo dentro de si, inclusive, ela mesma estava ciente disso. Mas três pessoas tinham sido assassinadas e o corpo de Michael simplesmente havia desaparecido do mundo como fumaça que se dissipa no ar, e foi questão de dois dias para o rapaz ter sido dado como morto. Era como se os responsáveis pelo o caso não tivessem se esforçado o bastante para descobrir a verdade, ou até mesmo encobrindo-a propositadamente. E mais estranho ainda porque ninguém havia sido preso até o momento, já que se tratava de uma família prestigiada.

Justamente por estar intrigada com tudo isso, a garrota se juntou com um detetive que ela recentemente havia descoberto que ele também estava interessado no caso; ambos vinham investigando secretamente algumas coisas em relação à família assassinada, embora não tivessem descoberto nada além de que Jonathan Jackson ainda estava sendo investigado pelo o ministério público, mesmo depois de morto.

 Sem imaginar que descobrir a verdade podia ser mais doloroso do que a perda que tinha sofrido, Clarke estava determinada e disposta a usar todos os meios que pudesse para mostrar a verdade ao mundo que, por algum motivo estava sendo oculta.

Ah, se ela soubesse...

Dirigiu até estar em frente ao prédio onde situava o andar do jornal online, para qual estava trabalhando. Tirou a chave da ignição e quando estava prestes a sair do carro, o seu celular tocou, mostrando no visor o nome “Detive Macalie”. Ansiosa e na esperança de que o detetive tivesse alguma novidade, ela rapidamente deslizou o dedo sobre o ícone verde do aparelho.

— Sim, Detetive. — Disse ao encostar o celular na orelha.  

— Oh, senhorita Bradshow. Está podendo falar agora? — A voz grossa de Macalie soou no outro lado da linha.

— Hum. Estou sim. Descobriu alguma coisa sobre aquilo que te pedi?

— Então... Sobre isso... É como eu imaginei. — A voz dele soou com pesar.

— Quer dizer que... Nada?

— Exatamente. Não há nenhum registro do que aconteceu nas câmeras que havia na casa da família Jackson. E estranhamente, as CCTVs das ruas próximas não capturaram nada de estranho naquela noite. Talvez, elas podem ter sido manipuladas, mas é só uma teoria minha.

— Verdade? Aishiii! — Clarke respirou profundamente.

— Sim. Mas tem uma coisa que eu descobri. — O detetive disse, assim acendendo a esperança da garota. — Os outros empregados que trabalhavam para a família disse que havia um segurança que trabalhava lá também. Talvez ele pudesse saber de algo. 

— Então... temos que nos encontrar com ele, certo?

Sim. Mas tem um problema. Ele está desaparecido desde a noite do assassinato, e estranhamente, o nome dele não está na lista das pessoas que depuseram no caso.

Clarke fechou os olhos e balançou a cabeça em negativo.

— Tem alguma coisa podre aí. A cada dia mais eu tenho certeza.

— Você acha que tem alguma possibilidade de ter sido ele?

— Não sei. Por que a polícia iria encobrir a verdade de um caso se o culpado fosse um mero segurança?

— Quem sabe?

— Sinto como se eu fosse enlouquecer! — Ela resmungou ao respirar fundo novamente. De repente a suspeita veio a sua mente. — Espera! A não ser que... alguém tivesse por trás desse segurança. Detetive, o que você acha disso?

— Isso é uma possibilidade, uma vez que não consegui localizar esse homem.

— Temos que encontrá-lo.

— Não se preocupe com isso. Eu vou encontrar esse sujeito custe o que custar. Só que pode levar um pouco de tempo. Como o caso já está encerrado e só é possível reabri-lo com uma prova concreta, nenhum detetive pode ter acesso aos arquivos do caso.

— Então vou esperar ansiosamente até que você o encontre.

— Todo bem. Qualquer coisa eu entro em contato com você novamente.

— Certo, detetive.

Finalizaram a ligação.

Clarke segurou o volante fortemente e fixou o olhar em um canto qualquer através do parabrisa; ficou lá por alguns minutos dentro do carro pensando na possível relação do tal segurança desaparecido com a morte da família Jackson. Perguntava-se qual poderia ser o envolvimento dele? Será que ele mesmo tinha cometido tamanha crueldade? Por quê? Por qual motivo? Aquilo era tão frustrante. Por mais que pensasse fortemente na possibilidade de ter sido ele, era muito estranho o fato da polícia estar encobrindo-o.

Deixando tal pensamento de lado, ela pegou sua bolsa e saiu do veículo. Entrou no prédio e seguiu até o elevador, pegando o mesmo e apertando o botão do 9º andar. Assim que as portas daquela caixa abafada se abriram, ela seguiu diretamente até a sala do seu chefe sem mais ponderar o que estava em mente. Trazer o caso à tona novamente, talvez, pudesse chamar mais atenção da população e daqueles que tivessem dispostos a descobrir a verdade.

Repórteres, quem podia pará-los?

Bateu levemente três meses na porta de vidro da sala e entrou no amplo espaço. Ao ver a figura da garota diante de si, o homem de cabelos parcialmente grisalhos que estava atrás de uma mesa cheia de jornais e revistas, olhou o relógio em seu pulso e depois encarou a garota de cenho franzido.

— Oh, Clarke. Por que você... chegou tão cedo? — Ele perguntou, encarando-a.

— Chefe... Eu gostaria de falar com você.

O homem encostou-se no espaldar da cadeira e cruzou os braços.

— Então diga. — Instigou-a.

Clarke aproximou-se mais da mesa e sentou-se em uma das cadeiras que havia em frente a ela.

— Quero dar uma ideia para um novo artigo. É algo que eu realmente quero fazer.

— Prossiga. — Sibilou ele, curioso.

— Quero investigar o caso da família Jackson. — Ela foi direto ao ponto. — Eu sei que já faz alguns meses; na época eu era uma estudante universitária e não pude prestar muita atenção nos fatos apresentados, mas agora que eu dei uma olhada... Realmente algo não bate. Na verdade nunca bateu na minha cabeça, e por isso passei meses martelando muitas coisas com e sem sentido. Mas... Assalto seguido de morte, segundo os fatos apresentados pela polícia? Pode parecer paranoia, mas não está colando.

— E? — O homem arqueou as sobrancelhas.

— Isso tudo é muito suspeito. Tem algo aí que não se encaixa.

— E o que seria? — Ele a indagou novamente.

— É o que eu estou tentando descobrir. — Foi a resposta da garota. — Ok, eu sei que hoje em dia existe de tudo, falo isso como repórter, mas um caso hediondo que foi tão fácil de concluir quando um corpo de uma das vítimas ainda está desaparecido... tá muito na cara.

— Aonde pretende chegar?

— Hãm... Isto é... Como é que eu digo isso? — Ela mordeu o lábio inferior e soltou o ar. — Eu desconfio que Jonathan Jackson foi usado como bode expiatório e depois assassinado junto com a família para desviar a verdade. Ou, por outro motivo que ainda não descobri.

— O que você está dizendo? Se a polícia concluiu que foi assalto seguido de assassinato, é porque foi isso o que aconteceu. Caso encerrado!

— Não, chefe! Eu tenho certeza de que há algo...

— Por que você quer investigar isso depois de tantos meses que se passaram? — Ele a interrompeu. — Você é da polícia por acaso? Foque em outros casos. Vá escrever alguma coluna.

— Não foi assalto, foi diretamente assassinato! — Ela respondeu, num impulso confidente. — É que... Como repórter, eu só estou tentando relatar a verdade. Eu não quero mais ter a minha mente influenciada baseado no que apenas os fatos mostram. Eu quero ir mais afundo porque eu sei que se cavar eu encontrarei o que quero, sei que existe outra verdade para este caso. A verdadeira verdade. — Ressaltou de olhos um pouco arregalados. — Então é por isso que antes que vim consultar você, eu mesma fiz algumas pesquisas e investiguei com antecedência com a ajuda de alguém.   

O chefe da garota desencostou-se do espaldar da cadeira, apoiou os cotovelos em cima da mesa, entrelaçando os dedos abaixo do queixo, e fechou os olhos por um breve instante, pensando um pouco. 

— Clarke... Clarke... Você é realmente alguma coisa. — Ele disse baixinho ainda com os olhos fechados. Porém, isso era um elogio, pois o homem já sabia o quanto aquela garota era determinada. Continuou ao abrir os olhos. — Quando as pessoas falam da verdade e da justiça, você tem que saber ler nas estrelinhas. Porque essas são coisas inúteis que as pessoas não precisam dizer. Ou seja, se a pessoa não tem um motivo oculto egoísta. — Ele fixou os olhos nos dela. — Você tem algum motivo oculto por almejar tanto a outra tal verdade que você tanto fala? Hein?

— Revelar a verdade é um motivo oculto para você, chefe? — Ela o perguntou com polidez.  

Clarke...

— É trabalho da polícia acompanhar e investigar o caso e é trabalho do repórter seguir a verdade. Não estou certa, chefe?

O argumento eloquente da garota fez o homem se calar e engolir em seco. Ele não sabia o que exatamente estava passando pela cabeça dela, mas não pôde negar que na questão de mostrar a verdade, ela estava coberta de razão. Não podia ter tido outra estagiária melhor que Clarke Bradshow.

— Tudo bem, Clarke. Vamos fazer assim: primeiro você me diz o que tem em mente e o que descobriu em relação a esse caso, aí e vou ver se podemos levar ao público esse caso novamente.

Clarke lhe abriu um sorriso.

— Sério, chefe? — Perguntou, ele assentiu com um gesto de cabeça. — Obrigada! Obrigada mesmo!

Ainda com os lábios um pouquinho esticado num sorriso de lado, ela fitou o chão da sala e respirou fundo. Estava na esperança de que se algum noticiário trouxesse o caso à tona, atrairia a atenção da população novamente e seria mais fácil descobrir o que realmente acontecera naquela noite. Michael havia feito tanto por ela que ela sentia que pelo menos teria de mostrar a verdade para que ele e a sua família pudessem descansar em paz.

(...)

A calma e o silêncio do pequeno quarto daquele hospital eram absolutos, exceto pelos bips incessantes do monitor cardíaco ao lado da cama, que mostrava os batimentos do rapaz com o corpo inanimado deitado sobre o acolchoado, num sono profundo há quase cinco meses.

O rosto de Michael estava pálido e os seus lábios ressecados. Seus cabelos que costumavam sempre estar em um corte mediano, agora estavam crescidos, quase chegando à altura dos ombros.

Ao lado da cama, observando-lhe, estava Araya, a irmã mais nova de Kamon, que havia deixado para trás a sua avó materna e as praias paradisíacas das festas intermináveis da Tailândia, para passar algum tempo com seu pai na América. Porém, a chegar ao continente americano, descobriu que a sua paixão unilateral estava naquela situação. Desde então, junto com o pai e com seu o irmão mais velho, ela cuidava do rapaz secretamente naquele hospital distante da cidade, sem ninguém saber que aquele paciente na verdade era Michael Jackson.

Ela ia lá todos os dias para cuidar dele. Praticamente, ela não arredava o pé daquele hospital. Fazia-lhe massagens nos braços e nas pernas, e também passava um pano úmido nas mãos e no rosto dele para refrescá-lo um pouco.

Naquele dia, depois de terminar de massagear os braços do rapaz, a tailandesa fechou os olhos, juntou as mãos perto do peito, reclinou um pouco a cabeça e fez uma breve oração à sua crença, Buda. Depois disso, ela passou delicadamente a mão em um lado do rosto de Michael, precisamente na bochecha, e sorriu docemente ao sentir os pelos da barba dele crescendo. Esperaria mais alguns dias para apará-la novamente, pensou.

Após se sentar, Araya ficou encarando-o por longos minutos, até que, suas pálpebras puxadas finalmente começaram a pesar, fazendo-a então colocar os braços sobre a cama, apoiar a cabeça sobre eles e cair no sono. Se ela soubesse que estava perto de acontecer o que ela e sua família tanto esperavam ansiosamente todos os dias desde aquela tragédia, ela sequer teria pregado os olhos.

Silêncio... Foi naquele silêncio que Michael mais uma vez estava vagando entre a vida e a morte, procurando o seu caminho em um nevoeiro cheio de lembranças dolorosas que lhe abrangeram novamente, assim como vinha fazendo durante esses meses em que esteve inconsciente. Mas a única forma de fugir daquele pesadelo... era acordar, mas se ele acordasse o pesadelo continuaria. E esse pesadelo era a realidade do rapaz que invadia a sua mente com as memórias da noite em que encontrara a sua família morta bem diante dos seus olhos.

No entanto, dessa vez, flashes inéditos vagaram rapidamente pela sua cabeça, e nesses flashes havia uma garota com insinuantes olhos castanhos claros e com um sorriso direcionado a ele. O sorriso mais casto que já tinha visto em toda a sua vida. Era tão deslumbrante que acabou por ser parte de um dos motivos que ainda mantinha-o vivo. E era! Era o que faltava para trazê-lo de volta.

As pestanas do rapaz tremularam, e minimamente os seus olhos foram se abrindo, fixando-os no teto à cima de si. Sua visão estava turva, mas bastou piscar três vezes, lentamente, para a sua vista se ajustar ao ambiente.

Após alguns minutos na mesma posição como se fosse uma pedra, ele levou uma de suas mãos à máscara, que lhe ajudava a respirar, e a tirou. Girou a cabeça lentamente e viu a irmã do seu melhor amigo dormindo com a cabeça apoiada sobre o colchão em que estava. Ele tinha uma enorme afeição pela tailandesa, justamente por ela ser a irmã mais nova de Kamon e por ser uma pessoa muito adorável, por isso, sempre se alegrava em vê-la. No entanto, naquele momento, ele foi inconscientemente indiferente com a presença da garota e voltou a fitar o teto.

Mais vinte minutos haviam se passado até que, então, Araya acordou. Sem perceber que Michael recobrara a consciência, ela manteve os seus olhos, pequenos e puxados, fechados e esticou os braços, se espreguiçando. A garota friccionou os olhos com o dorso das mãos e quando finalmente os abriu e viu que o rapaz estava acordado, ela sobressaltou da cadeira, lhe tomou uma de suas mãos com apreço e sorriu para ele.

— Mike! Você acordou?! Você realmente está acordado?! — A voz alta e carregada de sotaque de Araya chamou a atenção de uma enfermeira que passava por perto do quarto, esta entrou no recito para ver o que estava acontecendo, e ao ver o rapaz com os olhos abertos, também acabou se surpreendendo.

— Santo Deus, ele acordou! — A enfermeira disse céptica, tampando a boca com as mãos.

— Sim! Por favor, chame um médico. — Araya olhou para a mulher. — Ah, e sou a filha do guardião dele, Gun Chirathivat. Poderia contatá-lo também, por favor?

— Sim! — A enfermeira balançou a cabeça em positivo e saiu do quarto.
Araya voltou-se para o rapaz e segurou-lhe uma das mãos, enquanto deixava bastante evidente através do que dizia o quanto estava feliz. Se Michael não tivesse com as imagens dolorosas da sua família morta perambulando por sua mente, ele teria dado atenção à tailandesa ao seu lado, que lhe encarava com frêmitos de alegria por ele ter recobrado a consciência. Porém, desde que abrira os olhos não havia dito uma palavra sequer; nem mesmo o que Araya dizia era capaz de tirá-lo de seu estado de inércia sobre aquela cama de hospital que manteve o seu corpo exânime por quase cinco meses.

A porta do quarto foi aberta. Um senhor, de aparência serena e de cabelos brancos, entrou no local vestindo um jaleco e com um estetoscópio pendurado no pescoço. Ele se aproximou da cama, onde Michael estava deitado, e fez um exame minucioso apenas observando o rapaz que, permanecia em silencio enquanto olhava atentamente o teto acima de si, sem ao menos piscar os seus olhos intensos e mais negros do que nunca. Ela parecia um boneco inanimado. 

— Então você finalmente acordou. — O médico baixinho, feliz pelo o rapaz e passando o estetoscópio pelo o peito do mesmo.

— Mas doutor, por que ele está assim? — Araya indagou quando começou a ficar preocupado porque que Michael não se movia desde que acordara.

O médico capturou uma lanterna no seu bolso e verificou as pupilas do rapaz. 

— Não se preocupe. Ele me parece bem. Ele passou por muita coisa e acordou depois de quatro meses. Dê tempo a ele. — Respondeu o homem, dando uma breve olhada nos olhos dele, novamente.

Kamon e Gun entraram no quarto. Gun acompanhou o médico até a saída para ouvir a situação do rapaz, enquanto Kamon correu ao encalço do amigo.

— Michael! Até que fim, cara! — Feliz, o tailandês tateou o corpo do amigo sem ter a noção do que estava fazendo. — Nós estávamos tão preocupados com você! — Completou ao olhar brevemente para a sua irmã ao lado. — Se lembra da gente, não é? — Perguntou, mas não recebeu resposta do amigo que ainda encarava fixamente um ponto à cima.

Gun voltou ao quarto e também se aproximou do rapaz.

— Você acordou. É um alívio. — Gun disse em voz baixa, encarando Michael com pesar. Não se atrevia a perguntar como ele estava se sentindo, seria uma pergunta idiota a quem perdera a família de forma tão brutal, a quem passara por tamanha vicissitude. Por isso, apensar de estar acordado agora, Gun tinha certeza de que a mente do rapaz estava distante, pensando em tudo o havia vivenciado naquela noite.

Gun estava certo! Até antes mesmo de acordar, Michael já pensava naquela noite miserável. Chegou até a pensar que era um sonho, mas o pesadelo apenas começava uma vez que ainda podia sentir aquela dor cruel e agonizante alastrando-se pelo o seu interior.

— Por quanto tempo eu estive assim? — Ele indagou de repente, surpreendendo a todos. Sua voz estava rouca, grave, que apesar de parecer cansada e triste, não havia perdido a sua sonoridade.

Gun, Kamon e Araya se entreolharam rapidamente e voltavam a encará-lo.

— Mike! — A tailandesa lhe sorriu abertamente ao vê-lo finalmente proferindo algo.

— Quase cinco meses. — Kamon respondeu apenas.

Michael não disse mais nada, e tentou se levantar, no ímpeto de sentar-se na cama, mas a fraqueza de seus músculos o impediu, fazendo-o recostar-se no acolchoado. Gun por sua vez, não obstante, saber que não deveria tocar “naquele assunto”, mas quanto mais cedo começasse a persuadir o rapaz, melhor.

— Michael. Vê-lo finalmente com a consciência recuperada nos deixou muito feliz. Você passou por muita coisa e é um milagre que você esteja vivo. — Hesitou em continuar, mas seguiu. — Esqueça tudo o que aconteceu naquela noite e recomece. — Concluiu, sem esperar por uma resposta boa do rapaz.

Ao ouvir isso, Michael perdeu o seu foco, aparente e momentâneo, quando digeriu tais palavras de Gun. Esquecer? Como ele poderia esquecer tal coisa? Seu pai, sua irmã e a mulher que lhe criara não eram poeiras ou algo assim para que ele pudesse esquecê-los e recomeçar uma nova vida.

Seus movimentos petrificados foram quebrados quando ele virou a cabeça e encarou a todos. Seus olhos penetrantes que outrora foram cheios de vida, agora transmitiam dor e uma profunda e intensa tristeza.

— Eu... preciso ir ao banheiro. — Disse, mudando completamente de assunto, pelo menos era o que parecia. Pois o que ele realmente queria saber era se conseguiria andar direito depois de ter passando tanto tempo deitado. Ele precisaria se sustentar sozinho para fazer o que tinha em mente. Não estava suportando aquele sentimento ruim, corrosivo e destruidor. Estava desesperado para colocar um fim nisso, se não enlouqueceria.

Kamon chamou o doutor novamente e o mesmo fez um breve exame nos membros do rapaz.

— Tente se sentar. — Disse o médico. Michael esforçou-se para fazer o que ele dissera, mas só conseguiu se sentar com a ajuda de Kamon. — Tente pôr os pés no chão. — Instigou-o, e assim ele o fez, ainda com a ajuda do amigo. — Experimente andar. — Era agora ou nunca. Michael deu dois passos com um pouco de dificuldade, e ao tentar dar o terceiro acabou que seus joelhos flexionaram-se e ele teve de segurar na cama para não cair. Kamon o ajudou a sentar-se na cama novamente. — Para um paciente que estava em coma durante quatro meses, a força com que consegue segurar o próprio corpo é incrível. Você está em ótimo estado também. Com algumas sessões de terapia a sua vida voltará ao normal. — O médico concluiu e deixou o quarto.

(...)

Mais tarde quando a noite caíra, Michael, com muito esforço e sentindo dores maçantes por todo o corpo, acarretadas pelo o posicionamento em que esteve por muito tempo, desceu da cama, pegou as muletas ao lado da mesma que o médico havia deixado ali caso ele precisasse ir ao banheiro, e deixou aquele quarto de hospital muito cautelosamente para não acordar Kamon, que se encontrava dormindo numa poltrona encostada à parede.

Pendurando-se nas muletas e vestido com pijamas de cor azul do hospital, ele dirigiu-se até o primeiro elevador que avistou, entrou no mesmo e apertou o botão que o levaria ao telhado daquele hospital de doze andares. Uma vez que as portas do elevador abriram-se, sem hesitar e muito determinado, ele caminhou desalentado até a beira do telhado. Seus olhos perturbados fitaram incessantemente o fluxo de veículos abaixo de si, uns quase se chocando contra os outros. Depois, então, mirou os seus olhos para um ponto insignificante à sua frente, e ficou ali, parado por muitos minutos, relembrando da sua família. O olhar lacrimejante, no entanto, ia ao infinito enquanto uma lágrima solitária escorria lentamente pelo o seu rosto.

Para o ser humano, o mais triste da morte não é a morte em si, mas sim a morte dos seus entes queridos. Então, ele tinha que morrer também, pensou. As memórias lhe acarretaram para aquela noite catastrófica como um clarão, sussurrando a melodia das vozes daqueles que perdera e fazendo com que ele não tivesse intenção de continuar vivo. Pois tinha perdido as pessoas que amava bem diante dos seus olhos e não pôde fazer nada. 


Fechou os olhos, sentindo o vento da aflição abraçando o seu corpo. Estava na hora. Sua família havia deixado aquele mundo, então para ele também não havia mais lugar. Estava disposto a pôr um fim na sua própria vida.  




Capítulo 13
“Entre o céu e o inferno”

KAMON SE REMEXEU NA POLTRONA e abriu lentamente os olhos. O quarto estava silencioso. Ele olhou brevemente para a cama ao lado e viu a mesma vazia. Onde será que Michael havia se metido se nem mesmo conseguia se sustentar direito? O tailandês se perguntou. Colocou-se de pé e procurou o amigo no banheiro, mas ele não estava. Franziu o cenho e de repente se lembrou de algumas palavras que seu pai dissera antes de ir: “Não o deixe sozinho. Ele pode cometer alguma loucura. Ele perdeu a família e ainda pode ser incapaz de suportar a dor”. Os olhos pequenos e puxados de Kamon se arregalaram, e por pura intuição, ele correu até o elevador e apertou o último botão.

Uma vez no telhado do hospital, ele avistou Michael à beira do prédio. Seus olhos se esbugalharam novamente e ele não esperou mais um segundo sequer para impedir que o seu amigo cometesse tal loucura. Ele correu, agarrou Michael por trás e o puxou.

— O que é isso, cara? Tá maluco?! — Kamon gritou segurando o rapaz que começou a se debater.

— Me deixe! — Ele se desvencilhou do tailandês com as poucas forças que tinha e tentou novamente correr para se jogar do prédio. — Como eu posso viver com isso?! — Bradou desesperado.

— Pare com isso, Michael! — Kamon o impediu novamente, desta vez puxando o amigo e o empurrando, fazendo-o cair ao chão por não conseguir se sustentar direito sozinho. — O que pensa que está fazendo?! — O tailandês estava irritado com a tentativa de suicídio dele.

— Quem disse para me salvar?! Deveria ter me deixado morrer naquela noite! — Michael esbravejou de fúria e dor, achando injusto ter sido o único a sobreviver. Para ele, morrer, talvez, pudesse diminuir aquele sentimento cruciante que lhe desgastava por dentro.

— O que você queria que eu fizesse? Que te deixasse morrer quando eu podia te salvar? Isso faz algum sentido? — Kamon aproximou-se dele, se ajoelhou e segurou firmemente nos ombros do rapaz. — Hum?

— Não era pra você ter me salvado. — Michael sibilou debilmente. Sem perceber, lágrimas atrás de lágrimas começaram a escorrer pelo o seu rosto em forma de cascata.

— Antes de tudo, era o meu dever como um ser humano salvá-lo. Mas se quer tanto morrer assim, não se preocupe que você não vai viver pra sempre. Somos meros mortais. — Kamon ralhou.

— Você não está entendendo. A minha família... ela... — Michael dizia com a voz chorosa, mas limitou-se quando as imagens daquela noite retornaram em sua mente.

— Eu posso não saber muito sobre o que aconteceu naquela noite, mas eu sei que a sua família foi assassinada de propósito. Eu sei que não foi um assalto... Você sabe! — Kamon agora estava com a voz séria, tanto que chamou a atenção do rapaz, este que o encarou. — Você se sente ressentido do mundo, não é? Provavelmente. Se sente ressentido e odeia as pessoas que não entendem como você está se sentindo. Você sabe que eu sei. — Disse por experiência própria ao lembrar-se da forma que perdera a sua mãe quando ainda morava na Tailândia.

— Não... O caso da minha família é diferente. — Michael murmurou.

— Sim. É diferente. Mas o sentimento da perda é o mesmo para todos. Mas entenda uma coisa: você não vai mudar nada tirando a sua própria vida. Você tem duas opções: Ou esquece o que aconteceu e recomece uma nova vida, ou age de acordo com os seus instintos. Eu, particularmente, quero muito que seja a primeira opção. — Kamon patenteou a última frase, pois conhecendo Michael, Kamon sabia que ele não iria deixar aquilo passar, ainda mais quando a raiva estava começando a ficar estampada naquele olhar sombrio que Michael tinha, agora. — Volte e pegue o que é seu por direito. Mesmo que você não possa provar quem fez isso com você, seja lá quem for, não o deixe feliz entregando-se à morte.

A expressão lamentável do rosto de Michael desapareceu, e subitamente, ele se sentiu ambicioso em permanecer vivo. Sim, Kamon estava coberto de razão. Ele não podia simplesmente morrer e deixar aqueles que fizeram aquilo com a sua família impunes. Michael fechou os punhos. Era isso. Ele iria matá-los pessoalmente.

— Eu vou matá-los! — A determinação na sonoridade na voz do rapaz o no olhar de quem estava decidido a fazer isso, fez Kamon apertar os olhos com preocupação, pois não era exatamente aquilo que ele queria para Michael. Não queria que o seu amigo se machucasse novamente.

— Michael! Michael! Michael! Preste atenção, cara. Eu sei que é difícil e que você está com muita raiva, revoltado. Mas você não deve ter nenhum tipo de ressentimento ou vingança. — Pediu-lhe Kamon. — Esses são os sentimentos que vão contra a natureza da humanidade de uma pessoa. Acredite no carma: Você recebe o efeito daquilo o que você causa. Essa é a lei da ação e reação.

Michael não disse nada, apenas desviou o olhar para o lado, já com um plano maquiavélico em mente sendo construído contra Robert Bradshow. Aquele velho asqueroso; Daniel, o traidor e o seu capanga... Ah... Eles estavam fodidos!

O fato é que, a partir do momento que o ser humano deseja vingança, ele acaba vivendo de uma forma impudente. E a ferida que ele trás consigo ao longo do caminho não pode ser apagada. Essa era a situação Michael. Ele se sentia injustiçado e amargo. Sentia que a única forma de fechar a sua ferida, que ainda estava aberta, seria matando aqueles infelizes. E não havia nada que podiam fazer sobre isso, porque só a morte daqueles desgraçados podia desinflamar a sua dor. Era nisso que ele estava acreditando veemente, agora.  

 (...) 

Clarke parou o seu carro em frente à academia “Wudang Kung Fu Wushu”. Ter estado naquele lugar com Michael teria sido uma das melhores lembranças que ela poderia ter, se ele não tivesse morrido naquela mesma noite. Seus olhos encararam o volante enquanto ela o segurava com as duas mãos. Incrivelmente, estava procurando coragem para descer do veículo e entrar novamente naquele lugar após quatro meses, primeira vez em que esteve ali. 

Recentemente lembrara-se do episódio estranho em que um velho chinês havia lhe abordado, justamente quando ela estava com o rapaz, naquele dia, dizendo coisas que lhes pareciam desconexas; alguma coisa sobre futuro e destino que lhe deixou confusa e arrepiada. Por isso, a fim de tirar aquela maldita ambiguidade que vinha martelando a sua cabeça, ela decidira ir até lá e encontrar o velho novamente.

Quando obteve coragem, ela desceu do carro e encarou o letreiro realçado em hanja, antes de rumar porta adentro da academia. Uma vez dentro, ela passou a observar os alunos que estavam em aula naquele dia, o dobro de quando fora ali com Michael. Distraída, acabou quase sendo atingida por uma espada de madeira, usada para treinamento, que tinha escapado das mãos de um dos alunos. O mesmo aproximou-se da garota e após se desculpar, fez menção de afastar-se, mas parou assim que ela lhe chamou atenção.

Com licença! — Ela o chamou. O menino parou e virou-se para ela. — Onde posso encontrar o mestre... Liu... Liu... — Pausou um momento, tentando relembrar o nome do velho chinês. — Liu Zang, alguma coisa assim?

O menino franziu o cenho por um instante e depois sorriu, imaginando de quem que ela estava falando.

— Ah, o mestre Liu Zeng? Ele vem logo ali. — O menino apontou para trás de Clarke e logo em seguida voltou à aula. Ela, por sua vez, se virou e avistou o velho chinês aproximando-se. E assim que se depararam frente a frente, ela curvou a sua cabeça ligeiramente, em sinal de respeito, e o fitou com cara de quem tinha muitas coisas para lhe perguntar.

Liu Zeng devolveu-lhe o cumprimento e a encarou, em seguida, abrindo um pequeno sorriso.

— Estava esperando por você, jovem. — Disse ele, calmamente, enquanto sentava-se em um banco da primeira fileira de cadeiras, atrás de si.  

Clarke pestanejou três vezes e acomodou-se ao lado dele.

— Por mim? — Ela o indagou baixinho, encarando-o.

— Sim. — Ele balançou a cabeça em positivo.

— Você... sabia que eu viria? — Perguntou meio que incrédula, no entanto, Liu Zeng não lhe respondeu, mas lhe sorriu novamente como resposta, esta que Clarke entendeu perfeitamente. — Senhor, gostaria de lhe perguntar uma coisa. — Seguiu ela, ganhando a atenção do velho chinês que já podia imaginar qual seria a pergunta. — Naquele dia em que eu estive aqui com um rapaz, o senhor me disse algo, lembra? — O chinês fez que sim com a cabeça lentamente. Ela continuou: — Aquele rapaz... ele... ele está morto.  

O velho nada disse, a sua expressão, no entanto, foi daquelas de quem já sabia de tudo aquilo antes mesmo de acontecer, o que deixou Clarke ainda mais confusa e curiosa para saber o que aquelas palavras, ditas há quatro meses, significavam. 

— O senhor sabia, não era? Sabia que uma tragédia iria acontecer? — Clarke o questionou. Queria respostas para aquela confusão na sua cabeça. Não poderia ser uma mera coincidência, tal coisa para ela não existia.

Depois de encará-la em silêncio por alguns instantes, Liu Zeng decidiu respondê-la.

— Jovem, desde o dia em que eu comecei a entender este mundo injusto e cruel, eu só sei de uma coisa: o futuro é imutável. — E lá estava ele de novo com aquela mesma conversa, que até então era enigmática para a garota. — Ninguém consegue enganar a morte se não for com outra morte. — Ele completou. Clarke, não obstante, não entendeu a mensagem subentendida do velho e respirou profundamente, dissimulado sua paciência.

— Sobre o quê o senhor está falando? Eu não entendo! — Disse ela, balançando a cabeça em negativo.

— Por agora, o que você precisa entender é que isso não acabou. Está apenas começando e não adianta tentar impedir. Isso já eclodiu e não tem como parar. — Ele fez uma pausa e seguiu. — Chegará um dia em que você terá de escolher entre o sangue e o amor verdadeiro. Então se prepare.

Clarke sentiu a mesma sensação sinistra que sentiu quatro meses atrás. Respirou fundo e franziu o cenho. Como assim ela teria de escolher entre o sangue e o amor? O que aquilo poderia significar? E o mais importante: o que aquilo tinha a ver com o caso da família Jackson?

Liu Zeng levantou-se e atou as próprias mãos atrás de si.

— Você já leu “O Morro dos Ventos Uivante”? É uma história bonita, mas com um final muito trágico.  

— “Morro dos Ventos Uivantes”? — Sibilou ela, tentando lembrar se já tinha lido ou não. Odiava histórias trágicas, então se era como ele disse, então, com certeza não tinha lido tal livro.

— Quando estiver curiosa, dê uma olhada. — O chinês virou-se para ela. — Então... — E inclinou a cabeça brevemente, antes de se afastar, deixando a garota estática, tentando decifrar as suas palavras.

Uma vez ao lado de fora da academia, Clarke caminhou lentamente até o seu carro e se jogou dentro do mesmo, se sentindo mil vezes mais confusa do que antes de falar com aquele velho chinês. O que fora tudo aquilo? Ele por acaso ele queria brincar de adivinhar enigmas? Ela se perguntou.

Desse jeito, sentia que logo mais iria enlouquecer. Eram muitas perguntas, mas nenhuma resposta satisfatória.

 (...)

<<< Quatro semanas depois >>>

Foram dias infelizes e agonizantes. Apesar das grandes nuvens que pairavam no céu azul, ele já não era mais o mesmo, assim como o dono dos monótonos e expressivos olhos negros, que parecia estar preso num estado de psicose completo e indomável.

Próximo à janela daquele quarto de hospital, estava a figura petrificada do rapaz observando as nuvens que pairavam no céu, enquanto batucava lentamente com o dedo indicador, num ritmo cadenciado, a roda direita da cadeira de rodas em que estava sentado, pensando, talvez, nas suas lembranças dolorosas e na forma em que iria apaziguar toda sua dor, agonia e desespero.  

Para os médicos, ele parecia estar bem. Mas o seu estado de espírito estava completamente destruído; estava vivendo num buraco negro. Seus cabelos grandes e a barba que já se mostrava, dava-lhe uma aparência mais velha, além de sombria. Seu rosto estava translúcido, suas escleras haviam perdido a sua coloração normal e estavam sempre avermelhadas; era como se elas estivessem segurando a raiva do rapaz enquanto ele ficava confinado naquele quarto de hospital que, por sinal, o deixava louco. Paciência, não era uma de suas virtudes, fora obrigado pelos os próprios músculos a esperar até que eles estivessem totalmente recuperados, contudo.

Se dependesse da sua força de vontade, dois meses seriam suficientes para se livrar das sensações penosas de seu corpo. A única coisa que o segurava ali, era a capacidade de saber que se ele não tivesse totalmente recuperado, talvez, não conseguisse cumprir o seu desejo desmedido por vingança.

A porta do quarto fora aberta. Kamon entrou no recinto tendo em mãos um envelope branco, que continha algumas pesquisas impressas do interesse do rapaz. Michael, ao perceber a presença do tailandês, apenas virou um pouco a sua cabeça, lentamente. Kamon postou-se ao lado do amigo e lhe entregou o envelope, enfiando as mãos nos bolsos em seguida.
  
 — Estão aí algumas informações sobre o que aconteceu com os bens do seu pai. — Dizia Kamon. — Parece que as ações... tudo relacionado a sua família foi congelado por causa da investigação do ministério público em relação ao seu pai.

Michael sorriu sem humor. Vendo o seu pai prestes a ser rotulado como ladrão, mesmo depois de morto, fazia o rapaz se ressentir ainda mais daquele mundo injusto e cruel. 

— Tão hipócrita. Ainda está tentando acusar uma pessoa inocente mesmo depois de morta. Tão nojento. — Disse com asco, estudando cada linha que estava escrita nos papeis. Foi então, que viu que Robert Bradshow tinha finalmente assumido o lugar de seu pai, sendo referido como a pessoa mais competente para assumir a presidência do Grupo Chromish, quando o preço das ações caíra assim quando fora anunciada a morte de Jonathan Jackson e os seus filhos.

Naqueles papéis dizia que o seu pai estava sendo acusado por fraudes e desvio de dinheiro, ainda que fosse inocente. O Escritório do Ministério Público fizera uma investigação sobre os empreendimentos do Grupo Chromish. Sim, Michael estava ciente de que a promotoria pública não podia ignorar isso se houvesse sujeira nos investimentos de uma determinada empresa. Mas ver tudo aquilo era tão nojento... Pelo o visto, para aquele desgraçado, matar a sua família não tinha sido suficiente, pensou ele, devolvendo os papéis ao envelope.

— O que você vai fazer? — Kamon o indagou.

— “O preço do pecado, mesmo que tarde, com certeza será pago”. — O rapaz recitou como resposta, deixando o seu amigo preocupado.

— Quando sair daqui, não faça nenhuma besteira, hum? Pessoas que se apegam ao passado nunca progridem. Passado é passado. — O tailandês lhe aconselhou.

— Torna-se o meu futuro uma vez que não consigo esquecê-lo. — Michael o retrucou com calma, com o olhar perdido para um canto fora da janela.

— Eu sei o que você quer fazer. — Kamon lhe fitou de perfil. — Você não pode. Depois que você deixar a escuridão entrar, ela nunca mais irá embora. — Ele realmente queria que o seu amigo voltasse e mostrasse ao mundo que estava vivo, e que por meios legais, provasse que não tinha sido um assalto, mas os planos do rapaz passavam muito longe das expectativas do tailandês. Raiva; ódio; destruição; morte; perda; vingança... era tudo o que Michael tinha. Tinha sido esse o caminho que ele havia escolhido.

Michael não disse nada. As palavras não precisavam ser ditas para que pudesse ser entendidas, contudo. O tailandês também não disse mais nada, pois acreditava que ainda havia tempo de mudar a cabeça do seu amigo. Foi pensando nisso, e também notando as olheiras dele, que Kamon decidiu mudar de assunto.

— Você... não dormiu esta noite? — Indagou ao rapaz, preocupado.

Michael respirou profundamente antes de responder.

— O tempo é precioso demais para se gastar dormindo. — Foi a sua resposta. Desculpa esfarrapada, pois ele não dormia direito porque queria evitar os pesadelos a que vinha tendo ultimamente. Com a sua família. — E o seu pai a sua irmã? — Desconversou, mudando a conversa radicalmente, girando a cadeira de rodas e movendo-a em direção a cama. Quando perto, se levantou e caminhou devagar até ela, sentando-se no acolchoado.

— O pai está no restaurante, quanto a Araya, é bem provável que ela esteja aqui daqui a pouco. — Kamon o respondeu, lembrando do quanto a sua irmã gostava de estar com Michael, mesmo ele tendo mudado muito.

Michael, por sua vez, apreciaria com mais força a presença da tailandesa, se fosse em outros tempos. Estava mergulhado demais no seu próprio mundo corrosivo, com pensamentos destrutíveis.

Kamon pretendia falar outra coisa, mas de repente se lembrou de algo que sempre se esquecia de perguntar.

— Michael, tem uma coisa, que todas às vezes, esqueço-me de te perguntar. — Disse, ganhando a atenção do amigo. Seguiu. — E aquela garota? Aquela que você disse estar namorando.

As pupilas do rapaz se dilataram ao lembrar, mais uma vez, dela.

— O que tem ela? — Disse apenas, contudo.

— Nada, cara. É que você me disse que estava namorando ela, mas até agora, desde que você acordou, sequer mencionou alguma coisa sobre ela.

Michael fitou o chão e engoliu em seco.

— Ela deve pensar que estou morto, também. — Murmurou ele, com pesar.

— Está mesmo. Agora que eu lembro, devo te dizer. — O tailandês ganhou novamente a atenção do rapaz. — Na manhã seguinte, depois daquilo, eu fui ver como andavam as coisas na sua casa, e então, eu a encontrei lá. — Kamon coçou a cabeça, enfiou, novamente, as mãos nos bolsos da sua calça e seguiu. — Sabe... Eu realmente acho que aquela garota gostava de você. Vendo como ela estava aos prantos enquanto tentava barrar os policiais, quando soube o que tinha acontecido, eu acho que gostava muito.

Michael piscou três vezes, sem saber o que dizer. Além da sua família, ele também pensava muito naquela garota. A sua imagem... sua voz, junto com o cheiro dela que o perseguia afio pelo ar...  Ela tinha sido a primeira pessoa que, pela primeira vez, foi uma pessoa que ele queria para ele. Ansiava muito poder encontrá-la, mas não podia, não ainda. Planejava aparecer diante dela depois que eliminasse todo o seu pacote de sentimentos destrutivos que tinha em relação àqueles que tinham lhe feito mal.


— Por enquanto, ela deve continuar pensando que eu estou morto. — Falou por fim, pesando ser a melhor coisa a se fazer. 



Capítulo 14
“Reencontros”

ÀS VEZES É NECESSÁRIO ACONTECER algo de ruim para você dar mais valor àquilo o que você tem, e você só percebe o quão valioso essa coisa é quando a vida prega-lhe uma peça e acaba lhe tirando absolutamente tudo. Ah, se ele pudesse voltar no tempo... Com certeza teria feito melhor, e talvez, a sua família ainda estivesse viva. Michael se amargurava sobre isso todos os dias, não por que se sentia culpado, mas sim por que poderia ter feito melhor, principalmente em relação ao seu pai. Mas o fato é que quando as coisas acontecem é por que simplesmente tinham de acontecer, ao passo em que o tempo passa, e ele é um exemplo de que você não pode pará-lo e tampouco voltar a ele.

Enquanto esteve confinado naquele quarto, os seus sentimentos pungentes lhe deixaram cada vez mais à beira da louca. Vendo esse lado do rapaz, Kamon se sentia cada vez mais preocupado, porque temia que ele pudesse afundar devido ao peso da sua angustia, sofrimento patenteado em sua face.

Para Michael, esquecer o que acontecera, assim como o tailandês sempre lhe aconselhava, era a capacidade de distinguir entre o que era misericordioso e o que não era. Ele tinha um desejo ardente de punir os seus alvos, contudo, realizar esse dever da forma que o seu amigo lhe aconselhava não estava em seus planos. O que tinha em mente era perigoso e arriscado. Então, ele tinha de ser forte, e ser forte, também significava ser solitário, e ser solitário significava viver na escuridão.

O rapaz acabara de receber alta e encontrava-se no banheiro, onde se permitiu tomar um banho bem demorado. Depois de incessantes minutos debaixo do chuveiro, ele saiu de dentro do boxe e enrolou uma toalha de cor branca em volta do seu quadril largo, deixando o resto do corpo desnudo. Olhou-se no espelho e mais uma vez, aquela aparência que havia ganhado ao longo dos meses em que esteve internado, não lhe agradou nenhum pouco. Abriu a bolsa que Kamon trouxera com algumas coisas, capturou a máquina de barbear e raspou todos os pelos da face que tanto lhe incomodavam. Os cabelos em ondas que roçavam os ombros, no entanto, de nenhum modo lhe importunavam.

Após colocar a máquina sobre a pia do banheiro, ele pegou a bolsa novamente e tirou de dentro as peças de roupas que Kamon havia lhe comprado para quando ele recebesse alta. A calça jeans escura lhe caia bem, inclusive, e a bota de cano médio calçou bem os seus pés. Mas foi quando começou a vestir a camiseta, que os seus olhos detiveram-se na cicatriz em seu ombro direito, que conseguira naquela noite, levando-o subitamente para o momento em que um dos assassinos jogou o abajur da sua irmã conta ele. Sua expressão, agora proveniente de tal memória, patenteava tamanha raiva mesclada com melancolia por se lembrar mais uma vez de seu pai, de sua irmã e de Matilde.

Fechou os olhos por um instante e logo os abriu, voltando ao momento presente. Seus olhos, no entanto, permaneciam obscuros e avermelhados, sem nenhuma alteração desde que adquiriram tais peculiaridades.

Vestiu por último o blusão preto com capuz e atou os cabelos de forma desajeitada num baixo e curto rabo de cavalo, deixando o penteado um pouco desgrenhado.

Ao sair do banheiro, ele encontrou a família tailandesa dentro do quarto, lhe esperando para levá-lo. Michael estava realmente muito agradecido por tudo o que eles fizeram por ele, só que agora, o rapaz não tinha nenhuma intenção de ir com eles, pois seus planos eram totalmente diferentes.

Gun e Kamon estavam em pé. Aproximaram-se do rapaz assim que o viram. Quanto Araya... Bem, esta praticamente saltou da cama em que estava sentada e lhe agarrou um braço, com um leve curvar em seus lábios.

— Finalmente podemos ir embora juntos. — Ela disse com vestígio de euforia, expressão derivada em seu rosto de tez lisa. Michael pestanejou duas vezes ao olhá-la, sem alterar o seu semblante obscuro e sendo, despropositadamente, impassível para com a garota.

Gun por sua vez, podia sentir que aquele não era o desejo do rapaz, estava escrito no seu semblante sombrio. Nada disse, no entanto. Sabia que seria em vão, quem poderia detê-lo? Por isso, apenas lhe sorriu e esperou que o próprio ditasse o seu desejo.  

— E aí, cara. Vamos? — Disse-lhe Kamon.

Michael desatou delicadamente as mãos de Araya que seguravam o seu braço e enfiou as mãos nos bolsos do blusão, enquanto desviou por breves segundos o seu olhar dos tailandeses à sua frente. Ele não queria mentir sobre o que tinha em mente e muito menos queria que aquelas pessoas que lhe ajudaram se envolvesse na sua obsessão. Foi pensando nisso que decidiu ser incisivo com as palavras.

— Posso fazer um pedido a vocês? — Os indagou, mas antes que alguém assentisse, ele seguiu: — Vocês... podem ficar fora disso? — Pediu de forma respeitosa.

A família tailandesa se entreolhou e voltou a encará-lo. 

— Fora de quê? — Perguntou-lhe Kamon, temeroso.

Michael não lhe respondeu a princípio, mas o seu olhar exteriorizava perfeitamente quais eram os seus planos dali pra frente.

— De tudo isso. — Respondeu finalmente. — Eu realmente sou muito grato a vocês por tudo o que fizeram por mim — Disse agora, olhando para Araya e dando a ela um breve curvar de seus lábios, em agradecimento. Seguiu, voltando a sua atenção a Gun e a Kamon. — Vocês sabem que o meu pai foi assassinado a sangue frio e a minha irmã... aquela criança junto com... — deu uma pausa, fechou os olhos brevemente e engoliu em seco por lembrar-se de sua pequena irmã. — Eu não posso simplesmente enterrá-los no meu coração. Enquanto eu não pegar aqueles malditos, não vou conseguir viver em paz. — Ressaltou com determinação. 

Gun respirou profundamente, mas não contestou contra a decisão do rapaz. Vinha tentando, junto com o seu filho, convencê-lo durante dois meses desde que acordara do coma, mas não havia feito nenhum progresso. E claro, era óbvio para Gun que não seria agora, que finalmente ganhara a tão estimada alta, que o rapaz iria desistir de pôr em prática os seus planos. Michael estava muito determinado, o tailandês podia sentir essa determinação só de olhar para os olhos ardentes dele.

Araya lhe lançou um olhar aflito, mas também não disse nada. Ao contrário do pai e da irmã, Kamon se manifestou ao ver que o seu amigo estava mesmo enlouquecido pela sua vingança desenfreada. O tailandês levou as mãos à cabeça, aproximou-se bruscamente do rapaz e bateu na caixa dos seus peitos, puxando-lhe violentamente pelo blusão. Agir de tal forma não era do seu feitio, mas ele estava muito temeroso de que aquele lado de seu amigo lhe levasse para um caminho mais amargo. 

Michael não reagiu, contudo, pois já esperava por tal reação.

— Está louco, seu idiota? Você praticamente voltou dos mortos e agora quer arriscar a sua vida assim? Você não pensa? Ter coragem e ser imprudente é duas coisas diferentes. — Kamon bradou irritado, encarando bem os olhos negros e tenebrosos de seu amigo, olhos estes que de nada lhe passavam medo.

Michael nada respondeu, sabia que estava sendo teimoso e que a reação do seu amigo fora por que estava muito preocupado com ele. Kamon continuou com o discurso.

 — Michael, cara... Você não pode! Entendo que esteja se sentindo injustiçado, mas há outros caminhos para suprir todo esse sentimento ruim. Você é inteligente, encontre a paz dentro do seu coração, e então o céu se abrirá novamente pra você. — Lhe aconselhou.

— Kamon, eu não quero saber de justiça. Se tal coisa existisse, aqueles que eu amava não estariam mortos agora, e tampouco o meu pai estaria sendo tachado de ladrão. — Rebateu o rapaz, calmamente.

Kamon o soltou e passou as mãos no rosto de forma violenta.

— Esse punk está realmente louco... — Resmungou. — Então o quê? Vai matá-lo? Hum?!

— Sim. Eu estou muito louco. Transbordando loucura. Você espera que eu os deixe vivos após cometerem tamanha atrocidade? Como se isso fosse possível! — Soltou um sorrisinho rabugento. — Espere só e verá o que irei fazer com eles.

— Michael, um tiro não é a única coisa que pode matar alguém. — Kamon voltou a alertá-lo, mas isso de nada adiantava. 

— O valor do ser humano é definido por suas escolhas. — A interferência de Gun ganhou a atenção do rapaz. — Pense bem.

— Você tem razão. Mesmo tendo voltado à vida, a única coisa que consigo pensar é em matá-lo. — Michael lhe retrucou com uma impenetrabilidade gritante em seus olhos.  

— Um morto não quita suas dívidas. — Gun rebateu, calmamente.

— Você ainda tem a gente... E aquela garota. — Kamon voltou a falar, fazendo Araya olhá-lo rapidamente, perguntando-se sobre qual garota o seu irmão estava falando. Ele continuou. — Há pessoas neste mundo que tentam te fazer mal, mas também há pessoas que se machucam, porque você está ferido. Como eu, meu pai, a minha irmã... E até mesmo aquela garota que pensa que você está morto. — Tais palavras calaram fundo na alma do rapaz, mas por mais que esse discurso parecesse eloqüente, de nada fazia efeito sobre ele, que continuava inflexível. Ele estava decidido demais para voltar atrás da escolha que fizera.

— Eu reconheço os esforços de vocês, e eu já disse que estou muito grato. Mas esse desejo que estou sentindo está além do meu controle. — Deu ênfase à última frase em um tom de voz suave, como um sussurro. 

— Esse cara está louco e também quer me enlouquecer! — Kamon resmungou, fechando os seus pequenos e puxados olhos e balançando a cabeça em sinal de negativo, percebendo que Michael não iria mesmo mudar de ideia. E sinceramente? Ele já não tinha mais como dissimular paciência para com o seu amigo. Michael era teimoso ao extremo, e uma vez que botasse algo na sua cabeça, tirar era uma missão impossível para alguém, pensou o tailandês. Se não tinha como fazê-lo mudar de ideia, então pensou que poderia pelo menos ajudá-lo. Não ajudá-lo a matar pessoas, mas sim a se proteger.

— Então... Deixe-nos ajudá-lo. — Sugeriu ao rapaz.

— Não. Essa briga é minha, não de vocês. — Michael desaprovou.

— Você é meu amigo, como um irmão pra mim, cara! — Apelou Kamon, lançando-lhe um olhar de desespero.

— Sim! Você é como um irmão pra mim, e é justamente por isso que quero que fique de fora, totalmente! Todos vocês! — Michael ressaltou, de olhos esbugalhados, encarados todos. — Não quero que se machuquem por minha causa. — Completou.

Kamon o encarou novamente com frustração, mas não o objetou desta vez, embora a sua língua estivesse coçando.

— Então, faça-nos um favor. Não se machuque de novo. Se você deixar isso acontecer, eu mesmo matarei você. Entendeu? — O ameaçou com muita seriedade.

Michael não lhe respondeu, pois não podia garantir ao seu amigo que não iria se machucar. Ele apenas balançou a cabeça uma única vez e respirou aliviado por eles ter decidido não se envolver.

(...)

Ao lado de fora do hospital, Kamon aproximou-se do rapaz, lhe tocou o ombro e lançou-lhe um olhar de quem ainda não se conformava com a decisão. Enfiou um celular junto com um envelope, com uma quantidade de dinheiro, dentro do bolso do blusão de Michael, este que abriu a boca para recusar, porém não conseguiu porque Kamon balançou a cabeça primeiro, insistindo que ele aceitasse aquele dinheiro.

Gun apenas o encarou e lhe desejou sorte antes de se afastar. Não suportaria ver o rapaz que poderia ser o seu filho indo de encontro à própria morte, talvez, fisicamente ou espiritualmente. 

Araya lhe tomou as duas mãos com apreço e o encarou com um semblante angustiado. Assim como o seu irmão, ela estava com muito medo de ele se machucar.

— Por favor, fique vivo. — Ela pediu-lhe, com um olhar lacrimejante que fez o rapaz se sentir um pouco desconfortável. Ele apenas continuou encarando-a com estima, embora o seu olhar sombrio não deixasse isso evidente, e esticou um pouco os seus lábios para ela. Lentamente, ele levou uma de suas mãos à cabeça da garota tailandesa e desceu lentamente pelos os seus cabelos pretos, lisos e ralos.

— Obedeça a seu pai e seja boa para o seu irmão, huh? — Pediu a ela com gentileza, e ela assentiu com um gesto de cabeça enquanto apreciava o carinho feito por ele.

Por fim, ele se despediu da família tailandesa e se foi, rumo a sua tão esperada vingança. Mas antes, ele tinha uma coisa para fazer.

(...)

Era fim de tarde quando o sol vespertino começara a se desvanecer. Na última vez em que esteve naquele lugar, fora no último aniversário de morte de sua mãe. E estava ali mais uma vez, agora para visitar o seu pai e a sua irmã que sepultados jaziam naquele lugar, assim como Kamon tinha lhe dito.

Michael caminhou lentamente pelo caminho feito de cascalho do cemitério, com o capuz cobrindo a sua cabeça e mantendo uma mão no bolso enquanto a outra segurava três rosas brancas que havia comprado em uma floricultura no caminho. Uma vez em frente aos túmulos, o rapaz permaneceu imóvel enquanto encarava as lápides elegantes com o nome de cada um grifado. O nome da sua mãe, o do seu pai e o da sua irmã mais nova. Matilde só não estava ali porque fora sepultada em outro cemitério junto com os seus familiares.

Encarar aquelas lápides era como encarar a sua realidade com mais veemência. Bateu-lhe a vontade de chorar, mas havia chorado tanto nos últimos dois meses que, naquela altura já estava seco. O mínimo que os seus olhos conseguiam produzir era lacrimejo.

Naquele momento, a sua ficha caiu definitivamente por saber que eles não iriam mais voltar, constatação proveniente de um sentimento triste e devastador que o consumia por dentro. Seus entes estavam ali e na mesma hora não estavam.

Michael curvou-se e colocou uma rosa sobre cada túmulo, na grama que forrava cada leito, pondo-se em seguida ereto e enfiando a outra mão no bolso. No silêncio tumular, passou a conversar com a sua família em pensamento. Disse a sua mãe que estava com saudades e que nunca, jamais havia a esquecido. A seu pai e a sua irmã, ele pediu-lhes perdão. Perdão por não ter sido um bom filho e um irmão melhor. Perdão por não ter chegado a tempo de salvá-los, e perdão por ter sido o único a escapar das garras da morte, embora uma parte de si tivesse morrido naquela noite. O seu corpo estava ali, mas uma parte morta estava enterrada junto com eles.

Ele passou incessantes minutos numa conversa silenciosa com a sua família, que nem percebera que o sol já havia se escondido e que o vento da noite já soprava com ímpeto as folhas caídas no chão.

Preso em seus devaneios, o som de cascalhos sendo esmagado atrás de si, lhe fez ficar em alerta. Seus olhos viraram para o lado sem o seu corpo se mexer.

— Estar em um cemitério quase ao anoitecer é um hábito meio excêntrico, jovem Michael. — Uma voz entoou, e essa voz pareceu bastante conhecida para Michael que ainda continuava de costas, cabreiro. — Os falecidos também precisam descansar a noite. — O dono da voz proferiu novamente, fazendo então o rapaz se virar lentamente e encará-lo.

A princípio, os olhos expressivos do rapaz se arregalaram um pouco por ver quem estava a lhe fitar. Não! Ninguém ainda podia saber que ele estava vivo, mas... como aquele velho chinês sabia que ele estaria ali, e que aquele era ele? Indagou-se. E o mais intrigante para ele era que Liu Zeng não pareceu nada surpreso em vê-lo ali. Vivo. Era como se ele soubesse de tudo, e era exatamente o que estava acontecendo.

Seu olhar apreensivo foi quebrando ao perceber o olhar desinteressado do velho. Este não lhe questionou sobre como ele estava vivo; como escapara da morte ou o que havia acontecido naquela noite, apenas continuou encarando o rapaz ostentando o seu peculiar sorrisinho.

— Você está bem, jovem Michael? — O decrépito o indagou tranquilamente, como se não se importasse do fato de Michael ser uma pessoa dada como morta.

Depois de alguns segundos encarando o longevo asiático, Michael vagarosamente abaixou o capuz que cobria a sua cabeça e piscou os seus olhos uma única vez, lentamente.

— Sabia que eu estaria aqui, mestre Liu Zeng? — Indagou ao velho, este que não lhe respondeu e apenas continuou lhe olhando. Michael nunca acreditou no que ouvira sobre aquele chinês, de que ele podia ter rápidas visões sobre o futuro ou algo assim. Para ele, não passava apenas de um boato. Só que agora, ao lembrar momentaneamente de algumas coisas que o velho havia lhe dito quando fora à academia de artes marciais acompanhado por Clarke, deixou-lhe um pouco duvidoso sobre no que podia acreditar. Bem, sendo verdade ou não, o rapaz sentiu que de alguma forma, Liu Zeng sabia o que iria acontecer naquela noite. — Você sabia o que iria acontecer naquela noite, estou certo? — Questionou o chinês novamente. Este uniu as mãos atrás de si e virou-se, fixando seus olhos nas lápides dos entes do rapaz.

— Ah, ultimamente as pessoas vêm me perguntando a mesma pergunta. — Disse apenas.

Michael franziu a sua tez e passou a olhar o velho com suspeição.

— Você... não está curioso sobre mim? — Indagou, seu tom de suspicácia fez Liu Zeng sorrir audível.

— Eu não pergunto aquilo que eu já sei. — Foi a sua resposta, fazendo Michael ficar mais convicto de que aquele vetusto sabia sobre aquela desgraça antes mesmo de ela acontecer.

— Então, você sabe o que está para acontecer esta noite! — Michael constatou, sua voz soando quase como um sussurro.  

— Eu sei que dependendo da situação, os planos do homem podem tomar um rumo diferente.

— Sobre o que você está falando?

— Nada demais. O seu passado pode tornar a sua cabeça numa bagunça e o seu futuro transformar seus braços em asas, mas só o presente é comandado por você! — Liu Zeng sabia que não havia como impedir o que estava para acontecer, mas seguiu com o que dizia. — Sabe, jovem, a melhor forma de se vingar do seu inimigo, é não se comportar como ele.

Michael arquejou de incredulidade.

— Isto é algo que está além do meu controle.

— Eu sei. O cheiro do desejo de vingança que segue os seus pés é cada vez mais forte. Mas o perdão é a chave para a liberdade. Liberte-se desse desejo de vingança e viva a sua vida. — Esse fora o conselho do chinês, mesmo sabendo que não tinha como pará-lo.

O rapaz sorriu sem humor, encarando também as lápides dos seus familiares.

— Então, de quem eu devo me ressentir? De você que sabia de tudo, mas não avisou? — Inquiriu com ironia. — Se não tiver vingança... também não tem justiça.

— Você não percebe que a vingança só deixa futilidades para trás?

— Hum. Mas eu não me importo com isso. — O rapaz retrucou de maneira polida.

— Aquela pessoa, ela é de uma incomparável crueldade, jovem.

— Parece que sim. Ele é bom em desgraçar a vida das pessoas. Então, eu devo mostrá-lo no que eu sou bom, também! — No tom de Michael havia determinação mesclada com o ódio que ele aprendera a canalizar.

— Toda vingança tem um preço. 

— Eu estou disposto a pagar pra ver! — Retrucou.

Liu Zeng não tentou mais impedi-lo, pois além de saber que não havia como pará-lo, também tinha medo que os seus ancestrais limitassem o seu poder espiritual por ele estar tentando impedir o futuro.

— Confúcio uma vez disse: “Antes de sair em busca de vingança, cave duas covas.” — Recitou. — O que você acha que isso pode significar? Em relação a você.

Michael estava tão cego pela vingança que seque entendeu corretamente aquelas palavras.

— Eu já disse. Eu não me importo em morrer, contanto que “ele” também esteja morto.

Liu Zeng respirou fundo e voltou-se ao rapaz, com um olhar pesaroso.

— Temo que desta vez, você não consiga suportar. — O velho chinês disse e aproximou-se mais do rapaz, tocando-lhe um dos ombros e se afastando em seguida, deixando Michael sozinho, no silêncio sepulcral enquanto tentava  agora entender claramente o que aquelas palavras significaram.

(...)

Com as mãos nos bolsos e com o capuz cobrindo a sua cabeça, Michael percorreu o caminho até estar em frente a sua casa. Seus olhos intensos ficaram encarando a grandiosa morada por um longo tempo. Ela estava rodeada com as faixas amarelas de isolamento da polícia, e entre os enormes portões havia uma aglomeração de correntes com um cadeado prendendo-o. Ele esgueirou-se sob as faixas e continuou observando a residência que tanto conhecia.

Após respirar profundamente, ele tomou a devida coragem e decidiu entrar na casa. Ele olhou para os dois lados da vizinhança, enquanto se afastava do muro para ganhar impulso, e então usou as suas habilidades de artes marciais para escalar o murado, pulando para o outro lado discretamente à guisa de que seu corpo pareceu tão leve como uma pluma.

Andou rapidamente pelo o jardim — que estava com a grama secas e as flores murchas por falta de cuidados — abaixou o capuz e rumou para a entrada principal da casa. Assim que seus pés tocaram o piso de carvalho polido, os seus olhos se depararam com a parte escura da casa, assim como o estado de espírito do rapaz. A mesma escuridão fantasmagórica que enfrentara na noite em que a sua família fora brutalmente assassinada.

Ele tirou do bolso o celular que ganhara de Kamon e ligou a lanterna do aparelho, pois preferiu não ligar as luzes, que provavelmente já estariam funcionando, para não chamar a atenção dos vizinhos. O interior da casa estava uma bagunça, com os moveis desordenados; pelo o que parecia, nenhuma alma viva ia ali por muito tempo, constatação oriunda da poeira impregnada nos móveis. Aproximou-se da escada e levou a sua mão direita ao corrimão, deslizando-a pelo o ferro trabalhado em branco, conforme ia subido os degraus.

O sentimento nostálgico lhe abrangeu completamente, de modo que nada mediante a sua realidade parecia lhe importar.

Por um breve momento, sua mente o relembrou de Natalie descendo por aqueles degraus correndo de forma alegre enquanto gritava estridente o nome do irmão, a quem ela tanto amava. Foi impossível não sentir a angustia subir pelo o seu corpo e parar em sua garganta, fazendo-o engolir em seco. Estava com saudades daquele lugar onde vivenciou momentos tanto de tristeza quanto de alegria... Dos momentos fraternos com Natalie às discutições com Jonathan. Estava com saudades, sim, mesmo das discussões com o pai, pelo menos ele estava vivo naquele tempo.

Logo o rapaz regressou a sua realidade e terminou de subir todos os degraus, clareando o caminho com a lanterna do celular. Diante do vasto corredor, encarou a porta fechada do quarto do pai e logo olhou exclusivamente para o da sua irmã. Aproximou-se do quarto da menina, abriu a porta e ficou entre ela e o recinto. As lembranças que sempre reprisavam de forma contínuas nas poucas vezes que ele conseguia dormir um pouco, fizeram-lhe vivenciar o momento em que viu a sua irmã morta e na luta que tivera com os assassinos contratados por Robert Bradshow. Isso acontecia todas as vezes que ele dormia, como um pesadelo que nunca tinha fim. A sensação era horrível ao ponto de seu coração doer como se tivesse lavado várias facadas.

Fechou os olhos por alguns instantes, dizendo a si mesmo que naquela noite acabaria com toda aquela cor. E quando voltaram a abri-los, eles estavam mais intensos e mais determinados do que nunca. O rapaz saiu do quarto da Natalie e rumou para o seu. Uma vez dentro, caçou em uma das gavetas do criado mundo as chaves de um dos carros que tinha em sua garagem e saiu com um veículo discretamente para que os vizinhos não percebessem. 

Pegaria primeiro Robert Bradshow e depois os contratados que cometeram a barbaridade com a sua família. Esse era o plano inicial do rapaz, no entanto...

(...)

Clarke acabara de sair do banho quando vestiu um short e uma blusa regata confortável que usava para dormir.

Estava exausta, pois desde o início daquela semana, ela vinha juntando mais informações sobre o caso da família Jackson, e só assim pôde enfim trabalhar no artigo que havia comentado com o seu chefe. Esperava ansiosamente que aquele artigo fosse eficaz de alguma forma. 

Enquanto enxugava os cabelosum pouco mais crescidos agora, ela divagou em seus pensamentos que persistia sempre em lembrar-se dele: Michael Jackson. Só que desta vez não fora com aquele sentimento de saudades que sempre lhe envolvia toda a noite, era uma sensação estranha, indescritível. Pensando nisso, ela desligou o secador de modo abrupto e se encarou no espelho. Que sensação estranha! O que podia ser? Perguntou-se, ainda encarando a imagem que o espelho refletia sobre ela mesma. 

Colocou o secador sobre a penteadeira e pegou o seu celular que estava sobre a cama. Calçou um par de pantufas e desceu as escadas enquanto mergulhava no site do jornal online onde trabalhava. Rumou diretamente para a cozinha, onde encheu um copo com água e sentou-se em uma cadeira em volta ao balcão de mármore. Lá ela permaneceu alguns minutos enquanto navegava no site, mas a sua concentração foi totalmente tirada quando um ruído estranho chegou até os seus ouvidos, fazendo-a virar a sua cabeça e voltar a sua atenção exclusivamente para a porta da cozinha.

O que danado foi isso? — Perguntou-se em mente, levantando-se e andando devagar e silenciosamente para a porta. Ela saiu da cozinha e entrou na sala de estar com os olhos bem atentos naquela penumbra que lhe deixou um pouco assustada. Pois pelo o que parecia, estava acontecendo uma briga no jardim.

O barulho começou a se tornar cada vez mais audível, mas perto, e de repente um dos seguranças da casa foi lançado ao ar porta adentro da residência, fazendo Clarke arquejar com o tamanho do susto e tampar a boca com as duas mãos. E então, em seguida uma pessoa usando um capuz invadiu o interior da casa, fazendo a garota ficar mais assustada e começar a dar passos para trás, sem fazer barulho. 

O segurança de porte alto e devidamente bem alinhado em um terno preto levantou-se ligeiramente e tentou mais uma vez atacar a pessoa de capuz, que até então Clarke ainda não tinha visto o seu rosto por ele estar de perfil. Mas aconteceu dele tomar o cassetete do segurança e usá-lo para golpeá-lo fortemente, fazendo o homem ir ao chão novamente quase desfalecido.

Clarke observou tudo de olhos esbugalhados. Então decidiu definitivamente sair dali em silêncio, uma vez que o invasor ainda não tinha lhe visto. Contudo, a voz que soou em seguida lhe chamou a atenção por completo.

— Vou perguntar novamente. Cadê. Ele? — A voz rouca, baixa e frígida que indagou o segurança, fez a garota parar de andar. Aquela voz, embora tivesse um resquício de raiva, ela a conhecia. Mas... como? Não podia ser!  Pensou ela.

— Eu já disse que ele não está em casa. — Respondeu o segurança, fraco. E era verdade. Robert e sua esposa tinham ido a um coquetel em uma das subsidiárias do Grupo Chomish. Por isso, ele não se encontrava em casa.

— Vamos ver se é verdade, então. — O dono da voz, que ainda continuava de lado, dirigiu-se às escadas para conferir se Robert realmente não estava em casa. Só que ao ouvir a sua voz novamente, a garota por impulso e inconsequentemente o chamou.

— Michael? — A voz suave e doce, com uma pintada de temor, fez o rapaz parar e se virar lentamente para encontrar a dona daquela voz que também lhe pareceu conhecida. E ao se virar por completo, os seus olhos que outrora estavam ardendo em chamas, agora patenteavam incredulidade. Aquela garota petiz... Era Clarke, a garota pela qual tinha se apaixonado. Definitivamente era ela! Mas... o que ela estava fazendo ali? Michael se perguntou. Sim, ainda quando estava ao lado de fora da casa, sentiu que já esteve lá de alguma forma, apenas não se lembrava de que Clarke morava ali.

Todavia, a garota não conseguiu vislumbrar com exatidão se ele era ou não realmente a pessoa que ela pensava que era a princípio, contudo, ao estreitar o olhar e encará-lo claramente, seus olhos custaram a acreditar, de modo que suas pupilas se dilataram e por pouco o seu corpo não desabou no chão, por ver que aquele era Michael, o Michael pelo o qual ela havia se apaixonado, o Michael que lhe salvara algumas vezes... O Michael que pensava estar morto... Seu olhar estava diferente, mas era ele, definitivamente! Pensou a garota.

Michael estava inerte, com os seus olhos expressivos, intensos e inflamados voltados para o rosto da garota, esta que ainda incrédula, aproximou-se dele e quando estavam a um passo, suas pequenas e delicadas mãos voaram lentamente para o rosto do rapaz, tocando-o como se estivesse tocando algo fácil de quebrar, enquanto seus olhos enchiam-se de lágrimas que vieram a escorrer ao confirmar de que não era um sonho e nem alucinação. Vivo! Ele estava vivo!

Ele, no entanto, mantinha a sua expressão de surpresa e ao mesmo tempo raivosa. Ao sentir a quentura das delicadas mãos dela, sua visão começou a mesclar-se entre ela e as poucas lembranças vividas com a mesma, fazendo-o perder o seu foco inicial e perguntar-se em silêncio o que diabos ela estava fazendo ali.

Já Clarke, ao invés de questioná-lo sobre o porquê que ele estava fazendo aquilo, o que lhe era mais importante era o fato dele estar bem diante dos seus olhos, vivo. Estava literalmente abduzida e em intermédio de seu mundo particular entre o que estava realmente acontecendo.

Ficaram se encarando por descomedidos e incessantes segundos. Ele, agora tendo uma ideia a qual temia ser o motivo daquela garota estar na casa de seu inimigo. Ela, entretanto, estava transbordando, era tanta felicidade que mal cabia em seu peito.

— Michael! — Sibilou ela, fazendo um exame minucioso enquanto ainda apalpava com as mãos trêmulas o rosto do rapaz. — Meu Deus... Você está vivo! Realmente vivo!  — Balbuciou, lhe sorrindo abertamente enquanto ao mesmo tempo debulhava-se em lágrimas.

Michael também queria muito questioná-la, mas as palavras estavam presas na sua garganta, de maneira que não pronunciou absolutamente nada.

Bem neste momento, uma pá de seguranças, todos bem alinhados em ternos e com os rostos marcados pela surra que levaram do rapaz mais cedo, surgiu no recinto portando cassetetes e apontando-os para o rapaz que, logo voltou ao presente ao perceber que estava em perigo. Ele girou a cabeça e encarou os homens. Ele poderia simplesmente bater em todos, mas ainda estava um pouco distraído com a garota diante dele.

— Srta. Bradshow, afaste-se, por favor! — Um dos seguranças disse, e rapidamente a atenção do rapaz foi exclusivamente voltada para a garota, pois tal sobrenome mencionado foi a resposta para a pergunta que ele se reprimiu para não perguntar. O que ele tanto temia naquele momento era mais um terço de sua realidade, a tormenta que estava vivendo desde que acordara do coma. Clarke era filha de Robert Bradshow, o homem que ele foi para matar naquela noite.

De olhos esbugalhados enquanto encarava a garota, o ódio desenfreado que sentia por Robert Bradshow apenas se intensificou, pensando na possibilidade daquele velho asqueroso ter usado a própria filha para se aproximar do rapaz. Foi inevitável não pensar nessa suposição, uma vez que ela nunca mencionou de qual família era, e visto também que ela já o conhecia antes mesmo de se encontrarem pessoalmente pela primeira vez.

Um segurança fez menção de se aproximar, chamando a atenção de Michael que, ciente de que estava distraído demais para bater em todos, pensou rapidamente numa forma de escapar dali. Então, ele notou o espelho jacente ao sul da sala, exatamente onde ele e Clarke estavam. Em um movimento ágil e experiente, ele deu um soco no espelho, ligeiramente capturou um dos cacos e não pesou duas vezes em puxar a garota para os seus braços e fazê-la como refém, encostando o caco do espelho no pescoço dela que, soltou um gritinho por causa do ataque repentino.
Todos os seguranças fizeram menção de se aproximar, mas a garota estendeu as mãos, num aceno para eles não se aproximarem.

— Deem mais um passo e será o fim para ela. — A voz rouca e ameaçadora dele fez os homens se entreolharem e em seguida recuarem. Isso, contudo, de nada causou medo a garota. Ela não sabia por qual motivo ele estava agindo daquele jeito, mas de alguma forma ela conseguia sentir que ele não queria machucá-la. Ainda confiava muito nele.

Com o olhar em alerta, o rapaz começou a andar devagar levando a garota com ele, lentamente até estar ao lado de fora da casa e depois dos muros, com os seguranças seguindo-os. Ao chegar até o seu carro, ele a fez entrar no veículo, ainda com o caco do espelhou rente ao pescoço dela. Em seguida apertou um ponto de pressão entre o pescoço e o ombro dela, botando a garota para dormir. Deu a volta no carro e uma vez dentro, saiu cantando pneu.

A descoberta feita naquela noite acabara de mudar os planos do rapaz? 



“Confúcio: Foi um famoso filósofo e pensador político
da China  e de todo o Oriente, que viveu entre 552 e 479 a.C.” 






Capítulo 15
“Mudança de planos”

ROBERT ENTROU FURIOSAMENTE CASA ADENTRO após ficar sabendo o que havia acontecido em sua residência enquanto esteve fora. Sua esposa lhe acompanhava com o rosto banhando em lágrimas de desespero e consternação por saber que a sua única progênita fora levada por sabe lá Deus quem.

— O que aconteceu, cadê a minha filha?! — Clarice gritou desesperada e com o corpo trêmulo.

— O que aconteceu?! — Robert também perguntou não muito diferente da esposa.

Os seguranças se organizam um ao lado do outro e todos abaixaram a cabeça, exceto o líder deles que teria de explicar o que havia acontecido ali.

— Sinto muito, Senhor. Nos fomos atacados e a Srta. Bradshow... foi levada. — O líder respondeu cauteloso com as palavras, com medo da reação de Robert. Este arregalou os olhos e passou as mãos na cabeça de forma violenta.

— Meu Deus! A minha filha. Faça alguma coisa! — Pediu-lhe sua esposa desesperadamente, agarrando-se no seu paletó.

— Como isso aconteceu? — Perguntou, dissimulando paciência ao voltar a encarar o segurança que, respirou fundo e se sentiu envergonhado pela humilhação que fora apanhar de um único homem. .

— Bem... Um homem com habilidades excepcionais em luta nos atacou de surpresa e... ao se sentir encurralado por todos nós, fez a Srta. Bradshow de refém para escapar.

— Apenas um homem? — O velho indagou.

— Sim. — Foi a resposta que recebeu, esta que o fez arquejar de incredulidade e de raiva ao mesmo tempo.  

Robert aproximou-se da fileira de homens com a expressão transparecendo fúria.

— O quê vocês são? Um bando de ratos? Como puderam levar uma surra de um único homem e ainda por cima terem deixado levar a minha filha?! Hein?! — Bradou exasperado e deu um forte tapa na cabeça de dois seguranças, que apenas se contraíram de medo do velho.

Ouviu-se um barulho de algo caindo no chão, e ao virar a cabeça, Robert viu que a sua esposa havia desmaiado.

— Querida! — Ele correu ao encalço de Clarice e pegou-lhe em seus braços. — Querida! Querida! — Chamava-lhe enquanto tentava despertá-la com tapas leves em seu rosto. — Apresse-se e chame o médico e contate a polícia. Agora! — Ordenou e o segurança líder logo fez o que lhe fora ordenado.

— Senhor, tem mais algo que deve saber. E que... — o segurança deu uma pausa. — A pessoa que levou a Srta. Bradshow estava procurando pelo o senhor. — Completou o homem.

Robert piscou.

— Por mim? Que besteira é essa?

— É verdade, senhor. Ele não parava de pergunta onde o senhor estava. Dissemos que não estava em casa, mas ele insistia até que então a senhorita apareceu.

Robert não teve tempo de pensar por que motivo, o homem que levara a sua filha estava atrás dele. E embora estivesse muito preocupado com ela, tinha também que dar atenção sua atenção à esposa inconsciente.

(...)

Enquanto Michael esteve confinado naquele hospital, pensar em sua família lhe trazia dor, angustia e inquietação. Mas quando pensava em Clarke, todos aqueles sentimentos ruins eram completamente vedados, pois apensar de ter perdidos seus entes, podia sentir que ainda podia ter um motivo para continuar vivendo depois que devolvesse a dor àqueles que lhe fizeram mal.

Na época, ele chegou a pensar em procurá-la depois que seus planos tivessem sido concluídos com êxito. Clarke foi a primeira pessoa que, pela primeira vez, foi uma pessoa que ele queria pra ele de verdade. Mas a desgraça de ela ser a filha do maldito que tinha matado a sua família mudava completamente tudo.

Que tipo de piada do destino era essa?

Liu Zeng estava certo. Os planos de uma pessoa podem mudar, e os destinos e impulsos que surgem no caminho dos cálculos do homem podem ser capazes de afetar o resultado. Na pouca claridade que emanava da lâmpada pendurada no teto, observando a três passos de distância o corpo retraído da garota inconsciente sobre um estofado dentro daquele porão, Michael agora podia entender claramente uma das coisas que o velho chinês havia lhe dito.

Seus olhos que outrora a olhavam com paixão, agora estavam disfarçados de puro ódio, dela, também. Então, até que a sua vingança ainda não estivesse concluída, ele não deveria olhar nos olhos da garota. Definitivamente ele não podia!

Seus planos iniciais foram por água abaixo pelo o fato de saber que a garota, por qual ele havia se apaixonado, era a filha do homem que matara a sua família. Mas... como ele não soube disso antes? Por que ela não lhe contou que Robert Bradshow era seu pai? Estaria ela vinculada com aquela tragédia? Questionava-se o rapaz com várias hipóteses voando por sua mente. Por causa disso, agora estava passando a acreditar que a odiava, pois agora que a encarava só conseguia lembrar-se de Robert.

Ele estava apertando os punhos com tanta força que suas unhas, um pouco crescidas, arranhavam as palmas de suas mãos. Ele encheu os pulmões e soltou o ar por entre os dentes.

A concentração que detinha sobre ela foi parcialmente quebrada quando sentiu o celular vibrar no bolso do seu Blusão. Sem tirar os olhos dela, ele capturou o aparelho do bolso e atendeu depois que reconheceu o número da chamada.

— Hum? — Disse apenas ao tailandês no outro lado da linha.

— Michael? Você está bem, cara. Que alívio. — Pôde se ouvir o suspirou de alivio do tailandês. — Então quer dizer que...

— Você tem razão. — Ele interrompeu Kamon. — Um tiro não é a única coisa que pode matar uma pessoa. — Disse olhando para a garota, pois pretendia usá-la para pegar Robert da maneira mais dolorosa possível.

— O que você... quer dizer com isso?

— É uma longa história. Depois que eu resolver tudo isso, eu te explico. Estou desligando. — Sem esperar por uma resposta do seu amigo, ele finalizou a ligação. Não queria que o tailandês tivesse a oportunidade de lhe indagar, continuava não querendo que ele se envolvesse naquela confusão.

Sua atenção se voltou inteiramente para Clarke. O rapaz não sabia ao certo o que lhe deixava com mais raiva, se era o fato de ela ser a filha daquele desgraçado ou se era porque ele não havia descoberto isso antes. De qualquer forma, olhá-la por tanto tempo já estava começando a lhe fazer mal mentalmente. Sua cabeça estava uma bagunça.

Ele deu dois passos para trás, girou nos calcanhares e dirigiu-se à porta do porão, mas antes que ele pudesse sair do local, aconteceu de Clarke finalmente abrir os olhos e avistá-lo de costas, afastando-se cada vez mais de onde ela estava. Sentindo-se confusa e ainda desorientada, ela levantou-se do sofá e o chamou:

— Michael! — A voz doce chegou até os ouvidos do rapaz tão inesperadamente que lhe fez parar de modo súbito. — Michael! — O chamou novamente, e um sorriso débil tocou seus lábios enquanto seus olhos marejavam. — Não é um sonho, é real. Você realmente está aqui. — Deu alguns passos na direção dele, mas ao ouvir os passos dela mais próximos de si, Michael alargou os seus olhos e os moveu para um lado e para o outro freneticamente, com medo que ela chegasse mais perto. 

— Não se aproxime! — Ele a advertiu, num murmúrio de voz, quase como um sussurro, sem olhá-la. Seu tom de reprimenda, no entanto, não fez Clarke parar de ir em sua direção. Ela queria tanto abraçá-lo... Deus, como devia ter sido difícil e doloroso para ele, ela pensou, seu coração doía só de imaginar tudo de ruim que ele havia passado.

Michael sentiu os pequenos braços envolver a sua cintura e o som da respiração forte lhe batendo nas costas, dando a ele uma breve sensação de proteção e consolo. Seu corpo ficou rígido, e seu coração quis vacilar por um breve instante, mas a sua mente fez o favor de lhe trazer as más recordações que o pai dela havia lhe dado. Seus olhos escureceram como uma tempestade turbulenta e num impulso momentâneo, ele desatou de forma bruta as mãos dela, que estavam atadas em seu abdômen, e virou-se para enfim encará-la fixamente nos olhos. Sem raciocinar direito, uma de suas mãos voou para o pescoço delicado da garota, apertando-o fortemente, sufocando-a.

Clarke automaticamente segurou a mão dele numa tentativa de amenizar a dor em seu pescoço, enquanto encarava um brilho duro no olhar do rapaz que evidenciava que ele havia passado por situações difíceis. Por Deus, aquilo lhe partia o coração.

— Eu disse para você não se aproximar. — Disse ele, por entre dentes, seus olhos negros vidrados nos castanhos dela. Ele não queria ter que olhá-la diretamente assim, mas acreditava que era necessário para que ela pudesse ver a profundidade da sua fúria.

A garota, por sua vez, ainda permanecia confusa por não saber o motivo de tanta raiva, e ainda mais por que não sabia o porquê que ele estava derramando tudo sobre ela.

— Michael... — Ronronou ela, mas não conseguiu prosseguir porque parecia que ele estava lhe estrangulando com mais força.

— O Michael que você conhecia, está morto! — Grunhiu com um olhar duro e ao mesmo tempo atormentado.

Clarke ainda não conseguia proferir nada além dos arquejos que escapavam de sua garganta enquanto estava sendo apertada. As lágrimas beiraram a linha de seus olhos, prontas para a qualquer momento desfazerem-se. Não que ela estivesse com medo, mas por que o seu coração doeu com a hipótese de ele ter se tornado realmente outra pessoa, pois seus olhos já não eram mais os mesmos. Estavam vermelhos, brilhantes e inundados de melancolia misturada com raiva mal contida, do quê ela não sabia.

Os lábios dele tremulavam enquanto a sua respiração ficava cada vez mais rápida, mas foi quando ele sentiu as lágrimas quentes que vieram a escorrer pelo rosto dela até caírem em sua mão, que estava a segurando, foi que ele começou a se arrepender e perceber que estava tão mudado que agora estava até indo contra os seus princípios. Ele não queria machucá-la, realmente não queria, mas ficara tão enlouquecido que perdera o controle.

Ele olhou do rosto da garota para a sua mão e começou a soltá-la lentamente; Clarke, então, usou essa oportunidade para puxá-lo para si e abraçá-lo fortemente, adornando seus braços no pescoço dele.

— Você deve ter sofrido muito, huh? — A voz dela se referia a ele com tanto carinho e acolhimento que Michael simplesmente ficou em estado de inércia, surpreso mais uma vez com a reação da garota, mesmo depois de ele quase tê-la sufocado. 

— O-o-que você está fazendo? — Os dentes apertados um contra o outro abafava a voz nervosa dele. Seu coração estava querendo titubear novamente, mas era sempre a cabeça, era sempre ela que lhe fazia lembrar quem era aquela garota. Então não, ele não podia... Ela era filha do homem que aniquilou a sua família.

— Eu realmente pensei que estivesse morto... Mas eu estou tão feliz que esteja vivo. — Murmurou com a voz chorosa.

O rapaz tirou os braços dela de seu pescoço e a empurrou para longe dele, fazendo-a cair no chão.

— Você realmente não está entendendo a situação ou está dando uma de louca? — E lá estava ele de novo, consumido pelo o sentimento destrutivo.

Ainda no chão, ela levou uma mão à parte em que doía do seu pescoço, e lhe fitou.

— Você desapareceu como se nunca mais fôssemos nos ver de novo. — Dizia num fio de voz. — E então eu fiquei tão triste e assustada que pensei que iria enlouquecer. E agora que eu o encontro novamente você me olha com a mais fria das expressões e me trata desse jeito. Por quê? O que eu fiz pra você? Por que está agindo assim, huh?

— Você realmente não sabe?

— Eu sei que você passou por muita coisa para só agora mostrar que está vivo, mas o motivo de você estar me tratando desse jeito, não, eu realmente não sei. Então me diga por que toda essa raiva.

Ele passou as mãos na cabeça simulando sua impaciência e soltou um sorrisinho de incredulidade

— Ok. Vamos supor que você realmente não saiba... Então, me permita lhe contar. — Seus olhos voltaram a ficar frígidos. — Seu pai e eu. De forma nenhuma. Podemos viver sob o mesmo céu. — Patenteou pausadamente.

— O quê? Como assim? Do que você está falando?

Michael deu dois passos para frente e se agachou bem perto dela.

— A minha família está morta... Por pouco eu não morri também. Tudo isso graças ao seu adorável pai. Ele é o responsável pela morte da minha família. — Revelou sem fazer rodeios.

— Você está dizendo que... Espera um pouco. — Ela respirou fundo, um pouco confusa. — Você está suspeitando de meu pai? — Indagou temerosa.

— Suspeitando? Não. Eu estou afirmando com todas as letras. Seu pai é um homem de uma incomparável crueldade. Tão obcecado por poder, ele encomendou a morte da minha família. Mas para o azar dele, eu sobrevivi como um sopro de vida.

Ouvir isso foi como ser atacada com uma bomba, pois agora que ficara em silêncio, digerindo tal revelação, ela estava começando a entender o porquê que Michael havia invadido a sua casa e o motivo dele estar a tratando daquela maneira. Porém, tinha certeza absoluta de que ele estava errado. Como assim o pai dela havia mandado matar a família dele? Que história ridícula era aquela? Não, impossível! Pensou ela. Acreditava cegamente que o seu pai era a pessoa mais honesta da face da terra. Então aquilo só poderia ser um mal entendido, e iria provar uma vez que ele a deixasse ir.

— Michael, eu sei que você deve ter sofrido muito, mas... você está errado. O meu pai não é assim. — Disse com convicção.

— Ah, é? — Ele arqueou as sobrancelhas e arquejou. — Claro, está aí mais uma prova de que o sangue é mais espesso que a água. Você e o seu pai são farinhas do mesmo saco. — Disse querendo demonstrar asco dela.

— Eu já disse que ele não é assim! Acredite em mim! Deve ser um mal entendido! — Disse alto, numa tentativa desesperada de convencê-lo.

— Você confia tanto assim no seu pai? — Perguntou ele, então rapidamente respondeu sua própria pergunta. — Claro, você é filha dele, afinal.

— Ouça. Eu estou investigando isso há algum tempo. Se você me deixar ir, eu vou te ajudar a encontrar quem matou a sua família. Vamos descobrir juntos, huh?

— Seu pai...  é o culpado. — Elucidou o rapaz. — Espere só para ver o que eu irei fazer com ele.

Os olhos da garota se esbugalharam ao ver a determinação explícita no olhar dele.

— O que você está planejando?

— O que você acha? — Seu olhar já dizia tudo.

— Você não... Você quer matar o meu pai? Não! Você não pode!

— Hum. O plano inicial era matá-lo hoje, mas aconteceu de você estar lá e de ser a filha dele. Os planos mudaram.

— Michael? — Apelou desesperada. Sua tez estava franzida e as lágrimas ainda banhavam o seu rosto. Sua expressão era tão lamentável que Michael desviou o olhar por alguns segundos por se sentir mal por ela, mas assim que voltou a encará-la, engoliu em seco e se pôs ereto.

— Isso. Você já pode sentir medo de mim. Até me odiar, se quiser. Eu não me importo em parecer o vilão agora, pois no final, o culpado de tudo o que está acontecendo será sempre o seu pai. — Ele deu às costas pra ela e rumou à saída.

Mesmo com todas as palavras ameaçadoras do rapaz, Clarke não estava com medo dele, apenas temia que ele fizesse alguma coisa contra o seu pai. Acreditava que ele ainda estava sensível com a perda que sofrera, e por isso ainda vivia no martírio. Apesar disso, tinha certeza que o Michael que ela conhecia ainda estava lá, preso em algum lugar e que aquela personalidade diferente era uma forma que ele encontrou para se proteger.

— Senti a sua falta. — Ela disparou com tamanha sinceridade que foi capaz de atingi-lo novamente, fazendo-o parar de costas e constatar que ela, talvez, gostasse mesmo dele. — Muita. — Completou.

Michael quase foi coagido a ir até ela, mas conteve-se, a mente enevoando com vivas lembranças da barbaridade que o pai dela havia feito. Ele apertou os olhos, respirou fundo e saiu do porão. Uma vez fora, ele passou o ferrolho na porta e em seguida encostou-se nela.

Ele ouviu a voz doce da garota lhe chamar novamente, mas fechou os olhos brevemente e saiu dali antes que abrisse aquela porta e a pegasse em seus braços. Ele realmente estava se controlando para não fazer isso.

Uma vez que Clarke se viu sozinha dentro daquele quadrado e ouviu o som dos passos do rapaz se afastando, ela sabia que não agüentaria muito tempo ficar ali sozinha. Ela olhou para um lado e depois para o outro, passando a vista em algumas pilhas de caixas, livros e outras coisas que havia naquele porão, tudo em bom estado, inclusive. Ela estava tão concentrada no rapaz que se esquecera de dizer-lhe que não era aficionada aos lugares fechados.

(...)

Macalie colocou uma luva em uma de suas mãos, agachou-se em frente aos pedaços do espelho quebrado e pegou um caco. Encarando aquele pequeno pedaço de vidro grosso, constatou que quem quer que tenha quebrado apenas com um soco, era bastante habilidoso, o que lhe deixou intrigado, pois não havia sequer um pingo de sangue para que ele pudesse mandar fazer alguns testes.

O detetive colocou de volta o pedaço do espelho no chão, levantou-se e voltou-se até onde Robert estava.

— Isso é obra de um amador, provavelmente não tem experiência alguma em invasão de domicílio, mas devo reconhecer que ele tem incríveis habilidades. — Disse, olhando do velho para os seguranças da casa. — Vendo como ele passou com facilidade por pessoas treinadas como os seus funcionários. — Completou com uma pintada de sarcasmos, referindo-se aos homens de rostos surrados.

— Detetive, eu quero saber o que a polícia fará para encontrar a minha filha. — Robert falou tentando mostrar paciência, pois assim que ele descobrisse quem havia levado a sua filha e quando ele colocasse as mãos no sujeito, ele iria matá-lo. 

— Deixarei a minha equipe aqui para pegar as digitais que tiver nesta cena e verificarei as câmeras de segurança que tiver aqui e as CCTVs das ruas. Tentarei localizá-lo seguindo-o nas câmeras. Por favor, me entregue as gravações. — Pediu.

Robert apenas olhou para um dos seguranças e fez um gesto com a cabeça, ordenando que ele fosse pegar as gravações de todas as câmeras para entregar ao detetive.

(...)

Michael estava sentado numa poltrona que havia na sala de estar de sua casa, com o olhar perdido em meio à escuridão fantasmagórica que imperava naquele lugar. Fazia duas horas que estava na mesma posição, totalmente embebido em seus pensamentos; o subir e o descer de seu peito eram os únicos movimentos que o seu corpo fazia além do pestanejo de seus olhos.

Estava pensando, mais uma vez, nas palavras que Clarke havia lhe dito. Estava claro que ela não tinha nada a ver com o que o seu pai fizera, mas como uma garota daquela poderia ser filha de um demônio como ele?

Michael também pensou no vacilo que quase dera quando sentiu as mãos dela lhe tocarem... Quando ela o abraçou... Merda! Uma garota que ele deveria odiar e manter distância quase havia lhe puxado para ela com uma força absurda. Não, ele definitivamente não podia se deixar levar por sentimentos conflitantes, naquela altura, isso era um luxo que ele não podia se dar. E para que isso não acontecesse novamente, ele tinha que decidir logo como iria usá-la contra o próprio pai.

Já estava até com algumas ideias na cabeça, mas pensava na qual seria mais cruciante, agonizante e doloroso para Robert. Afinal, o que seria pior para aquele velho do que ter a única filha, a qual o julgava ser o homem mais honesto do mundo, desconfiando da sua índole? Da veracidade de suas palavras? E se ela soubesse o tipo de pessoa que o seu pai era e o que ele fazia para conseguir o que queria, então, o que aconteceria? Para um filho, o pai e a mãe são como a existência do universo, mas e se esse universo entrasse em colapso?

Vingança? Oh sim, Michael ainda a desejava muito, mas enganados eram aqueles que pensavam que para o rapaz a vingança era a coisa mais importante. Se fosse antes poderia até dizer que sim, mas agora, para ele, a vingança tinha sim a sua parcela de importância, mas mais importante do que isso era como ele seria feita. Ele iria deixar Robert viver no próprio inferno. Iria partir o coração dele, o espírito, para então depois matá-lo com as próprias mãos.

O barulho de batidas fracas na porta, vindas do porão, o tirou do seu novo estado inerente, fazendo-o respirar fundo e se indagar o que aquela garota queria. Ele se levantou e dirigiu-se sem pressa até onde ela estava. Só que ao chegar em frente a porta, as batidas já não eram mais ouvidas.

— O que você quer? — Ele perguntou friamente, mas estranhamente não recebeu resposta. — Eu perguntei o que você quer. Está com fome? Sede? Ou o quê? — Indagou de novo, mas continuou sem receber resposta, o que lhe deixou com uma sensação estranha. Um pouco hesitante, ele puxou o ferrolho e abriu a porta. Seus olhos se esbugalham e o seu coração disparou quando seu olhar deteve-se em cima de Clarke que estava caída ao chão com uma mão pousada no colo, sinal de que ela esteve lutando para conseguir respirar.

Em poucas e rápidas pernadas, ele alcançou a garota, ajoelhou-se e a apoiou em seus braços.

— Ei! Ei! O que você tem? Clarke! Clarke! — Ele realmente estava preocupado.

De modo repentino, ela puxou o ar violentamente para os pulmões e abriu os olhos devagar. Quando ela viu o rosto de Michael bem perto do seu, fez de tudo para manter seus olhos abertos. 

— O que há com você? Está sem ar? — Ele continuou indagando a garota, com o semblante preocupado. Mas foi quando ele a viu esfregar a mão no colo, foi que desconfiou qual seria o problema dela. — Você por acaso é... claustrofóbica?

— Quase isso. — Ela respondeu com a respiração falha.

Quando ele ouviu isso, a preocupação ficou mais manifesta no seu olhar sombrio e avermelhado. Ele quase a matou, pensou. E foi pensando nisso que se viu arrependido de tê-la deixado ali. Mas... ele não fazia ideia que ela tinha problemas com lugares fechados.

— Aguente mais um pouco. Vou tirá-la daqui. — Clarke o ouviu dizer baixinho, e fechou os olhos.

Michael a pegou em seus braços e saiu do porão. Sem ser atrapalhado pela escuridão, que seus olhos já haviam se adaptado, ele passou pelos os cômodos da casa, subiu as escadas e rumou para um dos quartos de hóspedes, o último que havia naquele corredor, o único que ele sabia que poderia manter a luz acesa sem se preocupar com os vizinhos.

Uma vez dentro do aposento, ele colocou o corpo da garota sobre a cama, tirou as pantufas que calçava seus pequenos pés, e puxou o cobertor para cobri-la. Sentou-se na beira da cama para observá-la um pouco, mas quando percebeu que ela ainda estava com problemas para respirar, ele fez menção de se levantar para ir pegar o nebulizador, que sabia que estava em algum lugar no quarto de Natalie. Mas foi detido quando sentiu a mão de Clarke segurar fortemente a sua.

— Não vá. — Ela pediu-lhe num fio de voz. Ele virou-se para encará-la, mas ela ainda mantinha os olhos fechados. — Não vá, por favor! — Pediu-lhe novamente. Se ele saísse, para Clarke seria a mesma coisa de ficar sozinha num lugar desconhecido, e ter pelo menos ele por perto, ela com certeza ficaria bem logo.

O rapaz ficou a encarando. Por um momento, ele levou a sua mão para lhe tocar o rosto delicado, mas deteve-se. Ela parecia tão frágil que a vontade dele era de acolhê-la em seus braços e dizer-lhe que tudo ficaria bem, que ele estava ali para protegê-la, assim como fizera como se conheceram. Aquela com certeza era uma situação em que até mesmo o edifício mais resistente poderia desmoronar. Mas ele lutou dentro de si e reprimiu todos esses desejos que estava sentindo, e apenas voltou a se sentar na cama e deixou que ela continuasse segurando a sua mão, enquanto ele mantinha, agora, o olhar longe dela.     


Capítulo 16
“Do ódio à necessidade carnal”

NAQUELA MADRUGA, CLARKE ABRIU OS olhos de vagar, em seguida sentou-se bruscamente na cama e levou uma mão até o colo quando se lembrou de que esteve com falta de ar. Respirou fundo e se viu sozinha sobre uma cama bem confortável forrada com um jogo de lençóis de seda de cor branca. De repente flashes em que Michael abriu a porta do porão e pegou-a nos braços surgiram em sua mente, fazendo-a ter certeza de que fora ele quem a colocara ali.

Friccionou os olhos, olhou em volta e observou o lugar desconhecido. Clarke que sempre vivera em boas condições julgou rapidamente que aquele lugar não era um lugar comum, era um quarto requintado, com certeza.

Só então quando dissipou esses pensamentos, finalmente se deu conta de que estava sozinha.

Um pequeno barulho, de alguma coisa que provavelmente havia se chocado com o chão, fez a garota dirigir estritamente a sua atenção para a porta entreaberta do banheiro, que ela só havia notado a luz acesa naquele momento. Ele estava ali, ela constatou, e na expectativa arrastou-se para fora da cama e caminhou lentamente ao encalço daquela porta, mas antes parou e jogou uma olhada para outra — porta — que julgou ser à saída do quarto. Talvez, estivesse destrancada. Sim, era uma boa oportunidade, e se ela tivesse sorte, poderia simplesmente fugir. Contudo, não era o que faria; era burrice, uma loucura, mas ela não queria ficar longe de Michael, não queria perdê-lo mais uma vez. E mesmo se quisesse escapar, como ela conseguiria fazê-lo se nem mesmo sabia onde estava?  Um hotel? Não. Ela balançou a cabeça concordando com a sua própria resposta. Como uma pessoa dada como morta entraria em um hotel tranquilamente sem ser reconhecido, ainda mais sendo um Jackson?

Ela seguiu o trajeto até o banheiro e parou no batente da porta assim que viu a figura do rapaz em frente ao espelho, trajando apenas um jeans e esfregando uma toalha na cabeça para secar os cabelos. Ele tinha os olhos fechados, e por isso ainda não tinha visto a garota que aproveitou a oportunidade de ficar ali, lhe contemplado. Ele era tão bonito e parecia tão tranqüilo que ela poderia ficar olhando-o por horas sem pestanejar. Sem contar que vê-lo novamente sem camisa lhe fez recordar o dia em que ele ficou do mesmo jeito para livrá-la de ser descoberta no clube Secret Men.

Sem querer, Clarke moveu seus olhos sobre o ombro direito do rapaz, onde transparecia a cicatriz que não negava o que ele havia passado. A imagem do corpo dele, que tinha visto no clube, só confirmou que ele havia provavelmente ganhado aquela cicatriz naquela noite. Seu semblante delicado foi tomado por uma expressão de compadecimento, e ela sentiu vontade ir até ele e abraçá-lo, mesmo que ele a maltratasse como fizera mais cedo. Mas antes que ela tivesse tempo para fazer isso, Michael olhou para o espelho e a viu através do reflexo. Ele passou alguns segundos naquela posição até que largou a toalha sobre a bancada da pia e se virou para a garota, enquanto esta continuava imóvel sem perceber que agora ele lhe fitava. 

— O que você está fazendo? — Ele a questionou, uma voz baixa e rouca, fazendo a garota voltar de súbito ao momento e encarar seus olhos intensos e avermelhados.

Clarke podia sentir a dor impressa naquele olhar obscurecido, mas ver aquela cicatriz atingiu- lhe de forma tão brutal que, foi como se ela tivesse vivido tudo de ruim no lugar dele, pois grande fora a dor cruel que lhe partiu o coração. Pôde compreender por que motivo ele estava tão sensível, porque aquela marca era uma lembrança que ele iria carregar pelo o resto da sua vida. E foi pensando nisso que ela deu passo para frente.

— Eu... eu só... — Murmurou se aproximando dele, este então arregalou os olhos e deu um passo para trás, numa forma de evitá-la.

— Por que você está agindo de forma tão imprudente?

— Você não estava lá, então... — Ela parou quando notou as profundas sombras sobrecarregadas sob seus olhos, resultado de incontáveis noites em claro. — Você não dormiu nem um pouco?

— Está preocupada comigo? Com o cara que vai matar o seu pai? — Indagou friamente.

Ela sentiu um frio passageiro com a ameaça destinada a seu pai, mas tentou demonstrar evasão.

— Como eu não poderia estar? Você é...

— Um pobre coitado que perdeu a família? — A interrompeu.

— O cara que eu gosto. — Ela corrigiu-lhe sem titubear. Ele engoliu em seco e quebrou o contato visual. Ela seguiu com a confissão. — Eu gosto de você, Michael. Queria ter dito isso antes, naquela noite que você pediu para me namorar. Você não sabe o quanto me martirizei por isso... A ideia de pensar que você tinha morrido sem saber que eu gostava de você era cruciante. Eu pensei que você estivesse morto... Eu queria morrer, também.

Ele permanecia parado, sem olhá-la nos olhos. Desejou com muita força que os sentimentos que nutria por aquela garota acabassem ali mesmo, mas toda vez que ela abria a boca saia um dilúvio de palavras afetuosas e calorosas que o deixavam confuso por se sentir acalentado e, sobretudo, com muita raiva de si mesmo.

— Volte para o quarto. — Disse apenas, frio e seco.

— Vamos conversar, huh? — Ela sugeriu em um tom pacífico.  

Michael ficou de lado, pôs as mãos em punhos fechados sobre a pia e abaixou um pouco a cabeça.

— Eu já disse tudo o que você precisava saber. Seu pai não presta. — Foi taxativo. — Volte. Agora.

— Vamos conversar direito. Vamos à justiça, isso com certeza é um mal entendido, e eu... — Tentou convencê-lo mais uma vez, mas essa tentativa só o fez perder o controle. Ele voltou-se para ela e lhe segurou os braços com firmeza, fitando-a profundamente.

— Mal entendido uma porra! — Alterou-se de um extremo a outro num milésimo de segundo, fazendo a garota se retrair um pouco. — Seu pai é um filho da puta que mandou assassinar a minha família! Eu nunca vou perdoá-lo! Nunca! Então não me venha com esse papo de justiça que essa merda não se aplica em mim, entendeu?! — Nessa altura seus olhos negros já brilhavam por causa das lágrimas que os preencheram enquanto ele bradava a plenos pulmões. — Seu pai pagará pelos os seus pecados com a própria vida, sabe por quê?! Porque eu mesmo vou matá-lo! Então não tente me convencer de que ele é inocente só por que ele é o seu pai, porque se você ficar no meu caminho, eu mesmo te enviarei para fazer companhia a ele lá no inferno! — Sua expressão era bastante assustadora enquanto esbravejava toda a sua fúria e a ameaçava de morte.

No entanto, isso de nada assustava Clarke, pelo menos não o suficiente para que ela sentisse medo dele. Pelo o contrário, ela se sentia ainda mais compadecida a dor impressa naqueles olhos perturbados que lhe encaravam gritantemente. Queria dizer-lhe que agora estava tudo bem, que ele não estava sozinho e ainda tinha a ela, contudo, optou por não dizer mais nada sobre o assunto naquele momento, pois tinha receio de proferir alguma coisa que o fizesse se alterar novamente. Então, a única coisa que lhe pareceu mais correspondente àquela situação, foi abraçá-lo, e ela o fez, agarrou-se firmemente ao corpo do rapaz, apertando a cabeça contra o seu peito largo e desnudo, sentindo o seu cheiro natural e o atrativo calor de seu corpo.

No instante em que Clarke lhe tocou, Michael parecia ter ficado congelado. Não entedia como que ela podia não ter medo dele, como que ela ousava tocar o homem que estava jurando o seu pai de morte. Pelo o visto, ela não mudara nada, continuava a mesma impetuosa e destemida, pensou ele sobre as atitudes da garota. Depois que saiu do estado de paralisia, ele tentou desgrudá-la de seu corpo, mas a garota se manteve firme.

— Você é estúpida? — Rangeu, sentindo o adocicado perfume que se elevou às janelas de sua narina.

— Não me afaste de você.

— Eu... Eu acabei de te ameaçar de morte. — Advertiu.

— Eu não tenho medo de você. — Disse ela em resposta à tentativa de Michael.

— Não me teste, Clarke. Eu posso te machucar novamente. — Avisou-a. Ele realmente queria odiá-la, só assim seus sentimentos conflitantes não seriam capazes de deixar-lhe à beira da loucura. Mas como isso não acontecia, o que apenas lhe restava eram as palavras da boca pra fora. — Você é filha “dele”. Eu poderia descontar uma parcela da minha raiva em você. Sabe disso, não é?

— Não. — Ela sacudiu sua cabeça imediatamente. — Você nunca seria capaz de me machucar, não de propósito... Nunca! Porque você não é assim. Então não me afaste de você, huh? Não faça isso. — Falou de um jeito tão meigo que fez o coração do rapaz bater desenfreadamente diante de tais palavras.

O sentimento que tanto tentou se esconder atrás da máscara de ódio, contra ela, agora não tinha mais como se disfarçar.

Enquanto uma lágrima traidora escorria sorrateiramente pela bochecha dele, Clarke o encarou, segurou-lhe o rosto entre as mãos e seu olhar deteve-se em sua boca, tão ampla e masculina. Ficou na ponta dos pés e ousou encostar seus lábios nos dele em um selinho doce que durou poucos segundos. Michael não moveu um músculo sequer, e de repente havia um olhar perdido em seus olhos, como se ele estivesse espantado com o ato da garota que, mesmo estando sob a sua ameaça, insistia em agir daquele jeito como se tivesse certeza de que ele não iria machucá-la.

Depois que desfez o contato labial, ela voltou a fitá-lo profundamente e levou uma mão até seus cabelos, descendo os dedos pelos os fios úmidos e desgrenhados, afagando.

A partir daí, o tempo parecia ter parado para ambos. O espaço em volta deles evaporou-se completamente. Seus rostos estavam a centímetros de distância, ao ponto em que suas respirações cadenciadas batiam contra o rosto um do outro. Clarke, então, levou a boca bem próxima à dele novamente e o beijou, só que dessa vez, Michael absorveu o toque apaixonado da garota, e quando a mesma deu a entender que iria se afastar, ele, sem conseguir ter o controle sobre si mesmo, agarrou a cintura curvilínea com um único braço e a puxou num solavanco para mais perto de seu corpo.

Sabe aquele sentimento de que você quer uma coisa desesperadamente, mas também não quer? Que você está prestes a fazer algo, mas uma coisa dentro de você fica lhe dizendo que você não pode, que você não deve? Era como Michael estava se sentindo. Tentar reprimir o seu anseio em tê-la, naquele momento, passou a ser algo com o qual ele não conseguia lidar, não com aquela garota na sua frente. Estava sofrendo, desesperado, solitário e sensível, e todo esse acervo de sentimentos de certa forma lhe deixou completamente rendido à paixão de Clarke, mesmo ela sendo a filha do inimigo.

Sem conseguir mais domar os seus desejos concupiscentes, ele segurou firmemente um lado do rosto dela e deixou atirar sua cabeça para baixo, até que seus lábios se tocaram em um beijo quente, carregado de paixão e desespero, onde ele já foi diretamente deslizando sua língua na boca da garota que lhe recebeu de bom grado.

Naquela altura, Michael se esquecera das vicissitudes que havia passado por causa do pai dela; seu coração palpitava violentamente contra o peito, e todo o ódio e dor que estava sentindo foi imediatamente substituído pela desesperada necessidade carnal.

As mãos grandes e recheadas de veias desceram pelas curvas de Clarke até chegar ao bumbum, causando sensações salientes em seu baixo ventre, além do seu coração acelerado assim como a sua respiração ofegante. Ela estava tão submergida ao momento que o correspondia na mesma intensidade, acompanhando-o no beijo efusivo, onde ela podia sentir o pânico e a carência desesperada do rapaz naquele beijo.

Na verdade, Clarke não sabia se estava fazendo a coisa certa, uma vez que nunca tinha estado com um homem. Mas acreditava veementemente que aquela era uma maneira de fazê-lo descarregar tudo o que estava sentindo, nem que fosse por pouco tempo e daquele jeito. Então, se de alguma forma ele se sentisse menos sobrecarregado depois que ele a tivesse em seus braços, ela nunca iria se arrepender de ter se entregado a ele em meio àquele caos. No entanto, isso não era tudo o que levava a garota a entregar-se ao rapaz. Outro fator tinha marcado a diferença, e este era o fato de perceber que Michael sentia algo por ela, embora seus esforços tentassem dizer o contrário.

Para deixar inequívoco que ela realmente o queria naquela noite, jogou fora toda a timidez que uma garota normal deveria ter em sua primeira noite, e desceu as mãos pelo o peito viril do rapaz... pela barriga, até chegar ao cinto que segurava o jeans que ele trajava. Porém, ela só teve tempo de desfazer a fivela, pois foi surpreendida quando ele se abaixou um pouco, para chegar à altura dela e seus braços se deslizaram pelas costas para sustentá-la, de modo que Clarke sequer percebeu já estar com as pernas laçadas na cintura máscula.

Sem desgrudar a sua boca da dela, Michael voltou para o quarto e levou-a até a cama, deitou-a sobre o leve travesseiro e posicionou-se sobre seu corpo magro. Sem dar tempo para respirar direito, ele começou a se deslizar sobre ela enquanto beijava-a, um movimento delirante para ambos; ele sentindo-a gostosa, e ela sentindo a dura longitude de sua ereção roçando-lhe as pernas e a intimidade por cima de seu short.

Mesmo ainda estando vestida, ele passou uma mão por cima de um dos seios da garota e depois de massageá-lo deliciosamente por alguns segundos, desceu a mão pelo o tórax dela... cintura... até chegar na coxa, onde ele apertou a carne e suspendeu-a até o seu quadril.

Eles continuavam se beijando, como se fossem um só, era o encaixe perfeito. Seus lábios que outrora beijavam os lábios macios dela, agora estavam no pescoço, chupando-lhe a pele delicada e inalando o perfume adocicado. As mãos dele desceram até a barra da blusa regata, a qual ele subiu e tirou rapidamente. Mas foi quando ele tocou nas alças de seu sutiã, que ele se deteve de abaixá-las, afastando-se da garota abruptamente quando voltou aos seus sentidos.

Ele estava ofegante e parecia assustado. Suas narinas se alargavam conforme ele soltava o ar e a encarava com um olhar intenso.

O que estou fazendo? Fiquei louco? — Perguntou-se em mente. Ela era filha “dele”, e ele definitivamente não podia continuar com aquilo, embora tivesse queimando por dentro. 

Colocando um pé no chão, fez menção de se afastar da cama, mas quando Clarke percebeu que ele estava lutando para resisti-la, mesmo sem saber se estava fazendo da maneira certa, ela sentou sobre a cama, levou as mãos até o fecho do sutiã e o desfez, deslizando a peça intima pelos os seus braços ficando exposta para ele que, esbugalhou os olhos com o feito despudorado da garota.

Para Michael, assistir aquela cena fez-lhe ficar mais louco por ela que ele mal pôde suportar a dolorosa pulsação de seu membro. Seus olhos, agora, inebriados de tesão e desejo contemplavam a parte desnuda do corpo femíneo. Ela era linda, e ele a desejava tanto que era ultrajante para com o seu desejo de vingança.

Ela foi até ele, lhe tomou as mãos e as colocou na sua cintura magra.

— Não faça isso. Você não pode lidar comigo. — Ele alertou-a seriamente num sussurro, ainda tentando se segurar.

— Eu quero lidar com você. — Ela ficou tão perto dele que sua respiração rápida fazia seus seios saltarem de uma forma provocante, que ficou bastante perceptível de que ela, apesar de mostrar coragem, em sua realidade, também estava muito nervosa. O que fodia tudo.

Agarrando sua cintura em suas mãos, Michael empurrou-a suavemente contra a cama e deitou-se sobre ela, dominando-lhe a boca em um beijo envolvente, suave e lúbrico.  

Ele se rendera aos seus instintos e não tinha mais nenhuma intenção de parar, a não ser que ela mesma lhe pedisse.

Sua boca, agora, abocanhou os seios dela, onde ele passou a sugar sem pressa os mamilos duros e túrgidos de tesão, revezando de um a outro, fazendo ela sentir uma sensação de prazer e uma intensa pulsação em seu clitóris.

— Michael... — Gemeu e mordeu o lábio inferior, enroscando os dedos nos cabelos dele.

O rapaz deslizou o short e a calcinha pelas pernas da garota, e em seguida foi rápido em se livrar de sua calça e cueca.

Sua boca, que antes sugava os seios dela, subiu pelo o pescoço até os lábios pequenos e carnudos, deixando as marcas de sua língua por cada cantinho que passava.

Postando-se entre suas pernas, Michael acariciou-as na parte interna de baixo para cima até encontrar gentilmente à entrada quente e molhada. A carícia só afiou sua necessidade, fazendo-a arquear-se sob ele.

Agora era a hora, seu membro palpitava dolorosamente, louco para estar dentro dela e sentir o calor que ela podia lhe oferecer, o que desejou fazer desde a primeira vez que a viu. Ele a segurou nos joelhos, lentamente abriu mais suas pernas, friccionou a cabeça de seu membro contra a intimidade dela e encaixou-se em sua fenda. Sem ainda se mover, ele a olhou nos olhos e beijou-lhe a boca enquanto a penetrava devagar, sentindo-a mais gostosa e bastante apertada, — maravilhosamente apertada — até estar inteiramente dentro dela.

Clarke usou as pernas para apertar a cintura dele quando sentiu seu hímen ser rompido, fincou as unhas em seus braços e soltou um arquejo proveniente da pequena dor e desconforto ao se sentir empalada com a dureza pela primeira vez.

Michael se apoiou sobre um cotovelo para encará-la quando percebeu a barreira que havia quebrado. Ela era virgem! E manter-se imóvel foi uma das coisas mais difíceis que fez na vida, pausar bem naquele momento no que ele sabia fazer de melhor. Não obstante, nenhuma palavra fora dita, pois o momento falava por si só.

Ele não queria parar, e ela também queria continuar.

Lágrimas escorreram pelo o rosto dela, não lágrimas tristes e nem de dor, mas sim de felicidade. Ela estava feliz por ele estar vivo e estava satisfeita por tê-lo como o seu primeiro homem, por ele estar tomado-a como sua. A felicidade era tão grande que se esqueceu da dor. E, para mostrar que queria que ele prosseguisse, ela relaxou as pernas, permitindo a ele um acesso mais profundo dentro de sua intimidade, agarrou-lhe o pescoço e ergueu a cabeça para pegar os lábios do rapaz.

Michael, então, começou a se mover dentro dela, entrando e saindo devagar, enquanto Clarke sentia-o cada vez mais longo até se acostumar com a sensação de preenchimento.

Ele arquejava e o suor escorria pela suas costas e pelo o seu rosto, enquanto suas expressões distorcidas e o áspero gemido denunciavam o quanto estava bom para ele, assim como estava pra ela que, aos poucos, começava a sentir prazer com a penetração.

O rapaz pegou as mãos da garota e juntou-as acima da cabeça dela, segurando-as com uma única mão. Usou a outra para apalpar-lhe os seios novamente, apreciando como eles cabiam perfeitamente em sua mão, arrancando da garota gemidos delicados enquanto ela retorcia-se como um gato sob sua pele.

Foram incontáveis e misericordiosos minutos num vai e vem alucinante, fazendo a garota sentir centímetro por centímetro do pênis pulsante do rapaz dentro dela. Entretanto, quando ele fitou-a nos olhos no meio a tanto prazer, traços de imagens dolorosas surgiram ocupando a mente do rapaz, ressuscitando sua memória com acontecimentos catastróficos, cujo culpado era o pai dela. Seus olhos rapidamente ficaram mais nublados, mais do que já eram, e por impulso de tais lembranças, ele empurrou seu quadril com força e mais rijo, passando a estocá-la com rapidez, dando origem a sons indecentes que viam de onde estavam conectados, fazendo a dor da garota voltar, embora não fora essa a sua intenção. Mas o rapaz estava tão abrangido por tais lembranças que sequer percebia que estava machucando-a.

Clarke, ciente de que agora ele lhe estocava com raiva, desprendeu suas mãos, que estavam à cima de sua cabeça, e o abraçou, enquanto ele lhe penetrava com força e rapidez. Ela sabia que não era de propósito, e que provavelmente, ele havia se lembrado de algo ruim relacionado àquela noite. Então ela o abraçou com mais força e depositou um beijo no pescoço dele.

Só então quando sentiu o toque caloroso dos lábios quentes que Michael caiu em si e viu o que estava fazendo.

Ele parou os movimentos e voltou a fitá-la, se sentindo um miserável ao ver que apesar de tê-la machucado, ela ainda tinha um olhar doce e carinhoso voltado para ele. Aquela garota... ela realmente gostava dele, muito! Confirmou.

— Clarke, eu... — Murmurou, e no seu tom havia arrependimento. Ele queria lhe pedir desculpas, mas as palavras ficaram presas em sua garganta.

Ela, para mostrar que estava tudo bem, lhe sorriu com ternura e balançou levemente sua cabeça, dizendo em silêncio que ele deveria continuar. Ele tocou delicadamente em um lado da face dela e voltou a se mover com um grande cuidado e deslumbramento, o mais gentil possível, seus olhos sombrios encarando os dóceis dela.

A partir daí, todo dentro deles voltou a queimar descontroladamente. Desde que estavam unidos num só, voltaram a se beijar enquanto um gemia na boca do outro, som originado de cada esforço que eles faziam de onde todo o prazer vinha.

Clarke deslizava as mãos pelos ombros e as costas dele, enfim parando nos firmes músculos de suas nádegas e agarrando-as no ritmo dos movimentos que ele fazia, enquanto ele amava cada centímetro do corpo dela que lhe pertencia a partir daquele momento, ele querendo ou não. Ela era literalmente sua!

Finalmente, quando Clarke sentiu seus nervos sensíveis serem atingidos deliciosamente, seu corpo contorceu-se debaixo do corpo masculino enquanto entregava-se ao bem-estar, arfando. Os músculos do rapaz se contraíram, seu bumbum enrijeceu e ele pressionou seu corpo contra o da garota, enquanto gemia e culminava dentro dela, com a respiração extremamente ofegante e enfiando a cabeça nos cabelos castanhos que se espalhava pelo o travesseiro.

Michael saiu de dentro dela e caiu ao lado, na cama. Não a olhou, encara o teto acima. Clarke, contudo, o encarou, mas ele não tracejava nenhuma mudança que lhe parecesse inédita. Ela puxou o lençol para cima, cobrindo o seu corpo, a ideia de não tê-lo satisfeito passou pela sua cabeça e isso lhe deixou atemorizada, uma vez que tinha noção do quão experiente era ele.

Mas Deus do céu, se ela achava mesmo que ele estava pensando isso, ela estava completamente enganada, pois em realidade, a mente do rapaz estava igualmente inerte e ficou assim até que ele se levantou e catou a sua cueca, e depois de vesti-la, sentou-se na cama, de costas para a garota. A mesma o abraçou por trás e o puxou para se deitar. Ele virou-se, ficando cara a cara com ela com aquele olhar frio e ao mesmo tempo angustiado e profundo. Porém, nenhuma palavra saiu de sua boca.

Já Clarke queria falar, — muitas coisas, inclusive — mas tinha medo de ser descuidada com as palavras e ele acabasse se alterando. Então, com a garganta seca ela procurava as palavras certas a serem ditas.

— Durma um pouco. — Sua voz era carinhosa e branda. Tamanho era o cuidado. Ele fez menção de se levantar, mas ela o impediu, segurando-lhe o braço e tomando uma de suas mãos. — Eu não vou fugir. Não de você. — Ela curvou levemente os lábios e fechou os olhos, ele, no entanto manteve os seus bem abertos, contemplando o rosto de traços finos e delicados que descansava sobre o leve travesseiro.

Silêncio. Minutos duradouros, que se pareceram horas, se passaram e Michael ainda mantinha os olhos abertos sobre a garota, e, finalmente quando suas pálpebras pesaram e desceram sobre seus olhos, Clarke começou a falar, fazendo o rapaz despertar novamente. 

— Quando eu era pequena, a mulher que cuidava de mim me esqueceu dentro do toalete de um quarto de hotel onde estávamos hospedadas, onde eu passei oito horas presa. — Ela começou a dizer com a voz bem baixinha, ainda de olhos fechados. Ela não gostava de recordar àquele dia, mas se sentia confortável em contar para ele. Continuou: — Enquanto todos procuravam por mim, eu estava chorando compulsivamente pensando que iria morrer sozinha dentro daquele toalete. Eu era muito pequena e por isso fiquei muito assustada. Eu nem me lembro como cheguei a desmaiar, só me lembro que fiquei sufocada e entrei em pânico. A partir daquele dia, eu desenvolvi esse medo que é comparado à claustrofobia. Certo que eu não me vejo como uma pessoa claustrofóbica, assim como o médico disse quando fui tratada, mas quando fico sozinha em lugares fechados e desconhecidos por muito tempo, acabo tendo uma recaída. Foi por isso que acabei desmaiando quando estávamos... — se lembrou que ainda não sabia onde estava, mas deixou quieto e completou: — no outro lugar.

Michael ouviu cada palavra e se sentiu culpado com o que acontecera no porão, mas não disse nada. Quando o silêncio voltou a predominar, sem que percebesse, o sono lhe alcançou. Clarke abriu os olhos e sorriu ao ver que no final das contas conseguira o que queria, colocá-lo para dormir, como se ele fosse uma criança assustada precisando de colo.

Por mais que Clarke tentasse velar o sono dele, fazer com que ele dormisse por um bom tempo era uma missão impossível. Muito mal havia se passado uma hora quando o rapaz acordou assustado e se sentou abruptamente da cama, ofegante. Ele arrastou o seu corpo para a beirada e escorregou pelo o colchão até estar sentado no chão frio do recinto.

Estava acontecendo de novo. Os pesadelos. 
         
Continua...


89 comentários:

  1. Meninas, como o Gadget vem dando alguns bugs, se tiver alguma coisa estranha, por favor, me avisem, huh? E quanto aos erros de digitação, se tiver, me desculpem, pois o meu tempo é realmente muito corrido. Eu sempre dou uma revisada antes de postar, mas como eu tbm posto em outro site, acabo me perdendo um pouco. Então, é isso!

    Espero que estejam gostando.

    Bjs e até mais! :*

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    1. Cadê vc????? Volta a postar ou eu vou surtar..

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  2. Meu deus! !! Que triste!
    Tomara que Clarke e kamon encontre michael!!
    Muito triste foi o capítulo!! ����
    Mas enfim Continuaaa ��

    Mariana

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  3. Nossa, realmente, muito triste!
    E agora? Ele não poderá se encontrar com Clarke, caso esteja vivo.Porque ela falaria com o pai, não sabe que ele é o assassino, e aí ele mataria o MJ. E pior... MJ não sabe quem é o pai de Clarke, então pode achar que ela mentiu e estaria envolvida. Será? Ah, eu estou muito ansiosa para saber o que irá acontecer. Por favor, continua!

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  4. Pelo o amor de Deus, continua! Por favor! :*

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  5. Continua Josiane, por favor! Estou tão ansiosa p os próximos capítulos q te peço, põe mais de dois capítulos,n aguento esperar por outro tantos dias. Rsrsrs...E n demora p postar tanto, por favor! Obgda! Bjs!

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  6. Estou adorando!pena que você posta só um vez por semana,fico contando os dias e ansiosa...continuaaaaaaaaaaaaaaa

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  7. Que história triste... Mas Kamon sabe onde Mike está... Em prantos estou agora... Cooontinuuaaa

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  8. Oiii meninas, tudo bem com vocês? Espero que sim. ^^^
    Mas e aí, estão gostando da história? Eu acho que sim, vendo aqui os comentários de vocês. ♥ Eu, realmente estou muito feliz em ver que até agora, em base nos capítulos já postados, consegui passar o sentimento de melancolia e tristeza agonizante dos personagens diante de tudo o que aconteceu até agora, eu acho, vendo os comentários de vocês que a história é triste, fico mais confiante, pois essa é uma das minhas intenções. ♥ Obrigada, amores! ♥

    Mas enfim, estou sendo obrigada a trocar os meus dias de postagens, então, é com muito pesar que vos informo que só postarei nas segundas-feiras. Eu sei que vocês esperam muito, já que eu só posto uma vez na semana, só que eu me sinto desconfortável em jogar um capítulo sem revisar antes, e quando são dois, é que eu fico mais ainda, acabo me complicando e deixo passar muitos erros de digitação e sabe lá mais o quê - ainda pretendo consertá-los. kkk Mas para compensá-las novamente, trarei mais dois capítulos novamente, hum? Espero que realmente entendam, eu sinto muito, muito mesmo.

    Enfim, estarei aqui novamente nesta segunda-feira, certo? Com dois capítulos. Então, beijos e até lá. :*

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  9. Josy, boa noite! Q horas vc vai postar a finc? Estou ansiosa. Bjs!

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  10. Pronto, meninas. Atualizado. ^^ Dois capítulos como prometido. ^^

    Mas e aí, contem-me o que estão achando, hum? Eu fico muito feliz com os comentários de vocês, de verdade. ♥

    Mas, por hoje é só. E não esqueçam, hum? Estarei postando nas segundas, agora, certo?

    Então, beijos e até lá. :*

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Ah, estou amando! Parece que estou lendo um livro tão interessante que fico querendo mais, mais e mais!
    Capítulos perfeitos! Com detalhes que me faz viajar na história. Parece que estou ao lado dos personagens e sentido tudo que eles estão passando. Parabéns! Fã de MJ, né? Só podia ser assim como ele nas coisas que faz...perfeccionista! Essa fanfic está acabando comigo( no bom sentido, é claro).

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  13. Nossa tadinho do MJ sinto a dor q ele tá passando :( :( coitado! !
    Continuaaa estou adorando a fic vc escreve muito bem..parabéns continue assim!! :) :)


    Mariana Gois

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  14. Josy, boa noite! Vc vai postar quando o próximo capítulo?

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  15. Era pra postar HOJE!!
    CADÊ? ????

    MARIANA

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  16. Estou esperando. Posta por favor!

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  17. Josy, bom dia! O q ouve? Continua a fic, a história é mt interessante e com certeza quero lê-la até o final. Se puder postar ainda essa semana eu agradeço. Abços e bjs!

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  18. Olá, meninas. Estou atrasada, não é? Pois bem. Aconteceu que houve alguns imprevistos entre o final de semana até nessa quarta-feira. Por isso não consegui vir atualizar a fic. Eu sinto muuuuuito mesmo.

    Hoje trago o capítulo em que eles finamente se reencontram. HeHe Demorou, num foi? rsrs Então vão conferir como acontecerá esse reencontro e façam a escritora aqui feliz dizendo o que acharam do capítulo todo, huh? :D ♥ Adoro ler os comentários. ♥ E não se preocupem meninas, eu juro que aquele momento tão esperado por vocês está muito próximo de acontecer, uma vez que eles se reencontram, agora. ♥

    E ah, é importante que vocês prestem bastante atenção em tudo o que o velho chinês diz para Clarke e para Nathan. Sei que tudo o que ele fala soa como um enigma, mas esse é o intuito, pois será essencial para o final da história.

    Enfim... Obrigada por tudo, suas lindas.
    Beijos :*

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    1. Nathan????? Ou Michael???
      Kkkkkkk


      Mariana

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    2. Eita o que será que vai acontecer.. hein!!! NÃO DEMORA MUITO PRA POSTAR!!! ANCIOSISSIMA

      CONTINUAA

      MARIANA

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  19. Nathan?!? Não seria, Michael?
    Eu estou viciada nessa fanfic portanto, por favor, não demora. Capítulo perfeito!! Está maravilhoso e estou doidinha para chegar o momento deles se amarem muito!!

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  20. Aigooo... Eu sou tão demente... kkk
    Acabei de consertar o capítulo! Estão vendo como eu me complico ao postar um capítulo, ainda mais sendo ele tão grande... Foi mal, gente :D kkk
    Obrigada por terem me avisado. :
    Bjs :*

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  21. Josy, boa noite! Estou gostando mt da fic. Vê se posta na segunda-feira três capítulos, pq vc só postou um agora. Obgda!

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  22. Este comentário foi removido pelo autor.

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  23. Josy, boa tarde! Vai nos deixar esperando? Cadê o combinado de todas as segundas-feiras postar dois capítulos?

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  24. Meninas, eu estou fora de casa, às vezes tenho de fazer isso por causa do meu trabalho, como aconteceu da última vez de forma inesperada. Mas não se preocupem que postarei dois capítulos assim que voltar, huh? Tenho certeza de que não se arrependerão de esperar, pois são os capítulos... <3
    Bjs :*

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  25. Genteeeee como assim? Comecei a ler essa fic tem dois dias, e terminei, assim tão rápido? Cadê a continuação Mona? Preciso muito, necessito haha, quero logo ler. Meu Deus Do Céu, essa fic é MARAVILHOSA, sim, sim é. Posta logo, por favor! E quando postar, por favor, me avisa, porque eu não sei se vai demorar né.

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  26. Este comentário foi removido pelo autor.

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  27. Continua Josi, por favor! Tô morrendo de ansiedade aqui. Bjs! :*

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  28. ai meu deus preciso terminar de ler essa fic continua pf to morrendo de ansiedade

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  29. Cadê Anne Santos a fic. Estou ansiosa p lê-la.

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  30. Qual é? ??? Desistiu de postar os capítulos? ??
    >_<

    Tá de sacanagem né???? ����

    Mariana

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  31. Josy, boa tarde! Pq vc n passa a fic p outra pessoa continuar? Pois, como vc msm falou q n está tendo tempo de postá-la por contra do seu trabalho. Me desculpe falar, mas acho isso um desrespeito com as leitoras fiéis a sua fic. Pois, já achava um absurdo a fic só ser colocada nas segundas-feiras e apenas só dois capítulos e agora nem mais isso. Fico extremamente triste e revoltada c isso, pois se continuo a querer ler é pq a história é realmente interessante e legal. E acredito q o motivo das outras leitoras quererem continuar a ler sejam o msm. Desde já, deixo meu pensamento de passar a fic p alguma autora q possa postá-la nem q seja um capítulo por dia, p que possa prender mais a nossa atenção e n desistir de continuar a ler a fic. Obgda!

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  32. Qual é gente, a menina disse q aconteceu de repente, como ela poderia passar para outro autor uma obra dela? Eu tbm quero ler muito a cinti mas fazer o q ne? Pelo menos ela avisou o motivo. Eu acompanho as fics da Anne ha muito tempo e ela nunca abandonou suas fics. Mas dessa vez esta demorando, n é pressionando as autoras que isso vai mudar.
    Tenham paciencia e respeitem o espaço delas.

    Anne to sua historia ta otima, to esperando pela cont. Bjus.

    Manoella

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    1. Eu não estou pressionando ninguém e também não estou desrespeitando o espaço dela. Simplesmente, postei que devia ser válida a palavra dela, já que disse q toda semana postaria. Mas, tudo bem! Já que não está podendo, dei a dica p passar p outra autora, porque já vi outras fazendo isso. Mas, deixa para lá! Não vou ficar perdendo o meu tempo com isso, até porque não sei porquê ela deixou de postar. (Deve ter sido a falta de tempo mesmo). Josy, me desculpe! Não foi minha intenção, em momento algum, deixá-la constrangida, nem ridicularizá-la.

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  33. Boa noite, meninas. Desde o início, a minha intenção era só voltar aqui quando fosse para postar a continuação da fic, uma vez que avisei que não iria poder postar por alguns dias. Mas depois de ler alguns comentários aqui, decidi me explicar pra vocês, mais uma vez. Mas antes, quero dar as boas vindas a Aise Santos que leu os capítulos já postados em apenas dois dias. Acho que a história realmente está boa, visto que os capítulos são enormes e tu leste em apenas dois dias. <3 Obrigada por estar aqui, flor.
    Bem, como eu disse, eu não estou postando porque estou trabalhando fora de casa, e como também disse, a noticia de que eu iria ter que viajar foi tão repentina que não deu tempo de passar a história para outra pessoa postar no meu lugar, e, mesmo se tivesse, eu jamais passaria. Deixem-me explicar o por quê. Primeiro: como autora, eu prefiro eu mesma postar as minhas histórias, se a fic fosse uma parceria, seria outro caso, mas como é uma obra individual, não sou adepta a essa ideia. Segundo: nós, autores, gostamos de ter esse contato com os leitores, como agora eu estou tendo com vocês. Terceiro: na hora de postar, eu sempre leio o capítulo todo e sempre há algo a ser mudado, e isso é uma coisa que só pode ser feito na hora, então outra pessoa não podia fazer isso.
    Então, o que eu quero dizer é que, Diana, você não precisa se desculpar, e eu que peço a todas sinceras desculpas por esta demora. Eu sei realmente o quanto é chato pra caramba você gostar de uma história e passar muito esperando uma continuação, eu sou leitora também, há histórias maravilhosas em outra plataforma que eu estou acompanhando e elas demoram tanto para serem atualizadas que eu fico agoniada para saber o que vai acontecer nos próximos capítulos. Como é o caso aqui. Eu realmente entendo, e quero pedir a vocês que tenham paciência, por favor, esta semana estou voltando pra casa e logo mais voltarei a atualizar a fic, hum? Sinceramente, espero que quando eu voltar vocês ainda estejam aqui.
    Bjs para todas! :*

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    1. Ok,estarei esperando. Todos os dias venho até aqui. Não tem que pedir desculpa. Você tem sua vida e compreendo perfeitamente. Feliz 2017. Bjs.

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  34. Concordo estarei ansiosa pra ler os novos capítulos.

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  35. Concordo estarei ansiosa pra ler os novos capítulos.

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  36. Oii meninas. Estou de volta. Não, eu não desistir da fic e voltei como prometido. <3 Demorei pelos os mesmos motivos, por isso não vou fazer textão aqui e vou logo de capítulos. :D

    Bem, esses dois capítulos vai ter muito Clarke e Michael, muito mesmo. HaHa E, aquele capítulo que vcs tanto esperaram finalmente chegou, mas devo confessar que não é como os hots de "Resistindo às Tentações", quem leu sabe. rsrs O desenrolar e bastante conivente com a história, com o tema, mas eu gostei bastante. Eu nem me lembrava de que esses capítulos eram o 15 e o 16, nem acredito que fiz vcs esperarem por eles. Desculpem. <3 Mas tá aí. Espero que desfrutem da tensão entre esses dois. Haha

    Bjs! :*

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  37. Valeu a pena esperar. Foi tão lindo e delicado! Clarke é tão sensível! E com essa delicadeza e meiguice consegue quebrar a brutalidade de MJ. Ela parece uma psicólogo.
    O amor que ela sente é muito forte, compreensível. Ela consegue sentir e tocar na alma dele. Perfeito! Parabéns!!
    Continua. Mais uma vez parabéns!
    E obrigada.

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  38. Adorei! valeu a espera,você é ótima!espero que depois do termino dessa fic venham outras,você escreve muito bem,não nos abandone como outras escritoras.PARABÉNS

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  39. Acho que nunca fiquei tão satisfeita em esperar...rsrs, valeu a pena,amei os capítulos. Espero que Clark fique a favor de Michael não pra matar o pai dela e sim ajudá-lo a pagar pelo que fizera.

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  40. Valeu adorei continua e não pare de escrever as fics por favor

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  41. Então no dia 01/02/17 vc disse que tinha voltado e voltou mesmo, mais sumiu de novo, o que acontece? Estamos esperando ansiosas para ler novos capítulos.

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  42. Cadê ? Vc disse que portaria toda2 feira

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  43. adorei a sua fic você escreve muito bem.

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  44. Pelo amor de Deus, continua! Estou muito ansiosa.

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  45. se era para parar,porque começou?de pelo menos uma justificativa...por respeito as leitoras.

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  46. Olá meninas. Tudo bem com vocês? Eu espero que sim!

    Sei que já faz um tempo, mas pelo o amor de Deus, eu não desisti da fic não. rsrs Sério mesmo! Tem tantas reviravoltas pra acontecer ainda, como eu poderia desistir? Como esse tipo de atraso não é inédito aqui, não vou fazer textão e simplesmente dizer que é por causa das mesmas coisas de sempre, incluindo, agora, problemas pessoais que só Deus e eu sabemos. Aigoo... Enfim, me desculpem mesmo, farei de tudo para voltar a atualizar o mais rápido possível, huh?

    Bjus ;*

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  47. Boa noite Josiane
    Estarei aqui prestigiando uma das melhores fics do Michael quando você voltar a postar. Um abraço.

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  48. Vai continuar? Por favor continua logo estou adorando a história!

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  49. Please continua...já faz mto tempo que vc não posta nada!

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  50. Mulher!! Cade os capítulos? ??? '-'

    #mariana

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  51. Acho que ela desistiu, gente.
    Bem,eu tbm desisto de vir aqui.
    Abraço para todas.

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