quinta-feira, 2 de abril de 2015

FanFic: "Um Novo Amor" (+18)

Autora: Anne Santos


Às vezes é preciso apenas saber tocar na Clave de Sol do coração de uma pessoa para poder compreendê-la por completo. 
Como dizem os grandes pensadores: “O amor é a melhor música na partitura da vida, sem ele você será um eterno desafinado nesse imenso coral do coração”.

Sinopse


A trama conta a história de Lucy, uma garota que se muda para Los Angeles na tentativa de superar os traumas do passado e seguir em frente. Com a ajuda do marido da sua tia, ela consegue um emprego em um restaurante e acaba conhecendo em uma ocasião inesperada o filho do dono, Michael Jackson, e não sabe ela que esse encontro é apenas o início de uma nova história. 




Capítulo 1 - Piloto

Lucy



      Desembarquei no aeroporto internacional de Los Angeles às 16h37min. Decidi residi na cidade depois de um grave acidente que aconteceu há um ano e meio atrás. Eu e o meu namorado tínhamos conseguido o primeiro lugar de uma competição musical muito importante em Atlanta e estávamos felizes, muito felizes, só que a felicidade durou pouco quando, na volta o carro capotou, e apenas eu consegui escapar desse terrível acidente.

Nem com o passar do tempo eu conseguia esquecer como tudo aconteceu, e passou a ser um trauma pra mim. Até àquela noite, o Brad e a música eram as únicas coisas que me faziam bem, mas isso acabou e eu prometi a mim mesma que nunca mais pegaria em um microfone e soltaria a minha voz e muito menos tocaria algum instrumento. Nunca mais. E para dá um rumo diferente a minha vida, eu me mudei para Los Angeles. Quem sabe arrumar um emprego me ajudaria a esquecer tudo isso.

Estava perdida no meio daquelas pessoas andando pra lá e pra cá no aeroporto, foi aí que ouvi uma voz me chamar.

—Lucy? — Me virei para olhar, e lá estava ela, a minha tia, a Rose.

— Rose. — Bem, eu não a chamava de tia a pedido dela, pois ela disse que se sentia velha demais. Então ta!

Apesar do peso que minhas malas possuíam, eu corri até ela e a abracei forte.

— Lucy, como você mudou menina. — Rose disse quando desfizemos o abraço. Ela estava me analisando dos pés à cabeça. — Está linda.

— Que isso Rose, não mudei em nada. — Eu disse um pouco envergonhada. Elogios bons me deixavam assim, sem jeito, até mesmo vindo de familiares.

— Mas você está bem? — Ela perguntou.

—Estou levando. Ficarei melhor. — Eu disse.

— Tenho certeza que sim. Agora vamos, você deve está muito cansada. — Ela disse e pegou uma das minhas malas. — Está pesada hein, o que tem aqui? — Indagou quando já estávamos andando em direção ao seu carro.

— Ah, coisas tipo... Roupas, acessórios, essas coisas. — Eu respondi.

— Ah sim, por um momento pensei que você estaria carregando um piano aqui dentro. — Ela brincou e eu senti isso como uma lembrança ruim dos meus tempos de música.

— Rose, você sabe que eu não toco mais. — Eu sibilei, com a voz abatida ao me lembrar do juramento que fiz a mim mesma de nunca mais tocar e cantar.

Ela lançou um olhar pra mim de pena e deu aquele sorriso fino, sem mostrar os dentes.

— Tudo bem, Lucy. Eu não esqueci. — Ela disse e entramos no carro em silêncio. — Mas você sabe o que eu acho sobre isso! — Exprimiu sem olhar pra mim e deu partida, rumo a sua casa onde passou ser a minha também a parti daquele momento.

(...)
                                                                                                                                        
Quando chegamos na minha nova casa, Rose logo me levou até o quarto e disse para me sentir à vontade. Na verdade aquilo era muito novo pra mim e não teria como eu me sentir à vontade assim de cara. Iria demorar bastaste para isso acontecer.

Entrei e joguei as malas em um canto qualquer do cômodo, deitei na cama confortável que havia no canto da parede do quarto, e lá mesmo fiquei pensando nas coisas que poderiam ter acontecido se ele estivesse vivo. O Brad. Ele era tudo pra mim, eu o amava tanto e acho que era por isso a dor persistia dentro de mim.

Levantei-me, fui até uma de minhas malas, peguei uma foto dele que havia levado comigo dentro do bolso menor da mala e passei a acariciar a foto. Logo uma lágrima de saudade e solidão escorreu sobre a minha face e pingou na mesma. Deus, como isso doía tanto. Voltei a deitar novamente, abracei a foto e fiquei por horas naquela posição deixando que os devaneios invadissem a minha mente.

“— Promete que é pra sempre, que nunca vamos nos separar. — Eu disse para o Brad depois de mais uma noite de amor.

Ele olhou pra mim serenamente e tomou meus lábios com um beijo terno e apaixonado.

— Eu prometo amor. — Disse quando largou os meus lábios e segurou meu rosto com as duas mãos. — Eu te amo e nunca te deixarei sozinha. — Concluiu e depositou mais um beijo nos meus lábios. (...)”

Como eu iria esquecê-lo? Fizemos juras de amor e agora estava tudo acabado. E a parte de que nunca iríamos nos separar? Que nunca iria me deixar sozinha? Cadê?! O destino foi muito cruel comigo quando me tirou a última pessoa que mais se importava comigo.

— Lucy, vamos jantar? — Rose perguntou quando colocou a cabeça na porta do meu quarto tirando-me dos meus devaneios.

Droga! Ela não poderia ver a foto do Brad. Então eu logo escondi antes que isso acontecesse.

— Tá bem, já vou descer. — Respondi e ela saiu.

Eu não desci com ela porque se ela me pegasse com uma foto do Brad nas mãos iria começar a dar um discurso assim como fazia pelo o telefone do tipo: “Você tem que esquecê-lo querida; você tem que viver a sua vida agora; tem que seguir adiante...” e bla bla bla. Está bem, seu sei que isso tudo faz sentido, mas eu ainda não estava preparada para esquecê-lo, ele foi meu primeiro amor e sempre estava ao meu lado. Como eu iria esquecê-lo depois de tudo o que vivemos?

Eu era muito passível, mas não era daquelas pessoas que corria com medo das coisas, no momento eu só não conseguia esquecê-lo, talvez fosse por isso que ainda sofria quando me lembrava dos nossos momentos. Continuava de pé na esperança de que um dia a vida me surpreendesse; me desse uma nova chance, em fim... Eu só queria superar tudo isso. 

Guardei a foto do Brad debaixo do travesseiro, vesti um short, uma camiseta, um chinelo e desci para a cozinha onde estava a Rose e o Mario, seu marido.

— Olá Lucy. —Mario me cumprimentou assim que eu entrei na cozinha.

— Oi Mario. — Forcei um sorriso.

— Sente-se querida. — Rose me indicou a cadeira ao seu lado, e eu sentei. — Coma. Está uma delícia esse arroz.

— Claro, fui eu quem fez. — Mario disse divertido e finalmente achei graça de alguma coisa nesses últimos dias. Eu ri baixinho.

Peguei um prato e comecei a me servi do arroz com tudo dentro, e realmente parecia está uma maravilha pelo o cheiro. Em seguida peguei um copo e derramei o suco de laranja dentro. Meu preferido.

Ficamos conversando sobre várias coisas. Sobre a viagem, como foi, sobre meus estudos, em fim, falamos de tudo, exceto do Brad.

— Mas e ai Lucy? Pretende fazer o que agora? — Mario perguntou quando começou a tirar a mesa.

— Eu pretendo arrumar um emprego, só não sei como e por onde começar. —Respondi.

— E o que você sabe fazer além de cantar? — Rose lhe lançou um olhar mortífero, sabendo que aquele tipo de conversa mexia comigo. — Ah, desculpe.

— Não, tudo bem! — Eu sorri de lado. — Mas em fim, eu sei... É... Arrumar, limpar. — Eu disse um tanto brincalhona.

— Arrumar? Limpar? — Rose arqueou as sobrancelhas em conjunto.

Bem, na verdade trabalhar como faxineira não era muito bem a minha praia, — e isso era bem evidente —, mas como cantar estava fora de cogitação, eu aceitaria tudo, até mesmo limpar.

— Sim, são trabalhos honestos como os outros. — Respondi. Virei-me para o Mario e perguntei: — Mario, você sabe onde estão precisando de funcionários?

— Olha querida, eu posso te levar no restaurando onde trabalho. Pelo o que me parece, estão pretendendo contrata mais uma garçonete. 

— Ótimo! E quando me levará?

— Amanhã mesmo. Quanto antes melhor. Levarei você diretamente até o Sr. Jackson e com certeza ele te dará a vaga querida.

— Mas de quem você está falando? Do pai ou do filho? — Rose indagou e um vinco rígido formou-se na sua testa.

Pai ou o filho? Como assim? — Meu subconsciente não tinha entendido essa.

— Claro que do pai né mulher. —Mario salientou. — O Michael não aparece desde que a sua namorada o deixou. — Concluiu.

— O que?! — Rose perguntou incrédula com o que Mario disse. — A Sara o deixou? Mas por quê? — Estava de boca aberta esperando Mario responder.

— Porque ela...

— Ei, ei, ei? — Chamei a atenção dos dois. — Eu ainda estou aqui ok? — Acenei ridiculamente. E eu lá queria saber de quem deixou quem e muito menos o porquê.

Eles me olharam imediatamente.

—Rose, pra que ficar fofocando da vida dos Jacksons? — Mario fez um biquinho de reprovação.

— O que?! — Rose Esbugalhou seus olhos ao perceber que Mario queria dizer que ela era fofoqueira. — Você quem começou.

— Nada disso. Você sempre fica...

Eu olhava para um e depois para o outro, escondendo o sorriso que queria sair ao vê aqueles dois discutindo tranquilamente por uma coisa banal. Eles eram divertidos.

(...)


Capítulo 2

Lucy


       No dia seguinte, exatamente às 14h00min da tarde, eu estava pronta para ir até o restaurante com o Mario no intuito de trabalhar por lá mesmo.

— Lucy querida, o Mario está lhe esperando? — Gritou Rose no pé da escada impaciente com a minha demora.

—Espera, já estou indo! — Urrei. Odiava quando alguém me apressava.

2 minutos depois já estava pronta para ir até o tal restaurante com o Mario.

Desci as escadas e Rose me olhou dos pés à cabeça e com um vinco rígido na testa.

— O que? — Perguntei sínica. Sabia por que ele me olhava assim.

— Pra onde você assim? Vão ver de cara que você não é garçonete. — Ela disse.

— É só o que eu tenho no meu armário para o dia. — Dei de ombros.

Bom, a maioria das minhas roupas eram todas assim, jaquetas de couros, calças jeans com detalhes, blusas bem modeladas, botas de couros, em fim.

Arqueei as sobrancelhas olhando pra ela e ela balançou a cabeça rindo baixinho.

— Agora vá que Mario está esperando?

— Cadê ele?

— Está no carro.

Cheguei mais perto dela, dei um beijo na sua bochecha e saí.

Entrei dentro do carro de Mario e ele ficou me olhando de cenho franzido.

Pronto, outro! — Minha mente gritou.

— O que foi você também Mario? Vai dizer que estou arrumada demais? — Perguntei revirando os olhos.

Ele ergueu as mãos se rendendo e riu.

— Calma garota, eu não disse nada! — Defendeu-se com uma risada nítida.

— Desculpe! — Me desculpei. Percebi que estava sendo um pouco grossa com uma pessoa que estava me ajudando. — Podemos ir?

— Vamos! — Assentiu e deu partida.

(...)

Em menos de meia hora chegamos no restaurante que levava o nome de Well’s Diner. Entramos pelas portas dos fundos e logo dois rapazes vieram falar com o Mario.

— E aí rapazes? — Mario os cumprimentou.

— E aí Mario. Olha, o Sr. Jackson quer falar com você. — Um deles disse e começou a me fitar.

Cruzei os braços e fechei a cara.

— Ok, eu preciso falar com ele também. — Mario disse. — Lucy, você espera aqui que eu já volto. — Eu assenti. — E vocês, tirem o olho da Lucy. — Ele completou e eu fiquei vermelha com aquilo. Os rapazes rapidamente voltaram ao trabalho sem olhar pra mim.

Sentei-me em um banco da cozinha que tinha e fiquei calada durante uns 5 minutos no máximo até o Mario voltar.

— Lucy, vem aqui, por favor. — Ele me chamou e eu o segui pelo um corredor que deu até uma sala enorme e bonita. Entramos na mesma e lá havia um Sr Moreno analisando alguns papeis, logo parou e nos olhou.

— Sr. Jackson, essa é a minha sobrinha. — Mario me apresentou e o Sr. Ficou olhando pra mim por alguns segundos, até que soltou a caneta e se aconchegou mais na cadeira de couro que estava sentado.

—Pode nos deixar sozinho Mario? — Ele perguntou, Mario assentiu e saiu. — Sente-se querida, por favor. — Indicou uma poltrona que havia em frente à mesa. Caminhei e sentei assim como ele pediu. — Como se chama? 

— Lucyana Adms, mas todos me chamam de Lucy. — Respondi.

— Quantos anos você tem, Lucy?

— Vinte e um.

— Hum... Bastante jovem ainda. — Ele disse com o dedo indicador sobre os lábios e o polegar sob o queixo. — O que você sabe fazer Lucy?

Quando ele me fez a tal pergunta, o que veio em minha mente de imediato foi cantar e tocar, também era as únicas coisas que eu tinha feito na minha vida. Tá, mas como isso não estava nos meus planos futuros, eu estaria disposta a tudo.

— Olha senhor, eu já trabalhei em uma lanchonete por um bom tempo, e acho que me sairia bem como garçonete. — Eu menti. Era muito difícil alguém empregar pessoas inexperientes e pôr para trabalhar na sua empresa.

Ele começou a fazer outras perguntas do tipo: Quanto tempo passou? Por que saiu? Por que quer trabalhar na minha empresa? Em fim, essas coisas de entrevistas, até que finalmente ele tomou uma decisão.

— Quando pode começar? — Ele perguntou.

— Se for preciso hoje mesmo. — Eu disse e ele se agradou.

— Ótimo querida. Já vi que você é disposta. Espero não me arrepender disso.

— Tenha certeza que não vai. — Eu disse convicta. Dedicaria-me 100% ao emprego custe o que custasse.

— Então você pegará das 17h00min até o fechamento. Ok?

— Tudo bem.

(...)

Como já era por volta das 16h30min da tarde, decidi ficar e esperar dar o meu horário. Contei ao Mario e ele ficou super feliz que o Sr. me aprovou e me contratou.

Ele fez um prato super delicioso para eu comer, pois eu ficaria até o fechamento e precisava está bem alimentada para o trampo.

Quando deu 17h00min horas, eu já estava totalmente vestida com o uniforme, e os outros garçons me deram algumas instruções que ajudaram bastante no meu primeiro dia, e confesso, não foi tão ruim assim.

O restaurante era pequeno, porém muito luxuoso e sofisticado. O ambiente era escuro, as mesas eram quadradas no estilo Malta 90x90 castanho rufato. O teto tinha lâmpadas com o design europeu e o chão era de revestimentos de cerâmicas importadas porcelanosa. Era muito bonito. Mas havia um pedaço do restaurante que eu não tinha conhecido. Era um palco, era obvio, estava coberto pela cortina enorme de cor vermelha. Mas um palco?

— Ei Sharon? — Chamei a outra única mulher garçonete que trabalhava lá. — O que há por trás daquelas cortinas? — Estava curiosa pra saber.

— Ah, ali fica o piano do Michael, o filho do Sr. Jackson e o resto dos instrumentos. — Ela respondeu.

Droga! Onde foi que eu parei? — Gritei na minha mente.

— Mas porque aqui tem um piano? — Voltei a questionar. 

— Porque faziam apresentações nos finais de semanas, os clientes gostavam.

— Gostavam? — Franzi o cenho.

— Deixaram de fazer depois que a namorada dele o deixou e foi embora sem mais e nem menos.

— Ah... — Uffa. Fiquei aliviada só de saber que não iria trabalhar em um ambiente com música ao vivo. Seria um miserável atormento, por isso nem ousei em chegar perto dali.

(...)

Uma semana já havia se passado e eu estava indo muito bem no restaurante. Fiz amizades com os outros funcionários, chegava em casa super cansada, tanto que nem pegava com tanta freqüência mais a foto do Brad pra dormir, como sempre fazia. Finalmente estava me distraindo um pouco.

— Hei Lucy, você vem? — Perguntou Sharon. Vire-me e vi que ela já estava pronta pra ir embora.

— Ah não. Pode ir na frente, tenho que limpar isso aqui. — Ela assentiu e foi embora.

Bem, o Mario largava cedo porque ele pegava mais cedo, e como eu pegava mais tarde, ficava até fechar. Às vezes eu ficava até tarde que só ficava eu dentro do restaurante e os seguranças lá fora.

Estava terminando de limpar as duas primeiras mesas que ficava perto do palco quando uma curiosidade bateu em mim de saber como era por trás daquelas cortinas. Eu tentei evitar, mas meu instinto de curiosidade falou mais alto e me levou até o primeiro degrau na lateral da pequena escada que havia, puxei a corda lentamente e as cortinas se abriram.

Nossa! Eu me impressionei, fiquei maravilhada com o que estava vendo. Havia um belo piano de cor preta e calda no centro do pequeno palco, e por trás havia um pequeno banco. Era lindo, um dos melhores. No restante do espaço havia dois violões, detalhe: um deles era de sete cordas. Também havia um contra baixo e um saxofone tenor. Cara, só conseguia imaginar eu ali em cima fazendo o que eu mais amava no mundo.

Eu tinha prometido em nunca mais tocar, e estava disposta a seguir com a minha promessa, mas quem iria ver? Não tinha ninguém, exceto os seguranças. E mais, eu estava só curiosa.

Naquele momento eu não consegui resisti, já fazia muito tempo que não tocava e nem cantava nada, minhas mãos estavam fervendo para tocar naquelas teclas e pelo menos soltar uma melodia.

Ah, não tinha ninguém mesmo no restaurante que pudesse ver, e os seguranças não iriam se importar de ouvir um barulhinho de piano. Não consegui controlar meu instinto e me direcionei até o banco enquanto passava a mão suavemente por cima do piano, que por sinal estava um pouco empoeirado. Sentei-me com calma e comecei a tocar, apenas para refrescar a minha memória. Acho que já estava enferrujada.

Meus dedos começaram a apertar com mais intensidade às teclas do piano e o som começou a ficar mais alto. Mas estava faltando uma coisa, estava faltando à voz. Sim, e sem dúvida alguma eu comecei a cantar à canção acompanhada pela melodia direta da partitura formada que veio na minha cabeça.

Minha voz suavemente começou a ecoar pelo salão de jantar do restaurante, e aquilo era tão gratificante pra mim, eu amava cantar, amava tocar, e em apenas 4 minutos no máximo, quando fechei os olhos, senti como se o publico estivesse me observando.

Quando a música acabou eu continuei de olhos fechados, ainda com os dedos sobre o teclado ouvindo em minha mente o público me aplaudindo. Era tão real. Foi então que uns aplausos de verdade ecoaram pelo salão, fazendo-me esbugalhar os olhos, bater nas teclas brutalmente — sem querer — e sobressaltar do banco.



Capítulo 3

Lucy

—Quem está aí? — Indaguei assustada, mas a pessoa ainda continuava aplaudindo, e o som vinha do cantinho escuto do restaurante. — Vamos! Quem está aí? Como entrou aqui?

Estreitei meus olhos, fixando-os no canto escuro do restaurante, e vi que tinha um homem sentado na última cadeira olhando pra mim, ainda aplaudindo.

— Você foi ótima! — Ele disse em voz alta quando parou de aplaudi. Sua voz era bonita e suave, mas mesmo assim não tirou o meu medo.

— Quem é você?! — Perguntei mais uma vez assustada. Algum ladrão poderia ter entrado lá sem os seguranças ver e... Essas coisas.

Ele levantou e caminhou até que aos poucos pude enxergá-lo mais.

Era um homem de pele bronzeada — eu acho, não sei, a penumbra do lugar não me deixava ver os detalhes dele — até que finalmente ele chegou até a 2 mesa perto do palco.

— Aonde aprendeu a tocar tão bem? — Ele perguntou amistoso. Parecia admirado com minha pequena performance.,

Muito jovem, acho que uns 27 ou 28 anos. Era alto, vestia um belo terno preto, camisa branca e gravata preta. Também usava um chapéu fedora, preto também. E sim, era bonito, muito bonito.

Ele ficou me olhando, esperando que eu respondesse a pergunta que ele fizera a mim.

Confesso que ainda estava assustada com a presença daquele homem que nem sequer tinha se identificado.

Ainda sem parar de me fitar, ele tirou o chapéu e colocou-o sobre a mesa que tinha ao seu lado. Seus cabelos eram grandes e estavam presos, porém alguns cachos desgrenhados caiam sobre o seu rosto. Seus olhos grandes e negros eram consideravelmente e destacavam-se bem no seu rosto esculpido.

— Quem é você? — Murmurei.

Ele riu e abaixou a cabeça.

— Me desculpe ter te assustado. — voltou a me olhar. — É que eu estava analisando alguns papéis para o meu pai bem quietinho ali atrás – ele apontou para o fundo do restaurante. – quando ouvi você tocar e depois cantar. – Concluiu.

Eu abri a minha boca incrédula pensando no que eu acabara de fazer.

— Vo... Você é... O filho do Sr. Jackson? — Balbuciei, e ele riu.

— Sim. — respondeu e cruzou os braços. — E você é a nova contratada pelo o meu velho que decidiu dá um show sem ao menos ter uma platéia. — Ele disse com uma ponta nítida de sarcasmo, mas sem ignorância. Com certeza estava se divertindo com minha feição.

Puta merda! 

Confesso que fiquei aliviada por saber que ele não era um bandido ou algo do tipo, mas me senti envergonhada. Afinal eu estava no palco e tinha acabado de tocar no piano que lhe pertencia. Eu sei muito bem que instrumentos são pertences bem íntimos, e que por sua vez, pode causar ciúmes em seus donos. Será que ele está com ciúmes? Porra! Maldito instinto musical que corre nas minhas veias. Eu tinha passado tanto tempo sem ter contato com nenhum instrumento, e de repente caí na tentação, logo no restaurante, onde trabalhava. Burra! — Xinguei a mim mesma em pensamento.

— Me desculpe Sr. É que eu... — dizia enquanto descia ligeiramente do palco, e assim puxando a corda para fechar as cortinas. — Me desculpe! — Eu não sei exatamente o porquê que eu estava me desculpando, ele não parecia ser um cara chato, pelo menos não tinha a cara.

— Por que está se desculpando, se acabou de dá um show usando o meu piano, que provavelmente está precisando ser afinado. — Ele disse, mas dessa vez encantador. Senti meu rosto enrubescido com o que proferiu. — Agora me diga, onde foi que aprendeu a tocar tanto?

Virei-me para pegar o borrifador e a flanela que estava usando para limpar as mesas, e que tinha jogado em uma delas antes de subi no palco.

— Eu não sei tocar tanto assim. — Murmurei quando voltei a olhá-lo.

Ele arqueou as sobrancelhas, cruzou os braços e começou a ri suavemente. Uma risada doce. 

— Está me dizendo que não sabe tocar? Também vai me dizer que não sabe cantar? Olha que eu ouvi bem o timbre da sua voz.

Me senti intimidada com a pergunta dele. Queria saber demais e não sei o porquê.

— Toquei apenas umas coisas que tenho gravada na minha mente e... Cantar é... Um dom familiar. — Menti na tentativa dele parar de ficar me fazendo perguntas que eu não tinha gosto de responder.

— Um dom? Então que seja, mas você mandou muito bem. — Deu de ombros.

— Obrigada, Sr. Jackson. — Agradeci timidamente.

— Oh, não... Sr. Jackson não. — Ele fez careta. — Michael, por favor. — Disse sorrindo ternamente, e sinceramente eu não estava entendendo o porquê dele está sorrindo daquele jeito pra mim, se nem ao menos nos conhecíamos.

— Desculpe Sr. Jack... Michael foi um prazer conhecê-lo, mas agora eu tenho que ir. —Eu disse já andando em direção a sala dos funcionários.

— Hey? – Ele gritou e eu parei. — Qual é o seu nome?

Virei-me e encarei-o ainda com aquela vergonha de ter sido pega no flagra.

— Lucyana, mas pode me chamar de Lucy. — Respondi. — Tchau! — Acenei e saí de sua vista.

Peguei as minhas coisas e dei o fora do restaurante ainda sentindo vergonha pelo o que fiz. O filho do chefe havia me pegado no flagra tocando piano. Cara, se arrependimento matasse, eu estaria morta. Maldita curiosidade essa minha que tive de querer ver o que tinha atrás daquelas cortinas. Mil vezes Droga!

(...)

Quando cheguei em casa, corri para o meu quarto sem fazer barulho nenhum enquanto a imagem do Jackson continuava na minha mente. Não que fiquei com medo dele, tá, no início sim, mas só porque não sabia quem ele era. Só pensava na possibilidade de mais alguém saber daquilo, não queria que ninguém soubesse, isso ainda mexia comigo.

Será que ele irá comentar com alguém? — Chacoalhei minha cabeça expulsando tal possibilidade.

Tomei um banho e deitei na cama exausta, tanto que mais uma noite esqueci de pegar a foto do Brad pra conversar com ela, assim como eu fazia às vezes. E torcendo para que não visse mais o Jackson e que ninguém mais soubesse.



Capítulo 4

Michael

Naquela noite, meu pai havia ligado pra mim, pediu que eu viesse para tentar resolver alguns problemas financeiros do restaurante. Como eu havia passado muito tempo fora, decidi dá uma pequena analisada nos papéis, só para ter uma noção.

Cheguei até a entrada do salão do restaurante e vi uma mulher limpando uma mesa, estava de costas, presumi que era a nova funcionária que meu pai falara. Não queria incomodá-la e nem ser incomodado, então sem que ela me percebesse, eu sentei em um canto escuro do restaurante e comecei a analisar os papéis. 

Estava concentrado na contabilidade, que estranhamente parecia não ter nada fora do normal, até que tirando minha atenção, ouvi o som do piano ecoar pelo salão tirando minha concentração. Irritei-me na hora, mas quando levei minha vista para o palco, lá estava ela, a mulher que estava limpando a mesa minutos antes. E caramba, ela só não tocava como também cantava.

Soltei os papéis sobre a mesa, segurei meu queixo e fiquei observando-a até o final daquela apresentação sem platéia.

Foi sensacional, esplêndido. O que uma mulher que tocava e cantava tão bem estava fazendo trabalhando em um restaurante?

Aplaudi e ela parecia que tinha visto um fantasma quando aproximei-me dela. Ela negou ser talentosa por algum motivo, mas eu sabia que ela era boa.

Ela era linda. Alta, pele morena clara, cabelos castanhos, olhos escuros, expressivos e um pouco puxados, corpo magro, porém bem definido. Ela era linda, muito linda.

Só não entendi o porquê dela insisti em se menosprezar em relação ao que eu acabara de assistir, ou melhor, ouvir.

Sinceramente, não entendi!

(...)

— Pai, porque você não me disse que a nova funcionária que contratou era tão talentosa? — Indaguei quando cheguei na casa dos meus pais.

— O que? Não sei do que você está falando, Michael?

— Agora pouco quando estava lá no restaurante, eu a vi dá um pequeno show, tocando e cantando. Ela parece manjar. — Eu disse por alto.

— Ah, Michael, qualquer pessoas hoje em dia sabe tocar e cantar. — Ele disse sem importância e me deu um copo de Whisky.

— Pode até ser, mas percebi que ela é diferente. — Disse e tomei um gole da bebida, lembrando-me da forma que ela tocava e da sua voz entrando nos meus ouvidos. — Ela tocava com amor.

—É, realmente ela é muito bonita, e acho que esse é o verdadeiro motivo de você está encantado com ela. — Ele disse e eu fiquei lembrando de seus traços, da sua voz, do seu olhar e do seu nome. Lucy, ela se chamava Lucy. Sim, eu confesso que fiquei encantado com ela.

— É, mas agora vamos falar sobre você. — Ele disse tirando-me do transe. — Como você está?

Levantei-me um pouco irritado com a pergunta. Sabia que ele iria tocar no assunto mais uma vez, eu detestava quando as pessoas me olhavam com uma pontada de pena, coisa que eu abominava. Me direcionei até o bar que havia da sala e coloquei meu copo sobre a mesa.

— Eu estou bem, pai. Não tenho muito que falar não. — Disse eu, com a voz baixa e vaga.

— Por que você não volta de vez? Sua mãe e eu estamos preocupados com você filho.

— Não há necessidade de se preocupar. Eu estou bem e já sou bem grandinho para me virar, você não acha? — Meu tom agora estava um pouco ríspido. Já estava cansando de ficar ouvindo as pessoas falarem a respeito do meu passado. Já era uma bobagem. — Vai querer falar de negócios ou não? — Agora perguntei já mais brando. — A não ser que você não me chamou pra isso.

Passei a pensar que meu pai me enganou e tinha falando que era problemas com o restaurante, só na tentativa de eu ficar. Mas é claro que era mentira, lembrei-me da papelada e estavam tudo ok.

— Estamos preocupados com você. —  O senti tocar no meu braço.

— Você me enganou. — Ri sem graça e balançando a cabeça em negação. Virei-me para encará-lo. — Onde está a minha mãe?

— Está dormindo. Vou acordá-la. — Disse se virando, mas eu segurei em seu braço para impedi-lo.

— Não. Deixe ela dormir. Amanhã entes de ir passo aqui para falar com ela, e com você também. — Eu disse. Estava disposto a voltar para Indiana.

Ele suspirou alto e soltou o meu braço.

— Tudo bem, Michael. Essa foi mais uma tentativa de te trazer para perto. — Meu pai disse e seu tom de voz era triste.

— É, então é melhor desistir pai. — Disse com receio indo em direção a porta. — Amanhã eu volto pra falar com a minha mãe. Passarei a noite no meu apartamento, qualquer coisa é só ligar. — Disse e saí deixando o meu pai triste, mais uma vez.

Eu sabia o quanto meus pais estavam sofrendo comigo longe, mas passar esse tempo fora foi a melhor coisa que eu pude fazer. Superei com tranqüilidade a ida da Sara. Pra falar a verdade eu nem a amava, eu gostava dela e isso era o suficiente para ficar magoado com o seu abandono repentino, me largando para tentar uma carreira musical, que pelo o visto estava mal sucedida. Bem feito!

Quando cheguei no meu apartamento, a única coisa que fiz foi tirar os sapatos, o chapéu e deitar na minha cama. Me surpreendi quando de repente a imagem de Lucy veio em minha mente como um furação, e permaneceu nos meus pensamentos quase a madrugada inteira, tanto que nem percebi quando o sono me atingiu, só sei que quando acordei e olhei para o relógio, já era mais de 8 horas da manhã.

Droga! Dormir demais.

Levantei-me, tirei a roupa, peguei uma toalha e minha escova de dentes que eu trocava freqüentemente para não ter que ficar levando nada quando viesse à cidade, e corri para o banheiro para tomar um banho. Logo terminei de me banhar, fiz minha higiene e coloquei um dos meus ternos que também já tinha por lá.

Saí do apartamento e rumei para uma cafeteria com a minha relíquia GTO, pois estava louco para tomar um café antes de ir à casa dos meus pais e depois voltar para Indiana.

Saí do carro e caminhei até a entrada da cafeteria, mas parei quando os vidros das portas da mesma refletiram uma imagem que eu pude reconhecer após prestar bem atenção. Era ela, a Lucy, a mulher que havia tomado conta dos meus pensamentos na madrugada.

Virei-me para encará-la e ela tinha acabado de se abaixar para amarrar o cadarço que havia soltado. Pelas suas vestes, ela estava correndo. Usava uma calça de malha, calçava tênis, seus cabelos presos em um rabo de cavalo e estava suada.

— Caham... — Pigarreei para chamar a atenção dela que logo ergueu a cabeça e me fitou. Na mesma hora vi seu rosto sendo tomado pelo rubor. Aproximei-me dela e sorri gentilmente. — Olá, Lucy.

Ela tornou a ficar de pé, e quando me encarou, vi seus olhos um pouco esbugalhados, olhando no fundo dos meus.

Ela era linda mais ainda sob a luz do sol. Sua pele na verdade era bronzeada, e pude perceber direito a cor dos seus olhos, eram negros e hipnotizadores.

É Michael, quem sabe agora você tem um motivo para querer ficar. — Meu subconsciente se manifestou enquanto eu me perdia na superfície dos olhos daquela morena. 


Capítulo 5

Lucy

Naquela manhã, eu pensei que dar uma volta iria me fazer bem, e estava, até encontrar o Sr. Jackson todo elegante diante de mim. Não que ele me fazia mal, era porque eu ainda estava um pouco sem graça pelo o que ocorreu no restaurante.

— Oi Sr. Jack... Michael. — Ele riu. — Desculpe é que eu ainda não acostumei. — Disse sentindo meu rosto enrubescendo. 

— Então quer dizer que a cantora incubada também gosta de correr? — Ele perguntou risonho. Droga, ele ainda lembrava daquilo. Mas achei divertido do jeito que ele falou.

— Cantora incubada? — Perguntei de cenho franzido e ainda um pouco ofegante pela corrida. Ele sorriu e mordeu o lábio inferior.

— Está cansada? — Franzi o cenho mais uma vez. Claro que eu estou cansada, estava correndo. — Quer comer alguma coisa? Toma um café? — Ele perguntou passando a mão na nuca.

— Michael, eu adoraria, mas...

— Ah Lucy, é só um café. — Arqueou as sobrancelhas demonstrando expectativa.

— Só um café? — Arqueei as sobrancelhas.

— Bem, se você quiser um suco, um pãozinho, uma torrada... — Dizia divertido, e eu ri.

— Michael... Vamos, vai. — Disse eu rindo, indo em direção a entrada da cafeteria, logo ele passou na minha frente e abriu a porta gentilmente para que eu pudesse entrar.

— Por favor, escolha uma mesa enquanto eu pego alguma coisa para a gente beber. O que você vai querer? — Perguntou ele com cortesia.

Um vinco formou-se na minha testa quando ele fez a tal pergunta. Como assim o que eu vou querer?Ele me chamou para tomar um café, então claro que seria um café.

— Um café. — Respondi.  
    
—Qual é a sua preferência de café?

— Apenas café.

Ele riu.

— Tudo bem, apenas café. — Disse ele e caminhou para o balcão.

Encostei-me mais nas costas da cadeira que sentara, cruzei os braços e comecei a balançar uma perna.  Puta merda, eu não sei o que me deu na cabeça quando aceitei o convite de Michael. Ele parecia ser um cara legal e acima de tudo educado, mas sei lá, eu não estava em condições de receber convites. 

— Dez pratas por cada pensamento seu? — Michael perguntou me tirando do transe e pondo uma bandeja em cima da mesa. Neguei com a cabeça e ele se sentau à minha frente, cruzando as pernas tranquilamente.

Ele me entregou uma xícara com um pires e me serviu com café do pequeno bule de porcelana. Sorri discretamente quando vi na bandeja torradas e um pote de nutella. — Ele disse só um café.

— Então, no que você está pensando? — Perguntou ele se servindo com o café.

— Em nada de interessante. Só me lembrando da vergonha que senti quando você me pegou no flagra. — Me ouvir dizer, e claro que me arrependi. Tomei um gole do café para disfarçar. Ele franziu o cenho. — Ontem, no restaurante do seu pai.

— Ah... — Ele riu. — Não precisa ficar com vergonha. Você mandou muito bem. — Ele disse me fitando.

— Não, aquilo não foi nada, eu já disse. — Tentei disfarçar.

— Só se for aos seus olhos, porque nos meus foi esplêndido para uma pessoa que diz não tocar nada. — Disse serio agora. Seu olhar era penetrante.

Não queria tocar naquele assunto, mexia muito comigo, fazia-me lembrar das coisas boas que trouxeram as ruins. Merda!

Desviei meus olhos para a bandeja, me obriguei a pegar uma torrada, passar nutella e mesmo sem fome morder um pedaço, só para manter minha boca ocupada para não responder a pergunta.

Acho que ele percebeu que aquilo me incomodava, tanto que decidiu mudar de assunto.

— Então, o que você faz da vida fora trabalhar lá no restaurante. — Indagou, também pegando uma torrada e lambuzando-a do chocolate.

— Bem, como eu cheguei há pouco tempo na cidade...

— O que? Você não é daqui? — Perguntou me interrompendo.

— Não. Eu morava em Atlanta.
       
— Sozinha?

— Primeiro com a minha mãe, mas ela morreu 2 dias antes do meu aniversário de 19 anos.

Ele abriu a boca para falar algo, certamente para lamentar, mas eu não permiti.

— Não precisa dizer que sente muito, todo mundo sente.

Ele franziu o cenho, meneou a cabeça e mordeu a torrada.

Claro que sofri muito com a morte da minha mãe, ela era a única pessoa que eu tinha por perto, aí no meio de todo esse martírio, conheci o Brad, o cara que me acolheu, me consolou, me tratou como uma rainha e o que me amou. Finalmente quando consegui superar a morte da minha mãe, a porra do destino me tirou o Brad. Aquela dor e aquele sofrimento do passado tinham voltado com uma grande intensidade que minha vontade era de morrer. Mas agora, graças a Deus estava seguindo a vida aos poucos.

— Seu pai?

— Morreu quando eu nasci.

—Ah... E o seu namorado? — Perguntou baixinho tentado ser discreto e tomando mais um gole do café.

Sorri com aquele pergunta. Era a primeira vez após a morte do Brad que alguém me perguntava isso. Claro, me fez lembrar da dor que ainda sentia, mas mantive meu sorriso nos lábios.

— Eu... Não tenho namorado. Não mais. — Respondi e pude perceber um pequeno sorriso despontando nos seus lábios.

Por que ele parece feliz e contente com a resposta?Ah, mas não se iluda sua boba, isso pode ser coisa da sua cabeça. — Balancei a cabeça para espantar tais pensamentos.

— E você Michael, o que faz da vida. Pelo o que soube você também toca piano e faz tempo que mudou de cidade. — Perguntei mudando de assunto.

— Bom, a parte de tocar eu confirmo, mas na verdade não tenho muito o que falar sobre mim. Apenas sou formado em administração e saí da cidade por uns motivos peculiares.

— Pretende fica por quanto tempo?

— Na verdade, eu estou indo embora hoje. Mas agora estou pensando em mudar de ideia. — Disse me fitando e insinuando algo.

— E por quê?

— Desde minha última visita à cidade, não havia nada de interessante. Mas agora tem.  Isso soou como uma cantada indireta. Fiquei sem jeito mais uma vez.

— Ah, que legal. — Peguei outra torrada, lambuzei-a e logo levei até a boca. 

— E você, tem namorada? —Que porra de pergunta descabida é essa Lucy? Me amaldiçoei por isso.

Ele nada falou, apenas mordeu o lábio inferior e negou com a cabeça.

— Às vezes as coisas acontecem por um motivo. — Disse com seriedade, e isso não me incomodou, apenas mexeu comigo, nas minhas lembranças agora. Então quer dizer que o destino tirou a minha mãe e me deu o Brad, mas logo me tirou o Brad também. E se fosse verdade, quem o destino iria me dar agora? Ele sua boba, Michael! —Me senti envergonhada com o meu próprio pensamento.

Michael riu de uma forma agradável ao perceber que estava me deixando sem jeito, e pra foder tudo, levantou-se, inclinou-se e passou o polegar no canto dos meus lábios com suavidade, enquanto me olhava profundamente. Não sei o porquê, mas senti um certo arrepio tomar conta do meu corpo e minhas bochechas ficarem quentes ao seu toque.

— Hãa?! – Fiquei inerte com aquele ato, principalmente quando ele levou o dedo até a sua boca lambendo o chocolate que melava o mesmo. 

— Estava melado. — Disse quando voltou a se sentar. Parecia estar extasiado, e pior, eu também. Realmente, eu não esperava ficar assim com apenas um simples toque de outro homem. Só sentia isso quando era com o Brad.

Puta merda, nesse exato momento, várias coisas com e sem sentido começaram a povoar pela minha mente. Minha vontade era de sair correndo, mas algo dentro de mim fazia-me desejar ficar.

— Obrigada por... Limpar. — Agradeci com um fio de voz. Eu precisava sair dali, havia ficado estranho. Olhei para o relógio que estava usando e percebi que já havíamos ficado muito tempo conversando. — Me desculpa, mas agora tenho que ir. — disse levantando-me.

 — Claro! — Ele também se levantou e parecia desanimado.

— Obrigada pelo o café.

— De nada, Lucy. Vejo você à noite.

O que? Como assim? Ele não iria embora?

Virei-me e o fitei.

— Acho que encontrarei você lá no restaurante. Acho que vou ficar mais um pouco. — Disse ele.

— Ah... Sim. — Fora as únicas palavras que consegui proferi. Agradeci mais uma vez e saí da cafeteria sentindo-me totalmente estranha.


Capítulo 6

Michael

— Mãe?! — Entrei gritando na casa dos meus pais feito um louco. Fui até o pé da escada e gritei mais uma vez. — Mãe?!

Logo ela apareceu com um sorriso estampado nos lábios. Parecia eufórica.

— Michael... — desceu as escadas e me abraçou fortemente. — Filho, que saudade de você. — Estava me apertando tanto que estava me sufocando. — Você está bem? — Perguntou me analisando feito uma louca.

— Estou ótimo, mãe. — Disse rindo da sua expressão.

— Pensei que iria embora sem se despedir de mim. Seu pai disse que voltará para Indiana hoje.

Desvencilhei-me de seus braços e comecei a caminhar graciosamente até o sofá e me sentando.

— Eu não vim me despedir, mãe. — Disse escondendo o sorriso nos meus lábios.

— O que? — Perguntou confusa e chegou até a minha frente. — Não entendi! — Franziu o cenho.

— Simples dona Kathe. — Sorri do meu jeito sapeca. — Decidi ficar.

Nossa, os olhos da minha mãe ficaram tão grandes e brilhosos que eu pensei que iriam pular pra fora.

Ela sentou ao meu lado demonstrando incredulidade.

— Michael, não brinque comigo! — Estreitou seus olhos.

— Eu não estou brincando. — Disse tranqüilo e cruzando as minhas penas, colocando-as em cima do centro. — Ficarei na cidade por um tempo.

— Que maravilha, Michael. Sério mesmo? Mas...

— Sim.

Ela começou a me abraçar mais uma vez, quer dizer, me apertar.

— Eu e o seu pai já fizemos tantas coisas para tentar te trazer de volta e nada. Ai de repente você decide ficar e... Eu estou tão feliz.

— Eu sei mãe, mas, por favor, dá pra parar de me apertar um pouco? Se continuar assim, irá me matar. — Eu disse brincalhão.

— Oh meu Deus, filho. — Disse ela quando me soltou. — Desculpe, é que eu ainda não estou acreditando. Depois que a Sara foi embora você ficou...

Essa história de novo não!

— Ah não mãe, essa história de novo não, por favor! — Eu disse um pouco chateado.

— Claro filho, me desculpe, não queria chateá-lo. — Disse ela pegando nos meus cabelos e enrolando mais os meus cachos. — Olha filho, está mais do que óbvio que estou muito feliz, mas algo me deixou curiosa. Por quê? Por que decidiu ficar?

Olhei bem pra ela e fiquei pensando: Será que conto o motivo? Não. É melhor deixar quieto.

— Por que quero voltar a ajudar o meu pai nos negócios, por enquanto. — Menti, e isso estava evidente na minha cara e no meu sorriso mentiroso. Minha mãe sorriu e soltou os meus cachos.

— Acha que sou boba, Michael? Eu te conheço, isso já aconteceu antes. Há algo que te interessou por aqui, só não sei o que é, ainda. — Enfatizou o “ainda”.

— Nada haver, mãe. Eu só estou com saudade de vocês, só isso.

— Hurum, vou fazer de conta que acredito. — Disse e voltou a mexer nos meus cabelos.

(...)

Lucy

Quando cheguei em casa, não queria saber de nada. O café que tomei com Michael, me deixou muito perturbada e pensativa.

O que foi aquilo? O homem inclinou-se para limpar o canto dos meus lábios, e mais, depois lambeu. Ah, e me lembro de ter ficado um pouco extasiada com o seu toque. Por quê?

Comecei a subir as escadas ainda pensando no ocorrido, só queria tomar um banho, descansar pra depois trabalhar, mas ouvi a Rose me chamar da cozinha. 

— Lucy? É você? — Ela gritou.

— Sim, Rose. — Respondi e terminei de subi as escadas, assim chegando no meu quarto.

Assim que entrei, tratei de esquecer tudo o que aconteceu, tirei minhas roupas, tomei um banho, vesti outra roupa confortável e cair no sono. Pois iria trabalhar no finalzinho da tarde.

(...)

“— Eu sabia que a gente iria ganhar amor. — Brad disse enquanto dirigia.

— Estou tão orgulhosa da gente. Conseguimos! — Disse maravilhada pela nossa vitória. 

— É... Você viu a reação da platéia com a nossa vitória? Agora talvez teremos a chance de gravar um disco nosso, sem mesmo ter que ficar mandando fitas demos pra aqueles produtores idiotas que nunca reconheceram o nosso talento.

— Foi muito gratificante vê as pessoas gritando o nosso nome.

— Hurum... Muito mesmo. — afagou meus cabelos e me puxou para um beijo carinhoso. – Eu te amo, Lucyana Adms. —Sorri, parecia está se despedindo. Abri os olhos e vi um grande farol em direção ao nosso carro.

— Brad! Cuidado! — Gritei desesperadamente. Fechei os meus olhos por puro instinto, e tudo parecia ter ficado em câmera lenta quando o caminhão chocou-se com violência contra o carro, transformando o momento em plena escuridão.”

— Lucy, calma! — Ouvi a voz da Rose bem distante na minha cabeça.

— Brad, não! — Acordei em um ato brusco, sentei-me na cama com a respiração fora do normal e com o corpo trêmulo. – Brad...

— Calma Lucy, foi só um pesadelo. — Rose me abraçou tentando me acalma.

— Será que isso nunca vai deixar de me atormentar? — Perguntei me soltando dos seus braços.

— Calma querida, é só questão de tempo. — Rose disse alisando os meus cabelos. Ai eu fiquei me perguntando: Até quando? — Você não vai trabalhar?

— Vou sim, que horas são? — Perguntei ainda ofegante.

— São 4 horas e 23 minutos. Acho que você está atrasada.

— Oh meu Deus, Rose... — Disse pulando da cama e ficando de pé. — Eu não estou atrasada, e estou ferrada. — Comecei a vestir a primeira blusa e a calça jeans que encontrei.

— Calma Lucy. Você chegará a tempo.

— Claro, só se for a tempo de voltar. — Disse sarcástica. Rose começou a ri.

Calcei meu tênis, penteei meus cabelos nas carreiras, peguei minha bolsa e fui para o restaurante.

(...)

Entrei pelos fundos com medo de alguém me ver. Provavelmente eu estava uns 30 minutos atrasada. Ainda bem que o Mario largava cedo, só assim não iria me dá sermões. Corri para o banheiro, tirei o meu uniforme da bolsa e entrei em uma das cabines para me vestir, 5 minutos no máximo, saí e dei de cara com a Sharon se olhando no espelho.

— Lucy? — Franziu o cenho assim quando se virou e me fitou.

— É... Eu sei... Eu estou atrasada. — Revirei os olhos.

— É, você está. — Riu.

— Droga, eu dormi demais. —Andei até o espelho e comecei a amarar os meus cabelos em um coque.

— Pela sua cara deu pra ver. — rimos. — Tem novidade. O filho do Sr. Jackson está aí. Chegou bem cedinho e está há um tempão na sala do pai.

Fitei-a através do espelho de cenho franzido. Ela só poderia estar falando do Michael. Caramba. Pisquei meus olhos sem saber o que falar.

—Ele é muito gato. Passou um tempo fora por causa da Sara, mas pelo o que parece, está de volta. — Disse enquanto passava o batom.

— Quem é Sara? — Comecei a questionar já me interessando no assunto.

— Ah, é a ex-namorada dele.

— E o que aconteceu? — Perguntei baixinho tentando disfarçar.

— É uma história muito longa, querida. Agora vamos, há rumores de que ele disse que faria uma surpresa pra todos hoje. — Disse guardando o batom na bolsa.


— Tá bem. — Na verdade eu queria era arrancar assunto da Sharon sobre aquilo, mas talvez podia parecer uma coisa inconveniente da minha parte ficar perguntando coisas dobre o Jackson. 



Capítulo 7

Lucy

Eu e a Sharon entramos no salão que por sinal já estava ficando lotado. Começamos a atender pedidos e servir mesas junto com os outros garçons. 

O que a Sharon havia me dito não saia da minha cabeça. O Michael estava no restaurante, — disso eu sabia — mas há qualquer momento ele poderia aparecer no salão e o clima poderia ficar fora do normal pra mim, já que eu me sentia de uma forma estranha perto dele. Não sei se isso era bom ou ruim!

Já havia se passando mais de uma hora, eu tinha acabado de anotar um pedido de um casal quando ouvi um ruído familiar para os meus ouvidos, virei-me e as cortinas do palco se abriram. Arregalei meus olhos. Michael estava sentado e aquecendo os dedos, preparando-se para tocar piano. Eu fiquei parada, cenho franzido e com o pedido do casal nas mãos. 

O que ele vai fazer? Tocar? — Meu consciente temia.

Os clientes voltaram toda a atenção para Michael quando ele começou a tocar e cantar suavemente. Eu não consegui ficar por muito tempo parada, olhando-o, aquilo me lembrava muitas coisas. Por um instante juro que enxerguei no Michael o Brad. Chacoalhei minha cabeça para voltar à realidade e andei o mais depressa possível para a cozinha para atender ao pedido do casal que havia anotado.

— Lucy, você está bem? — Perguntou um dos cozinheiros quando viu minha feição aturdida.

— Ah... Estou sim. — respondi. — Mais um pedido. — Destaquei a folha, coloquei no quadro de pedidos e voltei para o salão.

Por mais que eu não quisesse voltar e ficar naquele ambiente com música, eu tinha que fazer isso. Estava ciente de que não podia misturar minha vida pessoal com a profissional, era só eu ficar na minha e ponto, mas parece que isso não estava a meu favor.

Quando entrei no salão, logo o meu coração quase pulou pra fora quando ouvi o meu nome ser clamado por Michael.

—... E lá está ela, a Lucy. — Apontou pra mim, e todos me olharam. Fiquei inerte. — Vocês sabiam que ela tem as mãos leves como uma pluma enquanto está tocando piano? – Meu Deus, o que ele estava fazendo? Esbugalhei os meus olhos diante daquilo tudo.

— Sabe, ontem vi essa garota tocando e cantando, bem aqui, onde estou, e digo, ela é muito boa e queria que vocês apreciassem exatamente do jeito que eu apreciei vê essa garota tocando e cantando. — Disse e sorriu olhando pra mim, esperando que eu desse um passo em direção ao palco. Os olhares das pessoas pousaram-se em mim, curiosos, e aquilo estava me deixando inibida. Continuei parada olhando pra ele, descrente da situação em que estava vivendo. Não, aquilo não poderia está acontecendo, não comigo. Estava fugindo exatamente desse tipo de situação, e agora ela me pega abruptamente.

— Michael... Não... — Murmurei, mesmo sabendo que não dava pra ele escutar.

— Lucy querida, mostre do que você é capaz, mostre para gente o quanto você é talentosa.  Apontou o piano para mim ainda com aquele sorriso esperançoso e inocente nos lábios. Digo inocente porque sei que se ele soubesse do que eu vivi, não teria feito isso. — Lucy?  Me chamou mais uma vez. 

Olhei ao meu redor e as pessoas ainda estavam me olhando, — até os outros funcionários estavam —, esperando que eu subisse e tocasse assim como Michael acabara de falar. Comecei a andar pra trás de vagar e voltei a olhar para o Michael. O sorriso que estava brotado em seus lábios começou a desvanecer a cada passo que eu dava para trás, que nos deixava mais distantes. Eu só queria sair dali e me esconder para que as más lembranças não me alcançassem. Foi isso o que eu fiz, dei mais um passo para trás, dei às costas para todos e saí correndo do salão.

Corri para o banheiro, desfiz o coque e me livrei do meu uniforme, enfiei-o dentro da bolsa e saí em passos rápidos. Não queria nem saber mais se iria receber uma reclamação depois ou se até mesmo iria perder o meu emprego por ter saído daquela forma, só queria sair daquele lugar.

Saí pela porta dos fundos e descobri uma escada que dava até a laje do restaurante. Sem pensar duas vezes, eu subi a mesma, larguei minha bolsa sobre o concreto, caminhei até a beirada — de onde dava pra ver a avenida luminosa por conta dos faróis dos carros —, e fiquei olhando para o céu, pensando no que acabara de acontecer.

Por quê? Por que o maldito passado obstinava em me desnortear, em me seguir? Às vezes fico me perguntando o que porra eu fiz de tão ruim para que esse sentimento de consternação regressasse a hora que quisesse dentro de mim. Por quê?

Poxa, consegui ficar tão bem em tão pouco tempo que cheguei à cidade e comecei a trabalhar, estava me permitindo a esquecer do passado, seguir em frente, mas como iria continuar se às lembranças me perturbavam?

Perdida nos meus pensamentos ouvi uns passos se aproximando de mim e comecei a inalar um perfume de especiarias suavemente doce; abaunilhado com flores de laranjeira adentrar minhas narinas.

Não ouvi mais os passos, mas o cheiro ainda pairava no ar. Virei minha cabeça com lentidão e lá estava ele, o Michael, me olhando com uma feição completamente confusa. Como se tivesse uma interrogação bem no meio da sua testa.

Desviei meu olhar, voltando-o para frente, mas agora fitando a avenida. Percebi ele aproximar-se de mim e se postar ao meu lado.

—Eu fiz alguma coisa de errado? — Murmurou alguns segundos depois, quebrando o silêncio insuportável que se fazia presente.

Balancei a cabeça e respirei fundo.

— Não. — Disse em um tom de voz quase inaudível ainda olhando para a avenida abaixo da gente.

—Eu não entendo! — Seu tom soou desentendido. Percebi que ele agora estava olhando para mim.

— Eu entendo que você não entende. — murmurei, e virei-me para olhá-lo. — O problema não é com você.

— Então me conta, porque eu acho que você deve ter um bom motivo para querer esconder o talento que habita dentro de si — Disse com a voz afável e me olhando serenamente.

Dei um pequeno sorriso de lado e voltei a olhar pra frente.

—Eu minto muito mal. — Ri sem ânimo.

— Como assim?

— Fazia mais de um ano que não chegava perto da música. No dia que você me flagrou tocando piano, foi à primeira vez depois do... Ocorrido. — Disse e voltei a olhá-lo. Ele franziu o cenho.

— E o que aconteceu pra você se privar tanto da música? — Sorri com um pesado suspiro.

—É uma longa história.

Vi Michael contrair os lábios. Sei que ele estava se contendo para não me perguntar mais nada, com certeza percebeu o quanto aquilo era um incomodo pra mim, — não ele — e sim o assunto.

— Lucy, me desculpe... Eu não sabia o quanto isso mexia você dessa forma, se eu soubesse, eu... — Tentou se justificar, mas eu não dei a oportunidade e intervir em sua frase.

— Não... Eu já disse que isso não é com você... Na verdade não é com ninguém, e sim comigo. Tenho certeza que se você soubesse a razão de eu não querer me expor de tal forma, não teria feito o que fez. Por isso não o culpo. — Sorri de leve e olhei pra ele que agora estava com seus olhos estreitos nos meus.

— Quem é você hein, garota? — Murmurou sem parar de me olhar. Sorri timidamente sentindo meu rosto sendo coberto pelo o rubor.

— Sou apenas uma garota tentando encontrar a felicidade mais uma vez.

Michael abaixou a cabeça com um pequeno sorriso que despontou-se aos poucos no canto dos lábios e levantou apenas seu olhar pra mim. Seus cachos soltos e desgrenhados voavam enquanto o vento soprava, era como se meus ouvidos tivessem sido tampados e liberados apenas para ouvir o vendo assobiando.

— Um dia desses, eu ainda aprendo a te decifrar. — Murmurou. Seus olhos passaram a me olhar com veemência, com intensidade. Um olhar magnético.

— E por quê? — Perguntei em um fio de voz.

— Pra ver se você quer o que eu também quero. — Disse, e mais uma vez me senti enrubescida e sem jeito. Ambos ficaram calados por breves segundos, até que ele segurou a minha mão delicadamente e fitou-me mais profundo.

— Deixa eu te mostrar uma coisa.

— O que?

— Anda... Vem, você vai gostar.

Soltou a minha mão, pegou a minha bolsa do chão e gesticulou com a cabeça para eu segui-lo. E assim eu fiz. Descemos da laje, fomos caminhando pelo o meio-fio da pista rodeando até a frente do restaurante onde havia vários carros estacionados.

Eu continuei seguindo-o, e me surpreendi quando Michael postou-se ao lado de um carro antigo. Bem, o carro estava em boas condições, mas era antigo. Sei lá, o Michael não parecia que gostava de carros assim.

Pigarreei para chamar sua atenção e arquei minhas sobrancelhas.

— O que foi?

— Esse é o seu carro? — Me segurei o máximo para não rir.

— Isso é um Pontiac GTO com um motor 5.7 litros de oito cilindros em V e 350 cavalos de potência. É uma relíquia sabia?

— É... Eu Estou vendo. — Respondi irônica e brincalhona. Ele riu balançando a cabeça e abriu a porta.

— Por favor. — Gesticulou indicando-me.

— Nós vamos sair? — Franzi o cenho, confusa. Eu pensei que ele queria me mostrar algo por perto.

— Hurum. — Frisou.

— Pensando bem, eu tenho que voltar, se seu pai descobrir que saí irá me pôr pra fora. — Evidenciei.

— Ele não vai fazer nada, Lucy. Apenas entre no carro, por favor.

— Michael...

— Confie em mim. — Disse brandamente, porém com um olhar sério.

Eu sorri com o tom que ele falara; decidido das coisas. Deixou perceptível sua convicção de que aquilo iria me fazer bem, não sei como, mas faria, e isso de certa forma chamava minha atenção.

Eu não tentei mais contestar e acabei cedendo, entrando no carro.

Naquele momento, Michael começou a passar pra mim certa tranqüilidade, um sentimento de paz invadindo o meu corpo. Não sabia aonde tinha parado toda aquela tristeza que eu estava sentindo há poucos minutos antes, só sei que aquele momento era único, mesmo que depois que eu chegasse em casa e que quando apoiasse a cabeça do travesseiro tudo voltaria para minha mente — talvez não —, mas mesmo assim optei em aproveitar o momento.

  
Capítulo 8

Lucy

Michael estacionou o carro em frente a um pequeno prédio abandonado — uns 2 andares, no máximo — um pouco distante da cidade.

— Não... É sério, olha só. Pra onde você está me levando. — Perguntei quando descemos do carro e Michael começou a caminhar enquanto eu o seguia.
 
— Espera, eu já vou te mostrar. — Continuou andando.

— Não... Não... Espera! — parei — É aqui que você vai me matar, Michael? — Perguntei e levei minha mão até o meu peito fazendo cara de assustada.

Michael parou em frente a uma escada de ferro e olhou pra mim.

— Há-há... Engraçadinha. — Riu. E começou a subi a escada enquanto eu o acompanhava. — Suba com cuidado, Lucy.

— Nossa... — Murmurei quando chegamos à cobertura.

— É aqui. — Michael disse com um sorriso cativante e abrindo os braços.

Eu sorri, e comecei a caminha lentamente até chega à beirada. Dava pra vê toda a cidade de longe, parecia um cobertor de veludo cravejado de diamantes por causa das luzes distantes.

— É linda. — Disse maravilhada, sentindo o ímpeto do vento rompendo meus cabelos e orelhas.

— É sim. — Afirmou quando chegou perto de mim.

— Quer saber? Essa vista é bem melhor que a da laje do restaurante do seu pai. — Michael riu. — Como achou esse lugar?

— Eu vinha aqui quando era criança. Quando comecei a me interessar pela música, era aqui que eu estudava partituras. 

— Aqui é bem tranqüilo. — Disse e olhei pra ele. — Por que você saiu da cidade? — Perguntei, e comecei a me praguejar por isso. Eu nem o conhecia direito e já estava fazendo perguntas peculiares. Ele franziu o cenho, achando estranha a minha pergunta. — Oh meu Deus, me... Me desculpe, eu não deveria ter perguntado. — Balbucie com dificuldades. Ele sorriu mais uma vez, mostrando seus dentes perfeitos e alvos.

— Não, tudo bem. Eu não tenho problemas em falar. — Disse e virou seu olhar para o nada. — Eu namorava uma garota — começou a falar — ela também cantava e trabalhava no Well’s Diner. Quando começamos a namorar resolvemos ficar fazendo algumas apresentações nos finais de semanas, daí o número de clientes foram aumentando e passamos a levar isso a sério. Tipo, meu pai a contratou, ela era a estrela do restaurante nos finais de semanas, eu a acompanhava com o fundo musical. Nossa, a Sara cantava demais, isso eu admirava muito nela, até que essa admiração que eu sentia por ela transformou-se em ódio quando ela nos abandonou para tentar uma carreira musical. Eu acho que não  deu muito certo não. – riu e deu de ombros. Seu tom pareceu não se deixar mais abater por aquilo.

— Por quê?

— Ora, Lucy. — olhou pra mim — Para ser bem sucedida, não basta apenas ter uma vozinha agradável, tem que ter simpatia, presença de palco, e o principal, cantar com o coração. — me olhou com ternura. — Assim como você.

Suspirei pesadamente com o jeito que ele me olhava e como soava suas palavras. 

— Eu...

— Olha Lucy — me interrompeu — Sei que faz pouco tempo que nos conhecemos, quer dizer... Nem 24 horas, direito — sorriu um pouco tímido — mas eu quero te ajudar.

— Me ajudar?

— Sim. Olha... Eu não sei qual é o motivo de você se privar tanto de fazer uma coisa que você ama, isso ficou perceptível quando ouvi você cantar e tocar, mas se você encarar esse sentimento que habita em você e decidir se livrar dele, tudo ficará mais fácil. Fugir não adianta em nada.

Me irritei com o que disse. Ele não poderia falar de mim se ele mesmo fugiu para não enfrentar a ida dessa tal de Sara.

— Mas você também não enfrentou. — Retruquei.

— Eu sei, e me arrependo amargamente disso. Sei que se tivesse ficado e encarado de boa, não sentiria todo esse desdém que sinto pela Sara. Por isso estou te dizendo para não cometer a mesma tolice que eu cometi. Entende?

— Não, eu não entendo. — Respondi vaga. Ele pegou minhas duas mãos.

— Então me deixe te ajudar. — Meneei a cabeça.

— Esse é o problema, Michael. Ninguém pode ajudar. — Puxei minhas mãos e virei para olhar a cidade distante.

— Pelo menos você já permitiu alguém te ajudar?

Essa pergunta me pegou de surpresa. Na verdade nunca, ninguém se chegou tão perto assim, oferecendo-me ajuda, exceto a Rose, mas não chegou tão perto assim do meu martírio como o Michael estava chegando. Ele me entendia mesmo não sabendo de nada, — isso eu sabia — e o que chamava minha atenção era o fato dele nem me conhecer direito e mesmo assim queria me ajudar.

— Preste atenção. — Ele segurou meu queixo, e delicadamente levantou minha cabeça, obrigando-me a olhá-lo. — Você não precisa me contar o que aconteceu, a não ser que um dia se sinta à vontade ao ponto de querer me contar, só deixe-me ajudá-la. — Disse brandamente.

Eu tentei me abster, mas algo me impedia, e esse algo vinha lá do fundo do meu coração, era um resquício de esperança à procura da felicidade, obrigando-me a aceitar, a permiti que Michael me ajudasse. Bem, já estava na hora de superar tudo isso de vez não é mesmo? Quem sabe o maldito destino, o mesmo que fudeu com a minha vida decidiu ser bonzinho e me deixar em paz. Quer saber? Quem sabe era disso que eu precisava, de um amigo, uma pessoa para me ajudar, para me mostrar definitivamente que nem tudo estava perdido — não que minha concepção fosse essa —, mas eu estava demorando demais para recuperar as forças do meu coração que estava quebrantado.

— Por onde pretende começar? — Perguntei o fitando, mostrando meu consentimento através do meu olhar esperançoso lampejando.

— Por onde você tem mais medo.

— Mas eu tenho muitos medos.

— Me refiro ao medo que te prende, o mesmo que não te permite fazer aquilo que mais gosta.

Franzi o cenho e contrai os lábios enquanto olhava-o. Medo que me prende? Não demorou muito para que eu descobrisse do que ele estava falando.

— Música. — Murmurei, e ele abriu um enorme sorriso.

— Isso mesmo. Comece tocando comigo.

— Espera! — arquei uma sobrancelha — Você está me pedindo para eu tocar com você?

— Sim. — Ri sem humor. Ele só poderia está de brincadeira não é mesmo?

— Eu não posso fazer isso.

— E por que não?

— Por que...

— “Porque” não é bem uma resposta, Lucy. — Frisou.

— Não, não, Michael... Definitivamente, eu não posso fazer isso. — Fiquei balançando a cabeça em negação.

— Olha só pra você, — segurou no meu rosto, virando-o para eu olhá-lo — é por isso que quero ajudá-la.

— Eu já disse que não posso. É uma promessa que eu fiz a mim mesma.

— Você disse que deixaria que eu te ajudasse? — Murmurou.

— É, mas foi antes de você pedir para eu tocar com você. — Retruquei.

Ele suspirou e abaixou a cabeça, mantendo-a na posição por alguns instantes.

Está bem, eu queria sim a ajuda dele, mas ele me pegou de surpresa com essa. Eu não poderia simplesmente tocar com ele, provavelmente estava um pouco enferrujada, não sei... Ainda tinha esses pesadelos — que eu tinha às vezes —, sem falar nos flash backs que me pegavam de surpresa em certos momentos.

— Está bem. — Michael murmurou quando ergueu a cabeça e passou a me fitar. — E se eu te convidasse para ir à um lugar comigo, você iria? Vou fazer você recuperar o seu alto astral. Eu não desisto tão fácil assim, Lucy.

— O que você pretende se eu disser sim? Não irá me expor daquela forma como fez agora lá no restaurante, não é mesmo? — Ele negou com a cabeça e com um sorriso travesso nos lábios.

— Apenas confie em mim. — Seu tom me fez pensar que ele estava tramando alguma coisa, pior que eu nem imaginava o que poderia ser.

— Incrível esse seu poder de persuasão. — sorri — Está bem. — Respondi quase a contra gosto. Eu vi no brilho dos seus olhos uma trama contra mim, era como se eu o conhecesse há décadas. Torcia para não me arrepender por ter aceitado.

— Ótimo! Então amanhã quando você largar te levarei ao tal lugar, certo?

— Claro! Espero não me arrepender por isso. — Respirei fundo.

— Na verdade você irá me agradecer. — Disse com uma convicção que quase me convenceu.  Quase.

Sorri com o seu tom convencido. 

— Ok senhor convicto. O papo está ótimo, mas agora tenho que ir.

— Ah... — Fez biquinho fingindo lamentação, e eu ri mais uma vez — Se bem que já está um pouco tarde mesmo. — Disse quando olhou para o relógio prateado de pulso.

Descemos para o térreo, entramos no carro e Michael deu partida rumo a onde eu morava. Durou cerca de uns 25 minutos para que chegássemos, e entre tantos assuntos banais que conversávamos, eu nem tinha me dado conta que Michael sabia exatamente o endereço. — Mas como pode isso?

— Prontinho, está entregue. — Disse quando parou e desligou o carro.

— Michael? —franzi o cenho — Como sabe que moro aqui?

Ele riu balançando a cabeça.

— Ué... Você é sobrinha do Mario, e eu já vim aqui antes.

— Ah... Entendi. Bem... Na verdade eu sou sobrinha mulher do Mario, sabe?

— Sério?

— Sim, mas eu o considero como um tio também. Mas em fim... Tenho que entrar. — Disse e o silêncio permaneceu por alguns instantes dentro do caro enquanto olhávamos intensamente um para o outro.

Desvencilhei os meus olhos dos de Michael e abri a porta do carro, mas antes que eu pudesse sair, senti a mão dele segurar no meu braço delicadamente.

— Lucy? — Virei-me para olhá-lo. — Você está esquecendo algo. — Disse com a voz delicada e sensual. Meu Deus. Fiquei gelada, não... Fiquei verde ou todas as corres possíveis. Senti meu coração acelerar com o toque da sua mão. Mas que droga era aquela? Por que eu estava assim?

Ele se esticou para capturar minha bolsa que estava no banco de trás que eu havia deixado quando descemos do carro para subir no prédio, e logo depois me entregou.

— Sua bolsa. — Disse, e eu senti certa tranqüilidade quando se tratava da bolsa.

— Obrigada... — Agradeci murmurando.

Vi ele se inclinar — agora para perto de mim — e senti um beijo castro queimando a minha bochecha.

— De nada, Lucy. Vejo você amanhã. — Assenti e saí do carro. Acenei para ele quando já estava na porta da casa, ele sorriu com aquele sorriso galanteador e foi embora.

Nossa... Aquela noite tinha sido a noite das surpresas, intensa e cumprida para mim.




Capítulo 9

Michael

Quando cheguei ao meu apartamento, tratei logo de tomar um banho e me deitar na minha enorme cama confortável. Ajeitei o meu travesseiro, apoiei minha cabeça e me virei ficando de decúbito dorsal enquanto olhava para o teto pensando na Lucy. Sim, ela estava tomando a metade dos meus pensamentos, e cada vez que fazia isso um sorriso despontava-se nos meus lábios.

Só de lembrar-me daquele sorriso lindo e ainda sim com um resquício de tristeza na ponta, alegrava minha cabeça, assim como alegrara esses dois dias que nos conhecemos. Mas como uma garota tão linda com ela sofria tanto? E por quê? Mas eu estava disposto a ajudá-la, e como ela não quis falar sobre o tal assunto, eu teria que ser bastante solícito para descobrir o que a traumatizava.

(...)

— Acorda Michael! — Ouvi a voz da minha mãe enchendo os meus ouvidos. — Anda Michael!

Abri meus olhos lentamente e a vi parada, de braços cruzados olhando para mim, esperando eu me levantar. Droga, pior que se eu não fizesse isso, ela iria ficar me sacudindo até eu estar de pé. 

— O que faz aqui tão cedo? — Murmurei — Ou melhor, como entrou aqui?

— Michael, eu sou a sua mãe. — Ressaltou — Inclusive a recepcionista que me meu a chave do seu apartamento sabe disso. — Disse irônica.

— A senhora não respondeu a minha pergunta? O que faz aqui tão cedo? — Perguntei em meio ao bocejo.

— Seu pai disse que você fez uma pequena apresentação ontem?  Michael, você está bem?

— Melhor impossível. Por quê? — Perguntei tranquilamente, levantando-me da cama e ainda um pouco sonolento. Calcei meus chinelos e me conduzi até o banheiro para escovar os dentes. Ela veio atrás de mim.

— Não sei. Talvez porque fazia tempo que você não se apresentava... Por você ter ido atrás da nova garçonete e não ter voltado mais. — Agora ela insinuou. Como as notícias correm rápidas!

Olhei para ela que estava encostada na porta do banheiro e franzi o cenho. Logo deduzir que minha mãe tinha ido ao meu apartamento para falar da Lucy. Terminei de escovar os dentes, saí do banheiro e fui para a cozinha com ela me seguindo.

— O que quer saber dona Kathe? — Perguntei enquanto vasculhava a geladeira à procura de alguma coisa. 

— O que está acontecendo. Por que você decidiu tocar ontem? — Eu continuava vasculhando a geladeira. — Michael?! — Chamou a minha atenção. — Está me ouvindo?!

— Estou. — Virei-me com as mãos vazias. Meu suco de laranja havia acabado. — Queria ajudar uma pessoa. — Eu disse enquanto colocava uma chaleira com água no fogo para preparar um café, já que não tinha suco.

— Ajudar uma pessoa?

— Sim. Lucy, a nova garçonete do restaurante. — Murmurei e sentei-me na mesa, e logo ela fez o mesmo.

— E por quê?

— Por que sinto que ela merece. Ela precisa — Eu disse olhando para o mármore da mesa enquanto me lembrava dela. — Ela não é comum. Tem alguma coisa dentro de si que eu não sei como chamar.

— E o que tocar tem a ver com isso?

— É uma longa história mãe.

Ouvi a minha mãe suspirar hesitante antes de voltar a falar.

— Michael, você está... Ficando com essa moça? — Perguntou.

— O que? Não, é claro que não.

— E por que esse interesse?

— Mãe, quando presenciei ela tocar pela primeira vez eu me aproximei e a elogiei, mas ela negou que sabia tocar bem. E eu não entendi o porquê daquilo.

— E...? — Arqueou as sobrancelhas esperando que eu desse continuidade.

— E que ela toca, só não toca como também canta, e muito bem. — Enfatizei. — E isso de alguma forma a deixa triste. — Concluí.

— Triste? Como? — Minha mãe ainda parecia não entender.

— Não sei direito, mas quando se trata de música ela parece voltar ao passado, um passado que trás lembranças dolorosas.

— Você deve está exagerando, Michael!

— Não, não estou. Tanto que ontem à noite eu a chamei para subir no palco, e sabe o que ela fez? Ficou estática e depois saiu correndo. Ela simplesmente fugiu da situação.

— Aí você foi atrás dela?

— Sim, por isso eu saí atrás dela. Quando a encontrei ela estava quase chorando. Puxei assunto e ela disse que aquilo lhe deixava triste. Eu me senti culpado por tê-la colocado naquela situação.

— Mas acredito que você não teve culpa.

— É, talvez não, mas eu deveria ter percebido quando a vi pela primeira vez e quando toquei no assunto enquanto tomávamos um café.

— Você já tomou café com ela? — Franziu o cenho. Estava surpresa.

— Eu a encontrei por acaso e a convidei para tomar um café. Mas isso não vem ao caso agora.

— Ainda acho que você deve estar exagerando!

— Mãe, quando a fitei nos olhos e, num lampejo de compreensão, entendi como deve ser a sua vida apesar de não saber o que aconteceu com ela. Acredite, ela sofre com isso.

Minha mãe revirou os olhos e respirou fundo.

— Sabe o que eu acho? — Apoiou os cotovelos na mesa. — Que você está apaixonado. Michael, você está apaixonado por essa moça?

Me senti um pouco desconfortável com essa pergunta.

— Eu só quero ajudá-la, só isso. — Me levantei para tentar disfarçar e me direcionei ao fogão para preparar o café.

— Michael, eu te conheço. — Sorriu. — Eu sabia que algo estava te prendendo aqui. Claro... É essa tal de Lucy! É esse o nome dela, não é?

Sorri e fiquei calado até terminar de coar o café, enquanto minha mãe ficava deduzindo em alto suas possibilidades.

— Michael? Está me ouvindo? — Chamou minha atenção.

— Até por demais, dona Kathe. — Voltei para a mesa colocando duas xícaras com café sobre a mesma e me sentei.

— Mas me diga meu filho. Ela é bonita? — Seus olhos brilhavam com a curiosidade enquanto tomava um gole.

— Sim, muito bonita. — Respondi levando a xícara até os meus lábios, e também tomando um gole.

— E como ela é?

— Ah, ela é esguia, pele bronzeada e delicada, é... Seus cabelos são cumpridos... — Dizia lembrando-me de cada detalhe de Lucy. Tenho certeza que meu semblante estava abobalhado nesse momento. — Seus olhos... São negros e...

— Eu disse! — Me interrompeu. — Você está caidinho por essa moça.

Não nego que a Lucy chamou muita a minha atenção, mas não, não era paixão, ainda. Só nos conhecíamos há dois dias e eu não queria me precipitar em relação aos meus sentimentos. Mas de qualquer forma eu tinha que me aproximar mais dela, e era isso que eu estava disposto a fazer.

— Tá, dona Kathe. Ela é bonita e encantadora. Apesar do seu jeito um pouco fechado. — Confessei para a minha mãe. — Ela chamou a minha atenção. — Ela abriu a boca hesitante em falar.

— Michael... Cuidado filho, você viu no que deu com a Sara e...

— Mas ela está longe de ser como a Sara. — Interrompi-a. — Ela é diferente.

— Hum... Sei não viu! — Me olhou feio. — Por via das dúvidas, eu quero conhecê-la. — Esbugalhei meus olhos.

— O que?

— Sim. Preciso saber quem é a mulher que está roubando o coração do meu filho.

— Ah mãe. Lá vem você com essa! — Revirei os olhos.

— Se você não levá-la lá em casa, eu irei até o restaurante. — Me ameaçou.

— Está bem. — Me rendi. — Mas não hoje.

— E por que não?

— Porque a levarei para um lugar especial depois que largar.

— Está vendo. Você está apaixonado! — Exclama mais uma vez.

— Desisto mãe. — Digo revirando os olhos. — Vamos mudar de assunto. E o meu Pai? Já foi para o restaurante. — Perguntei.

— Quando acordei, ele já não estava mais na cama. Então acredito que sim.

— Ah... — Tomo mais um gole do café. — Vou ajudá-lo com os assuntos do restaurante.

— Claro que vai. Principalmente agora que tem um motivo para ficar por lá. — Se expressou, deixando subentendidas suas palavras

— Já vi que a senhora vai ficar me enchendo muito com essa história. — Retruquei e ela sorriu, se divertindo com a minha cara.

Passamos mais um tempinho conversando e depois que ela foi embora, eu tomei um banho, me arrumei e fui para o restaurante, apesar de saber que a Lucy só iria trabalhar pela tarde.




Capítulo 10

Lucy

— Rose? — Gritei enquanto descia às escadas. — Já estou indo trabalhar. Só um aviso: voltarei tarde. — Me direcionei até a porta, e quando estava prestes a sair, ouvi a Rose me chamar. Virei-me para fitá-la.

— O que vai fazer depois que largar? — Indagou. Estava com o cenho franzido e enxugando suas mãos em um pano de prato.

— Ah, vou dá uma volta.

— Com quem? — Já estava começando um interrogatório. Mas claro que me limitei a falar com quem iria.

— Com uma amiga lá do restaurante. Não se preocupe. Ficarei bem.

— Está bem. — Balançou a cabeça com uma expressão de quem estava achando estranho. Mas não dei bola. Apenas saí e fui para o restaurante.

(...)

O expediente foi tranquilo. Nenhum dos funcionários comentou sobre o que tinha acontecido na noite anterior, e graças a Deus o Sr. Joe também não me chamou a atenção, se não eu estaria ferrada.

Ouvi uma conversa ente os funcionários da cozinha que o Michael iria voltar a trabalhar com pai no restaurante. E sim, consegui avistar o Michael duas vezes de relance, e nessas duas vezes ele sorriu pra mim com àquele ar de quem vai aprontar. Eu apenas retribuí o sorriso timidamente e continuei com o meu trabalho.

— Lucy? — Ouvi a Sharon me chamar.  Me virei para olhá-la. — O Sr. Jackson quer falar com você. O filho. — Concluiu ressaltando “o filho”. Juro, eu juro que gelei nessa hora. O que danado o Michael queria comigo? Ainda não estava na hora de sairmos como o combinado. Mas tudo bem. Sem inquirir nada, me direcionei até o escritório e dei três leves batidas na porta e logo ouvi um “entre”. E assim eu fiz, entrei e dei de cara com Michael encostado na frente da mesa do seu pai e de braços cruzados.

— Queria falar comigo? — Murmurei, olhando para os quarto cantos da sala.

— O Sr. Joe já foi embora. Se for quem está procurando. — Ele disse quando percebeu que eu estava temendo de que seu pai aparecesse do nada.

— Sharon disse que queria falar comigo.

— Sim. Está pronta?  — Perguntou com tranqüilidade.

— Não, Michael. Meu turno ainda não acabou. — Lembrei-o.

— Acabou sim.

— E quem disse isso? — Indaguei. Ele levantou mais a cabeça e franziu o cenho.

— Eu. — Respondeu e sorriu lindamente. Ah, eu saquei. Como ele era filho do Sr. Joe também citava algumas ordens por ali. 

Limitei-me para não contestar, talvez fosse bom, só assim iríamos logo a esse lugar que ele queria me levar e depois voltaríamos para casa.

— Lucy? Você vai assim? Com esse uniforme? — Brincou com um sorriso contido nos lábios. Rolei os olhos querendo rir junto com ele.

— Vou tirá-lo ok Sr. Jackson? — Ele assentiu e eu saí da sala, me conduzindo para o banheiro sem comentar nada com nenhum dos outros funcionários. 

Tirei meu uniforme e vesti uma roupa que levei na bolsa. Uma camiseta preta com poucos detalhes, uma calça jeans justa com um detalhe rasgado no joelho e minha bota cano médio. Fui até o espelho, passei um gloss de cor nude e soltei meus cabelos. Quando saí do banheiro, dei de cara com a Sharon e com outro garçom que me olharam da cabeça aos pés.

— Uau... Já vai? — Sharon perguntou.

— É... — Pigarreei e quando olhei para o lado, o Michael vinha em minha direção.

— Vamos Lucy? — Parou ao meu lado e cumprimentou cordialmente Sharon e o outro garçom. Com certeza isso iria causar fofocas entre os funcionários depois que saíssemos. Mas que se dane, eu não devia nada a ninguém mesmo.

— Vamos! Tchau pra vocês. — Acenei um pouco acanhada e eu e Michel sairmos porta a fora do restaurante.

(...)

— Michael, para onde estamos indo? — Perguntei quando já estávamos dentro do carro a caminho de algum lugar que o Michael não quis me dizer.

— Você vai ver. — Olhou para mim por alguns instantes, sorriu e depois voltou a prestar a atenção na estrada. — Você está muito bonita. — Na mesma hora senti meu rosto esquentar com o que ele proferiu. Mas o que? Onde ele queria chegar com isso? Eu estava de jeans, bota e camiseta, e não dentro de um vestido deslumbrante.

— Obrigada. — Balbuciei.

Ficamos conversando sobre coisas sem importância e quando me dei conta, Michael estava forçando o seu GTO subir por uma pequena barreira onde dava pra ver o letreiro de Hollywood bem de perto, lá no alto do morro. Abaixei o vidro da janela do carro e fiquei contemplando o letreiro. Deus era muito, mais muito bonito de perto. Saí do meu estado de êxtase quando o carro começou a cambalear por conta do terreno áspero e íngreme. Passei meus olhos pelo o ambiente e avistei de longe uma pequena fogueira jogando pequenas faíscas no ar, e ao redor dela um grupo de pessoas sentadas no chão cantarolando alguma coisa enquanto outros tocavam violão. Era uma espécie de Luau. Tá, mas o que significava àquilo?Por que Michael me levara ali?!

— Michael? — Olhei para ele esperando uma explicação.

Ele parou o carro um pouco distante do pessoal — pois não dava para ir mais além por conta do caminho árduo — e virou-se pra mim, me fitando com seriedade.

— Olha Lucy. Ta vendo aquele cara que está tocando à esquerda da moça de blusa branca? — Apontou e eu assenti, demonstrando que estava vendo o homem. — Quando voltei pra cá ele me ligou me convidando para vir até esse evento organizado por ele duas vezes no ano. Bem, eu não queria vir sozinho, então eu conheci você. Não vamos fazer nada além de marcar presença. Está bem?

— Mas não é proibido as pessoas virem aqui? — Perguntei confusa.

— Sim, é sim, mas o Mark consegue autorização. Não se preocupe. — Disse para me tranquilizar.

Assenti um pouco receosa e saí do carro, seguido de Michael. 

— Vai se legal. Você vai ver. — Ele disse enquanto caminhávamos em direção as pessoas que continuavam cantando.

Quando chegamos perto, o homem que Michael tinha me falado nos olhou e nos lançou um amplo sorriso, e gesticulou para que sentássemos. E assim fizemos.

Confesso que quando cheguei me senti um pouco perturbada. Tá, eu sei que parece exagero, mas eu tinha perdido alguém muito importante e qualquer coisa que se relacionasse à música me deixava assim.

Apesar de saber que aquilo possivelmente iria me causar pesadelos durante a madrugada, eu decidi ficar e enfrentar à situação. Afinal, eu estava com o Michael e ele disse que iria me ajudar com isso. E então, fugir para que?

Mais de meia hora se passou e aquele pessoal ainda não parava de cantar, agora ao som de More Than Words de Extreme. Até que comecei a ficar à vontade quando vi todos interagindo com os que estavam tocando violão. Olhei para o Michael que estava sentado ao meu lado, com um sorriso largo no rosto e cantarolando junto com as outras pessoas. Acho que ele nem percebeu que eu o observava.

Quando a música acabou todos começaram a aplaudi e os burburinhos ecoaram pelo ambiente.

— Aí pessoal? Intervalo de 5 minutos. — Disse um dos homens que estava tocando violão. As pessoas assentiram e começaram a se entreter com outra coisa— Aí, Michael? Não vai me dá um abraço não parceiro? — O homem perguntou brincando enquanto se levantava. Seguido disso, Michael levantou e abraçou o homem. Sim, claro que eu também me levantei.

— Cara... Você está ótimo, Nick. — Michael disse quando os dois desfizeram o abraço.

— Você também, Michael. — Olhou para mim. — Sua namorada? — Minhas bochechas esquentaram quando o tal do Nick perguntou fazendo um gesto de cabeça para mim.

— Não, Lucy é só uma amiga. — Michael respondeu me olhando com veemência.

— Ahm... É, somos só amigos. — Eu tinha ficado vermelha e tímida.

— Ah, sério? — Nick franziu o cenho. — Que pena, vocês formam um belo... — Limitou-se a completar o que dizia. — Esquece! Aí, cara, é bom te ver. — Tocou no ombro de Michael. — Vou ali tomar uma água. — Michael assentiu e Nick começou a se distanciar de nós.

— Aí Nick — ele virou nos olhou — Você ainda vai tocar?

— Eu? Não, não. Meus dedos já estão doendo. — Sorriu — Vou deixar os outros manos tocarem. Por quê? — Michael olhou para mim muito hesitante do que estava prestes a fazer.

— Me empresta seu violão? — Arregalei os meus olhos quando Michael fez tal pedido. Mas o que ele estava fazendo? 

— Claro. — Nick pegou o violão do chão e deu para Michael. — Toma conta do meu bebê. — Brincou, Michael assentiu e Nick saiu do nosso campo de visão.

Michael apenas olhou para mim novamente com aquele rostinho sapeca, pegou na minha mão e começou a andar, puxando-me com ele, subindo pelas barreiras com cuidado levando o violão junto até chegarmos ao letreiro de Hollywood. E o incrível foi que eu permiti que ele me levasse consigo sem protestar absolutamente nada.



Capítulo 11

Lucy

— Michael, o que você vai fazer? — Perguntei temerosa da resposta.

— Tocar. — Respondeu tranquilamente.

— Tocar?

— Lucy, — virou-se para mim. — confie em mim.

Michael sentou-se no chão próximo a primeira letra L do letreiro, encostou-se na mesma e gesticulou para que eu fizesse o mesmo. Nossa, era muito grande aquelas letras. Eu fiquei olhando-o, esperando que ele começasse a tocar assim como tinha dito, mas para a minha surpresa ele não fez nada além de posicionar um acorde na primeira casa — de maneira errada — e ficar me enrolando com um ridículo dedilhado nas cordas primas. Não, absolutamente o Michael não sabia tocar violão.

— Lucy? — Murmurou por mim.

— O que é Michael?

— Eu acabei de lembrar que eu não sou muito bom com violão. Poderia tocar alguma coisa pra mim. — Eu deveria ter imaginado. Ele fez isso de propósito.

— Eu não sei tocar violão, Michael. — Eu disse.  Ele me olhou com aquela cara de reprovação. Ele sabia que eu estava mentindo.

— Você sabe sim. — Disse com um sorriso sagaz. Pegou na minha mão e começou a analisar as pontas dos meus dedos. — Você tem rastros de calos na ponta dos seus dedos. Isso denuncia você. — Merda! Michael descobria tudo sobre mim.

— Eu já disse que não posso tocar. Vem cá. Por acaso você me trouxe aqui já para isso?

— É... Talvez. Eu já disse, eu só quero ajudar você Lucy. Acho que já está na hora de dar o primeiro passo. — Disse e estendeu o violão para que eu apoiasse nas minhas pernas. — É só um violão.

Olhei seriamente para ele e puta merda! Ele tinha razão. Era só um violão, e eu tinha apenas que formar alguns acordes e encaixá-los em uma melodia. Pronto.

Cruzei minhas pernas e ainda muito hesitante posicionei o violão sobre as minhas coxas, formei um acorde segurando firme no braço do violão e fiquei paralisada por alguns instantes, segundos, minutos talvez.

— O que você quer que eu toque? — Perguntei.

— O que você quiser. — Fora a única coisa que Michael respondeu enquanto continuava olhando para mim, muito ansioso para que eu começasse a tocar.

Então está bem, ele disse que eu tocasse o que quisesse. Então, que assim seja.

Com muito esforço, me obriguei a fazer os primeiros acordes. O som das cordas ainda saia um pouco tímido devido à timidez que estava sentindo com Michael me olhando daquele jeito.

— Vamos lá Lucy, eu sei que você pode fazer mais do que isso. — Quis me incentivar, e conseguiu. Ele estava coberto de razão, eu sabia mais do que aquilo. Nas minhas veias corria música e estava na hora de eu deixar meu coração bombeá-la mais uma vez.

Coloquei minha mão sobre todas as cordas e quando o som já estava todo abafado, posicionei um novo acorde e voltei a tocar, só que dessa vez outra música, uma que eu gostava bastante.

Michael ficou me olhando com muita atenção, e parecia maravilhado enquanto eu tocava.



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Quando terminei de tocar, Michael começou a aplaudi, me deixando vermelha como um pimentão. Timidamente, deitei o vilão nas minhas pernas e comecei a batucar com as unhas nas costas do mesmo, enquanto evitava o contato visual com Michael.

— Ei — segurou no meu queixo e levantou minha cabeça para fitar meus olhos — Eu juro, eu juro que eu não fazia ideia que você era tão boa com um violão quanto é no piano. — Sua voz demonstrava admiração.  — Vo... Você é maravilhosa. — Abri um sorriso contido.

— Obrigada. — Agradeci.

— Mas me diga uma coisa. Guns N’ Roses? — Frisou a pergunta. Ergui minha cabeça e o fitei.

— Não. Bob Dylan.

— Sério? — Perguntou de cenho franzido.

— Sim. Sério que você não sabia?

— Sempre pensei que essa letra fosse do Guns.

— Muitas pessoas pensam. Mas é do Bob, e foi regravada por diversos artistas, dentre os quais a banda Guns, Eric Clapton, Babyface e muitos outros.

— Ah... — Esticou o murmúrio, e ficou me olhando com um magnetismo, enquanto eu sentia meu coração acelerar. Juro que tentei desvencilhar meus olhos dos seus, mas o imã que estava entre nós naquele momento não me permitiu.

— O que foi? — Finalmente consegui pelo menos balbuciar alguma coisa, mas tenha a certeza de que foi com muito esforço. Não era pra menos, o Michael estava me olhando com toda aquela veemência que comecei a me senti perdida nos seus olhos.

— Você! — Michel parecia está em estado de hipnose. Sua voz era um pouco rouca no momento e ao mesmo tempo suave.  

Eu não falei nada, ainda estava presa naquele olhar.

A noite estava linda, e lá do alto, parecia que a lua estava mais perto da terra do que o normal, e as estralas estavam mais nítidas, no mesmo tom da cumplicidade da noite.

O vento estava forte lá no alto que o seu ímpeto batia nos cabelos de Michael, fazendo os mesmos ficarem voando, deixando-o muito, mais muito sexy. Meu Deus, eu estava pensando nisso mesmo? 

Com muita lentidão, Michael tirou o violão de cima das minhas pernas e o encostou do outro lado na letra L do letreiro. Eu não imaginava no que ele estava prestes a fazer, mas comecei a ter uma noção quando ele começou a se aproximar de mim e quebrar a nossa conexão, desviando seus olhos para os meus lábios que estavam entre abertos tentando proferir algo.

Eu fiquei paralisada, porque simplesmente eu não sabia como reagir naquele momento, e juro que fiquei gelada quanto senti os dedos de Michael tocarem no meu rosto e colocarem uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.

— Michael, o que está fazendo? — Murmurei a pergunta, mas Michael parecia não entender direito.

— Você é tão linda. — Meus batimentos já estavam tão exagerados nesse momento que pensei que meu coração iria sair do lugar. — Que droga Lucy.  Eu desejo tanto beijar esses seus lábios. — Disse com seriedade e voltou a me encarar. Eu fiquei abobalhada com o que ele acabara de dizer, e mais ainda por sua sinceridade. Fiquei sem reação quando ele espalmou sua mão entre minha bochecha e minha linha mandibular com mais firmeza, e começou a aproximar seu rosto do meu. Eu já estava totalmente desprovida de forças, conseguia apenas senti sua respiração forte e seu hálito quente tocando levemente meu rosto enrubescido. Droga... Foi nesse momento que eu também comecei a senti uma vontade desesperadora de beijá-lo. Mas eu tinha que me conter.

— Acho melhor voltarmos... Lá pra baixo. — Pigarreei, mas Michael não estava nem aí com o que eu dizia, continuava devorando meus lábios apenas com os seus olhos.

— Espero que me desculpe, mas eu não consigo mais aguentar essa ânsia torturante, Lucy. — Disse com a voz sedutora e antes mesmo que eu pudesse impedir algo, seus lábios quentes já estavam sobre os meus, beijando-me com uma ternura inimaginável. Logo ele começou a pedi passagem com a língua, e nesse momento minha boca parecia ter ganhado vida própria quando se abriu e recebeu a língua de Michael com vontade, com volúpia. Minhas mãos voaram para seus cabelos e meus dedos penetraram em seus cachos, apertando mais seus lábios nos meus.

Michael pôs uma de suas mãos na minha cintura e apertou firme, logo nos levantamos do chão nos beijando. Sim, eu estava totalmente entregue a esse beijo que tenho que admitir que estava muito gostoso, principalmente quando ele passou a se tornar em um beijo sôfrego pelo nosso desespero e cálido pela paixão intensa do momento. Sem querer, quando percebi Michael arfando, minha garganta soltou um pequeno gemido.

— Michael, — sussurrei quando consegui me soltar um pouco — o que...

— Não diga nada. — Interferiu-me e voltou a colar nossos lábios, os mesmo que sentia inchados. Acabei cedendo mais uma vez. Ele mordeu meu lábio inferior, puxando-o, depois me dando um tempo para respirar e logo me beijando de novo por muitos minutos ofegantes, até que senti um sorriso despontar-se entre o beijo, e quando finalmente consegui desfazer, olhei para Michael e ele estava sorrindo lindamente para mim.

— Lucy? — Sussurrou.

— Michael? — Sussurrei. Estávamos muito, muito ofegantes.

Ele riu de novo, uma risada linda, aquele sorriso incrível ainda no rosto. Céus, o que eu estava fazendo?


Capítulo 12

Lucy

Michael encostou sua testa na minha e eu fechei os olhos sentindo uma sensação de renovação. Ele beijava muito gostoso, e a contra gosto, tenho que admitir que degustei bem do seu beijo. Seus lábios tão macios, sua língua tão hábil. Mas eu não sabia se estava preparada para àquilo. Eu não sei!

— Eu tenho que ir. — Saí dos seus braços, mas antes que eu pudesse dar-lhe às costas, ele puxou-me pela cintura, fazendo-me soltar um gritinho por causa do impacto dos nossos corpos.

— Espera! — Nesse momento ele me olhava com uma expressão vamos supor que... Curiosa ou arrependida, talvez. Também com a cara que eu estava ele deve ter percebido que eu fiquei sem jeito. E o clima tinha ficado muito estranho entre nós.

— Michael... — Tentei falar, mas fui interrompida por ele.

— Você quer ir assim por causa do beijo? Se for... me desculpe, é que eu simplesmente não consegui me controlar e... cheguei a pensar que... você queria. — Murmurou.

— Michael, isso não deveria ter acontecido. — Michael franziu o cenho.

— Por que Lucy? Ahr... Eu beijo mal? — Perguntou e deu um sorriso sem graça.

— Não! — Respondi de imediato. — Você beija muito bem! — Ressaltei e logo em seguida, percebendo o que eu acabara de falar, me arrependi. — Quer dizer... Nada disso, Michael. A questão não é essa.

— E qual é a questão? Quero entender!

— Michael... Um dia você vai saber, mas não hoje. — Eu disse, e ele acariciou meu rosto com seus dedos.

— Vou mesmo? — Perguntou agora com um semblante sério. Eu respirei fundo, muito hesitante no que iria perguntar, mas acabei cedendo à vontade.

— Você entrou nessa por que, Michael? — Seu semblante sério passou a ficar tranqüilo.

— Você sabe o porquê, sempre soube.

— Michael, eu sou muito complicada.

— Ótimo, eu também sou. — Ele tinha resposta pra tudo.

— Eu tenho muitos problemas.

— Agora tem mais um. — Retrucou. Eu poderia até prosseguir com isso, mas acabei ficando confusa com o que ele dissera.

— Ãm?

— Tem um problema. Eu acho que estou... — Ponderou um pouco, me encarando. — Apaixonado. — Murmurou.

Esbugalhei meus olhos, atônita diante daquela confissão. Como ele poderia estar apaixonado por mim há tão pouco tempo?

— Michael, o que você está dizendo? — Murmurei.

— Isso mesmo. Eu confesso que estou apaixonado. Admito, não vejo problema nisso. — A cada palavra sentia meu rosto esquentar.

— Isso é impossível...

— É verdade, e eu não paro de pensar em você. Também é verdade que fico olhando você passar enquanto trabalha, pelas persianas do escritório do meu pai. Me desculpe, mas eu não consegui evita.

Fiquei calada, encarando-o, e depois, o que eu falei? Nada! Sabe o que é nada? Pronto, foi assim que fiquei. Tirei suas mãos da minha cintura e comecei a me afastar dele, que nem sequer me impediu.

Muitas coisas começaram a povoar na minha cabeça enquanto eu descia com cuidado pelas barreiras. Logo percebi Michael vindo atrás de mim, trazendo consigo o violão do seu amigo.

— Lucy! — Segurou na minha mão quando conseguiu me alcançar.

— Eu... Eu tenho que ir embora. — Balbuciei.

— Olha, eu sei que deve estar muito confusa, mas deixe-me levá-la pra casa. — Consenti com a cabeça e ele afastou-se de mim para entregar o violão ao seu amigo.

Enquanto ele voltava caminhando graciosamente, eu revezava meu olhar entre ele e o letreiro de Hollywood. Com certeza eu nunca iria esquece o que acontecera lá em cima. Meus lábios queriam se abrir para despontar um sorriso, mas eu obriguei-os a ficarem quietos, pois Michael estava se aproximando cada vez mais de mim.

— Vamos? — Falou comigo.

— Sim. — Assenti e entrei no carro, seguido de Michael, que logo ligou o veículo e nos tirou dali catando pneu.

(...)

O silêncio que reinava dentro do carro durante todo o percurso era monstruoso. Eu não sabia o que falar e muito menos o que fazer. Nem pro Michael eu olhei durante o caminho, e quando me dei conta já estávamos em frente a minha casa e Michael já tinha desligado o veículo.

— Chegamos. — Ele disse quebrando o silêncio.

— Muito obrigada, por... Me trazer. — Agradeci e quando me virei para abrir o carro, Michael me chamou.

— Lucy? — Eu congelei e depois me virei para olhá-lo. — Independente do que você esteja pensando, só espero que não tenha afetado nossa amizade, de poucos dias. — Destacou “de poucos dias”. Eu sorri minimamente.

— É melhor esquecermos o que aconteceu certo? — Ele assentiu. — Então nesse caso, está tudo bem.

— É. — Michael respirou fundo e soltou o ar pesado que estava preso em seus pulmões.

— Tchau. — Recebi um “tchau” de volta e me direcionei a entrada da minha casa, sem olhar para trás.

Quando já estava dentro de casa e prestes a subir à escada para ir pro meu quarto, levei um breve susto quando a luz da sala foi acesa e a voz eufórica de Rose ressoou pela sala.

— Não acredito que você está saindo com Michael Jackson!

— Rose?!

— Rose nada. — Colocou as mãos na cintura e ficou me encarando com um sorriso insinuativo. — Mas que safada você é, garota. — Esbugalhei meus olhos. — Está saindo com o Michael e nem me falou!

Me aproximei dela e franzi o cenho.

— Você estava me espionando, dona Rose? — Indaguei. Ela riu.

— Não! — Negou.

— Hum... — Lhe lancei um olhar desconfiado.

— Não vai me contar, não é mesmo? — Revirei meus olhos e puxei-a para sentar-se comigo no sofá.

— Eu e o Michael fomos a um luau essa noite. — Eu disse.

— Luau? — Perguntou de cenho franzido. Eu assenti com um gesto de cabeça. — Onde fazem uma rodinha de pessoas? — Assenti mais uma vez. — Cantando e tocando? — Enfatizou.

— Sim. — Respondi tranquilamente. Mas eu sabia o porquê da reação dela. Afinal, ela sabia que eu não queria ter nenhum contato com qualquer coisa que se relacionasse a música.

— Está acontecendo alguma coisa, Lucy? — De repente ele passou a me olhar seriedade.

— Por que a pergunta, Rose?

— Não é obvio? Você foi para um luau. — Ressaltou deixando bem claro onde queria chegar.

— Eu sei que é estranho, mas isso é bom. Está me ajudando a... Você sabe! — Frisei e dei de ombros. Ela esbugalhou um pouco os olhos a abriu a boca em um ‘O’.

— Você e o Michael fizeram... nheco nheco?  

— O que é isso? — Perguntei descrente do que a Rose havia perguntado. Que absurdo! 

— Ah, você sabe... nheco nheco.

— Somos só amigos. — Ressaltei.

— Tem certeza? Ele é muito bonito.

— Ah, Rose, sério que você está me perguntando isso? —Indaguei.

— Então... Não? — Ela perguntou com expectativa. 

— Claro que não Rose. Já disse que somos apenas amigos.

— Hum... Então ta. — Falou desconfiada. Revirei os olhos e me levantei.

— Olha, estou morrendo de sono. Vou subir. — Eu disse e ela assentiu.

Catei minha bolsa e subi para o quarto, trancando a porta do mesmo. Joguei a bolsa em um canto qualquer e me larguei sobre a cama.

— Ai meu Deus, o que está acontecendo? — Perguntei olhando para o teto. Levei minha mão até meus lábios e fiquei tocando-os, lembrando de quando eles estavam sendo tomados pelos os do Michael. Aquele mesmo sorriso que eu segurei perto dele despontou enquanto eu me lembrava do que ele dissera pra mim. Meu Deus, ele disse que estava apaixonado por mim! Eu não queria admitir, mas eu senti uma sensação boa quando ouvi a tal declaração. O que deveria fazer? Eu deveria me preocupar ou até mesmo me afastar, mas não, algo desconhecido por mim não me permitia fazer isso. E eu também não queria. Pronto, falei!



Capítulo 13

Lucy

Uma semana havia se passado, e eu e Michael tínhamos trocados apenas algumas palavras durante esse tempo. Eu só estava tentando fugir do clima chato que seria se eu e ele parássemos para conversar.

O dia amanhecera chuvoso, e durante a noite não foi diferente. A chuva não dava trégua e estava mais forte do que nunca. O restaurante estava com o movimento fraco, e isso nos deixava um pouco desocupados.

Eu tinha o visto duas vezes na noite, e nessas duas vezes eu evitei chegar perto dele, — de novo — pois ficaria sem ter o que falar por conta daquela beijo. E quando percebia que ele tentava se aproximar de mim, eu fugia para outro lugar do restaurante.

— Então quer dizer que você e o Michael não estão mais saindo? — Ouvi a Sharon me perguntar.

— Não estávamos saindo coisa nenhuma, Sharon. — Repreendi-a. — Só fomos há um lugar na sexta-feira. Somos amigos. Só isso!

— Sei... — Sibilou irônica. — Mas mesmo assim, se ele te der uma oportunidade, agarre-a. Além de ser lindo, ele é um bom homem. — Ressaltou e saiu de perto de mim, deixando-me confusa. O que ela quis dizer com isso? — Perguntou meu consciente.

(...)

Finalmente tinha largado, e mesmo com a chuva forte que caia lá fora, eu saí do restaurante, indo para a parada do ônibus. A rua estava escura e o guarda-chuva que eu usava para me proteger da água estava quase se quebrando por conta do vento forte. Continuei andando até que percebi um carro se aproximar de mim, fiquei assustada e comecei a acelerar os passos. O carro acelerou e quando chegou mais perto percebi que se tratava de Michael com o seu GTO. Parei e ele abriu a janela.

— Entra aí! — Ele gritou para se fazer audível.

— Eu estou bem! — Gritei em resposta.

— Anda logo Lucy. A chuva está piorando! — Voltou a gritar.

— Eu já disse que estou bem. Não se preocupe. — Enalteci minha voz.

A chuva estava cada vez mais forte, e sempre acompanhada por dois itens bônus, denominado como relâmpagos e trovões.

Michael arrastou o carro me acompanhando e abriu a porta.

— Entra logo Lucy! — Ordenou com delicadeza. Olhei para o céu e um relâmpago clareou o mesmo. Voltei a olhar para Michael, e sem mais hesitar, entrei no veículo e fechei a porta do mesmo. — Doeu? — Perguntou sarcástico e sorriu em seguida, arrancando o carro.

— Haha, muito engraçado. Eu estava bem, Michael. — Ele me olhou dos pés a cabeça e sorriu balançando a cabeça. — O que foi?

— Você está toda ensopada e diz que estava bem. — Sorriu — Não estava não.

— Mas eu estava. — Eu disse relutante.

— Não mesmo. — Repreendeu-me.

O silêncio surgiu por alguns instantes e Michael decidiu quebrá-lo.

— Foi impressão minha, ou você estava fugindo de mim no restaurante? — Perguntou. Eu gelei nessa hora.

— O que?! Não! — Pigarreei. — Por que eu fugiria de você?

— Por causa do que aconteceu naquele dia. Do que eu te disse e...

— Não, nada a ver. Eu só...

— Está com medo. — Concluiu por mim.

— É... Mas como já conversamos sobre isso, vamos esquecer esse assunto. — Ele assentiu calado, balançando a cabeça sem tirar os olhos da estrada.

— É... Lucy? Temos um problema. — Parou o carro e olhou para mim. — A estrada que leva à sua casa é muito perigosa em tempo de chuva.

— E? — Arqueei as sobrancelhas.

— Significa que vamos para o meu apartamento.

— O que?! — Olhei para ele de imediato com os olhos bem abertos.

— É o único jeito. A não ser que você queira arriscar.

— Mas...

— Calma, Lucy. — Repreendeu-me. — É só por causa da chuva. Não vamos fazer nada de mais. Já conversamos sobre aquele assunto não foi? Amanhã bem cedinho eu te levo para casa.

É... Se bem que a chuva estava muito forte e a estrada poderia está muito perigosa, assim como o Michael disse.

— Está bem. — Assenti, e em menos de 10 minutos já estávamos no apartamento de Michael.

— Fique à vontade. — Ele disse quando entramos no apartamento.

Era pequeno, porém bonito, organizado e requintado. Transmitia aquele ar másculo pela decoração. As paredes eram de cor neutra um pouco escura. Só havia uma pequena divisão entre a sala e a cozinha por um balcão de mármore. Percebi que só havia um quarto com uma porta de correr enorme de madeira.

Mas espera aí. Só há um quarto. Onde é que eu vou dormir? — Indagou meu consciente. 

— Você mora aqui sozinho? — Perguntei.

— Sim. — Respondeu tranqüilamente. — Por quê?

— Por nada. — Ele me olhou de cenho franzindo, e seguido disso, virou-se e direcionou-se para o quarto. Quando voltou, me estendeu uma toalha, uma calça casual e um blusão retilíneo.

— Vista essa roupa. Se não pegará um resfriado. — Saiu da minha frente, estendeu a mão, apontando-a para o quarto. Eu assenti e fiz o que ele pediu. Entrei no quarto e fechei a porta. E assim como a sala e a cozinha, o quarto também era muito bonito e organizado.

Me despi, peguei minhas roupas ensopadas e as estendi em um pendurador de roupas que havia perto de uma porta, logo deduzir ser o banheiro, e antes de vesti as roupas que ele me dera, levei-as até meu rosto e inalei o cheiro que estava impregnado nelas. Sim, as roupas eram de Michael, e por Deus, seu cheiro era inebriante.

Alguns minutos depois, saí do quarto vestida com a calça e o blusão que ele me dera. Michael estava sentado, em frente ao balcão da divisão entre a sala e a cozinha com uma xícara de café nas mãos.

— Olha só. Caíram bem em você minhas roupas. — Disse sorrindo ao me vê.

— Isso quer dizer que você é magrelo assim como eu. — Referi brincalhona. Ele sorriu.

— Café ou chocolate quente? — Arqueou as sobrancelhas.

— Chocolate quente! — Me aproximei dele e sentei-me ao seu lado. Ele pegou uma xícara e me serviu com o chocolate.

— Quer comer alguma coisa?

— Não. Muito obrigada. Só isso está ótimo.

— Tá bem. — Assentiu e levou a xícara até seus lábios, tomando até o último gole do café. Colocou a xícara sobre a mesa de mármore e se levantou. — Olha, eu vou dormir aqui no sofá e você dorme no quarto.

— Não Michael. Não precisa se preocupar com isso. Eu ficarei bem no sofá.

— Eu sou um cavalheiro, Lucy. Não deixarei você dormir no sofá enquanto eu durmo em uma cama enorme e quentinha. Mas não mesmo. Já está decidido. Eu fico na sala e você no quarto.

— Mas...

— Shiiii... — Sibilou. — Não tente me contrariar. — E entrou no quarto. Não deu nem tempo de eu protestar. Eu não queria incomodá-lo.

Nessa hora aproveitei para ligar para a Rose e avisar que não iria pra casa, claro que ela ficou perguntando muitas coisas a mim, mas prometi que contaria o que aconteceu quando eu chegasse em casa. E ela só sossegou quando disse murmurando que estava com o Michael. Ela ficou eufórica com isso.

Minutos depois, quando Michael saiu do quarto, estava vestido com uma calça moletom cinza, um pouco caída nos seus quadris, uma camiseta de cor branca, descalços e com os cabelos soltos e molhados caindo sobre seus ombros. Logo contatei que ele tomara um banho pelo o cheiro do sabonete que o ar trazia até minhas narinas. Ele também trazia consigo uma almofada e um cobertor.

— O quarto já está livre pra você. — Disse, e soltou a almofada e o cobertor em cima do sofá.

— Ah Michael... Urgh. — Grunhi, revirando os olhos. — Só você mesmo.

— É... Só eu mesmo. — Sorriu e ligou a TV. Estava passando um programa humorístico muito legal. Eu adorava. 

‘Se algo de bom acontecer, beba pra comemorar. Se algo ruim ocorrer, beba pra esquecer. Se nada acontecer, é só beber que acontece alguma coisa! — Um dos personagens do programa falou. Michael gargalhou exageradamente.

— Pensei que só eu gostava desse programa. — Falei se aproximando do sofá.

— O que? Eu adoro esse programa. — Olhou pra mim. — Anda, senta aí. — Se encolheu no sofá e virou seu olhar para TV.

Eu fiz o que ele pediu. Sentei-me ao seu lado e fiquei assistindo com ele. Gargalhamos muito com o programa, parecíamos duas crianças assistindo desenho animado de tanto ri. Um tempo depois fui perdendo a consciência, só sei que minhas pálpebras ficaram pesadas e acabaram se fechando. E assim, acabei dormindo no sofá, onde que por sinal, Michael estava do meu lado.



Capítulo 14

Lucy

Estava um silêncio, só se fazia audível o ímpeto do vento na janela e a chuva caindo lá fora. Sentia-me confortável e quentinha em uma cama. Abri meus olhos e percebi que estava no quarto de Michael. Não me lembro de ter ido para o quarto, só de ter pegado no sono ainda no sofá. Então quer dizer que... Ele me pôs na cama. — Fiquei vermelha ao constatar isso.

Me descobri e me levantei. Abri a porta do quarto com cuidado e comecei a andar pela sala. E o que porra eu estava fazendo? Eu poderia ter ficado na cama e continuar dormindo, mas eu queria vê-lo, vê-lo de olhos fechados, dormindo. Com todo cuidado, me aproximei do sofá e me ajoelhei em frente de Michael que estava dormindo feito um anjo. Impressionante como ele era lindo ainda dormindo.

Fiquei contemplando por mais alguns instantes o seu rosto angelical, seu maxilar quadrado com um pequeno furinho no meio do queixo, nariz fino, seus cabelos desgrenhados caídos sobre seu rosto e sua boca bem desenhada com lábios carnudos convidativos. Mordi meu lábio inferior ao me lembrar do quão gostoso eram. — Por que eu reajo dessa forma perto dele? Porque você está se apaixonando por ele sua boba! — Meu subconsciente ressaltou respondendo a minha própria pergunta. Tomei um susto com o meu próprio pensamento e me levantei. Em um ato brusco bati sem querer com o pé no centro da sala, fazendo Michael acordar aos poucos.

— Lucy? — Paralisei quando ouvi sua voz preguiçosa e sonolenta me chamar.

— Michael... É... — gaguejei — Desculpe te acordar, eu...

— Está sem sono? — Perguntou, sentando-se no sofá.

— Is... Isso. — Respondi.

— Ah... — Murmurou e franziu o cenho. — Quer fazer alguma coisa; assistir um pouco, sei lá... Pra ver se consegue dormir?

— Ah não... Não se preocupe, eu... Vou deitar e vou tentar dormir.

— Tá bem. — Respondeu e voltou a deitar.

Dei às costas, indo em direção à porta do quarto, mas me lembrei de uma coisa que me fez voltar.

— Michael? — Chamei sua atenção e ouvi um leve grunhido saí de sua garganta. — Você me colocou na cama? — Perguntei timidamente. Ele voltou a se sentar no sofá e me olhou.

— Sim. — Ergui minhas sobrancelhas. — Eu disse que não deixaria você dormir no sofá. — Respondeu com uma expressão serena.

— Ãh... Então, eu acho melhor eu... Ir dormir. — Disse eu, e girei nos calcanhares, entrando no quarto e fechando a porta. Eu não sei o que foi que aconteceu, mas uma vontade súbita de ir até a sala e beijá-lo percorreram dentro de mim, que eu não iria consegui me segurar por muito tempo. Eu juro, eu juro por tudo que é mais sagrado que eu lutei comigo mesmo, mas perdi minha própria batalha e abri a enorme porta bruscamente, fazendo Michael levantar a cabeça assustado; confuso e franzi as sobrancelhas. Agora era a minha vez de tomar à frente.

Sem tirar meus olhos dos seus, caminhei lentamente até ele, e quando cheguei perto, ele se levantou e ficou frente a frente comigo, com o semblante muito confuso.

— Lucy? — Murmurou.

— Se o que me disse foi verdade, tem essa noite para me provar. — Eu disse sem resquício de arrependimento em minhas palavras. Era agora ou nunca. 

Michael meneou a cabeça e tocou no meu rosto com delicadeza. Fechei meus olhos, apreciando o seu carinho.

— Não quero que se sinta culpada porque me apaixonei por você, Lucy. — Disse brandamente.

— Mas não estou. — Senti Michael respirar fundo quando o retruquei. — O que está esperando Michael? — Murmurei, e como resposta recebi um leve selinho nos meus lábios.

— Esperei por esse momento desde a primeira vez que te vi. — Murmurou com sua testa encostada na minha, enlacei seu pescoço com meus braços e ele encostou de vez nossos lábios, dando início ao nosso segundo toque.

Seu beijo era calmo, molhado e sexy. Ele me beijava devagar, deixando as marcas de sua língua por cada cantinho da minha boca. Logo começou a levantar o blusão que eu estava usando, até que finalmente fiquei só de sutiã. Michael parou no tempo e ficou admirando meus seios. Depois ele tirou suas mãos de mim por uns instantes e também se livrou da sua camiseta. Meus olhos moveram-se para o seu abdômen magro, porém definido, e ele sorriu ao me vê minha expressão de aprovação. — Confesso que fiquei fascinada por seu físico. — Michael começou a beijar meu pescoço, trilhando até um dos meus ombros, enquanto abaixava as alças do meu sutiã. Pus minhas mãos no fecho do meu sutiã e o desfiz, seguido disso, estiquei meus braços e ele retirou-o, deixando-me completamente nua, da cintura pra cima. Ele ficou me olhando, e delicadamente começou a passear seus dedos por minha pele, começando pelo o meu colo até meus seios, massageando-os deliciosamente.

— Você é tão... Linda. — Disse com a voz suave, porém sexy.

— Ah... Michael... — Gemi e fechei meus olhos, apreciando suas carícias. Senti sua respiração forte, e quando me dei conta, Michael tinha se inclinado para sussurrar no meu ouvido.

— Se eu começar, não irei parar! — Salientou entre lufadas de ar. Senti seus lábios tocarem no nódulo da minha orelha.

— E não é pra parar mesmo. — Deixei claro, e vi através da expressão de Michael que ele se agradara com que eu proferi.

Em um ato desesperador, Michael afastou o centro da sala e jogou sobre o tapete sua almofada. Depois disso, ele mesmo se livrou de sua calça e de sua Box, ficando completamente nu, sem pudor na minha frente. Nossa, esbugalhei meus olhos com a vista que tive. Ok, Ok... Eu não era mais virgem, eu sei, mas Michael seria meu segundo homem, e o primeiro não era tão... Grande quanto Michael. Além de seu pênis ser grande, era grosso e estava muito ereto. Céus, como aquela visão me dava uma ânsia de tê-lo dentro de mim.

Michael ficou de joelhos no tapete e me chamou com um gesto, com o dedo indicador, enquanto prendia seu lábio inferior entre os dentes.

Eu não queria mais esperar, eu já tinha entrado na chuva e queria mais era me molhar mesmo. Então logo me livrei da calça e da minha calcinha e fui de encontro a ele, ficando de joelhos. Selei nossos lábios mais uma vez. O beijo dessa vez era urgente e cheio de tesão, nossas línguas se enroscando. Michael me deixou sobre o tapete e se acomodou entre minhas pernas, me fazendo senti sua ereção roçar na minha intimidade. Ele me pressionou e eu gemi, fechando os olhos. Logo ele abocanhou meus seios, mordendo e chupando lentamente meus mamilos, me provocando. Eu segurei seus bíceps enquanto me contorcia com suas carícias. Eu quase que não estava acreditando que estava prestes a foder, transar, fazer amor ou que porra que fosse com o Michael Jackson.  Só sei que seria muito bom.

Olhando nos meus olhos, e sem dizer nada, continuou me beijando, cada vez mais apaixonado, mais intensamente, até que senti Michael tocar no meu clitóris, estimulando-me, e minha entrada ser alargada um pouco pela glande lubrificada do seu pênis. Mordi meu lábio inferior e franzi um pouco o cenho pelo o desconforto inicial que tive. Michael percebeu e levou sua mão até meus cabelos, afagando-os.

— Vai ficar tudo bem. Eu prometo. — Ele disse me olhando com fascínio, e me beijou carinhosamente. Eu senti certa confiança em suas palavras, e instantaneamente, abri mais as minhas pernas e o senti me penetrar mais, bem devagar. Ele tocou meus seios, enquanto me penetrava até o fim. Quando já o feito, retirou seu pênis de dentro de mim, e em um movimento súbito voltou a me penetrar em uma única estocada. Eu gemi gradativamente até meu corpo se acostumar com aquela sensação de preenchimento.

— Ah sim... 

— Você gostou? — Perguntou. 

— Hurum... Continua... — Eu disse gemendo. 

Michael fechou os olhos, jogou a cabeça para trás e soltou um grunhido enquanto me penetrava mais depressa. Mexi meu quadril para acompanhar o movimento dele e isso pareceu fazê-lo perder o controle. 

— Isso... Nossa... Você é incrível. Porra Lucy, como você é apertadinha. — Disse ele aos arquejos enquanto se movia dentro de mim, fazendo-me senti centímetro por centímetro do seu pênis pulsante na minha intimidade. Eu não conseguia raciocinar, ele estava me provocando, levando-me a insanidade com frases e palavras desconexas no meu ouvido.

— Tão gostosa... — Juntou nossas mãos e levou-as acima da minha cabeça.

— Você me deixa louco sabia? — Rugiu, e antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ele já estava me beijando de novo enquanto continuava com as investidas delirantes dentro de mim. Céus, Michael era muito gostoso.

Eu queria tocá-lo, mas como ele estava segurando minhas mãos acima da minha cabeça, o que me restou foi envolver minhas pernas em volta da sua cintura.

Michael agora beijou meu pescoço e eu joguei minha cabeça pra trás. Tão desnorteada, tão entregue, tão envolvida. Ele ali, dentro de mim, me preenchendo tão carinhosamente, me levando ao delírio com seus movimentos de vai e vem e seus gemidos roucos. Ele pulsava, gemia, me apertava, me invadia com avidez e precisão, me amava, me possuía e eu era literalmente sua. Cada centímetro do meu corpo pertencia àquele homem a parti daquele momento. Sim... Naquele momento eu estava descobrindo que também estava totalmente apaixonada por Michael Jackson. E ali, fazendo amor com ele, tudo o que vivi de ruim, tudo o que passei parecia ter sido um pesadelo distante.

Estávamos suados, ofegantes e de olhos fechados. Nossos gemidos ressoavam pela sala enquanto estávamos entregue um ao outro. Michael não parava por nada, era insaciável seu desejo, estava nítido em seus olhos inebriados pela luxúria. Até que eu cravei mais minhas unhas nas costas dele enquanto ele se contorcia por cima de mim, explodindo de prazer junto comigo, gozando dentro de mim, gemendo, rugindo em meu ouvido. E assim chegamos ao clímax juntos.

Foi meu primeiro orgasmo depois de tanto tempo. Me sentia tão diferente. E era tão maravilhoso ouvi a respiração pesada de Michael enquanto sentia seu corpo sobre o meu. Eu queria mantê-lo aí, ainda dentro de mim. 


Depois de alguns instantes Michael saiu de dentro de mim, puxou o lençol de cima do sofá e deitou-se ao meu lado, cobrindo nossos corpos. 


Capítulo 15

Lucy

Suados, ofegantes e ainda em estado de êxtase: esse era o meu estado e o de Michael após fazemos amor durante a madrugada chuvosa. 

Eu estava deitada ao lado dele, respirando ofegante, acariciando o seu peitoral magro. Ele estava de olhos fechados, e com uma mão afagando os meus cabelos. Levantei a cabeça e apoiei meu queixo em seu peito, ele abriu os olhos e ficou me olhando com a mesma luxuria de antes. Senti minha intimidade pulsar, era como se ele estivesse me chamando para mais uma. Mas antes de pronunciar alguma palavra, Michael franziu um pouco o cenho e me olhou com preocupação.

— Não acredito! — Exclamou, olhando-me de olhos esbugalhados.

— O que?

— A gente... Eu... Gozei... Dentro de você. — Sua frase transmitia muita preocupação. Eu fiquei olhando-o muito séria, mas depois comecei a sorri, vendo-o ficar confuso mais ainda.

—Não há com o que se preocupar, Michael. Eu tomo anticoncepcional. — Ele voltou a arregalar os olhos, deduzindo que... — Por recomendações médicas. — Concluí, e o vi soltar um respiro de alivio. Rimos juntos.

— Eu estou louco por você. — Murmurou com aquela voz serena.

— É de verdade? Tudo isso tá acontecendo mesmo?

— Sim, meu amor. — Amor? Mordi meu lábio inferior e alcancei os seus, para um beijo sôfrego, carregado de desejo mais uma vez. Todo o tesão, toda libido, todo o prazer voltara... E nos amamos de novo e de novo, até caímos nos sono sobre o tapete da sala.

(...)

Abri meus olhos lentamente, virei minha cabeça, e lá estava Michael, dormindo feito um anjo ao meu lado. Estiquei-me até alcançar seus lábios, e timidamente depositei um selinho sobre eles. Do fundo de sua garganta saiu um leve grunhido preguiçoso. Olhei para a janela, e através das persianas, vi como o dia estava nublado, e por conta do sol que se recusava a dá uma brecha sequer, o tempo estava escuro.

Sentei-me sobre o tapete devagar, com cuidado para não acordar Michael, e capturei as primeiras roupas que avistei. Minha calcinha que estava sobre sofá, quase caindo e a camiseta branca de Michael, que parecia mais um vestido. Me vesti, e pisando levemente no chão, me direcionei até a cozinha de Michael.

Me intrometi e abri a geladeira. Estava com aquela famosa fome canina pós-foda.

Peguei da geladeira uma garrafa de leite, enchi um copo e logo levei até a minha boca, tomando tudo, sem interrupções. Quando coloquei a garrafa de volta na geladeira e me virei, quase tive uma parada cardíaca ao vê uma senhora parada na porta da cozinha, olhando-me com o cenho franzido.

— Como entrou aqui? — Indaguei assustada. Ela sorriu docemente.

— Simples. Eu sou a mãe do Michael. — Ressaltou. O copo que eu estava segurando quase foi ao chão.

— Mãe do Michael? — Me ouvi perguntar, surpresa.

— Sim, aquele que está dormindo pelado sobre o tapete da sala. — Juro que senti meu rosto corar.

— O meu Deus... — Ela começou a sorri, com certeza por causa da minha cara coberta pela cor púrpura.

— Eu sou Katherine Jackson. — Aproximou-se de mim, se impôs apertando minhas mãos trêmulas, e me puxou para dar um beijo em cada lado da minha bochecha, como se estivesse tudo bem para ela. Mas eu estava envergonhada. O que ela iria pensar de mim? Merda, se eu soubesse que haveria a hipótese da mãe do Michael aparecer assim sem aviso prévio, teria evitado esse tipo de encontro. Que constrangedor.

— Eu sou a...

— Lucy. — Me interferiu. — Eu sei querida. Você trabalha na Well’s Diner e o Michael fala muito de você. — Disse insinuativa. Meu Deus, Michael falou sobre mim a ela.

— Fala?

— E muito querida. Meu Deus, e ele não estava mentindo e tampouco exagerando. — Voltei a franzi o cenho, confusa. — Você é mesmo linda, assim como ele disse. — Ficou me olhando com deslumbre.

— Tá vendo, dona Kathe, que eu não estava exagerando. — Se fez audível a voz do Michael pela cozinha. Eu e a sua mãe olhamos ao mesmo tempo para ele que acabara de atravessar pela porta, aproximando-se da gente. Pelo menos ele estava vestido com uma calça moletom, a mesma de ontem à noite. — Ela é linda. — Ressaltou mais uma vez, e inclinou-se para depositar um beijo casto na bochecha da sua mãe.

— E encantadora. — Completou, e retribuiu o beijo ao seu filho. — Bom, acho que estou atrapalhando os pombinhos. Falo com você depois, Michael. — Michael assentiu tranquilamente.

— Não está atrapalhando, Srª Jackson. Eu que...

— Oh não, Michael... Ela me chamou de Srª. — Fez careta. Michael riu. — Só Kathe querida, por favor.

— Está bem. — Assenti.

— Bom, agora vou indo mesmo. Foi um prazer conhecê-la, querida.

— O prazer foi todo meu, Srª... Quer dizer... Kathe. — Ela virou-se para Michael e lhe deu mais um beijo.

— Me acompanha até a porta, filho?

— Claro! — E os dois saíram da minha vista, deixando-me sozinha na cozinha ainda um pouco sem jeito com a situação.

Olhei para minhas vestes e vi que eu realmente estava indecente para receber a mãe do Michael. Droga! Que vacilo esse meu. Custava-me ter procurado a calça casual e ter vestido antes? Não, se eu tivesse feito isso, não estaria tão envergonhada como fiquei na hora.

Encostei-me na pia, e segundos depois, Michael entrou despreocupadamente na cozinha, direcionando-se até a geladeira, abriu a mesma e retirou de dentro a garrafa d’água, levando-a até seus lábios, bebendo o líquido na boca da garrafa. Estranhei sua tranqüilidade.

— Por que você não me avisou que sua mãe iria vir hoje? — Perguntei, e ele me olhou, com aquele sorriso destruidor. Colocou de volta a garrafa dentro da geladeira, fechou e caminhou graciosamente ate mim. Inclinou-se e depositou um selinho demorado nos meus lábios.

— Por que eu não sabia que ele viria. Ela é imprevisível quando se trata de fazer visitas. Não se preocupe, ela gosta de você, até mesmo antes de te conhecer pessoalmente.

— Conhece é?

— Conhece... Você se tornou o assunto principal em algumas ocasiões entre eu e dona Kathe. — Envolveu minha cintura com seus braços, apertando-me contra o seu peito.

— Meu Deus... Você não sabe o quanto eu fiquei sem jeito quando a vi. Olha só pra mim. — Apontei para meu próprio corpo. Ele me examinou, agora com um sorriso lascivo.

— A propósito, você está linda dentro da minha camiseta preferida de dormir. — Disse e mordeu o lábio inferior.

— Ah Michael... Para... Assim eu fico mais envergonhada do que já estou. — Murmurei, olhando para baixo.

— Vergonha de que? Você é a mulher mais linda desse mundo. — Disse espalhando beijos pelo o meu pescoço, fazendo-me arrepiar. Desvencilhei-me de seus braços e me conduzi para o quarto, para me vesti com as minhas roupas que provavelmente já estavam secas. Michael me seguiu, e assim que me alcançou, foi logo me agarrando por trás e beijando meu pescoço, me fazendo suspirar.

— Eu tenho que ir, Michael. — Tentei sair de seus braços, mas ele me apertou mais e nos jogou sobre a cama, eu gritei pelo o impacto.

— Mas antes, vamos ter que conversar sobre ontem. — Continuou beijando meu pescoço. Revirei meus olhos.

— Então?

— Olha Lucy, você entrou na minha vida quando precisei de alguém. E me apaixonei! — Fiquei quieta quando ele começou a proferi tais palavras. — Eu quero ficar com você, te conhecer melhor, mas eu preciso saber o que afligi você. — Nesse momento, um suspiro pesado saiu da minha boca, forcei seus braços e ele me soltou. Ficou com um cotovelo na cama apoiando a sua cabeça, me olhando com serenidade.


Não, eu não queria tocar naquele assunto, definitivamente não queria. Talvez me abrisse com ele mais pra frente, mas não agora. Não me sentia confortável tocando no tal assunto que me atordoava. Depois de tanto tempo consegui um pouco de felicidade, e não iria estragar esse momento mexendo com as páginas do meu livro de memórias. Não mesmo. 




Capítulo 16

Lucy

Michael ainda me olhava na expectativa de que eu falasse sobre o meu passado, mas volto a falar que definitivamente eu não iria tocar no assunto.

— Por favor, Michael. — Supliquei, olhando bem nos olhos para que ele não insistisse no assunto. — Não vamos estragar esse momento, hum? — Inclinei-me para lhe dá um selinho. Michael respirou fundo e segurou meu queixo delicadamente, obrigando-me a fitá-lo.

— Está bem. — Se obrigou a dizer. — Mas quero que saiba de uma coisa. Eu nunca estive no mesmo barco que você, mas eu já estive no mesmo oceano. Quando estiver pronta, estarei inteiramente ao seu dispor para ouvi-la. — Sibilou, com carinho no tom da sua voz.

— Obrigada. — Agradeci, e fiquei encarando-o. Percebi que seu eu pudesse, ficaria ali, olhando-o o dia inteiro, sem desviar sequer um minuto.

— Fica sério comigo. — Demandou, com um olhar expressivo.

— Como? — Perguntei perplexa.

— Quero dizer... — Michael pigarreou, limpando a garganta. — Estou apaixonado por você. E depois dessa noite, pensei que... — Ele abaixou a cabeça, prendendo o lábio inferior entre os dentes.

“... se ele te der uma oportunidade, agarre-a. Além de ser lindo, ele é um bom homem.” — A frase de Sharon veio na minha cabeça nessa hora.

— Só se você prometer ir devagar, e for paciente comigo. — Eu disse. Michael ergueu a cabeça de imediato. Seus olhos lustrosos demonstravam contentamento, acompanhado por um sorriso lindo.

— Iremos com calma, e terei toda paciência do mundo, por você. — Disse, e colocou sua mão na minha nuca, puxando-me para um beijo gostoso e apaixonado.

Está bem, eu sei que fazia pouco tempo que nos conhecíamos e tal, mas dentro desse mesmo pouco tempo, nos apaixonamos, e sim, eu estava realmente apaixonada por ele. Eu teria que tomar um rumo na vida mais cedo ou mais tarde, sem mais medo, não é mesmo? Era à hora, é claro, e se eu não tivesse aceitado, com certeza me arrependeria futuramente. 

(...)

— Mas o que? — Rose gritou eufórica depois de eu ter contado a ela que eu e Michael estávamos ficando. Bem... Apesar de temos feito “àquilo”, eu e ele ainda teríamos várias descobertas um sobre o outro. E ele não fazia a mínima de como tinha sido a minha vida.

— Isso mesmo que te contei Rose. — Revirei olhos.

— Meu Deus, Lucy, — levou as mãos até a sua boca — você está apaixonada! Isso é muito bom. — Exaltou.

— Isso significa que eu estou fodida, de novo. — Murmurei. Não, eu não estava arrependida de ter me entregado a Michael. Eu só estava com medo de que o destino estivesse aprontando comigo mais uma vez. 

— Que nada, você está é revivendo minha querida. Agora me diz, como é que ele é? — Seus olhos trasbordavam curiosidades.

— Ah... Ele é normal Rose...

— Normal? — Rose indagou pondo uma mão entre o peito e o colo. — Não acredito que você se apaixonou por um cara normal, Lucy!  

Eu sorri pela sua expressão.

— Não foi isso que eu quis dizer. — Revirei os olhos mais uma vez. — Ele é normal, mas um normal ainda sim diferente. Ele é carinhoso, atencioso romântico e muito paciente.  

— Ah que fofo. Era o mínimo que ele poderia ser quando soube do que aconteceu com você.

Enganou-se Rose em pensar que eu falei alguma coisa para Michael.

— Ah Rose... Ele não sabe. — Rose abriu a boca em formato de um ‘O’.

— Ué... Michael não sabe do... Brad? — Perguntou hesitante. Soltei um longo suspiro e neguei com a cabeça.

— Ele não precisa saber. Não agora.

— Pensei que ele soubesse. — Disse decepcionada.

— Ele já chegou a me perguntar o que aconteceu, mas eu sempre mudo de assunto. Não quero que ele sinta pena de mim.

— Mas ele não vai. Ele está apaixonado por você, Lucy.

— Será que eu deveria contar?

— Você é quem sabe. Se quiser tocar nesse assunto vá em frente, mas se não quiser deixe quieto.

Rose tinha razão. Mas o fato é que eu não gostava de falar sobre isso, era doloroso, trazia todos os momentos bons que eu vivi e isso fazia meu coração se apertar no peito. Mas tudo bem, um dia eu iria me abrir com o Michael e ele entenderia o porque que eu tentava fugir do contato com a música, digo tentava porque desde o dia que o conheci ele vinha persistindo que eu tocasse com ele, cantasse, em fim... E às vezes acabava cedendo aos instintos, e eu mentalmente agradecia a ele por isso. Ele estava me ajudando a superar esse trauma.

Ficamos conversando por mais alguns instantes e depois eu subi para o quarto, trancando-me no mesmo pensando no que a Rose havia me falado.

Michael estava mudando a minha vida, estava tomando conta dos meus pensamentos e confesso que eu tinha medo disso.  A vida já havia me tirado pessoas que eu amava muito, e o que me garantia agora que ela não iria fazer o mesmo?

Nossa... Queria nem ter pensado nisso.

Após tomar um banho bem demorado, vesti uma roupa bem confortável e deitei na cama relembrando de tudo o que estava acontecendo na minha vida. Enfiei minha mão debaixo do travesseiro e peguei a foto Brad que estava sob ele, eu nunca havia tirado dali e percebi que agora fazia mais de uma semana que eu não pegava para vê-lo ou até mesmo conversar, assim como eu fazia às vezes quando estava triste ou quando simplesmente queria apenas vê-lo.

— Sei que você gostaria de me ver feliz. — Falei com a foto ao encará-la.

Eu sabia que o Brad seja lá onde ele estivesse ficaria feliz por mim, estaria feliz em me ver reconstruindo a minha vida.

Beijei a foto com carinho e jurei a mim mesma que mesmo estando com outra pessoa, nunca me livraria dela por nada no mundo.  Por nada mesmo.


Michael

Depois que beijei a Lucy eu jurei a mim mesmo que nunca mais a beijaria sem seu consentimento claramente. Mas quem disse que eu iria desistir de conquistá-la. Não, não mesmo. Eu sabia que ela havia gostado daquele beijo que lhe dei enquanto estávamos no letreiro de Hollywood, o mesmo que ela havia correspondido antes de interromper. Depois disso, ela passou alguns dias fugindo de mim toda vez que tentava chegar perto dela. Mas isso mudou quando a levei para o meu apartamento em uma noite de chuva e a abriguei no por lá.

Juro que quando a levei para o meu apartamento eu não fazia ideia de que iríamos fazer amor, e àquilo foi tão maravilhoso, era mais do que eu esperava, bastava apenas um beijo e eu ganharia a minha noite, mas ao invés disso o que eu ganhei foi o seu corpo nu todo para mim.

Aquela garota estava entregue nos meus braços, gemendo o meu nome enquanto eu me saciava do seu corpo maravilhoso, o mesmo que me fez ficar cada vez mais louco por ela.  Ah, e enquanto aquela história do passado dela e tudo mais, eu também estava obstinado em saber o que tinha ocorrido com ela, e o que rondava mais a minha cabeça era que alguém tinha a ferido, sendo mais claro, um homem tinha acabado com o seu coração, trocado-a, iludido-a, em fim...

Assim que deixei Lucy em casa, fui para a casa dos meus pais, eu já sabia quais seriam os questionamentos de dona Kathe em relação a Lucy. E pelo o que pareceu, ela gostou muito dela, achou encantadora e até pediu para eu trazê-la qualquer dia para um jantar. Bem, eu não pude recusar o convite da minha mãe, e disse-lhe que traria a Lucy na noite seguinte, porque nessa noite eu iria convencê-la de fazer uma apresentação junto comigo lá no Well Diner.





Capítulo 17

Lucy

O restaurante não estava muito cheio, o tempo ainda espantava vários clientes como na noite anterior, talvez eles desse as caras mais tarde, levando em conta de que ainda era um pouco cedo.

Depois que cheguei não vi o Michael, mas sabia que ele estava no escritório do pai como sempre, e de instante e instante que eu passava para a cozinha para entregar os pedidos dos clientes eu olhava para o corredor que dava acesso ao escritório.

— Procurando alguma coisa, Lucy? — Sobressaltei quando ouvi a voz de Sharon indagar.

— O que? — Gaguejei — Claro que não. — Tentei disfarçar.

— Você está diferente. — franziu o cenho. — Parece mais...

— Bonita? — Tive outro susto quando ouvi a voz do Michael bem atrás de mim. — É, ela está mais bonita hoje. — Ele se aproximou de mim e sem fazer cerimônia segurou meu rosto com as duas mãos e pousou seus lábios sobre os meus me dando um selinho demorado. Senti meu rosto corar no mesmo instante com o ato dele na frente da Sharon e dos cozinheiros que também estavam na cozinha.

— Michael... — murmurei com um sorriso sem graça no canto dos lábios, olhei no fundo dos olhos e depois olhei para a Sharon de soslaio. Sharon estava com as sobrancelhas arqueadas e com um sorriso preso. Tinha a certeza de que quando estivéssemos a sós ela iria comentar sobre o beijo que Michael me dera.

— Vem comigo. — Ele segurou na minha mão e fez menção de me puxar junto com ele para o salão do restaurante.

— Para onde? — Apertei com firmeza sua mão, eu estava confusa.

— Você vai ver. — Olhei para Sharon de cenho franzido e ela encolheu os ombros balançando a cabeça com um bico nos lábios.

Michael me puxava consigo pelo o salão do restaurante onde alguns clientes passaram a nos olhar, e quando percebi que ele nos direcionava para o pequeno palco um frio começou a congelar minha barriga.

— Michael, o que você vai fazer? — Perguntei assim que freei meus passos no primeiro degrau da escada. Ele olhou para mim e franziu as sobrancelhas.

— Você confia em mim? — Eu balancei a cabeça em positivo.

— Sim, confio, mas o que...

— Então sobe aqui comigo. — Me interrompeu. Olhei para ele ponderando muito, eu não sabia o que ele iria fazer, mas se eu disse que confiava nele iria demonstrar isso agora. Muito hesitante eu subi no segundo degrau e ele sorriu pra mim. Ele puxou uma parte da cortina e gesticulou para que eu entrasse e assim o fiz, ele também fez o mesmo em seguida.

A cortina estava fechada e eu estava parada olhando para ela.

Senti as mãos de Michael envolver minha cintura e um beijo ser depositado no meu pescoço. Eu arfei com isso.

— Toca comigo essa noite. — Murmurou no meu ouvido. Esse pedido fez meu coração parar por um instante.

 — Michael, eu... — Pigarreei.

Ele girou meu corpo de frente pra ele.

— Você disse que confiava em mim. — Estreitou seus olhos me fitando.

— Eu confio, — Reforcei o que tinha dito a ele. — mas eu não posso. — Abaixei a cabeça.

— Hei, — Michael pegou no meu queixo e ergueu minha cabeça, obrigando-me a olhá-lo — você pode. Eu estou aqui com você.

— Eu não sei... Eu não sei. — Fiquei balançando a cabeça. — Eu... Eu não vou conseguir fazer isso na frente dessas pessoas. Eu sou apenas a garçonete desse restaurante.

— O que você está falando? Você não é apenas uma garçonete, você é uma talentosa.

— Mas mesmo assim eu...

— E também é a minha garota. Confie em mim. — Vidrei meus olhos nos seus quando ouvi isso. Ele disse que eu era a garota dele e isso só me fez ficar mais apaixonada e mais confiante nele. Seus olhos me olhavam com tanta ternura que dizer um não era impossível. — Você tem uma voz maravilhosa, é carismática e além do mais você é linda. Muito linda. — Disse e me deu um beijo rápido. — Você não pode ficar nessa para sempre. Eu sei que algo aconteceu com você e que prometi que não forçaria para que me dissesse, mas eu não estou pedindo que me conte, só estou pedindo que cante, por favor. — Olhei com um certo pensar e cheguei a conclusão de que ele tinha razão. Já estava ficando ridículo esse medo e essa era a hora de enfrentá-lo.

Desvencilhei-me de seus braços e ainda com muita hesitação peguei o microfone que estava em um canto no chão e fiquei à sua frente. Michael abriu um sorriso satisfeito e segurou a corda da cortina.

— Está pronta? — Balancei a cabeça em positivo e ele puxou a corda fazendo as cortinas se abrirem.

As pessoas viraram seus olhos para o palco e eu senti aquele formigamento invadi o meu corpo, como se fosse a primeira vez que eu estivesse em um palco.

Eu abaixei a minha cabeça e minhas penas ficaram bambas por causa do nervosismo e do medo que eu estava.  Segurava com tanta força o microfone que eu pensei que iria amassá-lo.

Ouvi o Michael pigarrear e eu o olhei.

— Without You? — Essa foi a música que ele iria tocar, e estava me perguntando se eu sabia a letra. Eu assenti com um gesto de cabeça e ele sorriu.

O salão ficou em silêncio e as primeiras notas da introdução da canção começaram a entoar pelo o espaço. Tinha certeza que todos os olharem estavam em cima de mim. O que  me deixava mais nervosa.

Quando estava chegando perto da primeira estrofe da música eu me preparei para soltar a minha voz, mas quando ergui minha cabeça e olhei para frente, as luzes do salão me fizeram divagar, levando-me de volta ao dia e ao instante em que eu e o Brad estávamos dentro do carro e de repente um caminhão chocou-se com violência contra o veículo transformando o momento em plena escuridão.

— Lucy? Lucy? — Michael me chamou tirando-me do meu devaneio.  Olhei rápido para ele e o mesmo esbugalhou os olhos em um aviso interno.

A última vez que eu estive em um palco foi no dia do acidente e isso me fez lembrar muitas coisas. Das melhores até as piores.

Estreitei meus olhos no salão e as pessoas estavam me olhando esperando que eu cantasse, afinal, se eu estava lá em cima era para isso não é mesmo?

Confesso que minha vontade foi de sair correndo como fiz no dia que o Michael me chamou para estar aqui em cima, mas respirei fundo e coloquei pela milésima vez na minha cabeça que esse medo já estava ficando bobo demais para mim.

No i can’t forget this evening… ♫♪♫♪ — Cantei em um tom bem tímido a primeira parte da introdução da canção e logo Michael começou a acompanhar com o piano.

Fechei meus olhos e continuei cantando, senti uma certa dúvida de se eu estava indo bem ou não, mas não abri os olhos. Apenas sentia música e ouvia a minha voz. Quando decidi abri os olhos os clientes ainda estavam me olhando, mas dessa vez seus olhares mostravam admiração, e isso era bom, eu estava agradando-os. Será que era a minha voz? Tá... Tanto fazia naquele momento, de qualquer forma o importante era que eu estava conseguindo fazer o que eu mais gostava no mundo e ao mesmo tempo agradando as pessoas.

Olhei para Michael e ele sorriu e piscou um olho para mim. Depois ele fez um gesto de cabeça apontando para um violão que havia no canto do palco. Ele estava pedindo para eu tocar. Hesitei um pouco, mas quando voltei a olhar para os clientes me animei mais ainda.

Assenti com a cabeça e peguei um pedestal que estava ao lado do violão, encaixei o microfone, em seguida peguei o violão, apoiei-o e comecei a tocar enquanto ainda estava cantando.

Quando terminamos de tocar e cantar os clientes começaram a nos aplaudi, eu fiz reverencia e Michael puxou a corda da cortina para fechar.

Desliguei o microfone e coloquei o violão no mesmo lugar. Eu estava feliz, muito feliz mesmo. Nossa... Aquela sensação de medo, de insegurança tinha se dissipado e isso graças ao Michael que insistiu em me ajudar.

As cortinas estavam fechadas. Eu encostei-me ao piano e Michael veio até mim, colocando-se na minha frente e segurando minha cintura com delicadeza.

— Você foi maravilhosa. — Elogiou e me deu um beijo meigo.

— Verdade? — Sorri.

— Hurum — Ele pegou duas mechas dos meus cabelos e colocou-as atrás das minhas orelhas. — Você é muito talentosa, eu já disso isso. — Reforçou.

— Nossa Michael eu... Eu nem sei o que dizer — pigarreei não conseguindo controlar a minha emoção e meus olhos se encheram de lágrimas de felicidade.

— Diga-me. Como se sentiu? — Ele indagou e eu fitei a cortina.

— Eu... Eu... Me senti muito realizada Michael...  No início eu ainda estava um pouco acanhada, mas depois quando vi os olhares das pessoas mudarem para admiração comecei a ficar mais confiante... E... — olhei nos olhos dele — Obrigada.

— Por quê? — Ele franziu o cenho.

— Por tudo. Por não ter desistido de mim...

— Ah Lucy... Não tem que agradecer a mim, isso é resultado do seu desempenho e da sua força de vontade.

— Mas se você não tivesse insistido nisso eu não estaria aqui hoje. 

— Mas...

— Mas nada Michael — interrompi-o colocando a mão sobre seus lábios — isso tudo é graças a você e eu serei sempre grata por isso. Obrigada.

Ele virou os olhos para cima, soltou um grande suspiro e começou a dizer algo que não dava para entender porque eu ainda estava com a mão na sua boca. Sorri e tirei a minha mão.

— Tá bem. Já que você insiste.  — Deu de ombros, segurou com mais firmeza na minha cintura e me colocou em cima do piano.

— O que está fazendo? — Murmurei quando ele começou a passear uma de suas mãos pelas minhas pernas e dá chupões pelo o meu pescoço. — Michael?

— O que? — Ele sussurrou ainda com a cabeça enterrada no meu pescoço.

— O que está fazendo? — Eu já estava com os olhos revirando por causa da excitação que ele estava me causando.

— Te chupando, não é obvio? — Sua voz agora estava rouca. Enterrei meus dedos nos seus cachos, segurei-os com firmeza quase me deixando levar pela sensação de prazer.

Sua boca agora estava colada na minha e compartilhamos um beijo. Nossas línguas bailavam em sintonia com uma avidez absurda que sentia chamas se espalhando vagamente pelo o me corpo.

Inventei de mover uma das minhas pernas e acabei colocando-a sobre o teclado do piano fazendo o mesmo soltar um barulho. Eu e Michael nos assustamos e paramos de nos tocar.

— Cara... Que susto. — Eu disse ofegante. Michael sorriu e se afastou de mim.

— Acho melhor sairmos daqui, ou então não conseguirei me controlar. — Seu tom lascivo me fez entender bem o que ele queria dizer. Mordi o lábio inferior e balancei a cabeça.

— É... Também acho. — Desci do piano e ajeitei minhas roupas.

Antes de sair, Michael me puxou e me deu mais um beijo.

— Amanhã você está de folga. — Disse.

— O que? Não... Minha folga é só nas terças. — Corrigi-o sem entender nada.

— Não, amanhã você está de folga. Dona Kathe quer que eu te leve para jantar lá em casa.

Arregalei meus olhos e abri a minha boca tentando proferia algo, mas não consegui. Como assim ela queria que eu fosse jantar na casa dela? O que isso significava?

— Michael eu não posso faltar. — Por fim consegui falar.

— Claro que pode. — Ah sim, claro, ele também era o dono. Entendi. 

— Eu não estou preparada.

— Para que?

— Para jantar com a sua mãe. — Michael me lançou aquele olhar acusatório. Como se estivesse me chamando de mentirosa.

— Está sim. Ora Lucy, vocês já se viram e tudo mais. E olha que foi em uma situação em que eu me lembro de você ficar toda vermelha.  — Insinuou com um sorriso pervertido.

— Michael?!

— O que? É verdade.

— Deixa pra lá. Tá bem... Você venceu. — Me rendi e ele afagou minha cabeça antes de beijá-la.


Eu saí do palco e continuei com o meu trabalho pelo o resto da noite. Como eu dissera antes, a Sharon começou a questionar sobre eu e o Michael. Eu sabia que não era por enxerimento, ela era minha colega de trabalho e nós conversávamos muito. Decidi lhe contar algumas, coisas e só assim ele me deixou em paz. E assim como ela, os clientes pareciam abobalhados pelo o fato de uma garçonete ter um talento como o meu. Fiquei até feliz por isso. Minha vida estava voltando ao normal. Voltei a tocar violão, a cantar e até estava dando chance para um novo amor fazer morada no meu coração. A questão era: Por quanto isso iria durar? 



Capítulo 18

Lucy

Estávamos todos em volta da mesa. Exceto o pai do Michael que estava no restaurante enfurnado como sempre. Eu mal o via desde quando começara a trabalhar por lá. O jantar estava indo muito bem, tirando a parte que Michael não tirava seus olhos lascivos de mim, me deixando ruborizada.

— Então você é de Atlanta? — Perguntou a mãe do Michael. Já tínhamos acabado de jantar, só estávamos conversando agora.

— É, sou sim. — Respondi.

— E o que te trouxe aqui?

Michael apenas observava a conversa.

— Ah... Muitas coisas. — Ela continuou me olhando, esperando que eu desse mais informações. — Ãm... Minha mãe morreu e eu tive que vir para cá. — Murmurei e olhei para Michael que logo soltou um suspiro pesado.

— Oh querida, sinto muito.

— Oh, não... Tudo bem. — Sorri de leve para ela e olhei para Michael, acho que ele percebeu que eu estava um pouco acanhada. Eu não estava acostumada com jantares assim, no caso, com jantar com a mãe do Brad. Ele não tinha mãe mesmo, era só ele e o pai.

Depois ela começou a perguntar do que eu gostava, me elogiou, falou do meu cabelo... Sabe? Coisa de mulher. Eu e ela sorriamos quando Michael revirava os olhos em tédio dessa conversa. Agora era ele quem estava se sentindo deslocado entre nós duas.

— Agora eu tenho mais a certeza de que eu sei qual foi o motivo do meu filho ter ficado na cidade. — A mãe do Michael insinuou divertida olhando para ele.

— Kathe?! — Michael murmurou olhando-a com repreensão. Eu iria sorri, mas tive que me conter. Ele não iria falar na frente da sua mãe.

— O que? — Perguntou se fazendo de desentendida.

— Não se atreva, mãe. — Ela ignorou-o e voltou a olhar pra mim.

— Você sabia que o Michael só estava aqui de passagem? — Michael bufou, mas era engraçado o jeito que ele estava. 

— Mais ou menos. — Murmurei com um sorriso preso.

— Então... Ele...

— Não vou avisar de novo, mãe. — Michael arregalou os olhos para a sua mãe em um aviso. Mas ele não se importou.

— Então ele ficou por causa de você. — Olhei para ele e sorri, ele também me retribuiu e olhou para o lado balançando a cabeça. Sem sombra de dúvidas, àquele Michael todo determinado e obstinado que eu conheci também tinha um lado tímido que por acaso o deixava mais fofo e mais lindo.

Michael se levantou, fez a volta na mesa e estendeu a mão para mim. Franzi o cenho, olhei para a mãe dele e depois voltei para ele.

— Vamos à varanda? — Perguntou.

— Mas... E sua mãe?

— Oh não querida. Vá com ele, eu já terminei. A empregada irá tirar a mesa. Só não vá embora sem se despedir de mim, certo?

— Certo. — Assenti e me levantei. Michael colocou a mão na minha cintura e me  levou até a varanda. Caminhamos até a mesma em silêncio.

A vista de lá era linda. Flores ladeavam a varanda, o cheiro delas invadiu minhas narinas, um cheiro muito bom. Será que a mãe ele era louca por flores? Por que tantas flores?

— São lindas, não é? — Michael perguntou tirando-me do meu transe, me agarrando por trás e envolvendo minha cintura com suas mãos enormes e macias. Eu suspirei.

— São sim. — Fora a única coisa que eu falei. Silêncio.

— Ela gosta muito de flores. Ela fez jardinagem. — Ele explicou o fato de ter tantas flores em um único jardim, antes que eu pudesse perguntar.

— Então está explicado.

Michael encostou seu nariz na minha cabeça e aspirou o cheiro do meu cabelo com ímpeto.

Me virei para ficar de frente pra ele. Ele manteve suas mãos na minha cintura e eu entrelacei meus braços em volta do seu pescoço. Michael era tão lindo. Perfeito. Aqueles lábios desenhados e bem convidativos me deixavam louca. Eu não sei o que ele fez comigo, só sei que era bom, muito bom essa paixão que eu estava sentindo.

— Por que me trouxe aqui?

— Por que eu gosto de você.

—Por quê? — Ele franziu as sobrancelhas achando estranho meu questionamento sem fundamento.

— Porque eu gosto. — Respondeu e deu de ombros.

Porque não é bem uma resposta, Michael. — Sorri lembrando-me de quando ele tinha falado isso para mim. Ele me acompanhou. Silêncio.

— É verdade? — Quebrei.

— O que?

— O que a sua mãe disse. — Ele deu uma risadinha gostosa antes de responder.

Fiquei pensando um pouco uma forma de perguntar, ele poderia voltar a ficar vermelho.

— Qual foi o verdadeiro motivo de você querer permanecer na cidade? — Perguntei. Ele abaixou a cabeça e depois voltou a erguê-la.

— Quer saber mesmo?

— Hurum. — Assenti.

— Pois bem. Meu pai ligou para mim e me pediu ajuda com algumas coisas do restaurante. Nesse mesmo dia que voltei para ajudá-lo, eu encontrei uma linda mulher no salão do restaurante. — Ele entortou os lábios e eu fiquei com vergonha em saber que ele estava falando sobre mim. Sobre o dia que ele me pegou no flagra tocando piano. — No princípio eu pensei que fosse apenas mais uma garçonete que trabalhava para ele, mas depois quando a vi no meu palco, tocando meu piano e cantando... — Ele deu uma pausa e eu corei. — Foi na certa.

— Foi na certa? — Arqueei as sobrancelhas. — Você acredita em amor a primeira vista?

— Bem... — franziu o cenho — Não exatamente. Mas acredito em destino. Acho que foi proposital Lucy. O destino nos cruzou de propósito sabe? — Balancei a cabeça demonstrando que estava entendendo.

— Você ainda estava ferido, não foi? — Perguntei com cautela. Ele negou com a cabeça.

— Não. Eu não estava ferido. Estava com raiva. — Ele olhou sobre minha cabeça e vi seu olhar se perder pelo o jardim. — Eu nunca deveria ter ido embora por causa dela.  Eu fiquei puto quando ela se foi. E sabe Lucy, você me entende. O pior sentimento do mundo é quando você percebe que perdeu a si mesmo.

Nossa, o jeito que Michael falava me dava um aperto no coração. Saber que ele sofreu por causa de uma mulher que o abandonou era de dar pena. Mas eu não iria demonstrar que estava sentindo isso, é lógico. Pena é uma coisa que ninguém quer que outra pessoa sinta por ela. Bom... O Brad não tinha me abandonado, eu que o perdi em um acidente. Já essa tal de Sara havia o abandonado sem dó e nem piedade pelo o que me pareceu. Isso pode soar até inconveniente, mas às vezes uma pessoa abandonada sofre mais do que quando perde alguém.

De qualquer forma, os dois doem, doem pra caralho. E neste caso aqui eu quem perdi e Michael que fora abandonado.  

Tirei meus braços do seu pescoço, migrei minhas mãos para suas costas e o abracei, apoiando minha cabeça no seu peito. O silêncio voltou a se instalar por mais alguns instantes, e ainda estávamos na mesma posição.

— Que coisa engraçada. — Enunciei.

— O que? — Michael perguntou.

— Isso. — Desencostei do peito dele para fitá-lo — Às vezes algumas notas de uma música, um simples tom, um gosto ou um cheiro podem mudar tudo em sua vida.

— O mundo é feito de música, Lucy. É só acompanhar o tom e o ritmo. — Ele reforçou e sorriu graciosamente sem mostrar os dentes.  

— Às vezes eu sinto como se o mundo estivesse sobre minha cabeça, derrubando-me com uma monotonia sem fim. — Michael suspirou.

— Sabe que não precisa se sentir mais assim, não é? — Olhou-me com ternura. — Você tem a mim.

— Onw Michael...

— Quando estamos próximos, eu sinto sua respiração, e quando você vai embora, até o vento me lembra você. — Declarou acariciando meu rosto com o dorso da sua mão. Me derreti como um picolé diante dessas palavras. Michael sabia exatamente do que eu precisava. De uma pessoa que gostasse de mim assim como ele estava se mostrando a cada dia, de amor, carinho, paciência... E tudo isso ele estava me dando. Era como se eu tivesse mudando de clave.

Seus lábios encostaram-se nos meus com carinho. Nossas línguas se acariciavam de modo lento, apaixonado, tornando o beijo ainda mais gostoso. Levei minhas mãos aos seus cachos sedosos, acariciando-os. Ele apertou mais a minha cintura, depois suas mãos subiram pelo o meu corpo e foram parar nos meus cabelos.

Não, ali não havia nenhum indício de desejo carnal. Era uma coisa meiga o que estávamos compartilhando, um carinho único.

Deus, a cada dia eu me sentia mais livre dos meus pesadelos, das minhas lembranças, das coisas que me perturbavam. Meu coração automaticamente estava compondo uma nova história para a minha vida. E eu estava amando tudo isso.  



Capítulo 19 

Michael

Passaram-se dois meses e Lucy e eu já estávamos mais firmes do que nunca. Às vezes quando ela largava iria para o meu apartamento e passava a noite comigo. E ah, estávamos nos apresentando definitivamente no Well’s Diner pelo menos duas vezes por semana, e percebi que ela estava gostando muito, assim como eu estava.

Confesso que até cheguei a ter um desentendimento com o meu pai por causa disso, mas nada grave. Ele só questionou algumas coisas que eu não gostei e por isso discutimos, mas depois ele percebeu que era sério mesmo meu lance com a Lucy e ficou quieto. Ainda bem que ela não soube disso.

Ainda não tínhamos tocado naquele assunto que a Lucy insistia em guardar só pra ela. E como eu prometi ser paciente, fiquei na minha.

A música nas nossas vidas de tornou um vinculo. Ela nos uniu de uma forma inexplicável. Uma melodia se expandia a cada dia entre nós, era um amor maravilhoso que emergia no universo. Somente Deus conhecia o que estávamos sentindo. Eu estava louco, estava amando aquela garota que a cada dia se mostrava mais forte na minha frente. 

Parei em frente a uma loja de instrumentos da cidade. Aquela vitrine imensa, cheia de instrumentos lindos chamou minha atenção. Guitarras Gibson BB King Lucille era um sonho de consumo para qualquer guitarrista. Não eu não tocava guitarra, mas conhecia as melhores marcas de instrumentos. Também havia uma bateria, instrumentos de sopro, mas o que me chamou a atenção foi um violão Takamine branco. Suas cordas de aço pareciam ser resistentes, sem falar que era a cara da Lucy.   

Entrei na loja já com uma ideia na cabeça, mas mesmo assim ainda olhei todos os instrumentos à minha volta. Fui passando pelas sessões até achar os de instrumentos de corda. Olhei em volta procurando um Takamine igual ao da vitrine, quando avistei um, meus olhos brilharam em saber que a Lucy ficaria feliz em ter um. É, eu iria dar um pra ela.

Passei meus dedos por ele gentilmente, admirando-o. Fiquei pensando, como ela manjava naquele instrumento e eu não. Sorri com meus pensamentos bobos.

Percebi alguém se aproximar de mim, e aquele cheiro familiar que agora eu sentia enjoo invadiu minhas narinas. Não, não poderia ser quem eu estava pensando, não agora.

— Sara. — Murmurei ainda de costas mostrando que não estava surpreso. Silêncio. Virei-me e encarei-a com a cara de poucos amigos. — O que está fazendo aqui?

— Vejo que ainda lembra o meu nome. — Murmurou com seus olhos azuis claros mirados nos meus. O que ela estava fazendo de volta à cidade que abandonara?

— O que você está fazendo aqui? — Perguntei sem paciência nenhuma. Ela mexeu no cabelo, nervosa e sorriu pra mim. Não posso negar que a Sara era linda, não mudara nada desde quando fora embora. Mas sua presença agora me incomodava, e muito.

— Eu vim ver você. — Murmurou. Eu sorri irônico.

— Veio me ver? — arqueei as sobrancelhas — Muito engraçado. Deveria ser comediante, e não cantora. — Fui irônico. Seu sorriso desvaneceu aos poucos, e os seus olhos foram perdendo o brilho.

Se esse encontro tivesse acontecido há dois meses atrás, eu teria lhe lançado injurias, verdades e descontaria toda a minha raiva, mas agora frente à frente com ela tudo dissipou-se de supetão.

— Michael... Eu voltei. — Balbuciou. O que ela pensou? Que eu ficaria feliz por isso?

— Eu to vendo. — Virei de volta e capturei o violão que daria a Lucy de presente.

— Violão? Não me lembro de você tocar violão. — Ela disse tentando chamar a minha atenção. Virei-me para ela novamente.

— E quem disse que é pra mim? — E saí da frente dela, indo para o balcão.

— Michael... — Ouvi ela lamuriar vindo atrás de mim. — Michael, quero conversar com você.

Ignorei-a e entreguei o violão ao caixa. Senti sua mão encostar-se no meu ombro. Olhei para a mesma e ela retirou-a.

— Eu só quero conversar. — Balbuciou. Balancei a cabeça descrente do que ela estava falando. Com que direito ela queria conversar depois de tudo? Nenhum oras.

Encarei-a com repugnância e balancei a cabeça.

— Conversa comigo, por favor! — Implorou mais uma vez. Isso já estava ficando feio.
— Engraçado. Quando você foi embora não queria saber de conversa. — Ironizei com um sorriso falso no canto dos lábios.

— Michael eu...

— São 950,00 dólares senhor. — O caixa de pronunciou atrapalhando a tentativa de explicação da Sara.

Voltei minha atenção para o caixa e fiz todo o pagamento. Sara ainda estava ao meu lado tentando chamar a minha atenção, mas ignorei-a até chegar ao meu carro ao saí da loja. Coloquei o violão no banco traseiro do carro e quando iria entrar no mesmo para sair da presença daquela mulher, me deparei com ela na minha frente com cara de cachorro pidão. Rolei os olhos e respirei fundo.

— O que você quer? — Perguntei já sem paciência.

— Conversar.

— Eu não quero conversar com você. — Disse frio.

— Olha Michael — tentou me tocar, mas eu me desvencilhei — eu sei que eu errei, mas eu estou arrependida e de volta.

— Como sabia que eu estava aqui? — Me referi a loja ignorando suas palavras.

— Eu cheguei à cidade ontem e... Hoje fui até o seu apartamento, mas vi você saindo. Então eu o segui até aqui. — Disse com a voz baixa.

— O que foi fazer no meu apartamento?

— Eu já disse. Eu queria conversar. Se você soubesse...

— Eu não quero saber de nada. — A interrompi. — Eu não quero você no meu apartamento.

— Eu sei... Eu sei, mas...

— Sara?! — interrompi-a — Eu não quero você no meu apartamento e nem na minha vida, ouviu? — Eu disse sem remoço.

— Eu estou arrependida, ta legal? Eu sei que errei, mas você precisa me ouvir! — Ela quase exigiu. Era só o que me faltava mesmo. 

— Só que eu não quero! — Bradei e algumas pessoas que estavam por perto nos olharam assustados. Respirei fundo e tentei disfarçar aquela situação. — Olha aqui Sara, eu não sei o que foi que aconteceu com sua carreirinha de cantora, mas seja lá o que for eu não estou nem aí pra você. — Rosnei, mas não foi de raiva, na verdade eu nem sentia mais isso por ela, eu só estava ficando de saco cheio com essa insistência de querer conversar.  

— Você ainda está magoado, eu sei e sinto muito por isso. Muito mesmo. Mas só me dê cinco minutos da sua atenção, por favor! — Silêncio.

— Adeus, Sara. — Entrei no carro e me preparei para dar a partida.

— Eu sei que você ainda gosta de mim. — Ela encostou-se no meu carro quase entrando pela janela.

— Desencosta dai, Sara. — Pedi sem olhá-la. Mas ainda sim percebi ela passar a mão pelos seus cabelos.

— Você tem outro alguém, Michael? — Perguntou muito temerosa. — É isso?

— Minha vida não lhe diz respeito. Agora se fizer o favor de desencostar do meu carro e nunca mais me procurar eu ficaria muito grato. — Sorri falso de lado e no mesmo instante ela desencostou-se do carro murmurando a seguinte frase: Você tem outro alguém. E antes de colocar o carro em movimento, olhei para ela e lá no fundo eu senti o certo arrependimento nos seus olhos. Ela estava realmente triste e lagrimas se alojaram nos seus olhos. Mas garanto que esses verdes lacrimejados não me comoviam. Eu não sentia mais nada por ela e isso era fato. E eu estava bem demais com a Lucy para a Sara voltar querendo dar desculpas esfarrapadas. Eu iria mantê-la o mais longe de mim.

Voltei a olhar para frente, liguei o meu carro e saí de lá catando pneu implorando para que o destino não a colocasse mais uma vez na minha frente.


Capítulo 20

Lucy

Sabe aquele tempo em que você pensa que está tudo perdido? Que nada na vida vale mais a pena, e que seus sonhos não podem mais se concretizar? Eu já vivi nesse tempo, e digo mais, a pior coisa do mundo é você pensar que nada na vida tem mais sentido, e se não tem sentido pra que viver? Passei muito tempo com isso na cabeça, pensando que Deus tinha me esquecido, mas depois percebi que estava guardando o melhor para mim. Colocou Michael na minha vida e não poderia está acontecendo coisa melhor.

Meus sentimentos por Michael cresciam crescia cada vez mais. Tínhamos uma conexão que não sabíamos nomear. Ele apareceu pra mim como uma luz que deslumbrava nas trevas, a paz que habitou no momento em que meu coração estava abatido. E não havia no mundo beleza maior que ver refletido no seu rosto que ele gostava de mim de verdade, e esse sentimento era recíproco.

Nos víamos todos os dias e duas vezes por semana estávamos nos apresentando no Well’s Diner. Era maravilhoso tocar ao lado de Michael. Eu me sentia livre, era como se fossemos as estrelas daquele lugar. Talvez fossemos mesmo, mas só duas vezes por semana. As pessoas começaram a frequentar mais o restaurante e isso era bom, muito bom.

Um casal entrou no restaurante e eu me apressei em atendê-los. Anotei seus pedidos e quando estava prestes a atravessar a porta da cozinha senti uma mão me puxar para o corredor onde dava acesso ao escritório do pai de Michael e me encostar na parede.

— Michael?! — Disse eu com o coração acelerado. Ele havia me assustado.

— Está na hora da minha estrela ir ao palco. — Eu não achava certo ele dizer que eu era a estrela. Eu não era a única no palco.

— Eu não sou a estrela, Michael. — Corrigi-o e ele sorriu. Passou o dorso da mão na minha bochecha.

— Mas é a minha.

— Ah Michael... — Ele era um fofo. O príncipe em pessoa.

— Vamos dar uma volta depois? — Sussurrou. Seu rosto estava tão próximo do meu que podia senti seu hálito fresco cobri meu rosto e sua perspiração quente.

— No seu apartamento?

— Não. — Franzi o cenho. — Surpresa.

— Assim não vale. — Fiz cara de manha.

— Vale sim. — Me deu um selinho e se afastou um pouco. — Vamos, estou esperando você lá no palco. — Eu assenti. Ele deu uma piscadela e saiu.

  Depois que deixei o pedido dos clientes na cozinha me apressei a ir para o palco.

As cortinas estavam fechadas, e assim que eu atravessei-as Michael estava encostado no piano. De braços cruzados e um sorriso sapeca dançando nos lábios. O que será que ele estava aprontando heim?

Caminhei até ficar bem pertinho dele e fixei meus olhos nos seus, tentando decifrar aquele brilho.

— Anda logo. Conta o que você está aprontando! — Exigi em um tom divertido. Ele arqueou as sobrancelhas.

— Eu não estou aprontando nada.

— Está sim. Olhe só essa sua cara.

— Então quer dizer que a minha expressão me acusa?

— É. — Ele sorriu.

— Ta certo. — Balançou a cabeça. — Vamos tocar para ficar mais feliz e fazer as pessoas mais felizes?

— O que? Não... Primeiro me conte o que você está tramando.

— Tramando? — ele franziu o cenho — O termo não era aprontando?

— Ah Michael... Conta logo. — Rolei meus olhos. Ele estava tentando fugir do assunto.  

— Não... É surpresa.

— Mas... — Fui interrompida quando ele me puxou e colou sua boca na minha, dando uma única chupada no meu lábio inferir com volúpia. Foi tão sexy que eu arfei.

— Vou abri as cortinas. — Sussurrou. Ele não iria me dizer mesmo o que estava aprontando, então desistir de saber o que era naquela hora.

Ele esperou eu ajeitar o pedestal e dá um ajuste bem rápido na afinação do violão. Depois que terminei, fiz um gesto de cabeça e ele abriu as cortinas.

Logo começamos a tocar uma música que falava sobre uma pessoa se declarando para a outra. Era bem romântica mesmo. Suave e a batida era constante conforme a necessidade do ritmo.

Era incrível como eu e o Michael entravamos em sintonia no ritmo de qualquer canção. Fosse ela no tom mais agudo até o mais grave.

Acabamos por volta das dez da noite. Depois que saímos o palco, Michael tinha se enfurnado no escritório do seu pai e eu tinha ido tomar um banho. Ele havia insistido que iríamos sair hoje.

Fiquei no salão, sentada em uma das mesas a sua espera, quando de repente uma mulher parou ao meu lado e pigarreou chamando minha atenção. Levantei minha cabeça para encará-la.

Era uma loira bem bonita. Corpo perfeito dentro de um vestido vermelho na metade das coxas, sua pele bem cuidada. Mas seus olhos verdes num tom claro não tinham nenhum brilho, pois ela parecia estar triste.

Ela respirou fundo e sorriu de lado.

— Você tem uma voz linda. — Me elogiou.

— Obrigada.

— Sempre toca aqui?

— Às vezes. — Que estranho.

— Ah. — Deu uma pausa, e ela parecia ponderar para perguntar mais algo. — Seu namorado?

Franzi o cenho e fiquei calada. Isso estava muito estranho.

— Ah desculpe. Eu não deveria ter perguntado isso a você. Com licença. — Desculpou-se e saiu do meu campo de visão. Acho que ela era maluca.

— Vamos? — Ouvi Michael se pronunciar. Eu me levantei e olhei para ele.

— Vamos. — Peguei minha bolsa e saímos restaurante afora.

Estávamos conversando dentro do carro, mas eu não sei por que aquela loira não saia da minha cabeça. Talvez eu estivesse assim por causa da pergunta que ela fizera, não sei...  

— Michael? — Cortei a o assunto que estávamos conversando e ele calou-se. — Sabe... Hoje enquanto eu estava esperando por você no salão aconteceu uma coisa muito estranha.

Ele olhou pra mim de cenho franzido e depois voltou a olhar para a pista.

— O que aconteceu?

— É... Foi que uma... Uma mulher veio falar comigo e...

— Falar com você?

— Sim. Falar comigo e... Ela me elogiou e também perguntou se éramos namorados. — Michael ficou em silêncio. — Você está me ouvindo?

— Sim... Estou. — Olhou para mim por um instante. — E como era essa mulher?

— Ah... Era uma loira... Olhos verdes ofuscados... E era bem bonita.

Michael soltou um suspiro pesado, mas não tirou seus olhos da estrada.

— Você está bem?

— Estou. — Apressou-se em responder — Vai ver ela queria só elogiar você.

— É... Deve ter sido isso. — Assenti mais tranquila e olhei pela janela.

Michael estava estacionando o seu carro no mesmo lugar onde ele havia me levado para um luau. Abaixo do letreiro de Hollywood.

Olhei para ele com uma expressão interrogativa e o vi sorrindo de leve. O que será que Michael estava fazendo hein? Que homem imprevisível era esse?



Capítulo 21

Lucy

Michael parou o carro no início das barreiras daquele lugar íngreme onde já tínhamos ido. Só que dessa vez não havia faíscas ao ar, nem pessoas em volta de uma fogueira cantarolando enquanto outros tocavam violão. Éramos só eu e ele.

— Michael, o que estamos fazendo aqui? — Perguntei olhando pra ele.

Ele não respondeu, apenas desceu do carro, vez à volta no mesmo e parou ao lado da porta onde eu estava.

— Vem. — Abriu a porta com uma ansiedade nítida.

— Mas o que...

— Vem. — Me interrompeu e estendeu a mão para mim, que logo segurei.

— Eu sabia que você estava aprontando. — Murmurei e ele sorriu de leve.

— Não estou fazendo nada demais. — Me guiou até a frente do carro. Franzi o cenho e encarei-o muito confusa. 

— Michael? — Arqueei as sobrancelhas.

Ele sentou-se no capô do carro e em seguida deitou-se no mesmo.

— Anda, vem aqui. — Espalmou a mão ao seu lado, incitando-me para fazer o mesmo que ele. E assim o fiz. Sentei-me no capô do carro e em seguida me deitei, mirando meus olhos naquele céu lindo e resplandecente, onde as estrelas reluziam entre as pequenas nuvens. A lua estava linda, e eu sei que pode soar até como uma bobagem, mas ela parecia está sorrindo pra mim.

— Veja só que coisa linda. — Murmurei extasiada com essa visão.

— Que visão? A do céu, ou você? — Michael disse, e quando eu virei minha cabeça pra olhá-lo, ele já estava me olhando, sorrindo.

— A lua. Eu estava falando da lua, mas... — Parei de falar quando ele apoiou seu cotovelo no capô e segurou sua cabeça.

— Mas você é mais linda. — Concluiu. E se esticou um pouco para alcançar meus lábios e beijá-los. Continuei olhando pra ele.

— Por que estamos aqui? Não é proibido? — Ele negou com a cabeça bem devagar.

— Não quando se pede autorização.

— Você pediu autorização? — Indaguei e ele balançou a cabeça em positivo. — Espera ai. Você pediu autorização só para nós dois estarmos aqui? Nós dois?

— Sim... Quer dizer, não eu, mas... Lembra do Nick?

— Aquele que te emprestou o violão que você me induziu a tocar lá em cima? — Apontei para o letreiro.

— Sim, ele fez esse favorzinho pra mim. Mas eu não te induzi a tocar, eu pedi, é diferente. — Defendeu-se com um sorriso de lado.

— Você me induziu e depois me beijou. — Provoquei-o sem olhá-lo.

— O que? Mas você gostou.

— É... Eu gostei, mas...

— Mas...? — Ele levantou as sobrancelhas e ficou esperando eu concluir.

Eu fiquei paralisada, olhando-o. Não me canso de dizer que Michael era lindo. Seus olhos me fitando me deixavam louca, seus lábios entre abertos eram bem convidativos. O vento assoprou e seus cachos esvoaçavam com sua brisa.

— Me beija. — Ouvi-me dizer. Não pude controlar. Ele franziu o cenho e sorriu.

— Quer que eu te beije agora?

— Você não quer?

— Claro que quero...

— Então está esperando o que?

— Nada, é que... — Não entendi o porquê do Michael está delongando em vez de está me beijando.

Me levantei um pouco e segurei seu rosto com minhas mãos, beijando-o e trazendo junto comigo até encostar minha cabeça de volta no capô do carro. Ele me correspondeu de bom grado, mas logo soltou meus lábios e ficou me fitando com seus negros desconcertantes.

— O que foi? — Perguntei.

— Espera aqui. — Fora única coisa que ele disse antes de descer do capô. Sentei-me e o vi abri a porta de trás do carro e tirar do mesmo um vilão branco. Depois ele voltou e se sentou no capô, estendendo o violão pra mim, que mesmo sem entender nada peguei e apoiei nas minhas pernas.

— Toca pra mim. — Pediu com carinho.

— Isso é um...? — Tentei perguntar enquanto examinava o takamine branco que eu segurava. Seu corpo bem feito, o braço, seus trastes, e suas cordas de aço. Era lindo, muito lindo mesmo. Saí do meu transe quando percebi que Michael me olhava. — Por que você está com um violão? — Olhei-o com desconfiança.

— Gostou?

— O que? Isso é um Takamine.

— Eu sei. Por isso comprei pra você. — Paralisei mais uma vez. Michael tinha comprado aquele violão pra mim?

— Você está de brincadeira não é mesmo?

— Não mesmo. — Balançou a cabeça.

— É... Eu... Não posso aceitar.

— Só não pode como vai.

— Não Michael... É sério. Eu não posso. — Eu não podia mesmo. Aquele violão com certeza custou uma grana alta, e eu não poderia aceitar. — Deve ter custado uma grana pra você e...

— E eu não me importo, Lucy. É seu. 

— Mas...

— Mas nada. Você vai aceitar, certo? — Abri minha boca para negar, mas ele me impediu. — Certo?

Rolei meus olhos e por fim acabei me rendendo.

— Tá bem. Mas não se atreva mais a comprar coisas tão caras assim.

— Deixa de bobagem e agora toca pra mim.

— O que você quer que eu toque?

— O que você quiser. A única coisa que eu quero é ouvir sua voz linda cantando pra mim. — Enrubesci um pouco. Assenti e logo comecei a tocar e a cantar uma canção após a outra enquanto Michael me olhava sorrindo. Aquele violão era mesmo incrível assim como imaginei. Me lembro que o Brad sempre quis ter um, mas como ele não tinha condições financeiras nunca pôde comprar. E eu nem estava acreditando que agora segurava um. Era extraordinário o som que aquelas cordas emitiam.

Michael começou a bater palmas depois que eu parei de tocar, em seguida pegou o violão e colocou no teto do carro.

— Pensei que queria que eu tocasse.

— E você tocou. Agora eu quero você pra mim. — Colocou a mão na minha nuca e tomou meus lábios, enquanto me deitava, colocando-se por cima de mim e entre minhas pernas.

Seu beijo era ardente e carinhoso. Era tão certo o jeito com que nossas línguas duelavam que passaram-se minutos em que estávamos nessa sintonia. Meu corpo parecia receber descargas elétricas quando Michael deslizou suas mãos quentes por debaixo da minha blusa. Eu estava ficando excitada. Ele parou de beijar, desceu do capô do carro e puxou minhas penas, enlaçando-as em volta da própria cintura. Eu sentia que iríamos fazer amor ali mesmo quando ele voltou a me beijar, só que agora com urgência.


Capítulo 22

Lucy

As mãos de Michael deslizavam pelos meus seios, apertando-os. Puxei seus cabelos quando ele desceu seus lábios até o meu pescoço, fazendo-me gemer.

— Mi... Michael aw! — Gemi, e ele desceu suas mãos até o meu jeans, tirando os botões da mesma. Interrompi-o de tirar o último quando coloquei minha mão sobre as dele. Ele soltou meus lábios muito ofegante e me fitou.

— O que foi? — Sussurrou.

— E se alguém aparecer? — Minha respiração estava descompassada.

— Não vai. Confie em mim. — Disse e eu assenti, porque confiava. 

Ele abriu o último botão da minha calça, tirou-a rapidamente junto com a minha calcinha e jogou-as no teto do carro para fazer companhia ao violão.

Ele voltou a me beijar e suas mãos hábeis começaram a apertar minhas coxas, eu soltei um gemido que foi abafado com a boca dele quando migrou uma de suas mãos para perto da minha intimidade, aproximando cada vez mais dela.

Eu estava louca para tê-lo dentro de mim. Meu corpo parecia em chamas e esse fogo só iria cessar quando tornássemos em um só.

Comecei a desabotoar sua camisa até deixá-lo livre da mesma. Depois desci minhas mãos até o botão da sua calça e desfiz. Meu corpo todo se contorceu, e senti meu centro pulsar quando sua mão tocou no meu clitóris e passou a massageá-lo, estimulando-o. 

Michael desceu um pouco a frente da sua calça e a sua cueca e colocou seu pênis pra fora, me dando aquela visão maravilhosa e alegria em saber que tudo aquilo estaria dentro de mim. Ele me abraçou, e um som parecido com um rosnado escapou de seus lábios quando ele segurou o seu pênis e me penetrou gradativamente, inclinando seu corpo sobre o meu, fazendo-me deitar novamente no capô, já preenchida por completa.

Ele começou a se movimentar lentamente até tornar os movimentos mais rápidos. Como eu ainda estava de blusa, ele levantou-a junto com o meu sutiã e chupou meus seios com volúpia, enquanto eu arquejava com a sensação maravilhosa que aquilo estava me dando.

Eu tirei minhas mãos dos seus cabelos e finquei nas suas costas largas, arrastando-as. Ele arqueou a cabeça para trás e começou a me estocar mais rápido e com mais força. Milhões de sensações percorria pelo o meu corpo com aquilo, suas estocadas, seus beijos, seus grunhidos e gemidos... Estava muito gostoso. 

Abri meus olhos com muito esforço e os fixei no céu, sentia o prazer se aproximando de mim e com mais algumas investidas delirantes de Michael não vi somente aquele céu estrelado, mas era como seu eu tivesse vendo outras galáxias quando cheguei ao ápice e deixei que meu corpo fosse amolecendo com a sensação de libertação. Michael também começou a tremer, como se a qualquer momento fosse explodir dentro de mim. E foi isso mesmo que aconteceu. Ele levantou a cabeça, espremeu seus olhos e abriu a boca em forma de ‘O’, enquanto seu líquido quente escorria dentro de mim, libertando-se. Suas investidas foi cessando aos poucos, ele colocou a cabeça no meu pescoço e foi ali que nós dois, ofegantes e sem conseguir dizer nada ficamos até recuperarmos um pouco as nossas forças.

— Michael, isso foi... Perfeito! — Eu disse olhando para o céu e modelando seus cachos com o meu dedo.

Ele levantou a cabeça e me deu um beijo calmo.

— Foi maravilhoso. — Reforçou e saiu de dentro de mim.

Minutos depois já estávamos vestidos e deitados novamente no capô do carro olhando para o céu estrelado.

— Michael?

— Sim.

— Você acredita em estrela cadente? — Tenho certeza que agora ele estava olhando pra mim.

 — Se eu acredito?

 — Hurum.

— Ah... Eu não sei. Pelo menos eu nunca fiz um pedido a uma. — O silêncio se instalou por um instante, mas depois eu quebrei.

— Eu já fiz. — Olhei pra ele.

— O que?

— Um pedido a uma estrela cadente.

— E se realizou. — Assenti com a cabeça. — E o que você pediu? — Eu sorri e voltei a olhar para o céu, evitando respondê-lo. — Hein? O que você pediu?

— Uma trégua.

— Trégua? — Balancei a cabeça em positivo.

— O destino ferrou demais com a minha vida, Michael. Então eu pedi uma trégua, uma nova chance — dei uma pausa — um novo amor. — Voltei a olhá-lo. — Então o destino me deu você.

Michael sorriu contente ao ouvi isso de mim, aproximou seu corpo do meu e me deu um selinho. Apoiou sua cabeça na própria mão e ficou olhando para o meu rosto, analisando cada traço meu enquanto acariciava o mesmo.

— Eu me recuso em imaginar você sofrendo. — Disse afável. Seus olhos tinham um brilho novo, demonstravam lástima. Que droga, eu não gostava quando alguém sentia pena de mim.

—Não precisa. Eu estou bem agora. Estou com você. — Toquei no seu rosto e ele beijou a minha mão. Ele sorriu e votou a deitar-se ao meu lado.

— Era a Sara. — Proferiu com a voz um pouco trêmula e hesitante.

— Ãm?

— A garota que falou com você no restaurante — ponderou um pouco — era a Sara. — Meu coração parou por um instante e minha respiração falhou quando ele revelou isso. Me sentei e o fitei incrédula. Torci para que tivesse escutado errado.

— O que? — Balbuciei. Ele também se sentou e segurou minhas mãos.

— Me desculpa não ter te contado antes.

— Aquela é a Sara? — Indaguei. Ele balançou a cabeça confirmando.

— É.

— Nossa... Ela é tão... Bonita. — Murmurei descrente de que tinha falado isso mesmo. Michael franziu o cenho.

— Bonita? Você só vai dizer isso? — Estranhou.

— E você quer que eu diga o que?

— Pensei que iria ficar com ciúmes. Ao invés disso você diz que ela é bonita? — Sorri.

— Eu estou com ciúmes.

— Está? Ow... Quer dizer... Não precisa ficar.

— Claro que estou. Ela é sua ex-namorada, mas não posso negar que ela é bonita, Michael, eu não sou cega. E é exatamente por isso que estou com ciúmes.

— Mas não precisa ficar. Eu já disse a ela que não queria vê-la e...

— Disse a ela? — Interrompi-o e ergui minhas sobrancelhas.

— Ah droga. — Murmurou e passou a mão nos cabelos. — Olha só Lucy. A Sara me procurou — esbugalhei meus olhos — e eu dei um chega pra lá nela.

— Por que você não me contou?

— Estou contando agora.

— Antes. — Michael respirou fundo.

— Por que eu não sabia que ela chegaria até ao ponto de ir até o restaurante, e... Eu não quero esconder nada de você.  Abaixei meus olhos e fiquei pensando um pouco. Sim, eu estava com ciúmes, mas não dela, e sim dele. E não era justo eu sentir isso, ele estava sendo sincero comigo e isso era bom. Ele uniu minhas mãos e beijou-as. — Não precisa ficar com ciúmes ta bem? Eu só tenho olhos pra você.

— Por que ela voltou?

— Eu não sei, e nem quero saber. Não me interessa. — Tocou no meu rosto — Você me ouviu dizendo que só tenho olhos pra você, não foi? — Olhei bem no fundo dos seus olhos e assenti.

— Ouvi sim. Eu acredito em você. — Sorri e me deixei ser beijada por ele.

— Que bom. Que bom. 


Capítulo 23

Michael

Não sei se contar que a Sara me procurara tinha sido de certo uma boa ideia a não ser ver a Lucy com ciúmes de mim. Claro que ela não tinha razão e nem precisava ter, eu só tinha olhos para ela e a Sara já era um passado bem distante. Meu presente e o meu futuro já pertenciam a Lucy.

Entrei no meu apartamento, fechei a porta e joguei as chaves em cima da mesinha ao lado. Quando liguei a luz tomei um breve susto quando vi Sara sentada no meu sofá, olhando-me. Que merda, porque ele estava ali? Como ela entrou? 

— Mas que droga, Sara! O que você pensa que está fazendo?! — Indaguei furioso. Ela se levantou e caminhou até mim, tentando colocar suas mãos no meu peito.

— Michael, eu só queria te ver e...

— Como entrou aqui? — Perguntei desvencilhando-me dela. — Como entrou aqui? — Ele estudou as próprias mãos e depois me mostrou um colar que estava no seu pescoço com uma chave como pingente. Era a chave que eu tinha dado a ela quando namorávamos.

— Eu ainda tenho a chave. — Disse ela, murmurando. Passei a mão no meu cabelo e respirei fundo. Porra, ela ainda tinha essa maldita chave.

— Não deveria estar aqui. Olha Sara, é melhor você ir embora. — Sugeri sem olhar diretamente nos seus olhos.

— Não Michael, você precisa me ouvir.

— Não, eu não quero ouvir. — Me exaltei sem querer, elevando minha voz. Ela estava me irritando, e olha que eu não era de ficar assim, esse quem gritou sem sombra de dúvidas não era eu. Eu não queria vê-la, não queria ouvi-la, não queria nada. Essa mulher tinha me deixado para tentar uma vida diferente, tentar uma carreira deixando o certo pelo o duvidoso, sem nem sequer pensar nas consequencias.

— Eu não vou embora. Michael, você precisa me ouvir, me entender... Eu fui uma idiota, eu sei ta legal... Mas eu voltei. — Se aproximou de mim e tocou no meu braço. Meus olhos desceram minimante para a sua mão e ela tirou-a percebendo o asco que eu estava sentindo.

— O que aconteceu pra você ter voltado, Sara? Sua nova vida não saiu do jeito que você imaginou? — Perguntei com ironia. Seu olhar desceu até o chão e uma expressão triste tomou conta do seu rosto.

— O Rick me enganou. Disse que eu lançaria um CD em 2 meses depois que eu estivesse em Nova York e... — Interrompi-a.

— Me deixa adivinhar. Você acreditou e se mandou? Depois percebeu que ele havia a enganado e decidiu voltar pensando que eu estaria de braços abertos esperando por você? — Ela abriu a boca para argumenta, provavelmente, mas eu não permiti. — Eu fui embora por sua causa, Sara. Me senti um idiota. Ai você volta e quer que tudo volte a ser que era antes? — Nesse momento eu já falava rosnando.

— Eu tenho ciência do que fiz, eu sei que te machuquei e me arrependo amargamente por ter deixado você. Mas eu voltei. — Me lançou um olhar esperançoso. Eu balancei a cabeça e desviei meus olhos. — Você não pode ter me esquecido. Eu sei que ainda sente algo por mim. — Sorri sem humor. Essa foi boa.

— Não se engane, Sara. A fila já andou há muito tempo. — Eu disse em um aviso externo para que ela saísse do meu apartamento e agora.

Seus claros olhos ganharam um brilho ofuscado, e lá eu também pude ver dor, uma dor que eu não sabia explicar porque. Eu não tinha ódio dela, mas isso não me comoveria.

— Vai embora, por favor! — Pedi mais uma vez.

— É aquela garota, não é? — Perguntou com a voz um pouco embargada. Fiquei calado. Não era da conta dela. — Aquela garota que cantou com você lá no restaurante.

— A fila anda. — Ela balançou a cabeça e deu um sorriso descrente.

— Não acredito. Você arrumou uma garota para me substituir?

— Para te substituir? Você fala como se você fosse um ser insubstituível. — Sorri sem humor. — Mas não. Eu não substituir você, você que perdeu o lugar que tinha em minha vida. Eu estou apaixonado pela Lucy, entendeu?

— Sabe que eu não acredito que você está me trocando por ela? Dizendo na minha cara que se apaixonou por uma... Por uma... — Ela limitou-se a dizer o que eu sabia exatamente o que era.

— Funcionária? — Concluí por ela. — Impressionante, Sara. Eu me lembro que você também era uma. — Meu olhar era de desdenho para ela. O que aconteceu com ela? Ela não era assim. Será que essa história dela tentar ser uma artista de verdade a deixou com o ego lá em cima? Balancei a cabeça incrédulo.

Ficou quieta por alguns instantes me olhando, mas quando abriu a boca pra falar eu não permiti porque seja lá o que fosse eu sabia que ela iria vim com a picuinha de sempre, tentando se justificar pelo o que fez. E sinceramente, eu não estava nem um pouco a fim. Minha noite com a Lucy tinha sido boa demais para que no final a Sara viesse me rodear.

— Cala a boca. Preste a atenção. Só vou falar uma vez. — Eu dizia frio e duro, tanto que me desconhecia, mas era necessário. Ela parecia se encolher ali mesmo. — Fique longe de mim e da Lucy. Eu a amo, entendeu? — Ela não mexeu nenhum músculo. Eu continuei. — Então se você tiver um pouco de dignidade saia já do meu apartamento.

Os olhos dela se arregalaram, mas depois ela respirou fundo e tentou se manter firme.

— Eu não acredito em você.

— Eu pouco me importo se você acredita ou não.

— Ela é só...

— Ela é a mulher por quem estou apaixonado. Você terá que lembrar disso. — Ela exprimiu os olhos — Onde está a sua dignidade? Acho que já falei algo sobre isso, não é mesmo? — Saíram faíscas dos seus olhos quando ela os abriu.

— Isso ainda não acabou Michael. Eu não sou de desistir fácil, e você sabe. — Disse ela. Cruzei os braços e rolei meus olhos. Ela virou-se e saiu do meu apartamento batendo os pés.

Era só o que faltava mesmo. Coloquei uma mão no quadril e passei a mão no cabelo, soltando um ar aliviado por ela ter ido embora. Mas essa última frase proferida por ela me deixou tenso. Será que ela iria ficar insistindo nisso? Torcia para que não.




Capítulo 24

Lucy

O restaurante estava com o movimento razoável. Nem muito e nem pouco. E não era dia de apresentação.

Enquanto atendia um casal, vi Michael atravessar a porta principal do restaurante e olhar pra mim. Ele sorriu e eu retribuí. Parecia diferente, incomodado, ou talvez fosse só impressão minha. Eu retribuí com outro sorriso e me concentrei no meu trabalho.

— Sei que não da minha conta, mas é impressão minha, ou o Michael está diferente? — Sharon me perguntou assim que entrei na cozinha. Até ela percebeu isso.
— Não, não é impressão sua. — Murmurei franzindo o cenho. Coloquei o pedido no quadro e quando voltei a atravessar o anexo do salão meu corpo chocou-se com o de alguém que logo soltou um gritinho irritante. 

— Ai meu Deus, me desculpe é... — Parei de me desculpar quando a mulher que tinha se chocado comigo levantou a cabeça. Era Sara, a ex do Michael. Mas espera aí. O que ela estava fazendo aqui?

Ficamos nos olhando por uns longos segundos, até ouvirmos a voz de Michael chamando nossa atenção.

— Lucy? Sara? — Disse em tom baixo. Nos duas olhamos para ele no mesmo instante.

— Olá Michael. — Sara se postou na frente do Michael com um sorriso estampado nos lábios. — Quero terminar nossa conversa. Eu disse que não teria terminado ontem a noite. — Ah... Com certeza ela já sabia sobre eu e o Michael.

Conversa? Mas que porra de conversa era essa?

Estreitei meus olhos, e o olhar que Michael lançou pra mim era como se ele estivesse me dizendo: “não é nada disso que você está pensando.”

— Ah cara, isso é sério? — Eu disse em um tom bem audível para que a Sara pudesse ouvir.

Michael respirou fundo e colocou a mão na cintura. Sua expressão estava tensa e agora eu entendia o porquê. 

— Lucy, essa é a... Sara. — Pigarreou. Disse como se eu não soubesse quem era ela. — Sara, essa é a Lucy. — Ele se aproximou mais de mim e enlaçou minha cintura. O semblante de Sara se contraiu um pouco.

— Hum. — Ela murmurou desviando seus olhos de mim para Michael. — Mas e aí? Vamos terminar aquela conversa de ontem a madrugada? — Sua voz demonstrava muita malícia. Arregalei meus olhos na medida em que me virava para olhar Michael. Arqueei as sobrancelhas e esperei que ele falasse alguma coisa. Ele sabia que eu estava esperando por alguma explicação.

— Acho que agora estou sobrando por aqui. — Eu disse sarcástica. Ela balançou a cabeça e olhou para Sara. — Depois conversamos. — Saí de perto dele, ainda o ouvi me chamar, mas ainda sim me saí.

— Já disse pra ficar longe de mim! — Ainda muito distante ouvi ele dizer a ela, depois que entrei na cozinha não ouvi mais nada. Fui diretamente para o banheiro feminino, me encostei na pia e abaixei minha cabeça.

Em menos de um minuto a porta foi aberta e Sharon apareceu na minha frente.

— Você está bem? — Ela perguntou.

— Estou. — Olhei pra ela e sorri de lado. Nada convincente. Ela balançou a cabeça e se encostou na pia, ao meu lado.

— Não minta pra mim. Você não está bem. — Olhei de lado pra ela.

— Eu estou bem Sharon. Acredite. — Ficamos em silêncio por alguns instantes.

Não, eu não estava bem. Eu estava com ciúmes, mas eu não era uma pessoa estourada para exteriorizar esse tipo de sentimento. 

— Ele só tem olhos pra vocês. — Sharon disse.

— Ãm? — Olhei-a confusa.

— Não se faça de boba. Eu sei que você está assim por causa da Sara. Eu também a vi.

— Arg Sharon...

— Sem chances deles outra vez, Lucy. Ele só tem olhos pra você. Está escrito isso no olhar dele. — Disse tentando me consolar. Eu sorri.

— E então o que ela veio fazer aqui?

— Eu não sei. — deu de ombros — Mas se foi pra tentar reatar com ele pode crer que ela está perdendo o tempo dela. Michael está apaixonado por você. — Eu não falei nada, apenas sorri mais uma vez e balancei a cabeça.

Segundo depois ouço a porta sendo aberta outra vez e então Michael surgiu na nossa frente.

— Lucy...

— Ãm... Vou voltar para o salão. — Disse Sharon que antes de se sair deu uma piscadela pra mim.

Continuei encostada na pia e de cabeça baixa. Eu não queria parecer ridícula com esse ciúme. Ele havia me dito da última vez que sua ex tinha o procurado, e talvez fosse me contar dessa outra vez, só não teve tempo. Era isso.

— Eu ia te contar. — Ele soltou um suspiro.

— O que? — Perguntei ainda sem olhá-lo.

— O que aconteceu ontem depois que eu te deixei em casa.

— E o que aconteceu ontem depois que você me deixou em casa? — Levantei minha cabeça para encará-lo.

Agora foi a vez dele de se encostar na pia ao meu lado.

— Ontem quando voltei... Ãm... Sara estava no meu apartamento. — Começou a se explicar com cautela. — Eu esqueci que ela ainda tinha a chave que a dei quando estávamos juntos. Mas eu a coloquei pra fora.

— Colocou? — Balbuciei.

— Coloquei.

— Ah...

Silêncio. Ele estendeu o braço e segurou meu queixo, fazendo com que eu olhasse para ele.

— Eu não tive culpa. — Ele voltou a se explicar.  

— Eu sei. — Murmurei.

— Então... Está tudo bem com a gente?

— E porque não estaria? — Seus olhos suavizaram quando eu disse isso. Soltou um suspiro aliviado e sorriu.

Eu sei que ele estava falando a verdade, mas a volta dessa mulher me deixou com um certo medo. Tinha certeza de que agora ela iria ficar cercando ele. Talvez alguém poderia me julgar, dizer que eu deveria tomar satisfações ou me manifestar, mas eu era tranquila demais pra isso, eu não era baixa. Mas caso ela voltasse a rodear o que era meu, dessa vez eu seria capaz de ir contra os meus princípios.  

— Se ela voltar a te cercar, eu juro que quebro a cara dela! — Explanei olhando com seriedade pra ele. Ele arregalou os olhos com minha ameaça. — Só pra deixar claro! — Completei com sarcasmo.

— Lucy?

— Michael? — Arqueei as sobrancelhas. Ele sorriu.

— Você fica sexy com ciúmes. — Ele não acreditou que eu estava falando sério.

— Eu estou falando sério, Michael. — Seu sorriso desapareceu aos poucos.

— Droga, você está! — Resmungou passando a mão na cabeça. — Ela não vai mais fazer isso.

— Assim eu espero. — Retruquei e desencostei-me da pia. Ele segurou minha cintura e me puxou para si.

— Você fica mais linda com ciúmes. — Enfiou sua cabeça no meu pescoço e começou a me cheirar.

— Eu não estou com ciúmes.

— Está sim. Até ameaça está fazendo. — Subiu até o meu rosto e colou seus lábios nos meus em um selinho demorado.

— Só estou cuidando do que é meu. — Eu disse passando a mão nos seus cachos. Tocou na mecha do meu cabelo e colocou atrás da minha orelha enquanto me olhava com ternura.

— Lucy eu... Eu te amo. — Declarou-se estudando meus traços. Eu fiquei inerte e atônita ao mesmo tempo. Era a primeira vez que ele dizia que me amava, até porque paixão é diferente de amor. E ele me amava, ele me amava e naquele momento eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo. Ah cara, não havia dúvidas de que minha paixão também tinha se tornado um amor forte.

— Michael... Eu... Eu também te amo. — Pigarreei com um sorriso despontando em meus lábios. Depois o abracei e o beijei com voracidade, como nunca tinha beijado antes.


Depois voltei para o salão e o resto da noite tinha sido tranqüilo. Eu estava feliz, parecendo uma boba, mas ao mesmo tempo com um mau pressentimento. Parece até bobagem, mas agora que o Michael tinha dito que me amava eu fiquei com medo do que poderia acontecer. E se fosse mais uma peça do destino contra mim? Sua especialidade era me machucar. Ah não, eu nem queria pensar nisso. Mas eu já sofri tanto nessa vida que até a felicidade me assustava. 



Capítulo 25 

Michael

Estacionei meu GTO em frente à casa de Lucy e desci do mesmo, me direcionando a porta da entrada da casa. Era domingo e a noite estava linda, perfeita para passar ao lado da Lucy, já que nem todos os domingos ela folgava. Toquei na campainha e esperei pacientemente para alguém abri-la.

— Sr Jackson? — O olhar que o Mario lançou pra mim assim que abriu a porta era de uma pessoa surpresa. Tinha que ser, eu nunca tinha ido lá daquela forma e muito menos parado para entrar. E além do mais a Lucy nunca me convidara antes.

— Boa noite Mario. — Respondi e sorri cordialmente. Caramba, eu tinha esquecido de que ele não pegava no mesmo turno que o da Lucy.

— Oh, por favor, entre. — Ele abriu passagem e eu entrei.

— Com licença. — Ele fechou a porta atrás de si e ficou me encarando. — Ah... Por favor, me chame só de Michael.

— Claro. — assentiu. Por que será que ele continuava me encarando desse jeito?

Pigarreei e cocei a cabeça.

— Tudo bem com você? — Perguntei para tentar tirar aquele clima que estava me constrangendo. E como forma de educação, sobretudo.

— Sim, estou bem, e você?

— Estou ótimo. E a Rose?

— Também está ótima. — Respondeu ele, e voltamos a ficar em silêncio por alguns segundos.

— A Lucy está lá em cima. Pode subir se quiser. — Isso foi uma tentação? Franzi o cenho estranhando isso. Ele sorriu. — Anda, pode subir, aqui não tem frescuras não. — Piscou um olho pra mim.

— Claro. — Assenti e me virei, indo em direção a escada. Já no meio da mesma enquanto estava subindo a Rose estava descendo toda arruma. Quando me viu seu sorriso se alargou de orelha a orelha. Será que eles iriam sair?

— Michael? — Ela também estava surpresa.

— Olá Rose. — Fora a única coisa que eu disse. Ainda me sentia um pouco deslocado.

— É... — Ela ficou com uma mão gesticulando, tentando proferia algo. — A Lucy está no quarto. — Murmurou e eu assenti com um gesto de cabeça. — A última porta. — gritou por fim quando eu já estava no pequeno corredor. Parei em frente a porta que estava entreaberta e seguei na maçaneta, empurrando-a um pouco.

Lucy estava sentada de costas para mim, e segurava o violão que eu dei pra ela. Seus dedos deslizavam pelas cordas e casas com maestria, formando uma simples melodia suave e gostosa de ouvir. Também cantarolava uma canção que eu nunca ouvira antes. Até em meio tom a sua voz era linda, encantadora. Parecia um anjo. Eu poderia ficar a eternidade parado ali só observando-a.

Dei três batidinhas na porta e ela parou de tocar e cantar, virando-se para mim. Eu sorri pra ela.

— Michael? — Ela franziu o cenho pela surpresa, mas depois foi esboçando um sorriso.

— Oi. — Adentrei no quarto e fechei a porta atrás de mim.

— O que você está fazendo aqui? Por que não me ligou? — Ela colocou o violão em cima da cama e pôs os pés no chão. Estava usando um short de malha preto deixando suas pernas bronzeadas a mostra e uma regata amarela. Até com roupas simples assim ela era linda.

— Quis fazer uma surpresa. O Mario disse que eu podia subir. Não gostou?

— Cla... Claro que gostei. É que... — respirou fundo — Claro que eu gostei. — sua voz era meiga.

Enfiei as mãos no meu bolso e me pus a observar o seu quarto.

— Então esse é o seu quarto. — Não foi uma pergunta. Ela olhou pra mim e assentiu. — Legal. — Arqueou as sobrancelhas e em seguida sorriu. Eu estava falando a verdade, e era o mesmo que eu esperava do quarto dela. Nada de estilo patricinha. O quarto era a cara dela, simples, mas era.

Olhei para ela que estava batucando as costas do violão ao seu lado, e me lembrei que ela estava tocando antes de eu chegar.

— Estava treinando? — Perguntei e me encaminhei na sua direção, sentando-me ao seu lado.

— Um pouco. — Ela pegou uma folha que estava ao seu lado junto com um lápis, e dobrou com urgência. Parecia que estava escondendo de mim. Eu não pude ver exatamente o que era, mas acho que era a letra de uma música pela estrutura

— Está treinando uma música nova?

— Nã-não. Não é nada. É só uma música que eu estava passando. Tinha esquecido um pouco dela. — Respondeu ela transparecendo está mentindo. E estava mesmo. Ela tinha um talento fora do comum para esquecer uma canção e precisar de um papel para lembrar as notas. Fiquei um pouco intrigado com isso, mas deixei pra lá.

Ela voltou a posicionar o violão nas suas penas e tentou mudar de assunto.

— Vamos cantar?

— Eu? Cantar?

— E por não?

— Por que... Eu... Eu prefiro tocar.

— Eu sei. Mas aqui não tem um piano. — disso irônica — Ah, qual é? Você nunca cantou junto comigo.

— Lucy...

— Michael... — Suplicou. Como eu iria negar a um pedido dela, principalmente quando ela me pedia com jeitinho.

— Tá bem. — Me dei por vencido rolando os olhos. Ela sorriu e se prontificou para iniciar a música. Logo reconheci pela melodia e comecei a cantar com vontade.

Cantar não era muito a minha praia, mas eu estava feliz por estar ali ao lado dela, cantando. Mais uma certeza de que éramos uma dupla em tanto. Não querendo me gabar, mas eu cantava bem. Minha voz sempre foi suave e com um toque de rouquidão, nada de falhas e afinada.

— Não acredito que você canta tão bem assim. — Ela disse sorrindo, deixando o violão de lado para me abraçar, e eu aproveitei e tomei os seus lábios em um beijo suave.

— Não exagera.  — Eu disse sorrindo com ela ainda nos meus braços.

— Não estou exagerando. — Olhou nos meus olhos e de repente o clima contagiante mudou. Bem, estávamos a sós no quarto, porta fechada ela nos meus braços... O clima estava deixando a desejar.

Segurei sua cintura com firmeza e puxei-a para cima do meu corpo enquanto me deixava na sua cama. Minha mão foi parar na sua nuca, puxei sua cabeça e a beijei com paixão. Depois inverti a posição e me pus por cima dela, enfiei uma de minhas mãos por debaixo da sua blusa e passei a massagear um de seus seios enquanto ela soltava uns gemidinho que era abafado por minha boca na dela. Senti sua mão agarrar meus cabelos e apertar mais nosso beijo. Levantei uma de suas pernas e coloquei na altura da minha cintura, tanto que minha ereção já roçava no seu sexo, por cima do short. Não consegui conter um gemido quando suas mãos percorram pela minha camisa, aranhado minhas costas. Lucy já estava entregue a mim, e, por mais que eu a quisesse agora, por mais que eu quisesse estar dentro dela, eu não podia fazer isso ali. Seus tios poderiam entrar a qualquer momento e isso não seria legal.

— Hey. — Parei de beijá-la e levantei minha cabeça com muito esforço. Estávamos sem fôlego. — Sabe que eu estou muito a fim não sabe? — Engoliu seco e balançou a cabeça confirmando — Mas aqui não é uma boa ideia. — Dei um selinho e em seguida saí de cima dela, sentando-me na cama. 

— Você tem razão. — Disse ela com a voz entrecortada se levantando e ajeitando sua blusa e o cabelo. Silêncio.

— É... Quer fazer alguma coisa? — Perguntei. Ela me olhou com insinuação. — Digo... Sair, comer alguma coisa.

— Que tal ficarmos e assistirmos a um filme lá em baixo? — Sugeriu ela.

— Um filme? Por exemplo... — Ergui minhas sobrancelhas.

— Já assistiu Top Gun?

— Nunca vi.

— Sério? — Assenti com a cabeça. — Então pode ver hoje, agora. É um clássico. Você vai gostar.

— Quem me garante?

— Eu. Eu garanto. — Deu de ombros.

— Então vamos! — Eu disse me levantando da cama, peguei na sua mão, mas quando iria puxá-la junto comigo, ela soltou.

— Espera ai.

— O que foi?

— É que eu... Eu preciso tomar um banho primeiro. — Disse soando um pouco vergonhosa e passando a mão nos cabelos. Franzi o cenho e sorri.

— Está bem. — Dei de ombros. — Só não demora. Mulheres têm uma mania triste de demorar. — Falei para provocá-la. Ela revirou os olhos e se aproximou de mim.

— Assim você me ofende. — Se fez de coitadinha e me deu um beijo. — Eu não vou demorar. — E saiu da minha frente, mas antes de entrar no banheiro pegou uma toalha e algumas peças de roupas.

Sentei-me na cama e me pus a esperá-la com paciência. Era assim que os homens tinham que ser com suas garotas, paciente.

Olhei em volta do quarto e quando percebi meus olhos estavam pregados na folha que a Lucy estava quando eu cheguei. Permanecia dobrada sobre a cama, ao lado o violão e o lápis. Não eu não peguei o papel, não iria desrespeitá-la invadindo sua privacidade de uma forma tão idiota assim. Se ela quisesse me mostrar me mostraria, se não viríamos isso depois.

Voltei a olhar para frente, mas achei ter visto outra coisa que me chamou a atenção. Enquanto eu desviava meus olhos do papel avistei algo debaixo do travesseiro da Lucy. Então por curiosidade quando olhei para o travesseiro havia mesmo algo sob ele. Era algo que certamente foi descoberto enquanto estávamos nos beijando. Espreitei o som do chuveiro para ter a certeza de que a Lucy ainda estava no banheiro, segurei na pontinha do que estava a mostra e puxei hesitando um pouco. Talvez fosse besteira — pensei, mas quando vi que era uma foto me intriguei e puxei-a de uma vez.

Fiquei parado com os olhos semicerrados naquele cara da foto segurando uma guitarra, de olhos verdes e cabelos castanhos. Não queria acreditar no que eu estava pensando. Ou melhor, eu não queria acreditar no que eu já pensara antes. Um homem, esse era o problema da Lucy, outro homem. — Constatei balançando a minha cabeça, me sentindo um idiota, o perfeito idiota.

Com minha visão ficando inflamada de raiva virei o lado da foto e tinha algo escrito lá com a letra bem legível. “Aconteça o que acontecer, eu nunca deixarei de te amar.”  Era por isso que ela não queria me contar o que tinha acontecido pra ela ter ficado daquele jeito. 


Capítulo 26

Lucy

Eu tinha acabado de tirar a toalha do meu cabelo quando atravessei a porta do banheiro toda empolgada e ansiosa. Seria uma noite perfeita ao lado do Michael, agarradinhos no sofá assistindo um filme, coisa simples, mas todo o meu entusiasmo desvaneceu-se quando o avistei encostado na minha cômoda ao lado na minha cama, com os braços cruzados e com o semblante insondável. Seus olhos cruzaram os meus e ali eu percebi que havia alguma coisa errada.

Ele continuava me fitando, e vi um asco dominar seus olhos enquanto ele me olhava. Eu estava ficando assustada. Talvez fosse coisa da minha cabeça, ou não.

Comecei a caminhar em sua direção, foi quando ele descruzou os braços e eu pude ver que ele segurava alguma coisa... Ah não droga! Parei no mesmo instante quando percebi que se tratava de uma foto. Rapidamente olhei para o meu travesseiro e o vi fora do lugar. Estava claro, era a foto do Brad que o Michael segurava. Merda!

— Michael eu... Eu posso explicar. — Murmurei sem saber por onde começar.

— Estou torcendo para que o cara da foto seja um cantor que você admira. — Disse em um tom de voz baixo e seco.

— É meu... Meu ex-namorado... — Senti um nó na minha garganta que me impedia de revelar mais.

— Claro que é. — Disse e sorriu sem humor.

— Olha só, Michael... Eu vou te contar tudo certo? — Tentei me aproximar dele, pensei que ele só estava esperando uma boa explicação e que depois ficaria tudo bem, mas ele entendeu uma mão para que eu parasse, vi que era mais sério do que pensei.

— Ora, não precisa.

— Mas eu quero te contar.

— Não. Você só quer me contar porque não tem mais o que esconder. Eu já eu saquei tudo. — Franzi o cenho com o seu tom irônico.

— Não, você não sacou. Eu ainda não expliquei. — repreendi-o — Eu-Eu... — segurei minha cabeça e abaixei-a pensando em uma forma de começar, o que só piorava as coisas.

— Eu não quero que você me conte mais nada.

— O que?

— Isso mesmo Lucy. Estamos juntos há meses, eu contei logo de cara minha vida pra você, e em vez de você me dizer que ainda gostava de outro disse que me amava.

— Michael, não... — Balancei a cabeça em sinal de negativo.

— Uma mulher que dorme com uma foto de um homem debaixo do travesseiro é sinal de que gosta dele.

— Você está entendo tudo errado. — Repreendi-o.

— Você mentiu pra mim. — Voltei a olhá-lo de cenho franzido. — Ainda gosta do seu ex, Lucy? Era esse o seu problema? Era esse o motivo que você vivia nos cantos com cara de magoada? — Me olhava com repulsa. Não, ele não poderia está me olhando daquele jeito, ele estava entendendo tudo errado, eu tinha que explicar logo o que acontecera.

— O que? Não... Não é isso o que você está pensando, Michael. — Soltei um suspiro.

— Então o que é? — Quando eu abri minha boca pra falar, ele não me permitiu. — Espere! Não fala. É melhor você ficar de boca fechada.

— Michael?

— Por que você tem uma foto do seu ex debaixo do travesseiro?

— Porque falar sobre o meu passado é doloroso. Eu não disse antes porque eu não conseguia tocar nesse assunto, contando também que você não fosse me entender. Mas acredite, eu iria te contar, e vou te contar.

— Eu não acredito em você. — Meu Deus, aquilo não poderia está acontecendo. Uma foto, por causa de uma foto?

— Eu ia de dizer e... — Tentei me explicar mais uma vez, mas ele não me permitia.

— Eu não quero saber! — Bradou enfurecido e eu me assustei. Céus eu nunca tinha o visto assim. Me senti como uma criança indefesa enquanto ele se aproximava de mim com aquele olhar, eu parecia estar me encolhendo debaixo dos seus olhos. Mas espera ai. Por que eu estava deixando ele gritar comigo? Não iria deixá-lo gritar comigo sem ter um bom motivo. Tomei a devida coragem de lhe contar tudo sem deixar ele me interromper, mas antes que eu pudesse falar sequer uma palavra, ele ergueu a foto do Brad e amassou-a com uma só mão, em seguida jogando-a no chão.

— O que você está fazendo? — Eu gritei desesperada. Era a única foto do Brad que eu tinha como lembrança e Michael tinha acabado de amassá-la por um ciúmes ridículo.

— Estou amassando a cara do homem que fudeu com a sua vida. — Disse sarcástico. — Não é assim que você diz? — Rosnou. Era isso mesmo? Ele estava pensando que o Brad tinha fodido com a minha vida, me magoado? Balancei a cabeça e ignorei suas próprias conclusões, abaixando-me para pegar a foto. Cara, eu gostava muito daquela foto e agora ela estava toda amassada.

— Você é um idiota. — Insultei-o desamassando a foto.

— Eu sei. Fui durante esse tempo todo pensando que havia uma reciprocidade entre a gente.

— Não foi não. Você está sendo agora. O maior idiota. — Eu rosnei jogando a toalha que ainda estava em minhas mãos contra ele.

— Não me chame de idiota! — Disse irritado.

— Então pare de agir como um! — Retruquei com minha visão querendo ficar turva. Parei pra pensar por um instante e me decepcionei, estávamos brigando feito dois adolescentes por causa de uma foto.

— Eu vou embora. — Disse dando as costas para mim. 

— Então vai ser assim? — Murmurei antes dele saí porta afora do meu quarto. Ele parou. — Vai ficar de mal comigo por causa de uma foto? — sorri sem humor.

— Não é por causa de uma foto. — Disse baixinho.

— Era meu namorado... — quando revelei isso ele coçou a nuca nervoso e colocou uma mão na cintura, ainda de costas pra mim — desculpa tá, eu iria te contar, só que eu ainda não estava pronta... E sinceramente ainda não estou, só que você acabou vendo essa foto e agora está entendendo tudo errado. Se pelo menos me deixasse explicar... — ouvi seu respiro pesado — Mas que droga, Michael, estávamos tão bem... — Senti algumas lágrimas teimosas escorrerem sobre meu rosto.

— Estávamos até eu saber que você dizia que amava enquanto dormia com uma foto de outro debaixo do travesseiro. Quem ama não guarda uma foto de outro debaixo do travesseiro.

— Porra Michael, eu te amo, acredite em mim. Só me deixe explicar. — supliquei — Eu sofri muito nessa vida, você sabe disso. Eu já disse que eu iria te contar, eu tinha meus motivos para ter omitido várias coisas sobre mim, mas era porque eu não conseguia tocar no assunto, e acredite, ainda é doloroso falar sobre isso, sobre o que passei, o porquê de eu ter me abstido de fazer aquilo que eu mais gosto. Eu sofri muito, e ainda...

— Esse é o seu único argumento Lucy! — elevou sua voz interrompendo-me ao virar-se de frente pra vim. — Eu sofri, eu sofri, eu sofri... Todo mundo sofre na porra dessa vida, lamento, mas você não é a única. Eu também fui abandonado, e nem por isso durmo com uma foto da Sara debaixo do meu travesseiro. Você iria gostar se soubesse disso? Eu me sinto traído.

— Cala a boca Michael! Você não sabe o que eu passei! — gritei — Cala essa boca... Cala essa boca... — murmurei agora me sentando na cama e segurando minha cabeça. As lágrimas escorriam sem cessar sobre o meu rosto ao lembrar de que Michael pensava que eu mentia quando dizia que o amava. Céus eu o amava tanto que chegava a doer, se ele soubesse disso jamais estaria desconfiado nesse momento.

Eu sei que se eu tivesse falado pra ele antes isso não estaria acontecendo, falar o que tinha me deixado daquele jeito, não por obrigação, mas sim por confiança. Mas ele deveria ter confiado em mim e não agir dessa forma precipitada falando coisas sem sentidos e me acusando de mentirosa.

— Que merda! — murmurei. — Por que estou chorando? Não... Não... Eu já estou cansada de tanto chorar! Eu não quero mais chorar, eu já não tenho mais nada pra derramar. — Eu disse entre os soluços e enxugando as lágrimas com o dorso das mãos.  

Ouvi um suspiro hesitante seu e dois passos vindo  em minha direção.

— Lucy...

— Vai embora Michael. — Falei em um tom mais calmo agora. — Vai embora, por favor. — Disse enquanto tentava mais uma vez desamassar a foto que eu segurava. Michael suspirou irritado e saiu do meu quarto quase voando.

Assim quando Michael bateu a porta eu desabei na cama agarrada com a foto do Brad. Ouvir cada palavra do Michael da forma que ele proferiu-as foi muito doloroso para mim. Eu o amava demais, mas eu não podia me livrar daquela foto antes que ele pudesse ver. Era uma promessa que eu fizera a mim mesmo, e além do mais era tudo o que tinha para me lembrar do Brad.

E agora? O que eu iria fazer? Michael saiu pensando que eu mentira para ele amando meu ex.


Eu sabia que o destino estava aprontando outra comigo. Estava bom demais para ser verdade. Mas que merda! Eu não ganhava trégua, o que eu fizera de tão ruim para ter uma vida tão sofrida como eu tinha. Minha mãe e o meu ex morreram, aí quando eu encontrei uma nova razão de viver e ser feliz me acontece isso. Seria assim que eu perderia o Michael? Era dessa forma que o maldito destino que fudeu duas fezes com a minha iria tirá-lo de mim?




Capítulo 27 

Lucy

Já havia se passado horas que eu estava deitada de decúbito olhando para o teto e segurando a foto, ainda pensando no que havia acontecido há poucas horas. As lágrimas já haviam cessado, mas a dor e o aperto que eu estava sentindo no coração era insuportável que eu nem sei como estava aguentando. — Talvez porque já estive em situações piores do que essa — Mas isso não importa, por incrível que pareça a dor era idêntica como a que se perde uma pessoa querida. Droga, eu não podia mais perder ninguém, não sei se seria capaz de sobreviver a isso. Sei que a essas alturas poderia estar passando mil coisas na cabeça de Michael, até porque eu nem cheguei a explicar tudo pra ele. A única coisa que ele sabia de mim agora era que eu tinha um hábito de dormir com a foto do meu ex debaixo do meu travesseiro, que na verdade estava morto.

Sim, já era para eu ter tirado aquela foto dali a muito tempo, mas confesso que não tinha coragem. Com toda a certeza eu amava o Michael, ele foi a luz que desnudou no escuro do meu coração, a paz que habitou dentro de mim desde o dia que descobri que estava amando outra vez, coisa que eu pensei que nem conseguiria mais senti. Mas era impossível esquecer o Brad definitivamente. O que vivemos foi muito especial para ser esquecido, ele era muito importante pra mim ocupando um espaço na minha mente, tanto nas boas como nas más lembranças. De uma coisa eu tinha certeza: nunca que eu iria esquecê-lo, mesmo se quisesse.

Mas eu tinha que viver a minha vida não é mesmo? Acho que o motivo de eu ter sobrevivido naquele acidente tinha um propósito. Ou dois, na verdade. Só para me fazer sofrer como sempre ou para me dá uma nova chance. Bem, a segunda opção parecia a mais clara agora já que eu parecia está perdendo o Michael.

Dividida entre os devaneios e a realidade ouvi a porta do meu quarto ser batida devagar, mas eu não olhei para ver quem era e continuei olhando para o teto. De repente a Rose surgiu no meu campo de visão analisando-me de cenho franzido.

— Você estava chorando? — perguntou. Claro que meus olhos inchados denunciavam isso. — O que aconteceu Lucy? Onde está o Michael?

Dei uma fungada e limpei meu nariz com o dorso da minha mão, movendo com a outra a foto do Brad amassada para Rose ver. Ela esbugalhou os olhos e mexeu os lábios tentando proferir algo, mas não conseguiu. 

— Eu sei o que vai perguntar. — murmurei. — O que eu estou fazendo com uma foto do Brad. — Sua expressão continuou a mesma por alguns segundos, até que ela desfez e franziu o cenho.

— Eu não me assusto porque você tem uma foto do Brad, era de se imaginar. O que assusta é essa sua cara pós-choro enquanto segura uma foto dele. O que aconteceu?

— Michael viu a foto. — Respondi.

— Viu a foto? Como? 

— Estava debaixo do meu... — hesitei um pouco — travesseiro. — murmurei.

— Por que você tinha a foto do Brad debaixo do travesseiro Lucy? — Perguntou confusa.

— Porque... Porque... É complicado Rose. — Suspirei sentindo o peso da lamentação. — Eu e o Michael combinamos de ver um filme, eu fui tomar banho e quando eu voltei soube que ele achou a foto.

— Sim, mas qual é o problema? — fiquei calada — Espera ai, você não contou a ele que...

— Que o Brad está morto? Eu tentei, porém ele não me deixou explicar. Só consegui dizer que o Brad era meu namorado. — Constatando o acontecera ali, ela agora parecia não ter o que falar ou o que fazer. Afinal, o que tinha que ser feito antes, ela já fez, me alertando do que poderia vir acontecer. Bem eu não escutei direito e acabou dando no que deu. Ela fez uma cara de lamentação e chegou mais perto da cama, eu me pus sentada e coloquei meus cabelos da frente atrás das orelhas.

— Ele pensou que fosse outro. — Murmurei.

— Outro?

— Como eu disse: ele não me deixou explicar.

— Mas que merda Lucy. — resmungou — se você tivesse falado sobre o Brad antes isso não teria acontecido.

— Acha que eu não sei disso?! — Quase gritei. Ela me olhou com advertência pelo o tom da minha voz e eu lamentei por ter falado assim. — Me desculpe.

— Olha só Lucy. — ela tirou a foto da minha mão e colocou-a em cima da cama, em seguida segurou minhas duas mãos e olhou bem nos meus olhos. — Eu sei que você deve ter tido os seus motivos para não ter contado ao Michael sobre o Brad, mas ele também teve os dele para pensar coisas erradas sobre essa foto. Quem não pensaria?

— Eu sei Rose, mas ele poderia ter ficado quieto para me escutar, ao invés disso me chamou me mentirosa. Não com essas palavras, mas chamou.   

— Eu sei querida, mas entenda também o lado dele. Ele ficou com ciúmes e não conseguiu se controlar. — argumentou, mas isso ainda não era o suficiente. — Talvez vocês devam conversar amanhã quando estiverem mais calmos. Ai você conta pra ele a verdadeira história e tudo fica bem.

— Você tem razão. — Assenti e balancei a cabeça. Peguei a todo do Brad e fiquei olhando para ela. — Amanhã mesmo irei contar tudo sem mesmo deixá-lo sequer falar uma palavra antes de mim. 

— É assim que se fala. Mas ainda você terá que fazer uma coisa. — olhei para ela que tinha a cara de quem estava ponderando muito antes de falar. — A foto. — disse por fim.

— O que tem a foto? — Franzi o cenho. Ela comprimiu os lábios olhando para o colchão, e depois voltou a me olhar. Não, não... Ela não poderia está sugerindo isso. Eu não podia fazer isso.

— Ah Não Rose, isso é demais. — Neguei antes mesmo que ela pudesse falar.

— Mas se você está namorando outro, não pode ficar com a foto do ex.

— Mas é diferente.

— Não, não é diferente. Ele continua sendo o seu ex.

— Mas... — Ela me interrompeu.

— Escuta. Eu sei o quanto o Brad era importante pra você, mas ele se foi. Não estou dizendo que tem que apagar as lembranças boas dele, mas estou dizendo que se desfaça das coisas materiais que ainda a prende no mundo dele. Eu sei que você gosta do Michael, vejo nos seus olhos, mas se eu estiver mentindo sobre você ainda estar presa no mundo do Brad por causa dessa foto, por favor, me diga que eu estou errada.

Engoli o que tinha para argumentar sobre a foto quando ela disse isso. Tinha toda a razão. Por mais que as lembranças do Brad vivessem dentro de mim, as vezes que ficávamos até tarde acordados tocando violão e cantarolando músicas das bandas de rock que ele gostava: Europe, Extreme, Queen, Van Helen... As vezes que quando estávamos voltando para casa e a chuva acabava nos pegando e ficávamos debaixo dela nos beijando... Todas as vezes que eu estava chateada ou triste e ele vinha com aquele jeitinho torto dele e me fazia sorri... É, lá no fundo eu sempre soube que tinha que fazer isso um dia, me desapegar do passado, viver no presente e esperar pelo futuro. Brad se foi e eu tinha que seguir com a minha vida. E nesse momento minha decisão já tinha sido tomada. No dia seguinte eu iria conversar com o Michael e tudo ficaria bem. Não deixaria a porra do destino estragar a minha vida mais como fez duas vezes.



Capítulo 28

Lucy

Desde a hora que pus os pés no restaurante não avistei o Michael, mas por mais que eu quisesse vê-lo, eu não perguntei sobre ele. Eu sabia que ele estava enfurnado no escritório do pai como sempre e não queria sair para não dar de cara comigo.

— Está tudo bem com você? — Sharon perguntou ao encostar-se no balcão ao meu lado.

— Tá sim. — Respondi vaga. Ela sorriu baixinho.

— Você sabe que eu sou perspicaz não é? — Droga, ela era.

— Certo. Eu não estou bem. — Confessei. — Eu e o Michael brigamos.

— Oh merda. Si-sinto muito. — Lamentou-se.

— Pois é.

— Então é por isso que vocês não vão se apresentar hoje. — Fiquei calada e confirmei com a cabeça.

— Aquela Sara é uma vaca. — Resmungou e eu sorri.

— Não foi por causa dela.

— Não?

— Por incrível que pareça, não. Eu que vacilei, mas vou conversar com ele e tudo ficará bem.

— Tomara. Estou torcendo.

— Obrigada.

(...)

Depois de mais algumas horas de trabalho, nada de eu ver o Michael e isso só me deixava mais ansiosa para contar-lhe a verdade.

Estava voltando do banheiro quando a Sharon me puxou bruscamente pelo o braço para perto dela. Eu quase gritei pelo o susto.

— Tá maluca? — Indaguei puxando o meu braço.

— Eu não, mas quem está é a ex do Michael. — Franzi o cenho confusa.

— A Sara?

— A própria.

— O que tem ela?

— Olha Lucy, não é querendo fazer fofoca, mas eu não gosto da Sara.

— Tá certo. Agora me conta o que está acontecendo. — Sharon respirou fundo hesitando um pouco e por fim decidiu falar.

— Ela está ai.

— Aqui?

— Não aqui, no escritório. — Revelou.

— No escritório? — Arqueei minhas sobrancelhas.

— É, ela chegou, tapeou um pouco, viu que você não estava por perto e correu para o escritório do Sr Jackson. — Senti meu sangue ferver no mesmo instante. O que aquela mulher estava fazendo aqui no escritório?

— Mas espera ai. O Sr Jackson está ai, certo?

— Errado. Ele adoeceu ontem e vai ficar em casa por dois dias. — Então isso queria dizer que o Michael estava sozinho com a Sara. Por isso que ele não deu as caras no salão. Virei-me de costas e me prontifiquei a andar, mas a Sharon me impediu segurando no meu braço.

— Não vai fazer confusão, não é? — Olhando para a sua mão no meu braço, subi para fitar seus olhos.

— Claro que não Sharon. Até parece que eu chegaria a esse nível. — Ela me soltou e respirou fundo aliviada.— Só quero marcar o meu território.

— Que bom.

Voltei a caminhar e entrei no corredor que dava acesso ao escritório. Iria bater na porta, mas quando notei as persianas fechadas senti um embrulho no meu estomago, alguma coisa ali estava errada. Não, não... Foi só uma discussãozinha e ele não seria capaz de está fazendo o que meu inconsciente estava deduzindo. Ele não era assim. Respirei fundo, segurei na maçaneta e abri a porta. Cobri minha boca descrente com a cena que estava presenciando enquanto os olhos de Michael se arregalavam, em seguida empurrando sua ex que estava com as mãos apoiadas dos braços da cadeira, com o corpo debruçado roçando seus lábios nos dele. Fiquei por alguns segundos estática, vendo os dois olhando para mim, ela com a cara sínica ele de medo, assustado, perdido, em confusão. Será que isso era uma alucinação desesperada?


Michael


A Sara só poderia estar maluca. O que ela pensou que estava fazendo quando entrou no escritório do meu pai e começou a se jogar em cima de mim? Eu já tinha dito várias vezes a ela que não queria mais nada e que amava a Lucy, mas mesmo assim ela insistia e chegou a esse ponto, até que a Lucy entrou no escritório e pegou ela quase em cima de mim, bem na hora que eu iria empurrá-la. Que merda!

Quando me levantei para ir até ela para dizer que eu não estava fazendo aquilo que ela estava pensando, ela simplesmente correu e eu agora que estava no lugar dela. Ela iria pensar que eu estava querendo me vingar por causa de ontem, mas não estava e precisava dizer isso a ela.

— Lucy?! — Gritei indo atrás dela, mas parei antes de atravessar a porta e me virei para fuzilar a mulher causadora de tudo isso.

— O que foi? — Perguntou sínica. — A qual é Michael? Ela é apenas uma garota.

Levantei minha mão e apontei meu dedo indicador pra ela.

— Fique longe de mim ou então da próxima vez irei fazê-la passar vergonha em público arrastando você de onde estiver me cercando pra fora. — Rosnei sentindo meu maxilar travado e meu sangue fervendo de raiva. Eu deveria ter expulsado-a no instante em que colocou o pé dentro do escritório e não ter caído na conversa de que estava conformada e queria ser pelo menos uma amiga. Na esperança de tê-la longe de mim eu acabei sendo um idiota.

— Você não é assim, Michael. — Ela estava duvidando.

— Acredite. Se eu não tivesse com tanta pressa para alcançar a minha garota para esclarecer essa situação você estaria agora sendo levada para fora a força na frente de todos. — Ela fechou a cara e engoliu em seco. — Quando eu voltar, não quero te ver por aqui.

Não suportando mais ver aquela cara irritante, saí para encontrar a Lucy. Sabia exatamente onde ela estaria.

Entrei no banheiro e a vi parada olhando para o espelho. Surgi em seu campo de visão e ela se virou para mim.

— Eu não estava beijando ela, ela que estava tentando meu beijar e... — Comecei a me explicar como um desesperado.

— Ele morreu há quase dois anos. — Ela disparou fazendo-me parar de tagarelar no mesmo instante. Ele morreu? Quem morreu? Franzi o cenho.

— Quem morreu? — Perguntei confuso.

— O meu ex-namorado. — Revelou e virou-se novamente de frente para o espelho.

— Espera ai! O cara da foto?

— É Michael, o cara da foto! — Disse irritada. Deus, por essa eu não esperava. Por que ela não me disse?

— Oh Droga! — Murmurei quando as lembranças da noite anterior vieram instintivamente à minha cabeça. Ela tentou tanto me explicar e eu não dei a chance dela fazer isso. Merda, como eu estava me sentindo um babaca agora. — Lucy, eu... — Eu estava perdido na verdadeira história e não tinha o que falar direito, só consegui murmurar um “desculpe”.

— Tínhamos conseguido o primeiro lugar de uma competição musical, — ela começou a falar, e notei sua voz ficando embargada em cada palavra proferida. — Estávamos voltando para casa e... A felicidade era tão grande com a nossa vitória que nem percebemos quando um caminhão se aproximou do carro e... Chocou-se contra nós, tirando a vida dele. — Concluiu e abaixou a cabeça. Através do espelho vi algumas lágrimas escorem no seu rosto. Acho que estava começando a entender o porquê que ela ainda não se sentia pronta para falar sobre isso. Essas lembranças ainda a machucava, e céus, como eu tinha sido bruto e insensível com as palavras.

— Por Deus, eu... Sinto muito. — Balbuciei sem saber mais o que dizer. Ela enxugou as lágrimas e passou o dorso da mão no nariz enquanto virava-se para mim.

— Não sinta Michael. Acredite, por debaixo da minha capa existe uma garota forte que já sobreviveu a várias coisas. — disse ela — Eu não quero que sinta pena de mim.

— Eu... Eu... Queria que você pudesse ter me contado antes. — ela sorriu sem graça.

— Eu também queria. — retrucou — Mas isso é passado. Já que você já sabe de tudo, me dê licença. — Tentou passar por mim, mas eu segurei seu braço com delicadeza.

— Lucy... — clamei seu nome brandamente. — Me desculpa.

— Não deve me pedi desculpas, Michael. Só precisa me deixar ir trabalhar.

— Tenho sim. Eu pensei coisas erradas sobre você, agi como um idiota por causa de uma foto, mas é porque eu te amo tanto que fiquei cego e surdo no momento em que você tentou me explicar.

— Sei. Então foi por isso que você estava quase aos beijos com a sua ex. — Se manifestou ainda com o tom da voz calma. Quase engoli em seco, mas respirei fundo e me preparei para respondê-la com cautela.

— Não é isso... Ela que entrou e foi se jogando pra cima de mim, mas de modo algum que eu iria beijá-la. Eu amo você Lucy.  Eu já estava quase me levantando para expulsá-la da sala, mas ai você chegou e... Viu. Acredite em mim, não quero que pense que eu estava fazendo isso por causa de ontem. — Ela fitou o chão e franziu o cenho, hesitando no que iria falar.

— Pior que eu acredito em você. —Disse por fim. Suspirei aliviado e beijei sua testa. Quando estava prestes para lhe dá um beijo na boca, ela se afastou de mim.

— O que foi? — Perguntei.

— Não dá. — Meu coração falhou quando ela disse isso. O que é que não dava?

— O que é que não dá?

— Isso.

— Isso o que?

— Esse clima chato entre a nós. Você desconfiou de mim, depois eu peguei você quase se beijando com a sua ex...

— Você está acabando comigo? — Ela negou com a cabeça, mas isso não era o suficiente para tirar a angustia e o medo que estava crescendo dentro de mim agora. — Se já está tudo esclarecido, então o que há de errado para que eu possa consertar? Me diga, por favor!

— Esse clima, Michael. — Passei a mão no cabelo e murmurei um palavrão com o nervosismo crescendo dentro de mim. Eu não estava entendendo nada.

— Lucy, eu vou perguntar mais uma vez. — vidrei meus olhos nos dela com seriedade. Embora eu tivesse com medo da resposta eu tinha que perguntar mais uma vez. — Você está acabando comigo?

O silêncio se instalou por alguns segundos; minutos talvez, até ela pôr um fim.

— Eu só preciso de um tempo. — murmurou.

— Um tempo? Pra que você quer um tempo?

— Eu apenas quero um tempo. — ressaltou. — Respeite isso, por favor!

— Você não precisa de um tempo, Lucy. — sorri sem humor.

— Eu tenho que fazer uma coisa. Acredite, eu preciso desse tempo.

— Eu não aceito esse tempo. — Resmunguei balançando a cabeça

Ela comprimiu os lábios e franziu as sobrancelhas. Se aproximou de mim e espalmou sua pequena mão entre minha bochecha e minha linha mandibular com delicadeza.

— O Brad, eu o amei muito, mas ele se foi. E agora eu amo você. — Disse com um tom subjacente em sua voz, talvez de confiança. Quando estava prestes a tirar sua mão do meu rosto, eu segurei-a.

— Não sei se vou aguentar a ficar um segundo longe de você. — Meneei a cabeça.


— Eu esperei você por mais de um ano. Eu aguentei. — Disse amável e puxou sua mão com delicadeza antes de sair porta afora do banheiro me deixando muito triste e ao mesmo tempo intrigado. Triste porque não sabia se esse tempo teria um fim, e intrigado porque queria saber o que ela precisava fazer nesse tempo. Mas se ela assim preferiu, eu iria respeitá-la, sobretudo porque fui eu quem começou com essa confusão quando não dei a oportunidade de explicar. Ela havia perdido o namorado em um acidente que trazia más lembranças para ela. Competição, música... Por isso ela se negava a tocar quando a conheci, porque fazia lembrar dele. Agora estava tudo mais do que claro, e eu iria respeitar esse tempo dela. 


Capítulo 29 

Michael

Ficar sem ver a Lucy um dia foi horrível, era como se o meu mundo tivesse faltando oxigênio, mas dois dias já era demais. Ela não apareceu ontem e muito menos hoje. Sei que ela pediu um tempo, eu estava disposto a respeitar isso, mas esse sumiço dela fez-me ficar preocupado. Ela folgara no domingo, nunca faltava e sei que se estivesse doente eu saberia de alguma forma. 

Decidi perguntar a Sharon se ela sabia de alguma coisa, mas ela disse que não sabia de nada, o que me deixou mais preocupado. Dois dias? Não, havia alguma coisa estranha nisso tudo. Até seu celular estava desligado.

No terceiro dia eu já me encontrava desesperado por dentro, tanto que a ideia dela ter pedido demissão passou a me perturbar feito um condenado. Se caso isso acontecesse, eu não iria me perdoar nunca pela aquela noite na casa dela. Aquilo era a causa de tudo isso que estava acontecendo.

Dei uma entrada abrupta no escritório do meu pai com medo do que ele pudesse me responder quando eu fizesse a pergunta que estava me incomodando. Ele parou de analisar uns papéis que estava segurando e levantou seu olhar para mim.

— O que foi? — Ele perguntou de cenho franzido.

— Quero saber de uma coisa.

— Então pergunte. — Soltou os papeis em cima da mesa e encostou-se nas costas da cadeira.

— A Lucy pediu demissão? — Não fiz rodeio. Era tudo o que eu precisava saber.

— Está preocupado?

— Ela não aparece há três dias. Claro que estou preocupado.

— Vocês brigaram? — Mas porque ele estava perguntando isso?

— Isso não importa pai. Eu estou preocupado.

— Vocês brigaram. — Disse balançando a cabeça, constatando que sim.

Coloquei as mãos nos meus bolsos e fiquei encarando-o, esperando pela resposta da pergunta que eu fizera.

— Ela esteve aqui na terça bem cedo e falou comigo. — Por fim disse ele.

— E falaram sobre o que?

— Ela pediu uma semana de folga?

— Uma semana de folga? Pra que ela quer uma semana de folga?

— Eu adoraria saber. Mas acho que você sabe.

— Acredite, eu não sei. — Passei a mão na nuca tentando entender porque a Lucy pediu uma semana de folga. Primeiro tempo e agora folga? — Por que você não me disse?

— Pensei que você soubesse. Vocês namoram, afinal. — respirei fundo e desviei meus olhos dos dele. — A não ser que...

— Ainda estamos juntos, tá legal? — Eu disse, interrompendo-o e girando os calcanhares para sair da sala. 

— Pra onde você vai, Michael? — Indagou meu pai.

— Vou resolver isso. — Respondi — Diga a minha mãe que eu mandei um beijo. — E saí, não só da sala, mas do restaurante. Sabia exatamente o que eu iria fazer.


Lucy


Na última vez que estive naquele lugar, havia muitas pessoas prestando suas últimas homenagens ao Bred, eu em desespero e seus colegas tentando me acalmar. E lá estava eu de volta, para cumprir com o desejo que coloquei no meu coração. Eu precisá-la vê-lo pela última vez, e derramar a última lágrima por ele. 

Nessa tarde, o sol vespertino já estava abandonando o dia e minha única companhia era as sobras.

Desci do táxi que peguei assim que cheguei a Atlanta e engoli em seco com o fato de voltar a àquele lugar sabendo que ele estava ali, mas ao mesmo tempo não estava. Desci o caminho até o túmulo perguntando a mim mesmo se alguém têm o visitado durante esse tempo.

Ver a grama verde me deu a sensação de que ele estava adequadamente coberto, por mais bobo que parecesse. Ele parecia seguro agora. A lápide não era tão elegante, era simples, mas era bonita. Olhei para ela e em uma fração se segundo pude viver aquele dia em que estavam colocando ele ali dentro, enquanto a minha ficha caia de que ele se fora para sempre. Senti meus olhos arderem só de lembrar disso, mas essa seria a última vez que eu sofreria por causa do passado, e era exatamente por isso que eu estava ali, para me despedi dele para sempre, já que eu não fizera isso de coração da última vez.

Bradshow Garcia Junior
07 de maio de 1977 — 21 de março 2001
O amor e as lembranças que ele nos deixou, servirá de motivação para seguirmos em frente... Descanse em paz guerreiro. 

Senti uma lágrima rolar pelo meu rosto. Parada ali, olhando para o seu túmulo entendi o quão a vida é boa para se prender as coisas ruins. Enxuguei meu rosto com o dorso das mãos, tirei da bolsa a foto amassada do Brad e me ajoelhei. Olhei ela pela última vez, e decidida de que estava pronta para fazer àquilo, coloquei ela em cima do túmulo e depois uma pedrinha que encontrei do lado, para que o vento não a levasse. Eu sabia que alguém da família dele encontraria a foto quando fosse o visitar no dia seguinte que seria a data que ele estaria completando 25 anos de idade. Talvez ninguém fosse, exceto o pai. 

Perdida em meus devaneios, ouvi um cascalho estralar trás de mim, e pelo o cheiro do perfume forte abaunilhado que chegou até as minhas narinas eu já sabia quem era mesmo sem ter me virado. Não tive coragem de olhá-lo, ainda não estava pronta. Na verdade eu nem imaginava que ele tivesse a coragem de vim atrás de mim. Aliais, como ele sabia que eu estava aqui?

— Está em cemitério sozinha quase ao anoitecer é um hábito meio excêntrico. — Sua voz suave e cautelosa preencheu o espaço.

— Eu tinha que fazer isso pela última vez. — Murmurei ainda sem olhá-lo. Ouvi passos e de repente ele se ajoelhou devagar ao meu lado. Sem tirar os olhos da lápide à minha frente percebi que Michael estava me estudando.

— Eu sei.

Silêncio.

— Como soube que eu estava aqui? — Perguntei em um murmúrio de voz, quebrando o silêncio.

— Sua tia me disse. Eu fiquei preocupado.

— Com o que? — Seu suspiro hesitante não passou despercebido.

— Com você. Pensei que...

— Que eu tinha fugido? — Completei por ele.

— Não exatamente. — Retrucou.

— Eu nunca fugiria. — Revelei com calma. — Não de você. — Olhei pra ele.

— Que bom. — Deu um sorriso de lado. Ele coçou a cabeça e olhou para o tumulo à nossa frente. — Me desculpe por desrespeitar o seu tempo. É que...

— Não peça desculpas. Eu estou feliz que esteja aqui comigo.

— Sério?

— Sim. — Confirmei. Ele pegou minha mão e voltamos a ficar em silêncio. Eu fechei meus olhos e comecei a orar, pedia a Deus que seja lá onde ele estivesse que o guardasse bem. Era só o que eu podia fazer. Segundos depois abri meus olhos e olhei para Michael, ele também estava orando, e foi estranho ver aquilo... Não que fosse uma coisa ruim, mas era...  Estranho pra mim. Mas isso mostrava o quanto Michael agora entendia a situação e tinha um coração que não cabia no peito.

O sol já havia se escondido por fim, e o vento da noite já soprava com ímpeto as folhas das árvores caídas no chão. Aos poucos eu me pus de pé e Michael fez o mesmo. Virei-me e comecei a me afastar do túmulo. Já fiz o que tinha que ser feito e nunca mais viveria naquele passado.

— Pra onde você vai?

— Voltar pra casa.  — Respondi sem parar de caminhar.

— Por que não me disse que viria pra cá? — Perguntou ele, assim que me alcançou.

— Porque essa era uma coisa que eu tinha que enfrentar sozinha. Eu tinha que me despedir dele pra sempre.

Michael parou e segurou meu braço, fazendo-me parar também. Exibindo uma careta de frustração, ele deixou o olhar se perder acima da minha cabeça. Eu sabia que ele queria tocar naquele assunto, mas estava sendo cuidadoso.   

— O que foi? — Murmurei.

— Lucy, isso está me matando.

— Isso o que? — Ele olhou bem nos meus olhos.

— Isso... Nosso modo de se comportar, esse tempo... Essa coisa toda. Eu não consigo...

— Hey? — interrompi-o e toquei no seu rosto com delicadeza. — Já passou. Vamos esquecer o que aconteceu, sim? — ele suspirou quando eu me aproximei mais dele e espalmei minha outra mão no seu peitoral. — Eu só pedi tempo a você porque eu precisava vim aqui pela última vez e deixar o passado lá atrás. 

— O que você quer dizer com isso?

— Eu quero dizer que o passado já era, o presente é isso que estamos vivendo agora e meu futuro é você. Eu te amo Michael Jackson, e por isso eu estou aqui. Para me desfazer das coisas que me prendiam nele. Eu me sinto livre, é como se um peso saísse das minhas costas. — Sorri de canto.

— Lucy, eu...

— Shiii — coloquei meu dedo indicador sobre os lábios dele, fazendo-o calar. — Você já fez tantas declarações de amor pra mim que eu me sinto envergonhada em não ter feito uma decente pra você. — Ele franziu o cenho. — Então só escuta, por favor. — Assentiu balançando a cabeça. — Antes de tudo eu quero dizer que você foi e é a melhor coisa que já me aconteceu. Eu acho que dessa vez a sorte está do meu lado, ela me escolheu quando eu te conheci. Eu tinha um coração sofrido que você quis acolher mesmo sabendo que havia algo de errado comigo. Você entrou na minha vida com tudo, e tudo mudou, me dando um propósito, me ensinando a amar. Ai eu me entreguei, me joguei e eu estou confessando que isso me dominou por dentro, mesmo que eu não demonstrasse, mas é verdade. Meus sentimentos por você transcende qualquer outro.

Parei um pouco para recuperar o fôlego, ele continuou calado, sabia que eu não tinha terminado. Ele colocou uma mão na minha cintura e com a outra passou nos meus cabelos, primeiro fazendo um carinho e depois colocando as mechas atrás da minha orelha com ternura. E eu continuei.

— Teve aquela noite no letreiro de Hollywood. Depois daquele beijo eu passei a ser completamente sua. Eu sei que eu fugi, mas você era bom demais pra ser realidade. Eu fiquei com medo de te perder também. Então percebi que eu deveria arriscar em ser feliz novamente, me dei uma chance, você me deu essa chance... Me fez perceber que nem tudo estava perdido a parti dali não existia mais nada que me causasse medo. — parei um pouco me dando conta que algumas lágrimas escorriam pelo meu rosto quando Michael começou a enxugá-las. — Me desculpa por está chorando. É que esse é o único modo que eu tenho pra poder te dizer que eu te amo.

Ele me fitava como se tivesse escutando a melhor coisa da sua vida. Beijou o topo da minha cabeça e me abraçou forte.

— Eu também te amo, minha garota. — Ficamos abraçado por alguns instantes. 

Desencostei-me do seu peito e me apoiei na ponta dos pés, para alcançar seus lábios macios e convidativos.

Nos beijávamos com carinho e ternura, como sempre fizemos desde o nosso primeiro beijo.

— Obrigada por não ter desistido de mim. Obrigada mesmo por ter me dado a chance de senti o amor novamente correndo pelas minhas veias.

— Faria tudo de novo, por você. — Disse alisando meus cabelos.

— A parti de agora será apenas eu e você. Nada de segredos. — Sussurrei contra os seus lábios. Nossas testas estavam coladas e eu fiz um carinho nas suas bochechas com os polegares.

— Nada de segredos. — Ele reforçou retribuindo o carinho que eu estava lhe dando. — Mas, precisamos sair daqui agora.

— Tem razão. — Assenti. Olhei em volta do cemitério que agora estava esquisito porque à noite já caíra e respirei fundo. Era a última vez que estava ali, nunca mais iria voltar. — Vamos! — Enlacei meu braço no seu, e saímos do cemitério, rumo ao aeroporto para pegar o último voo para voltar à Los Angeles.

Minha vida a parti dali iria ser diferente, o passado não iria ser mais que isso. Michael agora era a minha vida e eu me dedicaria ao nosso amor de agora em diante.





Epílogo - Narradora

Seis meses depois 


O jovem casal apaixonado atrás das cortinas estavam tensos pela primeira vez. Sempre foram tão confiantes quanto a se apresentar no restaurante, mas agora havia algo novo, algo que nunca fizeram antes. Haviam trabalhado em uma canção que a Lucy começou a compor, e com alguns ajustes na letra que o Michael dera, agora estavam prestes a apresentá-la pela primeira vez em público. Mas estava juntos e o amor que se encontrava entre eles era maior que o medo. Tinha um ao outro.

Na frente da Lucy estava o microfone no pedestal, e em volta dos seus ombros a correia que segurava o violão que ganhara de presente do Michael. 

Ficaram se encarando por alguns segundo, Lucy movimentou a cabeça em um sinal de positivo e Michael puxou as cortinas, e em seguida se sentou atrás do piano. Lucy respirou fundo e se concentrou nas notas e na batida da música. Sem deixar se intimidar com os olhares de expectativas dos clientes, ela deu início a introdução, e em seguida Michael acompanhado.

Letra da música

"I Just Can't Stop Loving You"

Toda vez que o vento sopra
Eu ouço sua voz, então
Eu chamo o seu nome
Sussurros à manhã
Nosso amor está surgindo
O céu está feliz, você veio

Você sabe como me sinto
Essa coisa não pode dar errado
Estou tão orgulhoso de dizer Eu te amo
Seu amor tem me elevado
Eu desejo sobreviver
Desta vez é para sempre
O amor é a resposta

Eu ouço sua voz agora
Você é meu escolhido agora
O amor que você trouxe
O céu está em meu coração
No seu chamado
Eu ouço harpas
E os anjos cantam

Você sabe como me sinto
Essa coisa não pode dar errado
Eu não posso viver minha vida
Sem Você

Eu apenas não posso segurar

Eu sinto que nós pertencemos
Minha vida não vale a pena viver
Se eu não posso estar com você

Eu apenas não posso parar de amar você
Eu apenas não posso parar de amar você
E se eu parar
Então me diga apenas o que
Eu vou fazer

Porque eu apenas não posso parar de amar você

À noite quando as
Estrelas brilham
Eu rezo para encontrar em você
Um amor tão verdadeiro

Quando a manhã me acorda
Você vai vir e me levar
Eu vou esperar por você

Você sabe como me sinto
Eu não vou parar até
Eu ouvir sua voz dizendo "Eu aceito"

"Eu aceito"
Essa coisa não pode dar errado

Este sentimento é tão forte

Bem, minha vida não
Vale a pena viver

Se eu não posso estar com você
Eu apenas não posso parar de amar você
Eu apenas não posso parar de amar você
E se eu parar
Então me diga, apenas o que eu faço

Eu apenas não posso parar de amar você

Nós podemos mudar todo o mundo amanhã

Nós podemos cantar canções de
Ontem

Eu posso dizer, Hey... Adeus tristeza

Esta é minha a vida e eu

Quero ver você para sempre
Eu apenas não posso parar de amar você

Não, baby

Oh!

Eu apenas não posso parar de amar você

Se eu não posso parar

E se eu parar
Não
Oh! Oh! Oh... Oh

O que eu vou fazer? Uh... Ooh
(Então me diga, apenas o que eu faço)

Eu apenas não posso parar de amar você

Hee! Hee! Hee! Sabe que eu aceito
Garota!

Eu apenas não posso parar de amar você

Você sabe que eu faço
E se eu parar

Então me diga, apenas o que eu faço

Eu apenas não posso parar de amar você.


A letra da música se fundia perfeitamente com a realidade, com o momento que estavam vivendo e com o que estava sentindo.


***

Felicidade: uma sensação de satisfação plena era o que tomava conta de Lucy e Michael agora que se encontravam noivos. Sim, Michael a pedira em casamento e ela sem hesitou em responder. Ela o amava demais e se sentia a mulher mais afortunada em está prestes a se tornar a Sra. Jackson. E com Michael não era diferente. Só a ideia de começar uma família com a mulher que amava o deixava extasiado e empolgado tanto quanto ela. Dar-lhe o seu nome era tudo o que ele mais queria.

Estavam na cobertura do prédio abandonado de três andares onde Michael a levara na noite em que tentou fazê-la tocar com ele. Os dois pares de olhos se encontravam mais reluzentes do que as próprias estrelas. Nada se comparava com a felicidade em abundância de Michael e Lucy.

Deitados no concreto, eles se viraram para encarar um ao outro.

— Eu estou muito feliz. — Lucy pronunciou-se.

— Eu estou mais.

— Vou se tornar sua mulher. Céus, isso é surreal. — Michael acariciou o rosto dela.
— É o nosso destino Lucy. Eu vi isso desde o dia em que coloquei os olhos em você. Eu que me sinto o homem mais afortunado em tê-la como minha, só minha e para sempre.

— Own Michael. Eu te amo.

— Eu também te amo. — Ambos aproximaram seus rostos e mergulharam em um beijo apaixonado.

Aconteceram tantas coisas depois do anúncio desse noivado. Lucy realmente colocara o passado de lado e estava vivendo como sempre quis ao lado dele que a cada dia parecia um príncipe encantado, o que a deixava mais louca por ele. E enquanto a ex do Michael, bom... Essa saiu do caminho do casal quando soube que eles iriam noivar. Ela se enxergou definitivamente e percebeu que quando a insistência é inútil, não adianta ficar dando murro em ponta de faca.

Tava na cara que nada e nem ninguém iria atrapalhar o amor de Michael e Lucy. Eles estavam escritos nas partituras... Oops, quer dizer... Estavam escritos nas estrelas.

Tem pessoas que acreditam que a felicidade mora na inexistência fração de tempo em que o passado toca no futuro. E é verdade. A felicidade às vezes se encontra no final das tristezas e decepções que o destino reserva para cada um — Lucy e Michael foram à prova disso — principalmente ela, que aprendeu que tentar outra vez não é sofrer de novo, mas sim uma forma de lutar e vencer, a pesar de tudo.


E há uma coisa que aprenderam juntos. Que às vezes é preciso apenas saber tocar na Clave de Sol do coração de uma pessoa para poder compreendê-la por completo. Como dizem os grandes pensadores: “O amor é a melhor música na partitura da vida, sem ele você será um eterno desafinado nesse imenso coral do coração”. E que o amor sempre será a melhor música.  




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