sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

FanFic: "Uma luz no meu caminho" (+18)

Autora: Maricia Jackson 



Autora: Marícia Jackson

Sinopse:

   Duas pessoas. Duas histórias. E um só caminho. Uma luz para iluminar a escuridão. Quando a encantadora Joy aparece de surpresa na vida do ambicioso empresário Michael Jackson, tudo ao seu redor ganha um novo sentido. E nesse encontro inusitado, nasce  um sentimento que ele imaginou nunca mais sentir novamente. 

   E se a vida de Michael mudará com a presença de Joy,a mesma também verá sua vida mudar de ponta à cabeça. Jovem,grávida e sem ninguém para apoiá-la, encontrará em Michael um inimigo a princípio,mas o que ela não imagina é que esse homem duro e insensível se tornará um verdadeiro anjo em sua vida. 

  Amizade, companheirismo e finalmente, paixão. Mas como contar ao amor da sua vida que está grávida de outro homem?

  O amor conseguirá sobreviver à mentira e ao orgulho?


  Um romance divertido, doce e transformador..

Capítulo 1

Joy




                                                     



  Enterro meu rosto na água gelada e refrescante que jorrava da torneira. Os ensaios sempre me deixam sem fôlego, mas hoje eu fui ao meu limite. Sempre amei a dança, eu fico fora de mim, e no palco sou capaz de esquecer tudo lá fora. E se tem uma coisa que me faz feliz é mover meu corpo na intensidade da melodia. 
   Bem, desde que me conheço por gente todos me chamam de Joy. Minha madrinha disse que meu nome de batismo é Maria da Luz, mas como esse nome é bem estranho e não combinava nem um pouco com a minha personalidade, ela e todos que eu conheço passaram a me chamar de Joy.
   Quem vê acha que sou uma garotinha, mas na verdade estou prestes a completar 20 anos. Mas apesar de estar entrando na fase "adulta", pra mim isso não faz diferença. Me sinto como se ainda tivesse 15 anos e se isso é careta, que se dane! Amo o jeito que levo minha vida dentre todas as circunstâncias ao meu redor.

-Madrinha, cheguei!! - gritei em auto e bom som. Ela já está acostumada, pois todas as manhãs é a mesma rotina

-Achei que ficaria no salão o dia todo. Não pode ficar sem almoçar até tarde, mocinha! - ela beijou minha testa, fazendo o sinal da cruz, em seguida

-Acha mesmo que uma draga como eu vai dispensar esse rango divino? - ela riu

-Palhaça!

      Esqueci de mencionar que sou uma tremenda sortuda por ter Leslie Roberts como minha madrinha. Eu nunca conheci meus pais, mas também nunca sofri por isso, pois Leslie sempre foi como um pai e uma mãe. E mesmo sendo duas mulheres pobres e sozinhas, esse fato nunca nos abalou. Sempre nos viramos como podemos. Ela, costurando pra fora, e eu, fazendo bicos por aí. As vezes descolo uma grana sendo par de valsa do Rodrick, que é meu melhor amigo. Ele simplesmente ama participar de concursos de dança e quando precisa, ele me chama para ajudá-lo.
     O que quero dizer é que não importa se moramos em um casebre de um bairro precário, ou que passamos dificuldades, o que importa é que nunca me queixarei da vida que tenho. Tenho orgulho das minhas origens e quer saber, não trocaria isso aqui por nada!

-Quer dizer então que é hoje que o Kevin vem jantar aqui.. - disse, jogando verde

-É sim. Deus, estou tão nervosa! - confessei

-Mas por que, menina? Kevin está sempre aqui em casa. E outra, vocês estão namorando há quase três anos!

-Eu sei, mas.. Ele disse que esse jantar vai ser "especial".. - fiz aspas com os dedos

-Será que é o que estou pensando? - os olhos dela brilharam

-Madrinha, não viaja tá? Vai que é algo completamente diferente? Depois eu fico com cara de tacho..

-Não sei por que. Apesar de eu não ir muito com a cara dele, acho que esse romance vai evoluir.. - ela se levantou para pegar um copo de suco pra mim

-Juro que não entendo essa implicância que você tem com ele. Kevin é um amor de pessoa!

-Se você diz.. - deu de ombros

-Você está com ciúmes, Dona Leslie! - brinquei, apertando suas bochechas rosadas

-Eu só quero seu bem, mocinha! É inocente demais.. - entornei minha boca em um biquinho e a abracei, ignorando sua frase

Eu não faço ideia do que ela quis dizer, mas eu confio totalmente nas suas intuições.

-Tô ligada.. Bom, agora deixe eu ir. A galera tá me esperando! - me levantei da mesa e fui para o quarto vestir meu biquíni

-Onde está indo, Maria da Luz? - fiz uma careta no mesmo instante

-Vou na praia, ué! Hoje é sexta- feira e tá um solzão lindo lá fora! Por que não vem também?

-De jeito nenhum! Não vou ser babá de um bando de garotos! - ri

-Eu te amo! Até mais tarde! - escutei um "até mais" e em seguida, fui ao porão buscar minha bicicleta. De jeito nenhum eu perderia um dia tão lindo como esse!

Michael





                                     





 Ótimo! Tudo que eu precisava pra completar meu dia de merda é uma droga de trânsito nesse calor infernal que está fazendo em Miami. Detesto ficar parado. Perda de tempo significa perda de dinheiro. Eu não conquistei toda a fortuna que tenho fazendo corpo mole, como a maioria dessa gente que passa o dia tostando na praia.

-Bill, será que há possibilidade de aumentar esse climatizador? - pedi no tom mais educado que encontrei

-Está no máximo, Sr. Jackson. - bufei, afrouxando o nó da gravata

-Inferno de cidade! - grunhi - Era para eu estar em Amsterdã, mas a gracinha da minha mãe me obrigou a assumir essa maldita empresa!

-Mas isso foi há dez anos.. - Bill murmurou

-O que disse? - pelo retrovisor percebi a cara de assustado que Bill fez. Eu poderia rir da situação se não estivesse tão irado

-Nada, nada! - se prontificou a dizer

-Já deveria estar acostumado com meu jeito, Bill. Não sou um tirano. - o único funcionário que eu dou o mínima liberdade é Bill, que está ao meu lado desde os tempos mais difíceis que enfrentei

-De forma alguma, Senhor! Mas achei que já havia se acostumado com a cidade.

-Como, se desde que cheguei é estresse atrás de estresse?

-O senhor precisa de férias.

-Se me chamar de senhor mais uma vez, estará demitido. Pelo amor de Deus, Bill, me sinto ainda mais velho!

-Velho onde? Só está um pouco ranzinza.. - ele riu timidamente

-Bill, você não tem amor ao seu emprego. Tsc tsc..

-O fato é que faltam poucos dias pro seu aniversário e não é todo dia que se faz quarenta anos.

-Grande coisa pra se comemorar! - reparei que Bill estava pálido e respirando rapidamente - Algum problema, Bill?

-Não me sinto muito bem, Sr. Está quente demais.. - murmurou

-Pare o carro. - ordenei

-Não precisa, Sr. Jackson. Já estou melhorando..

-Nada disso! Eu mesmo vou dirigir. É uma ordem! - Bill trocou de lugar comigo e eu assumi a direção

-Obrigado, senhor.

-Vamos parar em um bar e comprar uma água.

     Encaixei a chave na ignição, pisei no acelerador e coloquei o carro em movimento. O sinal abriu, me dando permissão para acelerar, mas não sei quando e nem como uma bicicleta entrou na frente do carro. Freio bruscamente, mas ao invés de sair do veículo, permaneço paralisado. 

-A garota se machucou? - Bill perguntou

-Garota?

-É! Você não viu?

-Cacete! - destravei a porta do carro e saí disposto a ajudá-la, mas para minha surpresa, a garota se levantou feito um furacão

-Você tem merda na cabeça, tio? - tio?? A analisei de cima a baixo, controlando os indícios de raiva - Além de retardado é surdo?

-O que disse?

-Urgh! - ela pegou o que restou da bicicleta e saiu pisando duro

-Hey, espera aí! A culpa foi sua! O sinal estava aberto pra mim, por acaso é cega? - ela olhou pro enorme arranhado no capô do meu carro e rapidamente sua expressou facial se transformou em medo

-Ferrou! Deixa eu ir embora, cara.. Esse carro deve ser mais caro que meu rim! - ela deu as costas novamente e montou na bicicleta entortada

Se não fossem as buzinas infernais eu teria ido atrás ela. De jeito nenhum vou deixar barato o estrago que ela fez e pior, o palavreado chulo que usou para se referir à minha pessoa. Essa pivete está devendo o polimento da minha BMW!

-Está tudo bem, senhor? - perguntou assim que entrei no carro

-Nem um pio sobre isso. Nem um pio! Obrigado por ter terminado de ferrar meu dia, sua estúpida! - vociferei ao vê-la se afastar pela praia..

Capítulo 2

Michael


   Depois da dor de cabeça que tive quando aquela louca entrou na frente do meu carro, ainda tive o desprazer de chegar atrasado em uma importante reunião com os advogados. Somos o maior escritório de advocacia do país, graças aos meus esforços. Quando eu ainda estudava direito, minha mãe implorou para que eu viesse tirar o escritório do buraco que meu pai cavou antes de morrer. 
    Depois de uma série de decepções na minha vida, decidi focar apenas no trabalho, e com muita dedicação me tornei promotor de justiça e dono da Jackson Law Firm. Talvez vinte anos de profissão tenham me endurecido de certa forma, mas claro, isso não é nem a metade do que aquela infeliz fez comigo..
      Dissipei as amargas lembranças ou senão meu humor não teria salvação, ainda mais hoje que receberei a visita de minha mãe. Tirei os óculos escuros, ajustei minha gravata e avistei Lucy. Ela sorriu timidamente, mais com uma pitada de sensualidade. Faz mais ou menos seis meses que ela trabalha como minha secretária e bem, ela serve de divertimento nas horas vagas.

-Boa tarde, Sr. Jackson.. A reunião..

-Sim, eu perdi. - respondi, a cortando - Mais alguma novidade que eu não saiba?

-Ah sim.. A tal estagiária chegou agora pouco. - revirei os olhos ao me lembrar de outra encrenca em que me meti

-Peça para Alice vir até minha sala imediatamente. Não quero prolongar isso.

-Sim senhor. - Lucy assentiu e se sentou na cadeira, cruzando as longas pernas

Maneei a cabeça de um lado para o outro à procura de alguém, mas felizmente estávamos a sós. Me inclinei para mais perto e pude contemplar seus fartos seios engolidos pelo decote (quase) discreto.

-A senhorita.. tem algum compromisso hoje? - perguntei, deslizando meu dedo pelo granito da mesa

-Nenhum confirmado, senhor.. - ela sorriu

-Hmm.. - apertei meu queixo analisando-a por completo - Estou querendo revisar uns processos.. Preciso de ajuda,sabe..

-Eu sei a ajuda que o senhor precisa e,.. - ela arqueou o busto - Terei enorme prazer em ajudá-lo. - sorri de leve, dando uma piscada

-Sempre eficiente.. Te busco em seu apartamento. - girei meus calcanhares e parti para minha sala

    Alice já me esperava do lado de fora. A cara de assustada que sempre teve, parecia ainda mais aterrorizada, na certa prevendo seu futuro. Alice é gostosa pra cacete e quando a aceitei como estagiária foi única e exclusivamente por esse motivo. 
    Não demorou muito para domá-la e em pouco tempo a levei pra cama. Só que o problema é que agora ela não larga do meu pé e isso tem me irritado pra caramba. Eu não tenho culpa se ela achou que eu queria algo a mais, logo também não tenho culpa da sua demissão.

-Michael..?

-Alice, já falei milhares de vezes que aqui é Sr. Jackson. - bufei

-Me desculpe.. É que eu não consigo mais enxergá-lo apenas como meu chefe..

-Percebe-se. Alice, tenho coisas demais para fazer, então serei franco.

-Cla..claro.. Pode falar!

-Passe no RH e pegue o acerto do seu pagamento. - informei, sentando-me na cadeira, mantendo os olhos fixos no notebook

-Mas..Mas por que? Eu fiz algo errado?

-Profissionalmente não. Mas, não estou mais afim de tê-la trabalhando comigo.

-Não está afim de me ter como funcionária ou como namorada? - ela alterou o tom de voz

-Fale baixo! - ordenei - Viu só? Não sabe distinguir sexo e afeto, o que quer que eu faça?

-Mas você não pode fazer isso comigo! Eu preciso muito desse estágio e..

-Farei uma carta de recomendação. Qualquer mísero escritório vai aceitar uma estagiária recomendada por Michael Jackson. É só isso, meu anjo. Pode se retirar. - a garota se levantou ainda chorosa e correu porta a fora

-Me desculpe, Sra. Jackson! - a ouvi dizer quando trombou com minha mãe na porta

-Mas.. O que aconteceu com a menina? - perguntou espantada - O que fez com ela, Michael?

-Nada demais, mãe.. Não vai me dar um beijo? - Katherine desmanchou a carranca e veio me dar um beijo carinhoso

-Dormiu com a menina, se cansou e jogou fora.. - ela me olhou decepcionada

-Mãe, você sabe que não é bem assim. Ela que imaginou coisa onde não tem. Sou um homem solteiro e não a forcei a nada.

-Disso não tenho dúvidas. Mas não vê que a magoou? Como acha que ela está se sentindo? E não é a primeira vez que você faz isso. Tenha mais compaixão, filho..

-E alguém teve comigo?

-Sei que ainda dói o que Megan fez, mas isso foi há dez anos e..

-Mãe, por favor! - a cortei - Quantas vezes tenho que pedir para não tocar no nome dessa miserável? 

-Me desculpe, eu sei que não gosta de lembrar..

-E por que continua me atazanando com isso? Acha que esqueci que fui o maior corno do século? Não preciso que me lembre de ter sido abandonado em uma porra de altar! - a essa altura eu já estava totalmente possesso. Me lembrar do passado acendia ódio em meu coração

-Tudo bem, tudo bem.. - ela afagou meus cabelos - Eu só queria que realmente esquecesse do passado e abrisse seu coração, meu filho..

-Não seja absurda, mãe! Não tenho interesse e muito menos idade pra isso. Se quer saber, me sinto muito bem fodendo mulheres e descartando, não foi assim que aconteceu comigo? - me assustei ao receber um ardido tapa da minha mãe

-Eu não te criei para dizer tantas bobagens!

-Me desculpa, mãe.. Olha, eu não quis dizer isso. Só peço que entenda que eu não posso e nem quero viver aquela história novamente.

-Está desperdiçando sua vida.. Todo mundo tem sua alma gêmea, meu amor.. - ela sorriu, me fazendo rir também

-Ah, Dona Kathe.. Em que mundo a senhora vive, hein? - lhe beijei o topo da sua cabeça - Tem pessoas que nasceram para ser sozinhas e é melhor encarar os fatos. Eu sou uma delas..

Capítulo 3

Joy


     Eu estou ferrada! Me meti em encrenca e dessa vez quem vai levar a pior sou eu. Eu sei que errei em atravessar a rua, mas o olhar desprezível daquele cara me irritou tanto que eu acabei explodindo. Quem ele pensa que é? Na certa se acha o "dono do mundo" por estar dirigindo aquele carrão. 
Deus, só de pensar no carro meu coração aperta. Eu ferrei o possante dele e eu tenho certeza que ele vai vir atrás de mim cobrar o prejuízo. O conserto deve ser mais caro que meia dúzia de barracos do meu bairro.
     Depois dessa mancada minha, a vontade de ir à praia morreu. Como eu poderia me divertir sabendo que o ricaço tá na minha cola? O foda é que a minha bicicleta não vai aguentar nem um quarteirão, então o jeito é voltar a pé pra casa.

-Madrinha, cadê você? - larguei o que restou da bike no chão e saí a procura da minha madrinha - Madrinha!!

-Aqui em cima! - ela gritou de volta. Subi as escadas para o seu ateliê de costura - O que houve, menina? Parece que vai tirar o pai da forca!

-Madrinha, eu estou muito ferrada! - sussurrei, puxando a cadeira para mais perto dela

-No que você se meteu dessa vez? - perguntou depois de rir

-Eu bati com a bicicleta no capô de um carro. - ela arregalou os olhos imediatamente, procurando em mim algum machucado

-Você o que? Virgem Santíssima! Você está bem? Foi no hospital?

-Não, não. Estou ótima! O problema é o carro.. Eu o destruí! E tem mais..

-Cristo.. Então fala, menina!

-O carro é puro luxo e o motorista tinha mó pose de granfino!

-Deixe- me ver se entendi. - ela piscou os olhos - Você foi atropelada, certo?

-Sim e eu fiquei uma fera com ele! Insultei o coroa e tudo mais.. Só que ele disse que a culpa foi minha que atravessei a faixa quando o sinal tava aberto pra ele!

-Mas filha, isso é perigoso! Você poderia ter morrido, sabia?

-Eu vou morrer quando esse coroa me achar, isso se ele já não tiver na minha cola!

-Mas por que? Ele te ameaçou?

-Não, eu não sei.. Ele falava tanta abobrinha que eu nem saquei.. Mas tá na cara que ele vai querer que eu pague o preju!

-Fica calma, minha linda.. Por acaso ele sabe seu nome?

-Não.. Eu acho né? Mas vai que ele pede o FBI pra descobrir? - ela riu

-Não fale besteiras, menina! Se ele fosse criar caso teria chamado a polícia na mesma hora..

-Mas e se ele vier atrás de mim cobrando o conserto?

-Bom, se esse moço vier com a conta nós daremos um jeito, sim? - assenti, ainda insegura - Não escutei!

-Sim, nós daremos um jeito.. E eu vou fazer questão de pagar cada centavo pra esse histérico!

-Então se aquiete, mocinha! - ela sorriu, puxando-me para um abraço - Não vai acontecer nada.. Agora, mais do que nunca você precisa aprender a andar com as próprias pernas.

-Por que está falando assim?

-Por nada, meu bem.. É que eu tenho medo.Eu não serei eterna e você é tão ingênua.. Me promete uma coisa?

-Claro. O que a senhora quiser!

-Me prometa que se tornará uma mulher forte? Que vai dar a volta por cima toda vez que cair?

-Madrinha, por que diz isso? Está me assustando!

-Não tem que se assustar, boneca.. É só preocupação de mãe. - ela sorriu - Mas eu sei que o seu anjo da guarda vai te proteger em todos os momentos da sua vida. Ele sempre estará ao seu lado.. Ele e sua madrinha aqui que te ama muito!

-Eu também te amo muito! A senhora é tudo que eu tenho, minha gatona!

-Ah moleca! - ela gargalhou. Nos abraçamos forte, mas eu logo dei um pulo ao escutar batidas na porta

-Ai madrinha! E se for ele?

-Por Deus, Joy! Fique calma.. Eu vou atender.. - ela se levantou, mas eu impedi

-Não! Eu vou tentar ver aqui de cima. - me esgueirei na janela e logo um sorriso despontou dos meus lábios

-E então, quem é?

-Deixa comigo, madrinha.. - saí da janela e, apressada, desci as escadas. Abro a porta e a primeira coisa com que me deparo é um buquê de flores - Kevin.. - suspirei apaixonada

-Pra você, princesa.. - disse estendendo o buquê. Peguei- o delicadamente e inalei o delicioso aroma

-São lindas, amor.. Obrigada.

-Você merece.. É tão bela quanto! - ele acariciou meu queixo e depositou um selinho em meus lábios

-Entra, Kevin! Vou avisar minha madrinha que você chegou!

-Espera.. - Kevin me segurou delicadamente pelo braço - Na verdade, eu vim buscar você pra dar uma volta comigo.

-Mas nós combinamos de jantar aqui, você esqueceu?

-Não, eu não esqueci. Mas.. acho que merecemos um tempinho a sós... - ele sorriu

-Como assim?

-Linda, sempre namoramos com sua madrinha por perto..

-Mas é a condição dela. - afirmei, direta

-Sim, mas.. Joy, estamos juntos há dois anos. Não acha que está na hora de avançarmos um pouquinho.. - Kevin deslizou os lábios carnudos pelo meu pescoço. É incrível como um simples toque dele deixa meu coração acelerado

-Kevin.. - fomos interrompidos por um barulho vindo do andar de cima - Madrinha?

    Subi as escadas correndo, enquanto Kevin vinha logo atrás de mim. Já começava a achar estranho o silêncio que se instalou logo após o barulho. Entrei em completo desespero ao ver minha madrinha caída no chão; aparentemente desmaiada com a mão no peito.

-Madrinha!! - me joguei no chão, tentando a todo custo acordá-la

-Dona Leslie, consegue nos ouvir? - Kevin perguntou ao dar uns tapinhas em sua bochecha

-O que ela tem, Kevin? - a essa altura eu já estava apavorada

-Eu acho que ela infartou.

-O que? Mas ela tomou os remédios hoje!

-Vou chamar a emergência! - Kevin se afastou enquanto eu permanecia abraçada à ela

(...)

    A ambulância demorou exatamente quarenta minutos para chegar. Infelizmente não tínhamos condição de levá-la, então nossa única opção foi esperar. E agora estamos nós dois e mais alguns vizinhos no hospital esperando por notícias. Minha madrinha só foi atendida porque optei pelo tratamento particular. Sei que não tenho de onde tirar dinheiro, mas ou eu fazia isso, ou minha madrinha morreria na fila do hospital.

-Não suporto mais essa demora.. - Kevin me aninhou em seus braços. Já estávamos a horas esperando por notícias

-Geralmente demora, amor.. Temos que esperar! - me levantei imediatamente ao ver o médico se aproximar

-Doutor, a minha madrinha está bem? - ele suspirou pesadamente, enfiou as mãos no bolso e me encarou

-Sinto muito. Ela sofreu um infarto. Tentamos reanimá-la, mas já era tarde demais..

-Não.. - desabei em lágrimas, sem conseguir acreditar nas palavras do doutor

   Kevin me abraçou forte, mas eu estava tão apática que não conseguia enxergar nada ao meu redor. Eu só queria chorar até perder as forças, queria que tudo isso fizesse parte de um pesadelo terrível, que eu vou acordar e tudo será como antes e que terei minha madrinha ao meu lado novamente.

-Senhorita, pode nos acompanhar? - abri meus olhos ao escutar uma voz próxima a mim

-Eu?

-Sim. Você é a responsável pela internação, certo?

-Sim, eu..

-Amor, eu tenho que levar o pessoal pra casa.. - Kevin se soltou dos meus braços e rapidamente se afastou - Qualquer coisa, me liga. Amo você..

-Eu também te amo.. - observei Kevin se afastar, mas a mulher continuava a me analisar

-Podemos conversar agora, senhorita?

-Acho..acho que sim. O que houve?

-Precisa acertar a conta. Está aqui o valor. - ela me estendeu uma prancheta e eu quase tive um treco ao ver o valor

-Mas isso é muito dinheiro!

-Você assinou um termo de responsabilidade. Só podemos liberar o corpo se a dívida for quitada.

-Mas eu não tenho todo esse dinheiro! Pelo menos não agora..

-Eu lamento. Você pode conversar com um dos diretores e pagar a metade agora, mas de forma alguma podemos liberar o corpo sem o pagamento.

   Eu mal consigo acreditar que minha madrinha se foi e na primeira dificuldade eu me sinto completamente perdida. 
Meu Deus, e agora? Como vou fazer pra pagar um valor tão alto como esse se eu não tenho onde cair morta?

Capítulo 4

Michael



-Eu pedi pra chamar um médico, não para me trazer ao hospital! - resmunguei mais uma vez ao chegar na enfermaria

    É claro que um dia tão irritante iria atiçar minha gastrite. Convivo com essa chatice há uns oito anos e, segundo meu médico particular, eu desenvolvi a doença por conta de um intenso período de estresse. Ah claro, com a  minha vida de merda eu deveria ter umas dez doenças do tipo.
   Mas enfim, a gastrite resolveu atacar justamente quando minha mãe está aqui e, coruja como ela é, já fez tempestade em copo d'água. E agora estou aqui nesse lugar medonho ao lado de outras pessoas medonhas. Se eu estivesse no conforto do meu rancho, já teria melhorado há tempos.

-Dr. Roger está de plantão, não tinha como largar uma cirurgia para vir te socorrer. - explicou - E a culpa é toda sua!

-Minha?

-Sim. Pensa que eu não sei que anda  esquecendo de tomar o remédio? Gastrite é coisa séria, meu filho.. Não brinque com isso!

-Mãe, eu não tenho oito anos. Sou bem grandinho, não acha? - sorri falso

-Mas está mais para um garotinho mimado e birrento! - acusou - Agora pare de reclamar, já vamos ser atendidos

 O que me restou foi sentar no sofá ( a contra gosto). Só o que faltava eu ter que esperar para ser atendido, é simplesmente o cúmulo!

-Que demora! Estou em um hospital público, é isso?

-Pelo que a enfermeira disse, uma senhora morreu agora pouco. - minha mãe informou

-E eu com isso? Minha gastrite vai melhorar com essa notícia?

-Que horror, Michael! Desde quando se tornou um ogro? - arregalei meus olhos

-Do que me chamou?

-De ogro, insensível, maldoso! Eu devia deixá-lo esperando na fila lá fora. Você tem que aprender a ser mais tolerante e.. - parei de escutar seu sermão quando vozes alteradas chamaram minha atenção

-Mãe, vá buscar água pra mim.. - ela se levantou rapidamente e foi até o bebedouro

 Aproveitei para me levantar, mesmo com a insuportável dor que sentia. Eu não sou de meter o bedelho na conversa alheia, mas parece que tinha uma vozinha irritante ordenando para que eu fosse ver que diabos estava acontecendo.
  Uma garota ruiva estava esgueirada no balcão da recepção balbuciando palavras inaudíveis pra mim. Ela parecia estar chorando, mas pela cara do homem, ele não estava nem um pouco penalizado.

-Senhorita, eu não posso fazer nada! Você assinou um termo. Se não pagar, não liberamos o corpo.
-Mas eu só peço um tempo, só isso! Eu não tenho toda essa grana! - ela explicou. Acho que fazia um bom tempo que um fato me sensibilizava dessa forma

-Se não tinha o dinheiro, por que solicitou a internação particular, mocinha? Se não sabe, os custos de uma internação desse porte são altos!

-E os meus sentimentos, hum? Queria o que? Que eu deixasse a minha madrinha morrer numa fila de hospital? Na mesma fila em que outras pessoas estão sofrendo coisa pior?

-Senhorita, nós apenas seguimos os protocolos. O corpo da sua parente só sai com o pagamento. Pague a prestação, o que for.. Está avisada. 

 
   O homem terminou o aviso e se retirou, deixando a garota ainda mais em prantos. Ela se sentou no sofá, toda encolhida e.. porra! Senti um impulso de ir até ela e .. sei lá.. Fazer alguma coisa para que ela não chorasse mais. 
 Mas o que isso, Michael? Desde quando me interessa os problemas de alguém que não seja exclusivamente eu? Balancei a cabeça negativamente e voltei a olhar para a garota. Semicerrei meus olhos, tentando captar aqueles traços, que pra mim eram conhecidos de algum lugar.

-Michael? - minha mãe me chamou - O que você está fazendo?

-Na..nada! - voltei ao meu lugar no sofá, mas a cena de segundos atrás não saía da minha cabeça, tanto que me fizeram esquecer da dor

-Filho, você está bem? Nem reclamando está..

-Mãe, eu.. Espere aqui.

-Onde você vai, menino? Michael! - segui o corredor em direção à sala que o homem entrou

 Ao passar pelo corredor, pude ver a garota sentada com a cabeça baixa. Ela chorava baixinho e, puta merda, novamente algo dentro de mim se remexeu. Acho que era o meu coração, ou o que restou dele.

-Essa gastrite está me deixando maluco.. - murmurei. Passei por ela e segui para a sala intitulada como " diretoria" . Dei dois toques na porta e ouvi um "pode entrar" - Com licença?

-Ah, pode entrar.. Michael, Michael Jackson? - o homem me olhou surpreso

-Sim, o senhor é?

-Dr. Philip Stain. Mas no momento, apenas diretor. - ele riu. Devolvi um sorriso amarelo. Não, eu não fui mesmo com a cara desse sujeito

-Certo, Dr. Philip. Podemos conversar?

-Claro! Está precisando de alguma coisa? Veio fazer uma reclamação?

-Reclamação é o que não falta, mas não é por isso que estou aqui. - ele fechou a cara

-Pois então, diga. No que posso ajudar?

-É só uma dúvida. Eu.. eu percebi que estava tendo problemas com a garota que está lá fora.. Posso saber o que houve? - ele suspirou, retirando os óculos de grau

-Essa mocinha quer nos passar um calote. Assinou um contrato de internação particular e agora que a tal pessoa morreu, vem me dizer que não tem dinheiro pra pagar!

-Então a pessoa que morreu é parente da garota.. - concluí

-O que disse?

-Prossiga. - ele pigarreou

-Foi isso que aconteceu. Sinto muito que ela tenha lhe incomodado, vou pedir que espere na portaria.

-Qual o valor? - o cortei

-Como?

-O valor. Quanto ela está devendo? - mesmo hesitante, ele pegou o papel e me estendeu

-Aqui está..

-Ok.. - tirei do bolso da calça a carteira, revelando o talão de cheques

-Que mal pergunte, o que o senhor está fazendo? - terminei de assinar o cheque e em seguida, o destaquei, entregando à ele

-Isso cobre as despesas? - Philip engoliu seco ao ver o cheque

-Mas..

-Está pago. Agora libere o cadáver, digo, o corpo. Deixe a menina ir embora. Creio que ela ainda tem muitas coisas para resolver.

-Provavelmente. O que eu faço com isso?

-E eu vou saber? Você queria o dinheiro. Aí está! - me levantei, ajustei o terno e antes de sair, me virei - Não preciso nem avisar que isso é sigiloso, certo?

-Cla..claro!

-Se meu nome tiver envolvido nesse drama mexicano, eu mexo meus pauzinhos e te enxoto  desse hospital, ok?

-Não se preocupe, ficará entre nós! - ele assegurou. Assenti e saí da sala

 Quando voltei, a garota já não estava mais lá, provavelmente foi encontrar um jeito de levantar essa grana. Agora a pergunta é: por que eu fiz isso? E por que eu me senti tão bem após esse feito? Isso só pode ter sido um roupante, uma crise de meia idade. É isso. Eu tive um ataque de filantropia e outra cena como essa só quando eu estiver nos sessenta!

Capítulo 5

Joy


   Não acredito que todo esse pesadelo está acontecendo comigo. É surreal saber que não terei mais minha madrinha ao meu lado, pois ela era minha única família, a única pessoa nesse mundo que se importava comigo. E em troca disso não poderei ao menos fazer um enterro decente porque não tenho um centavo. Eu nunca liguei pra dinheiro, mas em momentos assim percebemos como ele é importante, embora eu saiba que dinheiro nenhum trará minha madrinha novamente.
     Cansada de insistir no telefone por um empréstimo no banco, tive que voltar à recepção e implorar pela última vez um tempo a mais para eu pagar a conta. Quando subi novamente, encontrei Kevin me esperando. Rapidamente ele me tomou em seus braços e eu chorei copiosamente.

-Eu estou perdida..

-Calma, meu amor.. - Kevin foi interrompido pela recepcionista

-Senhorita Maria da Luz? O corpo da sua madrinha será liberado dentro de duas horas. Pode assinar os papéis, por favor?

-Mas como assim? - a olhei sem entender nada - Pra onde vão levar minha madrinha?

-Senhorita, a conta foi paga e agora o corpo pode ser liberado.

-Pago? Mas eu não paguei conta nenhuma! Quem fez isso?

-Não sabemos o nome da pessoa. Me desculpe, mas não sei lhe informar. Assine, por favor. - ela sorriu educadamente. Peguei os papéis, ainda trêmula e deixei minha assinatura. A moça se retirou e eu encarei Kevin, aturdida

-Como alguém paga uma conta tão cara e eu não fico sabendo? Só podem ter confundido, tenho certeza!

-Eu paguei a conta. - Kevin disse

-Você o que? Mas quando?

-Assim que você saiu eu trouxe a grana. Eu tinha umas economias e a única coisa que meu coração pediu foi para usar esse dinheiro. Eu não queriam que te falassem caso eu não estivesse aqui e.. por isso, por isso pedi para não falarem meu nome..

-Kevin.. - o abracei emocionada com sua prova de amor - Meu amor, eu não tenho palavras para te agradecer.. Mas esse dinheiro vai te fazer falta!

-Você é mais importante que tudo! E eu estou feliz em poder ajudar..

-Eu te amo, te amo muito!!

-Também te amo, gata.. - Kevin beijou minha boca, mas logo me afastei. Sei lá, não me sinto a vontade para beijá-lo dessa forma, ainda mais em público

-Kevin.. - ele riu

-Desculpa, não me controlei..

-Não precisa se desculpar, amor. Você é meu anjo! Uma parte do pesadelo passou, mas agora vem a mais difícil. Enterrar minha madrinha..

-Vai dar tudo certo, linda.. - me aninhei em seus braços e fechei meus olhos, totalmente vencida pelo cansaço

(...)

    Infelizmente o momento de enterrá-la havia chegado. Tive que usar o pouco do dinheiro que tinha guardado com a minha madrinha, para pagar as despesas do velório. E com isso, estou sem saída. Sr. Clinton, dono da casa que eu morava com ela, me deu um prazo de um mês para sair do imóvel. Apesar de Kevin garantir que vai cuidar de mim, eu me sinto péssima, pois a vida da minha madrinha está lá dentro e eu não posso fazer nada para impedir.

Um mês depois


    Se eu achei que tinha sofrido o suficiente, agora tem mais. Vou ser obrigada a devolver nossa casa para o dono. Já estávamos há alguns meses devendo o aluguel, e penalizado pela morte da minha madrinha, o Sr. Clinton me deixou sair da casa sem precisar pagar os meses anteriores.
      Eu não tinha outro lugar pra ir que não fosse o apartamento de Kevin. É claro que não me sinto bem fazendo isso, mas eu não tenho outra saída. E também ele tem sido tão maravilhoso comigo e o melhor de tudo, prometeu que em breve nos casaremos. Agora eu sei que Kevin é a pessoa certa pra mim.

-Acho que é a primeira vez que você entra aqui.. - Kevin disse

-É linda sua casa.. Kevin, não sei como agradecer por tudo que está fazendo.

-Hey, não quero mais te ver triste, ok? Agora é vida nova pra nós dois.. E pra comemorar, que tal um jantar especial?

-Hmm.. Jantar? Certo, eu aceito!

    Kevin consegue me surpreender mais a cada dia que passa. Ele preparou um jantar perfeito, quer dizer nossa noite foi perfeita. Fizemos planos para nossa vida de casados e até mesmo sobre filhos, mas acho que Kevin se assustou, pois ele logo desviou o assunto. Mas eu estou tão feliz que esse fato não me preocupou, até porque não me vejo sendo mãe tão cedo!

-Kevin, eu amei tudo.. Cada dia estou mais apaixonada por você. - Kevin sorriu, acariciando minha bochecha

-Eu te adoro, sabia? - Kevin continuou a me beijar na boca, mas aos poucos o beijo foi se aprofundando e logo seus lábios migraram para o meu pescoço - Você é tão linda.. - murmurou tendo os lábios grudados na minha pele

-Kevin, é melhor não continuarmos..

-Mas por que? Joy, depois de tudo que eu fiz, você ainda duvida do meu amor?

-Mas é claro que não! É que eu tenho medo.. Kevin, eu nunca..

-Eu sei, princesa. Não precisa ter medo, você sabe que eu amo você. Amor, nós vamos nos casar em breve, acho que será ótimo para nós dois.. Pra nossa relação..

-Eu não sei.. - tentei me desviar dos seus braços, mas ao mesmo tempo eu queria confiar em Kevin. Meu coração estava acelerado e eu, extremamente ansiosa

-Confie em mim, meu amor.. Confie em mim

    Kevin me encaixou em seu colo e aos beijos me levou para o quarto. Devo dizer que ele foi imensamente carinhoso e atencioso comigo, mas isso foi até sentir o calor do seu corpo e a partir daí suas carícias se tornaram mais urgentes. Eu não fiz nada para impedi-lo, pois eu não tenho nenhuma noção do que fazer. 
    Nunca falei de sexo com ninguém, nem mesmo com a minha madrinha. Eu não sei se é normal sentir um tremendo desconforto, uma angústia, mas coloquei na minha cabeça que esse misto de sentimento faz parte do medo e da insegurança. Decidi então ouvir meu coração e o enorme amor que sinto por Kevin, e me entreguei da forma mais pura e plena.

(...)

   Na manhã seguinte ao acordar, notei que estava sozinha na cama. Respirei fundo e então as lembranças da noite passada vieram à minha cabeça. Eu não estava arrependida, mas me sentia envergonhada e até mesmo diferente. Várias meninas dizem que é normal se sentir assim depois de perder a virgindade, é o momento que você deixa de ser uma garotinha e se torna uma mulher.
     Como Kevin não estava em casa, fui obrigada a ficar sozinha. Se minha madrinha estivesse aqui eu estaria agora mesmo implorando por seus conselhos. Eu precisava falar com alguém para poder me abrir e eu sei que Rodrick é a pessoa certa.

-Alô...? - a voz animada de Rodrick surgiu do outro lado da linha

-Rô, é a Joy..

-Boneca!! - ele gritou - Que saudade, sua linda! Tem uma semana que não te vejo..

-É, tô ligada.. Eu estava bem ocupada desocupando a casa.

-Nem me fale! - ele suspirou - Mas então está mesmo na casa do boy? - ri do seu jeito extrovertido de falar

-Sim, eu vim pra casa do Kevin. Ai, Rodrick, vou morrer sufocada se eu não te contar!

-Como assim? O que aconteceu? Pode falar agora mesmo, mocinha!

-Eu.. eu e Kevin.. nós fizemos amor ontem.. - Deus sabe como eu fiquei envergonhada ao dizer isso em voz alta

-Oh meu Deus!!! - tive que afastar o telefone do meu ouvido, ou senão ficaria surda com os gritos histéricos de Rodrick - Ai que máximo!! Finalmente você criou coragem!

-Caramba, não sabe como estou envergonhada.. Rô, eu não sei o que fazer agora!

-Agora é aproveitar, baby! Você tem um namorado gato que provou que te ama!

-Eu sei.. Eu não tenho dúvidas que ele me ama, ainda mais depois de ter dado toda a grana dele pra pagar o hospital. Eu nunca vou me esquecer disso!

-Então pronto, querida.. Mas agora me conte todos os detalhes!

-Rodrick! Eu não vou fazer isso ainda mais por telefone!

-Urgh.. - ele bufou - Ok.. Mas pelo menos usaram preservativo né?

-Como?

-Pelo amor de Deus, Maria da Luz, me diga que vocês usaram camisinha!

-Caramba, eu acho que não.. Quer dizer, não, nós não usamos.. - eu estava tão aflita que por pouco não deixei Rodrick falando sozinho

-Certo. Fique quietinha onde está! Estou indo pra aí..

-Mas Rodrick, que diabos você tá pensando?

-Eu? Mil e uma coisas! Mas antes temos que tirar minha primeira dúvida!

    Rodrick ainda falou por mais um minuto, mas nada que meus ouvidos pudessem captar. Na verdade eu não consegui captar nada depois da sua pergunta. Eu tenho certeza que não usamos essa tal de camisinha, mas eu sei muito bem pra que ela serve. Só que em momento algum eu lembrei dela e Kevin muito menos! 
    Mas eu não vou me apavorar, até porque a chance de eu ter engravidado logo na primeira vez é totalmente nula, certo? É claro que é! Eu só preciso manter a calma e esperar por Rodrick.



Capítulo 6

Joy


   Não demorou nem dez minutos para Rodrick chegar no apartamento e eu agradeci mentalmente por Kevin estar no trabalho. Minha cabeça está fervilhando e eu temo que piore, agora com a chegada do meu amigo.

-Graças a Deus, você chegou! - suspirei aliviada ao vê-lo vir de encontro a mim

-Não se apavore, ok? Agora me conte tudo desde o início. - ele se sentou ao meu lado no sofá. Tomei uma lufada de ar e comecei a falar

-Nós estávamos jantando e.. começamos a nos beijar.. Ah você sabe..

-Você queria isso? Digo, foi decisão sua?

-Quer saber, eu não estava pronta. É claro que eu sabia que um dia perderia a virgindade, mas imaginei que seria depois do casamento.

-Hmm.. apressadinho seu namorado, hein? - notei uma alfinetada em sua forma de falar

-Rodrick! A culpa não foi só do Kevin, ele não me obrigou a nada!

-Mas aposto que te pressionou! - rebateu - Ele sabia que com esse seu jeitinho ingênuo ele conseguiria fácil..

-Está me deixando chateada!

-Desculpa, querida. Mas você sabe que é sim ingênua e acredita em príncipe encantado!

-O Kevin é sim um príncipe! Ai será que dá pra dizer logo qual a dúvida que você disse que tinha?

-Meu bem, vocês foram irresponsáveis. Ele mais ainda, pois é mais velho que você e é experiente! Se ele planejou essa noite especial pra transar com você, deveria ao menos ter trago o preservativo!

-Eu sei, eu sei.. Mas a culpa também foi minha.. Só que eu pensei que ele tinha tudo sob controle.. E também não adianta eu chorar as pitangas!

-Não mesmo.. Vamos agora mesmo no hospital.

-Mas pra que? - alterei a voz, assustada

-Como pra que? Vocês transaram sem nenhum tipo de contraceptivo, já pensou que essa brincadeira pode ter consequências?

-Tipo.. gravidez?

-Tipo.. você acertou! Estou ficando louquinho com isso! Troque de roupa e vamos voando para o hospital marcar a consulta!

-Mas isso aconteceu ontem! Não acha que é muito cedo?

-Cedo? Baby, você acha que a fecundação demora quanto tempo pra ocorrer? Um mês?

-Não, mas.. E tem outra, como eu vou pagar o exame? Eu já tive problema que chega naquele lugar..

-Eu pago! Agora chega de desculpas! O resultado deve demorar porque a senhorita vai aproveitar para fazer um exame completo!

-Como assim?

-Você acha que está exposta só à gravidez? Se você não sabe existem DST's também!

-Ai.. Para de falar difícil e vamos logo! Até eu estou preocupada agora..

 Rodrick conseguiu me arrastar para o hospital e felizmente marcamos o exame para daqui a três dias. Eu não sei se isso é bom ou ruim, mas de fato não adianta eu enrolar. É melhor fazer isso logo e encerrar esse assunto.

(...)

 Os próximos dias passaram como um borrão e agora estou esperando para ser atendida. Também não tive coragem de contar para Kevin sobre as minhas dúvidas, pois nem eu mesma sei lidar com isso. Durante esses três dias que se passaram eu pedi para que ele me desse um tempo. De forma alguma eu voltaria a transar com ele, ainda mais nas condições que estou.

-Está pronta, querida? - eu estava prestes a entrar no consultório e o tempo todo Rodrick ficou ao meu lado

-Não.. - choraminguei - Mas Deus vai me ajudar. Ele sabe o que é melhor para mim..

-Vai dar tudo certo, boneca! Quer que eu entre com você?

-Por favor.. - Rodrick pegou na minha mão e juntos entramos no consultório médico
(...)

   Já faz uma semana que fiz o exame e é bem provável que fique pronto logo. E durante esses dias eu evitei Kevin o máximo que pude, dando a desculpa de que estava "naqueles dias". Eu ainda não tive coragem de falar das minhas dúvidas. Prefiro esperar uma confirmação, mas eu forço minha mente a acreditar que isso é apenas um susto.

-Abre logo! - implorei ao Rodrick, já que pedi para ele abrir o envelope

-Calma.. - ele rasgou o pedaço de papel e tirou o exame para ler. Pelo seu olhar de lástima eu sabia que alguma coisa tinha acontecido

-Eu estou doente, é isso? Ou..

-Você está grávida. - concluiu

-Meu Deus! Não é possível.. - eu estava chocada, mas também não podia deixar de sorrir ao saber que estou esperando um filho do homem que eu amo

-Você vai ter que conversar com o Kevin. Caramba, um bebê.. -Rodrick estava tão pasmo como eu

-Você acha que ele vai gostar de saber? Eu sei que foi cedo demais, mas nós nos amamos..

-Você acredita mesmo nesse amor?

-Mas é claro que sim! - me levantei do sofá, virando de costas para ele - Kevin todos os dias demonstra o seu amor. Ele vai se assustar no começo, mas tenho certeza que vai ficar feliz tanto quanto eu! - sorri confiante

-Eu espero, boneca.. Bom, é melhor eu ir. Kevin deve estar chegando e vocês precisam conversar. Se cuida!

-Pode deixar e, obrigada por tudo! - trocamos um abraço carinhoso antes dele partir

 Eu ainda não tinha digerido a notícia e muito menos sabia como contar isso ao Kevin. Eu nem tive tempo de respirar, pois logo vejo a maçaneta girar e um Kevin mau-humorado entrar na sala. Ele está desse jeito desde o dia que pedi um tempo para pensar em sexo novamente.

-Amor? Você chegou cedo.. - sorri tentando esconder o nervosismo. Mordi a ponta dos lábios inúmeras vezes, o que sempre denuncia minha ansiedade

-Sim, mas já estou de saída. - respondeu sem ao menos olhar pra mim

-E pra onde você vai?

-Sair com meus amigos. Algum problema?

-Espera.. - o puxei pelo braço - Precisamos conversar e eu não posso adiar isso. - Kevin bufou e finalmente me olhou nos olhos

-Fala logo, estão me esperando.

-Eu não tenho noção de como começar isso.. Deus, estou tão nervosa!

-Desembucha, Joy! Fala logo o que quer!

-Kevin, eu estou grávida. - soltei de uma só vez - Nós vamos ter um filho..

-Como é? - Kevin parecia visivelmente alterado - Mas que porra é essa que você falou? - gritei assustada pela maneira como ele falava e sacudia meus braços

 Eu sabia que sua primeira reação não seria natural, mas não imaginava que seria dessa forma. Mas eu acredito que isso é apenas um choque e que logo ele voltará a si, mesmo tendo a terrível intuição de que nada será fácil a partir de agora. E eu tenho medo do que vai acontecer comigo e com esse bebezinho que carrego no meu ventre.

Capítulo 7

Joy


-Eu estou falando com você, Joy! - Kevin gritou, trazendo-me de volta à realidade. Eu estava tão apavorada que não conseguia ao menos raciocinar - Como essa merda aconteceu?

-Fizemos amor sem camisinha, você queria o que? Eu fiquei apavorada e o Rodrick me levou para fazer o exame que confirmou minha gravidez. Amor, eu sei que foi cedo demais, mas esse bebezinho é um presente de Deus para nós!

-Não fale besteiras, garota! Acha mesmo que quero ser pai na minha idade?

-Kevin, eu sei que não foi planejado, mas eu tenho certeza que vamos nos sair bem, se adaptar..

-Não foi planejado por mim, agora você.. - ele riu em tom venenoso

-Eu, eu não entendi..

-Você não é tão idiota assim, Joy! Não tem onde cair morta e logo encheu a barriga para prender o trouxa aqui! - ouvi sua acusação completamente perplexa. Ele só pode estar fazendo uma piada, não tem outra explicação!

-Você.. não disse isso.

-Joy, isso não é mais novidade! Hoje em dia toda mulher dá o golpe da barriga! - eu não sei de onde tirei forças para transferir um tapa na sua bochecha

-Eu não admito que fale assim de mim! - berrei, explodindo em ódio - Você sabe muito bem que eu jamais faria isso, o meu amor é verdadeiro e eu nunca prenderia você, ainda mais de uma forma suja como essa!

-Você se acha esperta, Joy.. - ele riu novamente - Acreditou mesmo na minha historinha de casar, ter filhos..? Ah, por favor! Você me enrolou por três anos!

-Do que você está falando, Kevin? - minha voz saiu trêmula e embargada

-Estou dizendo que te aturei por tempo demais! Sempre acanhada com esse papinho de querer casar e a porra toda. Achou mesmo que eu fiquei na seca por todo esse tempo? Óbvio que não!

-Se você não gostava do meu jeito, por que continuou namorando comigo? Era só ter terminado!

-E perder a chance de te comer? - eu nunca o ouvi falar assim e esse palavreado chulo me deu vontade de vomitar ali mesmo - Jamais! Foi preciso a chata da sua madrinha bater as botas pra poder fazer sua cabecinha!

-Como tem coragem de falar assim dela? Minha madrinha sempre esteve ao seu lado, sempre te ajudou! Não me surpreende o fato de você ter pago a conta do hospital só pra me seduzir!

-E quem disse que eu paguei? - ele gargalhou - Acha mesmo que eu gastaria dinheiro com aquela velha?

-Meu Deus.. - ouvir tanta monstruosidade estava me deixando tonta - Você mentiu pra mim, seu desgraçado!

-É, eu menti mesmo! Aproveitei que algum babaca fez a "boa ação" e acabei dizendo que fui eu. Só assim pra você deixar de marra e passar a comer na minha mão. Tanto que deu certo, né?

-Eu te odeio, te odeio! -parti pra cima de Kevin, mas ele foi mais forte e me derrubou no sofá

-Você vai juntar suas coisas e sumir daqui, tá ouvindo? - senti um bolo de papel atingir meu rosto. Peguei o montante e vi que se tratavam de notas altas de dólares

-Mas o que é isso?

-Pra dar um jeito nessa merda que você fez! Se livra dessa coisa e se contar pra alguém, vai se ver comigo!

   Eu nunca senti tanto ódio na minha vida como agora. Eu não o odiava apenas por ter me iludido, e sim pela forma como falava do próprio filho. Como um ser humano tem coragem de querer se livrar de um filho como se fosse um saco de lixo?
   Naquele momento eu não pensei em mais nada. Peguei as notas de dinheiro e rasguei uma por uma, acompanhada do olhar incrédulo de Kevin.

-Você é um monstro! - antes mesmo de esperar sua reação, eu me levantei e sai correndo dali

    Eu não me importava com minhas roupas, documentos, nada.. Eu sentia ódio, nojo e medo também. Agora que sei o tipo de pessoa que Kevin é, imagino o que faria comigo se me visse novamente. Eu tinha que arrumar um jeito de sumir dali e nunca mais aparecer.

(...)

-Beba. É água com açúcar. - Rodrick me estendeu o copo. A única pessoa em que eu confio é Rodrick, e eu não pensei em outra pessoa que não fosse ele para recorrer

-Isso parece um pesadelo! - consegui dizer após chorar tudo o que estava engasgado

-Pare de chorar, meu bem.. Você precisa pensar nesse bebê!

-Eu estou perdida, Rodrick! Kevin parecia um monstro..

-Desgraçado! Ah, mas ele vai se ver comigo!

-Não!! - o impedi de se levantar - Não vá lá, por favor.. Tenho medo do que ele possa fazer, além do mais eu quero ele longe de mim!

-Minha amiga.. Eu não vou suportar vê-la desse jeito..

-Eu vou aguentar. - assegurei - Eu só preciso ir embora daqui!

-E pra onde você vai? Joy, você não tem dinheiro, não conhece ninguém, nem roupas você tem!

-Não importa! Se eu ficar aqui, eu enlouqueço..

-Fica morando comigo, ok? Depois você pensa melhor.

-Não! Rodrick você mora de favor no quartinho de salão de dança, eu não vou te prejudicar! Não se preocupe, comigo. Você sabe que eu sei me virar..

-Joy..

-Rodrick, confie em mim. - ele suspirou em derrota e se levantou, voltando em seguida com uma mochila

-Aqui tem água, comida e alguns agasalhos que vão te servir. Também coloquei um dinheiro pra você se hospedar em algum hotel.

-Rodrick, esse dinheiro é para os seus novos figurinos!

-Eles podem esperar. Eu só vou deixá-la ir em paz se levar essa grana e me ligar assim que estiver em um hotel. Me promete?

-Eu prometo.. - nos abraçamos fortemente - Muito obrigada por tudo!

-Eu te amo, boneca.. Por favor, dê notícias!

-Pode deixar, eu também te amo..

   Consegui sair do bairro o mais rápido que consegui, eu não queria esbarrar com Kevin de forma alguma. Eu não sabia para onde ir e antes mesmo de procurar um lugar para dormir, fui atrás do Joe. 
Eu sempre fiz bicos e certa vez ele me ajudou. Eu lava carros no sinal de trânsito e bem, eu não tenho outra escolha. Agora que estou grávida, eu não posso dar mole. Sei que ele vai me ajudar, então essa parte me deixa um pouco mais tranquila. Agora em relação ao meu futuro, eu não tenho noção do que vai acontecer.

(...)
Michael


    Meus últimos dias têm sido um verdadeiro inferno. Estou trabalhando em uma audiência grande e demorada que já extrapolou quatro dias. Eu, como promotor, preciso ter todas as armas prontas para usar, e se vencermos esse julgamento, serei oficialmente o promotor de justiça mais requisitado do país e eu não medirei esforços para conseguir este posto. 
    Os únicos momentos em que eu consigo relaxar são durante os recessos da audiência. E nessas horas livres eu tenho Helena para me fazer esquecer todo o estresse que me acompanha. Helena e eu somos amigos, mas eu sei que da parte dela é mais que isso. Bem, ela é linda, inteligente, e o melhor, gostosa pra cacete. 
    Ela não é como as outras que eu apenas transo e pronto. Helena me ouve, cuida de mim e claro, realiza todas as minhas fantasias na cama. O problema é que ela me apoia até demais, concorda com tudo que eu digo e isso as vezes é um pouco monótono. Mas ela sabe que minha única intenção é transar e se pra ela está bom assim, do que vou reclamar?
     Infelizmente eu tinha que voltar para o Tribunal. Eu já estava atrasado e a porcaria do trânsito parecia tirar onda com a minha cara. E não adiantava quantas vezes gritava para Bill acelerar, o trânsito continuava engarrafado.

-Era só o que faltava! - exclamei ao ver os flanelinhas se aproximando - Parece que fazem macumba pra esse trânsito parar!

-É o único jeito de conseguirem uma grana. - Bill explicou - Fora que esse é um horário de pico.

-Vá explicar isso para o Juiz! - tombei minha cabeça para trás, me sentindo derrotado. Fechei meus olhos e contei de um à dez. Dizem que faz bem quando se está a ponto de enforcar qualquer um

-Relaxe um pouco, Michael. Pense na sua gastrite, lembre-se das ordens da sua mãe.

-Tá, tá.. - abri meus olhos e vi um flanelinha se aproximando do carro - Chatice. - resmunguei e voltei a fechar meus olhos

    Não demorou nem dois minutos para sentir o calor insuportável causado pelo sol escaldante. Não adiantaria nem pedir para Bill diminuir a temperatura, então fui obrigado a abrir a janela. E foi justamente nessa hora que senti um impacto contra meu rosto. Um impacto causado por água e sabão. 
   Eu estava completamente molhado. Tirei o excesso de sabão do olhos e então dei de cara com o desgraçado que jogou água em mim. Ou melhor, desgraçada. A menina me olhava apavorada, o mesmo olhar da garota que eu atropelei. Claro que era o mesmo olhar, pois é a mesma filha da mãe! Eu nem sei o que serei capaz de fazer quando abrir a maldita porta desse carro!

Capítulo 8

Michael


 A garota deu um pulo para trás quando abri a porta do carro e saí de dentro dele. Já podia se ouvir as buzinas dos motoristas, mas eu estava tão focado na pivete que não dei ouvidos. A menina tremia dos pés à cabeça e nem de longe se parecia com a marrenta que atropelei há um mês atrás.

-Moço.. - ela começou a se explicar - Eu sinto muito...

-Ah você sente? - ri - Por acaso eu pareço um palhaço?? Alguém tá te pagando pra infernizar a minha vida, não é possível!

-Michael, entra no carro! - Bill pediu

-Não se meta! Meu assunto é com essa retardada e hoje ela não sai daqui sem uma lição! - a garota se encolheu ao ouvir minha ameaça. Ok, eu exagerei um pouco..

-Mas por que está bravo? Quem mandou abrir a janela na hora que eu estava lavando o vidro? - ela cruzou os braços, não se intimidando pela minha ameaça

-O que, agora a culpa de você ser uma imprestável é minha? Garota, você sabe bem com quem está falando?

-Olha aqui, eu não sei e não tô afim de saber. Por mim você pode ser o enviado de Deus, mas eu não vou abaixar minha cabeça. Eu já pedi desculpas e se o senhor quer dar um chilique, azar o seu!

-Pera aí, você ferra com o meu carro, me ataca com um balde de sabão e ainda se acha no direito de levantar a voz pra mim?

-Mas o que tá havendo aqui? - um homem se aproximou de nós, cobrando uma explicação

-Joe, eu.. Foi  sem querer..

-Sem querer nada! - cortei - Está vendo o meu estado? Foi culpa dela!

-Joy, que merda você fez? Senhor, eu peço que me desculpe por ela, eu..

-Quer um conselho de um promotor de justiça? Tira essa maluca daqui antes que desgrace o dia de outra pessoa!

-Mas é claro, Sr.!! Joy, dá o fora.. - o homem murmurou pra garota, que na mesma hora se apavorou

-Joe, por favor, me perdoa! Eu dependo desse trampo! Não me tira daqui, por favor!

-Ai.. eu não vou ficar aqui vendo esse drama.. Toma o dinheiro, caso pensem que eu fiz um escândalo pra não pagar. Vamos, Bill.

 Voltei para dentro do carro e finalmente saímos dali, mas antes olhei para trás e vi o cara enxotando a menina, e claro, guardando para si o bom dinheiro que eu dei. Virei minha cabeça para frente e, com uma toalha tentei me secar, mas é óbvio que minha aparência está decadente.

-Como pode, Bill? Essa menina parece um demônio! -Bill permaneceu calado e eu sei que quando ele não dá palpite é porque discorda de alguma coisa - Qual foi, Bill? Acha que eu estou errado?

-Posso ser sincero? O senhor exagerou sim.

-Está brincando, né? - ri - Olha o jeito que ela me deixou ainda mais agora que estou indo trabalhar!

-Eu sei, Sr. Jackson, mas a menina não teve culpa. Você abriu a janela de surpresa, como ela saberia?

-Só o que  faltava meu próprio motorista contra mim!

-Por favor, Sr. Jackson, não me interprete mal. Eu fiquei penalizado, afinal ela agora perdeu o trabalho. - eu detesto quando me faltam argumentos e minha única opção foi a de me calar

(...)

    Não sei como consegui chegar a tempo e também não sei como consegui dar andamento à audiência. Espantosamente deu tudo certo e amanhã mesmo o Juiz do caso dará a sentença.
 Era para eu estar me sentindo satisfeito com meu desempenho e sair para comemorar, mas o incidente ocorrido nessa manhã não me deixava em paz. Como eu poderia comemorar tranquilamente sendo que por minha causa aquela menina perdeu o emprego, se é que lavar carros no sinal é um emprego fixo. 
  Terminei meu banho e pretendia me jogar na cama, ouvir uma boa música e tentar descansar, mas definitivamente eu não conseguiria.  Me levantei da cama e me encostei na janela, observando a ventania anunciar o temporal que estava previsto para cair desde o início da semana. E por um momento a imagem daquela garota veio à minha cabeça. 
 Eu sei que fui longe demais em exigir a demissão dela e que provavelmente ela se dará muito mal sem os trocados que recebia. Decidi então deixar minha soberba de lado e cometer outra loucura: voltar ao mesmo lugar de hoje cedo. Eu só quero saber se a menina está bem, para aí sim esquecer esse episódio e poder ter paz de espírito, se é que isso existe.
    Troquei de roupa rapidamente, peguei a chave do carro e segui para o centro da cidade. Eram 22:00 horas e a rua estava movimentada. A chuva ainda ameaçava cair e as pessoas corriam atrás de abrigo para se esconder.
 Estacionei o carro no mesmo lugar onde ocorreu a confusão. Reparei em vários flanelinhas e quando um deles se aproximou, tive a ideia de perguntar pela menina.

-E aí tio, quer que eu dê uma geral no seu carro? - o rapaz que devia ter uns treze anos abriu um enorme sorriso quando me viu

   Era triste ver esse tipo de situação, esse garoto deveria estar em casa e não trabalhando à essa hora da noite. E saber que eu tirei o "bico" de uma pessoa nessas mesmas condições me deixou com a consciência ainda mais pesada.

-Eu preciso de uma informação, você pode me ajudar?

-Claro! O que o senhor manda?

-Você conhece uma garota...Hmm.. mais ou menos do seu tamanho, branquela e.. ruiva..?

-Tá falando da Joy?

-Isso! Me lembrei do nome dela. Então você a conhece?

-Lógico que eu conheço! - ele sorriu - Ela é amiga da gente tudo, só que ela não pode mais ficar aqui. O nosso patrão mandou ela dar o pé!

-É e eu imagino o porquê.. - murmurei - Você sabe onde posso encontrá-la?

-Sei sim. Ela tava dormindo numa pensão que tem aqui perto, é só o senhor virar a rua que acha.

-Oh sim, muito obrigado.

-Mas se eu fosse o senhor não ia lá agora não. Essa hora é perigosa, vão acabar te assaltando!

-Não se preocupe, vou me cuidar. - sorri em agradecimento. O menino assentiu e já estava se afastando quando o chamei - Hey, venha aqui.

-Senhor?

-Qual o seu nome?

-Jacob.

-Certo, Jacob. Vá para casa, a chuva vai vir com tudo. - Jacob riu, dando de ombros

-Ih moço, aqui a gente já tá acostumado! E também não posso perder grana não! - tirei uma nota de cinquenta dólares da carteira e estendi para ele. Os olhos do menino se arregalaram no mesmo instante

-Tome aqui. Mas é pra ir pra casa, ouviu? E não dê esse dinheiro para ninguém. Ele é seu.

-Nossa, moço.. Valeu mesmo! Que Deus te pague! - o menino apertou minha mão com força e saiu serelepe pela rua

 Encostei o carro na esquina e saí levando comigo um guarda-chuva, pois a tempestade já estava forte. Ao virar a esquina me deparo com um precário prédio de três andares que indicava ser a pensão. Me aproximei para mais perto ao ouvir duas vozes e uma delas reconheci ser da Joy.

-Se não tem grana pra diária, pode dar o fora, bonitinha. Ao não ser que me pague de outra forma.. - o homem a olhou maliciosamente, o que me fez sentir asco. Permaneci quieto escutando a conversa

-Prefiro mil vezes dormir na rua do que me prestar à isso. Eu não sou nenhuma prostituta, se é isso que está pensando! - ela correu tão depressa que nem notou a minha presença

 Ela não carregava nada consigo e vê-la daquele jeito, correndo pela chuva e provavelmente sem ter para onde ir, apertou meu peito. Novamente um episódio que me faz pensar que ainda tenho um coração dentro de mim..
 Eu não ia perdê-la de vista novamente, então mais que depressa corri atrás dela e por fim tive coragem de chamar por seu nome.

-Joy, espera! - ela parou de correr e se virou para trás

-O que está fazendo aqui? - ela parecia amedrontada ao me reconhecer. Me aproximei um pouco mais e ela rapidamente se afastou

-Eu não vim te fazer mal, caso esteja achando..

-E você quer que eu acredite? Moço, eu já pedi desculpa.. Olha, eu juro que vou dar um jeito de pagar pelo prejuízo que te dei, mas por favor não faça nada comigo, por favor!

 Eu fiquei completamente sem ação ao vê-la chorar na minha frente, implorando para que eu não a machucasse. Ela estava tremendo de frio, parecia um animalzinho indefeso e visivelmente judiado. Eu não pensei em mais nada, ao não ser em tirá-la dessa chuva e desse estado em que se encontra.

-Você vai vir comigo. - Joy me olhou sem entender e claro, ainda mais assustada

-O que? O que você vai fazer comigo? 

 Se ela continuasse gritando, logo a polícia ia aparecer e eu seria acusado de abusá-la, então não tive outra escolha ao não ser tampar a boca dela.

-Fica quieta, eu não vou fazer nada com 
você! 

   Aos poucos ela foi se acalmando e pra minha surpresa ela se desfaleceu em meus braços. Estava ainda mais pálida e eu também pude reparar na sua excessiva magreza, provavelmente por estar há horas ou até mesmo, há dias sem comer. Seus lábios estavam roxos e sua pele, gélida.
 Aninhei seu corpo em meu colo e a levei imediatamente para o meu carro. Com muito cuidado a deitei no banco do carona e usei meu paletó para aquecê-la. Eu não tinha dúvidas nenhuma de que cuidaria dessa garota, e eu não a levaria para outro lugar que não fosse pra minha casa.

Capítulo 9
Michael


    Joy gemia e se contorcia de frio e essa situação já me deixava aflito. Eu nunca lidei com isso e na verdade nem sei porquê estou levando uma pessoa que eu nem conheço para o meu próprio teto. Mas é fato que assim que ela melhorar eu darei um dinheiro para que ela possa encontrar um lugar pra ficar. 
    Assim que parei o carro na garagem gritei por Bill e Remy, que logo vieram assustados ver do que se tratava.

-Sr. Jackson, está tudo bem? - Bill acendeu a luz e ao olhar para Joy no meu colo, sua voz sumiu

-Sem perguntas. Apenas me ajudem a levá-la pra casa.

-Michael,quem é essa garota? - foi a vez de Remy me olhar assustada

-Depois explico. Agora será que podem me ajudar?

- Ela está tremendo de frio! Claro, menino.. Vou preparar um banho quente antes que ela piore!

(...)

    Remy e as outras empregadas encarregaram-se de dar banho em Joy e de ceder uma muda de roupas para ela vestir. Preferi ficar na sala enquanto elas estavam no meu quarto. Sim, tive outra ideia idiota de levá-la para o meu quarto, mas ela precisava usar a banheira, então não tive outra escolha. 
Abandonei o copo de Whisky em cima do balcão ao ver Remy descer a escada carregando consigo as roupas molhadas de Joy.

-Vou por pra secar, amanhã já estará pronta para ela usar.

-E como, como a menina está?

-Muito fraca, coitadinha.. Por que não vai ficar com ela um pouco? - engoli seco

-Eu?

-Sim, afinal é você quem a trouxe pra cá.. As meninas têm que dormir, Michael. Mas não se preocupe, eu continuarei ajudando. Vou preparar uma sopa, ela precisa se alimentar.

-Claro, você está certa. Peça para o Bill e as meninas irem dormir. Eu, eu vou ver como ela está..

    Eu ainda estava inconformado de ter que ceder meu quarto para uma estranha. Já estava certo de que pediria para Remy preparar o quarto de hóspedes para Joy dormir, mas vê-la deitada na cama, com o corpo encolhido, me fez deixar o egoísmo de lado. 
   Me aproximei da cama e percebi que ela ainda tremia. O rosto agora estava vermelho e ao tocar sua testa, notei que estava pelando de tão quente.

-Está com febre.. - concluí. Retirei da gaveta um termômetro e coloquei por baixo do seu braço. Ela gemeu com o contato frio - Está tudo bem, tudo bem.. - acariciei sua bochecha, mas logo fui despertado pelo apito do termômetro

-Precisa acordá-la para comer..

-Ela está com 39 graus. Temos que chamar um médico!

-Eu pensei nisso e até telefonei para o seu médico, mas o temporal está muito forte, as ruas praticamente bloqueadas.

-O que vamos fazer? Ela está queimando de febre!

-Não se preocupe, Michael. Vou pegar minha maleta de remédios e você fará um favor pra mim.

-Pode falar.

-Pegue uma bacia, encha com água e traga também uma toalha. A compressa de água fria vai aliviar a febre.

-Certo, eu já volto. - rapidamente fui à cozinha e trouxe o que Remy me pediu. Enchi a bacia com água, mas eu estava tão nervoso que deixei metade cair no chão

-Obrigada. Agora sente-se perto dela e coloque a toalha na testa.

-Eu? Por que eu tenho que fazer isso?

-Michael, qual o problema? Tenha compaixão com a garota! - Remy me repreendeu

-Tá.. Me dê a toalha. - me sentei ao lado de Joy para fazer as compressas

  Parecia que eu era um enfermeiro que estava cuidando de uma criança. A que ponto eu cheguei? Tá, não é tão ruim assim fazer uma caridade, tanto que depois de um tempo eu já estava mais a vontade com a situação, principalmente depois de ver que os tremores em seu corpo estavam diminuindo.

-Acha que a febre está abaixando? - perguntei

- O remédio deve estar fazendo efeito. A temperatura caiu para 38 graus. Acho que ela está acordando!

-O que? - olhei para Joy e percebi que ela tentava abrir os olhos - Consegue falar? - perguntei

-Hmm.. - ela apenas gemeu em resposta. Ainda estava muito fraca e debilitada 

-Remy, pode ir dormir. Qualquer coisa eu te chamo.

-Mas ela ainda precisa de cuidados.

-Remy, são quase três da manhã. Vá descansar, eu cuido dela. Vou esquentar a sopa e tentar fazê-la comer. Ela não pode ficar mais tempo com a barriga vazia.

-Tudo bem, mas me chame se precisar! Boa noite.

-Boa noite, Remy..

   Voltei para o quarto com a bandeja em mãos, disposto a fazer com que ela coma pelo menos um pouco. Como eu farei isso não sei, já que ela está dormindo. Deixei a bandeja ao seu lado e me sentei. Eu não sei ao certo o que fazer para ela acordar. 
  Felizmente ela se remexeu e pra minha desgraça, seu pé esbarrou no copo de suco, derramando no meu colchão.

-Aah não.. No meu colchão já é demais, Senhor! - choraminguei

   Eu detesto que sujem minhas coisas, ainda mais o lençol branquíssimo em que durmo! Posso ser fresco sim, mas antes ser obcecado por limpeza do que ser um porco. Urgh, essa garota tem o dom de me enfezar até quando está dormindo!
    Travei uma luta com o pano na tentativa de limpar a sujeira até que me deparo com Joy me olhando com um ponto de interrogação. Depois do silêncio incômodo, pigarreei para quebrar o clima entre nós.

-É.. Não, não liga pra isso.. - apontei para o lençol molhado. Ela continuou com os olhos fixos em mim, provavelmente sem ter noção de onde está - Você precisa.. precisa comer. - levei a bandeja para o seu colo, mas antes disso ela se afastou

-Eu não vou comer isso não! - ela praticamente gritou. Revirei meus olhos diante de sua birra

-Ah não vai, não? - ela negou, balançando a cabeça

  Ótimo, além de irritante ela é teimosa e birrenta! Eu sinceramente espero que depois dessa dor de cabeça eu tenha um terreno reservado no Céu após a minha morte!

Capítulo 10

Joy


   Parece que eu acordei dentro de um pesadelo. Em um momento eu estava na chuva discutindo com aquele moço e agora acordo em um quarto e adivinha com quem? O mesmo rapaz. Ele só pode ter me apagado e me sequestrado para se vingar de mim. Não tem outra explicação!

-Será que dá pra explicar o que eu tô fazendo aqui? -exigi

-Ah.. a mocinha não se lembra do que eu fiz por você?

-Você me sequestrou, não é? Isso aqui é um cativeiro! Eu vou vazar daqui agora.. - tentei me levantar da cama, mas senti uma forte tontura. O homem me segurou na mesma hora, me deitando na cama novamente

-Para de ser teimosa, você ainda está doente!

-Você me drogou! Eu já vi isso num filme. - ele riu, zombando da minha cara

-Que imaginação fértil você tem.. Por acaso eu pareço um sequestrador?

    Não, ele não tem cara de sequestrador. Na verdade ele é o homem mais lindo que eu já vi na vida, apesar da carranca no rosto. O que tem de bonito tem de rabugento. Parece que vive de cara amarrada..

-Sua aparência não é das melhores.. - ele arregalou os olhos, piscando algumas vezes

-O que disse?

-Ah quer que eu diga que você tem a cara simpática? Parece que tá sempre chupando limão!

-Você é muito grossa sabia? E não é "cara" que se diz, é rosto, face..

-Que seja. Será que eu posso ir embora? - pedi, impaciente. Ele ignorou minha pergunta, encaixando a bandeja de sopa no meu colo

-Coma. - ordenou

-Eu já disse que não vou por a boca nessa coisa! Você pode muito bem ter colocado veneno aí!

-E por que diabos eu faria isso? - ele cruzou os braços - Se eu fosse te matar não seria no meu quarto, não acha?

-Aah então você tem essa intenção! - apontei meu dedo

-Quer parar com isso? Mas que coisa! - ele gritou, perdendo o pouco da paciência que ele tem - Não tem porcaria de veneno nenhum!

-Então tome você.

-Mas o quê?

-Tome. Se não tem nada aí, qual o problema de tomar? - ele fechou os olhos, respirou fundo e pegou a colher, levando-a à boca

- Satisfeita? - ele sorriu sem vontade. Abaixei minha cabeça e pude ver ele bufar -Vou buscar o suco que você fez questão de derrubar.

    Assim que ele saiu do quarto eu consegui respirar aliviada. Poxa, eu só estou sendo precavida. Eu não conheço esse homem e ele também não me conhece, fora que todas as vezes em que nos vimos só faltou sair porrada. Nem morta que vou confiar nesse cara arrogante e metido, mas se ele estiver realmente me ajudando, eu estaria sendo uma grande mal agradecida.
    Não demorou muito para ele voltar para o quarto. Dessa vez ele se sentou na cama em silêncio, me observando de soslaio. Tentei me concentrar na colher, mas eu me sentia fraca demais para levá-la à minha boca.

-Deixe que eu te ajudo. - ele se aproximou de mim e tomou a colher da minha mão

-Qual o seu nome? - me vi perguntar baixinho. Eu estava extremamente desconfortável nessa situação

-Michael. - ele respondeu com a voz mansa, concentrado em levar a colher à minha boca

-Me desculpe pela cena. É difícil pra mim confiar em qualquer um..

-Eu entendo. No seu lugar faria o mesmo, claro, com mais elegância. - ignorei sua alfinetada. Eu não ia dar mais motivos para uma discussão -O seu nome é mesmo Joy?

-Aham. - menti. Ele pode estar sendo amigável, mas eu ainda tenho meus dois pés atrás com ele

-Ninguém se chama Joy! - ele riu em deboche

-E por que não?

-Joy não é nome de gente, no mínimo se dá a um cachorro.

-Ah e Michael é muito lindo, né? É nome de anjo e você definitivamente não é um. - o vi controlar a respiração novamente, tentando se manter calmo

-Quantos anos você tem?

-19. - ele me olhou espantado com a minha resposta

-Você só tem 19 anos?

-Sim, e daí? E você, quantos anos tem?

-É deselegante perguntar a idade de uma pessoa.

-E por que perguntou a minha? - rebati

-É diferente, você é jovem.

-E você é velho por acaso? - ele se calou - Você tem mais de quarenta?

-Fica quieta, vai acabar queimando a língua! - Michael passou o guardanapo no cantinho dos meus lábios

-Eu não quero mais..

-Só mais um pouco. Está quase acabando. - fechei minha boca, impedindo-o de continuar - Joy!

-Se eu comer mais vou vomitar na sua cama. É isso que você quer? - Michael rapidamente tirou o prato da minha frente

-É melhor dormir agora. São quase quatro da manhã.

-Foi mal te fazer ficar pregado até agora..

-Pregado?

-Acordado. - corrigi

-Me lembre de comprar um dicionário de palavras do gueto. - Michael se levantou com a bandeja em mãos, mas antes ele se certificou de que eu estava bem - Boa noite, Joy.

-Pra você também. - eu me sentia tão cansada que não conseguia nem raciocinar

  Na verdade acho que estou em choque. Das ruas imundas eu vim parar num lugar como esse. E eu não vejo a hora de amanhecer para eu poder sumir daqui. Esse Michael parece doido e já basta de malucos na minha vida.

(...)

-Bom dia! - abri meus olhos e me deparei com uma senhora sorridente olhando pra mim - Se sente melhor?

-Acho que sim.. Que horas são?

- São 11:00 horas. Até que você não dormiu muito. - maneei minha cabeça à procura de Michael, mas ele mesmo não estava lá

-Cadê aquele chato? Digo, o Michael.

-Ele está na biblioteca desde bem cedo. Aos sábados ele trabalha em casa.

-Esse homem não dorme? - perguntei chocada

-Michael nunca foi de dormir muito. Dorme tarde e acorda mais cedo ainda.

-Por isso ele é tão mal humorado? - ela riu

-Ele é um bom homem.. Seu nome é Joy, certo?

-Isso. E você? Quer dizer, a senhora.

-Pode me chamar de "você". Eu me chamo Remy. Trabalho para o Michael há quase vinte anos.

-Caramba, isso é a minha idade! - ela riu novamente

-Aqui estão suas roupas sequinhas. Se quiser vestir..

-Ah valeu! Vou me trocar e dar o pé! - ri. Vesti minha velha bermuda jeans e a surrada camiseta branca - Brigadão mesmo por tudo aí, mas eu tenho que voltar pro batente!

-Você não vai a lugar nenhum. - escutei a voz séria de Michael - Remy, me deixe a sós com ela.

-Sim, senhor. - Michael permanecia parado, com a mão no queixo e os olhos fixos em mim

-Posso saber por que eu não posso ir embora?

-Ainda não está curada do resfriado. Precisa de cuidados.

-Falou.. Eu passo no posto de saúde e tomo um soro, beleza? - passei por Michael, mas ele me impediu, segurando meu braço

-Você não vai sair daqui. Qual a parte que você não entendeu? - seu tom de voz estava ainda mais sério do que ontem, e seu olhar, desafiador

Sério que eu vou ter que aguentar esse grosseirão pegando no meu pé? Ele não me suporta, que diabos eu vou continuar fazendo aqui?

Capítulo 11

Michael


-Ainda não entendeu ou quer que eu desenhe? - perguntei novamente após seu silêncio

-Você não manda em mim! Olha cara, eu sou muito agradecida pelo o que fez comigo, mas já deu! Eu me sinto ótima, não tem porquê continuar aqui!

-Tão escandalosa.. - revirei os olhos, me sentindo exausto  dessa ladainha

  Eu devia deixar ela ir embora, assim ficaria longe dessa irritação. Esse jeito impetuoso e valente dessa mocinha simplesmente me enfurece. Ela pensa que é quem pra me peitar?  

-Que foi? Não me escutou? - ela cruzou os braços enquanto batia o pé, impaciente. Decidi ignorar mais essa birra

-Quer telefonar pra alguém, querida?

-Sim. Pra polícia! Isso aqui é um sequestro, sabia?

-Você sabe que está falando isso para um homem que estudou direito, né? - ri em deboche

-Eu não sei o que é isso, mas eu vou dar o fora daqui!

-Quer saber? Então vai! - gritei perdendo o que restava da minha paciência. Se ela não quer minha ajuda, que se foda então!

-Ótimo, foi a melhor coisa que você disse até agora!

 Joy passou por mim feito um furacão, aumentando ainda mais minha raiva. Essa garota é uma selvagem, uma sem educação e desbocada! Sorte minha dela estar saindo da minha casa, pois não iria demorar muito para que me deixasse de cabelos brancos!
  Pelo menos agora consigo respirar aliviado. Minha casa voltou à sua normalidade e meu quarto voltará a ser meu. Com um sorriso tranquilo, desço a escada, mas logo vejo Remy se aproximar de mim.

-Michael, você mandou a menina ir embora?

-Foi decisão dela. O que queria que eu fizesse?

-Michael, ela ainda está fraca, além do mais dá pra ver que ela precisa de ajuda.

 Urgh! Remy sempre consegue me convencer de alguma coisa. Mesmo me sentindo contrariado, ela está certa. Apesar de não suportar Joy, eu sei que ela não pode ficar sozinha e blá blá blá.. Só preciso usar meu lado paciente e educado para convencê-la de ficar.
Joy


   Liberdade! Finalmente estou livre dessa casa! Quer dizer, isso não é uma casa. Agora sim posso ver com calma onde estou. Esse lugar é enorme, tem árvores e jardins por todos lados que eu não sei onde começa e nem onde termina. Mas apesar de parecer um paraíso, eu não fico aqui nem mais um minuto.
  Depois de uma longa caminhada consegui chegar ao portão de saída. O problema é que nem ao menos sei em que canto da cidade eu fui parar, mas tudo bem, eu arrumo um jeito.

-Bom dia, moço! - cumprimentei o grandalhão vestido de terno - Você pode abrir pra mim, por favor?

-Não tenho autorização, senhorita. São ordens do Sr. Jackson.

-Tá tirando com a minha cara, né? - me viro para trás e me deparo com um carrinho de golfe se aproximando e quem é que está dirigindo?

-E por que faríamos isso? - Michael deu um sorriso torto, tirando os óculos escuros. Ele usava um chapéu preto e os longos cachos presos em um rabo de cavalo. 

Caramba..

-Deus, me dê paciência.. Tu não disse pra eu vazar, cara?

-Disse, mas mudei de ideia. Você não tem condições de ir embora, pelo menos não agora.

-Eu já disse que sei me virar!

-É mesmo? E como, se não tem dinheiro, não tem família e nem onde cair morta?

 Eu não tinha mais argumentos depois disso, afinal ele disse a mais pura verdade. Infernos, a minha voz simplesmente sumiu e senti meus olhos se encherem de lágrimas.

-Não precisa me lembrar disso, tá legal? - falei tão baixo que nem mesmo eu consegui ouvir. Michael notou minha reação e se calou, vindo até mim em seguida

-Me desculpe, Joy. Eu.. eu falei por alto. Só queria te mostrar que aqui você estará melhor do que lá fora. - foi a primeira vez que ouvi sua voz soar carinhosa e por um momento vi sinceridade em seu olhar

-Eu te agradeço de verdade, mas você não me conhece. - enxuguei meus olhos rapidamente - Eu não posso ficar aqui, isso é loucura. Eu sei que se culpa por eu ter perdido o trabalho, mas eu te garanto que vou ficar bem. - sorri, tentando transmitir uma confiança que nem mesmo eu sinto

-Eu sou muito insistente, sabe? - ele fez um biquinho engraçado e eu me peguei sorrindo para Michael - Podemos ficar aqui até o anoitecer, mas saiba que eu consigo tudo que eu quero.

-E o que você quer de mim?

-Te ajudar. É só o que eu quero. - respirei fundo e fechei meus olhos 
 
  Eu não posso ser orgulhosa, ainda mais agora que estou grávida. Tenho que pensar no meu filho e no que é melhor pra ele. E por isso decidi que vou aceitar a ajuda de Michael.

-Tudo bem, mas com uma condição.

-E qual seria?

-Eu aceito ficar desde que eu pague por isso.

-Eu não entendi..

-Eu não vou aceitar sua ajuda de graça. Quero retribuir de alguma forma, ajudar na limpeza..

-Joy, eu não quero nada em troca! - ele riu

-Mas é a minha condição. Acha mesmo que vou ficar aqui de bobeira?

-Ok.. - Michael começou a andar de um lado para o outro até olhar pra mim novamente - Eu também tenho uma condição.

-Que? - foi a minha vez de rir

-Que mal lhe pergunte, você fez o ensino médio?

-Que nada! - ri - Parei no fundamental mesmo. Eu tinha que ajudar em casa, então acabei saindo da escola.

-Uhum.. Joy, parece que vai chover. Vamos pra casa, tudo bem?

-Você tá me enrolando? - Michael deu uma risada divertida, como sempre em deboche com a minha pessoa

-Não, só estou sendo precavido. Vamos, temos que continuar a conversa..

(...)

-Então, o que você lembra da época que estudava? - Michael me ajudou a sair do carrinho e confesso que ele até que foi um pouco gentil comigo

-Posso ser sincera? A única coisa que eu gostava era da merenda. Eu ia mesmo só pa comer.

-Pra.

-O que?

-Não se diz "pa" e sim pra ou para. Ok? - sério que ele está chamando minha atenção?

-Desculpa, saiu sem querer..

-Não me leve a mal, só quero te ensinar a falar certo. E.. isso tem muito a ver com minha proposta.

-Tem é? Desembucha, homem! - Michael arregalou os olhos. Me esqueci que estou falando com um caretão que não entende nada de gírias..

-Vou te ensinar tudo o que deveria ter aprendido na escola. Você vai aprender a ler, falar e escrever corretamente. E aprenderá boas maneiras também, principalmente!

-Você vai me ensinar? Tipo, ser meu professor? - por essa eu não esperava - Mas eu sou burra, cara.. Vai perder seu tempo, viu?

-Você não é burra, Joy. É ignorante, mas podemos reverter isso.. E então, você topa?

-Ah eu tô nessa! Conta comigo, colega! - puxei sua mão para apertá-la e ele, obviamente, me olhou assustado. Esse homem vive em que mundo?

 Pera aí, tem alguma coisa muito estranha rolando aqui. Ou eu estou louca ou Michael enlouqueceu. Estávamos ferrados numa briga e de repente estamos rindo e conversando sem trocar uma ofensa. Será que eu fiz certo em aceitar sua proposta ou estou caçando mais uma encrenca na minha vida?

Capítulo 12

Joy


     Depois de finalmente acertarmos nosso acordo, Michael fez questão de me levar para conhecer cada canto do seu palácio. Digo isso, pois o lugar é imenso! Só o primeiro andar cobre todo o meu bairro. Mas não foi só isso que eu notei. A decoração é linda, chique, mas pra mim parece um museu ou até mesmo um mausoléu.
     Poxa, é um desperdício deixar uma casa tão linda nessa deprê. A sala não vê a luz do dia, os móveis são escuros com uma estrutura vampiresca. É, eu li essa palavra numa revista e nunca mais parei de falar! 
   Enfim, dizem que a decoração de uma casa reflete muito a personalidade do dono, e pra mim, esse cara é muito sombrio. Ele não me olha nos olhos quando conversa, isso quando ele fala alguma coisa que não seja o necessário.

-Agora vou te mostrar o segundo andar. Vem comigo.

-Pera aí, tem mais coisa?

-Sim, tem mais cômodos. - disse me corrigindo

-Mas tipo.. mora um batalhão de gente aqui né? - Michael me olhou horrorizado com meu comentário

-Não, eu moro sozinho. - respondeu brevemente, sem dar continuidade ao assunto

-Mas por que? Filho de chocadeira você não é!

-Joy! - gritou, me repreendendo

-Escapuliu, foi mal.. - ergui as mãos em sinal de paz - Mas sério que você vive sozinho nesse castelo?

-Castelo? - Michael indagou, despontando um leve sorriso em seus lábios

-Que nem nos filmes da Disney. É igualzinho o castelo da Fera.

-Que Fera, garota?

-Da Bela e a Fera! Você nunca assistiu? - Michael fez uma cara de tipo "Sério que você perguntou isso pra mim?"

-O que você acha? Mas sim, eu já ouvi falar dessa baboseira.

-Não é baboseira nenhuma! É uma linda estória de amor entre um monstro e uma jovem garota. É meu conto de fadas favorito.

-É mesmo? Então me conte melhor essa estória.

-Tá legal, senta aí! - me sentei no degrau da escada e Michael, contrariado, também se sentou ao meu lado - O pai da Bela teve que entregar a filha para o monstro, em troca da vida dele. Então a Fera aprisiona ela no seu Castelo, mas aos poucos ele vai se tornando amável e sensível..

-E num passe de mágica ele deixa de ser monstro? - Michael zombou

-Não é assim! Depois que a Bela vai embora pra visitar a família, ele percebe o quanto a ama e o coitadinho quase morre de amor! E então ela também descobre que o ama e volta pro castelo decidida a se casar com ele. Aí sim a Fera se transforma em um lindo rapaz, quebrando o feitiço. O amor transforma ele de um monstro insensível à um verdadeiro príncipe. - suspirei ao me lembrar das vezes que minha madrinha lia para mim

-Comovente.. - Michael fechou os olhos, claro, debochando de mim. Encarei seu rosto e ri da constatação que fiz - Do que está rindo?

-Você é a Fera! - Michael abriu os olhos, me encarando sem entender

-O que?

-Você é a Fera! Pensa bem, você mora num palácio, é sozinho e me desculpa falar, mas é um Ogro!

-Não precisa se desculpar, não é a primeira a dizer isso.. - ele riu timidamente

-Mas assim como a Fera, eu tenho certeza que você vai se transformar! Escuta só o que tô falando..

-Hm.. Então quer dizer que uma "Bela" vai aparecer na minha vida?

-Mas é claro que vai, homem! Além do mais você não é nenhum idoso. - Michael riu

-39.

-O que?

-Eu tenho 39 anos, prestes a fazer 40. - Michael batucava os joelhos com dos dedos, como se estivesse envergonhado

-Ah.. sério que tava com vergonha de me contar? Você é um coroa, o que tem de mais nisso?

-Oh, muito obrigado pelo "coroa", não sabe como foi reconfortante! - foi a minha vez de rir

-Tá, já que você revelou seu segredinho, vou mandar essa então. 

-O que? Vai revelar sua verdadeira idade? Tem 15 anos? - disse, como sempre querendo zombar de mim

-É sobre meu nome, caramba! - Michael gargalhou

-Eu sabia!! - gritou - Seu nome deve ser medonho pra você ter escondido de mim!

-Maria da Luz. - Michael abriu a boca, mas sem emitir nenhum som

-Sério?

-Aham.. Mas é isso que tu disse mermo.. Eu detesto esse nome! - Michael riu

-Na próxima vez, diga "mesmo", ok? - revirei meus olhos e assenti - E a propósito, é um nome muito bonito.

-Fala sério!

-Falo seríssimo, Maria da Luz. - eu devo ter fuzilado-o com os olhos - Se vai se tornar uma mulher estudada, fina e madura, tem que aprender a usar o seu nome de batismo. E Maria da Luz é mais elegante que Joy.

-Tudo bem, Fera. Se você quer assim..

-Do que me chamou?

-De Fera. Se quer me chamar de Maria da Luz, vai ter que me aturar te chamando assim..

-Ótimo! - ele riu - Serei insultado na minha própria casa.. Vem, vamos subir. Vou te mostrar seu quarto.

-Mas pra que subir? Eu já vi onde vou dormir. - Michael se levantou e me encarou, com as mãos na cintura

-De onde tirou isso, menina?

-Ué, eu vi o quarto que a Remy dorme. E ó, achei um brinco! - beijei a ponta dos meus dedos, tirando uma risada de Michael

-Você não vai dormir no quarto de empregada, Maria. Vai dormir comigo lá em cima. - arregalei meus olhos e Michael percebeu seu equívoco - Não, não.. Não é o que está pensando! Eu quis dizer que você vai dormir no segundo andar, onde ficam os quartos para hóspedes.

-Ah sim.. O que é hóspedes?

-São as visitas que se hospedam na casa de alguém ou em um hotel.

-Ajudou muito.. - murmurei. Michael me deu a mão para eu levantar e me levou ao andar dos quartos

   Eram tantas portas que eu até perdi a conta. Caminhamos por um corredor que parecia não ter fim, e eu ficava atenta a cada detalhe da decoração, que era tão bizarra quanto o andar de baixo. Michael indicou a porta que eu deveria abrir e eu quase caio pra trás ao me deparar com a imagem a minha frente. Parecia um verdadeiro quarto de princesa.

-Pedi que Remy o arrumasse enquanto eu te mostrava o restante da casa.. - Michael explicou - Espero que esteja ao seu agrado.

-Tá brincando, né Fera? - saí correndo pelo quarto, querendo saber onde começava e onde terminava o espaço

   Era muito, muito grande. E o que mais encantou foram os bibelôs. Ursos de pelúcia enfeitavam as prateleiras, o que me deixou completamente apaixonada. Eu amo ursos e desde que me lembro, minha madrinha lotava meu quarto com essas fofuras de todos os tamanhos.

-Pelo que eu vejo você gostou.. - Michael comentou, novamente com um sorriso lindo estampado no rosto

-Eu nunca vi uma coisa tão linda em toda minha! - eu estava embasbacada, era nítido - Nossa, muito obrigada, de verdade!

-É tudo seu. Principalmente a cama. - ele apontou para ela, pois eu nem mesma tinha percebido

-Porra! Ai desculpa.. - tampei minha boca com as mãos - É enorme, Sr. Jackson. Posso sentar?

-Mas é claro, Maria! Que pergunta.. Vai lá, vê se está macia.

-Tá bom. - nossa.. A cama parecia uma nuvem de tão macia. Me sentei confortavelmente e me atrevi a dar uns pulinhos - Caaaraa!! - gritei - Vem, vem cá. Sente isso!

-Nossa, essa cama deve ser coisa de outro mundo! - Michael se sentou ao meu lado, sorrindo e fitando o chão - Fico feliz por vê-la animada.

-Cê não tem.. - Michael arqueou a sobrancelha - Tá.. Você não tem noção de como está sendo bacana comigo!

-Imagina. - Michael escondeu o sorriso, pigarreou e se levantou - Eu preciso resolver uns assuntos. Fique a vontade e pelo amor de Deus, se comporte.

-Acha que eu vou fazer o que? Por fogo na sua casa?

-Isso é bem provável. Aproveite seu novo quarto. Nos vemos mais tarde, Maria.

-Nos vemos mais tarde, Fera. - Michael maneou a cabeça, revirando os olhos e saiu do quarto

-Gente, que loucura! - me deitei na cama e rodeei meus olhos ao redor do quarto. Abri um largo sorriso ao tocar minha barriga - Olha só onde fomos parar, meu filho.. Se você tivesse aqui estaria com o queixo caído que nem sua mãe! Só quero ver a cara da Fera quando souber que você existe.. É melhor eu ficar de bico fechadinho, pelo menos por enquanto. Depois que eu conseguir um emprego a gente conta. É segredinho nosso, hein?

   Continuei acariciando minha barriga, tentando adivinhar como será o rostinho do meu bebê quando nascer. Também é impossível não lembrar de Kevin. Apesar dele ser um desgraçado, eu sinto tanta falta dele.. Será que um dia vou encontrar alguém que me faça esquecer ele e tudo de ruim que fez comigo e com o nosso filho?

Capítulo 13

Joy


  Ficar sozinha nesse quarto me fez finalmente refletir sobre o que tem acontecido comigo e devo dizer que depois de tanto sofrimento eu sou uma grande sortuda por ter encontrado o Michael. Ele está sendo um verdadeiro anjo, que nem esses que tem asas e tudo.

-Caramba.. Eu vou ficar o dia todo aqui? - resmunguei. Eu não estou acostumada a ficar parada, mas eu não tenho coragem de por os pés pra fora do quarto - O que eu vou fazer agora, hein? - sobressaltei ao ouvir batidas na porta

-Posso entrar, Maria da Luz? - suspirei aliviada ao ver Remy

-Claro, mulher! Mas por favor, me chame de Joy. Tenho certeza que o Sr. Jackson mandou você me chamar assim..

-Mas qual o problema? É um nome lindo.. Você conhece o significado?

-Não senhora.. Me fala aí! - Remy riu e se sentou a meu lado

-Bem, a origem do nome Maria da Luz é Hebraico. Significa senhora soberana, pura e vidente. E geralmente quem recebe esse nome é uma pessoa amável, carinhosa, humana e que tem uma grande necessidade de se doar ao próximo, estando sempre disposta a ajudar as pessoas que ama.

-Sério? - abri minha boca em um O. Eu nunca soube disso, e agora até que começo a achá-lo bonito..

-É sério sim, querida.. Não precisa mais ter vergonha, ok? Agora vem almoçar.

-Ai eu quero sim! Minha barriga tá gritando aqui!

-Oh então vamos logo! Você está muito magrinha, filha.. - Remy pegou na minha mão e me acompanhou até a sala de jantar

-Ué, cadê o Michael? - estranhei, pois não o vi em nenhum lugar

-Ele não vai almoçar em casa, tem um compromisso importante.

-Ah sim.. Mas pera aí, eu vou comer sozinha nessa mesona enorme? Não não não, vamos pra cozinha!

-Mas são ordens do Sr. Jackson..

-Deixa disso, mulher! E desde quando eu acato ordem de alguém? - Remy riu

-Você é durona, hein? Tudo bem, vamos pra cozinha, mas é só hoje, ok? Se o Michael souber, vai brigar comigo!

-Xá comigo, Remy!

(...)

-Cacetada! Vocês têm mãos de fada, que isso! - eu já estava no segundo prato, pois realmente a comida estava maravilhosa

-Obrigada, querida. Você quer mais? 

-Mas é claro! Pode lotar que nem de pedreiro. - Remy levou meu prato e eu aproveitei para matar algumas curiosidades - Remy, vem cá.. O Michael não tem família não?

-Ele tem sim. A mãe e uma irmã caçula, ela é só um pouquinho mais velha que você. Mas são mulheres maravilhosas!

-Show.. Mas porque elas não moram aqui?

-Depois que o pai deles morreu, elas se mudaram para Moscou, mas o Michael veio pra cidade cuidar do escritório da família. Então ele construiu esse Rancho e mora aqui desde então.

-Nossa, coitadinho.. Mas pera aí, ele construiu essa casa do tamanho de um boi pra morar sozinho?

-Ele quis se isolar do mundo depois do rompimento.. - Remy se calou, como se tivesse falado demais - Desculpe, eu me empolguei..

-Ah imagina, eu que tô perguntando igual papagaio. Mas.. só mais uma perguntinha bem pequenininha assim.. O Michael era casado? - Remy suspirou até finalmente decidir falar

-Ok, eu vou te contar! Mas morre aqui, tá? Você me parece confiável..

-Minha boca é um túmulo!

-O Michael estava noivo de uma moça, a qual ele era muito apaixonado. Nunca vi meu menino tão feliz, ele era o oposto do que você vê hoje.

-E o que aconteceu?

-No dia do casamento a Megan fugiu com o melhor amigo do Michael. O pobrezinho ficou plantado no altar.. Acho que ele nunca superou essa humilhação.. Ele era louco por ela, fazia o impossível para vê-la feliz..

 Eu fiquei chocada com a revelação de Remy. Agora conhecendo esse lado bacana do Michael, eu não consigo entender como essa mulher pôde ter coragem de fazer uma cachorrada dessa com ele. E pelo que parece se hoje ele é todo doído assim é por causa dessa tal de Megan.

-Que absurdo.. Como ela teve coragem? Se não gostava do Michael, por que aceitou se casar?

-Era uma verdadeira interesseira, eu sempre soube disso! Mas Michael era inocente demais e estava cego de amor. Você não tem ideia do quanto ele sofreu nos últimos dez anos..

-Então é por isso que ele é tão frio?  

-Sim.. Michael usa essa máscara para camuflar a dor que sente. Se você soubesse as coisas que ele já fez.. Bom, mas não estou aqui para condená-lo e nem para falar mal dele.

-Eu acho que no fundo ele é um cara legal.. Pelo menos pra mim ele é um anjo!

-Ele é sim.. Sabe, há anos que eu não vejo uma atitude como essa vinda dele.. Depois do que aconteceu, Michael se trancou no mundo dele e desde então esqueceu das pessoas ao seu redor.

-Mas eu boto fé que uma hora ele vai mudar!

-Eu também "boto fé"! - ela riu - Mas agora me fale sobre você, Joy.

-De mim? - me levantei da cadeira e levei meu prato para a pia. Eu não me sentia confortável pra falar sobre isso

-Do que você tem medo, menina? Aconteceu algo ruim na sua vida, não é?

-Tipo isso.. Remy, eu posso ir lá fora um pouquinho? - Remy percebeu que eu estava fugindo do assunto

-Claro, pode ir.

-Valeu!

-Joy, quero que me veja como uma amiga. E quando se sentir pronta, se abra comigo. - me aproximei de Remy e apertei sua mão em forma de agradecimento

-Obrigada, de verdade! Sei que posso confiar em você.. Até mais, Remy!

 A história que Remy me contou não saía da minha cabeça. Se outra pessoa tivesse me contado eu não acreditaria. E eu achando que era a única a ter sido feita de boba.. Mas o caso dele nem se compara né? Eu sou uma pobre coitada que não tem nada na cabeça, era certo disso acontecer. Agora com o Michael não, ele é um cara incrível, inteligente e muito bonito, muito bonito mesmo.. E pelo que Remy disse ele era um homem romântico e apaixonado e agora graças à essa mulher ele virou um amargurado, tadinho..
  Parece que pra tomar um chute no traseiro, não importa se você é rico ou pobre, nem esperto e nem burro.  Infelizmente ninguém está livre de passar por isso..
  
(...)

  Me sentei na grama verdinha do jardim e contemplei a beleza natural do Rancho. Se me perguntarem qual a paisagem mais bonita que existe eu diria que é essa. Não sei porquê, mas me sinto inexplicavelmente bem aqui, e olha que eu cheguei ontem nessa casa. 
  Já que eu não tinha nada pra fazer, decidi ver de perto o que o jardineiro estava fazendo.

-E aí cara, tudo certo? - o senhor tirou o chapeu e sorriu educadamente - Meu nome e Joy e o seu?

-Harry. Prazer em conhecê-la, Joy! - ele apertou minha mão e eu pouco tempo engatamos em uma conversa

  Não demorou muito para ele finalmente deixar eu ajudá-lo, já que insisti muito pra ele deixar eu mexer com as mudas de rosas. Eu nunca me diverti tanto fazendo uma coisa como estou agora, mesmo estando completamente suja de terra. 
 Avistei o carro de Michael se aproximar da garagem, mas acho que ele não me percebeu ali. Decidi então pegar alguns ramalhetes de rosas e levar para Remy.
 Eu não teria percebido a sujeira que fiz no chão da sala se Michael não tivesse gritado, dando um verdadeiro ataque.

-O que significa isso? - Michael me olhou da cabeça aos pés, tentando entender o porquê de eu estar tão suja. Eu teria rido da sua reação, mas com certeza ele iria me comer vida

-Desculpa, Sr. Jackson.. Eu esqueci que estava suja, eu vou pra cozinha..

-Não, não! - Michael me segurou pela cintura, me impedindo de dar mais um passo - Você vai melecar a minha casa toda!!

-O que você tá fazendo? - Michael me encaixou em seu colo e saiu feito um louco para o jardim - Michael!!

-Eu vou dar um jeito na lambança que você fez! - Michael me colocou no chão novamente e voltou com uma mangueira nas mãos

-Hey, o que pensa que vai fazer com isso? - Michael abriu a torneira e o jato d'água foi direto nos meus pés

-Não posso ficar uma hora fora de casa que você apronta? Eu não disse pra você se comportar?

-Eu só estava ajudado o Sr. Harry! - disse, me defendendo

 Michael continuou me molhando e o que mais me surpreendeu foi vê-lo esfregar minhas mãos sujas de terra. Ele repetiu o mesmo feito, agora com os meus pés. Eu estava tão chocada que não conseguia nem me mexer. 
 Ele se levantou do chão e à essa altura, estava tão sujo quanto eu. Fala sério, esse homem me deu um banho!! Eu ainda estava de boca aberta vendo a cena.

-Fecha a boca ou vai morrer afogada! - não deu nem tempo de piscar os olhos, pois a água veio direto no meu rosto

  Michael desligou a torneira e finalmente me olhou nos olhos. Ele tinha a expressão séria, mas também parecia que queria sorrir. Ele realmente é um homem muito lindo, olha só esses dentes branquinhos!!

-Tá bravo comigo? - Michael continuou em silêncio, mas não durou muito tempo. Ele mordeu o lábio inferior e sorriu

-Não, eu não estou! Mas se você tivesse sujado mais um pouquinho o meu granito,  estaria frita agora! - Michael tirou do bolso um lenço, que usou para secar meu rosto

-Ufa.. Pensei que ia me expulsar daqui! - Michael fechou os olhos e riu

-Ainda está cedo para minha paciência se esgotar.. Vem, vamos entrar. Quero saber o que mais aprontou hoje..

  Michael puxou meu braço delicadamente e pela primeira vez eu não senti medo e nem desconforto ao estar perto dele. Eu sei que ele tem um bom coração, só está um pouco endurecido, mas nenhum sofrimento é eterno. E eu sei que tanto eu quanto Michael vamos superar o passado. E assim como eu tenho meu bebê pra me fazer feliz, Michael vai encontrar a mulher certa para amá-lo da forma como ele merece.

Capítulo 14

Michael


      Hoje se completa uma semana desde que trouxe Joy para viver comigo. Há certas horas em que me pergunto se eu fiz a coisa certa e em outras, perco totalmente a paciência. Eu não estou acostumado a dividir minha casa com outra pessoa, e por mais que Joy não seja espaçosa, ela é terrível! As vezes acho que será impossível transformá-la de selvagem à uma moça elegante.
     Mas também não vou negar que tenho sorrido muito mais nos últimos dias. Eu não sei o que ela tem que a torna tão encantadora, mesmo sendo uma grosseirona sem educação. Ainda assim, ela é uma jovem doce que mesmo com toda a confusão que é a sua vida, não deixa de sorrir ou soltar uma de suas pérolas que me matam de rir, principalmente quando é a hora dos estudos. 
     Combinamos de ter aulas pelo menos três vezes por semana durante quatro horas. Se eu pudesse daria as aulas todos os dias, pois ela realmente precisa muito estudar. Ela se esforça, mas é birrenta demais, questiona tudo e o que mais me irrita é que eu nunca tenho as respostas na ponta da língua para suas perguntas inusitadas. 
     É manhã de sábado e como estou folgado, decidi iniciar mais uma aula com Joy, ou melhor, Maria da Luz. Ambos os nomes têm muito a ver com sua personalidade. Ela é a alegria em pessoa, com uma luz tão graciosa que eu sinceramente nunca vi igual.
    Carreguei comigo os livros e cadernos e dessa vez decidi fazer diferente. Nossas aulas sempre são no meu escritório, mas hoje achei o dia bonito demais para desperdiçá-lo.

-Bom dia Remy, sabe se a Maria já acordou?

-Já e faz tempo! Essa menina acorda com as galinhas. Me ajuda em todas as tarefas da casa!

-É bem capaz dela mesma acordar as galinhas.. - me peguei sorrindo, me lembrando de algumas das cenas engraçadas que vi de Joy durante essa semana

-Você quer que eu a chame?

-O que?

-Você quer que eu chame a menina?

-Oh sim.. Diga para ela me encontrar no jardim. - Remy olhou para os livros nas minhas mãos, me lançando um olhar indecifrável

-Vai dar aulas hoje?

-Vou sim. Tenho que aproveitar o máximo de tempo que me sobra.

-Entendo.. Bom, eu vou chamá-la. Com licença.

    Enquanto Remy foi chamar Joy, segui para o jardim, mas antes passei na cozinha e fiz uma cesta com guloseimas. Já me acostumei com a fome fora do normal que Joy sente e agora já estou me precavendo. Não quero que nada tire o seu foco. Ela é distraída demais e qualquer coisa é motivo de festa pra ela.
    Me sentei na cadeira, organizando a mesa. Analisei os cadernos de caligrafia de Joy e eu já teria motivos de sobra para puxar sua orelha, mas ao ler a primeira página do caderno, eu sorri feito bobo.

-Professor Michael Jackson.. - ri - Essa menina não existe..

-E aí, o que tá mandando, Michael? - Joy parou atrás da cadeira, carregando o costumeiro sorriso largo nos lábios

-Bom dia, Maria da Luz. Parece que você não absorveu as lições de etiqueta.. Não é assim que se cumprimenta uma pessoa. - seu sorriso rapidamente se escondeu, e eu me repudiei por ter sido o responsável - Mas.. hoje é sábado e eu farei uma exceção.

-Aí sim! - ela sorriu novamente, se sentando ao meu lado - A Remy disse que você tava chamando eu. - pensei em lhe corrigir, mas eu não queria deixá-la sem graça. Agora eu dei de pensar nos sentimentos dos outros..

-Sim, hoje você tem aula.

-Sério? Eu tava doidinha pra gente estudar!

-E pra que tanto entusiasmo, posso saber?

-É porque eu passei a semana toda lendo aquele poema que você mandou eu estudar. Você disse que ia tomar.. Ai, como que diz?

-Leitura?

-Isso! Você disse que ia tomar leitura.

-Fico feliz por ter se empenhado. Quer começar?

-Aham! - Joy abriu o livro, mas notei que ela continuava me fitando - Michael, posso te fazer uma pergunta?

-Claro.

-Hoje é sábado, certo? - assenti, concordando - E por que raios você está usando terno?

-Ah eu.. O terno demonstra seriedade, Maria. E eu já me acostumei.

-Ah.. Você quer minha opinião? - olhei atentamente para Joy e senti uma certa curiosidade em ouvi-la

-Quer saber, eu quero sim. Não fico bem de terno, é isso?

-Com todo o respeito, você fica muito.. - Joy coçou o couro cabeludo, o que me deu a impressão de que ela estava desconcertada

-Pode falar, Maria. Eu não vou ficar bravo. - sorri genuinamente - Me acha feio? - ri

-Tá de brincadeira, né? Você parece galã de novela! - arqueei a sobrancelha, me sentindo surpreso, já Joy estava vermelha como um tomate - Me desculpa.. Eu falei merda né?

-Claro que não, Joy.. - descansei minha mão sob a sua

   Senti uma sensação tão calma ao tocá-la, sensação que não consigo nem mesmo descrever. Afastei minha mão imediatamente, tentando quebrar o clima chato que ficou entre nós, ou pelo menos para mim.

-Fico feliz de saber que me acha bonito. É melhor que me chamar de feio, não acha? - Joy soltou a respiração e sorriu aliviada

-Com certeza! Mas aí é que tá. Esses ternos são como as hábitos para as freiras.

-Como?

-Ah pensa bem. Você parece que tá sempre armado. Poxa, você tem uma casa linda, enorme, pode fazer várias coisas, mas olha pra você. Desde que cheguei só te vejo usando ternos escuros. E o seu cabelo?

-O que tem meu cabelo?

-Precisa mesmo estar sempre amarrado? Se for pra andar com ele preso é melhor cortar, não concorda?

-Mas eu gosto do meu cabelo grande! - me defendi

-Então solta esse cabelo, homem! É um desperdício esconder um cabelo tão lindo, assim como você. - Joy abaixou a cabeça, como se novamente tivesse falado algo que não deveria

    E sabe, eu não me irritei com sua sinceridade, na verdade fiquei surpreso e admirado. Estou sempre cercado de pessoas que me bajulam e agora estou de frente à uma garotinha que fala na minha cara o que pensa. E o mais encantador é que por mais que seja desbocada, ela tem uma timidez angelical, o que a torna ainda mais linda. 
     Qual é, eu também tenho que ser sincero comigo mesmo. Apesar das roupas velhas, dos cabelos desgrenhados e do seu jeito moleca, Joy é incrivelmente linda com esses olhos cor de amêndoas, o rosto delicado, sua pele pálida e macia, os lábios levemente carnudos e avermelhados.. Mas que porra eu estou pensando? Acho que estou lendo poesias demais e isso tem interferido o meu bom senso..

-Michael, você tá aí?

-Hã?

-Você ficou calado do nada.. Falei alguma coisa que você não gostou? Me desculpa, é que eu falo demais e..

-Hey, respira um pouco! - ela riu - Você não falou nenhuma besteira, na verdade tem até razão. Tenho que aprender a deixar o trabalho lá fora e ser mais tranquilo em casa..

-Tô dizendo.. - ela deu de ombros, voltando sua atenção para o livro

-Você não ia ler o poema para mim?

-Ah claro! Eu estou nervosa.. - confessou

-Mas por que?

-Tenho medo de errar alguma coisa.

-Não precisa ter medo de mim, Joy.. Prometo que só vou ouvi-la.

-Ok. Lá vai.. " Quando penso em você me sinto flutuar, me sinto alcançar as nuvens, tocar as estrelas, morar no céu... A longa distância apenas serve para unir o nosso amor. A saudade serve para me dar a absoluta certeza de que ficaremos para sempre unidos... E nesse momento de saudade, quando penso em você, quando tudo está machucando o meu coração e acho que não tenho mais forças para continuar; eis que surge tua doce presença, com o esplendor de um anjo; e me envolvendo como uma suave brisa aconchegante... Tudo isso acontece porque amo e penso em você...

   Eu já li esse soneto de Shakespeare diversas vezes e nunca senti meu coração se manisfestar como agora ao ouvir essas palavras saindo de sua boca, e o mais fascinante, ter seu olhar sob os meus olhos enquanto recitava o poema. Raramente um fenômeno como esse me faz perder as falas, o raciocínio e o total controle dos meus sentimentos mais ocultos.


Capítulo 15

Joy


   Ter a oportunidade de estudar tem sido incrível, ainda mais por Michael ser meu "professor", mas confesso que tem momentos que quase saímos no tapa! Brincadeira, mas Michael realmente só falta perder a cabeça. Poxa, ele não entende que eu não tenho o cérebro dele e é bem capaz de eu nunca ser inteligente como ele, mas o que importa é que pelo menos estou aprendendo a ler e escrever corretamente. Tenho levado mais broncas em relação ao meu jeito de falar. Michael vira uma fera quando me vê falando errado, mas eu sei que ele só quer o meu bem.

(...)

  Na manhã seguinte eu não vi sinal de Michael, em compensação a casa estava tomada de gente num vai e vem sem parar. Depois de bisbilhotar  a euforia, corri para a cozinha à procura de Remy.

-Remyzinha, o que tá havendo nessa casa?

-Bom dia, Luz! - disse me dando um carinhoso beijo na testa - Hoje é a tradicional festa de aniversário da Sra. Jackson, a mãe do Michael.

-Sério?? Então vai rolar festão? - me sentei na bancada da mesa, roubando a cesta de pães que estava ao meu lado

-Vai, apesar do Michael detestar. Ele só concorda em usar a casa para alegrar a mãe.

-Mas o que é isso, gente? Que ser humano que não gosta de festa?

-Sou adepto ao recolhimento, Maria da Luz. - senti um frio na espinha ao ouvir a voz de Michael, mas respirei aliviada ao virar minha cabeça e ver que ele sorria ainda que minimamente

 E o que mais me surpreendeu foi a sua aparência. Diferente do que estou acostumada a ver, Michael estava sem o costumeiro terno. Ele vestia uma calça folgada, um suéter branco e uma blusa de algodão por baixo. Ele pareceu ter ficado tímido com meu olhar, pois logo enfiou as mãos nos bolsos da calça, abaixando a cabeça em seguida.

-Foi mal.. Mas tipo, festa alegra todo mundo. Você come, dança, se diverte..

-Eu não gosto de nada disso. Para mim é uma grande palhaçada. Mas o que salva é saber que receberei convidados decentes. - franzi o cenho, sem entender o seu comentário

-E o que seriam pessoas decentes para você? Gente rica da sua classe?

-Não é óbvio? São pessoas educadas, instruídas, elegantes e que tornam a festa um ambiente agradável e não uma zona.

  Minha vontade era de xingá-lo e meter um belo chute em seu traseiro. Eu havia me esquecido do Michael que conheci naquele maldito trânsito, mas uma hora eu teria a "honra" de trombar com ele novamente. Ele é um ridículo em carregar um preconceito tão idiota como esse.

-Bom, então é melhor eu arrumar outro lugar pra dormir hoje. - falei, descendo da bancada, prestes a passar por ele

-O que disse? - me virei de frente à ele para respondê-lo

-Você ouviu. Eu não me enquadro no que você classifica como "pessoas decentes". Eu sou pobre e se quer saber, eu tenho muito orgulho de não fazer parte do seu grupinho! - me virei de costas ao sentir meu braço sendo puxado por ele. À essa altura já estávamos sozinhos na cozinha

-Mas você deixará de ser o que é. É pra isso que está aqui.

-E o que eu sou? Uma pobre coitada, ignorante e digna de pena. Michael, seja sincero. Se detesta tanto pessoas da minha classe, porque me trouxe pra cá? - Michael se calou e não sei porquê senti um aperto no peito. Será que ele se arrependeu de ter me abrigado aqui?

-Joy, não distorça o que eu disse, por favor! Será que não vê que só quero o seu melhor? Não vê tudo o que tenho feito por você?

-E do que adianta ser maravilhoso comigo se ainda carrega egoísmo e preconceito em seu coração?

-Nem todo mundo tem um coração puro como o seu. Não sabe o esforço que estou fazendo para me igualar à você. - foi a minha vez de ficar quieta após ouvir sua declaração. Michael fechou os olhos e suspirou pesadamente - Me desculpe por isso.. Quando me sinto um lixo eu acabo descontando em quem não merece..

 Certo, eu estava a ponto de dizer poucas e boas para ele, mas agora vendo a triste expressão em seu rosto, começo a me penalizar. É nítida a mudança que vem acontecendo em suas atitudes. Quando eu cheguei aqui, brigávamos todos os dias por causa da sua chatice. Mas agora ele têm sido mais atencioso e até mesmo, carinhoso comigo.

-Ah que isso, Michael.. - me encostei na bancada, próxima à ele - Por que se sente assim?

-Por nada.. Só.. me desculpe pela forma como te tratei..

-Tudo bem, Michael. Já estou acostumada faz tempo! - ri, dando de ombro

-Não senhora! Não pode se acostumar em ser menosprezada. O que eu disse foi muito errado, me desculpe. - achei seu olhar tão sincero que eu não tive dúvidas se deveria desculpá-lo

-É claro que eu te desculpo, cara..  

  Sem ao menos pensar no que estava fazendo, puxei Michael para abraçá-lo. De início ele parecia surpreso, pois nem se mexia. Mas aos poucos senti seus braços me envolverem e seu rosto enterrado no meu pescoço. Deus, como ele cheira bem.. Eu não sei dizer se é o seu perfume ou o aroma natural da sua pele.
 Confesso que só me sentia assim quando abraçava minha madrinha, pois nos braços de Michael também me sinto protegida, confortável e com um estranho desejo de não sair mais dali.
 Não sei por quanto tempo nos mantivemos abraçados, mas era tão bom estar ali com a cabeça no seu peito. Dava até para ouvir as batidas agitadas do seu coração. Mas logo tratei de me soltar dos seus braços. Pegaria mal se alguém nos visse desse jeito, apesar de ter sido natural pra mim.

-O que aconteceu com as suas roupas? - perguntei ainda abraçada à Michael

-Achei que não tinha notado.. - me afastei para analisá-lo de cima à baixo, lançando um olhar de aprovação - O que achou? Ainda pareço uma freira?

-Você tá show..

-O que disse?

-Nada, quis dizer que você ficou.. ótimo, mas tá faltando uma coisa.

-O que foi agora? - perguntou assustado

-Licença aí.. - levei minhas mãos à sua cabeça e soltei seus cabelos que estavam amarrados em um elástico. Agitei seus cachos, que deslizaram pelos ombros

-Nossa.. - balbuciei. Com todo o respeito, mas ele conseguiu ficar ainda mais lindo do que é naturalmente. Provavelmente não  consegui nem disfarçar minha cara de bobada

-Joy..?

-Hã? É.. ficou bem melhor assim. Tá parecendo que tem a minha idade. - Michael gargalhou

-Aí já é demais! Vem, vamos pra biblioteca antes que alguém venha me infernizar..

(...)

-A Remy disse que o níver é da sua mãe? - Michael fez uma careta engraçada

-O aniversário é da minha mãe sim. Já era pra ela ter chegado, mas o voo atrasou.

-Show de bola.. Mas por que tá com essa cara de quem comeu e não gostou?

-Eu não gosto de conviver com pessoas, ainda mais com esse pessoal que vai vir. Mas eu não posso decepcionar dona Kathe.

-Saquei.. Você parece um pouco solitário, Michael. Deveria se divertir mais!

-Eu já tentei ser uma pessoa "normal" e me ferrei.. - Michael permanecia virado para a estante de livros. Eu sabia que ele se referia ao que aconteceu no seu quase casamento - Mas.. essa festa não será tão ruim.

-Sério? Por que?

-Porque você está aqui e como é a única pessoa que consegue arrancar de mim um sorriso, creio que sobreviverei à essa noite.

-Como é? O que quer dizer com isso?

-Você vai participar da festa. Esqueceu que está morando aqui?

-Você enlouqueceu? Cara, olha pra mim! - gargalhei - É capaz de eu espantar todo mundo da festa..

-E por que faria isso? Você não é tão horrorosa assim.. - disse em tom de brincadeira

-Fala  sério! Hey, eu tive uma ideia!

-Que ideia?

-Eu posso ajudar a Remy! Assim eu fico lá na cozinha e não atrapalho o aniversário da sua mãe. - Michael jogou o livro que estava lendo em cima da mesa e me encarou

-De jeito nenhum! Você não é doméstica, Joy.

-Ah por favor, Michael! - me agachei de frente à ele, puxando seu braço - Você assim como eu sabe que não vai dar certo eu nessa festa..

-Maria..

-Por favorzinho!! - implorei, puxando a manga do seu suéter

-Ok, eu deixo! Mas você só vai ajudar a Remy na cozinha. Não quero ver você servindo mesa e muito menos fazendo trabalho pesado! - eu já ia comemorar, mas Michael encostou dois dedos em meus lábios - Porém, tem uma condição..

-Sabia.. - revirei meus olhos - Qual a condição?

-Quero que conheça a minha mãe. - fiquei de queixo caído depois de ouvir sua proposta

-Você o que?

-Pra que essa cara de aterrorizada? Se quer saber minha mãe é o oposto de mim. Ela é um doce de pessoa..

-E o que vou dizer pra ela?

-Não se preocupe, Joy. Do jeito que ela é tenho certeza que vai gostar de você. - Michael sorriu - Acordo feito?

-Feito! Então quer dizer que você deixa eu ajudar na festa?

-Sim, eu deixo..

-Aii obrigada, Michael!! - Michael bagunçou meu cabelo e em forma de agradecimento lhe dei um beijo na sua bochecha

 Um silêncio se instalou entre nós e pela primeira vez eu me senti intimidada. Sempre fui acostumada a fazer esse tipo de carinho nos meus amigos, mas não sei porque com Michael foi diferente. Acho que são tantas novidades na minha vida que as vezes eu estranho, mas uma coisa eu afirmo com toda certeza: Michael tem me feito tão feliz que em alguns momentos eu até consigo esquecer os problemas que deixei para trás quando o conheci.

Capítulo 16

Michael


   Assim que busquei minha mãe no aeroporto, seguimos para minha casa. Tive que aguentar seu sermão de que eu deveria ser o Michael de antes, que eu ainda era jovem e não podia me fechar pra vida. E pela primeira vez eu não me irritei com seu falatório, na verdade chegava até mesmo me imaginar casado, sendo pai e etc.. Mas isso certamente jamais acontecerá e eu logo tratei de tirar esses pensamentos da minha cabeça.

-Michael, você está me ouvindo? - disse me trazendo à realidade

-Sim, Dona Kathe..

-Pois não parece. Está no mundo da lua, eu te conheço..

-Não enche, ok? Só estou preocupado. Você sabe que detesto abrir minha casa pra tanta gente assim.

-E prefere viver trancado naquela imensidão? Nenhum homem é uma ilha, meu filho.

-E quem disse que estou morando sozinho? A senhora não sabe de nada... - ri

-Como é?

-Nada, mãe. Você vai ver quando entrarmos. - parei o carro próximo à entrada da minha casa, mas antes de sairmos, dei instruções à minha mãe - E antes que pense besteira, eu e ela não temos absolutamente nada um com outro!

-Michael, eu não estou entendendo nada! Ela quem? - Kathe estava aflita, sem entender nada do que eu dizia

-Vamos entrar.. - saimos do carro e enquanto ela tagarelava na minha cabeça, eu tentava encontrar uma explicação para dar à ela. O que vou dizer quando Joy aparecer na frente dela?

-Dona Katherine! -Remy a saldou, tomando-a em um abraço - Feliz Aniversário!

-Obrigada, minha amiga.. Só assim para matarmos a saudade. Infelizmente não posso deixar minhas empresas de lado.. Mas se Michael fosse insistente, eu viria mais..

-Olha o drama, mãe.. A senhora sabe que essa casa está sempre aberta para você e a Alisson. Falando nela, por que minha maninha não veio?

-É semana de provas na faculdade, mas ela te mandou um beijo e mandou dizer que assim que entrar de férias ela vem te ver!

-Certo.. Remy, onde está a Maria da Luz?

-Ela estava esperando a roupa dela secar. Quer que eu a chame?

-Por favor. - Remy se afastou e eu voltei meus olhos para minha mãe

-Quem é Maria da Luz, Michael? - antes de responder, bato meus olhos em Joy, que veio contente ao me ver, mas estacou quando minha mãe se virou para ela

-Me chamaram? - Joy perguntou com a voz trêmula - Nossa..

-Mãe, essa é Maria da Luz, ou Joy, se preferir. - Kathe a analisou por um tempo. Respirei aliviado ao ver um sorriso genuíno se lançar em seus lábios

-Prazer em conhecê-la, Maria da Luz.. Meu nome é Katherine. - disse estendendo a mão para cumprimentá-la. Joy olhou para mim e eu assenti para que ela apertasse a mão de Kathe

-O... O prazer é meu, dona Katherine! - Joy estava pálida e a minha vontade era de rir da cena

-Mãe, a Joy vai ficar por um tempo aqui..

-É, o Michael.. Quer dizer, o Sr. Jackson me deu um trabalho em troca de abrigo, mas é só por um tempinho, prometo pra senhora!

-Mas o que é isso, filha? - Kathe riu - Se Michael fez essa boa ação tenho certeza que é por um bom motivo. E devo dizer que você me parece muito educada!

-Ah que isso, dona.. Valeu mesmo! - Joy me olhou como se tivesse falado uma besteira, mas minha mãe não pareceu se importar com sua forma despojada de ser

-É, mãe.. Vamos subir. A senhora tem que descansar para a sua grande festa.. - revirei os olhos

-Claro, realmente estou cansada. Foi um prazer conhecê-la.. - disse se referindo à Joy, que sorriu timidamente

(...)

-Fala logo o que quer perguntar, dona Kathe. - fui direto. Conheço minha mãe e sei quando ela me olha desconfiada

-Michael, eu não engoli essa história não. Desde quando você oferece sua casa para uma funcionária? E essa mocinha não parece ser doméstica..

-Sério que vai começar a implicar?

-Meu Deus, não posso falar nada que você rebate! Eu só quero que se abra comigo.. Ela é sua namorada, não é?

-Claro que não! - falei alto o suficiente - Eu me penalizei com ela, ok? Por culpa minha ela perdeu o trabalho de frentista e ela não tinha onde morar. Achei que o certo a se fazer era reparar o meu erro.

-Você fez muito certo! Dá pra notar que é uma moça muito humilde e necessitada. Fico feliz por te ver fazendo caridade!

Confesso que me incomodei com a forma como ela disse, mas foi esse o intuito desde o início, fazer uma caridade. Mas não sei bem se hoje é essa a real intenção. Por Deus, não quero dizer que tenho segundas intenções com Joy, mas sim, que não a vejo mais como uma pessoa digna de pena.

-Sim, mas em breve ela vai embora. Logo ela conseguirá um emprego e poderá se virar sozinha. - afirmei tentando passar confiança - Agora vá descansar. Não vai demorar muito para os seus convidados chegarem..

(...)

   Passei o restante do dia trancado no quarto. Eu não queria fazer parte de toda a movimentação que está tendo lá em baixo, só serviria para me deixar mais irritado.
Pra ser sincero, o que realmente está acontecendo é que todos os convidados que chegarão daqui a pouco assistiram de camarote ao pior dia da minha vida. O dia em que me tornei um novo homem, ou o que restou dele.
    Eu não desejo isso nem ao meu maior inimigo. Não existe humilhação maior do que ser abandonado no altar no dia do seu casamento, e o pior, descobrir perante há quase quinhentas pessoas, que sua noiva fugiu com o cara que dizia ser seu melhor amigo.
       Quase dez anos depois e eu ainda tenho que aturar esses infelizes soltando uma piadinha e claro, zombando de mim. Sou o maior corno da década, pois todos sabiam do par de chifres que eu carregava e não teve um filho da puta para me alertar. Fui e continuo sendo o chifrudo mais conhecido dessa cidade e não tem uma dia em que eu não lembre desse pesadelo.
     Cansado de martelar o passado na cabeça, decidi tomar um banho e descer para a tal festa. Minha casa estava abarrotada de gente, e eu agradeci à Deus por minha mãe estar entretida em um grupo de mulheres. Me encolhi em um canto qualquer, carregando comigo a garrafa de conhaque que me fizera companhia desde a hora que me tranquei no quarto. Somente anestesiado com a bebida eu poderei aguentar essa noite infernal.
    A música clássica ressoava no ambiente, tornando-o entediado, mas pelo menos suportável. Não gosto de animação e por isso faço questão de deixar o clima mais sombrio possível.
Não sei quando exatamente a música parou, as pessoas se olhavam sem entender o que acontecera e, antes mesmo de alguém reclamar, uma música alta e infernal tomou conta dos meus ouvidos. Se bem conheço é um estilo de música eletrônica simplesmente detestável. A música ensurdecedora somada ao falatório dos convidados me fizeram levantar de onde estava para tomar uma providência.
     Cambaleando, subi até o espaço reservado ao DJ. Estava mais que pronto para soltar os cachorros, mas para minha surpresa era Joy quem apertava aleatoriamente os botões, provavelmente na tentativa de reparar a merda que fez.

-Mas que porra você está fazendo? - gritei chamando sua atenção

-Desculpa, Michael.. Eu esbarrei sem querer em um desses botões e do nada começou a tocar essa música e..

-Tudo que você faz é sem querer, não é? Usa sempre a mesma desculpa quando quer ferrar comigo!

Joy me olhava com os olhos arregalados e marejados, mas eu não senti um pingo de pena. Estou farto de bancar o bonzinho, pois as pessoas só usam esse meu lado para me foderem. Será possível que não posso ter um momento de paz?

-Me desculpe, Michael. Eu juro que não foi minha intenção!

-Você só sabe perdir desculpas! Não percebe que desde que apareceu na porra da minha vida só tem me infernizado? Suba para a porcaria do seu quarto agora! - Joy subiu as escadas com uma pressa impressionante, sumindo do meu campo de visão

-Sr. Jackson, eu.. - o incompetente do DJ tentou se explicar

-Desligue essa merda antes que quebre os vidros dessa casa! - arremessei a garrafa de conhaque em um canto qualquer, decidido a desaparecer deste lugar. Construí esse Rancho para me ver livre de qualquer contato humano e agora estou a ponto de enlouquecer!

Capítulo 17

Joy



     Depois da merda que eu fiz, com certeza estarei muito ferrada! Michael virou uma fera, eu nunca o vi desse jeito. Tá certo que o que eu fiz foi errado, mas não foi por querer. O cara que estava cuidando dos aparelhos saiu um minutinho pra ir no banheiro e eu só quis ver o que ele estava mexendo.
    Mas mesmo assumindo meu erro, Michael não tinha o direito de me ofender daquela maneira. Sua ira me causou tanto medo que eu pensei que era Kevin na minha frente, e assim como me livrei do pai do meu filho, também ficarei livre de Michael.
    Estava impaciente sentada na cama, procurando algum jeito de sair dali. Tinha medo que Michael entrasse no quarto e brigasse ainda mais comigo. Pelo seu cheiro é visível que estava bêbado, um dos motivos de eu ter ficado ainda mais apavorada.

-Eu tenho que sair daqui.. - olhei ao meu redor e me deparei com a pequena varanda do quarto

    Não tinha nenhuma possibilidade de eu pular do segundo andar, afinal estou grávida e uma ação dessas poderia prejudicar meu bebê. Pra minha sorte havia uma estrondosa árvore bem do lado da minha varanda e eu não pensei duas vezes antes de usá-la para dar o fora dali. Estou acostumada a subir em árvores e isso eu tiro de letra.

-Deus, pensa no meu bebê, hein? Se eu cair dessa árvore o coitadinho vai se machucar!

    Respirei aliviada quando senti meus pés tocarem a grama. Meus braços estavam arranhados assim como meus pés, mas o importante é que a minha barriga está intacta! Limpei o sangue na blusa e aproveitei para correr o mais longe que consegui. 
     Eu precisava arrumar um jeito de enrolar os seguranças, mas estava cansada demais, não só fisicamente. Eu estou cansada de tudo na minha vida, as vezes me pergunto se eu mereço tudo de ruim que tem me acontecido. Poxa, eu nunca fiz mal à ninguém, não é justo que o meu bebê passe por todo esse sofrimento. 
    Me diz, como vou me virar agora? Eu não tenho onde ir, nem dinheiro e nem roupas. E também não sei como chegar no meu bairro, na verdade não sei nem como sair dessa casa.

-Deus, me ajuda a sair daqui, por favor!! - me sentei em baixo de uma árvore e me permiti por pra fora todas as lágrimas que estavam presas.

Eu pensei que minha vida estava seguindo um novo rumo, mas agora voltei a estaca zero..
Michael



    Surpreendentemente quando aquela música parou, os convidados começaram a reclamar. Sério que eles gostaram dessa porcaria? Não, o pior de tudo foi minha mãe exigir que trocassem a música clássica por uma mais animada. 
    Consegui enrolar até a hora de cantar parabéns, e sem chamar a atenção subi para o meu quarto. Minha cabeça estava explodindo e tudo que eu precisava era de um banho gelado para curar o porre. Quando saí do meu quarto, a casa estava mais silenciosa, até porque já haviam se passado horas desde o surto que dei na festa.
     Agora com a cabeça no lugar, percebo que exagerei um pouco com Joy. Ok, eu exagerei demais com ela! Eu sei que não posso cobrar muito dela, Joy é só uma menina ingênua e jamais faria algo de propósito para me irritar. 
   Bati na porta do seu quarto mesmo temendo sua reação. Joy tem o gênio forte e sei que vai querer me enxotar daqui, e eu bem que mereço suas patadas.

-Maria, me deixe entrar.. Me desculpe, ok? Por favor! Eu passo a te chamar somente de Joy, já que você gosta assim.. - continuei batendo na porta e não obtive nenhuma resposta

  Eu quis respeitar seu espaço, mas essa falta de notícia estava me deixando nervoso. Forcei a maçaneta da porta e por sorte consegui abrir. Para a minha surpresa, o quarto estava vazio.

-Joy? Joy, cadê você? - procurei pelo quarto inteiro e também no banheiro. Joy não estava em nenhum lugar

   Desci a escada correndo, atropelando tudo que via na minha frente. Eu precisava achar Joy antes que fosse tarde demais. Ela não conhece esse bairro e a noite tudo se torna ainda mais complicado.

-Michael, até que enfim te achei! Onde você estava?

-Agora não, mãe.. - pedi licença e voltei minha atenção à busca de Joy

    Ordenei que todos os seguranças vasculhassem o rancho e que não parassem até encontrá-la. Ela ainda está aqui, mas essa propriedade é vasta demais e ela pode se perder. 
Já estava esbaforido e cansado demais, mas de forma alguma iria parar de procurá-la. Joy está perdida por minha causa e se algo a acontecer eu não me perdoarei.
    Um pequeno ruído atrás de uma árvore me chamou atenção. Apesar da iluminação fraca, eu consegui enxergar com clareza quem estava sentada com a cabeça apoiada no tronco da árvore. Suspirei aliviado ao vê-la e com cuidado me sentei ao seu lado. Joy virou a cabeça em minha direção, abrindo os olhos em seguida. Seu rosto estava vermelho, provavelmente por ter chorado.

-Como me achou? - Joy se afastou ao me reconhecer

-Eu conheço muito bem o lugar que construí.. - sorri, tentando amenizar o clima

-Me desculpe estar aqui ainda, eu acabei pegando no sono, mas já tô vazando. - Joy tentou se levantar, mas eu impedi

-Não, por favor! Não vá embora..

-Como não? Você mesmo disse que só sei te infernizar.

-E você acreditou? Joy, eu sinto muito pelo que disse.. Estava alterado e você não sabe como me sinto um lixo..

-Michael, todo mundo tem problemas. E se quer saber, os meus são muito piores do que você imagina!

-Eu sei..

-Você não sabe de nada! Em momento algum eu descontei minhas frustrações em você ou em qualquer pessoa, sabe por que? Porque eu sou responsável pelos meus problemas e não culpo ninguém por isso! - sua voz estava embargada e o rosto banhado em lágrimas

-Mas eu não sou forte, Joy! Eu já fui um homem bondoso, mas paguei muito caro por isso.. Eu sei que a única coisa que consigo com isso é afastar as pessoas. Eu tinha amigos, Joy. Eu era um cara em que todos se sentiam bem em estar perto. Eu fazia piada de tudo, ria de qualquer coisa e levava a vida da forma mais leve possível. E agora eu sou um mala que todos querem ver longe, que não significa nada, ao não ser um caixa eletrônico.

-Você só é assim porque quer. - Joy se sentou novamente ao meu lado, mas sem olhar pra mim - Todo mundo sofre e tem suas decepções. Mas é decisão nossa continuar sofrendo ou dar a volta por cima. Mesmo que seja tão difícil..

-Você mais uma vez tem razão. Viu como preciso de você? - acariciei sua pele, mas notei que seus braços estavam arranhados - O que aconteceu, querida?

-Me cortei quando pulei da árvore.. - ela murmurou, se sentindo envergonhada com a minha carícia

-Você o que? Joy, poderia ter se machucado!

-Você me machucou mais.. - Joy entortou os lábios, fazendo um adorável biquinho

-Me perdoa, vai... - Joy tampou os ouvidos com as mãos, parecendo uma criança emburrada - Você fica linda bicuda.. - Joy ficou vermelha com meu comentário e dessa vez eu não tive vontade nenhuma de me desculpar pelo meu elogio

-Tudo bem, eu te desculpo.

-Jura?

-Uhum, mas eu te imploro que me deixe ir embora daqui, por favor Michael! - me doeu tanto vê-la desesperada, se sentindo desprotegida e desamparada

-Amanhã falaremos disso, ok? Se você quiser ir embora, eu deixarei, mas agora vamos pra casa, está muito frio!

   Joy concordou em vir comigo, acreditando que eu realmente irei deixá-la ir embora, mas é óbvio que isso não vai acontecer. Só concordei com seu pedido para ganhar tempo. Agora eu preciso pensar no que fazer para ter seu perdão, porque sinceramente eu não imagino mais essa casa sem sua presença. Nem a minha vida sem essa mulher.

Capítulo 18

Joy



     Apesar de estar sensibilizada com tudo que aconteceu na vida de Michael, ainda sim eu não poderia esquecer as ofensas que ouvi. Eu não sou rancorosa, só não posso deixar que ele se acostume com esse comportamento. Minha madrinha sempre me ensinou que eu não deveria deixar homem nenhum me maltratar, e se eu não permiti que meu ex fizesse isso, evidente que também não deixarei um homem que não é nada meu me desrespeitar.
    O problema é que não consigo olhar pra ele e continuar sentindo raiva. Não sei.. parece que ele exerce um tipo de poder sob mim, que ao invés de me afastar, só me deixa mais grudada à ele. 
    Voltamos pra casa em completo silêncio e a minha vontade era de subir logo para o quarto e desejar que amanhecesse logo para eu ir embora. Já estou decidida à ligar para Rodrick e contar tudo o que aconteceu durante essas semanas. O coitado deve estar louco de preocupação, pois até hoje não consegui entrar em contato com ele.

-Antes de subir, você precisa cuidar desses ferimentos.. - avisou quando me levava para a cozinha

-Não foi nada demais, relaxa.

-Joy, não seja teimosa. Isso pode inflamar.

   Michael me fez sentar na cadeira e logo depois voltou com uma maleta. Ele estendeu meus braços com uma delicadeza impressionante e seguindo essa mesma linha, limpou os machucados e passou um remédio bem ardido no local.

-Au!! - gritei

-Shhi.. Vai passar, querida.. - Michael acariciou minha bochecha, com um sorriso encantador nos lábios - Vou fazer um curativo bem aqui, pois a ferida está aberta.

-Não, não passa isso de novo, por favor!

-Joy, o remédio tem que fazer efeito. - Michael ria, enquanto explicava

-Mas isso arde muito!

-Olha, se arder muito eu deixo você me dar um chute, ok?

-Eu vou dar mesmo. Ai caramba! - parecia que meu braço estava queimando, mas uma bela bicuda em sua canela serviu para aliviar a dor

-Au!! Porra, você chuta muito forte! - eu não consegui segurar o riso vendo sua careta - Achou graça, é?

-Só um pouquinho.. Bem, obrigada aí pela ajuda. Boa noite! - me levantei da cadeira e saí apressada antes que ele falasse alguma coisa

(...)

    Foi difícil dormir com tantos pensamentos rondando minha cabeça, mas também quando fechei meus olhos, apaguei no mesmo instante. Acho que a gravidez tem me deixado preguiçosa, pois dormi feito uma pedra. 
    Quando abri meus olhos, notei uma claridade diferente no quarto. Me sentei na cama, pronta para tirar o pijama que Remy me emprestou, mas levei um grande susto ao ver a quantidade de jarros de flores enfeitando o quarto.

-Mas o que é isso? - ainda perplexa, me levanto da cama e pego um dos buquês para certificar de que são reais e não fazem parte de um sonho - Caramba, acho que erraram de endereço, o jardim é lá embaixo..

     Acho que nunca vi tantas flores na minha vida. São de todos os tipos, todas as cores bem vivas e um aroma delicioso povoava o quarto. Parece muito bem o Paraíso, como minha madrinha sempre descreveu ser.
   Se antes eu estava achando isso tudo muito estranho, depois de tropeçar em uma cesta, eu me surpreendi ainda mais. Me agachei para ver o que tinha na dentro e foi necessário que eu me sentasse no chão devido ao espanto.

-Quem é você? - falei para a bolinha de pelo que dormia tranquilamente em cima de uma almofada - Caramba, é um cãozinho! Remy, Remy vem ver! - saí correndo pelo corredor, mas para o meu azar acabo trombando com a mãe do Michael

-Bom dia, menina! - ela me saldou, com um sorriso bondoso nos lábios
  
-Bom dia, dona Kathe. Me desculpe por gritar assim, mas você não sabe o que eu achei lá no quarto!

-O que tem no seu quarto, filha?

-Tem um monte de flores, mas isso não é mais espantoso do que a outra coisa que está lá.

-Hey, fica calma.. - ela riu - Me explica direito, sim?

-Dona Kathe, tem um cachorrinho lá no meu quarto!

-Ah, então você já o conheceu.. Gostou do seu novo amigo? - ela sorriu, como se soubesse do que estou falando

-Como assim? A.. a senhora já sabia?

-Bom, a ideia do presente foi minha, mas.. quem escolheu foi o Michael.

-Olha, eu não tô entendendo nadica.. - Kathe pegou na minha mão, me levando para o quarto novamente

-Eu já sei o que aconteceu ontem a noite, eu e Michael conversamos muito hoje. Estou envergonhada pela atitude dele, mas também muito orgulhosa da vontade dele em reparar o erro. Joy, eu sei que meu filho não é uma pessoa fácil de conviver, mas ele nem sempre foi assim.

-Tô ligada.. Eu sei o que aconteceu com ele quando era mais novo. Mas ele não me contou, tá? Se ele souber que eu sei disso, tô ferrada!

-Não se preocupe, querida.. Bom, então você deve entender um pouco porque ele é tão insensível às vezes.

-Acho que sim, apesar de eu achar que ninguém tem culpa dele ter sido traído.. Ai desculpa!

-Você está certa, Joy. Até a última vez que vi meu filho, eu já tinha desistido dele.. Achava que Michael nunca mais voltaria a ser o menino doce que era, mas sabe que estou muito surpresa?

-Sério mesmo?

-Uhum.. Michael é rabugento sim, mas ele não é um homem ruim. E devo dizer que estou vendo muitos progressos nele. Em menos de um dia percebi que ele está mais carinhoso, gentil e até engraçado. E algo me diz que você tem a ver com essa mudança.

-Eu?

-Sim. Em outras épocas Michael jamais cederia sua casa pra alguém, nem pra mim ele cedia! - ela riu - Acho que essa convivência entre vocês tem o ajudado a se lembrar que a vida é muito mais do que a solidão.

-Isso eu também tenho que admitir. Quando eu o conheci, tinha muito medo dele, mas agora não. Ele tem sido muito bondoso comigo, mas ontem..

-Ontem ele errou muito e me garantiu que está arrependido pela forma como te tratou. Ele me disse que você quer ir embora, mas eu só te peço que pense melhor. Eu sei que Michael também tem te ajudado muito e na minha opinião não há outro lugar em que você se sentirá mais segura e amparada como aqui. Bem, vou deixar você sozinha.. Acho que precisa pensar na sua decisão.

-Obrigada por ter tirado um tempinho pra trocar ideia comigo. - ela riu

-Por nada, querida! - ela me deu um beijo na testa e saiu do quarto

Antes mesmo de eu processar tudo o que ela me disse, notei uma folha de papel dobrada em baixo do filhote. Ai, eu ainda estou boba com tanta fofura! Nunca vi um cãozinho tão lindo ainda mais sendo bebê.

-Oi nenem! - com muito cuidado peguei ele com as mãos e o deitei no meu colo, acariciando seu pelo macio e fininho - Pera aí, deixe eu ver o que é isso..

Deixei o filhote deitado nas minhas pernas e abri o bilhete para ler:

" Pedir desculpas nunca foi o meu forte, acho que pelo fato desse pedido nunca vir de dentro do meu coração. Mas devo dizer que tudo que lhe disse ontem a noite é completamente puro e verdadeiro. 
   Eu poderia muito bem entrar no seu quarto com a minha costumeira falta de educação e exigir que você me desculpasse e que esquecesse essa ideia absurda de ir embora daqui. Só que já sabemos que isso jamais funcionaria com você..
    Joy, eu nunca fui bom em palavras, principalmente em escrevê-las. Pode ser ridículo um homem da minha idade escrevendo cartinha pra uma mocinha como você, mas se esse é o preço do seu perdão, eu escrevo um livro se você pedir.
    Enfim, eu não vou implorar para que fique aqui em casa. Para isso encontrei uma forma inusitada e irresistível. Esse rapazinho aí veio pra cá especialmente para ser seu filho e acredito que você partirá o coraçãozinho dele se for embora dessa casa. E todas essas flores que estão enfeitando seu quarto murcharão assim que você cruzar o portão para fora daqui.
  Então.. seria pedir demais se você fizesse o "sacrifício" de continuar morando comigo? Se não por mim, pense no pequeno bebêzinho que provavelmente está em seus braços agora.. 

De um coroa completamente envergonhado para uma jovem única e especial..

Michael "


   Meus olhos encheram-se de lágrimas quando terminei de ler a carta. Caramba, o que eu posso argumentar agora? Eu nunca li palavras tão sinceras como essas ainda mais sendo referidas para mim. E se eu tinha alguma dúvida depois da conversa com Kathe, agora eu tenho a total convicção de que só sairei dessa casa se Michael pedir. 
   Deitei o cãozinho na cesta novamente e me levantei determinada a ver Michael, mesmo estando com essa cara de quem acabou de acordar.
    Quando desço a escada, me surpreendo ainda mais ao ver a sala de estar completamente iluminada pelos raios do sol. Assim como o meu quarto, o local estava repleto de flores, e nem de longe se parecia com o mausoléu que era essa casa. 
   Vejo Remy se aproximar com mais um vazo de flores e imediatamente pergunto por Michael, mas antes mesmo de abrir a boca, ela se adiantou a responder.

-Ele está tomando seu café lá no jardim.. - respondeu sorrindo

-Valeu, Remy!

    Corro até a porta e e desço os degraus rapidamente ao vê-lo sentado na cadeira, com os olhos debruçados em uma folha de jornal, sem parecer de fato interessado no que lia. Michael desviou os olhos por um breve momento que foi suficiente para que ele me notasse.
   Ele se levantou abruptamente ao me ver, carregando um sorriso inseguro nos lábios. Cubro meu rosto com as mãos nervosamente e me aproximo de Michael, sentindo minhas pernas trêmulas. Estávamos a centímetros um do outro e eu não pensei em mais nada além de me jogar em seus braços. Michael me recebeu prontamente e eu senti meu coração explodir dentro do peito ao ouvir sua risada gostosa, que tinha um misto de alívio e felicidade. É tão boa essa sensação de estar perto dele, de sentir seu cheiro perto de mim e o mais estranho, de me sentir completa em seus braços.

Capítulo 19
Michael



    Depois do gelo que Joy me deu ontem a noite, eu fiquei completamente perdido. Eu não estou acostumado a reconhecer meus erros e muito menos pedir desculpas por eles. Mas para Joy me perdoar eu teria que reparar minhas atitudes. 
    Pensei em lhe comprar uma joia. Esse truque sempre deu certo com outras mulheres, mas aí eu lembrei que Joy não é como elas e o principal, eu não estou transando com ela. Fora que Joy não parece se interessar por esse tipo de coisa, ou seja, eu não sabia o que fazer. 
    Decidi então recorrer à minha mãe mesmo correndo o risco de levar uma bronca ao contar a merda que eu fiz. Depois de ouvir seu sermão por quase uma hora, ela concordou em me ajudar. Pedi que Harry colhesse todas as flores do jardim e em seguida Remy as levou para o quarto de Joy. Pedi também que ela mudasse a decoração da casa. Já estava farto do clima fúnebre que decora esse lugar há dez anos. 
    Acredito que todas essas mudanças deixaram Joy encantada, mas espero que eu tenha acertado no plano de reconciliação. Minha mãe me aconselhou a dar um presente para Joy, mas ressaltou que deveria ser algo que tocasse seu coração. Ao descartar joias ou outros objetos, tive uma ideia inusitada. Decidi adotar um cachorro para presentear Joy.
    Apesar de eu não me sentir confortável perto desse animal, por Joy valeria a pena. E só de ver seu sorriso de volta em seu rosto eu senti uma sensação de dever cumprido e mais que isso, me senti imensamente em paz ao proporcionar felicidade à ela.

-Não sabe como é bom sentir seu abraço novamente.. - confessei - Você me desculpou? - Joy afastou o rosto para me observar, despontando um lindo sorriso em seus lábios

-Mas é claro que sim, Fera... - ela riu - Acho que eu peguei pesado com você.. Devia ter tido paciência.

-Nada disso, Joy. Eu não merecia seu perdão, mas isso não quer dizer que eu não esteja implorando por ele!

-De fato até ontem eu estava magoada, mas foi coisa de momento. E depois de ler aquela carta você recuperou todos os seus pontos!

-É mesmo? - arqueei a sobrancelha - Não ficou nem um pouquinho encantada com as flores..?

-É claro que eu fiquei! - ela riu - Foi a cena mais linda que já vi na minha vida.. Ah e o que dizer daquele filhote? Michael, foi você mesmo que comprou?

-Sim.. Esperei a loja abrir para comprá-lo. Minha intenção era pagar por um cãozinho, mas quando vi ele na gaiola para adoção eu não pensei em mais nada..

-Isso é lindo.. Todo mundo tem direito à um lar e você fez por ele o mesmo que fez por mim. Jamais terei como te agradecer por ter me acolhido nesta casa.

-A única forma de agradecer é continuando aqui.. Joy, eu não sei se você tem família ou uma casa.. Não acha que é hora de falarmos sobre você? - Joy mordeu a ponta do lábio inferior, desviando o olhar de mim

-Vamos ver o filhote? Você tem que me ajudar com o nome! - Joy puxou minha mão, ignorando minha pergunta

Algo de muito triste aconteceu com ela e esse seu medo em revelar me deixa preocupado, mas eu não desistirei até que ela se abra para mim.

(...)

-Você acha que ele tem cara de quê? - estávamos sentados no chão do seu quarto. O filhote dormia serenamente em seu colo, e seu carinho com ele me deixou emocionado

-Hmm tem cara de cachorro.. - respondi

-Não brinca! - ela debochou - Ele não pode ser chamado só de filhote..

-Ta aí! Filhote.

-O que?

-O nome dele vai ser Filhote. Veja bem, toda vez que você o chama de filhote ele olha pra você.

-Mas Michael, filhote não é nome pra cachorro!

-Nem Joy é nome de gente.. Mas é tão viciante que eu não consigo te chamar mais de Maria da Luz, assim como não conseguirei chamá-lo de outro nome que não seja Filhote.

-Urgh! Você venceu.. O nome pode ser esse.. - Joy fez uma careta de derrota

-Ufa! Pelo menos te venci em alguma coisa! - ela riu - Ele gostou muito de você..

-Eu amo cachorro, mas nunca tive um porque minha madrinha era alérgica..

-Madrinha? Você tem um parente, Joy?

-Eu tinha.. - Joy abaixou a cabeça - Ela morreu faz uns dois meses..

Após ouvir sua resposta, um episódio de meses atrás veio à minha mente. Eu me lembro exatamente daquele dia no hospital.. Será possível que..

Flash Back


-Senhorita, eu não posso fazer nada! Você assinou um termo. Se não pagar, não liberamos o corpo.

-Mas eu só peço um tempo, só isso! Eu não tenho toda essa grana! 

-Se não tinha o dinheiro, por que solicitou a internação particular, mocinha? Se não sabe, os custos de uma internação desse porte são altos!

-E os meus sentimentos, hum? Queria o que? Que eu deixasse a minha madrinha morrer numa fila de hospital? Na mesma fila em que outras pessoas estão sofrendo coisa pior?

-Senhorita, nós apenas seguimos os protocolos. O corpo da sua parente só sai com o pagamento. Pague a prestação, o que for.. Está avisada.

//

-Essa mocinha quer nos passar um calote. Assinou um contrato de internação particular e agora que a tal pessoa morreu, vem me dizer que não tem dinheiro pra pagar!

-Então a pessoa que morreu é parente da garota.. - concluí

-Que mal pergunte, o que o senhor está fazendo? - terminei de assinar o cheque e em seguida, o destaquei, entregando à ele

-Isso cobre as despezas?

-Mas..

-Está pago. Agora libere o cadáver, digo, o corpo. Deixe a menina ir embora. Creio que ela ainda tem muitas coisas para resolver.

Fim do Flash Back


-Michael, está tudo bem? - Joy me despertou das lembranças. Eu precisava tirar essa dúvida agora mesmo

-Como.. como sua madrinha morreu?

-Ela tinha problemas... como fala mesmo quem tem problema no coração?

-Problemas cardíacos.. - murmurei

-Isso! Ela sofreu um infarto e não resistiu.. - senti que Joy estava se segurando para não chorar, o que me lembrou perfeitamente da mesma jovem ruiva que chorava naquele sofá da recepção do hospital

-Eu sinto muito..

-Infelizmente não tínhamos dinheiro para tratar a doença, mas mesmo não a trazendo de volta, uma alma muito boa pagou os custos da internação.

    Engoli seco com a revelação final. Agora não me restam dúvidas de que Joy e a moça que ajudei no hospital são as mesmas pessoas! Como é possível isso? Eu nunca acreditei em destino, mas isso já é demais.. Desde o dia que a conheci naquele trânsito após atropelá-la, o destino fez questão de colocá-la em meu caminho e em circunstâncias tão variadas.. Isso pode ser tudo, menos coincidência..

-E você soube quem fez isso?

-Não.. No início pensei que fosse uma certa pessoa, mas depois descobri que estava errada.. Enfim, aconteceram tantas coisas depois que nunca me deram a oportunidade de descobrir quem fez isso. Você poderia me ajudar!

-O que?

-Se você quiser, claro. Eu pensei que, como você é tão inteligente você poderia descobrir quem fez isso.

-Ah Joy.. Por que mexer nisso agora? Foi uma doação anônima.

-Como sabe que foi uma doação?

-É.. eu.. eu presumi.. - pigarreei

  Eu não posso revelar à ela que eu fui o doador. Eu não fiz esse gesto com a intenção de me vangloriar, e agora sabendo que Joy foi essa pessoa, mais do que nunca devo guardar isso comigo. Não quero que isso influencie seu conceito sobre mim.

-Então? Me leve no hospital, nós podemos perguntar à alguém. Por favor, Michael eu preciso agradecer essa pessoa!

-Eu vou investigar, ok? Se eu souber de alguma coisa eu te falo.

-Promete?

-Prometo.. - Joy sorriu em agradecimento. Com tantas revelações eu preciso continuar sabendo mais sobre essa garota

-Obrigada, viu? Você como sempre mandando bem.. - ela riu

-Me fale mais sobre isso.. O que aconteceu depois que sua madrinha morreu? - Joy permaneceu em silêncio, mas depois de um suspiro pesado ela prosseguiu

-Eu tive que devolver a casa que nós morávamos. O aluguel estava atrasado, então o dono pediu de volta. Como eu não tinha para onde ir aceitei morar com meu namorado, quer dizer, ex.

-Você tem um namorado? - minha voz quase em berro

-Eu tinha.. Mas deu tudo errado. - me levantei do chão me sentindo atordoado

   Eu sei que Joy não é nenhuma criança, mas nunca me passou pela cabeça que havia um homem em sua vida, muito menos que ela tinha uma relação tão firme a ponto de morar com ele. Eu não sei por que meu coração vacilou e se apertou desse jeito.
   Permaneci virado de costas, me sentindo desencorajado em prosseguir com as perguntas.

-Ele sabe que você fugiu? Porque não faz sentido você estar aqui se tem alguém te esperando! - minha voz saiu mais severa do que imaginei

-É claro que sabe. Ele mesmo causou isso. - me virei novamente sem entender sua colocação

-Como? - Joy já estava em pé, bem próxima à mim

-Kevin foi meu primeiro e único namorado. Ficamos juntos por três anos sempre ouvindo a promessa de que nos casaríamos.. Quando ele me convidou pra morar com ele foi com a certeza de que ele seria meu marido.

-Ele te enganou, Joy?

-Digamos que o plano dele era outro. Deus, eu tenho tanta vergonha... - me aproximei um pouco mais e toquei em seu rosto

-Não sinta vergonha de mim, querida.. Me conte o que aconteceu.. - Joy respirou fundo e abriu os olhos

-A única intenção do Kevin era.. ele só queria transar comigo, nada mais.. - Joy desabou em lágrimas, apertando-se em meus braços

   Senti tanto nojo desse homem que eu não tinha nem palavras para dizer. Só me pergunto como alguém tem coragem de brincar com os sentimentos de uma moça tão pura como Joy. E o que mais me dói é pensar que esse canalha conseguiu o que queria.

-Acho que sei o que aconteceu.. - Joy se afastou, sentindo-se envergonhada

-Pois é.. Mas eu aceitei, Michael. A culpa também foi minha..

-A culpa não é sua dele ter sido um desgraçado! Deus, como ele teve coragem?

-O pior foi ouvir da boca dele que eu só fui um divertimento.. - Joy se sentou na cama e eu me ajoelhei de frente à ela - Mas felizmente eu estou longe desse desgraçado.

-Ele fez algo a mais com você? - Joy ficou quieta - Joy, ele te agrediu?

-Não, não! Eu fugi antes que isso acontecesse. Bem, depois disso eu fui embora daquele bairro e o resto você já sabe.. Essa é a minha vida. - disse com um sorriso fraco nos lábios

-E se depender de mim, nunca mais verá esse cretino na sua frente!

-Já foi, Michael.. Minha madrinha sempre me ensinou a levantar a cabeça e seguir em frente. E eu prometi à ela que não sofreria por alguém que não merece.

-Joy, eu posso te fazer uma pergunta?

-Claro. - ela assentiu. Sequei o suor das minhas mãos no tecido da calça. Eu estava nervoso e temeroso pela sua resposta

-Você ainda o ama? Ainda sente alguma coisa por ele? - Joy me olhou em silêncio e sua demora aumentava minha ansiedade em descobrir se seu coração ainda tem dono..

Capítulo 20

Joy



-Ah.. Que pergunta, Michael.. - desviei meus olhos dele

   Eu sinceramente não sei o que responder, Michael me pegou desprevenida. Eu não vou negar que as vezes penso nele.. Poxa, Kevin foi meu primeiro namorado e tudo que eu conhecia sobre relacionamentos eu aprendi com ele. Não posso assegurar que ainda o amo ou se realmente era amor, assim como também neste momento não sei se realmente o esqueci.

-É só uma pergunta, Joy. Ama ou não ama? - interrogou. Não entendi essa cobrança em saber sobre o meu sentimento por Kevin

-Eu.. não sei.. Eu estou confusa e..

-Não precisa falar mais nada. - Michael riu e se levantou em seguida - Tá na cara que ainda ama esse desgraçado.

-Eu não disse isso.. - tentei explicar

-Eu vou parar de te importunar com tantas perguntas. Afinal a vida é sua e não me diz respeito. Me desculpe. - Michael saiu do quarto sem nem olhar para trás

    Se ele ficou assim só por eu contar que fugi de um ex namorado agressivo imagina se eu revelasse minha gravidez? Eu poderia ter contado que estou grávida, mas não me senti pronta pra isso. Michael tem sido muito bondoso comigo, mas eu temo sua reação. Ele jamais aceitaria colocar uma mãe solteira em sua casa.
    E também eu tenho que me lembrar que estou aqui temporariamente. Michael prometeu que me ajudaria com um emprego e assim que eu conseguir, vou juntar uma graninha pra poder viver em paz com meu filho.

(...)

   Durante o resto do dia, o vi brevemente. Michael estampava um semblante fechado e mal abria a boca pra falar alguma coisa. Ou melhor, a única vez em que nós conversamos foi para pedir permissão para ver meu amigo Rodrick. Michael não permitiu que eu saísse de casa, em vez disso, ele deixou que Rodrick viesse até aqui.

-Aah não sabe como fiquei louco de preocupação! - depois de matar a saudade, contei tudo o que aconteceu desde o dia que fui embora da casa dele

-Me desculpe por não ter ligado, mas como você sabe agora, aconteceram muitas coisas..

-Eu ainda estou chocado! Olha a casa que você está morando, garota!! E pelo que vi esse seu novo amiguinho é um gato!

-Fala baixo, Ro! Hoje o Michael tá de ovo virado..

-Que loucura, né? Pelo que disse, vocês se odiavam..

-Ele tem mudado muito e me ajudado também. Sabia que até aula o cara tá me dando? - Rodrick abriu a boca em espanto

-Pera aí.. Deixa eu ver se entendi. Esse cara te abrigou na casa dele, está te dando estudo e ainda fez toda essa surpresa hoje?

-Pra você ver.. Ele é um anjo.. - suspirei em meio ao um sorriso aberto. Rodrick me fitou demoradamente - O que foi?

-Nada.. Só estou observando a baba escorrendo da sua boca..

-Rodrick! Quer insinuar alguma coisa?

-Eu? Imagina..

-Estou deixando bem claro que nossa relação é só amizade. - afirmei

-Ok, não tá mais aqui quem falou.. - Rodrick ergueu as mãos em sinal de paz

-Rodrick você tem visto o Kevin?

-Não. Só sei que está fugindo da polícia.

-Como?

-Vai dizer que nunca soube que ele mexe com tráfico de drogas? - balancei a cabeça negativamente - Eu sempre desconfiei, mas nunca enchi sua cabeça com isso. O negócio é, esse homem já está fora da sua vida. Não é possível que ainda pense nele depois de todo o mal que ele te causou!

-Rodrick, ele é o pai do meu filho! Apesar de que ele nunca saberá da existência dessa criança. 

-Você ainda gosta dele?

-Pra você eu não posso mentir.. Hoje me fizeram essa mesma pergunta e eu não soube responder, mas agora depois de pensar bastante e refletir eu não consigo sentir nada por Kevin. Nem raiva, ódio ou amor.. Acho que nunca o amei verdadeiramente. Eu era uma boba apaixonada que acreditava em príncipe encantado. Mas quando esse encanto se quebrou, levou junto o sentimento que achei que ainda restava..

-Não sabe como fico feliz em ouvir isso porque sei que vem do seu coração. Tenho certeza que vai esquecê-lo totalmente ainda mais morando com esse homem MARAVILHOSO!

-Rodrick, não dá pra falar sério com você! - acabei rindo também. Rodrick não mentiu quando atribuiu essa qualidade à Michael

-Mas vem cá.. Michael sabe da sua gravidez?

-Não e nem vou contar.

-Como é? Oh garota você tá sabendo que uma hora essa barriga vai crescer né? E por que diabos não contou pra ele?

-Porque eu tenho medo. Você não sabe como é esse homem quando está encapetado. Poxa, eu tenho que pensar no meu filho em primeiro lugar. E não se preocupe, até a barriga crescer eu já terei ido embora daqui.

-Joy Joy.. Tem certeza do que está fazendo?

-Hmm não.. Mas sei que é o melhor para nós dois.. - falei ao tocar minha barriga

(...)

    Continuamos a conversar por mais algumas horas até que Rodrick teve que ir embora. Me senti totalmente mais leve após nossa conversa sobre Kevin. Eu sei que não vou esquecer o que ele me fez, mas só de ter a possibilidade de caracterizar meu sentimento em relação à ele eu me sinto feliz. Jamais me perdoaria por continuar gostando de um homem que teve coragem de querer se livrar do próprio filho. 
    Sinto que meu coração está em paz. Não lhe desejo mal nenhum, mas a única coisa que quero deste homem é distância. Agora o único dono do meu coração é o bebezinho que está crescendo dentro de mim.
      Já estava quase anoitecendo quando voltei para dentro da casa. Sentia uma vontade absurda de ver e falar com Michael. Já percebi que ao lado dele tudo ganhar cor, tudo se transforma. Sua amizade tem me feito tão bem que está se tornando viciante. 
      Entro pela porta da cozinha, decidida a preparar um lanche para Michael. Já conheço seus hábitos o suficiente para saber que está trancado na biblioteca sem nem pensar em se alimentar. Como alguém consegue se recusar a comer? Comida é vida, ora!
     Levo na bandeja um pedaço de torta de limão e um suco de laranja. Estava caminhando pelo corredor rumo à biblioteca, mas duas vozes animadas na sala de estar me chamaram atenção. Uma delas era a de Michael. Dou mais alguns passos e posso enxergar com clareza Michael e uma mulher sentados bem próximos um do outro no sofá. 
    Quando a mulher desviou os olhos para mim pude ver como ela é bonita. Mesmo sentada ela parece ter o dobro da minha altura. Tem os cabelos negros e cacheados que batem na altura do ombro. Ela me olhou de cima a baixo e eu fiquei um pouco incomodada com a forma dela me olhar. Michael ao notar a presença de alguém, vira-se para me encarar.

-Oi Joy.. - ele murmurou

-Me.. me desculpe atrapalhar.. Achei que estava sozinho. - nossa, eu estava me sentindo muito, muito envergonhada na presença deles

-Imagina, Joy.. Essa é a minha amiga Helena. - Michael a apresentou. A mulher devolveu um sorriso amarelo para mim

-Prazer em conhecê-la, querida. - disse melodicamente

-Prazer é meu, dona.. - pigarreei - Foi mal, eu não vou atrapalhar vocês.

-Então vamos, querido. Você prometeu me levar naquela boate que inaugurou. - olhei surpresa para Michael, que parecia estar incomodado com a situação

-Va..vamos Helena.. Boa noite Joy.

-Boa Noite. - Michael sorriu sem graça. A mulher enlaçou seu braço e saiu com ele, despontando um sorriso que ao meu ver pareceu vitorioso

    Eu nunca parei pra pensar que Michael tinha uma amiga tão íntima. Pombas, só cego que não vê que tem coelho nesse mato. Essa tal de Helena parecia comê-lo com olhos e provavelmente eles estavam bem íntimos e a idiota aqui interrompeu. Nossa, minha vontade é de enfiar minha cabeça debaixo da terra depois dessa vergonha.
      O que me restou fazer foi subir para o quarto e tomar um banho. Coloquei o pijama de Remy e separei minha única peça de roupa para lavar no dia seguinte. Me deito na cama e não consigo pregar meus olhos. Apesar de não ser da minha conta, eu estou curiosa demais para saber qual é o lance do Michael com a magrela..

Capítulo 21

Michael



    Confesso que fiquei bastante intrigado após minha conversa com Joy. Acho que fiquei surpreso demais com suas revelações e se eu continuasse com essa história martelando na minha cabeça, provavelmente estragaria o resto do meu dia. 
      Por esse motivo resolvi convidar Helena para sair. Já faz um bom tempo que não a vejo e sua companhia sempre me ajudou a relaxar e esquecer os pensamentos inoportunos. Mas se minha intenção era parar de pensar em Joy, falhei miseravelmente. Não consegui sequer me divertir. Uma porque detesto boates e outra, não me senti tão confortável ao lado de Helena. Acho que não estou mesmo em um bom dia.

(...)

    Foi difícil pregar o olho essa noite, mas nada que uma boa leitura não me ajudasse. Acordei com o humor um pouco mais leve, ansioso por ver Joy. Ela ficou bastante envergonhada ao ver Helena e eu estranhei, pois Joy é desinibida com qualquer pessoa, até mesmo com Dona Kathe.
   Falando nela, acordei um pouco mais cedo para levá-la ao aeroporto. Infelizmente ela não pode passar mais tempo na cidade, pois teria de resolver assuntos de trabalho.

-Bom dia, Remy.. Maria da Luz já acordou? - perguntei ao notar que Joy não estava em nenhum lugar

-Bom dia, Michael. Ela já acordou sim. Está na lavanderia.

-Certo..

   Sigo para a área de serviço e me deparo com Joy sentada no chão em frente à secadora. Ela cantarolava uma música com os olhos fechados e batucava com dedos a melodia da canção. Ela não percebeu minha presença, então continuei parado na porta a observando, certamente com um sorriso bobo nos lábios.
   Achei melhor chamar sua atenção, pois eu estava curioso para saber o que ela estava fazendo.

-Bom dia, Luz.. - Joy abriu os olhos e me encarou como se estivesse envergonhada

-Hey, Mike.. Desculpa, tava viajando aqui. - enfiei as mãos no bolso da calça e me aproximei dela

-O que está fazendo?

-Hoje é dia de lavar minha roupa, por isso ainda estou de pijama. Mas assim que tiver sequinha eu visto ela!

-Caramba, como eu sou desligado..

-Por que, homem?

-Joy, você está aqui quase um mês e com a mesma peça de roupa!

-Ah esquenta não, cara.. - ela riu - Essa secadora dá conta, e eu mesma lavo. Fica cheirosinha, quer ver? - perguntou quase enfiando as roupas no meu rosto

-São cheirosas assim como você.. - seu rosto corou instantaneamente - Me desculpe. Vista-se e me procure na biblioteca. Estou te esperando.

-Tá.. Mas pra que?

-Para de ser curiosa, mocinha.. - dei um tapinha de leve no topo da sua cabeça, bagunçando seus cachos ruivos - Se apresse..

- Sim senhor! - Joy deu um soco em minha perna, me arrancando algumas risadas

Eu estava decidido a cuidar dessa questão de Joy. Fiquei tão ocupado nas últimas semanas que esqueci completamente de comprar justamente roupas pra ela. Como Joy nunca pediu nada eu nem saquei. Droga, estou começando a pegar a mania de usar o vocabulário dessa maluquinha..

-Prontinho, Mike. Tô pronta! - Joy entrou na biblioteca, espevitada como de costume

-Ótimo, então vamos. - me levantei da poltrona e vesti minha jaqueta. Estou tão liberto dos ternos que não sinto falta nenhuma de usá-los

-Vamo pra onde, hein?

-Vamos. - lhe corrigi - Nós vamos no Shopping.

-No que? - Joy abriu a boca

-É um edifício cheio de lojas de todos os tipos. Temos que comprar roupas, sapatos e tudo mais que você precisa.

-Mas pra que, Michael? Minha blusa nem tá furada..

-Joy, você não pode passar o resto da vida vestindo uma bermuda jeans e uma camiseta surrada. - Joy olhou pra própria roupa e depois voltou a me encarar

-É.. você tem razão. Mas acho que uma blusinha pra revesar dá conta. Assim quando uma estiver lavando eu uso a outra.. Pera aí, do que você está rindo?

-Você realmente não existe, Joy.. - acarinhei seus cabelos macios, perdido na beleza delicada do seu rosto

-Que papo é esse, cara? - ela riu - Olha só eu sou de carne e osso!

-Para a minha sorte.. - murmurei - Então vamos, Joy. Nosso dia será longo!

-Cê que manda..

(...)

    Eu tinha que filmar as reações de Joy ao chegar no shopping. Para ela parecia ser coisa de outro mundo, principalmente quando ela viu a escada rolante. Demorei quase trinta minutos para convencê-la de que não tinha nenhum perigo e que era a coisa mais normal do mundo. Joy aceitou mesmo acanhada, mas segurando meu braço com muita força. Ela tinha mais medo do que as crianças que corriam pela escada.

-Michael, esse lugar é incrível. Parece um parque!

-Joy, se você se afastar de mim vai acabar se perdendo! - avisei pela décima vez. Ela acatou meu conselho, mas não demorou muito para sumir das minhas vistas novamente - Primeiro nos vamos nas lojas de roupas e .. Joy? Joy?

    Quando dei por mim, Joy novamente não estava ao meu lado. Mas por que raios essa menina gosta de me desobedecer? Meu coração já começava a se afligir dentro do meu peito. Saí feito um louco gritando pelos corredores do shopping. Quem olhasse a cena pensaria que sou um pai procurando o filho que se perdeu.

-Joy? Graças a Deus.. - respirei aliviado ao bater meus olhos nela

Joy estava ajoelhada em frente a uma vitrine, totalmente encantada com sapatinhos de bebê. Eu estava muito bravo com sua desobediência, mas isso não era maior do que o alívio de ter lhe encontrado.

-Joy, você ficou louca?

-Desculpa, Mike.. É que eu achei tão bonitinho os sapatinhos que parei para ver..

-Joy.. - me ajoelhei ao seu lado - Eu não te pedi pra ficar ao meu lado? Se você se perde como eu fico?

-Desculpa.. - tá eu não consigo continuar com brigando com ela me olhando desse jeito - Não vou mais te desobedecer..

-Eu sei que não vai. - Joy ficou sem palavras quando enlacei nossas mãos. Ajudei ela a se levantar e de mãos dadas continuamos a andar pelo shopping - Só assim pra você não sair de perto de mim..

Capítulo 22

Michael


  Andar de mãos dadas com Joy não foi tão ruim como imaginei, pelo contrário. Quando encostei minha mão na sua eu senti como se algo tivesse se manifestado dentro do meu peito. Percebi os olhares curiosos das pessoas e de início achei que era pelo fato de eu ser um homem mais velho ao lado de uma jovem, mas na verdade eles se perguntavam o que um homem elegante está fazendo acompanhado de uma garota mal vestida. 
 Se isso tivesse acontecido há alguns meses atrás eu estaria morto de vergonha por ter minha imagem sendo arranhada. Mas não sei.. agora as opiniões alheias não me incomodam nenhum pouco, mas não posso negar que os olhares das pessoas para Joy estão me irritando bastante, mas essa menina é tão adorável que nada disso parece lhe importar. Ela se diverte com coisas tão simples que me deixa realmente embasbacado.

-Aqui, Joy. Experimente essas aqui. - estendi para ela alguns cabides com roupas

-Aqui?

-Não, garota.. Aquela mulher ali vai te levar até o trocador. - Joy mesmo insegura concordou em ir com a atendente

 O que me restou foi sentar na cadeira para esperar Joy. Estou literalmente mudado, pois nunca tive paciência para fazer compras, ainda mais em esperar alguém. A cada roupa que Joy experimentava ela vinha me mostrar e eu claro, dava minha opinião. Acho que não houve um momento em que eu precisasse criticá-la, pois Joy consegue ficar linda em qualquer peça que veste. 
  E esse trabalho como "consultor de moda" é tão divertido que fiz Joy experimentar quase todas as roupas da loja, e para a alegria da gerente,  comprei todas as que ela experimentou.

-Ja chega.. - Joy desfaleceu ao meu lado se sentindo cansada - Eu nunca vesti tanta roupa na minha vida. Tô parecendo esses bonecos da vitrine. - ri

-Mas ainda não terminamos..

-O que? Michael já tenho roupa suficiente para os próximos cinco anos!

-Nada disso! Você comprou roupas básicas, Joy. Temos que completar todo seu closet.

-Meu o que? - ela riu

-Vamos escolher mais.. - puxei Joy delicadamente pelos braços, levando-a para a sessão de vestidos

 Bem, essa parte deixei por conta da jovem que estava nos atendendo. Sou bom em comprar modelos básicos, mas vestidos e "coisas de mulher" não é comigo mesmo. Prefiro apreciar e foi o que eu fiz. Me sentei novamente na cadeira e esperei Joy aparecer novamente e puta que pariu..

-E aí Michael, ficou bom?






 Eu não consegui piscar, gesticular ou pensar em uma resposta. Posso até mesmo dizer que o ar parou na minha traquéia. Me encontro agora completamente hipnotizado por essa mulher. Sim, pois a imagem que vejo à minha frente não é da garotinha de jeans e regata desgastada, e sim, uma mulher perfeita em todos os seus detalhes, desde seu rosto ao corpo milimetricamente modelado pelo vestido.

-Mike, o que achou? - cocei minha nuca nervosamente e me levantei para mais perto de Joy

-Parece uma princesa.. Bela.. - concluí

-Do que me chamou? - perguntou enquanto ria

-De Bela, a princesa do seu conto de fadas..

-Que isso, cara.. - ela deu um soco de leve no meu ombro

-Vira-se. - indiquei para o espelho, agora à sua frente. Pelo reflexo do espelho pude ver como estávamos perto um do outro, quase como um só - Você é linda, Luz.. Linda..

-A senhorita vai experimentar mais vestidos? - praguejei mentalmente a infeliz que nos interrompeu. Joy olhou pra mim como se esperando meu aval

-Claro, ela vai sim. Inclusive pode separar este vestido. Ela vai levá-lo.

-Sim senhor..

(...)

 Depois de comprarmos quase a loja inteira, continuamos nossa maratona nas outras lojas. Compramos mais roupas, sapatos e eu fiz questão de mimá-la, presenteando-a com perfumes e maquiagem, já que ela me confessou que adorava se maquiar. Ao contrário do que imaginei, ela não quis sair da loja vestindo as novas roupas. Por incrivel que pareça ela se sentia mais a vontade com sua bermuda e sua regata. 
 Paramos em frente à uma loja de brinquedos e eu nunca vi uma Joy tão animada como agora. Percebi que ela se encantou com um urso de pelúcia, mas fiquei quieto, pois todos os presentes que ofereço ela recusa. Dessa vez iria surpreendê-la, assim não teria como ela negar. Decidi então despistá-la para que não percebesse nada.

-Joy, me espere naquela loja ali. - apontei para uma luxuosa boutique - Vou ver um relógio pra mim e já vou até lá.

-Ok.. - Joy se afastou o suficiente para que eu pudesse entrar na loja. Me empolguei tanto que saí de lá com sacolas até a cabeça

 Quando me aproximo da boutique, noto vozes alteradas que vinham do interior da loja e o que mais me chamou atenção foi ver que Joy estava no meio da confusão. Me aproximei da porta para conseguir ver o que estava acontecendo.

-Já falei pra sair daqui, sua pivete! Não vê que está espantando os clientes?

-A senhora tá me chamando de que? Olha aqui, eu não sou nenhuma ladra não tá?

-Se não sair daqui vou chamar os seguranças. Saia logo daqui, imunda!

-Muito interessante a maneira como tratam seus clientes.. - a mulher ficou pálida ao me ver

-Me desculpe, senhor. Já estou tratando de tirá-la daqui.

-Ela não vai a lugar nenhum muito menos sendo enxotada dessa forma!

-O senhor a conhece? - perguntou quase gaguejando

-É a minha namorada, algum problema? - percebi que Joy engoliu seco com a minha resposta

-Me desculpe o transtorno, eu.. eu não imaginei..

-É claro que não. - ri - Estão acostumados a tratar as pessoas da forma como as vêem. É simplesmente ridícula essa atitude preconceituosa! Vamos, Joy. Agora eu que faço questão de não por os pés aqui! Mas podem esperar uma intimação judicial que não tardará a chegar!

-Michael, já chega.. - Joy sussurrou, ruborizada

-Vamos.. - enlacei sua cintura, ainda sentindo meu sangue ferver nas veias

 O que me dói é ver que deixei Joy assustada. Ela permaneceu calada, como se ainda temesse pelo meu temperamento. Eu já estava um pouco mais calmo, até porque eu já sei exatamente o que fazer pra ferrar essa birosca.

-Joy, está com fome?

-Não, não.. - murmurou

-Não minta pra mim! - ri - Olha ali um quiosque. Você quer um milk shake?

-Sério? Acho que só tomei uma vez só na minha vida!

-Então vamos.. Quem sabe não te acompanho em um? - rimos enquanto seguíamos para o quiosque

 Nos sentamos em um banco e, em silêncio, saboreávamos o milk shake. Eu sei quando Joy está desconcertada e dessa vez não é diferente. Não sei se foi pela confusão na loja ou por eu ter dito que somos namorados.

-Tem certeza que está bem ou ainda está triste pelo que aconteceu na loja?

-Fiquei triste por você. Te fiz passar mó vergonha..

-Não passei vergonha nenhuma, ok? Eu fiz o que te tinha que ser feito. Eles não têm o direito de tratar ninguém desse jeito.

-Cê tá certo.. Valeu aí, Mike. - ela sorriu

-Achou ruim de eu ter dito que você é minha namorada? - Joy tossiu ao engasgar com o milk shake

-Não.. Eu só tive vontade de rir pra caramba!

-Mas por que, posso saber?

-Ah qual é, Mike? Foi muito sem noção. Um cara todo fino e bonito que nem você namorando uma trombadinha que nem eu.. - ela gargalhou

-E por que seria sem noção? Não acha possível que isso aconteça?

-Isso o que? - Joy largou o copo para me olhar

-Eu e você namorarmos. Não acha que seja possível que eu me apaixone por você?

Capítulo 23

Joy


 " Não acha que seja possível que eu me apaixone por você?". Certo, eu não estava pronta para escutar uma coisa dessas e muito menos responder à essa pergunta. O pior é que Michael continuava com os olhos fixos em mim, como se me cobrasse a resposta.

-Ah.. Eu não sei.. - Michael notou meu desconforto e sorriu

-Esquece isso, Joy. Eu só estava brincando. - estranhei ao notar um desapontamento em seu olhar - Vamos. Já está tarde e eu ainda tenho algumas coisas pra fazer.

-Ok. Acho que quando chegar na sua casa eu vou tirar um cochilo daqueles.. - falei após dar um longo bocejo

-Você parece bem cansada.. - Michael riu. Ele pegou na minha mão novamente, caminhando em direção ao estacionamento

(...)

  A volta para a casa até que foi divertida. Praticamente implorei para Michael trocar a música fúnebre para uma mais animada. Por fim ele acabou cedendo e se deixou contagiar pela música.
 Continuamos dentro do carro mesmo após chegarmos em casa. Michael parecia estar distante, mas o olhar estava tranquilo.

-Michael..

-Sim, pode falar. - disse ao despertar

-Obrigada por hoje, viu. Sério, foi incrível! E eu não digo só pelos presentes que me deu, e sim pela companhia, pela sua amizade e pela forma como me defendeu e protegeu daquela granfina.. - Michael se inclinou para mais perto de mim

 Uma onda de calor perpassou pelo meu corpo quando senti seu delicioso hálito de hortelã a centímetros de mim. Por um brevíssimo momento me perguntei como seria provar desses lábios rosados tão convidativos. Ah mas o que está acontecendo comigo, meu Deus?

-Joy? - Michael falou um pouco mais alto para me "acordar" - Você está me ouvindo?

-Oi? Ah, desculpe.. Eu.. Minha cabeça estava longe..

-É, eu percebi. Como eu estava dizendo, você não tem que me agradecer por nada. É de todo meu coração que faço isso.

-Eu sei.. Eu pareço uma bobona né? Mas é que eu nunca fui tratada dessa forma por outra pessoa que não fosse minha madrinha. Ainda mais amanhã que é..

-O que tem amanhã? - me calei antes que falasse o que não devo

 Acontece  que amanhã é meu aniversário e se eu pudesse apagaria da memória essa data. Não tenho motivos para comemorar, além do fato de nem minha madrinha estar aqui. A única pessoa para quem eu comentei foi com Remy, que jurou segredo. Prefiro ficar quieta e encarar como um dia qualquer.

-Nada.. Podemos entrar? Está frio aqui fora.

-Claro! - Michael abriu a porta para mim, educado como de costume
 
 Michael me ajudou a guardar as roupas no tal do closet. Demoramos tanto a organizar que ele acabou levando um lanche para comermos no meu quarto. Ele me mostrou também um presente surpresa. Um enorme urso de pelúcia que eu gamei assim que bati os olhos. E lógico que o apelidei de Michael. Agora eu tenho um cachorro, um urso e um bebezinho no meu ventre.  Filhos são o que não faltam! 
  Já se passavam das duas da manhã quando Michael decidiu ir dormir. Nós ficamos tanto tempo conversando e brincando com o Filhote que nem vimos o tempo passar. Eu nem estava cansada, mas foi fechar os olhos para o sono vir com tudo, e para a minha desgraça, os lábios de Michael não saíam da minha cabeça..

(...)
Michael


    Meu dia hoje foi totalmente exaustivo. Não sei se foi pelo fato de eu ter dormido tarde ou justamente por não ter conseguido dormir. Por isso esta manhã decidi me dedicar inteiramente ao trabalho. Para minha sorte eu teria que participar de três audiências, o que manteria minha cabeça focada exclusivamente nelas e não em Joy. 
 Eu não poderia continuar imaginando se ela acordou bem, o que fez durante o dia e o pior, controlar a ansiedade de chegar logo em casa para vê-la. 
  Quando finalmente cheguei em casa, recebo uma mensagem de Helena me lembrando do jantar que ela havia marcado em seu apartamento. Eu me esqueci completamente desse convite e pegará mal se eu recusar.

-Boa Noite, Michael. Quer que eu sirva o jantar? - Remy perguntou

-Não, obrigado. Tenho um jantar marcado com Helena. Joy já jantou?

-Não senhor. Ela se recusou a descer. Está tão triste, coitada..

-Mas por que? O que aconteceu com a Joy? - perguntei com um certo desespero em meu tom de voz

-Ela me pediu segredo, mas não é justo o que ela está fazendo.

-Então fala, Remy!!

-Joy faz aniversário hoje.. - meu coração falhou dentro do peito

-Como é?  Mas espera aí, por que ela escondeu isso de mim?

-Ela disse que não tinha motivos pra comemorar, então preferiu deixar a data passar. Como pode, né? Você faz vinte anos uma vez só na vida e..

-Remy, me faça um favor.

-Sim senhor. O que quer?

-Peça para o Bill encomendar um bolo de aniversário e você arrume uma vela. E é para agora!

  Enquanto Bill trazia o bolo, subi para o meu quarto, tomei um banho e vesti uma roupa bem confortável, porém elegante. É óbvio que não deixaria uma data tão especial como essa passar despercebida. Joy irá comemorar querendo ou não. 
 Pensei em ligar para Helena e desmarcar o jantar, mas minha prioridade era outra. Bill acaba de chegar com o bolo e eu não quero perder tempo. Já são quase oito da noite e se Joy estiver dormindo, serei obrigado a acordá-la. 
  Com a bandeja de bolo em mãos seria impossível bater na porta. Pedi então para Remy abrir para mim e o resto deixar por minha conta.
    Joy estava deitada na cama com os pés para o alto encostados na parede. Seus olhos estavam fechados, mas ela estava acordada, pois cantarolava alguma melodia.

-Será que a aniversariante do dia vai me deixar entrar? - Joy se levantou em um pulo, sem acreditar na cena que via

-Michael o que está fazendo? - apesar do choque, seus lábios se abriram para um lindo sorriso

-Ué, você não me chamou pra festa, então resolvi fazer uma pra nós dois.. Me ajude aqui! - Joy tirou o bolo das minhas mãos, colocando-o em cima da cama

-Como soube? Aposto que foi a Remy que abriu o bico!

-Foi sim e ela fez certo! Não me perdoaria se tivesse perdido essa data.. E como eu sei que não queria comemorar, decidi fazer uma surpresa. Se eu soubesse disso antes teria lhe dado um presente.

-Você endoidou? Olha bem pro meu armário! Tem roupa até dizer chega!

-Mas eu gosto de presentear, ainda mais se for pra você.. - Joy tocou meu ombro, afagando-o em seguida

-Quer saber? Esse bolo aqui é um baita presente e eu não vejo a hora de comer!

-Nossa, esqueci completamente dos pratos, trouxe só a faca.. Eu vou buscar e já volto.

-Não precisa, Mike! A gente come na mão mesmo.

-Sério? Eu vou ficar todo melado, Joy.. - resmunguei

-Deixa de ser fresco, cara! Me dê aqui essa faca. - Joy tentou pegar da minha mão, mas eu impedi

-Espera! Antes você tem que apagar as velas.

-Caramba, até vela tem? - ela riu - Ok, então canta aí.

-Cantar?

-Sim, ué! A gente só apaga as velas depois que canta o parabéns. - revirei os olhos me sentindo vencido

-Ok.. - bufei - Parabéns pra você nesta data querida. Muitas felicidades e.. o resto eu esqueci.

-Aah! - ela bateu palmas - Tudo bem, valeu a intenção..

-Então faça um pedido e assopre logo!

-Ok.. - Joy  fechou os olhos e assoprou a vela em seguida

-E aí, pediu o que?

-Deixa de ser curioso, Michael!

-Ah qual é, Joy? Não existe essa de que se contar o pedido não se realiza.

-Ok, vou contar um dos desejos... Eu pedi à Deus e à minha madrinha para que estejam sempre olhando por você e enchendo sua vida de felicidade, porque você, Michael, merece ser feliz em cada momento da sua vida. - me emocionei ao enxergar tanta sinceridade em seu olhar. Joy se preocupa tanto comigo que acaba esquecendo de si mesma

-Nossa.. Obrigado, Joy.. - ri timidamente - Mas hoje é seu aniversário, deveria ter pedido algo para você.

-Prefiro pedir pelas pessoas que eu amo.

  Notei que Joy, assim como eu ficou pálida. Senti meu estômago se contrair e meu coração bater mais forte do que nunca. Eu não soube interpretar sua resposta, não sei ela me incluiu como uma das pessoas que ela ama ou se quando diz amar é daquele jeito que estou imaginando.
 Merda, eu nunca me senti assim. Pareço um jovem de quinze anos, logo eu que sempre mantive o  controle nesse tipo de situação. Sempre lidei bem com as mulheres, tirando minha ex, claro, mas não consigo entender por que com Joy eu me desmancho dessa forma.

-Você, você quer um pedaço? - perguntou tentando quebrar o clima

-Claro! Comer com a mão é tão elegante.. - murmurei fazendo-a rir

-Só tem nós dois aqui, relaxa.. - Joy estendeu para mim e eu mesmo contrariado, comi um pedaço

-Até que está bom.. Você não vai comer? Vai fazer uma desfeita dessa?

-É lógico que não! - ela riu - Eu vou comer, mas espera.. Sua boca sujou. - Joy encostou dois dedos nos meus lábios para limpar. Percebi seus olhos fixos na minha boca, provocando em mim novamente a terrível onda de calor pelo meu corpo

-O que tanto olha? - perguntei em um sussurro

-Seus lábios parecem ter sido desenhados, Michael.. - sussurrou, tendo o olhos ainda fitando minha boca

-E são macios também..

  Não acreditei na minha cara de pau ao dizer isso, e pior, guiando seus dedos ao meus lábios novamente. Joy suspirou fundo quando os acariciou e eu me permiti inclinar meu rosto para mais perto do seu.

-São sim.. - respondeu com dificuldade - O que te torna ainda mais bonito..

-Eu deveria retribuir o elogio, mas não posso afirmar com certeza a textura dos seus lábios. E eu não vou tocar meus dedos neles..

-Como? - não consegui respondê-la,  pois meu desejo falou mais alto

 Acariciei a ponta do meu lábio inferior em seu queixo e subi até encontrar seus lábios entreabertos.  Suguei delicadamente sua boca, escutando um gemido baixinho vindo de sua garganta. Joy recebeu meus lábios, aprofundando minha carícia, e neste momento percebi que ela me queria tanto quanto eu a quero.
   Encaixei minhas mãos em volta do seu rosto, trazendo-a para mais perto de mim. Agora, nossas bocas estão se movendo em uma sincronia deliciosa, e sim, seus lábios são irresistivelmente macios e delicados. Me senti encorajado à penetrar minha língua quente, que foi deliciosamente chupada  por Joy, tornando nosso beijo ainda mais intenso. 
  Estava muito difícil respirar ou fazer alguma coisa para o meu coração parar de bater acelerado, assim como será impossível desgrudar nossos lábios. Eu queria muito mais, queria explorar cada centímetro da sua boca e Joy pedia o mesmo. Trouxe-a para o meu colo, deixando claro que não encerraria esse beijo tão cedo. 
 Suas unhas cravaram-se nos meus ombros e minhas mãos foram parar na sua cintura. Nossos lábios pareciam ter vida própria, pois se moviam tão rápido e tão sintonizados que ao invés de tirar nosso fôlego, nos dava combustível para nos manter juntos, como se fôssemos um só.

Capítulo 24

Michael


   Nos beijávamos tão intensamente que o oxigênio parecia não ter importância. Não sei exatamente quanto tempo durou nosso beijo, mas assim que senti minha ereção se avolumar, tratei de me afastar de Joy.
      Ela ainda continuava no meu colo, e meus dedos apertavam possessivamente sua cintura. Ela assim como eu estava ofegante. Os lábios inchados e avermelhados contribuíram para aumentar a maldita ereção. Joy ao perceber, pulou do meu colo, virando-se para a parede.

-Michael, me desculpe.. Eu não devia ter feito isso. - tentei me recompor e me levantei para ficar frente à ela

-A culpa não foi sua, eu.. eu não pensei no que fiz.. Joy, olha pra mim! - ela se virou, mas manteve os olhos fixos no chão - Me perdoe, Joy. Eu não quis te desrespeitar..

-Tudo bem, Michael. - ela murmurou - Será que podemos esquecer isso? Por favor..

-Claro.. É melhor eu ir para o meu quarto. Mais uma vez, me desculpe. - saí do quarto antes mesmo de esperar sua resposta

     Suspirei pesadamente ao fechar a porta do meu quarto. Fechei meus olhos e foi inevitável não lembrar do que aconteceu. Pude notar que meus lábios ainda formigavam, até mesmo o gosto do seu beijo ainda consigo sentir. Seu aroma floral e delicado está marcado em minha pele, assim como a dona dele está marcada em meu coração. 
     Por mais que eu tente negar, eu não posso continuar me enganando dessa forma. Estou perdidamente apaixonado por Joy e só Deus sabe como estou desesperado. Droga, eu tenho o dobro da sua idade, sou um homem conservador e careta. Nunca que uma jovem linda e cheia de vida como Joy terá olhos para mim. 
     Juro que minha intensão nunca foi usá-la, mas como eu poderia imaginar que esse sentimento fosse nascer novamente? Não quero que Joy pense que isso faz parte de uma "recompensa". Odiaria brigar novamente com ela, e pior, vê-la sair desta casa. E se isso acontecer, não sei como suportarei viver sozinho novamente.

(...)

    Minha noite foi péssima. O tempo todo me lembrei do beijo que dei em Joy, e apesar do meu coração disparar acelerado, a culpa também me importunava. Eu não sei com que cara vou olhar para Joy depois do que aconteceu ontem à noite. 
     Assim que desço a escada, sou surpreendido com a presença de Helena. Droga, com tudo que aconteceu, eu me esqueci completamente de ligar para ela e explicar porque não fui. E parece que ela veio cobrar pessoalmente..

-Bom dia, Helena..

-Bom dia? Como tem a cara de pau de agir como se nada tivesse acontecido?

-Helena, eu sei que fiz errado em não te ligar, mas eu tive um imprevisto e..

-Michael, não precisa mentir pra mim. Eu sei que estava trepando com alguma vadia, como sempre faz..

-Helena, por favor! - gritei lhe repreendendo - Não volte a usar esses termos. Já disse que tive um imprevisto, se não acredita azar o seu!

-Nossa, Michael.. Você nunca falou assim comigo..

-Me desculpe, mas você sabe que eu não gosto de ser pressionado, muito menos obrigado a dar satisfação da minha vida.

-Eu sei, me desculpe por essa cena. Eu me senti mal e exagerei.. Vamos esquecer isso está bem? - assenti concordando - Ótimo! Você vai para o escritório agora?

-Sim, eu vou. Pensei em tomar café antes, mas não é uma boa ideia.. -murmurei

-Bom, se você quiser nós podemos ir naquele Café perto do escritório.

-Ótimo. Pegarei minha pasta e já volto. - Helena depositou um leve beijo em meus lábios. Nem de longe foi a sensação que senti ontem a noite

Parece que dessa vez nem Helena será capaz de por minha cabeça no lugar.
Joy


     Fiquei com um baita medo de descer e dar de cara com Michael. Caramba, eu não sei como vou olhar pra ele depois de ontem.. Parece que foi meu primeiro beijo! Eu nunca senti nem o terço da sensação maravilhosa que Michael me deu, quando namorava o Kevin.
     Sei que pedi para esquecermos o que aconteceu, mas não será tão fácil assim. Michael não sai dos meus pensamentos e nem dos meus sonhos. Fazia muito tempo que não sentia meu coração despertar dessa maneira. O problema é que isso foi acontecer justamente com o Michael! Droga, eu tinha que me apaixonar justo por ele? 
      Não, isso não é paixão. Eu estou confundindo nossa relação, imaginando coisa onde não tem. Esse beijo não deve ter significado nada para ele e tenho certeza que Michael nem se lembra mais do que aconteceu ontem no meu quarto.
    Cansada de ficar trancada, desço para tomar meu café. Estou comendo por dois e isso tem me aumentado meu apetite.
    A casa estava silenciosa, então me senti segura para ir até a cozinha. Eu não perceberia que tinha alguém na sala se uma voz não tivesse chamado minha atenção.

-Hey, garotinha. - a voz imponente da mulher me fez sobressaltar

-Tá falando comigo?

-Tem mais alguém aqui além de nós duas? - ela sorriu debochadamente - Não sabia que ainda estava nessa casa.

-Pois é, então a senhora já tá sabendo. Licença!

-Calminha aí garota! - meu sangue ferveu quando a mulher segurou meu braço agressivamente - É a ninfeta do Michael, não é?

-Me chamou de que?

-De ninfeta. Não sabe mesmo o que significa? - ela cruzou os braços e me encarou

-Não, eu não sei. Poderia ser mais clara? - a mulher mudou totalmente suas feições ao ver que Michael se aproximava

Colocou um enorme sorriso falso nos lábios, como se sua "alfinetada" fosse coisa da minha cabeça. Michael ao notar nosso silêncio, nos olhou com um ponto de interrogação.

-Algum problema aqui?

-Nenhum, querido.. - ela sorriu - Só estava conversando um pouquinho com essa mocinha tão bonita.. - minha vontade era de rir dessa falsidade. Michael me fitou, como se esperasse uma confirmação

-É.. Só estávamos conversando. - assegurei

-Falando nisso, quando pretende ir embora? Michael me disse que está aqui temporariamente e..

-Isso não é pergunta para o momento. - Michael a cortou

-Bom.. Até nosso noivado resolveremos isso. - ela riu.

Pera aí, eu ouvi bem?

-Vocês vão se casar? Isso é verdade, Michael? - olhei diretamente para ele, cobrando uma resposta. Ao invés de falar alguma coisa, Michael desviou os olhos de mim

-Estamos planejando para um futuro não muito distante, querida. - ela se prontificou a responder

-Helena, por favor..

-É melhor eu deixar vocês dois a sós. Pelo que vejo estou atrapalhando. - saí tão apressada, que nem dei tempo para Michael contestar

     Eu precisava ficar sozinha e sabia exatamente para onde iria. Há alguns dias atrás, ao explorar a natureza desse rancho, descobri um pequeno ribeirão que faz parte de uma cachoeira do Horto Florestal. Eu simplesmente amei esse lugar, o adotei como meu refúgio. E agora tudo que eu procuro é tranquilidade para por em ordem meus pensamentos. 
    Me sentei em uma pedra de frente para a água cristalina. E por mais que a beleza do lugar me encante, eu não consigo enxergar nada à minha frente. As palavras de Helena não saíam da minha cabeça. Michael vai se casar com ela! Por que ele não me disse antes?

-Ele não pode se casar, não pode.. 

    A lágrima que rolou no meu rosto foi a confirmação do que eu já suspeitava. Estou completamente apaixonada por Michael. Eu nunca senti nada parecido antes, claro que gostei muito de Kevin, mas com o Michael.. Caramba, é um sentimento inexplicável, incalculável e doloroso. É óbvio que isso não passará de um amor platônico, ainda mais agora que ele está firme com essa mulher.

-Sabia que te encontraria aqui. - a voz doce e tranquilizadora de Michael me fez despertar 

-Michael? Como me achou aqui?

-Bom.. Digamos que eu sei tudo que acontece debaixo do meu teto. Acho que já lhe disse isso uma vez.. - Michael sorriu, sentando-se ao meu lado. Não aguentei a ansiedade e logo disparei a pergunta

-Michael, seja sincero comigo, tá?

-Pode falar, Joy..

-É verdade que você vai se casar com aquela mulher? - Michael me fitou por um bom tempo, sorriu de lado e suspirou

-Não, Joy. Eu não vou me casar com ninguém, pelo menos por enquanto.

-Eu não acredito em você.

-O que? - ele riu - E por que não acredita em mim?

-Porque quando duas pessoas estão apaixonadas, elas se casam.

-Hm.. não concordo com essa sua colocação. Hipoteticamente falando, estou apaixonado por uma pessoa e nem por isso estou pedindo-a em casamento.

-Hipoteticamente falando? - ri

-Sim.

-Ok.. Então essa pessoa não seria a Helena, né?

-Não, Joy.. Não seria Helena.

-Então por que você está com ela? Ou vai dizer que são só amigos? - Michael suspirou. Ele me puxou para perto dele, aninhando-me em seus braços

-Eu sou confuso, não é? Mas digamos que estou em fase de reajuste.. Um dia responderei a todas as suas perguntas. E nesse dia, Joy, você também me deverá uma importante resposta..

   Olhei para Michael procurando entender seu comentário. Ele apenas beijou minha testa e continuou abraçado a mim. Apesar do silêncio que se instalara, algo dentro de mim me dava a certeza de que eu não deveria temer, talvez pelo fato de estar nos braços do homem que estou amando.


Capítulo 25

Helena


     Não! Definitivamente não é possível que um homem tão astuto como Michael possa ter se deixado levar por aquela pivete! No início desconfiei que ele a trouxe para sua casa no intuito de arrancar um sexo e nada mais que isso. 
     Mas agora é diferente. Tá na cara que Michael está apaixonado por ela e eu não permitirei uma afronta como essa. Porra, será que ele não vê que sou quem está ao lado dele nos últimos cinco anos? Sou eu quem atura humilhações, traições, falta de respeito e nunca, nunca me queixei disso. 
Sempre tive a plena certeza de que uma hora Michael perceberia a mulher maravilhosa que eu sou, mas agora essa pobretona está estragando meus planos. Só que eu sou mais esperta e farei com que Michael veja o tipo de mulher que ela é.

-Credo, que bicho te mordeu? - Luna se espantou ao me ver entrar no escritório furiosa

-Um bicho peçonhento chamado Joy! - me sentei na cadeira, jogando no chão tudo que vi pela frente

-E quem é Joy?

-A nova ninfeta do Michael..

-Ah sim.. - ela riu - Está com ciúmes, Helena? Já deveria ter se acostumado..

-Você não está entendendo.. Dessa vez é diferente. Ele está de quatro por essa garotinha sem graça, morta de fome e ignorante. Eu a odeio!!

-Mas espera, você mesma disse que o Michael fica com várias mulheres. Ele pode estar encantado com essa menina, mas vai passar.. Afinal, o que ela pode ter de superior à você?

-Ela é jovem, tem energia e não posso negar que é muito bonita.. Não tanto quanto eu, claro. Mas o que mais me irrita é isso! Michael parece estar enfeitiçado por ela. Desde que essa piralha apareceu na sua vida nós nunca mais transamos! - confessei, explodindo o ódio preso dentro de mim

-Oh caramba.. Então a situação é séria mesmo..

-Nem tanto.. - sorri maliciosamente - Tratarei de mostrar para o Michael quem é a Joy.. Afinal, uma garota de rua não deve ter uma boa reputação, certo?

-Helena, Helena.. Onde você está indo? - perguntou ao me ver levantar

-Logo saberá... Até mais, querida!

    Eu já tinha um plano certo para por um fim nessa palhaçada. Para isso terei que posar de santa e boazinha para conquistar a confiança de Joy. Apesar de ser uma vadiazinha, é uma sonsa e será muito fácil enganá-la.
    Me certifiquei de que Michael havia ido para o escritório, e fui direto para sua casa. Não irei brigar, alfinetá-la ou disparar ofensas. Serei como sua amiga, pelo menos pelas próximas horas. 
Assim que minha entrada no rancho foi permitida, pedi para Remy chamar Joy. Não demorou muito para a garotinha aparecer. Parecia estar pronta para mostras as garras como uma verdadeira selvagem.

-O que quer comigo? Veio terminar o festival de ofensas?

                                             

-Não Joy.. Eu vim me desculpar.



                                        

-Como é? Tá tirando com a minha cara, madame? - minha vontade foi de esganá-la, mas respirei fundo e mantive a calma

-Joy, eu só quero me desculpar pelo jeito que te tratei hoje cedo. Eu estava com ciúmes..

-Tá e eu com isso? Acredito que Michael tenha deixado bem claro que somos apenas amigos!

-Sim, sim! Nós conversamos muito agora pouco e ele me explicou tudo. Eu me sinto tão mal.. - fingi um lamúrio - Me desculpe, Joy. Eu quero que saiba que eu não sou uma pessoa ruim. Acho que esse amor que sinto por Michael acabou me cegando.

-Ok, eu te desculpo, dona Helena. Mas vou falar pela última vez. Eu não tenho nada com o Michael.. - percebi uma insegurança em seu tom de voz

-Tem certeza? Não me parece convicta.

-Olha aqui, eu já disse que nunca tive nada com ele. Quer insistir nisso de novo?

-Ok, ok.. Não quero discutir. Só quero falar de mulher para mulher. Joy, você não é nenhuma criança. Pode muito bem enxergar Michael como um homem.

-Tudo que sinto por ele é admiração. Sou grata por tudo que ele tem feito por mim e só! E se isso te deixa tranquila, logo logo to vazando daqui.

-Bom, então poderíamos dar uma trégua. O que acha?

-Por mim tudo bem, moça. Eu não guardo raiva de ninguém, ainda mais de quem eu não conheço.

-Você tem um coração puro, Joy.. Obrigada. - quase vomito ao ouvir tanta falsidade sair da minha boca

-Que isso.. Bem, quer falar mais alguma coisa?

-Sim. Quero te convidar para almoçar comigo. Acho que será bom para nos conhecermos..

-Mas eu não posso sair daqui sem a permissão do Michael..

-Ah Joy, não precisa ter medo. Eu vou ligar para o Michael e o deixarei informado. Pode ser?

-Bom, se você vai avisar, eu fico mais tranquila. Eu vou colocar a sandália e já venho!

(...)

     Foi uma verdadeira prova de fogo ter que aguentar a presença dessa menina. Eu podia muito bem soltá-la em um bairro distante como se fosse um cachorro vira-lata, o que ela realmente é. 
Propositalmente, a levei no restaurante mais sofisticado da cidade. Antes da minha cartada final, farei questão de humilhá-la sutilmente. Está na hora de alguém mostrar à essa garota que o lugar dela é na sarjeta e não no convívio de pessoas elegantes e cultas.

-Você não vai comer, Joy? - perguntei ao ver que ela mal tocou no prato

-Não estou me sentindo muito bem.. 

-Está enjoada?

-Um pouco.. Mas vai passar. - assegurou, bebericando o copo de suco. Decidi que era o momento ideal para por meu plano em prática

Tirei de dentro da minha bolsa uma pulseira de brilhantes. Uma joia caríssima que Michael me deu há uns meses atrás. Coloquei-a no meu pulso, esperando chamar a atenção de Joy.

-Acha que ficou bem em mim? - perguntei. A menina analisou a joia em meu pulso e em seguida me olhou

-Sim, fica muito bonita em você, senhorita Helena..

-Obrigada. Michael tem um excelente bom gosto por joias..

-Foi presente dele?

-Sim, querida. Um dos milhares de presentes que ele costuma me dar...

-Ah sim.. - ela abaixou a cabeça e voltou sua atenção à comida

-Quer pra você?

-O que?

-A joia. Estou oferecendo-a para você como presente.

-Obrigada dona Helena, mas eu não vou aceitar não. É uma pulseira muito bonita e não tem sentido eu usar algo tão caro assim.

-Tudo bem.. Você quem sabe.. - percebi que Joy estava pálida e antes mesmo de eu perguntar o motivo, ela se levantou em um pulo

-Licença, eu preciso ir no banheiro! - Joy tampou a boca com as mãos e saiu correndo pelo restaurante

Aproveitei esse momento sozinha e com muito cuidado coloquei a pulseira em sua mochila. Agora falta a última parte do meu plano.
 Me levantei da cadeira ao ver Joy se aproximar.

-Está tudo bem com você, querida?

-Agora sim.. Será que eu posso voltar pra casa?

-Claro. Eu vou ao banheiro e já volto. Pode me esperar lá na mesa?

-Claro..

Assim que voltei para mesa, peguei minha bolsa e tirei o dinheiro para pagar a conta. Remexi a bolsa no intuito de mostrar que não estava encontrando minha pulseira.

-Cadê ela..? - murmurei

-Aconteceu alguma coisa?

-Não encontro minha pulseira.. - aumentei meu tom de voz para chamar a atenção do gerente

-Algum problema, senhorita? - o homem perguntou

-Sim. Acho que fui furtada!

-Mas como? Isso não acontece no nosso restaurante.. - tentou se explicar

-Pois lhe digo que aconteceu sim! Exijo que revistem todos que estão aqui dentro. Perdi uma joia caríssima e não admito ficar sem ela!

-Tudo bem, chamarei nossos empregados..

-Joy, mostre sua mochila para ele.. - ela me olhou espantada

-Eu? Mas por que?

-Todos serão revistados, meu bem.. Isso é de praxe. Vamos logo, por favor. - pedi delicadamente. Joy assentiu, entregando a mochila para o gerente revistar

-Obrigado, senhorita. - o rapaz abriu todas as repartições da mochila e não demorou muito para ele encontrar a pulseira - Por acaso é isto que está procurando? - disse, estendendo a pulseira para que  eu pudesse ver

-Mas o que? Eu não peguei ela, Helena. Eu juro!

-E como você explica a pulseira na sua bolsa? Meu Deus.. Não posso acreditar nisso.. - fingi estar decepcionada

-Dona Helena, eu não sei como isso aconteceu, mas eu juro que não roubei nada!

-Senhorita, quer que eu chame a polícia? - o gerente perguntou. Joy me olhou em súplica

-Eu sinto muito.. - suspirei - Pode chamar.

    Os seguranças rapidamente vieram até ela, impedindo uma possível fuga. Eles a levaram para fora do restaurante sob seus protestos. Joy gritava a plenos pulmões que era inocente e blá blá blá. 
E agora eu quero ver a cara de Michael ao saber que a mendiga que levou para casa não passa de uma ladrazinha. Agora sim ela estará fora do meu caminho, como sempre deveria ser.

Capítulo 26

Joy


      Isso não pode estar acontecendo! Eu nunca, nunca roubei ninguém, nem mesmo na época em que eu passava fome. Minha madrinha sempre me disse que cada um tem o que merece e que por isso não deveríamos desejar o que é do outro. 
 E agora eu estou em uma cadeia, sozinha e sem ter noção do que acontecerá comigo. Meu maior medo é que Michael acredite que eu furtei a pulseira da Helena, e com isso me expulse da sua vida.

-Você tem direito a um telefonema. - o delegado veio me avisar

-Eu não vou poder sair daqui? Por favor, acredite em mim. Eu não roubei nada!

-Não é o que a vítima disse. Olha, mocinha, você não é a primeira pivete que vem parar atrás das grades acusada de furto. Estou sendo bom e lhe permitindo ligar para um familiar. E é melhor ir logo antes que eu mude de ideia.

-Não, eu vou sim.. - assenti

-Carcereiro, pode algemá-la e a leve para a minha sala.

 Eu já sofri muitas humilhações na minha vida. Já sofri preconceito, injustiças e eu me pergunto se será sempre assim. Eu até encararia isso com resignação, mas meu filho não merece passar por isso. Farei tudo que estiver ao meu alcance para protegê-lo acima de tudo.

-Você tem dois minutos. - o carcereiro informou

- Eu não vou ter coragem.. - murmurei  - O senhor pode ligar pra mim? - o delegado suspirou e acabou concordando

-Me passe o número.. - escrevi em um papel o número do telefone da casa do Michael, que por insistência dele eu tive que decorar

 Deus sabe a vergonha que estou sentindo. Minha vontade era de nem mesmo pedir ajuda à Michael. Tenho certeza que ele vai preferir acreditar numa mulher fina como Helena do que numa morta de fome como eu.

Michael


-Já passou da hora dela chegar, Remy! - andava de um lado para o outro tentando extravasar minha aflição

-Ela está com a Helena, não se preocupe. Elas devem ter ido passear..

-Passear? Eu não engoli nem a ideia delas terem saído para almoçar! - o telefone tocou e eu mais que depressa corri para atender - Alô?

-Boa Tarde. Poderia falar com Michael Jackson?

-É ele mesmo. O que quer? - perguntei sem um pingo de paciência

-Sou  o Delegado Simon Sanders, do DP da cidade de Miami. O senhor confirma ser responsável por Maria da Luz García?

-Sim, sim.. O que aconteceu?

-Ela está sob nossa custódia. Segundo ela, você é o único familiar.

-Mas por que ela foi detida? - gritei sem nem mesmo me importar se estava diante de um delegado

-Furto em flagrante. A vítima prestou queixa e a garota está detida. - não esperei para dizer que estava indo pra lá. Encerrei a ligação, peguei a chave do carro e segui para a delegacia

(...)

-Onde está a Joy? - perguntei ao entrar na sala do delegado. Ele me olhou surpreso ao me reconhecer como promotor de justiça

-Se refere à Maria da Luz?

-Que seja! Eu quero vê-la agora! - exigi

-As coisas não são tão simples assim, senhor promotor. A garota está detida sob acusação de roubo.

-Mas ela tem todo o direito de receber visitas. Faltou à aula de direitos fundamentais? - ele se calou

-Vou pedir que indiquem a sala de espera..

 O carcereiro me levou até a sala de visitas e eu tive que esperar por quase vinte minutos. Não entrava na minha cabeça que Joy foi capaz de ter essa atitude. Isso não passa de um mal entendido, tenho certeza. 
  Ergo a cabeça quando escuto a porta se abrir. Me doeu ver como Joy estava abatida e apavorada. O carcereiro tirou sua algema e nos deixou a sós. Joy continuava com a cabeça baixa, provavelmente se sentindo envergonhada.

-Vem aqui. - falei. Joy levantou a cabeça e pude ver seus olhos marejados. Abri meus braços para ela, que rapidamente correu até mim

-Michael, eu juro que não roubei ela, eu juro.. - enxuguei suas lágrimas, que desciam como torrentes

-Ela quem, meu amor? Me conta o que aconteceu..

-A Helena. Eu não sei como a pulseira dela foi parar na minha mochila, mas eu juro por Deus que eu não roubei!

-A Helena? Foi ela que te acusou?

-Sim.. Ela me levou para almoçar e depois.. bem, você já sabe.. Michael, acredita em mim, por favor!

-Hey, não chore. Precisa se acalmar..

-Mas eu não sou uma ladra! Eu nunca roubei nada de ninguém, nem quando eu vivia na rua!

-Eu sei que você não é ladra, Joy.. Acha mesmo que eu penso isso de você? - sorri, na tentativa de tranquilizá-la

 Não é preciso que ela me diga mais nada, pois eu já sei exatamente o que aconteceu. Joy foi vítima de uma cruel armação de Helena. Ora, eu tenho vinte anos de profissão e já vi esse tipo de coisa acontecer. Mas eu não permitirei que Joy seja prejudicada por Helena ou por qualquer outra pessoa.

-É sério isso? Você acredita em mim?

-E você tem alguma dúvida? - perguntei, acariciando sua bochecha úmida pelas lágrimas - Joy, eu te coloquei dentro da minha casa e nunca, nunca precisei desconfiar de você. Conheço seu caráter, querida, e jamais acreditaria numa mentira como essa. - Joy voltou a chorar, me abraçando com mais força. Ela estava emocionada e isso me tranquilizou

-Eu pedi tanto à Deus que você não brigasse comigo.. Eu só tenho você, Michael e não suportaria ver você decepcionado comigo..

-Não diga isso, meu bem.. - apertei Joy em meus braços, beijando todo o seu rosto. Eu queria que ela sentisse a minha proteção, o meu carinho e o meu amor - Olha pra mim. Eu vou tirar você daqui, ok?

-Mas como? A pulseira estava na minha mochila..

-Você confia em mim? - ela assentiu - Responda!

-Sim, eu confio..

-Então fique tranquila.. Vou tirar você daqui agora mesmo. - afastei meus braços de Joy, mas ela me impediu

-Não me deixa aqui sozinha, por favor! Eu tenho tanto medo.. - me aproximei dela novamente, envolvendo minhas mãos em seu rosto

-Do que você tem medo?

-Tenho medo de você não voltar, assim como todos os outros.

-Isso não vai acontecer. - assegurei - Nunca vou te abandonar, nunca! Nem que eu fosse louco deixaria você escapar..

 A minha vontade era de declarar meu amor ali mesmo. De dizer à ela que nunca a deixaria simplesmente porque não consigo viver sem sua companhia. De que a amo tão loucamente que sou capaz de fazer o impossível para vê-la feliz. 
 Mas agora esse não é o momento, só que eu não desistirei. Estou convicto de que não devo ter vergonha de expor meus sentimentos para ela, mesmo correndo o risco de levar um toco. Vou declarar o meu amor e se necessário, lutar para conquistá-la.

Capítulo 27

Michael


     Assim que Joy se acalmou, saí da delegacia com destino certo à casa de Helena. Minha vontade é de estrangular essa mulher até perder minhas forças, mas eu não sou esse tipo de homem, embora sinta um ódio feroz dessa mulher. 
   Respirei fundo e toquei a campainha. Logo Helena apareceu com o semblante entristecido. Na certa imagina que eu já saiba da prisão de Joy.

-Oi, Michael.. O que faz aqui? - perguntou com uma voz doce

-Vim ver como está depois do desagradável incidente nesta manhã.

-Foi terrível.. - suspirou - Ainda não consigo acreditar que essa mocinha tenha tido coragem de me roubar.. Você deve estar decepcionado.

-Sim, eu estou. Mas não é com a Joy.

-Como? -Helena me olhou sem entender

-Estou decepcionado com essa sua cara de pau! - gritei, sacudindo seus braços. Helena me olhava apavorada, tentando se soltar de mim

-Você enlouqueceu? Sua Lolita me rouba e você desconta em mim?

-Deixa de ser ridícula! Acha mesmo que sou idiota? Se ofendê-la dessa forma novamente você verá do que sou capaz!

-Michael, eu não estou entendendo nada! - Helena forçou um choro patético

-Não tente me fazer de bobo, porque isso eu não sou. Você armou pra cima da Joy! Fez tudo premeditado para ela ir presa e claro, para que eu acreditasse nessa mentira!

-Então foi isso que ela disse? - Helena riu - Como você é iludido, Michael..

-Joy não precisou me falar nada. Eu mesmo saquei o que estava acontecendo. Como você pôde ser tão baixa, Helena?

-Baixa? Será que não vê que você está caindo na lábia dessa maldita? Essa garota quer te dar um golpe, acorda!!

-Não se preocupe, querida, eu já acordei. Acordei a tempo de perceber a cobra que você é! E escuta só o que vou dizer. Você vai naquela porcaria de delegacia e vai retirar a queixa!

-Acha mesmo que vou fazer isso? - debochou

-Ah você vai sim.. - ri - Você sabe muito bem do que sou capaz. Posso destruir essa sua carreira de advogada de merda em um piscar de olhos!

-Não teria coragem..

-Paga pra ver! Ainda serei bondoso e permitirei que continue no meu escritório, mas longe do meu caminho. Agora vamos! - puxei seu braço com força, arrastando-a para fora do apartamento

(...)

    Mesmo relutante, Helena procurou o delegado para retirar a acusação. Ordenei que dissesse que a pulseira teria sido um presente e por conta de um "esquecimento", imaginou ter sido furtada. Assim que concluiu seu novo depoimento, Helena saiu da sala, vindo até mim.

-Michael..

-Suma da minha frente. - cortei - E é bom que eu não veja sua cara nos dias que eu for no escritório. - virei-lhe as costas e fui para a sala de espera

(...)

    Estava ansioso para ver Joy livre da cadeia. Esse lugar não é pra ela e se depender de mim, nunca mais passará por nada parecido novamente. 
   Assim que me viu, Joy abriu um sorriso de alívio e felicidade, correndo para os meus braços. Meu coração disparava no peito e minha vontade era de enchê-la de beijos, mas eu tinha que me controlar, pelo menos até estarmos em casa.

-Eu vou sair daqui, Mike?

-Vai e é agora! Vamos?

-Mas.. mas como conseguiu isso?

-Helena retirou a queixa. Você está livre! - encaixei Joy em meu colo, ignorando a presença do guarda

-Sério? Obrigada, Mike, de verdade!

-Não tem que me agradecer, baby. Você é inocente e a justiça foi feita. Agora esqueça o que aconteceu e coloque um sorriso lindo nesse rosto.. Vamos pra casa?

-Vamos.. - ela sorriu, segurando minha mão

(...)

  Assim que chegamos, Joy subiu para o quarto, explicando que precisava tomar um banho. Liberei Remy mais cedo e decidi eu mesmo preparar algo para Joy comer. Eu estava nervoso e ansioso para ficar a sós com ela.

-Você tá cozinhando? - Joy perguntou ao me ver concentrado no fogão

   Ela consegue ficar ainda mais linda depois do banho. Seus cabelos ruivos estão molhados e o rosto vermelho causado pela água quente. Desliguei o fogo para dedicar toda minha atenção à ela.

-Pois é.. Remy já foi dormir, mas você precisa se alimentar. Está o dia todo sem comer nada.

-Não precisava se preocupar, pra falar a verdade nem fome estou sentindo. - Joy se sentou no balcão, com as pernas delicadamente cruzadas

-Você sem fome? Só pode estar doente.. - ela riu - Por que está com essa carinha, posso saber?

-Estou um pouco envergonhada.. Causei a maior confusão hoje.

-Sabe, depois que você apareceu na minha vida eu passei a adorar uma confusão. - ela riu mais abertamente

-Para.. Eu tô falando sério, que coisa.. Posso te fazer uma pergunta?

-Claro..

-Em nenhum momento duvidou de mim? Não passou pela sua cabeça que eu poderia realmente ter roubado a pulseira? - suspirei fundo e me aproximei de Joy. Descruzei suas pernas para me encaixar no meio delas, enquanto acariciava seu rosto

-Nem por um segundo. - Joy levou as mãos até meus ombros, mantendo os olhos fixos nos meus - Consigo enxergar seu coração e tenho certeza do quão puro ele é.

-Não sabe como é importante pra mim ouvir isso de você..

-E por que é importante?

-Porque você é especial e eu jamais vou esquecer o que tem feito por mim. Michael, sem querer ser chata, mas.. posso fazer outra pergunta?

-Pode, Joy.. - sorri

-Lembra quando disse que me ajudaria a conseguir um emprego?

-E pra quê você quer trabalhar?

-Ué, um dia eu vou ter que ir embora dessa casa. Vou ter que me virar sozinha e um emprego é fundamental!

Senti um aperto no peito ao ouvir isso. Eu sei que esse era o nosso acordo, desde o dia que ela veio pra cá, mas agora tantas coisas mudaram.. Eu não suportaria viver sem Joy. Definitivamente, não.

-Então você ainda quer ir embora daqui? - não consegui esconder minha decepção

-Não é questão de eu querer ou não. Essa casa é sua, Michael e eu não posso esquecer qual é o meu lugar.

-Se quer um emprego eu te dou. Mas com uma condição.

-Qual condição?

-Que você fique aqui, pelo menos por mais um tempo..

-Sério que você quer que eu continue aqui? - ela sorriu radiante - Mas por que? Por que quer que eu fique?

-Porque seu lugar é ao meu lado, Joy. - eu sabia que ela não conseguiria falar nada, então decidi prosseguir. - Porque eu preciso de você..

-O que você quer dizer com isso, Michael?

-Ainda não percebeu, Joy? Não percebe o meu olhar em você? O jeito como te abraço, como te acaricio e principalmente, a forma como te beijei no seu quarto? Realmente não sabe o que isso quer dizer?

-Eu.. eu.. - encostei meu polegar sob seus lábios, impedindo-a de falar

-Eu juro que não sei como isso aconteceu, mas.. eu me apaixonei por você, Joy. Juro que tentei evitar que isso acontecesse, travei uma luta dentro de mim, me forçando acreditar que era apenas coisa da minha cabeça, mas não é. Não sabe como está sendo difícil pra mim confessar isso diante de você. Uma jovem linda, encantadora e cheia de vida.. Por favor, não pense que quero assediá-la. Droga, por que eu fui falar isso.. - Joy me calou ao encostar sua boca na minha, roubando um selinho

-Você fala demais, Michael.. - ela riu, voltando a unir nossos lábios

    Eu não sei exatamente o que significou esse beijo, se ela corresponde ao meu sentimento ou se ela me acha um ridículo ao despejar tudo que estava preso em meu coração. 
     Só sei que decidi me entregar à esse beijo, assim como ela está se entregando. Seus lábios são tão macios, tão delicados, que torna o beijo ainda mais delicioso. 
    Eu só peço a Deus para Joy me entender e se não for pedir muito, que possa corresponder nem que seja um pedacinho desse grande amor que sinto por ela, um amor que cresce mais a cada segundo que passo ao seu lado.

Capítulo 28

Joy


     Eu não sei o que deu em mim para beijá-lo dessa forma, mas eu fiquei tão feliz e emocionada com o que ouvi, que minha primeira reação foi demonstrar que esse sentimento é mútuo. 
 Mas em determinado momento, me dei conta de que não é tão simples assim. Não posso deixar de esquecer que estou grávida e que Michael não tem noção disso. Pensar nesse fato me fez afastar dele, interrompendo nosso beijo.

-Eu disse algo errado, Joy? - Michael estava sem fôlego, assim como eu - Devo criar esperanças quanto ao seu sentimento por mim? 
 
  Tantas perguntas estavam me deixando confusa. Eu queria confessar meu amor, dizer que o amo como nunca amei alguém, que é ao seu lado que eu quero ficar. Mas um ato como este, implicará várias consequências que envolvem o meu bebê.

-Joy, me responda! - pediu aflito

-Michael, eu estou surpresa.. - sorri nervosamente - Eu não sei bem como dizer que..

-Não precisa falar mais nada. - Michael alterou a voz - Me desculpe por toda essa palhaçada. Por favor, esqueça o que aconteceu aqui. - Michael se afastou de mim, visivelmente envergonhado

-Michael, pera aê.. - ele me ignorou e a passos largos saiu da cozinha - Mas o que deu nele?

    Depois dele me deixar falando sozinha, minha vontade era de ir atrás dele e dizer poucas e boas, mas acho que o melhor a ser feito agora é deixá-lo sozinho. Tenho certeza que ainda teremos tempo para continuar essa conversa.

(...)

  Acordei mais cedo do que costumo, justamente para ver Michael sair para o trabalho. Eu sei que quando ele está envergonhado ou magoado, tenta ao máximo se afastar das pessoas, então decidi tomar café com junto com ele.

-Bom dia, Remy! O Michael está tomando café?

-Bom dia, querida.. Ele acabou de sair. Não ficou nem para tomar café.

-Caramba..

-Mas ele deixou um recado pra você. - avisou enquanto despejava o suco no meu copo

-Pra mim?

-Sim. Bill está a sua espera para levá-la ao escritório do Michael. Ele disse que já conversou com você ontem a noite.

-Será que é sobre o trabalho ou..

-Me desculpe? - Remy perguntou sem entender minha dúvida

-É coisa minha. Bom, é melhor eu ir agora. Até mais, Remy!

-Menina, você tem que tomar seu café.. Joy!! - eu não tinha tempo para dar explicações

 Estava louca para ver Michael e até mesmo, tentar terminar o que ele não deixou eu dizer ontem a noite.

(...)

 Eu não imaginava que seu escritório fosse tão grande e sofisticado. Se não fosse Bill para me auxiliar, eu estaria perdida no meio desse povo andando pra lá e pra cá de terno e gravata. Ele também indicou o andar da sala de Michael, e mesmo morrendo de medo de elevador, criei coragem e entrei naquela "coisa".
 Bill me disse que eu deveria informar à secretária sobre a minha presença, para assim permitir minha entrada na sala de Michael. O problema é que não encontrei a tal secretária, então decidi entrar na sala mesmo sem ser convidada.

-Michael, desculpa entrar assim, mas é que.. - meu sorriso se desfez e minha voz sumiu quando vi a seguinte cena

 Michael sentado em uma poltrona enquanto uma bela mulher estava montada em sem colo, beijando seu pescoço. Assim que notaram minha presença, ele tratou de se afastar dela e ambos me olhavam assustados. Michael estava ainda mais pálido, se preparando para levantar e vir até mim. 
  Me livrei do choque momentâneo e ordenei minhas pernas a se moverem. E então eu corri. Corri o mais rápido que consegui, ignorando seus gritos. Pra minha sorte o elevador estava disponível e eu aproveitei para sair dali.

-Moço, segura aí! - gritei para o senhor que pegava o elevador

  Só consegui respirar aliviada quando a porta se fechou. Ainda consegui ver Michael tentando me alcançar, mas provavelmente ele deve ter chamado o outro elevador. 
 Assim que cheguei na recepção, verifiquei se Michael estava por perto e pra minha sorte, o elevador dele ainda estava no segundo andar.
Aproveitei para correr para fora do prédio, sem nem mesmo me importar com a forte chuva que estava caindo.
 Eu queria chorar e xingar Michael de todos os palavrões que conheço, e depois socá-lo até perder minhas forças. Porra, ontem ele disse que estava apaixonado por mim e hoje pego ele quase transando com a secretária! Ele é igualzinho ao Kevin, e eu pensando que ele fosse diferente..
 Agora um pouco mais tranquila, diminuí os passos. Eu não podia continuar correndo ou acabaria caindo no asfalto molhado e claro, machucaria o meu bebê. Deus sabe a vergonha que estou sentindo. Vergonha e raiva!

-Droga, como eu posso continuar sendo tão idiota?

-Costuma falar sozinha? - não acreditei que era Michael dirigindo lentamente um carro próximo a mim

-O que você está fazendo aqui? Veio brigar comigo por ter atrapalhado seu namoro com aquela oferecida?

-Oferecida? - Michael riu - Joy, entra aqui. Me deixe explicar o que você viu.

-Olha aqui, cara eu não sou criança não tá? Vai dizer que eu não vi você aos beijos com sua secretária?

-Não. Você viu ela me beijando. - tentou se justificar. Cretino!

-Você é um canalha! - gritei expelindo minha raiva

-Joy, entre nesse carro agora. Você vai adoecer!

-Vai cuidar da sua vida! - voltei meu olhar para direção que eu caminhava, mas a freada brusca do carro me fez paralisar

 Michael saiu do carro com o semblante enfurecido e confesso que eu sentia falta dessa sua bravura. Me fez lembrar do dia que ele me obrigou a ficar em sua casa, mas no momento estou irritada demais para me deixar levar pelo seu charme.
 Michael me pegou pela cintura, encostando-me no capô do seu carro. As gotas de chuva já havia o deixado ensopado, deixando seus cachos escorridos pelo seu rosto.

-Será que agora pode me ouvir?

-Ouvir o que, Michael? O que eu vi naquela sala não precisa de legenda. Você é um mentiroso assim como todos os os homens são! - distribuí uma série de socos em seu peito, e o que mais me deixava irritada era ver um sorriso estampado em seu rosto

-Joy, para! - pediu ao segurar meus punhos - Está com ciúmes de mim?

-É isso que você quer ouvir? Ok. Estou sim morrendo de ciúmes e agora mais ainda morrendo de raiva também! - os olhos de Michael pareciam ter ganhado um brilho a mais. Ele estava surpreso, assim como eu fiquei ao ver minha coragem em confessar

-Joy, eu juro que você entendeu tudo errado.. Lucy sentou no meu colo e eu fiquei sem ação. Então você abriu a porta e viu aquela cena..

-Coitadinho, você foi assediado.. Uma mulher gostosa montada no seu colo e você "sem ação". Ah vai te catar!

-Acredita em mim, meu amor.. - fraquejei ao ouvir Michael me chamando de "amor" - Não vou ser hipócrita de dizer que nunca me envolvi com Lucy, mas juro pela vida da minha mãe que isso foi há meses atrás. Como eu ia adivinhar que ela  se jogaria em cima de mim?

-Pareço uma idiota.. - murmurei

-Idiota por sentir ciúmes? - provocou - Caramba, Joy.. Olha o jeito que você me deixou..

-Eu deixei? A culpa é toda sua!

-Como é? - ele riu perplexo

-Se tivesse me deixado falar, isso não teria acontecido. Mas não, você me deixou falando sozinha e subiu todo afetado pro seu quarto!

-E o que você ia dizer, hum? " Michael eu te agradeço por tudo que fez por mim, eu gosto muito da sua amizade, mas você está confundindo as coisas e blá blá blá.."

-Como você é ridículo! Eu não ia falar nada disso, embora você esteja merecendo!

-Ah é? O que ia dizer então? - Michael cruzou os braços, esperando a resposta

-Eu ia dizer que nunca me senti tão feliz e amada como ontem.. E que definitivamente não esperava que um homem tão perfeito e maravilhoso como você fosse corresponder aos meus sentimentos.

-O que..? - Michael riu, incrédulo - Como assim aos seus sentimentos?

-Como assim o que, Michael? Se eu entendi bem você disse que está... apaixonado por mim.. - eu não sei se tremia pelo frio congelante ou pelo nervosismo que eu sentia

-Vem comigo.. - Michael me levou para dentro do carro ao perceber meus tremores - Tire essa camisa molhada e vista meu paletó - disse estendendo a roupa seca

 Mesmo envergonhada, me livrei da camiseta molhada e rapidamente me cobri com o paletó. Michael ao me ver devidamente vestida, me puxou para o seu colo, encaixando-me confortavelmente em seus braços.

-Me diga que eu não entendi errado.. - pediu - Você..

-Sim. Eu desenvolvi um "amor platônico" por você.. Mas pelo que eu vejo ele não é tão platônico assim.. - ri timidamente. Michael abriu um largo sorriso, acariciando meus lábios

-É real, minha princesa.. Agora mais  do que nunca eu sei que é real.. Por que diabos você não disse antes?

-Eu? Você nem gostava de mim! Ou esqueceu de todas as patadas que você dava?  Se eu tivesse mostrado interesse você teria rido de mim..

-Sua boba.. - Michael roçou seu nariz no meu, mas tive que me afastar para espirrar - Oh não.. Você já está gripando. Vamos pra casa.

-Espera.. - tirei com os dedos os fios de cabelo que estavam grudado em seu rosto.

 Eu precisava ter a certeza que isso realmente está acontecendo e não apenas um sonho. Encostei meus lábios na sua bochecha, depositando um demorado beijo no local. Michael sorriu, me apertando mais forte em seu colo. Não demorou muito para nossos lábios se unirem, dessa vez sem medo ou insegurança. 
 E por um momento eu esqueci tudo.  Desde a tempestade caindo lá fora  até mesmo os problemas. Eu estou feliz e Michael também. Estou nos braços do homem que eu amo e que eu sei que também me ama na mesma proporção. E agora eu sei com total convicção que ele é o presente que tanto esperei. Uma nova chance que Deus está me dando para ser feliz novamente.

Capítulo 29

Joy


     Assim que chegamos em casa, subimos para os nossos quartos. Precisávamos de um banho urgente antes que piorasse o resfriado. Claro, cada um em seu quarto!
Ainda não consigo assimilar o que aconteceu. Nunca poderia imaginar que Michael é apaixonado por mim, e mais que isso, que eu teria coragem de me declarar também. Ainda não sei o que vai acontecer com nossa relação. 
     Quando vínhamos pra casa, não tocamos no assunto. Mas devo dizer que foi um silêncio agradável. Passei o tempo todo com minha cabeça apoiada em seu braço, ora ou outra recebendo suas carícias em meu cabelo. Uma sensação tão gostosa que parecia nunca ter fim.
     Terminei meu banho, sequei meus cabelos e antes de ir para o quarto, vesti um roupão. Estava frio demais para sair apenas de toalha. 
   Amarrei meu cabelo em um coque frouxo, caminhando tranquilamente de volta ao quarto. Quase grito, assustada, ao ver Michael parado na porta. Ele vestia apenas uma calça de moletom, o peitoral com gotículas de água e os cabelos soltos e úmidos. Em sua mão ele trazia uma caneca, a qual estendeu para mim.

-Vai ajudar a não gripar.. - explicou

-Obrigada.. - murmurei - Você não vai beber?

-Estou bem.. - ele entortou um sorriso

Minha respiração estava falha. Não conseguia me concentrar em nada que não fosse no seu corpo parcialmente a mostra bem na minha frente. Sempre imaginei que ele fosse lindo, mas ainda assim me surpreendi.

-Não vai beber, querida? - perguntou ao notar minha "paralisia"

-Vou.. - bebi um único gole do chá e devolvi. Detesto essa bebida, ainda mais amarga desse jeito

-Você é pior que uma criança.. - ele riu - Se sente bem?

-Sim.. - hesitei - Quer dizer, não muito.. Eu.. eu estou um pouco envergonhada. - Michael se aproximou um pouco mais, pousando as mãos em minha cintura

-Está com vergonha de mim ou do que fizemos no carro? - provavelmente corei ao me lembrar dos beijos quentes que trocamos

-Sinto vergonha do que estou sentindo agora. - Michael franziu o cenho. Prossegui - Sinto vergonha por desejar você.. - Michael abriu a boca, como se estivesse surpreso - Eu nunca senti nada parecido..

-Amor.. - ele riu - Não precisa sentir vergonha por ser mulher. Isso que está acontecendo é normal. E sabe, fico feliz em saber que desperto seus instintos.. Isso é tão fascinante.. - Michael sorriu

-O que é fascinante?

-Você. Consegue ser encantadoramente jovem e delicada, mas também é uma mulher irresistível e sensual.. - abaixei minha cabeça, embaraçada

-Que papo é esse, Michael? - ele riu, erguendo minha cabeça para olhá-lo

-É "papo" de um homem completamente apaixonado.. - murmurou, deslizando os lábios pelo meu pescoço. Senti todo meu corpo se arrepiar pelo contato - Diga o que está sentindo.. - sussurrou

-Não vou conseguir..

-Diga, Maria.. - provocou, mordiscando de leve o lóbulo da minha orelha

-Meu corpo está queimando.. Parece que meu coração vai sair do peito..

-E o que você quer que eu faça? Peça, querida.. Farei o que você quiser..

Eu não conseguia raciocinar ou pensar em nada além de sentir seus lábios nos meus. E mais que isso, sentir seu corpo ainda mais próximo do meu. Tudo que meu coração pede é para fazer amor com Michael.

-Me beije, por favor.. - pedi sôfrega

-É só isso que você quer? Hum? - Michael me impediu de responder

   Sua boca me invadiu rápido e sem nenhuma delicadeza. Ao invés disso me assustar, aconteceu justamente o contrário. Eu gostei, gostei muito e queria mais. Queria que Michael me amasse de todas as maneiras possíveis. 
    Nossas bocas duelavam em uma sincronia feroz, violenta. As mãos de Michael tocavam todo meu corpo, e eu estremeci ao sentir seus dedos apertarem minha bunda. Impedi meu gemido de escapar quando senti sua ereção tocar minha barriga. Estou nervosa e ansiosa para o que pode acontecer.

-Não sabe como tive que me controlar perto de você.. - sussurrou em meu ouvido

-Não precisa mais se controlar... - Michael assentiu. Ele me beijou mais uma vez, me encaixando em seu colo

     Michael me deitou delicadamente na cama, pondo-se por cima de mim. Ele desfez o laço do meu roupão, e apesar de eu não ser mais virgem, eu sentia como se fosse minha primeira vez. E de fato é sim. Pela primeira vez estou me entregando à quem eu amo, de uma forma espontânea e prazerosa. Não tenho nenhuma dúvida de que estou fazendo a coisa certa. 
       Quando Michael abriu meu roupão, eu fechei meus olhos. Não queria ver sua reação. Sei lá.. Ele já ficou tantas mulheres lindas que nem de longe eu me comparo à elas.

-Olhe para mim, Joy.. - mesmo insegura, fiz o que Michael pediu. Ele pareceu ter lido meus pensamentos - Quero que veja nos meus olhos o que você causa em mim.

    Michael olhava com fascínio para cada parte do meu corpo. Seus olhos percorriam por cada curva minha, cada detalhe, que parecia lhe deixar ainda mais excitado. Ele não me olhava somente com desejo ou tesão. Antes de qualquer outro sentimento, ele tinha amor em seu olhar, o que em momento algum senti em Kevin.

-Você me enganou direitinho, garota.. - Michael riu

-Do que está falando? - Michael inclinou-se para falar no meu ouvido

-Não imaginava que debaixo dessa roupa de moleca escondesse um corpo tão perfeito.. - respondeu após pressionar levemente meus seios, que de uns tempos pra cá tem estado maiores do que sempre foram - Você é tão gostosa..

Michael deitou novamente por cima do meu corpo, beijando meu pescoço, colo até finalmente chegar aos meus seios. Vi o teto girar quando senti sua língua quente e aveludada rodear meu mamilo.

-Meu Deus.. - gemi

    Ele continuou a carícia, agora com mais intensidade. Michael sugava o meu seio com verdadeira fome, enquanto pressionava o outro com firmeza. Eu estava a ponto de gozar no momento que ele afastou, mas na verdade foi para dar sequência no outro seio. Seu membro estava a ponto de furar a calça, então me senti encorajada a tocar meus dedos em seu volume.
Senti medo dele não gostar da minha atitude, então recuei.

-Por que fez isso? Continue amor.. Fique a vontade pra fazer o que quiser.. - Michael se sentou na cama para retirar a calça, ficando nu

    Céus, fiquei completamente sem ar. Seu membro é a visão do paraíso e da perdição. Com a ereção é ainda maior, grosso, molhado e com as veias alteradas. Estava pronto para mim, disso não tenho dúvidas. Michael pegou na minha mão trêmula, guiando até ele.

-Você quer tocar?

-Sim.. - murmurei, sentindo minha boca salivar - Michael, você sabe que eu não tenho nenhuma experiência..

-Shhi... - me calou com um beijo - Não tente me impressionar, amor.. Relaxe e eu tenho certeza que vai se sair bem.. Confie em mim..

    Enchi meu peito de ar e fechei meus olhos. Levei minha mão ao seu membro e fechei meus dedos em volta da base. Michael gemeu baixinho quando sentiu meu toque. Seu membro estava quente e duro, e a sensação deliciosa me deixou mais a vontade. 
    Deslizei minha mão pela extensão escorregadia, vendo-o crescer em meus dedos. A expressão facial de Michael era ainda mais prazerosa. Eu pensei que ficaria envergonhada em masturbar seu membro, mas não. Eu estava segura e excitada em proporcionar prazer à Michael.

-Isso amor.. Continue.. Você é maravilhosa nisso.. Ooh..

-Você é tão gostoso.. - sussurrei quase inaudível, mas foi suficiente para Michael ouvir

-Sou? - assenti, completamente entorpecida. Michael afastou minha mão, entrelaçando com a sua - Então é melhor se preparar. Você está pronta?

-Eu quero muito.. Eu quero você Michael. - respondi um pouco insegura

-Não tenha medo, eu não vou te machucar.. Para isso você tem que estar prontinha pra mim, baby.. - explicou, de forma maliciosa

Contraí todo meu corpo quando senti seus dedos se aproximando do meu baixo-ventre. Soltei um longo gemido quando Michael passou a estimular meu clítoris, massageando vagarosamente.

-Já está molhadinha.. - Michael sussurrou - Vá se acostumando, querida.. Eu sou bem safado quando quero.

-Você nunca me enganou.. Oh Michael!! - gritei quando seu dedo me penetrou

     Michael sabia que meu corpo ainda não estava acostumado, então ele tratou de me deixar relaxada e mais segura. Seus dedos iam tão fundo que pensei que meu êxtase estava bem próximo. 
    Ele retirou os dedos, abriu delicadamente minhas pernas e então me penetrou lentamente. Eu não senti a dor absurda como na minha primeira vez, mas ainda assim era desconfortável. Aos poucos, ele foi penetrando mais e mais, sem deixar de me beijar um minuto sequer.

-Está tudo bem, amor?

-Uhum.. Continua, por favor.. - respirei fundo e um grito rouco escapou dos meus lábios quando ele se enterrou em mim

-Eu te machuquei?

-Não, amor.. Caramba.. - estava ofegante. Um prazer surreal crescia dentro de mim - Se mexa, por favor! - Michael sorriu satisfeito

  Ele se acomodou confortavelmente e passou a rebolar devagar. Aos poucos suas investidas se tornaram mais fortes e intensas. Também passei a acompanhar seu ritmo, tomada por uma sensação deliciosa..

-Porra.. Você é perfeita. Me engole tão gostoso..

-Vai mais forte, Mike.. Isso.. - Michael me sentou em seu colo, enterrando seu membro ainda mais fundo

   Ele segurou minha cintura, me ajudando a subir e descer em seu colo. Seu pau atingia cada nervo sensível da minha intimidade e foi impossível não gritar alto ou arranhar com força o seu peito. Michael chupava meus seios com gana e urgência, e toda essa loucura me dava a certeza de que estava prestes a atingir o clímax.

-Estou quase lá, amor.. - murmurei

-Eu sei, linda. E eu vou com você. - Michael voltou a estocar com mais força, urrando meu nome

     Bastou mais algumas investidas para explodirmos em um êxtase intenso e violento. Ele continuava metendo com pressão enquanto nossos líquidos se misturavam. Nunca senti um prazer como esse que me fez desfalecer em seus braços, vendo tudo ao meu redor girar. 
     Michael ainda permanecia com o membro acomodado dentro de mim. A posição era tão gostosa que permanecemos abraçados e grudados um no outro. Só o que se podia ouvir eram nossas respirações ofegantes.

-Veja isso. - Michael guiou minha mão ao seu peito. Seu coração batia em disparada

-Nossa.. - sorri feliz em saber que sou responsável por isso

-Ele está assim por sua causa.. Porque você me faz imensamente feliz.

-Eu te amo tanto.. - Michael enxugou minha lágrima, beijando minha boca em seguida

-Eu te amo mais, pequena. Eu te amo muito mais..

Capítulo 30

Michael


     Joy parecia ter ficado tão exausta que não demorou muito para pegar no sono. Minha vontade era de ficar agarradinho nela, sentindo seu perfume tão gostoso me inebriar. Essa mulher é um anjo até dormindo. Sim, agora vejo Joy como uma mulher e não somente como uma garotinha. Descobrir esse seu lado maduro me deixou ainda mais apaixonado. 
     Já que ela me ignorou totalmente para dormir, decidi me levantar, tomar um banho e me "arrumar" um pouquinho para ela. Ok, eu sei que geralmente quem faz isso é a mulher, mas poxa.. Eu já não sou tão jovem assim, então meus cuidados devem ser redobrados. 
      Aproveitei também para fazer a barba e aparar meus cabelos. Até secador usei para modelar meus cachos. Meu Deus, há que ponto cheguei? Ri, percebendo que me tornei um bobo apaixonado. 
Borrifo no pescoço um pouco do meu perfume preferido. Volto ao quarto para pegar uma cueca, mas me surpreendo ao ver Joy vestindo o roupão, prestes a deixar o quarto. 

-Hey! - Joy virou assim que me ouviu chamá-la. Percebi seu olhar fixo na toalha enrolada na minha cintura - Onde pensa que vai?

-Eu.. só queria te deixar mais a vontade. - respondeu, com um sorriso amarelo

-Hm.. Algo me diz que não é isso.. Está arrependida de ter feito amor comigo? - acho que nunca usei esse termo com outra mulher

-Mas é claro que não! Eu pensei justamente o contrário. Eu acordei e você não estava aqui, então pensei que...

-Bebê.. De onde você tirou isso? - sorri diante da sua inocência. Envolvi meus braços em torno da sua cintura, trazendo-a para mais perto de mim - Eu só fui tomar um banho para ver se fico mais apresentável pra você..

-Você já é lindo, Michael. Não tem nem que se esforçar.

-Continue me elogiando e eu ficarei mais apaixonado.. Mas fala a verdade, você pensou que eu havia me arrependido por conta do que o seu ex fez, não foi? - Joy suspirou, desviando os olhos de mim

-Não fica chateado comigo.. Mas eu achei que fosse acontecer de novo.

-Eu sei que você sofreu por amor, assim como eu já sofri um dia. Mas uma coisa eu posso garantir. Eu te amo Joy, e eu nunca, nunca vou sair de perto de você. - Joy me abraçou forte, enterrando a cabeça no meu pescoço. Me preocupei ao vê-la chorar

-Você é tão bom comigo.. - puxei delicadamente sua cabeça para poder olhar nos seus olhos

-Por que está chorando, meu amor?

-Michael, tem muitas coisas que você ainda não sabe sobre mim, sobre o meu passado..

-Meu bem, eu não ligo. Eu também tenho um passado e uma hora vamos falar sobre isso. Só que esse não é o momento. Eu não ligo se você fez algo desagradável, o que me importa é que você está aqui comigo. E que eu te amo com todo meu coração.

-Mas..

-Mas nada, mocinha! - falei, apertando de leve a ponta do seu nariz - Demorei tanto para encontrar você que tudo que mais quero agora é aproveitar cada segundo ao seu lado. Vamos esquecer tudo e pensar só em nós dois, pelo menos por enquanto.. Por favor..

-Certo.. - ela suspirou, sorrindo fraco - Você tem razão. Tudo que eu quero agora é ser um pouco feliz.

-Um pouco não! Você vai ser muito feliz, ouviu? - salpiquei beijos em seu pescoço até finalmente encontrar seus lábios. Foi impossível controlar meu membro por baixo da toalha - Sabe o que eu estou pensando aqui?

-No quê? - Joy sussurrou

-Já anoiteceu e.. é hora de ir pra cama, não acha?

-Cama? Eu acabei de acordar! - ela riu - Além do mais eu estou morrendo de fome.

-Eu cuido disso, amor.. - insisti, voltando a beijar sua boca

-Mike, é sério.. Não sabe como fico rabugenta quando estou com fome!

-Ok ok.. - levantei as mãos em sinal de rendição - Vamos fazer um lanche, mas... depois você não me escapa!

-Sim, Sr. Jackson! Mas é melhor vestir uma roupa, ou vai de toalha? - Joy correu de mim assim que puxou minha toalha

-Hey, sua danada! Volte aqui!

(...)

    Posso dizer que as últimas semanas tem sido um verdadeiro paraíso para mim. Ainda não consigo acreditar que Joy é minha namorada. Logo eu que sempre tive certeza de que nunca mais teria um relacionamento sério novamente, muito menos me apaixonar desse jeito. Sou louco por Joy e por ela sou capaz de fazer qualquer coisa. 
     Se eu pudesse passaria todas as horas do dia ao seu lado, mas infelizmente não posso deixar de trabalhar. Por isso tenho levado boa parte do trabalho pra casa, o que tem sido maravilhoso. Joy faz questão de ficar perto de mim e o bom é que aproveito para continuar lhe dando aulas e claro, sempre fazemos uma pausa para namorar um pouco.

-Droga de trânsito! - esmurrei o volante do carro

     Decidi deixar Bill a disposição de Joy para ela ir aonde quiser, só que ela não aceita ir a lugar nenhum se não for comigo. Estou louco para chegar logo em casa para ficar com a minha menina. E hoje estou ainda mais ansioso para vê-la. Comprei um belíssimo presente que vai combinar perfeitamente com a ocasião.
     Subo a escada direto para o meu quarto. Finalmente convenci Joy a dormir comigo, pois desde que começamos a namorar eu passei a dormir em seu quarto e eu não consegui me acostumar com outra cama.

-Filhote, não suba na cama! Você sabe que o Michael não gosta! - escutei sua voz assim que abri a porta

     Meu quarto estava uma verdadeira bagunça, e apesar de eu ser obcecado por limpeza eu não pude deixar de rir com a cena. É nítido que tenho mudado bastante nos últimos dias. Estou tão feliz que me sinto até mais jovem e mais relaxado.

-Só quero ver quem vai limpar essa bagunça.. - comentei. Joy empalideceu ao me ver

-Foi mal, Mike..

-Eu estou brincando, sua boba! Vem aqui me dar um beijo. - Joy pulou no meu colo, me enchendo de beijos - Não sentiu minha falta?

-É claro que sim! Tive que passar o dia todo brincando com o Filhote pra tentar me distrair.

-Poderia ter ido ao shopping, amor. Eu deixei o Bill aqui só pra você, e meu cartão também. Já disse que pode usar o quanto quiser.

-E pra que eu vou querer isso? Não vejo graça nenhuma em gastar dinheiro atoa ainda mais quando não é meu. E também não gosto de sair sem você.

-Eu me sinto mal por isso. Trabalho muito e não tenho tempo nem pra te levar pra jantar fora.

-Eu não ligo pra isso, é sério. Adoro quando a gente passeia pelo jardim ou quando vamos no lago..

-Eu também amo sua companhia.. Amo tudo em você. Mas voltando ao assunto do cartão, eu já disse que ele é seu. Você é minha namorada e eu te darei tudo que você quer!

-Mais que mania chata a sua, hein? - Joy se enfureceu, virando-se de costas - Eu já disse que não gosto disso, caramba!

-Hey, me desculpa.. Não fica brava comigo.. - enlacei sua cintura. Joy desarmou, entrelaçando nossos dedos

-Não tô brava, é que não é isso que eu quero de você. Só quero o seu amor e o mais importante, sua compreensão.

-Sempre, meu amor.. Eu te amo. - beijei delicadamente sua boca, sendo recebido com carinho por ela. Nada nessa vida me vicia mais do que essa mulher - Caramba..

-O que foi?

-Promete que não vai ficar brava?

-Claro que não prometo! Eu nem sei o que você fez.. - ri

-Não fiz nada de errado, ok? É que eu comprei isso aqui pra você.. - estendi o estojo para Joy - Abra.

-O que é isso? Michael.. - ela ficou surpresa ao se deparar com o colar de brilhantes 

-Sei que pediu para eu não dar presentes caros, mas eu não resisti. Além do mais imaginei que ficaria perfeito em você amanhã.

-Amanhã? O que tem amanhã?

-Todo ano tem a maldita confraternização do Conselho de Advocacia e como sou dono de um escritório, não posso faltar.

-Ok.. E onde eu entro nisso?

-Você vai me acompanhar, ora! - Joy riu

-Você ficou doido, é? Michael eu não posso ir num lugar como esse. Imagina a vergonha que você vai passar!

-Não vou passar vergonha nenhuma, pelo contrário. É capaz de você se envergonhar ao ter um velho ao seu lado.. - Joy colocou a joia em cima da cama para poder me abraçar

-Essa desculpa não cola, porque você não é nenhum velho quando estamos ali.. - apontou para nossa cama

-Hmm.. - apertei Joy contra o meu corpo, sentindo o calor tomar conta de mim - Se não quiser ir eu entendo, mas você sabe que a Helena vai estar lá, certo? - Joy se afastou me olhando seriamente

-Vai é? E você vai mesmo assim?

-Não tenho outra opção.. - lamentei. Eu sei que essa tática é infalível - Mas se você for comigo..

-E eu vou mesmo! Bom, se você ainda quiser que eu vá..

-Mas é claro que quero! Tenho certeza que pela primeira vez na vida vou me divertir nesse lugar.

-Ficando longe dessa mulher, eu agradeço.. - Joy murmurou - Mas preciso te pedir uma coisa.

-Claro, o que quiser.. - respondi, me livrando das minhas roupas

-Depois dessa festa, nós podemos conversar?

-Podemos, vamos conversar sobre o que você quiser. Agora vem aqui, vem..

    Empurrei Joy cuidadosamente sob a cama, sentindo urgência em despi-la. Ela também me ajudou a se livrar do vestido, sentindo tanto desejo quanto eu. Eu não podia esperar mais para estar dentro dela, amando-a como um louco, porque é isso que Joy fez comigo. Me deixou completamente enlouquecido e dependente dela. E agora mais do que nunca não passa pela minha cabeça a hipótese de me afastar de Joy.

Capítulo 31

Joy


       Eu sou a mulher mais sortuda do universo. Pela primeira vez na vida posso dizer que sou feliz e que tenho um amor correspondido. Michael é um namorado maravilhoso e cada dia que passa vejo mais motivos para estar apaixonada por ele.
      Se por um lado eu me sinto feliz, por outro não é bem assim. Sinto meu coração se esmagar dentro do peito cada vez que penso na omissão da minha gravidez. Provavelmente devo estar entrando no terceiro mês de gestação. Por eu ser magrinha, minha barriga tem um leve relevo, que para os outros, esse detalhe passa despercebido. 
 Mas vai chegar um momento em que será impossível esconder. Qualquer um me perguntaria o porquê de eu não ter contado a verdade. Mas só Deus sabe como é difícil pra mim tentar tocar nesse assunto.
 Ficar com Michael nunca esteve nos meus planos. Minha ideia era conseguir um emprego, juntar uma grana e ir embora, mas tudo desandou. O tempo foi passando e se tornou cada vez mais complicado revelar meu segredo. No início, quando Michael era um ogro comigo, eu tive medo de contar a verdade por pensar que ele pudesse me mandar embora. E depois que me vi apaixonada por ele, tive medo de prejudicar meu bebê e principalmente, perder seu amor.
 Mas agora eu não posso mais adiar. Michael não merece ser enganado. Eu preciso reunir a coragem que preciso pra ter essa conversa, mesmo sabendo que posso perdê-lo para sempre.

(...)
  
 Como teremos uma festa hoje, achei melhor esquecer meu problema e tentar me divertir um pouco com Michael. Pra falar a verdade, eu prefiro ficar em casa. Tenho certeza que me sentirei desconfortável nessa festa, mas eu não quero chatear o Michael, ainda mais sabendo da conversa delicada que teremos amanhã.

-Remy, eu não tenho noção de como me comportar nessa festa!

-Joy, não se preocupe. Tenho certeza que dará tudo certo! - disse tentando me tranquilizar - Agora vem aqui para eu te arrumar.

-Ainda não acredito que Michael comprou esse vestido pra mim! - eu estava maravilhada com o belíssimo vestido esticado na minha cama

-Michael quando quer ser encantador não brinca em serviço! - ela riu - Deixe-me te ajudar a vestir.

(...)

    Desci a escada tentando controlar o nervosismo. Não sei se Michael vai gostar do meu visual ou do meu comportamento nessa festa. Mesmo insegura, respirei fundo e fui ao seu encontro.
  Michael estava virado de frente para a janela, observando o crepúsculo. Pigarreei para chamar sua atenção, e ao virar para mim, minhas pernas bambearam. Não tenho palavras para descrever como Michael é lindo, maravilhoso e sedutor. Não consegui tirar meus olhos dos seus e ele, igualmente. 
  Ele parecia estar encantado comigo. Seu sorriso ainda mais largo e os olhos negros, brilhantes. Eu poderia passar o resto da noite lhe observando, pois eu não me cansaria. Michael percebeu que eu não sairia do lugar, então ele veio até mim.

-Você é tão linda.. - sussurrou ao depositar um beijo demorado em meus lábios

-Isso é o milagre de uma boa maquiagem. Agradeça à Remy! - sorri envergonhada

-Ela só realçou sua beleza.. Agora estou preocupado. - disse, maneando a cabeça

-Preocupado por que?

-Você está linda e sexy demais.. Não quero que te vejam assim.. - respondeu, percorrendo os olhos no meu leve decote

-A culpa não é minha por ter escolhido esse vestido.. - provoquei - Mas não precisa se preocupar, eu não vou sair de perto de você.

-Promete? - pediu ao apertar minha mão com força

-É claro que sim. Eu te amo.. -  tranquilizei, dando uma leve mordida em seu queixo

-Te amo tanto que estou pensando seriamente em tirar esse vestido e te jogar na minha cama.. - meu sangue ferveu quando senti sua ereção pressionar meu ventre

-Então faça isso.. - incitei, esfregando-me em seu sexo. Michael puxou meu cabelo, afastando nossas bocas

-Você é esperta, garota.. Mas eu não vou cair na sua. - soltei um gritinho ao receber dele um forte tapa no meu bumbum -Prometo que vamos ficar só meia hora, ok? - assenti - Mas quando chegarmos em casa, você que se prepare.. - disse em tom de ameaça

-Então vamos logo, porque agora eu me animei. - Michael sorriu, enlaçando seu braço em torno da minha cintura

(...)

 Eu me sentia bastante desconfortável no meio de toda essa gente. Apesar de Michael ficar do meu lado, ora ou outra aparecia alguém para conversar com ele, e para não atrapalhar, preferi esperá-lo no jardim.

-Olha só quem está aqui.. - senti um frio na espinha ao ouvir a voz de Helena

-Como ainda tem coragem de falar comigo depois da cachorrada que você fez comigo?

-Nossa, como o Michael aguenta esse seu vocabulário tão.. fino? - debochou

-Olha aqui, eu não vou cair no seu joguinho. Se pensa que vou fazer barraco nessa festa, você está bem enganada! - tentei ao máximo não aumentar meu tom de voz

-Você acha que eu sou idiota como o Michael? Ele pode estar deslumbrado por estar pegando uma novinha, que ainda não percebeu qual a sua real intenção! - disparou sem nem se importar com as pessoas que passavam por nós

-Você não me conhece, não sabe nada da minha vida! E outra coisa, eu não tenho que provar pra ninguém o amor que sinto pelo Michael!

-Você é uma golpista, só aquele corno não percebe! - gritou

-Já chega, Helena! - atemorizei ao escutar a voz áspera de Michael - Eu mandei você ficar longe da minha namorada, ainda não entendeu?

-Namorada? - Helena nos olhou apática - Quer dizer que você se tornou oficialmente uma marionete nas mãos dessa ninfeta! - ela riu. Michael tentou partir para cima de Helena, mas reuni força para detê-lo

-Michael, se acalme, por favor! - implorei

-Não vou permitir que insulte Joy! - rebateu com o dedo em riste apontado para Helena

-Não vai permitir que insulte essa marginal, ou que não ridicularize você? Confesse, Michael. Confessa que morre de medo de levar outro chifre. Você mereceu toda a humilhação que Megan fez você passar!

-Cala a porra dessa boca! - Michael me empurrou, indo em direção à ela, sacudindo seus braços

-Vai me bater, querido? - riu em deboche - Pode me bater a vontade, mas nunca deixará de ser o corno do século! - Michael rangia os dentes tamanho o ódio que sentia de Helena

-Você não tem o direito de expor minha vida!

- O que? Sua namoradinha ainda não sabe? Não sabe, Joy, que Michael ainda é louco pela noivinha que o trocou pelo melhor amigo dele? E o mais ridículo. - ela pausou para rir - Foi abandonado no altar! Na frente de todos os convidados que estão aqui nessa festa!

-Helena, para! - Michael implorou

-Eu não paro! Só estou mostrando pra você que essa garota vai fazer a mesma coisa que a Megan! Se toca, Michael! Você está velho e é a isca perfeita que ela precisava! - Michael estava tão descontrolado que eu tive medo de que fizesse alguma besteira com Helena

-Michael, chega! - gritei tão alto que consegui paralizá-lo. Tive que controlar a forte tontura que estava sentindo

-Joy..

-Vamos embora, por favor. - Michael soltou os braços de Helena e veio até mim. Estava tão envergonhado que não olhou nos meus olhos

(...)

  O caminho de volta pra casa foi terrivelmente silencioso. A expressão de Michael era tão sombria que não me atrevi nem a olhar para ele. Com o silêncio dentro do carro, era possível escutar sua respiração descompassada. 
 Pensei que a situação melhoraria quando chegássemos em casa, mas parecia ter piorado. Michael permanecia imóvel, aumentando minha agonia.

-Vamos entrar. - disse com a mesma seriedade que carrega em sua face

    Nesse momento eu não pude evitar as lágrimas de caírem. Chorei por Michael, pela sua tristeza e também por medo. Medo pela possibilidade dessa ferida ainda estar aberta e que aquele Michael rude e agressivo possa ressurgir.

-Michael, por que você está assim comigo? - perguntei entre soluços. Seu olhar duro se converteu à ternura e culpa

-Me perdoe, Joy.. - Michael me puxou para um abraço forte e acalentador

 Ele estava tão magoado, tão desprotegido que senti como se tivessem enfiado uma faca em meu coração. Michael precisa de mim, do meu carinho e da minha proteção. E agora, mais do que nunca, me sentirei um monstro se contar sobre a minha gravidez no estado em que ele se encontra. Acho que nunca terei coragem de revelar cara a cara o meu segredo. E eu não tenho ideia do que farei daqui pra frente.

Capítulo 32

Joy


-Sente aqui.. - falei, indicando o mesmo degrau da escada que costumamos nos sentar para conversar

 Seus olhos estavam vermelhos e o rosto inchado. Nunca imaginei que viveria para ver a cena de Michael chorando na minha frente. Apesar de ficar surpresa, a dor de vê-lo sofrer acabava comigo.

-Me desculpe por tudo que viu e ouviu hoje.. - lamentou em um murmúrio

-Nunca mais me peça desculpas por abrir seu coração. Sei que deve estar se sentindo péssimo pelas merdas que aquela perua falou!

-Ela não disse nenhuma mentira, Joy. - riu sem humor, ainda sem olhar nos meus olhos

-Eu sei.. - Michael desviou os olhos do chão para me encarar

-Como? Como assim você sabe? Quem te contou?

-Não importa quem contou, Michael.. Bem no início quando eu vim pra cá eu fiquei sabendo.. Eu precisava entender o porquê de você ser tão fechado.

-Imagino como deve ter rido de mim...

-E por que eu faria isso? Não se esqueça que eu passei pela mesma coisa. Eu sei bem como dói. - Michael acariciou minha bochecha

-Me desculpe.. É que por anos eu me castiguei, entende? Como se a culpa tivesse sido toda minha.. Porra, eu fiz de tudo pela Megan! Nenhum homem nesse mundo a amou como eu! Me diz, onde eu errei? O que eu fiz com ela para ser apunhalado tão cruelmente?

-Você não fez nada de errado.. A culpa não é sua, Mike. Infelizmente idealizamos o nosso parceiro e no fim não é nada do que imaginávamos..

-Ela me distruiu, Joy.. Partiu meu coração por completo!

-Pela forma como você diz parece que ainda a ama.. - reprimi a lágrima que teimava em cair

-Não, meu amor.. Jamais! - Michael apertou forte minha mão - Tenho total convicção dos meus sentimentos. Se estou tão arrasado é porque durante esses dez anos eu nunca desabafei com ninguém..

-Não devia ter feito isso. Se tivesse pedido ajuda tenho certeza que teria refeito sua vida há muito tempo.

-E perder a chance de te conhecer? Sabe, hoje vejo que tudo teve um significado. Foi preciso que eu ficasse todos esses anos sozinho para dar valor ao amor verdadeiro e não à uma simples atração. Você curou meu coração, Joy.. E eu não tenho nenhuma dúvida de que te amo como nunca amei alguém.

-Eu também te amo muito.. Amo tanto que chega a doer. - Michael secou minhas lágrimas e em seguida,  tomou meus lábios em um beijo calmo e intenso - Apesar de não ser tão digna do seu amor.. - murmurei

-E por que diz isso? Querida, eu sinto aqui dentro que você jamais faria o que a Megan me fez. Eu confio no seu amor..

-Nunca.. Cortaria meus pulsos do que partir seu coração.. - me aninhei em seus braços, de modo que ele não pudesse ver a dor e a culpa estampadas no meu rosto

-Você disse.. disse que queria conversar comigo, certo?

-Sim, mas.. Agora não é o momento. Você precisa descansar, esquecer tudo que aconteceu hoje.

-Você tem razão. - concordou. Michael se livrou da gravata e suspirou em alívio - Sou tão agraciado por te ter ao meu lado.. Só você consegue me levantar. Obrigado por ser meu anjo..

-Não precisa me agradecer por nada.. Já disse que farei de tudo pra te ver feliz. Agora vem comigo.. 

-Hmm pra onde vai me levar, hein? - perguntou com um sorriso safado dançando nos lábios

-Eu só vou te levar para o quarto! Tome um banho e vai ver como se sentirá melhor.

-Eu sei que só vou me sentir melhor se você me acompanhar nesse banho.. - disse, passeando os lábios pelo meu pescoço - Por favor, você mesma disse que faria de tudo para me ver feliz..

-Isso é golpe baixo, Sr. Jackson! Ah quer sabe? Que se dane a razão.. - invadi sua boca, explorando cada centímetro dos seus lábios 

 Eu já tenho minha decisão tomada e pensando nisso, aproveitarei cada segundo ao lado dele, amando-o pela última vez.

(...)

     Michael tinha tanta pressa, que começou a me despir ainda a caminho do seu quarto. Eu também o desejava tanto que sentia urgência em fazer amor com ele. Me livrei da sua camisa e em seguida abri o zíper da sua calça. Seu membro já se encontrava completamente ereto, implorando para ser libertado.

-Sente só o que você faz comigo.. - disse, guiando minha mão ao seu sexo
 
 Infiltrei minha mão dentro da cueca e o retirei para fora dela. Salivei ao vê-lo grosso e endurecido, e uma súbita vontade de chupá-lo se aponderou de mim. Nunca fiz sexo oral, mas depois de Michael fazer tantas vezes em mim, senti curiosidade em praticar. 
  Ele como sempre, pareceu ter lido meus pensamentos.

-Você quer chupá-lo? - assenti, mantendo os olhos fixos em seu pênis - Não tenha vergonha, meu bem..

 Respirei fundo e tomei coragem para prosseguir. Michael se apoiou na pia do banheiro e eu me agachei, ficando à altura de seu membro. Eu estava nervosa, afinal nunca tive essa iniciativa. 
 Envolvi meus dedos em seu membro, masturbando-o lentamente. Comecei distribuindo beijos na sua barriga e aos poucos desci de encontro à ele. As pernas de Michael estavam trêmulas, principalmente quando encostei minha língua na intimidade.

-Hmm.. - ele mordeu o lábio com força, prendendo os dedos no granito da pia

 Continuei o acariciando com a língua até não suportar mais o prazer que crescia dentro de mim. Acomodei parte do seu membro na minha boca, chupando lentamente. Michael levou sua mão à minha cabeça, ditando os movimentos da minha boca em seu sexo. 
 Aos poucos a vergonha havia sumido e a vontade de chupá-lo só fazia aumentar. Eu chupava, sugava e engolia com fome, urgência e intensidade.

-Você é gulosa, boneca.. Desse jeito eu  não vou me controlar.. - ameaçou

-Não quero que se controle.. Não hoje.. - pedi, voltando a chupá-lo com mais gana

 Cravei minhas unhas em suas coxas quando Michael puxou meu cabelo em um rabo de cavalo. Ele mexia o quadril em um vai e vem delicioso, preenchendo minha boca com parte do seu membro, já que era impossível chupá-lo por inteiro.

-Porra.. Eu vou gozar, Joy.. Agora! - avisou em um grunhido

      Senti a pressão do seu membro, que bombeava na minha boca. Bastou mais algumas sugadas para Michael se derramar na minha boca.
 Pelos infernos, isso é maravilhoso! Sentir seu gosto em minha boca é algo novo para mim, porém extremamente delicioso e excitante.Continuei chupando seu pau, sem desperdiçar uma gota do seu prazer. 
    Assim que terminei, Michael me levantou, olhando-me com fascínio.  Suas bochechas estavam vermelhas, os lábios roxos, marcados com um linha fina causada pela pressão dos dentes. A testa estava molhada com o suor e alguns fios de cabelo grudados em sua pele.

-Você é perfeita, perfeita.. - repetiu demasiadamente, apertando-me contra ele - Não posso mais me controlar..

    Michael me encaixou em seu colo, levando-me para debaixo do chuveiro que acabara de ligar. Senti o toque frio do azulejo nas minhas costas, mas o arrepio em meu corpo veio mesmo quando a língua de Michael tocou meu seio. 
     Ele prendeu minhas mãos, entrelaçando-as com as suas, me deixando submissa à ele. Seu membro já estava ereto novamente, roçando minha intimidade.

-Michael, por favor..

-Por favor o que? O que você quer, hum?

-Você. Quero você dentro de mim. Agora! - implorei. Michael sorriu, me beijando novamente com urgência

 Em seguida, ele encaixou seu membro na minha entrada e se enterrou de uma só vez, arrancando de mim um grito rouco. Michael estocava rápido, incessante e incansavelmente. Com meus braços agora livres, o abracei com força, cravando minhas unhas em seus ombros.

-Gostosa e apertada.. Cacete! Vou comer muito essa delícia.. - sussurrou em meu ouvido

-Oh Michael.. Isso, mais fundo, amor!!

 Me desmanchei em seus braços quando o êxtase me atingiu. Michael me segurou com força, estocando mais e mais rápido, anunciando que também estava prestes a gozar.

-Vire-se.. - pediu ao me colocar no chão. Apoiei minhas mãos no vidro do  box, para tentar firmar minhas pernas que ainda estavam fracas

-O que você vai fazer?

-Te enlouquecer, baby.. - respondeu, apertando com força a minha cintura - Agora empina esse traseiro gostoso e relaxe..

     Michael estimulou meu clítoris com os dedos, levando-me a insanidade. Logo senti seu membro me preencher novamente, atingindo meus mais sensíveis nervos. Ele estocava ora veloz, ora lentamente, tornando nosso momento intenso e marcante como imaginei. 
 Quando estava pronto para atingir seu clímax, Michael me virou de frente para si, enterrando-se em mim, e gozando em seguida. 
  Após estarmos recuperados, Michael me ajudou a terminar o banho e até mesmo, me secar com a toalha. Gestos que com toda certeza ficarão gravados no meu coração.
  Já estávamos deitados na cama, abraçados um no outro. Michael estava de olhos fechados, mas continuava acariciando minhas costas. Era um silêncio agradável, mas para mim representava o contrário. Na minha cabeça, eram nossos momentos finais juntos.

(...)

   Eu não consegui pregar o olho durante a noite. E assim que o sol nasceu, me levantei para adiantar minha partida. Enquanto Michael dormia, me sentei na escrivaninha e escrevi minha carta de despedida. 
  Eu não vejo outra saída que não seja essa. Ir embora de sua vida sem deixar rastros. Jamais terei coragem de contar para Michael que estou grávida de outro homem. Mesmo agindo covardemente, não voltarei atrás.
  A princípio, escrevi uma carta contando a verdade. Achei que seria menos doloroso para mim, mas ao terminar de escrever, percebi a monstruosidade que estava fazendo. Se for pra falar a verdade, que seja na sua cara. Mas como não tenho coragem para isso, escrevi outra carta de despedida, ocultando meu real motivo para partir.
  Após escrever, fui ao quarto que era meu e deixei a carta em cima da cama. Fui até o closet, vesti meu velho jeans e a camiseta surrada. Eu entrei aqui assim e é desse jeito que sairei, sem levar absolutamente nada de material comigo.

-Ah Filhote.. - me agachei para lhe dar um beijo - Cuida bem do seu pai, belê? Amo você, pulguento! - o deitei de volta em sua cama e me levantei. Era hora de cumprir a parte mais difícil

 Felizmente Michael dormia um sono profundo. Menos mal, pois seria muito pior se ele estivesse acordado. Me aproximei dele e, com muito cuidado, beijei seu rosto.

-Me perdoe.. - sussurrei - Eu sempre, sempre vou amar você..

 Decidi sair antes que as lágrimas denunciassem minha presença ali. Além do mais eu não podia prolongar essa tortura, ou eu poderia me arrepender e desistir de ir embora. 
 Para minha sorte, os empregados ainda não haviam acordado. Mesmo sendo arriscado, telefonei para Rodrick e contei brevemente o que estava fazendo. Mesmo sem entender, ele concordou em me ajudar. 
Combinamos de  se ver no lago, pois é o único lugar que dá saída para a Horto Florestal. 
 Enquanto eu corria pelo jardim, permiti que as lágrimas caíssem. Provavelmente nunca mais verei Michael e não existe dor pior que abrir mão de um amor tão grande como o que eu sinto. 
 Mas eu não posso continuar o enganando. Sei que ele sofrerá quando se der conta de que fui embora, mas sua dor seria ainda maior se soubesse que foi enganado por tanto tempo. Então o melhor que posso fazer para ele é sair de sua vida antes que eu cause mais danos.

Capítulo 33

Joy


-Ainda acho que foi uma péssima decisão. - Rodrick repetiu pela décima vez desde que entramos no táxi

-Eu não estou mesmo afim de falar disso agora, tá ligado?

-Ok. - suspirou - Você está com olheiras terríveis! Deve estar morrendo de sono. Assim que chegarmos você vai descansar. - apenas assenti, me sentindo fraca até para respondê-lo

(...)

    Agora que estou no quartinho dos fundos do salão de dança percebo a loucura que cometi. Não tem nem uma hora que me afastei de Michael e já estou morrendo de saudade. Não imaginei que doeria tanto fazer essa escolha, mas não tem mais volta. Prefiro guardar de recordação seu doce e amável sorriso, do que mágoa e decepção.

-Fiz um chá pra você. Sei que não gosta, mas vai te fazer bem.

-Obrigada.. Me desculpe por te ligar tão cedo, mas eu não tinha noção de onde ir..

-Ah por favor né? Eu te daria uns tapas se tivesse ido embora sem falar comigo! Mas agora é sério, Joy. Você não podia ter ido embora assim.. Imagina como o Michael vai ficar quando souber!

-E o que você queria que eu fizesse? Estava em um beco sem saída! Ele sofreria muito mais se soubesse a verdade, disso tenho certeza!

-E você acha que fugir dos problemas resolve? Você fugiu do Kevin e arrumou um problema maior ainda. Até quando vai agir como uma adolescente? Está na hora de pensar no seu filho, Joy!

-E você acha que eu não estou pensando nele? Se eu o omiti do Michael foi para protegê-lo. Eu estava perdida, não sabia em quem confiar...

-Mas aí você se apaixonou e se enfiou nessa bola de neve.. - concluiu - Olha quanto sofrimento atoa..

-Atoa? Tá tirando com a minha cara né?

-Atoa sim! Você deveria ter arriscado. De qualquer forma vocês vão sofrer, mas o rumo poderia ser diferente.

-Acha mesmo que o Michael me perdoaria? E pior, que ele me aceitaria com um filho de outro homem na barriga? Nunca!

-Isso você só saberia se tivesse arriscado. Mas não, você preferiu se mandar que nem um pássaro que foge da gaiola!

-Ai Rodrick, não me deixe pior do que estou.. - abaixei minha cabeça, colocando pra fora toda a dor que estou sentindo

-Me desculpe, boneca.. - pediu ao me abraçar - Você sabe que só quero seu bem, não sabe? Mesmo não concordando com o que fez, eu vou te apoiar.

-Não sei o que seria de mim sem você.. Ah, tudo que eu quero agora é apagar!

-Então durma. Descanse e depois daremos uma solução pra esse problema.. - Rodrick me deu um beijo na testa e me cobriu com o cobertor. O cansaço era tão grande que em poucos minutos apaguei
Michael


       Remexi de um lado para o outro à procura de Joy. Estou acostumado a fazer isso. Todos os dias quando acordo, enlaço sua cintura e volto a dormir tranquilamente, ainda mais quando me lembro da noite maravilhosa que tivemos juntos. É incrível como nos damos tão bem na cama. Cada dia que passa me surpreendo ainda mais com a minha futura mulher.
     Bom, eu sei que ainda é cedo pra isso, mas é inútil pensar e repensar. Quero me casar com Joy o mais rápido possível. Eu a amo e tenho certeza que ela me ama na mesma proporção. 
Eu nunca pensei em me casar de novo por conta de todo o trauma do passado, mas Joy me fez um novo homem, que sonha, que faz planos e mais do que isso, que quer uma família.
      Eu já tenho 40 anos, não quero esperar mais para ter um filho. Sempre sonhei em ser pai, mas depois do que aconteceu com Megan, nunca mais voltei a pensar nisso. Mas agora tudo mudou. Tudo que mais quero agora é me casar com Joy e ser pai dos seus filhos. E hoje mesmo farei o pedido. 
Como ela não estava na cama, deduzi que Joy estivesse tomando banho. Caminho para o banheiro e também não a encontro por lá.

-Aposto que estava morrendo de fome.. - ri. Decidi então tomar um banho para encontrá-la no jardim

(...)

-Bom dia, Remy! - saldei, lhe dando um terno beijo em sua testa

-Bom dia.. Nossa, está de bom humor hoje! O que deu em você?

-Amor, Remy - suspirei fundo - Hoje será um dia muito especial para todos nós! Falando nisso, a Joy está no jardim?

-Não.. Pensei que ela ainda estivesse dormindo.

Senti um inexplicável aperto no peito. Eu sei que ela pode estar passeando pelo condomínio, como ela gosta de fazer, ou até mesmo se banhando no lago. Mas esse sentimento ruim dentro de mim não me deixava nem um pouco tranquilo.

-Tem certeza, Remy? Tem certeza que não a viu descer?

-Absoluta. E outra, Joy sempre vem me dar bom dia. Se ela tivesse descido teria ido me ver. Você já olhou no quarto dela?

-Vou fazer isso agora! - subo as escadas rapidamente em direção ao seu quarto, rezando para que Remy esteja certa - Joy? Você está aí?

      O quarto também estava vazio. Me deparei com Filhote encolhido na sua almofada, resmungando baixinho. Joy o leva para todo canto, e se ele está aqui sozinho é porque algo de muito grave está acontecendo.
   Eu não queria pensar nessa hipótese, mas mesmo contrariado, fui até seu closet. Todas as suas roupas, sapatos e acessórios estavam impecavelmente organizados. Mas senti falta justamente de duas peças de roupa, as quais Joy se recusou a jogar fora.

-Não, não é o que estou pensando.. Joy só quer brincar comigo, ela adora fazer isso. - sorri, tentando me convencer de que está tudo bem

Me sentei na cama, trazendo o cachorrinho comigo. Ele estava quieto demais, como se também percebesse algo de estranho no ar.

-Onde se meteu aquela doidinha, hein? Você sabe onde ela está? - ele rodopiou pela cama, guiando meu olhar ao pedaço de papel que até então eu não tinha percebido ali

Peguei o papel e o abri, reconhecendo de imediato a caligrafia de Joy.


       " Michael, não sabe como lutei para não tomar essa decisão, mas se agora estiver lendo essa carta, é porque estou bem longe de você. 
Antes de qualquer coisa, não pense que está sendo fácil para mim ter que te deixar. Às vezes o amor é tão doloroso quanto prazeroso. 

       Você é o típico caso da " pessoa certa na hora e no momento errado". Quando você me conheceu, eu não era ninguém. Não tinha dinheiro, casa, família e nem sequer um rumo para seguir. 
       E você me deu tudo. Me deu um abrigo, um teto, um apoio, me estendeu a mão quando a vida me virou as costas. Você me deu educação; conselhos que levarei para sempre comigo. Me deu conforto, claro. Jamais me esquecerei daquele dia maravilhoso que você me levou para fazer compras.
       Mas você me deu a coisa mais importante que tudo isso. Amor. Você me amou sem pedir nada em troca; me amou exatamente do jeito que eu sou. Me escolheu no meio de tantas mulheres bonitas e instruídas. Você tirou o melhor de mim, demonstrando seu amor nos pequenos gestos do dia a dia.
       E é por tudo isso e por todas as suas qualidades me tornei fissurada em você. Tudo começou com uma curiosidade, depois admiração.. Até se tornar um sentimento tão grande que não cabe no meu peito. Você mudou completamente o meu destino, mudou quem eu era e fez quem eu sou hoje. 
      E eu nunca, nunca poderei te agradecer pela vida maravilhosa que você me proporcionou, e eu não digo pelo conforto e luxo. E sim, pelos nossos momentos juntos; as madrugadas em claro que passamos fazendo amor e conversando sobre qualquer bobagem que vinha a telha. Enfim, viver ao seu lado era como estar dentro do sonho mais lindo e perfeito.
      Mas infelizmente, Michael, o passado bate na porta. Apesar de revolucionar minha vida, certas ligações do passado são difíceis demais de se romperem. E justamente por te amar demais eu não poderia te enfiar nos meus problemas.
      Você merece uma mulher que esteja inteiramente disponível para você (apesar de saber que nenhuma irá te amar como eu); uma mulher que te faça feliz do jeito que você merece.
Tudo que posso fazer agora é pedir perdão. Me perdoe por ter entrado na sua vida sem ao menos avisar. De ter bagunçado seu coração e ir embora sem levá-lo comigo. Mas uma coisa você pode ter certeza. O meu continuará com você, e mesmo que cada um tenha caminhos distintos, eu sempre te amarei até a última batida do meu coração.

      Você, sem dúvida alguma, foi a luz que iluminou meu caminho..."


Só o que consegui enxergar na última linha foram borrões, causados pelas lágrimas grossas que tomaram conta dos meus olhos.

-Isso não é verdade, não é! Você não pode me deixar, meu amor.. Não pode!

    Me deitei sob a cama, encolhendo-me como uma criança que implora por sua mãe em desespero, pois é assim que me sinto sem Joy. 
     Deus não pode ser tão cruel comigo a ponto de tirar de mim a única coisa que realmente importa na minha vida. Mas eu vou achá-la, nem que eu tenha que ir ao inferno, mas eu trarei Joy de volta. Ela é minha e, ao menos que ela me peça, eu não vou desistir do seu amor.
     Não descansarei até que ela volte pra mim, caso contrário enlouquecerei se não a tiver do meu lado.

Capítulo 34

Michael


     Depois do impacto que tive ao ler a carta de Joy, decidi manter a calma e o equilíbrio. Se eu quero encontrá-la, preciso agir logo e não me trancar no quarto, lamentando minha desgraça.

-Quero ver todas as câmeras de segurança. Agora! - ordenei à minha equipe de seguranças - Não é possível que ninguém tenha a visto sair!

-Sinto muito, Sr. Jackson, mas eu juro que ela não passou por nós. Teríamos visto qualquer anormalidade.

-E como você me explica ela ter ido embora?

-Michael, o rancho é extenso demais. - Bill justificou -E você sabe que a Maria da Luz é esperta. Ela pôde muito bem ter pego um atalho pela mata..

-Você tem razão. - suspirei pesadamente, vendo toda minha esperança se esvair - Não sei mais o que fazer, Bill..

-Calma, Michael.. Vamos vasculhar toda a propriedade e eu prometo que vamos achar pelo menos uma pista de onde ela possa estar.

-Por favor, eu imploro! Me ajudem a encontrá-la. - encerrei meu pedido, deixando a sala em seguida

     A dor que sinto no peito é tão desesperadora que chego a pensar que nunca mais a verei novamente. Não consigo entender o motivo dela ter me deixado. Estávamos tão bem e de repente ela muda os nossos planos e desaparece sem ao menos se despedir de mim. Preciso encontrá-la nem que seja para ouvir da sua boca que ela não me quer mais.
Duas semanas depois

Joy


        Me olhando pelo espelho, percebo as constantes mudanças em meu corpo. Meus seios estão mais pesados, minhas curvas mais acentuadas e uma pequenina saliência na minha barriga. O tempo está passando e logo chegará o dia em que meu filho estará em meus braços. 
       Por insistência de Rodrick, essa semana fiz minha primeira consulta com a obstetra. Ela disse que estou para completar três meses de gestação e que ainda é muito cedo para definir o sexo. Mas o que me deixou aliviada é saber que ele ou ela, está crescendo forte e saudável.
O único problema que a doutora viu foi em relação à minha saúde. Ela disse que estou abaixo do peso e que tenho tendência a sofrer com pressão alta durante a gestação. Mas também pudera, com a confusão que é minha vida esse é um diagnóstico previsível. 
      Esse foi o único momento da semana em que me animei. Mas logo a realidade bateu na porta, juntamente com a saudade que sinto de Michael. Queria tanto saber como ele está, se superou minha partida e se sua vida está voltando à normalidade. Apesar de amá-lo com toda minha alma, peço a Deus que ele seja feliz, mesmo que eu não faça mais parte da sua vida.

-Boneca, passei perto de uma lojinha e não resisti!! - Rodrick entrou animado no quarto, trazendo consigo um pacote de presente

-Ro, não precisava disso.. - enxuguei meu rosto antes que ele percebesse que eu estava chorando

-Como não sabemos se é menino ou menina, achei melhor comprar uma cor neutra. Apesar de eu ter certeza que vai vir uma pequena diva por aí!

-Como pode ter certeza? - ri - Eu já acho que é um menino..

-Isso veremos daqui a seis meses.. Agora abre, mulher! - desfiz o laço da caixa e retiro dela um par de sapatinhos azul claro

-Oh Rodrick.. É tão lindo, obrigada.. - sorri com sinceridade

-Não precisa agradecer.. Você sabe que já amo muito esse bebêzinho.. - respondeu, acariciando minha barriga

-Ele vai ser muito amado por nós dois.

-É tão bom ver um sorriso no seu rosto. Mas eu sei que estava chorando. Você não me engana, mocinha.. - deitei minha cabeça na sua coxa, sentindo as lágrimas virem aos olhos

-É tão difícil ficar longe dele, Rodrick...

-Joy, olha pra mim. Se continuar assim vai adoecer! Procure o Michael, conte toda a verdade e lute pelo seu amor!

-Não é tão simples assim.. Acabou, Rodrick. Logo Michael vai me esquecer e seguir com a vida dele.

-Ok, você é quem sabe. - respondeu secamente, se levantando da cama

-Onde você vai?

-Tenho que resolver um probleminha. Já volto, meu amor. Se cuida! - Rodrick me deu um rápido beijo e saiu do quarto quase que correndo

-Ah Michael.. Como você está hein? - encarei por longos minutos o pedaço de papel contendo o número do telefone da casa do Michael

      Me lembro exatamente como Michael insistia para eu guardar o número. Segundo ele, era para eu pedir "socorro" caso me metesse em alguma encrenca na rua. 
Eu preciso saber como Michael está, ou até mesmo ouvir sua voz para acalmar meu coração. E por isso tomei coragem de ligar para sua casa.
Michael


      Já são duas semanas sem ela e minha vida está completamente parada. Pedi licença no trabalho antes que mandasse o juiz se foder e logicamente, ser processado e manchar meu nome. Além do mais eu não tenho cabeça para pensar em qualquer coisa que não seja Joy.
      Cansado de ficar enfurnado no quarto, martirizando-me com as lembranças dela, decido descer para buscar mais uma garrafa de Whisky. Estou tão anestesiado que não sirvo nem para encher a cara.

-Remy, já pedi pra fechar essas janelas.. - resmunguei. Ela nem me ouviu, pois falava com alguém no telefone

-Menina, por que foi embora desse jeito? Não sabe como Michael está desesperado!
-Joy? Você está falando com ela? - corri até Remy e capturei o telefone de sua mão

Meu coração passou a bater descontroladamente só de saber que a minha Joy está no outro lado da linha.

-Joy, fala comigo! Por favor, meu amor.. Volta pra mim, eu imploro! Joy!! - só o que escutei foi a chamada de encerramento - Por que ela está fazendo isso, Remy? Por que? O que ela disse?

-Ela só queria saber como você está..

-E ela acha que estou como depois do que fez? Porra, será que ela não vê como está me machucando?

-Querido, se acalme.. Tenho certeza que ela teve um bom motivo pra ir embora.. - tentou me acalentar em um dos seus abraços reconfortantes

-E qual motivo, Remy? Só o que consigo pensar é que ela percebeu que ainda ama o ex.

-É isso que você acha?

-E o que mais seria? Ele deve ter a procurado e ela decidiu voltar pra ele..

-Não é nada disso. - me surpreendi ao ouvir uma voz desconhecida se pronunciar com tanta convicção. Me viro e reconheço a pessoa à minha frente

-Você é...

-Rodrick. Melhor amigo da Joy. - completou

-Joy.. Onde, onde ela está? Me diz!! Ela voltou pro namorado dela, não é isso?

-Mas é claro que não! Eu arrancaria aqueles cabelos ruivos se ela fizesse isso! Apesar de ter certeza que ela jamais voltaria pro Kevin..

-E por que tem tanta convicção? - perguntei descrente

-Porque ela te ama, Michael. E mesmo que você não veja sentido nisso, ela foi embora pelo amor que sente por você.

-Mas então por que ela fez isso? Por acaso ela tem dúvidas sobre o que sinto por ela? Aposto que ela se sentiu insegura depois daquela festa..

-Não é isso, eu te garanto. Olha, eu vim te procurar porque não concordei com a atitude dela. E também não aguento mais vê-la chorar dia e noite. O que sei é que vocês precisam conversar seriamente.

-Você sabe onde ela está?

-Sei. Ela está comigo. - sorri aliviado, como se uma chama tivesse acendido no meu coração

-Graças a Deus! Eu.. eu vou trocar de roupa e vou pra lá agora mesmo!

     Não esperei a resposta de Rodrick. Na verdade não posso esperar nem mais um segundo para ter Joy em meus braços novamente.
      Eu não me importo com mais nada, nem com o sofrimento que passei por estar longe dela. Eu a amo com toda minha alma, e independente do que ela esteja me escondendo, eu a aceitarei de qualquer jeito porque simplesmente a dor de viver sem ela é pior do que uma possível decepção.

Capítulo 35

Joy


       Como eu não queria e nem podia ficar parada, assim como também não poderia morar de graça no salão de dança, decidi que era hora de arrumar algum trampo. Eu detesto ficar parada, fora que trabalhando eu manteria minha mente ocupada para não pensar tanto em Michael.
Kevin me proibiu de trabalhar. Segundo ele eu não estou em condições de trabalhar pesado, principalmente na rua. Então, com muito custo, ele e Sra. Keyla, dona do salão, concordaram que eu poderia costurar e lavar os figurinos dos dançarinos. Assim, ficarei muito mais confortável em morar no salão.
        Cansada de ficar deitada, chorando e descabelando, ainda mais depois de ouvir a voz de Michael pelo telefone, decidi levantar e aproveitar o sol lindo que brilhava lá fora. Lavei os vestidos e os ternos dos dançarinos e os coloquei no varal. Retirei as que estavam secas e as dobrei, levando-as comigo para o quarto. Muitas precisavam de remenda e será bom poder me ocupar pelas próximas horas.

And I will love you baby always, And I'll be there forever... - cantarolava enquanto entrava no quarto, mas fui surpreendentemente interrompida

-Espero que seja para mim essa canção. - Michael se levantou da cama na qual estava sentado

     Apesar de estar visivelmente mais magro, abatido e com a barba para fazer, ele estava ainda mais lindo desde a última vez que o vi. Meu coração pulava de alegria, parecia ser um sonho, como os que costumo ter toda noite.

-Michael.. - sussurrei, trêmula. As roupas que estava nas minhas mãos caíram sob meus pés

    Seus olhos, assim como os meus, encheram-se de lágrimas. Nossa respiração estava agitada, assim como nossos batimentos. Dei um passo para frente, mas eu tremia tanto que tive que permanecer imóvel. Michael também estava nervoso, mas diferente de mim, ele se aproximou e me tomou em seus braços.

-Minha pequena.. Meu amor, finalmente te achei.. - me doeu muito vê-lo chorar, e dessa vez ele está chorando por mim - Eu sofri tanto, Joy, tanto..

-Me perdoe.. Eu juro que não quis magoá-lo.. - ambos secávamos as lágrimas um do outro, mas em meio à isso, sorríamos de alívio e felicidade

-Por que, meu amor? Por que se foi sem ao menos me dizer? Foi por medo de eu não te amar? Pensou que ainda amo a Megan?

-Não, Mike.. Não foi por isso..

-Então é pelo Kevin! - acusou, virando-se de costas para mim. Ousei em me aproximar, abraçando-o com força

-Mas é claro que não! Como pode pensar isso, meu amor? - Michael se virou novamente, com o semblante entristecido

-Então volta pra mim! Querida, eu já disse que não me importo com o seu passado, nem com o que fez. É claro que vou adorar saber mais sobre você, mas nada do que disser vai mudar o que sinto e penso de você. Eu te amo, Joy. Amo com loucura, com desespero.. Você é tudo que eu tenho! - declarou, apertando-me contra ele

-Eu também te amo, Michael. E tudo que mais quero nessa vida é ficar ao seu lado. Ficar esse breve tempo longe de você estava me destruindo.. Não posso viver sem você..

-Então volte comigo, volte para a nossa casa. Eu imploro.. - ao terminar, Michael me beijou apaixonadamente

     Desfaleci por completo em seus braços, entregando-me aos beijos do amor da minha vida. Nosso beijo começou urgente e sedento. Quando nos acalmamos, ele passou a ser delicado e intenso, demonstrando a imensa saudade acumulada em nossos corações.
    Nos afastamos, pois o ar se tornara escasso. Nossos lábios estavam inchados, mas com o desejo ainda mais crescente dentro de nós. 

-Vem, sente aqui.. - Michael pegou na minha mão, sentando-me junto dele na cama - Nunca estive tão nervoso em toda minha vida.. - riu

-Mas por que está tremendo tanto? Eu estou aqui, não estou?

-Para minha total felicidade, sim. Mas não é só por isso que estou quase tendo uma síncope! É melhor irmos pra casa e eu te conto lá..

-Michael, nós não vamos sair daqui sem antes conversarmos.

-Eu sei que tem algo muito importante para me dizer. Mas o que eu tenho para pedir não pode mais ficar preso na minha garganta. - Michael se levantou, ajoelhando em seguida

-O que você está fazendo? - Michael me deixou sem falas ao estender uma caixinha de veludo preta. Antes que eu indagasse, ele a abriu revelando um belíssimo anel cravejado com pedras brilhantes

-Quer se casar comigo, Maria da Luz? Sei que ainda é muito cedo, mas não vejo motivos para adiar isso. Eu te amo e te quero como minha mulher, mãe dos meus filhos. Você tem todo direito de não aceitar, afinal você é jovem, linda e provavelmente não vai querer se prender à um homem da minha idade e..

-Shhi.. Me escute, Michael. Ser pedida em casamento por você é tudo que eu sempre sonhei.. - solucei - Não sabe a felicidade e a dor que sinto nesse momento.

-Dor? Não entendi, Joy..

Certo, não dá mais para adiar, empurrar ou enrolar. Se eu continuar mentindo por mais um minuto serei totalmente digna do seu desprezo e revolta.

-Eu não aguento mais, não aguento mais.. - enterrei minha cabeça no travesseiro, chorando descompensadamente

-Joy, o que está acontecendo? Por que está chorando desse jeito? - perguntou apavorado

     Permaneci em silêncio até conseguir acalmar meu coração e me sentir pronta para abrir o jogo. Me sentei na cama, enxuguei meu rosto e me levantei, pondo-me de frente à Michael. Seu olhar havia medo e confusão, sem ter noção do que saberá a seguir.

-Michael, eu não sei como dizer isso. Mas a primeira coisa que deve saber é que nada, absolutamente nada foi planejado.

-Explique melhor, meu amor. Está me deixando aflito!

-Meu Deus, me dê forças.. - murmurei. Respirei fundo e o encarei novamente - Quando nos conhecemos, você sabe, minha vida estava de mal a pior.. E não unicamente pelo fato da minha madrinha ter morrido e em seguida levar uma rasteira do homem que pensava ser decente.

-Eu não entendo onde quer chegar. Você já me contou sua história e eu não vi nada que pudesse interferir tanto assim em nossa relação. Diga logo, Joy. O que está me escondendo? Vamos, amor, confie em mim..

-Eu não sou calculista e muito menos uma golpista. Eu simplesmente não imaginava que fosse me apaixonar por você. Tudo bem, chega de enrolação. - suspirei - Eu não vejo outra maneira de dizer que..

-Está grávida. - concluiu, deixando-me boquiaberta

-Como? - Michael abriu um sorriso amplo e emocionado

-Só pode ser isso, querida.. Já faz um tempinho que percebo seus enjoos, mas eu fiquei quieto para não criar nenhuma expectativa infundada. Mas agora vendo seu estado eu entendo tudo. Você teve medo por ter sido precoce, mas amor, isso é maravilhoso!

-Meu Deus.. - me virei de costas, sentindo toneladas pesarem sob meus ombros

-Amor, eu também estou surpreso. Não pensei que seria pai tão cedo, digo pela nossa relação, mas você não tem ideia de como estou feliz, pleno, completo.. Meu amor, eu te amo tanto, tanto! Sou o homem mais feliz desse mundo!

-Não, Michael.. Não é! - gritei, explodindo o misto de sentimentos sombrios que estavam presos dentro de mim

-Joy..

-Você não é o pai do meu filho. - disparei de uma só vez, prevendo a catástrofe que virá na sequência

       Michael paralisou, fixando os olhos em qualquer cômodo deste quarto. Foi como se tivesse sido atingido fatalmente por uma lança em seu coração. Sua pele ganhou um tom acinzentado e suas pupilas perderam totalmente o brilho de segundos atrás. 
     Minha vontade é de sair correndo deste quarto antes que a imagem à minha frente terminasse de golpear meu coração. Mas agora não tem mais volta. A verdade finalmente foi dita e o que me resta agora é esperar pelas consequências, pois sei que a qualquer momento Michael sairá desse estado de choque e então poderei ver sua real e mais negativa reação.

Capítulo 36

Michael


-Que brincadeira é essa, Joy? - perguntei o mais calmo que consegui. Ela permaneceu quieta, chorando copiosamente - Me responda!! - gritei, sacudindo seus braços

-Me perdoa, por favor.. - implorou

-Repita agora a merda que você disse. Vamos!

Joy se afastou novamente, apoiando-se na penteadeira. Respirou fundo e se virou para me encarar. A culpa e a vergonha eram nítidas em seus olhos, o que me deixou ainda mais aflito.

-Eu sei que eu devia ter dito desde o início, mas foi tão difícil..

-Espera. - ri sem humor - Então é verdade? Você.. - reprimi uma lágrima - Você está grávida de outro homem..

-Me deixe contar como tudo aconteceu... Por mais que seja confuso, você precisa me entender.

-Quer me contar como fez um filho? Acredito que foi trepando com o seu namoradinho! - senti um terrível gosto amargo na boca ao proferir essas palavras. Mas nada pode ser pior do que o golpe que estou recebendo

-Michael, para! Por favor, me escute.. - Joy secou o rosto e deu dois passos para a frente, mas não permiti que ela se aproximasse de mim

-Desde quando sabe dessa gravidez? Você descobriu agora, é isso? - ela fechou os olhos, chorando novamente

-Não.. Quando você me trouxe pra sua casa eu já sabia da gravidez. - passo minha mão pelo cabelo, contando até dez mentalmente antes que eu fizesse uma besteira

-Por que você não me contou? Por que, Joy? - berrei, ignorando a tentativa de manter o autocontrole

-Eu tive medo! Michael, eu estava perdida. Eu não sabia se podia confiar em você e..

-Não sabia se podia confiar em mim? - repito, perplexo - Eu te coloquei dentro da minha casa, cuidei de você de todas as formas possíveis e você tem a cara de pau de dizer que não confiava em mim?

-Você não entende, não é? - gritou - Acha que é fácil confiar em alguém depois de tudo que eu passei? Eu fui chutada pelo homem que acreditei que me amava, o pai do meu filho! Eu não tinha mais ninguém para pedir ajuda e o pior, tinha que pensar antes de mais nada no meu filho! Eu não sabia que ficaria na sua casa por todo esse tempo, não era meu plano..

-Você teve todas as oportunidades de me contar. O que pensou que eu faria quando soubesse?

-Eu não sei! Eu tive medo, Michael.. Na minha cabeça você jamais aceitaria dar abrigo para uma garota de rua com um filho na barriga! Eu pensei que se eu te contasse me mandaria sair da sua casa.

-Não, Joy. Eu não faria isso, pelo contrário. Teria te ajudado da melhor maneira possível, mas você preferiu esconder de mim!

-Não foi minha intenção, acredite em mim... - choramingou

-Para de chorar! - exigi - Suas lágrimas não me sensibilizam mais. Seja madura pelo menos uma vez na sua vida e encare os seus problemas! - respirei fundo e prossegui - Olha, se não queria que eu soubesse, ok. A vida é sua. Mas a partir do momento que se envolveu comigo não era mais um problema só seu!

-Eu sei, eu sei! Michael, eu juro que não imaginava que fosse me apaixonar por você.. Mas foi tudo tão rápido.. Eu ia contar, mas o medo de te perder era maior que qualquer coisa!

-E enquanto isso eu era feito de idiota.. - ri

-Não, isso não! Nunca passou pela minha cabeça te enganar ou brincar com você!

-Você é tão boazinha.. - sorrio cinicamente - Como teve coragem de fazer isso comigo? Você não tinha o direito de entrar na minha vida e me ferrar desse jeito!

-Michael..

-Cala a boca! - a cortei - Eu te dei tudo, Joy.. E eu não estou falando de dinheiro e sim de amor. Eu coloquei meu coração nas suas mãos, dei todo meu carinho, todo meu amor e você jogou tudo na lama!

-Michael, não fale assim.. Eu juro que essa nunca foi a minha intenção! Como eu poderia saber que íamos ficar juntos?

-Então é por isso que ficou calada, não foi? Você achou que se eu soubesse da gravidez, não me envolveria com você. Foi por isso que você ficou quieta! - acusei, apontando meu dedo na sua direção

-Não é nada disso! - rebateu - Mas já que tocou no assunto, me diz a verdade. Você teria me aceitado mesmo grávida de outro homem? - suspirei, pronto para responder com uma surpreendente sinceridade

-Quer saber? Isso não teria feito nenhuma diferença pra mim. - Joy abriu a boca, surpresa com a minha resposta - Eu o teria amado como se fosse meu filho, pois eu nunca fui um homem ruim e insensível. Mas você estragou tudo quando decidiu esconder de mim a verdade!

-Michael, eu sei que eu errei, mas tente entender o meu lado! Poxa, eu sou mãe e pelo meu filho eu teria feito qualquer coisa!

-Inclusive me dar um golpe. - completei. Joy tossiu duas vezes, provavelmente assustada com a minha presunção

-O que foi que você disse?

-Eu posso ter ficado cego por você, mas agora eu enxergo tudo com muita clareza! - enxuguei as lágrimas que insistiam em cair, mas continuei minha tese - Sua ideia era me seduzir, me deixar completamente apaixonado e depois.. "Oh Michael.. Estou grávida!". Confessa que era esse seu plano!

Minha bochecha queimou com o forte tapa que recebi de Joy. Ela me olhava com incredulidade e nojo. Por mais que eu tentasse guardar essa dúvida dentro de mim, eu não consegui evitar. Quero esfregar na sua cara o que penso em relação à tudo o que ela fez comigo. Agora sim percebo que Helena estava certa em dizer que eu seria feito de bobo novamente.

-Eu não admito que me ofenda desse jeito! - gritou, descontrolada

-Isso não é nenhuma ofensa, é a mais pura verdade! Só que para a sua falta de sorte nós demoramos a ficar juntos, assim não tinha como me empurrar esse filho, não é?

-Desgraçado! - Joy levantou a mão para me agredir, mas consegui impedir, segurando firme o seu punho - Me solta! - gritou, se desvencilhando de mim - Você é um monstro!

-Eu sou um monstro? - ri - Acho que os papéis estão invertidos, porque não sou eu que tentei dar um golpe! Você fugiu porque viu que não conseguiria arrancar nada de mim! - acusei, sem um pingo de pena da mulher à minha frente

-Você tem todo o direito de se sentir enganado, de me odiar ou o que for. Mas eu não admito que ofenda à mim e ao meu filho! Eu posso sim sem ter sido covarde, mas jamais teria coragem de me aproveitar de você!

-E realmente não vai. - sorri - Arrume outro milionário que seja mais idiota que eu. Quem sabe não convence ele com sua boa lábia e empurre esse bastardo pra cima dele!

-Vai embora daqui, agora! - Joy gritou, socando meu peito com força - Eu não quero te ver nunca mais!

     Eu estava tão arrasado e destruído que decidi entregar os pontos, aceitando a expulsão de Joy. Tudo que mais quero é ficar longe dessa mulher e de toda a sujeira na qual ela me envolveu.
Nunca vou perdoá-la por ter me enganado de uma forma tão baixa como essa. Porra, eu fiz de tudo para fazê-la feliz, a amei como um louco para receber isso em troca. Joy não podia ter feito isso comigo, não podia! 
       Eu me odeio por ter sido tão imbecil em permitir que outra mulher me traísse novamente. Mas Joy consegue ser pior que Megan. Ela sim causou a dor mais absurda que um ser humano possa sentir. Destruiu meu coração como nunca antes fizeram.
    E a partir de agora eu também farei questão de machucar qualquer um que entrar no meu caminho. Nunca mais permitirei que me façam de tolo novamente. E Joy... Joy se arrependerá de ter entrado na minha vida. Vou retribuir com êxito toda a dor que ela tem causado em mim, mesmo que isso me destrua mais do que já estou.

Capítulo 37

Joy


     Precisei me sentar na cama e respirar fundo para digerir a enxurrada de ofensas que ouvi de Michael. Eu sabia que sua reação não seria das melhores, mas não imaginei que ele seria tão estúpido como foi. 
    Eu ainda estava nervosa, trêmula e assustada. De repente minha visão ficou turva e comecei a sentir uma forte tontura.

-Joy, eu vi o Michael saindo daqui e... Joy? Joy o que você tem? - Rodrick me segurou antes que eu caísse da cama

-Vou ficar bem.. - tranquilizei

-Você está pálida, querida.. O que foi que aconteceu? - Rodrick me deitou confortavelmente na cama, trazendo um copo de água em seguida

-Michael já sabe de tudo.. Foi horrível, Rodrick.. - a vontade de chorar veio novamente e eu desabei como a minutos atrás

-Calma, Joy.. Respira fundo! Pensa no bebê, meu anjo..

-Tudo bem.. - inspirei e respirei repetidas vezes até meus batimentos se normalizarem

-Está melhor?

-Estou.. Não se preocupe, o pior já passou. - Rodrick se sentou ao meu lado, me observando atentamente

-Michael já sabe de tudo, não é?

-Sim.. Eu não podia mais esconder. A reação dele foi tão agressiva.. Eu nunca imaginei que seria assim!

-Meu bem, entenda.. Michael só ficou nervoso. Tenho certeza que ele pensará melhor..

-Não, Rodrick! Você não tem noção das coisas que ele me disse.. Michael me acusou de ter tentado lhe dar um golpe! Me humilhou e ofendeu da pior maneira possível!

-Ah meu Deus.. - lamentou

-Eu sei que errei muito em esconder a verdade, mas nem por isso ele tinha o direito de me chamar de golpista!

-Joy, não fique assim.. Michael só está de cabeça quente. No fundo ele sabe que você jamais faria uma cachorrada dessa!

-A culpa é toda minha.. Se eu tivesse dito a verdade desde o início nada disso teria acontecido!

-Isso nós sabemos, mas não adianta mais pensar no "se". Agora já foi, querida e se Michael te ama realmente, ele vai te perdoar.

-Eu não tenho essa certeza. - afirmei, descrente - Eu vi ódio em seu olhar.. Michael nunca vai me perdoar, e quer saber? Eu mereço. Eu procurei essa confusão. Estou colhendo os espinhos que eu mesma plantei.

-Pare de se martirizar! - disse me repreendendo - Seu único erro foi o de não ter tido coragem de contar toda a sua história, mas isso não faz de você uma megera! E se ele não enxerga suas qualidades, tampouco é merecedor do seu amor! O que você tem que fazer é erguer a cabeça como sempre fez em toda a sua vida.

-Você está certo. - enxuguei meu rosto pela última vez - Não vou permitir ser humilhada novamente. Eu já passei por muitas coisas. Venci a pobreza, a carência de uma mãe, a perda da minha madrinha e a desilusão com o Kevin. E dentre tudo isso eu fui forte, e não será agora que eu vou desistir.

-Essa é a minha amiga! Assim que eu quero te ver. Não precisamos de Michael ou do Kevin. Vamos juntos criar esse baby lindo!

-Eu sei que ele será muito amado por nós..

-Não tenha dúvidas! Não vou deixar faltar nada pro meu afilhado. Agora deite um pouco, você precisa descansar.

-Nada disso! - retruquei - Tenho que resolver minha vida logo! Não vai demorar pro meu filho nascer e eu tenho que estar preparada pra quando esse dia chegar.

-Joy, não é hora pra isso..

-Já passou da hora, Rodrick! Cansei de ficar sempre na defensiva. Está na hora de eu dominar minha vida. Vai me apoiar ou não? - Rodrick revirou os olhos, dando por vencido

-Ok... - bufou - Você e essa teimosia.. O que pretende fazer?

-Preciso achar um lugar pra morar.

-E pra que? Você está aqui comigo e muito bem amparada!

-Rodrick, eu não posso ficar morando nesse quarto pra sempre. Ele é seu e vou te atrapalhar mais do que já estou. Eu tenho que alugar nem que seja um quartinho de pensão.

-Tá, mas com que dinheiro?

-Eu vou chegar lá, homem! Você lembra que eu dançava com você, certo?

-Claro que lembro! Amava quando participava dos concursos comigo.. - Rodrick sorriu, mas logo se deu conta de onde eu queria chegar - Espera.. O que você quer dizer com isso?

-Eu vou pedir a Keyla para ser dançarina substituta. Assim sempre que o salão funcionar eu dançarei com o quem não tiver par.

-Joy, você bateu com essa cabeça na parede? Você está grávida, mulher!

-E qual o problema? Quando a Tina ficou grávida ela dançou até o sexto mês e não houve problema nenhum. Confie em mim, Ro..

-Eu acho perigoso. Fora que logo sua barriga vai crescer!

-Eu dou meu jeito. Dona Keyla sempre me convidou para fazer parte da equipe. Ah, eu tive outra ideia!

-Qual a loucura dessa vez..?

-Lembra que a Key estava com uma ideia de dar aulas de dança durante o dia? Eu posso fazer isso!

-Joy, não se empolgue...

-Não estou me empolgando. Eu sei todos os passos de dança. Posso dar aulas durante o dia, no sábado me apresento e arrumo um bico a noite pra cobrir as despezas.

-Menina, você não pode trabalhar o dia inteiro! Perdeu o juízo?

-É só por um tempo até juntar um bom dinheiro. Eu vou me cuidar, Rodrick. Confie em mim! - sorri, transmitindo a confiança que preciso para enfrentar meus próximos desafios
Duas semanas depois


    Bom, desde que decidi reagir, minha vida parece estar entrando nos eixos. Assim que consegui o emprego de bailarina, professora de dança e de garçonete, aluguei um quarto em um pequeno hotel aqui do bairro.
     Eu poderia ter ficado apenas com o trabalho no salão, mas ainda assim não cobriria minhas despesas, fora que assim que minha barriga tiver maior, terei que parar. Então não me restou outra escolha que não fosse finalmente aceitar emprego na boate do David, um velho conhecido.
David sempre foi amigo do Kevin e por diversas vezes me convidou para "dançar" na sua boate. É claro que sempre recusei. Nunca fui com a cara dele e jamais aceitaria ganhar dinheiro de forma suja. Mas agora eu não posso ser orgulhosa. 
       Procurei por ele há alguns dias atrás e depois de muito insistir aceitei o emprego de garçonete. Prometi que em breve faria parte do grupo de dança, mas quando isso acontecer eu estarei com a gravidez avançada e ele não poderá me obrigar a nada. Sei que é arriscado, mas na situação que me encontro eu não posso perder tempo com medo ou insegurança. 
     Mas até que o desgaste de ter que me deslocar para o centro da cidade, todos os dias à noite tem me ajudado a ocupar minha cabeça. Evito ao máximo pensar em Michael. Só de mencionar seu nome sinto um frio na espinha e uma terrível dor no peito. Não tenho noção de como ele está, mas rezo todos os dias para que ele, assim como eu, esteja se reerguendo. Jamais me perdoarei se algo de ruim acontecer com Michael.

(...)

       Depois de mais uma noite exaustiva na boate, cheguei em casa às cinco horas da manhã. A boate, além de fechar tarde, fica muito longe do meu bairro. Mas eu não posso reclamar. Tenho ganhado muitas gorjetas, e esse dinheiro tem ajudado a me virar sozinha.
      Só o que consegui fazer foi tomar um banho e pular na cama. Devo ter dormido por umas três horas, pois já são oito da manhã e eu tenho que estar no salão. 
      Como cheguei mais cedo que o resto do pessoal, decidi adiantar meu trabalho, varrendo todo o salão para a apresentação dessa noite. 
Eu estava sozinha em um completo silêncio, mas logo escutei passos sob o piso de madeira. Imaginei ser Rodrick ou algum outro dançarino, mas era justamente o improvável. Deixei a vassoura cair da minha mão, devido ao susto que levei.

-Michael?

Continua..
              

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