terça-feira, 14 de junho de 2016

FanFic: "Como não se apaixonar? - O preço - Parte ll " (+18) - CONTINUAÇÃO




Autora: Maricia Jackson 


Obs: Meninas, o tópico original mais uma vez deu problema rs, então tive que abrir outro para continuar. A partir do capítulo 18 e 19

Link abaixo do tópico original:

http://mjjfanfictions.blogspot.com.br/2016/03/como-nao-se-apaixonar-o-preco-2-parte-18.html





Capítulo 18


Mercedes


-Levante-se! - repreendo-o ao vê-lo procurar a poltrona para se sentar - Quero você de pé para ouvir tudo que eu tenho para dizer!

-De onde você tirou isso? Como pode encher a boca pra falar uma atrocidade como essa?

-Atrocidade foi o que vocês fizeram contra nós! Por culpa sua e do maldito do seu pai eu perdi minha melhor amiga! A única pessoa que eu tinha nessa vida!

-Mercedes você está louca! Criou todas essas fantasias e está obcecada por isso! Meu pai pode ser um estúpido, mas daí ser um criminoso? - disparo a gargalhar. É incrível o cinismo de Michael

-É surpreendente a sua cara de pau! Pelo amor de Deus, Michael. Acabou a farsa! Não gaste saliva tentando inutilmente se explicar.

-Mas quem deve explicação aqui é você que decidiu voltar para infernizar minha vida! Você sempre teve a mania de culpar as pessoas pelos seus dilemas. Foi por isso que nosso casamento fracassou, e não satisfeita encontrou uma forma de culpar minha família pelo incêndio!

-O incêndio foi criminoso. Sinto muito por não ter sido um crime perfeito! - Michael empalidece mais uma vez. Ele sacode a cabeça e me encara

-Não, não pode ser verdade... Não posso crer que essa tragédia foi proposital. - fecho os olhos e tento me acalmar. Sinto tanto nojo de Michael que minha vontade é de vomitar ali mesmo

-É isso que vivo me perguntando. Qual foi o propósito de vocês? Se vingar de mim? Terminar de destruir a minha vida? Eu causei tanto mal assim à vocês? - minha voz sai embargada e eu luto para não derramar as lágrimas

-Mercedes... - diz com a voz afável

-Vocês me tiraram tudo, tudo! Eu perdi a minha vida! A Gina morreu por culpa sua! - grito, deixando explodir o rancor e ódio reprimidos

-Você não tem o direito de me culpar por isso! - rebate, e eu percebo que ele está chorando. Tento me pronunciar, mas ele me corta - Agora é a sua vez de me ouvir. O único erro que cometi nessa vida foi ter te deixado. Você pode me chamar de covarde, de egoísta e fraco, porque de fato eu fui. Eu era imaturo demais, fútil demais e permiti que meu pai comandasse minhas escolhas. Eu sei que o maior culpado fui eu. Nisso você tem todo o direito de me culpar, agora acreditar que eu fui cúmplice do meu pai em algo tão diabólico é totalmente injusto.

-Você acha?

-Sim, eu acho. Você conheceu um lado que nem eu imaginei que tivesse, esteve ao meu lado nos momentos mais difíceis. Compartilhamos histórias inesquecíveis e você ainda acredita que eu tenha envolvimento nisso? - nesse momento não sei o que dizer. Simplesmente me vejo sem argumentos


      Olhar dentro desse par de olhos negros me deixa extremamente confusa. Por um momento eu me vejo de frente para um Michael magrelo, de cachos longos e de traços delicados. Me lembro da sua doçura, da forma como me cativou tão rápido e de como roubou meu coração. Mas então minha mente é tomada por nuvens negras que trazem amargas recordações.
Meu coração aperta quando me lembro dos nossos últimos momentos juntos; das brigas intermináveis e do seu abandono. Mas principalmente, me lembro de toda a tragédia que se desenrolou. Eu perdi meus amigos, meu lar, minha personalidade e o que mais me dilacera, o meu filho. Relembrar todas essas desgraças energiza o ódio que tomou conta do meu coração.


-Eu nunca te conheci, Michael. - forço minha voz a sair - E agora posso dizer com toda certeza que nunca nos conhecemos. Não somos mais os mesmos, não acha? - Michael suspira e se aproxima, me revistando com o olhar

-Sim, realmente mudamos muito. Você pode estar banhada de joias da cabeça aos pés, vestida com as melhores grifes. Pode estar escondendo sua face por trás de toda essa maquiagem e cabelos negros, e também pode desfilar por aí com esse nariz empinado, mas sabe o que eu vejo na minha frente?

-Não faço ideia. O que está vendo? - cruzo os braços. Michael se aproxima, aperta meu queixo e sorri

-Por baixo de toda essa pose você continua sendo a jovem Mercedes que conheci. A minha Mercedes.

     Sem me dar tempo para pensar, Michael envolve uma mão na minha cintura e a outra na minha nuca. E então eu paraliso. Perco totalmente a ação quando o vejo se aproximar e me roubar um beijo. Rápido e urgente. Seus lábios carnudos exploram cada cantinho da minha boca e sua língua me penetra sem delicadeza. Tento protestar, mas é inútil. Estou desfalecida em seus braços. 
    A mesma maciez, o mesmo gosto, os mesmos toques e as mesmas sensações que meu corpo emanava voltam com força total. Ele me suga, mordisca, geme e me aperta para si. Levo minhas mãos à sua nuca, e deixo o rastro da minha unha no local. E então a consciência me alerta da burrada que estou cometendo. 
Com muita dificuldade, o empurro para longe de mim e lanço uma bofetada em seu rosto.


-Nunca mais você vai tocar em mim! - berro - Hoje você conheceu a sua maior inimiga! Eu vou acabar com você! - ameaço, socando seu peito, furiosa - Saia da minha casa, agora! 

Michael acaricia a bochecha e os lábios. Ele apenas sorri e assente para mim.

-Tudo bem, Mercedes. Essa é a sua escolha, então se prepare para a guerra. - afirma, se afastando da minha visão em seguida

     Fecho a porta e me jogo no chão, na verdade me sinto engolida por ele. Estou desesperada, aflita e pior, completamente desarmada. Eu deveria ter sido forte, impetuosa e firme, mas na primeira oportunidade me deixei ser levada por um sentimento que nem mesmo sei descrever. 
Estou com nojo de mim, raiva, ódio... Agora mais do que nunca vou destruir Michael Jackson.


(...)


A noite pareceu interminável. Não consegui pregar os olhos. Precisei tomar dois banhos para me desintoxicar do cheiro desse homem, mas ainda assim meus lábios continuaram a formigar. Por vezes senti seus toques precisos na minha cintura e no pouco que dormi, sonhei com as tórridas noites de sexo que tínhamos.

-Ele não vai me controlar! - afirmo decidida

   Me levanto da cama e me encho de coragem para enfrentar mais um dia naquela empresa. Mais um dia frente a frente com meu maior pesadelo.



Capítulo 19

Michael



       Beijei um demônio. É só o que repito mentalmente enquanto dirijo à caminho da empresa. Acho que estou inerte em um mundo surreal ou em um pesadelo e que a qualquer momento acordarei. Definitivamente ontem foi o pior dia da minha vida. Além de ter que me conformar em ser sócio de Mercedes, descubro que ela agora é, nada mais que minha grande inimiga.
      Ainda não consegui assimilar tudo que ela disse, ou melhor, todas as acusações e insultos que ela proferiu contra mim. Por um momento me pergunto se essa história de incêndio criminoso realmente é verdade. E se for, será que existe a possibilidade do meu próprio pai ser o mandante dessa barbárie? 
      Tantas perguntas, tantos questionamentos, dúvidas... Deus, eu vou enlouquecer! Mas uma coisa é certa. Eu fui o maior babaca do século, mais uma vez deixei me levar pelo impulso. Tinha que ser justamente perto dela? Que merda deu na minha cabeça em beijá-la? A única coisa que sei é que provoquei ainda mais essa fera e é óbvio que ela se vingará hoje.

-Bom dia, Mike!! - Dereck se mostra empolgado ao entrar na minha sala. Na certa quer notícias da noite passada

-Sente-se Dereck. - sorrio - Não precisa desse teatro, você quer as novidades, não é mesmo?

-Que isso, amigo! Acha que eu sou o que? - rio do seu cinismo - Mas já que tocou no assunto... Me diz, como foi? Visitou a toca da leoa?

-Foi uma tragédia! - desabafo, espreguiçando-me na poltrona - Ela me xingou de tudo que você possa imaginar e pior, ainda me acusou de ter sido responsável pelo incêndio daquele galpão.

-Tá brincando... Sério isso? Mas de onde ela tirou essa?

-Eu não sei, mas sabe de uma coisa? Eu vou investigar isso.

-Investigar o que? Mike, ela só quis arrumar desculpa pro despeito que ela sente. Afinal, você a trocou pela Dominique.

-Não foi bem assim, você sabe. E não é despeito, pelo menos não é só esse motivo. O ódio que ela sente é maior que uma simples picuinha. Mas tudo bem, eu vou dar meu jeito.

-Você quem manda. Mas e aí, o que mais aconteceu?

-Nada. - minto. Na verdade não estou disposto a contar certos detalhes...

-Michael, para de mentir. Tu é meu amigo há mais de vinte anos e eu te conheço. Está com o olhar perdido... e volta e meia sorri do nada. O que, já está de quatro por ela?

-Não diga besteiras! - lhe repreendo - Sabe por que estou rindo? Porque ontem eu comprovei que ainda consigo domá-la.

-Do que está falando?

-Eu a beijei. - Dereck arregala os olhos, paralisado - Sei que foi a coisa mais estúpida que eu poderia ter feito, mas serviu para ferir o orgulho de Mercedes.

-Puta que pariu! Eu imaginei que isso fosse acontecer, mas não pensei que fosse no primeiro dia! Qual o próximo passo? Vai levá-la pra cama e dar um trato nela?

-Vá se ferrar! Eu só fiz isso para irritá-la, para que ela visse que eu não tenho medo das suas ameaças.

-Tá querendo me dizer que não sentiu nada quando a beijou?

-Senti prazer. Prazer em ver que não sou mais um capacho.

-Legal... Então, se eu chamá-la pra sair você não vai se importar?

-Eu te mato antes disso! - ameaço seriamente. Dereck ri

-Nossa, tô vendo realmente que não sente nada por ela!

-Não serei hipócrita em dizer que sou indiferente à ela. Sinto muitas coisas por Mercedes. Vivi uma história com ela e não posso esquecer da bagunça que ela causou em minha vida. Mas eu garanto que ela nunca mais vai me destroçar!


Mercedes



     O dia praticamente voou. Cruzei com Michael uma ou duas vezes pelos corredores, mas eu estava acompanhada de funcionários e acionistas que fizeram questão de me mostrar toda a empresa. É claro que não dei a mínima, mas coloquei um sorriso no rosto e suportei pacientemente, afinal eu tenho que conhecer bem o lugar que farei tantas modificações. 
Finalmente volto para o escritório e decido organizar a reunião que farei no dia seguinte. De cara prevejo que entrarei em conflito com Michael e só de pensar nisso me sinto ansiosa para o próximo dia.

-Atrapalho? - Edgar abre a porta e sorri largamente

-Imagina, Edgar. Pode entrar.

-Nem nos vimos hoje, estava ocupada? - ele beija o dorso da minha mão, tentando insistentemente me galantear

-Sim. Tirei o dia para conhecer a empresa. Estou exausta!

-Imagino... Afinal você também é a dona da empresa. Em dois dias você tem produzido mais que o nosso digníssimo presidente! - diz, debochando de Michael

-Não entendo... Por que Michael assumiu o lugar do seu pai, sendo que vocês dois são filhos? Você tem tanto direito quanto Michael. - Edgar muda o semblante em um passe de mágica

-O nome disso é ingratidão. Não sabe como o odeio por isso. Ele e meu pai. Sempre dediquei minha vida à essa empresa e quando mereço meu reconhecimento, ele convoca Michael para ser o presidente!

-Hey, não precisa se revoltar... - toco sua mão, transmitindo compreensão - Imagino como se sente. Mas agora eu estou aqui e te garanto, muita coisa vai mudar. - ele sorri, surpreso com meu apoio. Parece que o plano de conquistá-lo está cada vez mais fácil

-Não esperava seu apoio. Obrigado, Merche. Posso te chamar assim?

-Claro! Só se eu puder te chamar de Ed. - rio, descontraída

-Perfeito! Então, Merche... Estou meio sem graça com o que vou pedir.

-Pode falar, meu bem. O que você deseja?

-Bom, como ainda é cedo, pensei que mais tarde poderíamos jantar. Sabe, conversar mais a vontade...

-Seria ótimo! - sorrio empolgada

Acabo de ter uma excelente ideia e não vejo a hora de por em prática. Edgar está saindo melhor do que encomenda...

-Sério? Estava conformado que receberia um não! - ele ri

-Imagina, por que eu faria isso? E então, vai ser na sua casa? - ele raspa a garganta e se recosta na cadeira

-Na... na minha casa? Não pensei que gostaria de ir logo lá .

-E qual o problema? Só porque Michael mora lá? Edgar, se quer ser superior ao seu irmão, você deve se portar como tal. Não tem que temê-lo.

-Impressionante a forma como você me entende. - diz, com fascínio no olhar - Quer saber? Você está certíssima! Será uma honra recebê-la essa noite na minha casa!

-Pois pode me esperar! As oito em ponto estarei pronta. - ele sorri vitorioso e me beija minha mão novamente
  
Enquanto Edgar deixa minha sala, empolgado, estampo um sorriso de pura excitação. Dá pra acreditar que vamos jantar todos juntos? Leon, Michael e sua esposa. Mal posso esperar a noite chegar para novamente estar de frente com a minha futura família...


Capítulo 20

Mercedes



     Decido tirar o resto da tarde para me ocupar com a preparação do jantar. Edgar afirmou se encarregar de convocar todos para uma "noite especial". É claro que Michael não deve ter entendido nada, mas conhecendo seu lado curioso, ele não vai perder esse jantar por nada! 
     Reviro meu closet do avesso e não encontro nenhuma peça que me agrade. Quero estar linda, impecável para essa noite, afinal vou reencontrar o restante da família. Mal posso esperar para rever Leon e Dominique.
Saio do shopping ao entardecer e já que estou atrasada, decido fazer o cabelo em um salão de beleza. Posso estar há doze anos adotando um estilo vaidoso, mas pra falar a verdade eu odeio essas frescuras.
 Só me resta tempo de voltar pra casa, tomar um banho, caprichar na maquiagem e me vestir. A campainha toca. Confiro-me mais uma vez no espelho. Me sinto segura e satisfeita.

-Uau... - Edgar exclama no momento em que eu abro a porta - Você está maravilhosa! É você mesmo?

-É claro que sim! Não mudei tanto assim.

-Parece outra pessoa. Quer dizer, na verdade você é outra pessoa!

-Melhor do que eu era? - provoco, passeando meus dedos pelo dorso da sua mão. Ele se arrepia

-Sempre te achei linda e nunca escondi de você meu interesse, mas verdade seja dita, os anos só lhe beneficiaram.

-Obrigada. Já que estamos sendo sinceros, devo dizer que você me surpreendeu.

-Sério? - arqueia a sobrancelha - Em que sentido?

-Em todos! - lanço-lhe um olhar de admiração - Você literalmente cresceu! Está mais maduro e... muito bonito. - ele arqueia o peito e sorri todo orgulhoso

-Só com esse elogio eu já ganhei a noite...

-Bom, acho que estamos atrasados. Podemos ir? Estou faminta!

-Claro! Sabe, estou muito feliz em ser seu acompanhante, mas você sabe que não será bem recebida por alguns...

-Não me importo nenhum pouco, Edgar. A noite é nossa! - ele assente e juntos seguimos para sua casa

(...)

Edgar me ajuda a sair do carro se portando como um perfeito cavalheiro. Confesso que faço um esforço fora do normal para suportá-lo. Só o suporto pelo fato de toda essa encenação ser parte do meu plano. Ele também tem sua parcela de culpa pelo mal que sofri e não o pouparei da minha vingança.

-Está pronta? Já devem estar nos esperando. - avisa, enquanto me ajuda a tirar meu paletó

-Sim, eu estou. Vamos, não podemos fazer desfeita com o anfitrião. - enlaço nossos braços e juntos, entramos na casa

Sim, eu estou nervosa, mas não posso deixar transparecer. Preciso estar confiante e com um largo sorriso no rosto. 
 Enquanto adentramos a sala, ouço as vozes inquietas no ambiente. Finalmente estamos no mesmo local e de cara avisto Michael e Dominique sentados na sala; Maysa em uma poltrona e Corine ao seu lado. Não vejo sinal de Agnes, provavelmente fora dormir por conta do horário. 
E então eles percebem nossa presença. Se levantam e giram as cabeças para nossa direção. Analiso a reação de cada um deles. Maysa não parece surpresa, não em me rever, pois provavelmente já sabe da minha volta, mas sim por me ver ao lado de Edgar.






   Michael repete as mesmas expressões faciais que fez quando me viu naquele escritório, e Dominique... Essa já se prepara para proferir o ataque assim que me reconhecer.

-Essa mulher... - balbucia, piscando os olhos

-Sim, Dominique. Sou eu, Mercedes Navarro. Feliz em me rever? - abro um largo sorriso, multiplicando sua ira

-Michael, o que essa mulher está fazendo aqui? Pelo amor de Deus, me diga que isso é um pesadelo! - grita. Michael permanece nos olhando apático

-Pode deixar que eu mesma explico, querida. Acontece que eu sou a nova acionista da Construtora Jackson. Seu marido não te contou?

-Michael, me responda! - ela o empurra, despertando -o - Me diz que isso é mentira, anda!

-Não é nenhuma mentira. - murmura - Também acabo de saber dessa novidade. - ela parece ficar zonza, pálida e minha vontade é de rir dessa cena. Está saindo exatamente como eu planejei

-Não... Não pode ser... Michael, eu não admito que essa mulher pise aqui dentro e nem na empresa, eu a quero longe daqui!

-Você não manda aqui, Dominique. - Edgar interfere - Mercedes é minha convidada de honra e eu não vou permitir que a ofenda. Michael, controle sua esposa. - alfineta

-Que porcaria você pensa que está fazendo, Edgar? - ele rebate - Quer nos provocar trazendo essa mulher aqui?







-Essa mulher tem nome, Sr. Jackson. E se chama Mercedes. - lhe corrijo

-Não vou me prestar a isso. Não mesmo! - grita, puxando o braço da esposa

-Onde estão seus modos, Michael? - pergunto - Quer dizer, os seus e da sua esposa. - rio - Onde está  a elegância do casal?

-Gente, por favor. Parem de brigar! - Maysa se pronuncia pela primeira vez - Eu assim como todos aqui, também estou surpresa com toda essa novidade. Mas agora chega! Mercedes é a nova companheira de trabalho de vocês, gostem ou não. Ninguém aqui é bicho, então aceitem conviver como gente!

-Certo. - Michael se recompõe - Não tenho o porquê me acuar dentro da minha própria casa. Se a ideia de vocês eram nos provocar, pois saibam que falharam miseravelmente!

-Michael, eu não vou me sentar à mesa com essa vagabunda!

-Dominique! - Corine à repreende

-Ninguém está te obrigando a nada, querida. - respondo - Será até melhor pra mim me sentar à mesa com o seu marido. Temos muito o que discutir sobre a empresa. Não é, Michael? - ela parte pra minha direção, mas é impedida por Michael

-Dominique, se controle! Você é minha esposa e vai jantar comigo. - afirma e eu percebo que ele tenta me provocar ao encher a boca para falar " minha esposa"

-Pois então vamos! - ela responde, limpando as lágrimas e sorrindo - Você não sabe com quem mexeu. - ameaça

Faço uma careta de deboche assim que ela se vira de costas, enlaçando o braço de Michael. Edgar faz o mesmo comigo, mas eu o impeço.

-Ah, Edgar será que eu posso ir ao banheiro?

-Claro, querida. Quer que eu lhe mostre?

-Não, tudo bem. Eu vou achar. Encontro você na sala de jantar, ok?

-Certo. - ele sorri e se afasta

 Subo a escada para o segundo andar disposta a encontrar o quarto de Leon. Edgar disse que pelo seu estado de saúde, ele não participaria do jantar, até porque ainda não sabe que eu sou a nova sócia da construtora. Mas isso eu revelarei agora.
 Verifico todas os cômodos e no fim do corredor me deparo com uma porta. Algo me diz que este é o quarto de Leon e a minha intuição não falha.  
 O encontro deitado na cama, cabisbaixo, com os olhos vidrados em um livro. Fecho a porta, passo a chave e pigarreio, chamando sua atenção. Ele me fita atentamente.

-Quem é você?

-Não se lembra de mim, Sr. Jackson? - ele semicerra os olhos, parece confuso

-Não...

-Não está enxergando errado, Leon. Sou eu, sua velha amiga Mercedes. Surpreso em me ver aqui?

-É um pesadelo ou pode até mesmo ser efeitos dos remédios. - me aproximo da sua cama para que ele me veja melhor

-Não Leon. Não é um pesadelo. É a realidade batendo na sua porta. Realmente achou que tinha acabado comigo, não é?

-Maysa! Edgar! - grita - Como você entrou aqui?

-Pode gritar a vontade... Quer chamar a polícia? - estendo meu celular

Ele está trêmulo, vermelho, sua frio e a respiração está descompassada. Nunca imaginei que veria Leon Jackson vulnerável diante de mim.

-Como entrou aqui? Responda! - grita em meio a uma crise de tosse

-O que? - rio - Acha que eu matei sua família? Ou melhor, que eu incendiei sua casa? Não, Leon... Eu não sou tão burra como você.

-Do que está falando?

-Ah não poupe minha inteligência, Leon. Você sempre foi um homem tão sincero, astuto! Principalmente quando mandou incendiar meu galpão. Saiu tudo exatamente como planejou, não é? Quer dizer, nem tudo porque estou aqui diante de você.

-Acha mesmo que pode se vingar de mim? Não achou suficiente a lição que te dei? - ri, finalmente se entregando. Respiro fundo para manter o equilíbrio.

 Se quero mostrar que mudei, tenho que adotar um temperamento comedido. Essa é nossa diferença, a inversão dos papéis.

-Esse é o Leon que eu conheço... Não esse verme moribundo que está nas últimas. E quanto a sua pergunta, sim. Você deu uma boa lição em mim. Tão boa que mudou totalmente a minha vida, porque olha bem a nossa situação. Olha para o que eu me tornei. - sorrio, vendo Leon me olhar confuso

-O que foi que você fez? Dá pra responder o que está fazendo na minha casa?

-Ah não te contaram? Eu vim comemorar com a sua família a compra da construtora.

-O que? - ele engasga, põe a mão no peito, fingindo uma dor - Só pode estar blefando. Eu vou chamar os seguranças!

-Você me mata de rir... - me recomponho - Para o seu azar, não é blefe e sim a mais pura verdade. Sou eu a nova sócia da empresa de merda, por enquanto dona de 50% das ações, pois em breve eu vou tirar tudo que você tem!

-Eu não consigo respirar... - tosse repetidas vezes, respirando com dificuldade  - Meu peito...

-Não se preocupe, você não vai morrer agora. Quero você vivo e lúcido para ver sua derrocada. Eu vou acabar com você, velho asqueroso! Agora me deixe comemorar com a sua família.

-Volte aqui! Eu não vou permitir que entre na minha vida, nem que seja a última coisa que eu faça!

-Hey, é melhor se controlar. Não vai conseguir me impedir estirado em um caixão. Boa noite, Sr. Jackson! - jogo um beijo no ar e saio do seu quarto

 Respiro fundo e até que me sinto orgulhosa de mim. Orgulhosa por ter sido firme, por não ter me mostrado vulnerável. Se eu consegui bater de frente com Leon Jackson, tenho certeza que reinarei nesse jantar.



Capítulo 21

Mercedes


      Depois de deixar Leon agonizando no quarto, sigo para a sala de jantar. Não ele não vai morrer. Vazo ruim não quebra e Leon é osso duro na queda, mas devo alertá-lo de que esse é só o início.
    Há um silêncio angustiante no ambiente. Percebo os olhares em cima de mim assim que me aproximo e sento ao lado de Edgar, de modo que eu fique de frente com Michael e Dominique. Ela me fuzila com os olhos, e ele me pergunta pelo olhar o porque de eu estar ali com seu irmão. Confesso que é extremamente difícil para mim estar tão perto de Michael.

-Teve dificuldade, querida? Você demorou...

-Oh sim. São muitos cômodos. Estou com frio, pode me vestir o paletó, querido? - Edgar assim o faz, levando Michael a loucura - Estou faminta e vocês? - me refiro ao casal

-Só o que sinto é nojo ao olhar pra sua cara. - Dominique responde

-Nossa, eu fiquei tão feia assim? - debocho - Seu marido pode responder melhor, não é Michael?

-Ah, eu não vou aguentar isso na minha própria casa!

-Gente, por favor! - Maysa pede - Daqui a pouco vão acabar acordando a Agnes!

Os empregados servem o jantar e o vinho. Michael bebe a taça praticamente em uma golada. Serve-se mais uma vez e repete o ato.

-Então, Mercedes... - Maysa volta a dizer - Você deve compreender que para nós é uma grande surpresa tê-la aqui, mas apesar das circunstâncias eu fico muito feliz em te rever. - afirma com sinceridade

Maysa para mim é a única pessoa que salva nessa família. Sempre se mostrou uma amiga de confiança, me tratava como uma verdadeira irmã. Não tenho nada do que me queixar dela.

-Eu sei que sim, Maysa. - sorrio. Tomo uma golada do vinho - Talvez a única nesta mesa que realmente está feliz em me ver. Ah, Edgar também, claro... - acaricio seu queixo e neste momento ouço Michael socar a mesa

-Não seja hipócrita! Todos sabem que está aqui para ferrar nossas vidas!

-Meu Deus, sua mente é muito fértil! - rio - Só porque tenho um espírito empreendedor? Deveria me agradecer por estar salvando o patrimônio da sua família.

-Como você é suja! - Dominique ri - Sim, porque pra estar esbanjando tanto dinheiro não foi com trabalho honesto, certo?

-Hmm... Aí está nossa diferença. Eu não virei uma dondoca desocupada. Sou advogada e empresária. - lanço uma piscadinha para ela. Michael ri

-Você deve pensar que somos idiotas, né? Não precisa ficar envergonhada, afinal estamos entre amigos! - ironiza - Confesse para nós que você simplesmente deu um golpe no baú em um velho caquético. Pode ter certeza que ninguém aqui duvida disso.

-Sim, e eu aprendi com você. - sorrio - Mas eu acho que me saí melhor hein? Não sou eu que fui comprado pela própria esposa, né?

-Qual o seu problema? - Dominique grita - Só pode estar louca!

-Louca? Louca por falar a verdade? -  rio - Oh minha querida, você parece burra, mas não é. Sabe muito bem que Michael só se casou com você pelo seu dinheiro. Mas ó, é melhor tomar cuidado. Agora que estão falidos ele vai procurar outra dona... Imagina se sou eu?

Dominique nada diz. Ela se levanta, espera a serviçal colocar o bule de chá em cima da mesa e em questão de segundos tudo acontece muito rápido. Sou atingida diretamente nos olhos e no rosto com o chá pelando de quente.

-Ahh!! - me levanto abruptamente, levando minhas mãos ao rosto - Meus olhos estão queimando, meus olhos!! - grito, descontrolada






-Dominique, o que você fez? - ouço Edgar dizer - Merche, olha pra mim!!

-Ahh!! Socorro!! - urro de tanta dor que estou sentindo

-Não se aproximem! - Maysa me puxa para si, me levando para algum lugar longe de todos - Estamos no escritório, eu tranquei a porta. Agora sente-se aqui no sofá.

-Maysa, Maysa por favor me ajuda! Está ardendo muito!!






-Calma, por favor! Vou fazer os primeiros socorros em você.

-Eu não enxergo nada, Maysa! - grito, aterrorizada

-Levante a cabeça e permaneça com os olhos fechados. - sinto algo pastoso e gelado tocar meu rosto, me arrancando gritos e gemidos de dor

-Calma, Merche... Vai ficar tudo bem. Não se esqueça que eu sou médica, ok? Tenho todos os medicamentos em mãos.

Aos poucos ela finaliza seu procedimento, mas a dor continua a todo vapor. Minha maior preocupação no momento são meus olhos e as marcas de queimadura.

-Maysa, como está o meu rosto? Por favor, faça alguma coisa!!

-Calma, calma... Não ponha a mão! Aparentemente são queimaduras de primeiro grau e o socorro foi imediato.

-Dói muito... Eu não consigo enxergar, Maysa! - choramingo, desesperada

-Vai passar, Mercedes... Você quer ir ao hospital? Assim se sentirá mais segura.

-Não, eu não quero que ninguém me veja assim! Não abra a porta! - peço ao escutar as batidas

-É o Edgar. Você quer que ele te leve pra casa?

-Não, por favor! Vem comigo, eu estou com medo...

-Tudo bem, mas é melhor abrir a porta. Ele está preocupado!

-Ok, mas me dê um óculos, por favor. - Maysa me entrega um óculos escuro e eu tento esconder um pouco o estado deplorável que está meu rosto

-Mercedes! Merche, como você está? - ele se ajoelha aos meus pés, aparentemente preocupado - Meu Deus... O que a Dominique fez com você?

-Ela é uma louca! Olha o estado que deixou meu rosto! Ai...

- Edgar, eu vou levar a Mercedes pra casa.

-Eu faço questão de levar. Mas antes preciso levá-la ao hospital!

-Não precisa... - digo - Maysa já cuidou de tudo. Por favor não se ofenda, mas eu prefiro que ela me leve. Eu não quero que me veja assim...

-Mas, Merche...

-Edgar, deixe comigo. Mercedes está muito nervosa, é melhor você sair daqui.

-Tudo bem, mas por favor me dê notícias! Amanhã mesmo irei te ver.

-Tá, tá... Agora me deixe ir. Não quero ficar mais um minuto nessa casa. - Edgar assente e finalmente sai da sala

-Vem, Merche. Eu te ajudo a andar, ok? - me apoio em Maysa, pois não consigo enxergar nada na minha frente

-Eu vou matar aquela infeliz! Olha o que ela fez com o meu rosto!!

-Mercedes, se acalma! Ficar nervosa não vai adiantar nada.

-Eu juro que vou matar essa louca !!


Capítulo 22

Michael



     Eu fiquei completamente atordoado com a cena que presenciei. A guerrinha entre Mercedes e Dominique foi longe demais e agora eu me sinto impotente e desesperado por notícias de Mercedes. Mas antes de ir atrás dela, tive que tirar Dominique da sala e levá-la para o quarto.

-Você enlouqueceu, Dominique? Como teve coragem de queimar o rosto dela?

-Coragem? É claro que eu tive! Ela me provocou até eu chegar no meu limite e você sabe que eu não tenho sangue de barata! - ando de um lado para o outro, sem conseguir escutar as justificativas de Dominique

Minha cabeça está lá em baixo e a minha vontade é de ir correndo para ver Mercedes.

-Por que está tão nervoso? - indaga - Por acaso está preocupado com essa vaca?

-Dominique, chega! - grito - Você já aprontou demais por hoje. E é melhor você rezar para não ter acontecido nada grave com Mercedes. - aviso, e em seguida me retiro do quarto

Desço a escada e vou direto para o escritório, na esperança de ver Mercedes. Não há sinal dela e nem de Maysa, o que me deixa ainda mais aflito, imaginando que ela tenha ido ao hospital.

-Ela foi pra casa. - Corine diz, como se tivesse lido meus pensamentos - Maysa acaba de levá-la.

-E como ela está? Você a viu?

-Não vi direito, mas parece que foi bem sério...

-Droga! - esbravejo. Reviro o bolso da calça a procura da chave e respiro aliviado ao encontrá-la

-Onde você vai Michael?

- Ver a Mercedes. Vou ter um infarto se não souber como ela está! - infelizmente sou obrigado a dar as costas para Corine

      Eu sei que se eu estivesse com a cabeça no lugar jamais estaria indo para a casa de Mercedes, muito menos preocupado com ela. Por mais que Mercedes tenha nos provocado e infernizado, eu não consigo sentir raiva nesse momento em que ela está mais fragilizada.
      Assim que estaciono meu carro, ligo para Maysa avisando que estou no prédio. Assim que o porteiro autoriza minha entrada, não penso duas vezes para subir ao seu apartamento, mas assim que chego no seu andar, simplesmente travo. Não sei com que cara vou olhar pra ela, não sei nem mesmo qual será sua reação.
     A porta estava entreaberta assim como Maysa me avisou. Entro silenciosamente e já é possível ouvir os gemidos de Mercedes. Sigo o caminho que as vozes me indicam e chego até o quarto dela. Merche está sentada na cama, com os olhos fechados, sendo amparada por Maysa, que está cuidando das queimaduras.

-Eu não aguento mais sentir tanta dor... Quando eu vou voltar a enxergar? - Mercedes murmura. Meu coração aperta ao ver seu sofrimento

-Eu imagino que esteja ardendo, mas você precisa se aquietar. Estou fazendo todo possível para que se recupere logo! E quanto à visão, ela vai voltar a ser nítida com o colírio que pinguei nas retinas.

-Vão ficar marcas? Por favor, me diga que esses machucados vão sumir, eu não posso ficar deformada! - implora, agarrando-se à Maysa

-Você não vai ficar deformada, minha querida... Em pouco tempo vai cicatrizar. Amanhã mesmo te indicarei o melhor dermatologista da cidade. Enquanto isso vou continuar massageando seu rosto com a pomada. Mas agora você precisa se acalmar.

-Eu vou tentar... - aproveito o silêncio para me aproximar dela

     Maysa nota minha presença e eu faço sinal para ela se afastar. Ela entende o que eu quero fazer, então se prepara para sair do quarto. Ela gesticula com a boca um "Boa sorte. Até mais tarde", e se levanta.

-Onde você vai Maysa? - pergunta, percebendo o movimento que Maysa fez ao se levantar

-Eu... eu vou pegar mais algodão. Fique quietinha, ok? - Merche assente

   Maysa me estende o algodão e eu me sento na cama para assumir seu lugar. Agora estamos só nós dois neste quarto e eu estou muito, muito nervoso. Minhas mãos estão trêmulas, estou suando frio. Estamos a poucos centímetros de distância e mesmo ela estando nesse estado, sinto uma vontade incontrolável de beijar seus lábios rosados.

-O que houve, Maysa? Aconteceu alguma coisa? - não tenho coragem de abrir a boca. Em vez disso, começo a deslizar o algodão umedecido em seu rosto e nesse momento eu perco a razão

     Acaricio seu rosto com extrema delicadeza, utilizando diretamente meus dedos. Mercedes parece notar a diferença dos toques e com muito esforço consegue abrir os olhos vermelhos e inchados. Ela centraliza o olhar sob mim. Se assusta de imediato, mas nada diz. Nesse momento nós dois estamos paralisados, com os olhares perdidos um no outro. Não há sinal de rancor, mágoa ou raiva. O que eu vejo nesse momento é preocupação, carinho e... e só. Só isso.


Capítulo 23

Mercedes



    A última pessoa que eu imaginava ver na minha frente é Michael. Não sei se me enfureço ainda mais ou se me sinto aliviada com a sua presença, o que é estranho, se levar em conta que eu deveria sentir asco deste homem.

-Veio ver o estrago que a sua mulher fez no meu rosto? - ele afasta sua mão do meu rosto e responde





-Por mais que você tenha nos levado ao inferno com suas provocações, eu jamais concordaria com essa atitude, muito menos estou feliz com esse incidente. - procuro, mas não encontro nenhum resquício de ironia, apenas sinceridade



-Bom, agora você viu de perto o estrago que ela fez e pode ir embora satisfeito com o "castigo" que recebi. - ele ri

-Nossa, eu virei mesmo um monstro pra você...

-Olha aqui, Michael. Deixe as indiretas e as ofensas para amanhã. Minhas retinas estão irritadas e meu rosto não para de doer um minuto, será que pode me deixar em paz?

-Mercedes eu só vim ver como está. Se eu quisesse te provocar teria feito isso no momento que entrei neste quarto. E se quer saber, não está tão ruim assim... - mente descaradamente e eu me pego rindo, divertida com o seu comentário

-Você é a última pessoa do mundo em que eu devo acreditar... - me recosto no travesseiro, sentindo-me estranha e totalmente a vontade na sua presença

-Eu sei... - ele faz uma cara preocupada ao me ver gemer pela dor - Você não vai conseguir dormir, pelo menos não sem eles. - fala, estendendo-me um vidro de pílulas

-O que é isso? Quer me drogar?

-Bem, levando em conta que no passado você me drogou duas vezes, é mais que justo, mas a diferença é que essa "droga" realmente lhe fará bem. Vai dormir a noite toda.

-Tem costume de usar?

-As vezes. Quer dizer, quase sempre. - suspira. Pego o vidro de sua mão e abro, despejando algumas pílulas na palma da minha mão - Apenas um comprimido é suficiente. - afirma, confiscando o vidro e as pílulas

-Ainda não estou certa se devo agradecer. Provavelmente amanhã, se eu estiver viva, agradecerei. - ele sorri enquanto eu tomo o calmante

-Não precisa me agradecer. Até porque não será essa Mercedes que eu vou encontrar, e sim, a mulher que ela se tornou. - ele levanta e se afasta - Boa noite, Mercedes.

Neste momento nem mesmo as dores eu sinto. É como se a presença dele por si só pudesse aliviar não só as feridas externas, como também as internas. Para a minha sorte, minhas vistas pesaram e em pouco tempo fecho as pálpebras, partindo para um sono profundo.


Michael



    Posso considerar como um milagre a reação de Mercedes. Pela primeira vez desde que ela reapareceu, eu pude vê-la frágil e desarmada. Não como na vez que ela explodiu ao me acusar daquelas coisas horríveis, mas frágil no sentido de ser verdadeira, de mostrar seu lado sensível. Droga, era para eu estar a odiando por ter a audácia de vir até a minha casa com Edgar, coisa que até agora não engoli.

-Michael, conversou com ela? - Maysa pergunta ao me ver entrar na sala

-Por incrível que pareça, sim. Ela estava calma, acho que está abalada demais para descontar em mim.

-Coitada...

-Coitada? Ela que procurou isso. Acha mesmo que a ideia desse jantar partiu do Edgar? Foi dela. Exclusivamente dela! 

-Não, eu não digo que ela é coitada pelo acidente com o rosto, e sim pelo que ela se tornou. Vejo nos olhos dela tanta dor, tanta amargura... Assim como em você.

-Em mim? Só pode estar enganada.

-Michael, fala a verdade pra mim. Você ainda a ama? - engulo seco, assustado com sua pergunta

-De onde você tirou isso? Acha mesmo que posso amar uma mulher que quer acabar comigo? - ela ri

-Ai, Michael por favor! Até parece que isso é motivo. Poxa, somos irmãos. Não temos segredos. Fala a verdade, você ainda ama a Merche?

-Se eu não disser isso você não vai me deixar em paz, né? - me sento no sofá e cubro meu rosto com as mãos

Não há nada mais difícil que admitir que sou, sempre fui e provavelmente sempre serei completamente apaixonado por Mercedes. E eu já não consigo mais guardar isso dentro do peito, acabarei sufocado se não me abrir com Maysa.

-Sim, eu a amo, Maysa. Mercedes nunca deixou de ser a dona do meu coração. - respondo.
 A voz está embargada e as lágrimas rolam pelo meu rosto - E agora eu não sei como lidar com toda essa situação porque no meio de tanto rancor e de tantas brigas, existe um amor tão grande, tão forte que sinto me esmagar cada dia que passa...


Capítulo 24

Michael


-Oh meu irmão... - lamenta, me confortando com um abraço apertado - Eu sempre soube disso, mas te ouvir falando assim dói tanto em mim...

-E sabe o que é pior? É que eu não posso voltar no tempo. Se ela não tivesse me traído com o Edgar eu não teria lhe deixado, poderíamos ter lutado juntos para vencer nossas diferenças!

-Michael, como pode pensar que ela tenha te traído? Ainda mais com Edgar!

-Se eu tinha alguma dúvida, agora vendo eles tão íntimos, eu não tenho mais.

-Michael, Mercedes não te traiu com Edgar. - afirma com uma impressionante convicção

-E como você tem tanta certeza assim? - Maysa se levanta, anda de um lado para o outro e me encara

-Michael, pouco depois de você ter se casado e ido para Madri, eu estava no quarto de Edgar e encontrei um embrulho, uma caixa de joias.

-O que isso tem a ver?

-Nesse embrulho havia um bilhete escrito por ele. Eu nunca vou me esquecer do que eu li, pois eu o guardei. Imaginei que um dia eu poderia lhe mostrar. Dito e feito. - sorri

-Me desculpe, mas eu ainda não estou entendendo nada! Era para a Mercedes, não era? - Maysa vai até o escritório e volta com um pequeno bilhete em mãos

-Sim, mas não da forma como está pensando. Olha, eu só não te mostrei isso na época porque sabia que ficaria ainda mais desesperado do que já estava.

" Merche, sei que ainda não sente absoluta confiança em mim, mas meu maior desejo é pelo menos conquistar seu carinho. Aceite esse presente que, com toda certeza elucidará sua beleza.

Atenciosamente, Heitor."

-Maysa... - balbucio, ainda sem dar conta do que acabo de ler

-Ela sempre disse a verdade. Não era esse o nome que ela o chamava?

-S-sim... Heitor... Agora entendo como ela ficou atordoada quando eu os flagrei. E eu pensando que era por ter sido desmascarada...

-Michael, sabe porque eu gostei da Mercedes desde o primeiro dia em que a conheci? Porque eu vi nos olhos dela o amor que ela sentia. Ela fez de tudo por você, e naquela vez que te tirou da clínica e o levou para sua casa eu tive a mais absoluta certeza que nenhuma mulher lhe amaria tanto quanto ela. - nesse momento estou sentado no sofá, curvado e chorando copiosamente. O remorso parece fincar meu coração como uma adaga

-Eu estraguei tudo, Maysa, tudo! Se eu tivesse acreditado nela, estaríamos juntos! Por que eu fui tão impulsivo??

-Michael, você sabe muito bem que essa armação do Edgar não foi o motivo principal pelo que aconteceu. Você deixou a Mercedes simplesmente porque não suportava mais a vida humilde que levava.

-Maysa...

-Irmão, você sabe que estou falando a verdade. E quer saber, eu não culpo só você não. Ambos eram imaturos e você mais ainda porque não tinha noção do que era ser pobre. Você não quis arriscar e na primeira dificuldade desistiu de tudo. Acha mesmo que esse lance do Edgar iria fazer diferença? - enxugo as lágrimas e suspiro

-Você tem toda razão. Se eu tivesse a cabeça e a coragem que tenho hoje, eu jamais teria lhe deixado. - rio - Coragem... Eu continuo não tendo.

-Nunca é tarde para ser corajoso. E você está sendo agora só pelo fato de se abrir comigo, de assumir que estava errado.

-E do que isso adianta? Mercedes me odeia e nada do que eu fizer ou disser vai mudar a imagem que ela tem de mim. Você sabia que ela me culpa pelo incêndio do galpão? Segundo ela, eu fui cúmplice do meu pai. Dá pra acreditar nisso?

-Que você faria isso? Jamais! Agora o papai...

-Espera, você também acha que meu pai fez essa monstruosidade?

-Ai, Mike eu não sei... Não consigo nem pensar nessa hipótese, mas conhecendo nosso pai... Olha, é melhor não falarmos disso agora. É um assunto muito sério para ficar na especulação.

-Deus, acho que vou enlouquecer! Minha vontade é desistir de tudo e sumir mundo a fora, coisa que sempre quis fazer.

-Nada disso! O que você tem que fazer é esclarecer toda essa história com a Mercedes e se ama, lute por ela!

-Como? Mercedes se tornou minha maior inimiga, tudo que ela mais quer é me destruir! Ela me odeia!

-Eu duvido muito... O ódio e o amor andam lado a lado. Se ela realmente quisesse destruir você teria feito isso há muito tempo. Escute o que eu digo, irmão. Não desista! - ela beija minha bochecha e me abraça - Boa noite.

-Boa noite e... obrigada por tudo, por ter me contado a verdade.

-Imagina, eu te amo e só quero a sua felicidade. Se cuida...

É ruim quando a verdade bate na nossa porta nos obrigando a encarar nossos defeitos, assumir os erros e enxergarmos como poderia ter sido diferente. Durante anos eu me neguei a admitir que estava errado, mantendo um orgulho idiota que não serviu para nada. Agora, toda a máscara que arquitetei para mim cai por terra, revelando o Michael que eu sempre fui. Sensível, amedrontado, covarde e principalmente, apaixonado por uma mulher impossível de ceder.


Capítulo 25

Mercedes


Uma semana depois



      Passei os últimos sete dias trancafiada dentro de casa. Não atendi telefonemas, emails e muito menos a porta. De fato tive que suportar Edgar uma ou duas vezes aqui em casa, mas felizmente ele entendeu que eu não queria visitas e parou de me importunar
Para o meu alívio, meus olhos estão menos irritados e as queimaduras estão sumindo. Realmente o remédio de Michael está fazendo efeito e eu estou conseguindo dormir a noite toda.     Como é a vida... Meu maior inimigo me ajudando a me sentir melhor...
Mesmo estando um pouco melhor, não achei prudente ir à empresa. Quero estar 100% para comandar o que é meu . Detestaria parecer frágil aos olhos dos outros, principalmente aos olhos de Michael.
     Decido então tirar o dia para fazer algo que eu deveria ter feito no dia que eu cheguei: visitar o Brooklyn. Só de pensar nisso sinto um terrível arrepio no meu corpo, mas se quero virar essa página da minha vida, preciso ter coragem para enfrentar as sombras do passado.
     Estaciono meu carro em uma rua distante, não quero que ninguém me veja. Apesar de terem se passado doze anos eu nunca me esqueci do dia que fui expulsa desse lugar. Respiro fundo, pego minha bolsa e saio do carro. 
   Realmente muita coisa mudou por aqui. Novas construções, apartamentos e comércios, dando um ar de modernidade. Mas só quem cresceu aqui consegue enxergar o lugar que isso foi um dia. Caminho mais um pouco e meu coração acelera ao pisar na rua do antigo galpão. Antes de tomar coragem e levantar minha cabeça, ouço alguém chamar meu nome.

-Mercedes? - giro a cabeça e reconheço imediatamente a pessoa

-Tommy?

Meu estômago queima só de imaginar sua reação, afinal me lembro muito bem de ter sido acusada por ele de ser a responsável por tantas desgraças. Ele parece estar chocado ao me ver de perto, se aproxima ainda com os olhos arregalados.

-Deus... É você mesmo? - tento falar, mas minha voz está presa na garganta - Caramba, me dê um abraço!

Solto o ar que estava parado e respiro aliviada, me jogando nos braços de Tommy. Não sei se choro de tristeza, alívio ou felicidade por ter sido bem recebida.

-Eu pensei que nunca mais fosse te ver na vida. - diz, ainda abraçado - Senti tanto remorso por ter te expulsado daqui.

-Não sabe a alegria que sinto ao vê-lo. Sempre acreditei que também tinha destruído sua vida... - ele enxuga minhas lágrimas e puxa minha mão

-Vamos nos sentar naquele Café. Você está trêmula, é melhor se acalmar.

Nos sentamos de frente para o outro, fazemos nossos pedidos e permanecemos em silêncio em meio à lágrimas e sorrisos.

-Fico muito feliz em vê-la novamente e ao que me parece, está ótima! - sorri, demonstrando estar feliz por mim

-Ótima é exagero... Confesso que fui pega de surpresa. Não imaginei que estivesse morando aqui.

-Não, eu não estou. Vim apenas visitar alguns amigos. Eu não consegui viver nesse lugar depois de... você sabe.

-É eu sei. Eu mudei mesmo a vida de todos vocês.

-Merche, eu jurei que nunca mais tocaria nessa ferida, ao não ser que tivesse notícias suas novamente.

-Tommy, eu sei que eu...

-Espera. -corta - Acho que lhe devo incontáveis pedidos de desculpas. Eu fiquei transtornado quando a Gina morreu e tudo que eu queria era descontar essa dor em alguém. Eu fui um monstro pra você. Te culpei de algo terrível e te expulsei da sua casa. Hoje eu reconheço o quão injusto eu fui com você.

-Não tem que me pedir perdão por nada, Tommy! Eu reconheço que você não estava em seu juízo perfeito e além do mais você disse apenas a verdade. Se Leon entrou nas nossas vidas foi porque eu permiti e assim como eu te disse que faria justiça, eu estou cumprindo com a minha palavra.

-Não, não, não! Você não teve culpa de nada. Leon teria feito aquilo de qualquer forma, ele sempre jurou que ia destruir o galpão. Em memória da Gina, eu te peço que não volte a se culpar pelo erro desse demônio. Por favor, esqueça isso.

-Eu jamais vou esquecer... Mas me diga, o que fez da sua vida? Continua sendo uma **** louca? - ele ri

-Imagina! Eu tomei vergonha na cara! Uma hora eu teria que amadurecer. Olha isso aqui. - ele me estende uma foto dele ao lado de uma mulher e uma criança

-Quem são elas?

-Minha família. - abro minha boca, chocada com a sua revelação

-Oh meu Deus! Tommy, você se casou?

-Sim. Já tem seis anos que me casei com a Annie e hoje temos nossa princesinha. Ela se chama Alice.

-Ela é linda... Tommy, parabéns! Você construiu uma linda família!

-Elas são minha maior alegria. Depois da Gina eu me fechei totalmente, mas então eu pensei. Gina jamais ficaria bem me vendo do jeito que eu estava. Tenho certeza que ela está feliz por mim e por você também!

-É claro que está... Você é um homem maravilhoso. Onde quer que ela esteja, estará olhando por você.

-Eu sei que sim. Mas e quanto a você? Parece que também reconstruiu sua vida.

-Sim, um anjo maravilhoso entrou na minha vida, mas infelizmente ele me deixou. - decido não prolongar o assunto. Minha história é vergonhosa demais para ser revelada

-Não quer falar sobre isso... Tudo bem, eu te conheço. Merche, eu adoraria continuar conversando, mas tenho que pegar minha filha na escola.

-Oh sim, tudo bem! Me desculpe tomar seu tempo... Ah, Tommy, você sabe se o meu apartamento foi mexido?

-Eu nunca deixei que o invadissem. Afinal, ele é seu. Você comprou quando se... - ele desiste de prosseguir - Ele continua o mesmo.

-Obrigada. - trocamos um forte abraço, deixando a promessa de que não vamos perder o contato

O caminho até o apartamento não é longo. Subo as escadas, degrau por degrau até chegar na porta do meu apartamento. Me lembrei exatamente do dia que Michael e eu entramos aqui pela primeira vez.

Flash Back

-O que achou? - Michael perguntou ao sair de algum cômodo

-Perfeito! O tamanho é ideal e eu achei lindo! Fora que o preço está super em conta.

-Eu também gostei.. Precisa de uma pintura,mas isso nós tiraremos de letra! Qual o cômodo que você mais gostou?

-Aqui ó.. - puxei Michael pelo braço e o levei ao nosso futuro quarto - Nosso antro de perdição! - Michael gargalhou

-Antro de perdição? Pensei que fosse nosso quarto.. - sussurrou sensualmente no meu ouvido

-E será.. Mas é que eu penso em fazer muitas,muitas coisas aqui..

-Hmm bom saber.. Mas,por que não testamos agora,hum? 

***

-Bem.. Acho que concordamos em ficar com esse apê.. - disse ainda sem fôlego

-Com certeza.. - ri - Se agora foi assim,imagina quando tiver uma cama aqui.. - Michael riu

-Vou passar o dia todo trancado aqui com você.. - respondeu ao parar de beijar minha nuca

-Vai ser delicioso...

Fim do Flash Back


     Rapidamente enxugo as lágrimas e volto minha atenção à porta. A escultura que comprei na época continua no mesmo lugar, o que me dá a esperança da chave reserva estar ali. Sorrio ao constatar que estava certa. Agora não há mais i impedimentos. 
Encaixo a chave na fechadura e com dificuldade consigo abrir. Seguro a emoção o máximo que posso enquanto entro no apartamento. As paredes estão desgastadas, poeiras para todos os lados, mas o que mais me dói é ver todos os nossos objetos exatamente nos mesmos lugares.
Retiro os lençóis de cima dos móveis. Tantas lembranças me vem à mente que até me sinto zonza. Sigo em direção à uma estante que permanece repleta de enfeites e porta retratos. Pego aleatoriamente um deles e com os dedos retiro o excesso de poeira.
      Agora enxergo claramente a fotografia. Michael e eu no dia do nosso casamento. Nossos sorrisos eram tão grandes que ofuscaram as estrelas daquela noite. Nesse momento não consigo mais me segurar. 
Me ajoelho no chão, abraçando forte a fotografia, permitindo soltar todas as lágrimas que reprimi durante tantos anos. Tudo que eu mais queria era estar aqui com Michael, provavelmente teríamos filhos e essa casa estaria uma bagunça com brinquedos espalhados, e os instrumentos musicais de Michael estariam ocupando o maior espaço.
      Poderia ter sido tão diferente... Se ele tivesse desistido de tudo eu o teria aceitado de volta, porque quando se ama, você passa por cima do próprio orgulho.
Meus soluços são tão altos que não escuto nada ao meu redor. Ainda permaneço ajoelhada, abraçada à nossa foto quando sinto duas mãos precisas tocarem minha cintura. Imaginei ser coisa da minha cabeça, mas é real. Michael está ao meu lado, me puxando para um abraço forte. Ele assim como eu, parece estar chorando.
      Ele tira o porta retrato das minhas mãos e me ajuda a levantar, ainda me apertando com força. Ele enxuga minhas lágrimas, acaricia meu rosto e em seguida invade minha boca com um beijo urgente, apaixonado e aflito. Nesse momento eu não posso e nem quero me afastar. Preciso do seu beijo assim como preciso do oxigênio para respirar. Preciso, nem que seja por um breve momento, sentir que sou amada por Michael.


Capítulo 26

Michael


Quando vi Mercedes entrar neste conhecido prédio, percebi de imediato sua intenção. Sim, estou tão obcecado por ela a ponto de fazer vigília na porta do seu apartamento ( só para garantir que ela está bem). Porém hoje ela decidiu sair da toca e eu claro, a segui até aqui.
Minha intenção não era surpreendê-la, mas meu coração bateu tão forte quando a vi ali chorando, agarrada à nossa foto que tudo que meu coração ordenou foi de tomá-la em meus braços e expressar todo meu amor.

-Está me seguindo? - pergunta, ainda sem fôlego, permanecendo abraçada à mim






-Não importa... Veja bem aonde estamos, Mercedes. - ela se afasta e com os olhos banhados de lágrimas observa cada detalhe da sala. Eu sei que ela está emocionada tanto quanto eu

-Eu não devia ter vindo aqui. - diz, virando-se de costas para mim. Me aproximo dela e toco seus braços

-Por que? Por que tem tanto medo de admitir que eu ainda mexo com você? No fundo do seu coração você sabe que o que vivemos foi único!

-Mas você acabou com tudo! - ela transmite tanta dor em sua voz que realmente me faz acreditar que ela está certa - Olha bem pra sua volta, Michael. Era para nós dois estarmos aqui, felizes, seguindo nossas vidas. Mas você abriu mão de tudo isso.

-Você não sabe como eu me arrependo... - murmuro

-Você se diz arrependido porque tem medo do que eu possa fazer contra sua família. Será que durante todos esses anos você nunca se deu conta do mal que me causou?

-Nada do que eu disser vai mudar sua opinião, não é? Afinal você é a dona da verdade!

-Eu sou a dona da minha verdade, da verdade que eu vivi e senti na pele!

-Tudo bem... Já que resolveu tocar na ferida, eu também tenho um lugar para te levar.

-Do que você está falando? - pego na sua mão e a levo comigo para fora do apartamento - Michael, me solta! Pra onde você vai me levar?

-Você vai ver. Agora vem comigo.

-Michael... - ignoro seus protestos até finalmente entrarmos no meu carro

Antes de seguirmos para o local planejado, passo em uma loja de ferramentas e compro duas pás. Mercedes continua a me questionar, mas eu nada respondo. Ela percebe a minha real intenção ao reconhecer o lugar que estamos.

-Se lembra daqui? Faz exatamente doze anos que viemos aqui pela primeira vez. - ela retira os óculos escuros e se choca com a imagem que vê

-Foi aqui que fizemos nosso juramento. - pensa em voz alta enquanto caminha para mais perto do precipício

-Sim. E foi aqui também que juramos voltar um dia. Você se lembra? - ela me olha nos olhos e assente

-Michael, por que isso agora?

-Porque eu nunca me esqueci desse dia. E principalmente das suas palavras.

Flash Back

-Merche, tenho duas perguntas pra você. Primeira, por que pediu que eu trouxesse meus objetos preferidos? E por que estamos no alto de um precipício?

-Eu já vou te responder, agora vem comigo. - mesmo hesitante, concordo, pego minha maleta e saio do carro

- O que está arrumando, Mercedes? - pergunto ao vê-la ajoelhar-se no chão de terra

-Sente aqui e me ajude. Isso aqui é como se fosse um pacto, entende? Nessa caixa vamos guardar todos os objetos que representam algo para nós, e mais que isso, nossos planos para o futuro.

-Nossa, amor.. É lindo.. Eu já vi isso em um filme e confesso que tive vontade de fazer,mas agora com você.. É fantástico!

-Eu sei.. Esses serão os nossos planos para o futuro. Ok,vamos começar. Qual a primeira coisa que quer colocar?

-Certo.. - tiro do bolso a palheta que ela me deu junto com o violão - Se lembra quando nos conhecemos? Você me surpreendeu ao me dar seu violão.. - ri - Além dele, você me presenteou com sua palheta da sorte. Graças a ela eu venci aquele concurso. Vai ser difícil ficar sem ela, mas eu já tenho você que é meu tudo!

-Michael.. - seus olhos se enchem de lágrimas

-Essa palheta além de me dar sorte, também significa o que eu quero do futuro. Vou realizar meu sonho de ser músico e terei você ao meu lado.

-Sempre! Eu tenho certeza que seu sonho vai se realizar. Você tem um dom e estarei nessa junto com você! - deposito a palheta na caixa e em seguida lhe dou um terno beijo nos lábios

-Eu sei que vai.. Agora é sua vez!

* * * *

-Está pronto! - Merche fecha a pequena caixa de madeira, coloca em um saco plástico e com a minha ajuda, cava um buraco na terra para enterrarmos a caixa

-Quando vamos desenterrar? - pergunto

-Vamos abri-la nesse mesmo dia daqui a exatos dez anos. Vamos fazer um balanço da nossa vida hoje e no futuro. Combinado?

-Combinado! Sabe.. cada dia que passa vejo que me casar foi a loucura mais sensata que cometi nessa vida. - afirmo, bagunçando seu cabelo

-Isso significa que ainda vamos cometer muitas loucuras juntos.. Mas diante dessa caixa, nós faremos uma promessa. Seja lá o que for que nos aconteça durante todos esses anos nós voltaremos aqui, certo? - fala estendendo a mão. Sorrio e a aperto

-Eu prometo. Sei que vamos mudar muito com o passar do tempo,mas continuaremos sendo os mesmos. Nosso coração nunca perderá a essência!

-Nunca..

Fim do Flash Back


Estamos agachados sob a terra, cavando o buraco que enterramos a caixa. Mesmo esse lugar estando completamente diferente, é incrível o fato de lembrarmos exatamente o local que enterramos nossa caixa. Mercedes de início foi relutante, mas por fim ela concordou com essa "loucura".
Ela amarra os cabelos, dobra a barra do vestido e se ajoelha sob a terra. Suas pernas estão sujas, ela está suada, mas muito, muito sexy.

-Michael, não está mais aqui! - diz com uma certa aflição em seu tom de voz

-É claro que está, Merche. Foi você mesma que enterrou.

-Espera, eu senti uma coisa, me ajude aqui. - com bastante insistência conseguimos retirar a caixa

Mercedes a coloca em seu colo e retira o saco plástico. Ela limpa o excesso de terra, respira fundo, olha pra mim e finalmente abre. Tanto eu quanto ela sorrimos assim que batemos os olhos nos nossos objetos.

-Michael, olha isso! - ela me estende a caixa e retira alguns objetos

Reencontro minha palheta da sorte, a chave da moto de Mercedes, fotos de nós dois juntos, um cordão que lhe presenteei quando nos conhecemos e as nossas cartas completamente amareladas e desgastadas. É impossível conter a emoção, mas pelo menos na minha parte não há tristeza. É como se voltássemos no tempo, há doze anos atrás.

-Acho que não precisamos nem fazer um balanço das nossas vidas. - Mercedes rompe o silêncio, mantendo os olhos no horizonte

-Eu realmente acreditei que voltaríamos aqui em outra situação. Mas não deixa de ser surreal estarmos aqui depois de tudo que...

-Você quer ficar com alguma coisa? - pergunta, me cortando

-Sim, eu quero. Sabe, eu ainda tenho o Elvis.

-Está falando sério?

-Estou. Eu costumava tocar, mas com o tempo... Bom, acho que vai ser bom voltar a tocá-lo com a palheta. E você, vai ficar com a chave ou... o cordão?

-Não. - responde enquanto coloca todos os objetos na caixa novamente - Vou tratar de queimar tudo isso quando eu chegar em casa. - ela se levanta, segurando firme a caixa. Algo me diz que ela não terá essa coragem

-Tudo bem... - em silêncio voltamos para o carro e assim seguimos o caminho do seu apartamento - Como você se sente? - pergunto assim que estaciono em frente ao prédio

-Não quero falar sobre isso. Até amanhã, Michael. - ela sai do carro sem ao menos olhar para mim

Se eu tinha alguma dúvida sobre os nossos sentimentos, hoje não restam mais. Meu amor por Mercedes está mais vivo do que nunca e depois de hoje, sei que ela também sente o mesmo. Além dessa certeza, também começo a acreditar que não será tão impossível entrar no seu coração novamente.


Capítulo 27

Mercedes



    Ainda não absorvi as últimas emoções. Até agora não acredito que tive coragem de compartilhar com Michael um momento que foi tão importante para nós um dia, ou pelo menos só para mim. Não quis demonstrar fragilidade na frende dele, mas agora sozinha em casa deixo minhas lágrimas rolarem. Lágrimas de saudade de um tempo em que eu era feliz. 
     Me encolho na cama, trazendo comigo a caixa. Retiro os objetos, as fotos e as cartas, me lembrando do significado de cada uma delas. Mas o que mais me tocou profundamente foi rever o colar que Michael me deu. Ele disse que era como um amuleto da sorte, uma forma dele estar sempre ao meu lado.
    Decido então, guardá-lo na minha caixa de jóias, juntamente com os outros objetos. Devo ser uma tola por guardar essa caixa, mas eu não tive coragem de queimá-la.

(...)

Dormir essa noite foi impossível. O dia foi repleto de emoções, surpresas e reencontros. Eu sabia que era um risco a se correr, mas não imaginei que seria nessa proporção. 

Como hoje volto a trabalhar, acordei mais cedo e quando já estou no banho, ouço um estouro. A água do chuveiro fica gelada e a luz apaga.

-Ah não... Não acredito! - me enrolo na toalha e vou até a cozinha verificar o quadro de luz, que está completamente queimado - Porra, como isso foi acontecer?

Eu já estava pronta para chamar ajuda quando ouço a campainha tocar. Imagino ser algum vizinho relatando o mesmo problema, então rapidamente coloco o roupão e abro a porta.

-Edgar?

-Bom dia, Merche. Eu te liguei, mas como você não atendeu, vim ver como estava...

-Ainda bem que você apareceu! - puxo Edgar pela mão e fecho a porta - Estou com um problemão.

-Aconteceu alguma coisa?

-Olha isso. - levo Edgar para ver o quadro de luz, sendo obrigada a recorrer à sua ajuda - O que você acha, hein?

-Caramba... Parece que houve um curto circuito na casa.

-E o que eu faço?

-Acho que vai ter que trocar toda a fiação elétrica do apartamento.

-Não acredito... - murmuro - Acha que isso demora quanto tempo?

-Bom, vai ser preciso quebrar parede. Pra ser sincero eu acho que vai demorar bastante.

-Era só o que me faltava... E onde eu fico nessa? Não vou poder continuar aqui!

-Eu tenho uma ideia... - diz com um sorriso brotando nos lábios

-Que ideia?

-Você pode se hospedar lá em casa.

A princípio minha vontade é de mandar Edgar para o quinto dos infernos, mas pensando melhor, essa ideia é brilhante! Eu vou morar sob o mesmo teto que os meus inimigos e ainda vou poder me aproximar ainda mais de Edgar. Definitivamente, esse incidente veio na hora certa!

-Ah Edgar, eu não sei... Acho que Michael e Dominique não vão gostar nadinha... - faço um certo charme

-Querida, a mansão também é minha, eles não mandam em nada. Fora que, acho que vai ser muito bom para nossa relação... Sabe, ficarmos mais próximos...

-Você é um anjo... E por você eu aceito. - me aproximo de Edgar e lhe abraço sugestivamente - Tenho certeza que vamos nos dar muito bem daqui para frente...

-Eu também, Merche. Não sabe como estou feliz por ter aceito.

-E então, quando eu posso ir?

-Agora mesmo! - responde empolgado

-Mas Ed, eu não posso chegar assim de repente. Tenho que arrumar minha coisas e você tem que organizar minha chegada.

-Claro, eu vou cuidar disso agora! Então assim que sairmos da empresa você já vem pra minha casa, ok?

-Ok... - ele sorri, vitorioso

-Bom, eu vou te deixar organizando tudo. Nos vemos daqui a pouco. - ele me dá um beijo na testa e saltitante deixa meu apartamento

    Antes de ir para a empresa, monto algumas malas para levar hoje, o restante deixo para o outro dia. Me pergunto se vou ter estômago para conviver 24 horas por dia com a família Jackson, principalmente com Michael. 
     Assim que termino de organizar as malas, parto para a empresa. Convocarei uma reunião para comunicar sobre algumas mudanças que vou fazer. Meu plano principal é falir a Construtora e já passou da hora de colocá-lo em prática.


Capítulo 28

Michael



    Decido ir bem cedo para a empresa nesta manhã. Hoje acordei ansioso para ver Mercedes, quer dizer, estou sempre ansioso para vê-la, principalmente depois de ontem. Ainda quero voltar no assunto que começamos, agora mais do que nunca quero esclarecimentos. 
    Assim que chego na construtora sou informado que Mercedes convocou uma reunião. Diabos! Eu sou o presidente, ela como boa profissional deveria ter me comunicado antes. Mas tudo bem, não vou arrumar briga por isso, temos problemas mais sérios para tratar.

-Bom dia, Sr. Jackson! - Mercedes me saúda assim que eu entro na sala de reunião, onde todos estão à minha espera

Ela abre um sorriso largo, deixando bem claro qual  Mercedes que está encarnada neste momento.

-Tem que ser mais pontual, maninho. - Edgar alfineta - Não é nada exemplar o presidente chegar atrasado... - a audácia de Edgar não está me irritando mais do que o fato dele estar sentado bem próximo à Merche

-Deixe as piadas para depois, Edgar. Imagino que essa reunião não é para discutir sobre os meus horários.

-Está certíssimo, Senhor presidente. - Merche diz, distribuindo uma pilha de papéis por entre os diretores. Me sento na cadeira e rapidamente o pego para ler

-O que é isso?

-Calma, Michael. Eu vou chegar lá... - ela ri - Bom, como sabem eu sofri um pequeno acidente que me obrigou a ficar afastada. Mas agora estou de volta e pronta para iniciar o meu trabalho.

-Sra. Navarro, me desculpe, mas o que significa esse termo? - Henri indaga

-Este é o termo de contrato com uma nova empreiteira.

-Nova empreiteira? Pra que isso? - rebato - Se você não sabe nós já temos uma excelente empreiteira colaborando conosco.

-Tão excelente que estamos quase falidos. - comenta, levando os olhos aos papéis - Bom, respondendo à sua pergunta, Henri, eu decidi encerrar o contrato com a Sodier e assinar com a Empreiteira Parker's.

-A Parker's? Você enlouqueceu, Mercedes? - brado enfurecido - Todo mundo aqui sabe que essa empresa não tem prestígio nenhum! Isso é um tiro no pé!

-Eu não me lembro de ter pedido sua opinião, Michael. Está na hora de fazer mudanças, ou vocês querem continuar no mesmo barco?

-O que você quer é afundar o barco, isso sim! Você é esperta demais pra saber o que está fazendo!

-Sim, eu sei o que estou fazendo. E por conta disso tomei a melhor decisão.

-Sra. Navarro, Michael está certo. - Henri tenta explicar - Me desculpe a sinceridade, mas nós temos mais experiência que a senhorita. Essa empreiteira é uma ruína.

-Sr. Henri, acha que eu me tornei uma grande empresária por ter falta de experiência? Poxa, pessoal... Vamos dar um voto de confiança! - pede, com a voz carregada de sarcasmo

-Só pode ser brincadeira. - rio - Acho que você esqueceu de um grande detalhe, Mercedes. Não é sócia majoritária e muito menos presidente, portanto desista!

-Acho que é você que está esquecendo de alguns detalhes, Michael. - Edgar diz - Eu também sou dono dessa empresa e darei meu apoio à Mercedes, ou seja, não precisamos do seu aval. A partir de hoje a Parker's será nossa nova empreiteira.

-Não acredito que se tornou um capacho dessa mulher... - rio

-Edgar é inteligente, Michael. Essa é a diferença de vocês. Bom, essa reunião foi apenas para informá-los da minha decisão. Até qualquer hora. - ela sinaliza para que todos possam se retirar. Permaneço sentado, lhe encarando

-Querida, já está tudo pronto. Espero você mais tarde, ok? - não entendo o teor do comentário de Edgar

-Claro, até mais! - tento controlar meus nervos ao vê-lo beijar o dorso da sua mão. Finalmente o infeliz nos deixa a sós

-Algum assunto para tratar comigo, Sr. Jackson? - pergunta, tentado parecer indiferente

-É esse o seu plano, não é?

-Hmm eu não entendi. Seja mais claro.

-Você quer falir a Construtora, eu já saquei tudo. Mas escuta só, eu não vou permitir que toque na minha empresa! - ameaço, apontando o dedo contra ela

-Acha que eu tenho medo das suas ameaças, Michael? - ela ri - Por favor, me poupe! Jamais conseguirá me intimidar. Nem me parar! - afirma, se levantando e deixando a sala

(...)

   Passei o resto do dia tentando encontrar uma forma de barrar Mercedes. Infelizmente com o apoio de Edgar será impossível negar essa decisão. Mercedes começou a agir e confesso que isso me dá medo. 
    Eu não tinha vontade nenhuma de ir pra casa, então decidi parar em um bar, esfriar a cabeça e voltar para ver minha princesinha. Agnes é minha única razão para não jogar tudo pro alto. 
Ouço meu celular tocar e suspiro desanimado ao ver o nome de Dominique.

-Alô...?

-Michael, cadê você? - percebo pela sua voz que ela está transtornada

-Estou saindo do trabalho. O que houve, Dominique?

-Venha pra cá agora!!

-Dominique, calma! Aconteceu alguma coisa com a Agnes? - deixo alguns dólares em cima da mesa e corro em direção ao meu carro

-Não, é pior. Muito pior! Michael, vem logo antes que eu faça uma loucura! - ela encerra a ligação me deixando ainda mais aflito

(...)

Assim que estaciono o carro, vejo Corine passeando com Agnes no jardim. Respiro aliviado ao ver que ela está bem. Agnes abre um enorme sorriso ao me ver e corre para os meus braços.

-Boneca, que saudade!! - salpico vários beijos em seu rosto

-Eu também estava, papai! O senhor nem brinca mais comigo! - reclama, fazendo uma adorável careta

-Oh minha linda, perdoe seu pai. Eu prometo que assim que tudo se normalizar eu serei todo seu! - ela sorri novamente, feliz com a minha promessa. Percebo que Corine está apreensiva - Corine, tudo bem?

-É melhor você entrar... - murmura - Vou ficar aqui fora com a Agnes.

-Meu bem, por que você não vai dar uma volta de bicicleta pelo jardim? O papai já vem vê-la!

-Tá bom, pai! - ela corre pelo jardim e eu aproveito para entrar em casa

De início já é possível escutar os berros de Dominique. Algo me diz que toda essa confusão tem nome e sobrenome: Mercedes Navarro.

-Eu vou chamar a polícia, tira essa mulher daqui, Edgar!

-O que está acontecendo? - os três se viram para me olhar. Dominique, Edgar e Merche - Ah... Outro jantar...

-Não, Michael. É muito pior! Edgar trouxe essa mulher pra morar aqui em casa! - eu só posso ter escutado errado. Não, isso já é demais!

-Como é? Que história é essa?

-É isso mesmo que você ouviu, maninho. - ele ri - Merche está com o apartamento interditado e eu como um bom amigo a convidei para se hospedar aqui na minha casa.

-Eu não vou aceitar isso! - Dominique esbraveja

-Deixe de ser egoísta, Sra. Jackson. - Merche responde com uma voz surpreendentemente afável - Eu preciso de um lar, o que te custa dividir essa casa enorme comigo?

-Só pode ser pesadelo... Michael, fala alguma coisa!

   Mas eu simplesmente não sei o que dizer. Ainda estou pasmo com essa novidade. Não sei se me sinto irado com mais essa provocação ou se estou feliz com a possibilidade de estar mais próximo de Merche. Mas uma coisa é certa, vai ser muito, muito difícil dessa morena escapar de mim agora.


Capítulo 29

Mercedes


Não sei o que é mais engraçado, a fúria de Dominique ou a cara de espanto que Michael fez. Mas o que realmente importa é que nada do que ele disser vai mudar a minha decisão. Não saio daqui por nada desse mundo!

-Edgar está certo, Dominique. - responde em voz baixa - Essa casa também é dele e ele convida quem bem entender para morar aqui.

-É só isso que vai dizer? - grita com o marido - O mínimo que você deve fazer é expulsar essa marginal daqui!

-Dominique, chega de escândalo! Sabe porque eu não vou dar um chilique? Porque pouco me importa a provocação desses dois! Essa casa é minha e eu não vou me acuar. Mas só aviso uma coisa. - diz, me encarando - Se prepare porque você não vai terá um minuto de paz nessa casa! - sentencia, subindo a escada em seguida e rumando para o segundo andar

     Dominique me fuzila com o olhar e segue o marido. Confesso que esperava mais de Michael. Imaginei que ele faria um escândalo, mas foi o contrário. Eu não vi raiva ou ódio, e sim uma mistura de alegria e decepção.

-Bom, agora estão oficialmente avisados. Quer conhecer seu quarto agora ou depois do jantar?

-Edgar, acho melhor eu ir para o quarto de uma vez. Estou muito cansada. Pretendo tomar um banho e desfazer as malas.

-Tudo bem, eu entendo. Corine, peça para alguém subir com as malas da senhorita Mercedes. Vou levá-la até o quarto.

-Sim senhor!

(...)

-Bom, espero que goste do quarto. É um dos poucos quartos disponíveis. Você sabe, agora tem o Michael e a esposa, a filha, Maysa e os enfermeiros do Leon.

-Tudo bem, Ed. Esse quarto está ótimo! Mais uma vez, obrigada pela hospitalidade.

-Imagina, meu bem. Você merece isso e muito mais! Vou deixar você descansar, até logo. - ele me dá um beijo no rosto e se despede

Assim que fecho e tranco a porta, respiro aliviada. Minha cabeça está a mil e meu coração ainda bate acelerado. Será que eu fiz a coisa certa ou fui longe demais?

-Calma, Mercedes. Você precisa se acalmar... Precisa ser forte e corajosa... - me encosto na janela e observo o anoitecer cada vez mais próximo - Eu tenho que domar meus sentimentos. Domar meus sentimentos! - sou interrompida pelo som de batidas

Me aproximo da porta e tremo ao imaginar que pode ser Michael. Eu não estou pronta para iniciar mais um round de discussões.

-Sou eu, Merche. A Maysa. Tem um minuto para mim? - destranco a porta e abro

-Claro, Maysa. Pode entrar. Imagino que esteja aqui para me dar uma bronca, não é? - falo, fechando a porta novamente

-Não, eu não vim pra isso. Até porque sei que não está aqui com o intuito de nos provocar.

-E você acha que eu estou aqui por qual motivo? - cruzo meus braços

-Ficar perto do Michael. Mesmo que não perceba, é por isso que está aqui.

-Maysa, acho que você está muito enganada! Eu odeio seu irmão e vou acabar com ele! - ela ri

-Você ainda o ama, Mercedes. É completamente apaixonada por ele. Se não sentisse nada por Michael, nem aqui você estaria. Não sentiria nada além de desprezo e indiferença. - não consigo contra-argumentar

Na verdade Maysa está mais que certa, mas de forma alguma eu irei admitir.

-Eu não quero discutir isso, Maysa. Me desculpe.

-Tudo bem, não vou insistir...

-Assim como para Michael e a esposa, minha presença aqui também te desagrada? - ela sorri e me puxa para um abraço reconfortante

-É claro que não, Merche. Saiba que sempre gostei muito de você, mesmo nos odiando tanto como agora.

-Eu não te odeio, muito pelo contrário. Sei exatamente à quem culpar o mau que sofri e eu jamais descontaria em você. Eu não sou uma mulher má. A única coisa que eu quero é fazer justiça.

-Eu sei disso, Mercedes e sei também que nada que eu disser vai mudar seus planos, mas tome cuidado.

-Cuidado? Eu não tenho medo dos Jackson's! - ela sorri novamente, se aproximando da porta

-Não são com eles que você deve tomar cuidado, e sim com você mesma. Com os seus sentimentos. Boa noite, Merche. E seja bem vinda. - ela sai do quarto, me deixando ainda mais intrigada e insegura


Dois dias depois



      Os últimos dias não foram nada fáceis para mim. Não em relação à minha mudança para a casa dos Jackson's, pois evito ao máximo cruzar com eles. O que tem me incomodado é a sensação de estar fugindo deles. Saio de casa antes de todos e só volto para dormir. Cruzo uma ou duas vezes com Dominique, que não perde a oportunidade de me provocar.
     Na empresa também fujo de Michael. Estou sempre cercada pela minha assistente, sem deixar brechas para ele. Tenho certeza que Michael está louco para me encurralar e eu sei que esse momento não vai demorar para acontecer.
A única coisa boa que aconteceu foi o fato de assinarmos com a empreiteira Parker's. Finalmente uma parte do meu plano está em andamento e logo a consequência negativa virá.

    Depois de mais um dia cansativo na empresa, tanto com o trabalho quanto à presença constante de Edgar, decido voltar pra casa. Nesses últimos dias tenho ficado trancada no escritório com Judith - e claro, pagando um excelente preço por suas horas extras -. Sei que pareço covarde, mas eu só estou me acostumando com minha nova realidade, e quando eu estiver forte novamente, voltarei a ser a Mercedes que sou.

(...)

     Mais uma noite em que eu sinto dificuldade para dormir, mas quando finalmente consegui, tive um sonho perturbador. Na verdade, um pesadelo. Nesse sonho, eu chorava desesperada a procura de Michael e quando finalmente acho, o encontro jogado em uma mata, completamente ferido e inconsciente. 
    Me levanto assustada, pingando suor e trêmula. Nunca senti nada parecido, uma angústia inexplicável... Decido tomar um banho para me recompor. Minha garganta ainda está seca e eu me vejo obrigada a sair do quarto e ir à cozinha.
Mesmo estando receosa, decido descer. Com cuidado para não fazer barulho, pego um copo e o encho com água gelada, bebendo todo o líquido quase em uma única golada. Estou virada de frente para a bancada de granito, quando ouço passos se aproximando.
     Giro meu corpo e trombo com Michael, que agora está colado em mim. O ar me falta aos pulmões ao vê-lo bem perto, trajando apenas uma calça de moletom cinza. Está sem camisa e eu posso constatar com exatidão como Michael mudou. Ele está forte, peitoral definido, abdômen trincado e os ombros ainda mais largos. Nem de longe se parece com o magrelo que já me excitava com facilidade, mas não tão rápido e intenso como neste momento.

-Até quando pretende fugir de mim? - pergunta em voz rouca, apoiando os braços na bancada ao redor do meu corpo

-Não estou fugindo... - murmuro algo que nem ao menos consigo entender

Meus olhos estão vidrados em seu peito nu. Sinto um calor ardente invadir meu corpo, esquentando e borbulhando meu sangue. Michael sobe suas mãos e aperta minha cintura com uma leve pressão. Nesse momento deixo cair da minha mão o copo, mas Michael, com extrema habilidade, o pega antes que se espatifasse no chão.

-Cuidado! - ele ri - Creio que não quer que ninguém venha nos interromper...


Capítulo 30

Mercedes


-Mike... - tento falar entre sussurros

    Michael coloca o copo em cima da bancada e volta a encaixar sua mão na minha cintura. Ele desliza os lábios pelo meu pescoço, colo e volta a subir de volta ao meu queixo até encontrar meus lábios, que são devorados ferozmente. Estou entregue, excitada, louca de desejo, implorando nesse beijo o quanto quero ser amada por Michael.
    Ele me senta na bancada e se encaixa no meio das minhas pernas. Solto um gemido alto ao sentir seu membro roçar minha intimidade. Michael me beija para abafar meus gemidos, mas não alivia nas carícias ousadas. Não tenho como voltar atrás. Nem quero.

-Michael, aqui não... - ele para de me beijar e me fita com brilho nos olhos

-Vem comigo. - Michael pega na minha mão e me guia até um cômodo qualquer

-Esse quarto é de empregada? - mesmo nos beijando sem parar, percebi o lugar que estávamos

-Uhum, mas está vazio. - responde, mantendo os lábios colados na minha pele

Michael tranca a porta e volta sua atenção para mim. Seu olhar tem desejo, desejo animal. Sua pele está quente, assim como a minha. É como se a qualquer momento entrássemos em erupção. 
Ele me deita na cama, e mesmo estando louco de desejo, vejo muita delicadeza em seus gestos. Começa beijando minhas pernas, coxas ao mesmo tempo que vai retirando minha camisola. Agora ele beija minha barriga nua e vai subindo até o vão entre meus seios. Michael os aperta ainda por cima do sutiã, me levando a beira da loucura.

-Eu nunca esqueci de cada detalhe do seu corpo... Você continua maravilhosa... - sussurra rente ao meu ouvido

-Esperei tanto por esse dia... Só você me deixa assim. - o torpor é tão intenso que me vejo revelar frases incoerentes

Michael sorri satisfeito e volta a beijar minha boca apaixonadamente. Agora, ele se livra do meu sutiã e passa alguns segundos contemplando a visão. Ele lambe os lábios, deixando claro a vontade que está sentindo de abocanhá-los.

-Anda, Mike... Eu sei o que você quer fazer... - ele ri, inclina a cabeça e inicia a tortura

Ele mordisca meu mamilo e em seguida começa a chupar devagar. Sinto sua língua aveludada deslizar pelo meu seio, sugando, mordendo, beijando. Ele alterna as carícias entre um seio e outro, como uma criança empolgada com um novo brinquedo.

-Continua tão gostosa, tão minha... - afirma, voltando a chupá-los

    Finco minhas unhas em seus ombros, puxo seu cabelo e urro, gemendo sôfrega o seu nome. Deslizo minhas mãos e chego na barra da sua calça. Não penso nem duas vezes para retirá-la e assim o faço, deixando-o completamente nu. Michael se ajoelha na cama me dando uma visão ampla do seu membro agora liberto. Me sinto úmida só de ver seu sexo ereto, grosso, molhado e teso, deixando transparecer sua excitação.
   Nem percebi que ele já tinha tirado minha calcinha. Suas mãos voltam a percorrer minhas pernas, coxas até chegarem na minha virilha.
Michael deita por cima de mim novamente e enquanto me beija, sinto seus dois dedos infiltrarem minha intimidade.

-Bem molhadinha pra mim... Isso me deixa louco!

-Michael, por favor... Eu preciso de você...

-Agora?

-Sim, agora! Estou pronta pra você. - ele retira os dedos e substitui com seu membro, penetrando lentamente

Meu coração acelera e meu sangue parece circular duas vezes mais rápido. É incrível como só Michael consegue tirar de mim essa reação. Me lembrei da primeira vez que fizemos amor, pois me senti exatamente igual. É como se eu finalmente tivesse reencontrado o meu lugar.

-Está tudo bem, Merche? - pergunta preocupado ao me ver quieta

-Sim sim, continue. Por favor... - Michael se acomoda em sua posição e volta a se movimentar mais rápido. Ele geme meu nome, me aperta e estoca com força

-Porra... Que delícia você é, sempre foi... Não há nada nesse mundo mais gostoso do que foder você. - rio do seu vocabulário sujo, que provoca mais espasmos em mim

-Então me fode, Michael. Forte e gostoso como você sempre fazia! - cravo minhas unhas nas suas costas e grito alto ao sentir seu pau me tocando bem fundo

   Os movimentos cada vez mais rápidos me deixam fora de órbita. Mesmo metendo incessantemente, Michael continua me acariciando, apertando minha bunda, lambendo meus seios e me beijando. Eu também não consigo me desgrudar dele. Chupo seu pescoço, queixo e beijo sua boca, sugando seus lábios carnudos.
    Sinto meu orgasmo se aproximar e a vontade de gemer alto é incontrolável. Michael percebe que estou prestes a gozar e sem me avisar, retira o membro. Antes que eu pudesse reclamar, ele volta a me penetrar, enterrando de uma só vez, e aí sim eu me desmancho. Michael me beija para abafar meu grunhido. 
    Meu corpo está trêmulo, sinto meus músculos se contraírem. Estou gozando e este homem continua metendo forte e deliciosamente. Sinto algumas lágrimas salpicarem meu rosto. Estou no paraíso ou em alguma dimensão que somente a droga mais pesada pode nos levar.

-Não chore, meu bem... Estou aqui, hum? - agora ele estoca mais lentamente, focando apenas em ser carinhoso comigo. Me sinto estranha e ao mesmo tempo feliz em ver ternura em seus gestos

Assim que meu torpor se estabiliza, decido retribuir essa sensação maravilhosa que ele me deu. Seu membro continua enrijecido, esperando pelo seu orgasmo. Michael me vira de costas e passeia as mãos pelo meu quadril. Não espero ele pedir a posição que quer, e assim empino minha bunda, ficando de bruços.

-Boa garota... - diz, estapeando de leve meu bumbum

Novamente já estou excitada e úmida. Michael roça seu membro na minha entrada e me penetra novamente. Dessa vez ele está mais sedento, mete rápido, forte, louco como um animal selvagem e eu gosto muito disso.

-Isso, rebola pra mim... Rebola bem gostoso, meu amor... - tento acompanhar seu ritmo e mais uma vez me sinto pronta para outro êxtase

-Acho que vou gozar de novo... - murmuro. Michael ri e agora seus dedos estão estimulando meu clítoris

-É claro que vai. Vou te dar quantos orgasmos você quiser... - sua voz oscila, anunciando seu clímax

    Ele geme entre dentes e eu noto seu esforço em controlar a voz. Mas quanto mais ele estoca, mas sua voz se eleva. Ouvi-lo gemer meu nome me enlouquece e eu passo a apertar seu membro, engolindo-o e esfregando-me nele. Sinto um líquido quente me preencher e descer pelas minhas coxas, se misturando com o meu prazer.
    Nos deitamos na cama e só o que se pode ouvir são nossas batidas desenfreadas e nossa respiração descontrolada. Meu corpo ainda está trêmulo e minha intimidade está quente, como se ainda implorasse por Michael.
Eu sei que cometi uma burrada enorme, mas aconteceu. Sou uma mulher de 30 anos e levantar dessa cama para culpar Michael seria no mínimo infantil. Deixarei o arrependimento me corroer no dia seguinte.

-Está pensando o mesmo que eu, não é? - diz, quebrando o silêncio

-Pensando o que? - ele deita, virado para mim, me puxando para mais perto dele

-Que agora não cai nada bem fingir arrependimento. Nós quisemos e pelo que vejo, ainda queremos muito mais...

Sorrimos um para o outro, com os lábios carregados de segundas intenções, deixando claro que essa madrugada ainda não acabou.


Capítulo 31

Michael


Fazia muito, muito tempo que eu não tinha uma noite tão perfeita como a anterior. Tive medo de acordar essa manhã e perceber que tudo não passou de um sonho. Então, as lembranças vieram e foi impossível aquietar meu coração e até mesmo o meu membro...

" - Michael, sério já são 4 da manhã... - Merche tentava dizer enquanto eu ainda lhe mantinha presa na cama

-Não tem problema, estão todos dormindo. O que não pode acontecer é sairmos daqui com vontade um do outro... - ela sorri, se aconchegando no meu colo

-Tome um banho gelado que passa!

-Vou tomar sim, depois de fazer amor bem gostoso com você... - Merche se derrete em meus braços, cedendo aos meus encantos mais uma vez "


-Michael! - Dominique grita, me despertando dos pensamentos

-O que foi? - coço meus olhos e levanto da cama. Ainda estou morto de sono, é notável - Precisa gritar desse jeito?

-Mas é claro! Estou te chamando, chamando e nada! Já era pra você estar acordado há muito tempo.

-Tenho direito de acordar a hora que eu quiser! Por que está me esperando?

-Porque eu não vou me sentar à mesa sozinha com aquela vigarista! - reviro os olhos e entro no banheiro

Tiro a camisa e, me olhando no espelho, vejo as marcas da noite passada. Meu peitoral está vermelho, arranhado e tem até marca dos dentes dela em meu peito. Posso até imaginar o estado que está minhas costas. Além dessas marcas, o cheiro de Mercedes ainda está grudado na minha pele e sim, estou viciado nessa mulher.
Dominique fez questão de descer de mãos dadas comigo para provocar Mercedes. Essa, está sentada ao lado de Edgar e assim que me vê se aproximar, abaixa a cabeça e toma um gole de café.

-Bom dia, casal... - Edgar sorri, provocando

-Ótimo dia, Edgar! - respondo na mesma empolgação - Bom dia, Mercedes!

-Han? - ela parece estar desnorteada e não há nada mais divertido que vê-la envergonhada

-Nossa, está com a cara péssima. Parece que não dormiu nada essa noite. - seu rosto ganha um tom de vermelho tomate e eu sorrio vitorioso por ter conseguido desbancar sua pose

-Sim, não dormi nada bem... - ela boceja e sorri - Assim como você... Estou notando algumas olheiras. Você viu isso, Dominique?

-O que quer dizer com isso? - Dominique rebate - Olha aqui, você trate de cuidar da sua vida! Não é nada mais que uma intrusa nessa casa!

-Dominique, chega! - Edgar grita - Não admito mais que ofenda a Mercedes! - decido desviar o assunto, para evitar mais discussões

-Corine, onde está minha filha?

-Ainda não se levantou, Michael. Como ela não tem aula hoje, achei melhor deixar ela dormir um pouco mais.

-Você não tem que achar nada! - Dominique lhe corta - Onde já se viu se meter na educação que dou para minha filha?

-Educação? - Mercedes pergunta - Só se for educação à distância, pois você não chega nem perto dessa pobre criança!

-Não se meta nisso! Você não é da família, sua imunda! - Dominique tenta partir para cima dela, mas eu impeço

-Dominique, para! É cedo demais para tantos gritos!

-Você ainda não viu nada! - ela sai pisando duro e eu faço o mesmo, pois de forma alguma ficarei olhando Edgar dar em cima de Mercedes descaradamente

(...)

Passei o resto do dia tentando falar com Merche, mas ela fez questão de fugir de mim. O pior é que não consegui me concentrar em nada. Minha cabeça só teve lugar para pensar na nossa noite e na vontade louca de estar com ela novamente.

-Não aguento mais! - me livro do paletó na tentativa de aplacar o abafamento que estou sentindo

Daqui a pouco é hora de encerrar o expediente e eu não conseguirei esperar até a noite para vê-la.

-Judith, a Sra. Navarro está na sala?

-Sim, Sr. Jackson, mas ela mandou dizer que está ocupada. Não quer receber ninguém.

-Eu me resolvo com ela. - entro sem anunciar minha presença e só de vê-la debruçada em sua mesa, sinto meu sexo enrijecer

Mercedes está concentrada, pois não notou minha presença. Óculos de grau na altura do nariz, o decote está generoso, ainda mais na posição provocadora que ela se encontra.

-O que faz aqui? Estou falando com você! - Merche tira os óculos e cruza os braços, esperando minha resposta





-Nada, eu... Só vim falar da empresa. Afinal somos donos da Construtora.





A medida que me aproximo, Mercedes vai se afastando até trombar com sua mesa. Agora estamos a poucos centímetros de distância e eu preciso me controlar muito para não tomá-la em meus braços.

-Acho que não temos nenhum assunto pendente, Sr. Jackson...

-Só vamos saber se estudarmos a fundo... - afirmo, passeando meus dedos pelo tecido da sua saia

Para minha surpresa, Mercedes toma a iniciativa e me rouba um beijo. Um beijo molhado, intenso, obsceno. Sua língua gostosa me acaricia sensualmente, provando o quanto sabe ser atrevida. Levanto minimamente sua saia e lhe sento em cima da mesa. 
Voltamos a nos beijar com mais fome, mais urgência e desejo. Desfaço seu penteado e agarro seu cabelo, arrancando-lhe um gemido sensual.

-Michael, é melhor pararmos... - ela tenta se afastar em vão, enroscando suas pernas na minha cintura

-Gostosa! - levo meus dedos até sua intimidade. Acaricio com vontade e suspiro demoradamente ao senti-la molhada

-Ohh Michael... - Merche apoia os braços na mesa e arqueia o corpo, se deliciando com a minha carícia

Retiro meus dedos e lentamente os levo até minha boca. Chupo demoradamente e gemo ao sentir seu gosto.

-Viu como é gostosa? - uma voz feminina no corredor chama nossa atenção 

Merche me empurra e tenta se recompor no exato momento em que a porta se abre. A voz agressiva de Dominique ecoa na sala.

-Ótimo! Era exatamente assim que eu queria pegar vocês dois!

-Dominique...

-Vai negar que estava quase trepando com essa vagabunda?

-O que te faz pensar isso? - Merche propositalmente passa os dedos pelos lábios borrados de batom

-Você é muito dissimulada! - Dominique lança uma bofetada em Merche, que até tropeça. Mas dessa vez ela é mais rápida e revida, estapeando Dominique

-Vocês duas parem agora! Vamos embora, Dominique. - lhe puxo pela cintura e com muito custo consigo tirá-la da sala e a levo para a minha

-Você é um desgraçado! Você e aquela piranha!

-Não admito que a ofenda! - levanto minha voz - Mercedes não merece seus insultos, pois sempre foi muito mais decente que você!

-Ah é mesmo? - ela ri - Então por que a deixou? Oh lembrei... Porque ela era uma pobretona e você covarde demais, não é? Sim, essa é a verdade! Eu te comprei! Você é tão inútil que se casou comigo por interesse, por covardia. É um frouxo e sempre será!

   As palavras disparadas por Dominique me afetam profundamente. Sinto um ódio sem medida, o mesmo que costumava sentir quando Leon me humilhava de forma depreciativa.
Se eu continuasse ali poderia fazer uma besteira. Praticamente fujo deste lugar e sigo diretamente para o estacionamento da empresa. 
     Enquanto dirijo sem rumo e em alta velocidade, amargas lembranças tomam minha mente. Não só as ofensas que ouvi de Dominique, assim como todas as demais que passei minha vida toda escutando de Leon. E o que mais me dói é saber que em nenhum momento disseram mentira.
    Reviro o porta-luvas e encontro uma garrafa de Whisky que certa vez escondi ali. Fecho os olhos, inclino a cabeça e bebo em goladas, sem pausas. Minha visão está cada vez mais turva, talvez pela chuva, pelas lágrimas ou o álcool. 
Não sei como nem quando uma moto entra no meu caminho e minha única saída é desviar o carro. Perco totalmente o controle da direção. Sinto uma forte pancada na minha cabeça, um barulho estridente de vidros se quebrando e por fim só escuridão.


Capítulo 32

Mercedes


Não sei porque, mas depois que Michael saiu da minha sala, senti um estranho temor, um aperto no peito. Eu deveria estar irritada com a bofetada que recebi de Dominique, mas minha preocupação era maior.
  Antes de ir embora da empresa, procuro saber se Michael ainda está aqui ou se foi pra casa com sua "dona". Para a minha surpresa, sua secretária afirma que ele foi embora sozinho e que Dominique saiu em seguida. Decido então, ir pra mansão esperar por outra histeria dela.
(...)

Como ainda é cedo, após o banho decido dar uma volta pelo jardim. Corine disse que Dominique está trancada no quarto enquanto Michael nem sequer apareceu em casa.

-Onde esse homem se meteu? - penso em voz alta, sentada em um banco no jardim que me dá uma boa vista das ruas do condomínio

-Você aqui? - ouço uma voz conhecida logo atrás de mim. Reconheço de imediato e me viro para encarar a bela garotinha

-Agnes! - sorrio encantada ao vê-la. Ela retribui o sorriso e corre para me abraçar

-Queria tanto te ver Eliza! Você veio me visitar ou é a hóspede que todo mundo fala? - ela se senta no meu colo e eu enlaço meus braços na sua cintura

-Sim, eu sou a hóspede do seu tio Edgar. Queria muito ter te visto antes, mas costumo passar o dia fora. - ela me olha com o semblante confuso - Não deve estar entendendo nada, não é? - ela ri

-É... pra falar a verdade não estou mesmo. Você me disse que chamava Eliza!

-Meu nome é Mercedes Elizabeth, mas todos aqui me conhecem como Mercedes. E você também pode me chamar assim agora.

-Gosto de Mercedes, é muito bonito seu nome! - ela sorri - Hmm agora eu estou entendendo. Você é a amiga do papai, a moça da foto! Por isso eu disse que te conhecia de algum lugar.

-Que foto, Agnes?

-Uma vez eu vi uma foto sua numa caixa do papai e ele me disse que você era uma grande amiga dele e que até sentia sua falta.

-Ele, ele disse isso? - meus olhos se enchem de lágrimas, pois eu realmente não esperava por essa

-Disse sim! Eu vou pedir ele pra te mostrar quando chegar. Você está linda na foto!

-Nossa, eu nem sei o que dizer... - Agnes não percebe o baque emocional que levei após o que ela disse

-Sabe, eu queria muito ter te ligado. Mas mamãe viu o papel que você me deu e rasgou em pedacinho! Ela disse que eu fiz errado em falar com uma estranha, mas eu não concordei. Gostei de você e sei que é muito boa! Fiquei muito triste...

-Ah, eu sinto muito. Mas não precisa se preocupar. Agora eu moro aqui e nós vamos ficar perto uma da outra! - inicio um ataque de cócegas em sua barriga, arrancando risadas dela

-Agnes! - ela sobressalta ao escutar a voz de Dominique - Sai de perto dessa mulher agora!

-Mas mamãe...

-Estou mandando! - grita novamente, puxando a menina pelo punho

-Agnes, obedeça sua mãe. Depois nós conversamos ok? - ela assente, ainda apavorada com a reação da mãe

-Fique longe da minha filha, ouviu bem? - ela me dá as costas e se vai, empurrando Agnes

-Essa mulher é louca...

(...)

Minha vontade é de me trancar no quarto, mas Edgar está sentado no sofá à minha espera. Definitivamente hoje não estou com paciência nenhuma para suportá-lo.

-Merche! - ele se levanta e me abraça demoradamente - Não me avisou que tinha voltado mais cedo pra casa...






-Não estava me sentindo muito bem, me desculpe. - ele me puxa para sentar ao seu lado

-Sem problemas, meu bem. O jantar está quase pronto. Me acompanha?

-Claro! - forço um sorriso. Dominique desce a escada pisando duro como de costume

-Corine, onde está o meu marido?

-Não sei, Dominique. Ele ainda não chegou...

-Bom, se essa vagabunda está aqui ele deve estar transando com outra biscate parecida!

Eu já estava prestes a me levantar para quebrar sua cara literalmente quando vejo Maysa surgir na sala. Ela está pálida, os olhos vermelhos e inchados. Pela sua expressão algo de muito grave aconteceu.

- Que cara é essa, Maysa? - Edgar pergunta

-Acabam de me ligar do hospital. - ela respira fundo e continua - Michael deu entrada...

-Mas por que? O que aconteceu? - Dominique pergunta, sacudindo os braços de Maysa

-Um acidente de carro. Encontraram o carro capotado e ao reconhecerem meu irmão, me ligaram imediatamente.

Todos começam a falar ao mesmo tempo, mas minha cabeça não está nessa sala. É como se o tempo tivesse parado. Não consigo esboçar nenhuma reação, estou apática. O pior é que sequer posso sair correndo daqui e ir até o hospital.

-Então vamos para o hospital agora! - Dominique diz

-Você vem Edgar?

-Não, Maysa. Ficarei aqui com Mercedes. - faço um esforço enorme para não chorar na frente dele

-Ótimo! Porque não quero de jeito nenhum essa mulher perto do meu marido!

-Dominique, não é hora pra isso! Vem, vamos para o hospital. - as duas saem juntas, acompanhadas de Corine

-Uau, por essa eu não esperava... - Edgar exibe uma falsa preocupação que me irrita profundamente

-Está esperando o que?

-Como? - ele ri

-Pelo amor de Deus, Edgar. Ele é seu irmão! Tem a obrigação de estar naquela porcaria de hospital!

-O que aconteceu com o Michael? - somos surpreendidos por Leon, que está em uma cadeira de rodas sendo amparado por sua enfermeira - Mas o que essa mulher faz de novo aqui? 

-Ah... Eu mereço! - ignoro a pergunta de Leon e subo para o quarto, deixando Edgar encarregado de dar explicações ao velho

   Assim que fecho a porta, desabo ao chão. Estou aflita, desesperada e o pior, me sentindo impotente. Eu sabia que algo de ruim ia acontecer, mas hora alguma passou pela minha cabeça que Michael estava em perigo. Minha vontade é de correr para o hospital, mas não é hora de arrumar confusão com Dominique. 
  Me sento na cama e tento me acalmar. Jamais pensei que voltaria a rezar por Michael, mas é isso que meu coração ordena. É a única forma que eu tenho para me conectar com ele. E assim permaneço pelas próximas horas.

-Meu Deus, por favor... Por favor, não faça isso comigo... - ouço batidas na porta e rapidamente enxugo as lágrimas - Corine? Corine, como ele está?

-Acabo de chegar do hospital... - seu semblante desesperado me faz ter a certeza de que o pior aconteceu - Ele...

-Não! Não me diz que... - as lágrimas me impedem de completar

-Não, não! Deus é misericordioso demais... Mas a verdade é que ele não está nada bem... Estou com tanto medo, Mercedes! - ela agarra os meus braços, me abraçando forte. Neste momento estamos compartilhando do mesmo desespero

-Michael é forte, duro na queda. Ele não seria louco de nos deixar...

-Você tem que vê-lo, Mercedes. Eu sei que quer isso!

-Core, eu não posso aparecer lá, você sabe muito bem...

-Mercedes, este não é o momento de sentir orgulho. Estamos correndo o risco de perdê-lo para sempre!

-Calma, Core... Não pode ficar nervosa! Amanhã cedo estarei lá. Sei que Dominique não vai ter compaixão de ficar lá por muito tempo. Michael vai ficar bem, ele tem que ficar!

(...)

Passei a noite toda acordada e assim que amanheceu tratei de ir para o hospital. Não quis cruzar com Dominique ou dar explicações à Edgar. 
Não sei nem como consegui dirigir até aqui. Não comi nada, estou com um terrível nó na garganta. Só vou me acalmar quando ver Michael com meus próprios olhos.

-Maysa! - respiro aliviada ao vê-la. Ela está extremamente abatida, mas também transmite sua confiança de médica

-Eu sabia que você viria. Dominique nem passou a noite aqui...

-Como ele está? Me diz que ele vai ficar bem, por favor!

-Merche, como médica eu não posso mentir. O estado dele é muito grave. Michael chegou gravemente ferido e perdeu muito sangue na cirurgia.

-Mas por que ele foi operado? - aumento meu tom de voz

-Ele quebrou o fêmur e tínhamos que conter a hemorragia. Por muita sorte ele não sofreu traumatismo, mas ainda assim o estado é grave. Michael simplesmente não responde, eu estou com muito medo...

-Eu posso vê-lo?

-Ele está no CTI, mas farei uma exceção. Vem, eu te levo até ele.

Visto a roupa apropriada e entro sozinha no quarto. Meu coração aperta e sangra ao vê-lo tão debilitado. Seu rosto tem várias escoriações, hematomas, cortes... Os fios que monitoram seus batimentos demonstram como ele está fraco. 
Me aproximo do leito e cuidadosamente acaricio seu cabelo. Já é impossível conter as lágrimas e eu me entrego a um choro descontrolado, e pela primeira vez depois de tanto tempo, abro meu coração.

-Meu amor... Você não pode me deixar. Por favor, Michael! - encosto minha cabeça em seu peito, abraçando-o com força - Eu te amo. E mesmo que não sinta o mesmo por mim, eu imploro para que não me deixe aqui sozinha. Por favor, meu amor... Eu te amo, te amo! - levanto minha cabeça ao escutar seus batimentos acelerados

Michael continua imóvel, mas eu o sinto inquieto, como se estivesse captando minhas emoções. Como Maysa me deu poucos minutos, sou obrigada a me despedir. Afasto sua máscara de oxigênio e beijo seus lábios entreabertos. Beijo também sua bochecha, testa e a ponta do seu nariz, mania essa que costumava ter com ele.

-Eu te amo... - sussurro em seu ouvido

Beijo seus lábios mais uma vez e coloco a máscara no lugar. Passeio sua mão em meu rosto, enxugando minhas próprias lágrimas. Eu sei que Michael nunca mais será meu, mas eu o amo tanto que alegro meu coração só com a certeza de que onde quer que ele esteja, estará bem. A verdade é que nunca deixei de amá-lo, pelo contrário. Cada dia amanheço amando-o um pouco mais e será assim até o último dia da minha vida.


Capítulo 33

Mercedes


    Deixar Michael sozinho no hospital foi mais difícil que pensei. Não sai da minha cabeça as palavras de Maysa e nem sua imagem debilitada naquela cama. Tenho medo do pior acontecer, na verdade não consigo imaginar qual seria minha reação se por ventura eu o perdesse...
Passei o resto do dia na empresa sem me concentrar em absolutamente nada. Sem Michael aqui esse lugar perde totalmente a graça. Sei lá... a mania de provocá-lo era o que me dava mais prazer. 
   O dia finalmente está se encerrando e eu continuo inerte nesta cadeira. Não tenho vontade nenhuma de voltar para a casa dos Jacksons, ainda mais me sentindo tão frágil como hoje. Meu celular toca e por muito pouco eu recuso, mas vejo o nome de Maysa a tempo.

-Maysa? Tem notícias do Michael? - - pergunto antes mesmo de ouvir sua voz

-Merche, o que você fez com meu irmão? - me levanto da cadeira em um pulo. Meu coração gela com a sua pergunta

-O que? Eu não fiz nada, eu juro! - tento explicar, mas ela me corta

-Fez sim, tenho certeza! Inexplicavelmente Michael teve uma melhora considerável em seu quadro, tanto que amanhã mesmo vamos tirá-lo do CTI!

-Maysa, você está falando sério? - enxugo minhas lágrimas, tentando acalmar meu coração

-Sim, por mais surreal que seja, é verdade! Acabamos de fazer uma nova bateria de exames, Michael está respondendo muito bem ao tratamento.

-Graças a Deus! Não sabe como eu rezei para ouvir isso...

-Eu sei... E te agradeço do fundo do meu coração. Nada tira da minha cabeça que você foi a responsável por isso.

-Eu? Imagina, Maysa... Eu só fui ver como ele estava. E fico feliz por Michael estar melhor. Apesar dos nossos problemas, eu jamais lhe desejaria a morte.

-Tem certeza que é só por isso que foi visitá-lo?

-Sim. - esforço para me manter firme - Maysa, eu preciso desligar agora, mas por favor me dê notícias!

-Claro, Merche. Agora vou ligar lá pra casa e acalmar a todos. Agnes está aflita, coitadinha...

-Não se preocupe, eu vou conversar com ela.

-Obrigada, Merche. Tenho certeza que posso confiar em você!


Três dias depois


     Esses últimos dias não têm sido os melhores pra mim, a única ressalva é que tenho me aproximado muito de Agnes, claro sem que Dominique veja. Outra coisa que notei de estranho é a rotina dela, mas o estopim foi quando descobri que era mentira o fato dela dizer que vai ao hospital ver Michael quando na verdade ela nem lá tem passado. Algo de muito sério ela esconde...
    Como Michael está afastado do trabalho, não posso fazer absolutamente nada sem seu consentimento, então voltei mais cedo pra casa. Como sempre, não encontro Dominique em casa, então após receber um telefonema de Maysa dizendo que Michael foi transferido para o quarto, decido fazer uma surpresa para Agnes.

-Boa Tarde... Será que eu posso entrar? - a encontro deitada na cama, encolhida e isso toca profundamente o meu coração






-Claro, Tia Merche! - sorrio, encantada com meu novo apelido






-Hmm posso saber por que está tão tristinha? - me sento ao seu lado na cama

-Estou com saudades do papai. Queria vê-lo, mas ninguém deixa! Ele vai ficar bem, não vai?

-É claro que vai, meu amor. Mas pra isso você também tem que estar saudável. Corine me disse que você não tocou no almoço.

-Não senti fome...

-E como pretende visitar o papai com a barriga vazia? - ela levanta o olhar, abre um lindo sorriso e se senta na cama

-Tá falando sério? Eu vou poder ver ele?

-Só se for agora, só espere eu tomar um banho. Mas antes você vai na cozinha fazer um lanche, ok?

-Me acompanha? - ela pede de um jeito tão doce que é impossível resistir

-É claro que te acompanho! Vamos encher a pança e ver seu pai! - Agnes dispara a rir do meu jeito de falar e até eu me surpreendo, pois tem anos que eu perdi a forma despojada de falar

(...)

   Não tem nada mais prazeroso do que ser responsável pela alegria de alguém. Enquanto estamos a caminho do hospital, faço de tudo para animá-la. Escutamos música no último volume e eu lhe ensinei a cantar as melhoras bandas de rock que eu conheço. Apesar de me sentir apreensiva por estar cuidando de uma criança, acho que me saí bem. 
    Por um momento deixei a minha imaginação voar. Meu filho estaria hoje com doze anos e com toda certeza seria uma engraçada mistura dos pais. A minha rebeldia somada ao talento de Michael. É uma pena saber que nessa vida eu nunca serei mãe, ainda mais um filho do homem que eu amo.

-Chegamos, gatinha. Mas não podemos demorar, ok? - ela concorda e pega na minha mão

-Merche! Que bom que você veio e a ainda trouxe a minha princesinha! - Maysa nos abraça e logo nos indica o quarto em que Michael está

Fico tão aliviada em vê-lo longe daqueles tubos e aparelhos. Ele continua um pouco abatido, mas nem de longe se parece com o homem que estava entrevado em uma maca.
Michael parece estar sonolento, mas logo se anima assim que nos vê entrar. Ele está surpreso com a nossa visita e seu sorriso de felicidade me desmonta.

-Papai!! - Agnes corre até Michael e sobe na cama. Ela o abraça forte e eu rio ao ver sua careta de dor - Você continua doente?

-Não, meu amor. O papai está melhorando e logo vai voltar pra casa!

-Promete?

-Prometo sim. Senti tanto sua falta, amor... Prometo que nunca vou te deixar, nunca! - enxugo uma lágrima que rola em meu rosto e decido sair do quarto. É um momento de pai e filha e eu não posso me meter

-Tia Merche, fica! - paro no meio do caminho ao ouvir a voz de Agnes. Me viro para trás e ambos estão me observando com olhares de expectativa

-É melhor eu esperar lá fora... Vocês devem querer ficar sozinhos para conversar.






-Não, nós queremos você com a gente.

Michael responde com um sorriso tão lindo e tão perfeito que eu acabo ficando sem reação. Tento engolir o choro, retribuo o sorriso e decido me unir à eles.


Capítulo 34

Mercedes


   Foi muito estranho me sentar com Michael e Agnes e participar de um antro familiar. As peças não se encaixam. Eu deveria estar destruindo a vida desse homem, sentindo prazer em magoá-lo, mas estou aqui compartilhando com ele um momento tão emocionante.
   Nem vimos o tempo passar. Agnes já denuncia cansaço e é até bom, pois assim poderemos ir embora.

-Desculpa atrapalhar vocês. - Maysa diz ao entrar no quarto - Só vim avisar que estou indo pra casa tomar um banho e volto para o plantão.

-Ótimo, pois nós iremos também. - digo, me levantando da cama - Está tarde para Agnes, então eu te acompanho.

-Fica, Merche! - me surpreendo com o toque preciso da sua mão em meu braço - Fica mais um pouco. Não quero ficar sozinho. - noto um certo charme em seu pedido, típico quando quer alguma coisa

-Eu tenho que levar sua filha... - tendo explicar, mas Maysa me corta

-Eu a levo, não se preocupe. Por favor, Merche. Faça compainha ao Michael até eu voltar.

-Tu-tudo bem. - murmuro, sem acreditar que concordei com essa loucura

-Obrigada! - Maysa agradece, risonha - Vamos, Agnes! Amanhã você vem ver seu pai novamente.

-Tudo bem! Tchau papai, amanhã eu volto! - ela abraça o pai e lhe beija carinhosamente - Tchau tia Merche! - ela se despede de mim e sai do quarto com Maysa

E então ficamos a sós. Minhas pernas estão trêmulas e eu não sei por onde começar.

-Vo... você se sente melhor? - gaguejo e finalmente concluo a pergunta

-Sim. Parece que um caminhão passou sob mim, mas o pior já passou. - ele sorri com satisfação e faz uma careta de dor ao tentar se sentar

-Não, Michael! Não faça isso, você não pode se esforçar.

-Então sente aqui. Quero te fazer uma pergunta. - me aproximo da cama e me sento, ainda retraída

-O que? Pode falar.

-Você veio me visitar quando eu estava no CTI? - droga! Será que Maysa contou? Eu pedi para ela não dizer nada!

-De onde você tirou isso? - torço os dedos nervosamente, tentando disfarçar

-De lugar nenhum, mas tive essa sensação. Não sei se foi um sonho ou se foi real...

-Com certeza foi um sonho! - lhe corto - Michael, eu só vim porque Agnes estava muito angustiada. Não pense nem por um segundo que me importo com você. - ralho, me levantando da cama, pronta para sair

-Eu não acredito, Mercedes. Você me ama. - paraliso diante de sua afirmação. Ouvir a verdade incomoda, ainda mais partindo dele

-Não levarei em conta seu blefe, pois está doente. É melhor eu ir embora.

-Não, por favor! Espera... - respiro fundo e me viro novamente - Mesmo dizendo que não veio por mim, eu estou feliz por ter você aqui. - caminho de volta até ele e subitamente lhe beijo a testa

-Não me assuste novamente. - ele desponta um sorriso iluminado no rosto e eu retribuo

(...)

Ainda estou parada dentro do carro estacionado próximo ao portão dos Jacksons. Já anoiteceu, mas eu não tenho a mínima vontade de entrar. Desfaço meu penteado e me deito confortavelmente no banco. Quando finalmente crio coragem, algo chama minha atenção. Vejo Dominique abrindo o portão e saindo de soslaio. Ela está vestida de forma provocante e o que me surpreende é vê-la entrando em um carro luxuoso.

-Hoje eu descubro o que essa loira oxigenada está escondendo! - espero o carro se afastar e acelero o meu em seguida

Sei que não tenho nada com a vida dessa mulher, mas algo me diz que xeretar sua vida não será perda de tempo. 
O carro em que ela está pára na porta de um opulento restaurante. Enquanto o manobrista se aproxima, as portas se abrem e para o meu espanto, Dominique sai de mãos dadas com um homem muito bem apanhado.

-Não acredito... - falo pausadamente, chocada com o que acabo de ver - Essa mulher é mais esperta que imaginei!

    Estaciono meu carro no outro lado da rua e entro no restaurante, cuidadosamente para que não me vejam. Eles se sentam em uma mesa afastada e eu faço o mesmo, sem que eu perca o contato visual. Eles trocam risadas, carícias e beijos, e eu claro, registro tudo no meu celular. 
    Eles fazem o pedido ao garçom e pouco tempo depois, se levantam em direção à área reservada. Se eles forem fazer o que estou imaginando, será o que eu preciso para me vingar de vez dessa mulher. Enquanto o garçom conversa com eles, me adianto e entro na sala que receberá o casal em instantes. Me escondo entre as paredes e espero ansiosa sua chegada. 
     Dito e feito! Eles entram na área reservada em que eu espero, com toda certeza querendo privacidade. A sala costuma ser habitada por casais que necessitam de um momento mais íntimo. Londres era abarrotado com esses restaurantes, certa vez Louis insistiu para irmos, e como eu sei exatamente o acontecerá a seguir, deixo a câmera do meu celular pronta para registrar a escapada de Dominique Jackson. 

   Após a implícita cena de sexo, eles se recompõem e aguardam a espera dos pedidos. Tive que esperar quase duas horas para sair da sala quando eles finalmente foram embora. Provavelmente vão à um motel, mas eu já tenho o que preciso. Uma verdadeira bomba em minhas mãos, só que a questão é, o que eu farei agora?

(...)

Volto pra casa pensativa, relembrando tudo que eu acabara de ver com meus próprios olhos. E eu achando que a única a levar chifres era Dominique...

-Nossa, até que enfim você chegou! - reviro os olhos ao ver Edgar descendo as escadas - Onde estava? - me surpreendo com seu tom de voz autoritário

-Por acaso lhe devo satisfações? Não volte a falar assim comigo novamente!

-Me desculpe... É que eu estou tão nervoso...

-Tudo bem. Eu vou dormir.

-Espera! - Edgar segura o meu braço, agora com mais delicadeza - Preciso te falar uma coisa muito importante. Não posso mais adiar.

-Não pode ser amanhã?

-Não. Se eu esperar mais sinto que vou te perder...

-Pera aí, Edgar do que você está falando?

-Será que não percebe, Merche? Nunca notou que sempre fui apaixonado por você?

-Edgar... - ele me cala, levando dois dedos aos meus lábios

-Eu nunca te esqueci, Mercedes. E agora que você está aqui garanto com toda a convicção que isso não é mais paixão. É amor. Eu te amo, Merche e dessa vez eu não vou te perder!

   Edgar não me dá tempo para eu digerir o que disse e logo me toma em seus braços, arrancando de mim um beijo urgente, desesperado. 
Bom, esse era o meu plano, certo? Seduzi-lo até deixá-lo aos meus pés. E agora que eu consegui, não posso recuar. Edgar será nada mais que um intermédio para realizar meu desejo e de quebra também me vingarei dele. 
   Reúno toda coragem e calma que preciso para suportar as consequências, então correspondo ao seu beijo, demonstrando que meu sentimento é mútuo.






-Merche... - ele sorri quando se afasta - Me diga que isso é real... Que você também...

-Que também estou apaixonada? Sim, Edgar. Estou completamente apaixonada por você.

Antes que eu pudesse derramar as lágrimas contidas, volto a beijá-lo. Agora é um caminho sem volta. Por mais que eu ame Michael com todo meu coração, há questões que nem o amor pode resolver. Está na hora de Edgar pagar por ter me separado de Michael.


Capítulo 35

Michael


Um mês depois


    Finalmente depois de tanto tempo, volto à ativa. Nas últimas duas semanas recebi alta do hospital e pude voltar pra casa. Como passei toda a parte do tempo trancado no quarto, raramente vi Mercedes. Ela só me procurou para falar sobre a empresa, isso apenas quando Judith estava presente. 
    Tenho reparado também algumas coisas que me deixam desconfiado. Mercedes parece me esconder alguma coisa e eu tenho medo que ela esteja tramando mais uma de suas vinganças. Mas hoje eu volto para a empresa e se ela me esconde alguma coisa, eu descobrirei.
Pela primeira vez depois do acidente volto a dividir a mesa do café da manhã com o restante da família. Sinto a raiva me consumir quando vejo Edgar sentado bem próximo à Mercedes. Tento me acalmar antes que eu provoque uma discussão perto de Agnes.

-Bom dia, meu irmão! - Edgar me saúda ironicamente - Pelo que vejo já está novo em folha...

-Sim, Edgar. Para o desprazer de alguns. - sorrio amarelo, me sentando à mesa

-Ótimo! Estávamos loucos pela sua melhora para contarmos a novidade! - diz, unindo sua mão à de Merche. Não só eu, como todos da mesa parecem surpresos

-Do que você está falando? - Mercedes abaixa a cabeça, fugindo do meu olhar

-Você fala ou quer que eu conte, amor?

Amor? Eu escutei bem? Meu coração bate acelerado, minhas pernas estão trêmulas, me dando sinais de que algo grave está acontecendo.

-Eu falo. - ela raspa a garganta e continua - Queríamos dar a notícia na festa de amanhã, mas como Edgar é ansioso, é melhor contarmos agora. Nós estamos namorando.

-O que? - Dominique reage incrédula, assim como todos estão

-É isso que ouviu, cunhada. - Edgar responde - Finalmente nos declaramos e estamos juntos.

-Não é possível que tenha caído nas garras dessa vigarista, Edgar! Como assim decidiu isso da noite pro dia?

-Não decidimos da noite pro dia, querida. - Merche sorri - Estamos juntos há um mês, mas mantivemos em segredo. Não vai nos parabenizar, Michael?

     Até então eu estava absorto, somente com as palavras de Edgar esmagando meu coração. A minha vontade era de levantar dessa mesa, socar meu irmão atê vê-lo inconsciente. Mas respeito minha filha e no momento a dor é tão grande que não tenho forças para fazer nada que não seja levantar dessa cadeira e sumir dessa casa. 
Ignorei os chamados de Dominique e apressado caminho para a garagem. Peço para Bill me levar até a empresa, pois se eu for dirigir, provavelmente sofrerei outro acidente. 
     E quando eu achei que tinha recebido a pior notícia do dia, Harry me informa de uma reunião urgente sobre a empresa. Ótimo, uma bomba atrás da outra. 
Eu ainda nem tinha absorvido a notícia dessa manhã e já tive que novamente cruzar meus olhos com o novo "casal". Mercedes parece retraída ao me ver. Ela sabe que não vai conseguir escapar de mim.

-Posso saber o porquê dessa reunião? - ela pergunta com seu costumeiro tom de voz autoritário

-Não sei nem como dizer isso. - Harry responde, temeroso - Sofremos um prejuízo quase que incalculável com a nova empreiteira. Michael estava certo, eles nunca foram confiáveis. - lanço meu olhar em Mercedes e a vejo sorrir disfarçadamente

Foi o que bastava para a raiva se apossar de mim novamente. Me levanto, totalmente irado e disparo todas as ofensas possíveis contra Mercedes.

-Era esse o seu plano, não é? Falir a minha empresa! Você fez tudo de caso pensado!

-Eu? Michael, estou tão chocada quanto você. Como eu iria adivinhar que essa empreiteira nos daria problema? - seu sarcasmo me irrita profundamente e eu explodo

-Você é um demônio, Mercedes! - grito. Um silêncio se faz na sala, mas isso não me faz parar - Realmente acreditei que ainda existia um ser humano aí dentro, mas agora eu tenho total certeza que você é podre! É incapaz de pensar nos outros!

-Você está me ofendendo. - sua voz sai tremida e eu continuo prosseguindo

-Ah, você se sente ofendida? Isso é pouco! Pra uma mulher que teve coragem de ir pra cama com um velho, seduzi-lo para se casar, isso não é nada!

-Não admito que fale assim de Mercedes!

-Cala a boca, Edgar! Sabe, a minha vontade era de matá-lo, mas agora eu vejo que você merece essa mulher. Ela será a sua ruína! Pode estar se gabando por tê-la como namorada, mas sabe de uma coisa? Ela nunca será sua! Nunca vai amá-lo, nunca te dará filhos e nem te fará feliz, pois é seca por dentro! Deus nunca lhe dará a graça de ser mãe porque você só carrega sentimentos ruins e vazios dentro do peito. E quer saber do que mais? Agradeço a Deus por ter me tirado da sua vida antes de cometer a loucura de construir uma família com uma maldita feito você!

  Mercedes se levanta da poltrona e corre para fora da sala. Eu vi em seus olhos o quanto a magoei, mas foi essa a minha intenção. A verdade é que essa explosão não tem nada a ver com o prejuízo da empresa e sim com o louco e doentio ciúme que estou sentindo dela; com a decepção de vê-la destruindo nosso amor com todo esse rancor.



Capítulo 36

Mercedes


   Eu sei que mereci ouvir as ofensas de Michael, mas ele tocou na minha maior ferida. Nunca consegui superar meu aborto e vê-lo falando desse assunto sem um pingo de emoção, me julgando dessa forma partiu meu coração. Estou irritada por tudo que ouvi e se antes eu tinha alguma dúvida, agora não tenho mais. 
   Vou humilhá-lo da mesma forma que ele fez comigo, e será amanhã na festa de aniversário da Construtora Jackson, na frente de todos os funcionários, da mídia e de toda a família. Michael vai se arrepender de ter me insultado desse jeito.

(...)

   Durante o resto do dia não voltamos a nos ver. Fiquei trancada na minha sala e não permiti a entrada de ninguém, nem de Edgar. Para ocupar a minha cabeça, revi as filmagens que fiz de Dominique, planejando exatamente o que fazer no dia seguinte. 
Já havia passado na hora de ir embora quando finalmente deixei a empresa e para o meu azar, Edgar estava a minha espera, insistindo a todo custo para que eu voltasse com ele.

-Te achei tão calada, meu amor. É pela briga com o Michael, não é? Não acredito que ainda se importa com esse idiota!

-Edgar, se controla! Não é nada disso, só estou preocupada com a empresa...

-Tem certeza? Até onde eu sei essa é a sua vontade. Fali-la. Ainda pensa nisso mesmo nós estando juntos?

-Claro que não, meu amor. É justamente por isso que me sinto culpada. Não quero te prejudicar...

-Não se preocupe, minha linda. Eu sei que não quer o meu mal, só acho que há outras formas de destruir Michael e Leon.

-Eu sei! E isso não vai demorar para acontecer.

-Do que está falando?

-Nada, meu amor. - lhe dou alguns beijos para acalmá-lo - Vou entrar, estou cansada. - abro a porta do meu quarto, mas Edgar segura o meu braço

-Merche, espera... Estamos nos conhecendo cada dia mais, eu sei que me pediu para esperar, mas é que eu não suporto ficar um minuto longe de você... - ele beija o meu pescoço, mas eu o afasto

-Ed, por favor... Eu ainda não estou pronta, sabe? Eu já te disse que tem anos que eu não mantenho relações com ninguém... Apesar de eu parecer durona, certos hábitos eu ainda conservo.

-Eu entendo, meu amor. E vou esperar o seu momento. Eu te amo e farei tudo que você quiser!

-Você é tão especial... - falo tentando demonstrar o quanto estou "apaixonada" - Eu te amo mais! Boa noite, Ed...

-Boa noite, Merche. - nos beijamos mais uma vez e finalmente entro no meu quarto

   Antes de qualquer outra coisa, corro para o banheiro, tiro minha roupa e entro debaixo do chuveiro, sedenta por tirar de mim o cheiro desse verme. Não sei quanto tempo vou conseguir suportar essa situação. Cada vez que estou perto de Edgar, sinto náuseas, nojo e uma terrível vontade de vomitar. É por isso que tenho que agilizar meus planos para poder me ver longe dessa família nojenta.

(...)

   A mansão amanheceu movimentada, afinal hoje é o dia da grande festa que será realizada aqui. Também estou ansiosa para chegar a noite, principalmente para o que vai acontecer. Hoje minha vingança fará mais uma vítima: Dominique. Hoje ela me pagará por todas as humilhações que me fez passar. 
   Me lembrei do dia que nos conhecemos, da forma como ela me tratou, das provocações e principalmente por ter se casado com Michael. E mesmo depois de doze anos ela não mudou nenhum pouco. Graças à ela eu quase fiquei deformada e eu não vou tolerar mais nenhuma humilhação. Hoje será o dia do acerto de contas.

(...)

   Termino de me vestir e me olho no espelho. De fato estou muito bonita, mas por dentro é justamente o contrário. Cada dia que passa eu me sinto mais frágil, insegura e despedaçada. As vezes me dá vontade de largar tudo e ir embora, mas eu não posso desistir. Prometi à Gina que eu iria até o fim!
   Já com o CD em mãos, desço até o jardim e caminho em direção à cabine do DJ que será responsável pela mídia da festa.

-Com licença. Posso entrar? - o rapaz sorri educadamente

-Mas é claro, Sra. Navarro. Veio acertar algum detalhe? Está tudo pronto. As músicas que serão tocadas e os vídeos que exibiremos.

-Ótimo! Está fazendo um excelente trabalho, mas eu quero te pedir um favor. Posso?

-Claro! O que a senhora quiser!

-Quero que inclua esse vídeo aqui no final do filme sobre a construtora. Digamos que é uma homenagem ao nosso presidente. Mas é surpresa, hein?

-Deixa comigo, Dona Mercedes!

-Obrigada, meu bem. Depois acerte comigo seu pagamento. Você merece mais do que a esmola que Michael lhe deu. Até mais tarde.

-Nossa, muito obrigado! Até mais!

Pronto. Parte do meu plano está feito. Agora só falta esperar os convidados chegarem e o show começar...

   Depois de poucas horas a mansão começa a lotar de pessoas. Me sento em um banco do jardim e observo os convidados andando de um lado para o outro. Agns está entretida com alguns amiguinhos e eu lembro de me certificar que ela estará dormindo quando o vídeo for executado. De forma alguma permitirei que ela veja isso.
Beberico minha taça de champanhe e quase engasgo ao sentir uma mão fria tocar meu ombro. Antes que eu pudesse levantar a cabeça, ouço a voz de Michael.

-Podemos conversar?







-Não temos nada para falar um com o outro. - bebo um gole do champanhe e ignoro sua presença

Michael toma a taça da minha mão e me puxa pelo braço, me levantando do banco. Ele parece não ouvir meus protestos e continua andando até estarmos em um lugar afastado.

-O que você quer, Michael? - pergunto, extremamente irritada. Ele, ao contrário, está com o semblante mais calmo






-Quero pedir desculpas por ontem. Eu explodi e acabei falando aquelas merdas perto de todo mundo.

-Você só disse o que pensa, não é? Que eu sou podre, seca. Você falou a verdade.

-Não, eu não falei. Estou arrependido. Essa nossa guerra está passando dos limites! O que deu na sua cabeça pra namorar o Edgar, me diz? - percebo no seu olhar o quanto está desesperado e aflito

-Isso não é da sua conta, Michael. O que eu faço ou deixo de fazer é problema meu.

-Merche, eu posso aceitar tudo! Você pode me humilhar na frente de todo mundo, pode falir minha empresa e me deixar na miséria, mas não prossiga com essa loucura, eu imploro!!!

Suas palavras mexem comigo de um jeito tão profundo que eu me vejo desarmada. Por um momento esqueço a raiva que senti ontem e tudo que meu coração pede é que eu seja sincera com Michael.

-Não estou fazendo isso para te atacar, Michael. - ele ri

-Quer que eu acredite que está com Edgar porque o ama? Ao não ser que... Mercedes, me diz que isso é só um pretexto, por favor!

-Não, Michael. Eu não o amo.  Edgar nos fez muito mal, embora você nunca tenha acreditado que eu falei a verdade. - ele tenta falar algo, mas desiste - Além do mais, n
ão posso amá-lo... Nem ele e ninguém.

-Não pode porque sabe que seu coração tem dono, não é? - Michael me aperta contra si e desliza os lábios pelo meu pescoço

Fecho meus olhos e sinto meu corpo responder aos seus toques. Já estou entregue aos seu beijos, às suas carícias e seus toques ousados. Poderíamos fazer amor ali mesmo, mas logo escuto o vídeo sendo executado e então me lembro que em breve a maldita filmagem irá pro ar.

- O que houve? - Michael pergunta ao me ver afastar

-Preciso ir! - ajeito meu vestido e corro até a cabine, deixando um Michael confuso para trás

Sim, eu estou arrependida. Devo ser uma idiota, mas não posso deixar que essa filmagem seja executada. Não vou conseguir humilhar Dominique dessa forma, pois sei que isso vai machucar Michael

-Hey, preciso que me faça outro favor! - peço, entrando afobada na cabine - Descarte o vídeo que te entreguei, por favor!

-Dona Mercedes, eu sinto muito. Mas o vídeo já foi incluído.

-O que? Tem que ter um jeito! Esse vídeo não pode ir ao ar!

-Eu não posso fazer nada, me desculpe! Ele entra no ar em poucos minutos.

-Droga! - saio da cabine e vejo todos os convidados reunidos, assistindo ao filme sobre a história da Construtora

Leon está em sua cadeira de rodas apesar da aparência abatida, se mostra orgulhoso e egocêntrico como sempre fora. Dominique e Michael estão ao seu lado. Ela sorri para todos, e por um lado será divertido ver sua derrocada. E então eu me lembro de Agnes e ao ver Corine, peço para que ela a tire daqui imediatamente.

-Cori, tire a Agnes daqui agora!

-Mas por que? O que aconteceu?

-Não faça perguntas, só tire ela daqui. Por favor! - ela ao ver o meu desespero faz o que eu peço. Respiro aliviada ao vê-la entrar na casa com Corine

E então o maldito filme termina e após a tela escurecer, a imagem de Dominique e seu amante aparecem no telão. Os burburinhos começam, os convidados se entreolham assustados, principalmente quando a filmagem chega na parte principal. Dominique está vermelha de vergonha, enquanto Michael parece uma estátua.

-Mas o que é isso? - ela grita - Isso não passa de uma montagem, eu exijo que tirem agora!!

Michael continua inerte. Me dói vê-lo assim, por mais que eu tente, não consigo me sentir bem em ver seu sofrimento. 
Ele não aguenta ver até o final e sai apressado, passando por mim sem nem notar minha presença. Realizei minha vingança contra Dominique, mas por um terrível preço que eu não gostaria de ter pago.



Capítulo 37

Michael


É um pesadelo. Só pode ser um pesadelo o que eu acabo de ver. No início, a minha inocência me levou a acreditar que tudo não passava de uma brincadeira, mas ao ver as reações dos convidados e a expressão aterrorizada de Dominique, tive a certeza de que tudo era real.
Se eu continuasse ali poderia fazer uma terrível besteira. Preciso me acalmar ou não sei o que pode acontecer. Entro no meu quarto e antes que eu pudesse me lembrar de trancar a porta, vejo Dominique entrar.

-Michael... - seus olhos estão vermelhos e os lábios comprimidos, denunciando sua evidente culpa

-O que? O que acha que pode me dizer depois daquela merda? - grito, sacudindo seus braços, empurrando-a na cama

-Michael, se acalme por favor! - implora - Eu posso explicar!

-Explicar o que, sua vadia? Que enquanto exije que eu seja um marido exemplar você dá pra outro homem? Você não passa de uma...

-Não me ofenda! - berra - Você não tem moral nenhuma pra falar de mim!

-Ah eu tenho sim, sabe por que? Sou eu quem paga seus luxos, eu que sou obrigado a aturá-la e é na minha casa que você está morando!

-Eu te amo, Michael... Se eu fiz isso foi porque estava carente... Sabe como é difícil pra mim ver nos seus olhos o quanto ama aquela vagabunda?

-Não fuja do assunto! Você não ama ninguém além de você, nem mesmo sua filha! E não queira colocar Mercedes no meio do nosso problema!

-Como não? Você sempre foi obcecado por essa mulher e continua mesmo depois de tudo que ela aprontou na sua vida! Seu maior erro foi ter permitido se envolver com ela!

-Meu maior erro foi tê-la deixado para ser comprado por você. Esse foi meu erro. Só que agora eu acordei. Eu posso ter sido humilhado na frente de todos, mas você não vai escapar ilesa. - termino de dizer e caminho até seu closet

Abro uma mala qualquer e começo a despejar suas roupas, pego tudo que vejo pela frente e jogo na mala.

-Michael, o que pensa que está fazendo?

-Expulsando você da minha casa e da minha vida. Eu deveria ter feito isso há muito tempo, mas graças à essa maldita humilhação eu finalmente acordei!

-Eu sou sua esposa, mãe da sua filha! Não tem o direito de me enxotar como se eu fosse um lixo!

-Mas é isso que você é. Um verdadeiro lixo! Uma cobra da pior espécie.

-Cobra é a maldita da sua amante! Foi coisa dela, eu tenho certeza! Foi ela que armou isso tudo para nos separar, será que não vê que esse é o plano dela?

-Não tente justificar seu erro em cima dos outros. Pouco me importa quem filmou aquela nojeira, o que eu quero é que saia da minha casa agora!

-Eu posso até ir, mas a minha filha vai comigo! - termino de fechar a mala e a empurro ao chão

-Nem ouse! Agnes fica comigo e nem pense em tentar tirá-la de mim. Agora suma daqui! - Dominique se agacha, pega a mala e enxuga as lágrimas

-Eu vou, Michael. Mas escute o que eu digo, você não se ver livre de mim tão facilmente! - ela termina a ameaça e deixa o quarto, levando a pequena mala consigo

  Assim que ela deixa o quarto, coloco pra fora toda a mágoa, raiva e revolta que sinto. Sei que não tenho moral para criticá-la, mas dói saber que abandonei a mulher que amava pra me casar com Dominique. Sinto raiva por ser tão idiota a ponto de não ter percebido que minha própria mulher me enganava, e pior é ter descoberto isso na frente de todos os convidados. 
Só de imaginar que estou sendo a piada da festa neste momento me dá vontade de sumir, desaparecer e não voltar nunca mais. Estou cansado da minha vida, cansado de ser sempre um fantoche nas mãos das pessoas, de me acovardar em qualquer dificuldade. Eu perdi minha identidade no dia que abri mão de Mercedes e agora eu arco com as consequências das minhas escolhas.

(...)

   Já se passaram cinco horas desde o momento em que me tranquei neste quarto e durante esse tempo, ouvi insistentes batidas na porta que foram prontamente ignoradas. Provavelmente a festa já acabou e tenho a certeza absoluta que meu nome não saiu da boca desses vermes.
Me levanto do chão e procuro por uma garrafa de Whisky. Como não a encontro, decido ir até a cozinha buscá-la e assim que abro a porta do quarto dou de cara com Mercedes. Ótimo, não escaparei das suas piadas...

-Se quer rir de mim ande logo, quero voltar para o meu quarto.

-Não, Michael! - responde prontamente e eu não enxergo vestígios de sarcasmo - Eu vim ver como está... Fiquei preocupada.

-Ah ficou? Achou que eu fosse me matar? Foi só mais uma humilhação nessa porcaria de vida, não precisa sentir remorso.

-Me desculpe, Michael. - me surpreendo ao vê-la resignada. Parece estar arrependida, culpada

-Não tem que se desculpar, afinal como uma boa mulher vingativa, você me castigou por ontem. Bateu levou, não é mesmo?

-Não vou mentir. Minha ideia inicial era de dar o troco e além do mais eu queria me vingar da Dominique. Mas quando eu caí em si já era tarde demais... Você tem todo direito de não acreditar em mim e...

-Eu acredito. - lhe corto - Diferente de você eu consigo decifrar um olhar sincero. Além disso eu sei qual foi a sua verdadeira intenção.

-Como assim? - ela cruza os braços e recosta na soleira da porta

-Você fez o que queria ter feito há exatos doze anos, necessariamente naquela igreja. Destruir meu casamento, quis tirar Dominique do meu caminho. Você uniu o útil ao agradável. Acabou com a pouca reputação que eu ainda tinha.

-Não pense que eu fiquei feliz quando soube da traição dela. Se quer saber essas filmagens são de um mês atrás. Pelo meu orgulho idiota eu não queria entregar essas filmagens à você para que não pensasse que eu quis te ajudar. Por isso fiz o que fiz. Só que... - ela pausa para enxugar uma lágrima - Não foi nada como imaginei. Não pensei que doeria tanto em mim vê-lo sofrer.

  Mercedes termina a confissão e corre de volta para o seu quarto, me deixando surpreso e confuso. Eu definitivamente não consigo entendê-la. Em um momento ela mostra ser outra pessoa e de repente eu vejo minha doce Mercedes ali na minha frente.
   Mas uma coisa é certa. Mercedes conseguiu acabar com o meu casamento, me fazendo agora um homem livre. Não devo nada a ninguém, diferente dela que está comprometida com o meu irmão, coisa que também não durará muito tempo.

(...)

   Depois da conversa com Mercedes, perdi totalmente a vontade de beber. Tentei dormir, rolei na cama, fumei um cigarro e nada resolveu minha inquietude. Olho pro relógio e marcam 3:00 da manhã. Desço até a cozinha, abro uma garrafa de vinho e me sento na cadeira, entornando a garrafa goela a baixo. 
   Apesar de me sentir zonzo, não estou bêbado a ponto de perder a consciência. Então descido abrir outra garrafa. Cambaleio até a prateleira e antes que eu derrubasse a garrafa no chão, sinto duas mãos pequenas me segurarem.

-Michael, o que pensa que está fazendo? - Merche me ajuda a sentar na cadeira novamente. Ela afasta meu cabelo do rosto e me olha com seus profundos olhos azuis

-Vem... Toma uma tacinha de vinho comigo... Vamos comemorar!!!

-Céus... Você está bêbado! Michael larga essa garrafa e me ajude! - ela me apoia em seus ombros e me arrasta até chegarmos na escada - Vamos lá, me ajude! Você é pesado, Mike.

-E você é gostosa! E linda e má... Isso me excita tanto, amor... - ela ri

-Não vou levar em conta porque está bêbado.

-Eu não estou bêbado! - rebato - Posso estar zonzo, mas estou totalmente sóbrio, quer ver? - tento me soltar de Merche, mas ela me impede

-Michael, estamos no meio da escada, se fizer isso de novo você vai cair. E pare de fazer escândalo, vai acordar todos dessa casa!

Obrigatoriamente me dou por vencido e obedeço as ordens de Mercedes. Em silêncio ela me leva até meu quarto, seguindo diretamente para o banheiro. Ela me encosta na parede e começa a me despir.

-Hey, o que está fazendo? - ela continua desabotoando minha camisa e me responde sem olhar nos meus olhos

-Você precisa de um banho gelado pra ver se acorda! Vai, me ajuda a tirar a calça.

-Vai me dar banho é? - sorrio maliciosamente e Mercedes cora

-Você não tem condições de entrar sozinho. É capaz de escorregar e se machucar. Anda, Michael. Tire a calça! - pede, deixando claro o quanto está nervosa

-Tudo bem, você quem manda... - retiro a calça juntamente com a cueca. Me divirto com as reações de Mercedes ao me ver nu tão próximo dela

-Não precisava tirar a cueca. - murmura, puxando-me para debaixo do chuveiro já ligado

-Eu costumo tomar banho pelado, Senhorita Navarro... - foco meu olhar no generoso decote da sua camisola. Ela percebe e demonstra estar gostando dos meus olhares

-Coloque a cabeça aí... - ela me empurra debaixo da água gelada e eu resmungo, tentando fugir da água - Michael, para! Você está me molhando!

Abro meus olhos e então vejo o estado que estou a deixando. Sua camisola está molhada, transparente e é só o que basta para me excitar. Ela me come com os olhos e isso contribui para a minha notória ereção.

-Transou com o Edgar? - não sei nem porque fui falar disso logo agora, mas ao vê-la tão perto de mim eu tive que tirar essa dúvida

Ela me lança um olhar terno, sincero e divertido.

-Nem morta eu me entregaria à ele. - foi o que bastou para o meu coração explodir dentro do peito

E foi o que bastou também para puxá-la para mim e pressioná-la contra o meu corpo. Ela dá um gritinho assustado, mas não protesta, pelo contrário. Mercedes toma a iniciativa e invade minha boca com seus lábios macios e quentes. 
Me lembrei perfeitamente do nosso primeiro beijo, que por incrível que pareça aconteceu exatamente assim. Mercedes me beija de um jeito tão urgente, tão apaixonado e desesperado que me deixa até mesmo sem reação. 
Ela me ama. Por mais que não admita, eu sei que ela me ama, até mesmo mais do que antes. Eu continuo sendo o dono do seu coração e Merche continua sendo minha. Minha mulher. E dessa vez eu não vou perdê-la.



Capítulo 38

Mercedes


   Não dá pra acreditar que estou novamente atracada com Michael. Mas quer saber? Que se dane. Eu sou a maior otária do universo, mas eu o amo e isso é irremediável. Michael Jackson sempre foi como uma droga para mim e depois de uma recaída é impossível me desintoxicar novamente.
   Ele desliga o chuveiro e me pressiona contra o azulejo. Estamos ensopados e pra piorar minha camisola transparente parece ter lhe excitado com mais força. Me livro da mesma e Michael me ajuda a ficar nua por completo.

-Vem aqui. - ele me encaixa em seu colo e volta pro banheiro, me sentando agora em cima da pia. Ele percebe que estou trêmula de frio e me abraça - Já vou te esquentar...

Michael volta a me beijar enquanto suas mãos percorrem meu corpo. Logo seus dedos estão passeando pela minha virilha e eu me contorço quando lhes penetra na minha intimidade.

-Prontinha pra mim, amor. - imaginei que ele fosse me penetrar, mas ao invés disso, Michael me deita na bancada e abre minhas pernas

-Não vai fazer isso... - digo, sem acreditar na sua ousadia. Ele ri, lambe os lábios e inclina a cabeça

-Quer pagar pra ver? São os velhos tempos, baby.

Sinto um forte arrepio quando sua língua quente pincela meu clítoris. As lambidas passam a ser mais intensas e profundas. Ele suga, mordisca e me chupa com vontade, com desejo. Meus lábios chegam a doer pela força com que os mordo, tentando aplacar meus gritos. Sinto meu baixo ventre se contrair a cada espasmo que meu corpo emana.

-Puta merda, Mike... Sua língua é tão gostosa... - ela pára para me encarar

-Sua boceta que é gostosa. E deliciosa também... - ele continua a tortura até que eu me desmancho em sua boca

Mesmo ainda não estando recuperada, Michael me senta novamente e volta a me beijar carinhosamente. Com a minha mão livre, levo-a até seu membro ereto. Ele geme no meu ouvido quando começo a masturbá-lo. Seu membro cresce na minha mão e se eu continuar tenho certeza que ele vai acabar gozando.

-Isso, amorzinho... Não para...

-Vou parar porque é sua vez de me dar prazer novamente. - abro minhas pernas e encaixo seu membro na minha entrada

Michael entende o que eu quero, morde o lábio e assume o controle novamente. Ele empurra seu sexo para mais fundo e começa a estocar lentamente, se movimentando com delicadeza. Suas mãos agora estão na minha cintura, me apertando e me colando nele.

-Michael... - sussurro quase inaudível. Minha voz simplesmente não sai e isso parece música para os seus ouvidos

-O que você quer, princesa? Diz pra mim.

-Quero que meta com mais força, do jeito que você gosta.

-Tem certeza? - provoca

-Vá se foder, Michael! Anda logo! - ele ri do meu desespero, mas atende o meu pedido

-Ok. Depois não vá reclamar, hein? - avisa e então começa a meter com mais força e rapidez

O banheiro abafado é povoado com o som dos nossos gemidos, lamúrios e o choque dos nossos corpos batendo. Estou totalmente trêmula e Michael ao perceber isso, me segura com firmeza. Minhas unhas fincam suas costas tão forte quanto suas investidas.

-Porra... Eu vou gozar, Merche! - avisa, rangendo os dentes. Sorrio, pois sei que meu orgasmo está próximo e gozar com Michael é simplesmente maravilhoso

-Então goze comigo... Você é perfeito, Michael. Me come tão gostoso... - ele ri da obcenidade

-Você me inspira, baby. Oh Merche, estou quase lá... - Michael rebola com maestria, estocando e me tocando fundo

E então atingimos nosso clímax. Enquanto gozamos intensamente, Michael procura meus lábios e me beija carinhosamente. Continuamos naquela posição por mais algum tempo, nos beijando e trocando carícias.

-Dorme comigo hoje? - arregalo meus olhos ao ouvir sua pergunta

-Você enlouqueceu, né? - Michael faz uma cara de desapontado, mas eu continuo prosseguindo - Não vou me deitar na cama que era da sua esposa.

-Bom... - ele sorri - Tenho uma ideia. Eu posso ir para o seu quarto. Creio que se não transou com Edgar, tampouco ele dormiu lá.

-Michael, isso é loucura! Já pensou se alguém te vê por lá?

-E daí? Graças a você eu não tenho mais esposa. - me enrolo na toalha e lanço uma careta

-E por causa disso você quer me ferrar?

-Ah, qual é Merche? - Michael enlaça minha cintura e me abraça - Eu sei que você quer...

-Vista sua roupa. Estou te esperando. - Michael sorri como uma criança que acaba de conseguir o que quer. Droga, como ele consegue ser tão irresistível?

(...)

Termino de passar o creme hidratante, borrifo um pouco de perfume e escolho minha melhor camisola. Quando me viro, o flagro olhando para mim, encostado na porta. O ar sempre me falta quando o vejo sem camisa, exibindo seu corpo tão definido.

-Está frio para ficar só de calça. - ele sorri e vem até mim

-Não costumo sentir frio, ainda mais sentindo meu corpo tão quente.

-Eu te convidei apenas para dormir comigo, nem pense em algo a mais.

-Acredito... Principalmente vestindo essa lingerie minúscula. - Michael aperta minha cintura e me encaixa em seu colo

Ele fixa seus olhos nos meus de um jeito tão profundo que me vejo desnorteada. É incrível como consigo esquecer até mesmo quem sou quando estou perto dele.

Já estamos na cama, nus e unidos como um só. Dessa vez estamos fazendo amor com mais calma, devagar e absorvendo o prazer um do outro. Michael deita de lado e me puxa para mais perto. Ele me penetra novamente e eu enlaço minhas pernas em torno do seu quadril. Ele conduz meus movimentos, apertando meu bumbum e ao mesmo tempo, me beija os lábios, pescoço e ombro.

-Você me aperta tão gostoso, engole todo o meu pau. Já estou viciado em você, sempre fui. - sussurra com a voz rouca e sexy no meu ouvido

  Estou em um êxtase tão intenso que minha voz não consegue sair. Só consigo gemer e grunhir seu nome, esfregando meu corpo contra o seu. Agora ele deita por cima de mim e volta a estocar com mais força e velocidade, anunciando que também está prestes a gozar. Quando sinto meu orgasmo explodir, solto um grito escandaloso e Michael põe a mão na minha boca para abafar o barulho.

-Faça menos escândalo, maluquinha. - ele ri - Ninguém precisa saber que está tendo o melhor orgasmo de sua vida.

-Convencido! Oh...porra, Michael! Não para, não para...

- Não vou parar tão cedo, minha linda! - continuamos montados um no outro até cairmos exaustos na cama

Fecho meus olhos e respiro fundo. Ainda estou zonza, bamba e chocada com a energia que Michael tem na cama. É tão bom fazer amor com ele que me faz querer mais a todo momento.

-Você está bem? - ele se apoia no cotovelo e me encara. Michael está suado, descabelado e com as bochechas rosadas. Lindo.

-Uhum... Havia me esquecido da sua insaciedade.

-Olha quem fala... Quando você era mais nova, não me dava um minuto de sossego.

-Obrigada por me chamar de velha!

-Não, não... Eu não disse isso... Se quer saber, você está ainda mais gostosa que antes. Continua me enlouquecendo na mesma proporção.

Eu já estava prestes a respondê-lo quando um barulho na porta nos faz sobressaltar. Já me apavoro, imaginando ser Edgar que está batendo na minha porta.

-Droga, só pode ser ele! - me sento na cama e procuro pela minha camisola

-Mas que merda ele faz aqui à essa hora?

-Se esconde, Michael! Vai para o banheiro e não faça barulho. - ele resmunga alguma coisa e se esconde - Michael, sua calça! - ele demora de propósito e finalmente vai para o banheiro

Visto o hobby, ajeito meu cabelo e crio coragem para abrir a porta. Será que ele desconfiou de alguma coisa?

-Edgar? - finjo um bocejo - O que você quer? São quatro da manhã...

-Me desculpe, é que escutei um movimento no corredor. Imaginei que fosse você. Está tudo bem?

-Sim, está tudo ótimo. Mas eu não escutei nada... Deve ter sido a Maysa ou... o Michael.

-Ah, depois da vergonha de hoje é capaz dele nunca mais sair daquele quarto! - abro um sorriso amarelo, estou desconfortável e não consigo disfarçar

-É pode ser...

-O que foi, Merche? Parece que não ficou feliz... Não era essa a sua ideia?

-Sim, sim... Sabe, Edgar eu estou com sono. Podemos nos falar amanhã?

-Claro, amor. Descanse. Amanhã tenho um surpresa pra você... - ele se aproxima e tenta me beijar, mas eu desvio e ele acaba me beijando na bochecha

-Boa noite... - tento ser o mais delicada possível para que ele não desconfiasse. Fecho a porta e finalmente consigo respirar aliviada

E então Michael sai do banheiro, já vestido e com a cara amarrada.

-Já dispensou seu namoradinho?

-Michael, quer parar? O que queria que eu fizesse? Expulsar ele daqui?

-Não vou aguentar isso por muito tempo! - ele passa por mim e põe a mão na maçaneta da porta

-Onde você vai?

-Pro meu quarto. Acho que não tem mais clima pra nada aqui! Boa noite. - ele abre a porta e sai todo esquentado

-Ah que droga! - me jogo na cama, sorrio e suspiro desanimada - O que eu vou fazer agora, meu Deus?



Capítulo 39

Michael



   Estou uma pilha. Tantas coisas para resolver, pessoas para encarar, divórcio para pedir e o mais doloroso, conversar com Agnes. Apesar do que aconteceu, me sinto mais leve. Foi necessário uma humilhação como essa para que eu desse um sacode na minha vida. Se esta já se encontra conturbada, quero nem imaginar como anda minha vida amorosa. Se eu ficar pensando nisso é provável que eu enlouqueça. 
    Passaram-se três dias desde então e felizmente hoje tirei uma folga para poder ficar um tempo com Agnes. Foi inevitável esconder dela o que aconteceu. Bem, ela não sabe exatamente o motivo da separação. Menos mal, pois, com toda certeza ela ficaria perturbada.

Encontro minha pequena garotinha sentada no jardim. Está de cabeça baixa, acariciando de leve os pêlos do seu cachorrinho.

-Bom dia, princesa! Posso saber por que não está correndo por aí com o Fred?

-Bom dia, papai. A gente não está muito animado hoje...

-Você quer falar sobre isso? - me sento ao seu lado e a puxo para o meu colo

-A mamãe não vai mais voltar pra casa? - respiro fundo e procuro a melhor maneira de falar a verdade

-Não, meu amor. Sua mãe e eu vamos nos separar, mas isso não quer dizer que ela se afastará de você.

-Eu sei como é. Tenho um amigo lá da escola que não mora com o pai dele. Papai, eu não vou mais morar com você? - dói ver minha menina tão assustada. Lhe abraço forte, tentando tranquilizá-la

-É claro que vai, princesa! Ao menos que queira ir com a sua mãe, não vou te pressionar a nada, ouviu bem?

-Mas eu quero ficar com você! - ela retribui o abraço, grudando as mãozinhas no meu pescoço

-Eu te amo tanto, Agnes... Nunca vamos nos separar.

-Você não ama mais a mamãe, não é?

-Você já é bem grandinha pra saber algumas coisas... Eu e sua mãe nunca nos amamos da forma merecida e chega uma hora que não dá mais para insistir. Eu sei como deve ser difícil pra você, querida e...

-Tudo bem, pai. Eu entendo. Pelo menos agora vocês vão parar de brigar. O que você vai fazer agora?

-Hm... eu vou dar muito amor pra minha princesinha, a dona do meu coração! - salpico beijos em seu rosto e ela sorri

-E você vai ser feliz?

-É claro que vou. Nós vamos ser felizes juntos... Eu vou me trocar pra gente brincar, ok?

-Tá bem! - me levanto do chão e me afasto. Agnes agora precisa de mim mais do que nunca

Visto uma roupa despojada e volto para o jardim, mas ao me aproximar vejo Mercedes e Agnes caindo na risada. Me escondo atrás da árvore e fico quieto, ouvindo a conversa das duas.

-É assim que eu quero te ver, alegre! E não se preocupe com o seu pai. Ele é um homem maravilhoso e tenho certeza que vai ser muito feliz. - não sei se Mercedes disse isso apenas para agradar a minha filha, mas mesmo assim fico feliz em ouvir isso dela

-Vai sim. Acho que ele já está sendo. Quando a gente morava em Madri, ele estava sempre triste. Agora ele está bem diferente.

-É mesmo? - ela ri - Bom, ele está perto da família, por isso está feliz. Hm eu tive uma ideia!

-Qual?

-Que tal se fôssemos ao Shopping? A gente pode passar o dia todo por lá e depois vamos no parque de diversão. O que acha?

-Uau!! Adorei, Tia Merche!

-Mas eu preciso perguntar o seu pai se ele deixa, ok?


-É claro que eu deixo. - as duas se viram ao ouvir minha voz - Mas com uma condição. Eu vou junto.

-Obaa!! - Agnes comemora, correndo para me abraçar - Ele pode ir com a gente né tia Merche?

-Claro! - ela sorri - Mas seu pai vai precisar de paciência pra aguentar nosso dia de princesa... - reviro os olhos e elas riem

-Ok, eu aguento...

(...)

   Não tenho palavras para descrever o quão maravilhoso é passar o dia com Merche e Agnes. É impressionante como as duas se dão bem! Elas têm uma ligação que nunca vi entre mãe e filha. 
Depois de comprarem algumas coisas de meninas, Merche a levou para comprar discos. E nesse momento ela compartilhou com Agnes a época que tinha uma loja. Explicou seu gosto musical e por incrível que pareça, Agnes gostou e até levou um CD do Bon Jovi para escutar em casa. Realmente parece um sonho.
   E então eu passo por uma vitrine de instrumentos musicais. Agora a criança sou eu, pois estou babando pelas guitarras e violões. Estava tão concentrado que não notei a presença de Merche ao meu lado.

-Está namorando qual delas? - desvio meu olhar para Mercedes e sorrio, sem graça

-Ah, imagina. Estava só dando uma olhada. Faz tempo que não venho aqui.

-Sei... Nunca mais tocou, Michael?

-Não. - murmuro - Como eu poderia tocar ou cantar sendo que minha fã número um não estava por perto? Mas eu nunca deixei de cuidar do "Elvis". Apesar do tempo, ele continua intacto. - Merche sorri e timidamente seca uma lágrima. Agnes se aproxima e acaba quebrando o clima

-O que estão fazendo?

-Seu pai está escolhendo uma guitarra pra ele e sabe do que mais? Ele vai te dar um violão.

-Sério, pai? - estou tão surpreso quanto Agnes

-É...

-Sim. Você me disse que tem vontade de aprender e nada melhor que o seu pai para te ensinar.

-Meu pai?

-Aham. Seu pai é um excelente músico, você vai ver!

-Mas, Mercedes tem doze anos que eu não ponho a mão no violão. - tento explicar, mas ela me corta

-Michael, isso é como andar de bicicleta. Você nasceu com esse dom e ele não se perde nem passando vinte anos! Agora vamos escolher os instrumentos e quando chegarmos em casa você vai afinar o Elvis, ok?

-Ok... Mas vamos deixar a Agnes escolher o violão dela. Enquanto isso você vem comigo.

-Onde vocês vão?

-Comprar milk shake. Você quer?

-Quero sim! - ela sorri - De chocolate que é o meu preferido!

-Sim senhora! - Merche responde, divertida - Não saia da loja, ok? Já voltamos...

Enquanto seguimos para a lanchonete, noto Mercedes quieta. Ela parece estar envergonhada, mas vejo também em seus olhos que ela está feliz. 
Decidimos nos sentar para esperar nossos pedidos. Estamos sozinhos e eu não me aguento de ansiedade.

-Hey, me desculpe por aquele dia. Desde quarta-feira nós nem nos falamos direito...

-Tudo bem, eu te dou razão. Vamos esquecer isso...

-Ok, mas posso te fazer mais uma pergunta?

-Manda...

-Qual era a surpresa que Edgar disse? Eu escutei muito bem o que ele falou. - Merche coça o couro cabeludo e abaixa a cabeça

-A gente fala disso em casa.

-Está me assustando. O que foi que ele filho da puta disse?

-Michael, não começa! Poxa, estávamos tão bem. Pense na Agnes, estamos aqui por ela.

-Você tem razão, me desculpe. Falando nisso, obrigado. Foi muito nobre da sua parte trazer minha filha para se divertir. Ela precisava disso.

-Não precisa me agradecer. Eu gosto muito da Agnes, mais do que imagina. Não quero que nada de ruim aconteça com ela.

-Eu sei. E é por isso que me surpreendo tanto com você. - o garçom se aproxima e serve nossos pedidos

-O seu é de que? - ela pega meu copo de Milk shake e sem a minha permissão, toma um gole

-Hey, quem te deu o direito?





-Deixa de ser mesquinho é só um gole! - ela ri - Hm... frutas vermelhas. É uma delícia!



-É? Deixa eu experimentar então. - envolvo minha mão na sua nuca e a puxo para perto de mim

Encosto meus lábios na sua boca gelada e carinhosamente penetro minha língua, sugando e me deliciando com o gosto do seu beijo. Merche chega mais perto e me abraça, sem desgrudar seus lábios dos meus. Sorrimos um para o outro, recuperamos o fôlego e continuamos de onde paramos, como um perfeito casal de namorado, como o Michael e a Mercedes de doze anos atrás.



Capítulo 40

Mercedes


   Voltei pra casa me sentindo um tanto quanto estranha. Não era para isso ter acontecido, essa aproximação entre Michael e eu. Por mais que eu tenha dito que só dei uma trégua pela Agnes, no fundo foi muito mais que isso. Tenho que forçar minha mente a se lembrar de todo o mal que Michael me casou, desde me abandonar até ser cúmplice do plano de Leon. 
     E é justamente por isso que decidi aceitar o pedido de Edgar. Bom, há exatos três dias, ele me fez a tal surpresa, que nada mais é que um pedido de casamento. Eu fiquei pasma, então pedi um tempo para pensar. Não posso tomar nenhuma decisão arriscada, porém se eu aceitar, estarei mais próxima de colocar a mão na empresa.

-Está tão calada. - a voz de Michael me tira dos pensamentos. Então percebo que já estamos na garagem - O que aconteceu?

-Nada. Só quero ir pro meu quarto, estou cansada.

-Tudo bem. Vou acordar a Agnes para entrarmos.

-Não precisa, eu levo ela. Agnes se cansou muito, é melhor deixá-la dormindo.

-Bom, obrigado. Levarei as sacolas que são muitas! - ele ri timidamente

(...)

Enquanto Michael descarrega as compras do carro, sigo para a casa com Agnes no meu colo. Tomo o maior cuidado para não acordá-la, então subo a escada devagar, mas ao chegar no corredor acabo trombando com Edgar. Ele está com o semblante furioso e com toda certeza se ele souber que eu passei o dia com Michael, sua ira vai triplicar.

-Onde você estava? - pergunta com o tom de voz autoritário

-Fale baixo, vai acordar a menina. Depois conversamos. - ele respira fundo e me deixa passar

Assim que deixo o quarto de Agnes, sou surpreendida com a atitude de Edgar. Ele me puxa pelo braço e me arrasta até o seu quarto. Fecha a porta com força e tranca a porta.

-O que pensa que está fazendo, Edgar? Enlouqueceu?

-Eu? Quem enlouqueceu foi você! Sei muito bem que estava com Michael!

-De onde tirou isso?

-Eu vi vocês chegando, vi você saindo do carro dele! Me diga agora o que estava fazendo com ele! - Edgar sacode meus braços, os apertando de forma agressiva


-Me solta, você está me machucando! - gemo pela dor, mas isso não é capaz de pará-lo

-Você não vai me fazer de bobo, Mercedes, porque isso eu não sou!

-Eu não te devo nenhuma explicação, agora me solta! - grito com ímpeto e ele finalmente me solta

-Me desculpe... - ele ainda está trêmulo, vermelho e pela primeira vez sinto-me intimidada - Mas foi você que provocou isso. Porra, Mercedes! Esqueceu tudo que ele te fez? Esqueceu que foi ele que contratou meia dúzia de marginais pra incendiar aquele maldito galpão?

-Como sabe disso? - ele engole o seco e é nítido como tenta se retratar

-Porque.. Porque é óbvio que isso viria dele, não vê como ele é um capacho do Leon?

Por essa eu realmente não esperava. Nunca comentei isso com Edgar e duvido muito que Michael também tenha dito. Agora fiquei com uma terrível pulga atrás da orelha e se eu quero esclarecer essa história, tenho que ir até o fim.

-Você tem razão... Me desculpe, meu amor. É que deixei me levar pela Agnes. Coitadinha, imagina como está a cabeça dela...

-Eu sei. - suspira - Mas não quero você perto dele! Não sabe como o odeio, como tenho que me controlar para não...

-Hey, calma! Por favor, não se descontrole assim... - o abraço na tentativa de acalmá-lo - Eu prometo que não darei motivos para enfurecê-lo. Mas você tem que entender que se eu quero acertar as contas com o Michael eu preciso ficar perto dele, você entende não é?

-Até quando? Até quando, Merche?

-Por pouco tempo, eu prometo! Quer vingança maior do que... o nosso casamento? - ele abre um enorme sorriso, os olhos brilham de luxúria

-Amor, isso quer dizer que...

-Sim. Eu aceito me casar com você. Quero ser sua esposa, Edgar. Só sua. - realizo sua "fantasia", finalizando com um beijo demorado, ardente. Tento ao máximo demonstrar que estou feliz, que o amo, por mais nojento e torturante que seja

(...)

Passei a noite toda com as palavras de Edgar na minha cabeça. Pode ser cisma minha, mas não sei... Ele deu detalhes que nem mesmo eu sabia. Será que Edgar também tem envolvimento com o incêndio?

-Senhora Mercedes, está tudo bem?

-Ah, me desculpe, Judith. Eu estava perdida nos meus pensamentos.

-Imagina, senhora. Trouxe o café que me pediu. Chegou cedo demais hoje...

-Pois é, não quis tomar café em casa. Bom, já que estou aqui vamos trabalhar!

-Dona Mercedes, é até bom a senhora ter vindo cedo. Desde ontem queria falar contigo, mas como não veio...

-Que cara é essa, Judith? Aconteceu alguma coisa? Senta aí, mulher! - ela sorri timidamente e se senta perto de mim

-Sim. - sussurra como se não quisesse que mais alguém ouça nossa conversa - Aconteceu. Bem, desde que o Harry informou sobre o rombo que a empreiteira nos causou, eu... Eu tive a audácia de pesquisar a fundo.

-E...

-E eu descobri que a Parker's não nos causou prejuízo nenhum.

-Como assim, Judith?

-Veja essas planilhas. - ela me estende as folhas recheadas com números e tabelas - Bom, eu aproveitei que o Dr. Jackson estava afastado e... entrei no sistema financeiro da empresa.

-E como conseguiu isso?

-Eu usei a senha pessoal... - murmura, sentindo medo por me confessar - Me desculpe, Dona Mercedes. É que eu trabalho aqui há tantos anos que acabo tendo acesso à essas informações e também eu amo tanto essa empresa que...

-Judith, vá direto ao ponto. Está me deixando ansiosa! O que foi que descobriu?

-Bom. - ela raspa a garganta e prossegue - Essa planilha que está na sua mão é referente ao capital que a Construtora disponibiliza para as empreiteiras, no caso a Parker's. 

-Então essa é a quantia destinada para a empreiteira? - ela confirma com a cabeça - Eu não entendo... Não é tanto dinheiro assim, pelo menos não o suficiente para nos causar tanto prejuízo...

-Aí é que está. Agora veja essa segunda planilha. Ela contém um extrato da movimentação bancária do último mês. Olhe o valor das retiradas e faça a conta. Somei tudo isso e deu praticamente o valor exato do "rombo" que aparentemente sofremos.

-Agora estou começando a entender... Alguém meteu a mão nos cofres da empresa e usou a empreiteira como laranja.

-Exatamente, Dona Mercedes.

-E isso aqui é o que? Uma conta bancária?

-Sim. Reparou na quantidade de vezes que o dinheiro foi transferido pra essa conta?

-Foram muitas... Não quis tirar tudo de uma vez para não levantar suspeitas... De quem é essa conta?

-A senhora não vai acreditar, na verdade nem eu acredito e não entendo...

-Fala, Judith! Foi o Harry?

-Não, não! Foi o Sr. Jackson. - abro a boca em um O, imaginando ser Michael

-O Presidente?

-O diretor Edgar. Eu digitei essa conta no site da Banco e descobri que é uma conta particular do Edgar que nem mesmo está na lista dos funcionários.

-Mas que filho da mãe esperto! - até que é engraçado, afinal eu não imaginei que ele fosse tão inteligente - Quer dizer então que Edgar passou a perna na empresa e colocou a culpa na empreiteira... Desgraçado! Por culpa dele o Michael brigou comigo!

-O que a senhora vai fazer? Bem, afinal isso aqui é uma prova contundente contra o Edgar.

-E que provas... Deixem elas comigo. No momento certo eu vou usá-las.

-Claro. Eu espero que eu não tenha feito nada de errado. Eu só quis ajudar e...

-Judith, você não imagina como me ajudou! Tem noção do que descobriu? Garota, você é dez! - aperto sua mão, me sentindo tão eufórica que até lhe assusto

-Que isso, Dona Mercedes. Só fiz meu trabalho...

-Excelente trabalho! Mas olha, isso aqui fica entre nós, ouviu?

-Claro, como a senhora quiser! Bom, vou voltar pra minha mesa, o telefone já deve estar tocando.

-Sim, querida vai lá. E continue de olho! Qualquer coisa você me comunica!

-Sim senhora! Com licença.

Espero Judith sair para finalmente expressar minha reação. Estou chocada e cada vez mais surpresa com essa faceta de Edgar. Pra mim ele sempre foi um imaturo idiota, mas ainda assim inofensivo. E agora eu descubro que ele pode ser perigoso, até mais que Leon.



Capítulo 41

Michael


    Finalmente chega o dia da primeira audiência do meu divórcio e também pela primeira vez estarei de frente com Dominique desde aquele fatídico dia. Era para ter acontecido antes, mas ela se mostrou relutante. Até então não entrava na minha cabeça a razão de Dominique se manter presa à mim quando já estava interessada em outro homem. Mas depois do que andei descobrindo, entendi realmente suas intenções.
    Olho para o relógio, impaciente enquanto eu, meu advogado e juiz conciliador aguardamos Dominique chegar. Ela quer fazer questão de me irritar e com isso, que eu desista do divórcio, mas dessa vez não cederei aos seus caprichos.
Meia hora depois a vejo entrar com sua advogada. Ela exibe um falso semblante entristecido, na intenção de me comover. Me mostro firme e nem sequer lhe cumprimento.

-Bom, agora que as partes estão presentes podemos dar andamento à audiência. - o juiz inicia - Está em minhas mãos o pedido de divórcio protelado pelo advogado do Sr. Jackson. Creio que seja a vontade de ambos.

-Não! - Dominique interrompe - Michael, por favor pensa melhor! Nós temos uma filha, por Deus!

-É o cúmulo você apelar pela Agnes! Nunca amou a menina, nem sequer fez seu papel de mãe ou esposa! E me poupe do seu teatro. Sei exatamente o que quer, afinal esse divórcio não será nada rentável pra você, não é mesmo?

-O que quer dizer com isso?

-Eu já sei de tudo, Dominique. Sei que seu pai faliu o Banco e acumulou uma exorbitante dívida. Você se lembra quantas vezes jogou na minha cara que eu me casei por dinheiro, por status? Pois bem, você está fazendo exatamente igual!

-Isso não tem nada a ver! - esbraveja - Não me confunda com a sua amante, afinal ela também se casou por interesse!

-Não ouse falar dela! - altero minha voz, mas o juiz nos interrompe

-Silêncio! Se não promoverem a ordem, serei obrigado a interromper a sessão! - me sento novamente e respiro fundo

-Não quero prolongar isso. A única coisa que desejo é me separar dessa mulher.

-Bem, não pense que será tão fácil assim. - ela sorri, mostrando o quão venenosa é - Já que colocou as cartas na mesa, vamos lá. Eu exijo a guarda da minha filha e uma gorda pensão com tudo que eu tenho direito.

-Você está louca! Jamais deixarei minha filha nas suas mãos!

-Michael, ela é a mãe. - Dr. Philip sussurra em meu ouvido - Mesmo que não entenda, a Justiça está ao lado dela.

-Mas isso eu não vou permitir! - grito e dessa vez o Juiz também se altera

-Pausa de quinze minutos. Sugiro que utilizem esse intervalo para acalmarem os ânimos ou senão encerrarei em definitivo! - o juiz sai da sala e eu mais que depressa disparo contra Dominique

-Você não vai conseguir o que quer! Esqueceu que eu tenho provas da sua traição? Posso apresentar pro Juiz agora mesmo!

-Isso não significa nada! Você pode até se livrar de me pagar uma mesada, mas com a Agnes você não fica!

-Gente, por favor! Se continuarem nessa guerra não vamos ter uma solução!

-Ouça seu advogado, Michael. - ela debocha - Sabe, eu proponho um acordo.

-Acordo? - pergunto desconfiado

-Sim. Eu permito que Agnes fique com você, mas tem um detalhe. Se não andar na linha posso tomá-la de você a qualquer momento!

-O que quer dizer com isso?

-Oh Michael... Por favor, pare de ser cínico! Você sempre me traiu só que teve a sorte de eu nunca poder comprovar. Só que agora que você está de caso com aquela golpista, será muito mais fácil pegar você. Afinal, que juiz permitiria que uma criança fique sob tutela de um pai solteiro, bêbado e pior, envolvido em escândalos sexuais?

-Você é muito doente... Está querendo inverter os lados!

-Não, meu querido. Estou te colocando no seu devido lugar. Você é um péssimo exemplo para Agnes e se eu comprovar isso, nunca mais chegará perto dela! Agora vamos esperar o juiz. Eu assino o divórcio, dou a guarda provisória de Agnes e você se comprometerá a continuar sustentando meus luxos. E então, vai pegar?

Dominique me deixa totalmente desarmado. Eu sabia que seria difícil me livrar dela, mas não imaginei que passaria tanta raiva com essa maldita. Mas para me ver livre dela e ter minha filha comigo, pago o preço que for.

(...)

Depois da péssima manhã que tive, não tinha nem cabeça para ir à empresa, mas a situação por lá não anda nada bem e eu como presidente, não posso me dar ao luxo de faltar ao trabalho.
Assim que chego no meu andar, sou avisado que tenho visita. Não faço ideia de quem pode ser e só espero que não seja mais problemas na minha cabeça.

-Dr. Jackson, o senhor Louis está a sua espera na recepção. Posso deixá-lo subir? - minha secretária informa

-Louis? Nosso antigo acionista?

-Sim. Ele disse que precisa falar com o senhor.

-Tudo bem, mande ele subir. Estou o esperando na minha sala.

Enquanto espero por Louis, tento imaginar qual o motivo da sua volta, afinal ele mesmo se desligou da construtora e vendeu suas ações para Mercedes. Minha curiosidade é sanada assim que o vejo entrar na sala.

-Com licença, Michael. Obrigado por receber. - trocamos um aperto de mão e eu faço menção para ele se sentar


-Estou surpreso pela sua visita, Louis. Já tem meses que você saiu da Construtora. É algum assunto relacionado?

-Não, não é sobre isso. Vim falar da sua sócia, a Elizabeth.

-Elizabeth? Acho que você está confundindo... - ele ri

-Pode até ser, e é por isso que estou aqui. Você melhor do que ninguém pode me tirar essa dúvida.

-Espera, Louis. Agora sou eu que não estou entendendo nada. - ele tira uma fotografia do bolso e me estende

-Reconhece essa mulher? Pode me confirmar que ela e a sua sócia são as mesmas pessoas? - fixo meu olhar na imagem da mulher e me espanto ao reconhecer Mercedes






-Não é possível... É a Mercedes!

-Não. Essa mulher na fotografia se chama Elizabeth, ou melhor, se chamava.

-Como? - pergunto ainda sem tirar meus olhos da fotografia

-Era minha namorada. - meu coração oscila - Fizemos tantos planos para quando eu saísse da Construtora... Estávamos de malas prontas para o Japão, só que de repente ela rompeu comigo e me descartou como se eu fosse uma peça de roupa. Quando voltei, decidi procurá-la, mas ela simplesmente evaporou. Então eu fiquei sabendo que seu pai havia falecido.

-Pera aí. Pai? Como assim o pai dela morreu?

-O Sr. Gregory Navarro. Infelizmente ele sofria de câncer. A pista que tive do paradeiro dela foi a compra das ações. Eu fiquei sabendo que o Sr. Navarro comprou parte da empresa então eu liguei uma coisa à outra. Mas não imaginava que veria uma mulher completamente diferente aqui.

-Não, não pode ser. Tem alguma coisa errada... Ela não pôde ter assumido duas identidades tão facilmente!

-E ela não usou. Você não está entendo. - ele ri - Pela quantidade de coisa que eu descobri, tudo ganha sentido. Até onde eu sei ela sempre se chamou " Mercedes Elizabeth Navarro", mas ela nunca revelou isso.

-Impossível! Eu tenho documentos com o nome dela!

-Ela alterou pouco antes de se tornar oficialmente herdeira. Descobri que ela foi a um cartório em Londres e tirou o Elizabeth do nome. Ela fez tudo premeditado, quis desaparecer com qualquer vestígio de quem era antes. O que eu não entendo é o porquê dela ter feito isso!

Ainda não consigo assimilar tudo que acabei de ouvir. Estou pasmo, não sei nem mesmo o que dizer. Quer dizer então que Mercedes nunca se casou com um velho, ela nunca foi a golpista que eu pintei. Agora o que eu não entendo é, por que ela escondeu isso de mim? Por que me fez acreditar que ela havia se prestado à isso?

-Michael, está tudo bem?

-Cla-claro. Me desculpe, eu... Louis, me diz uma coisa. Por que voltou? O que pretende fazer agora que a reencontrou?

-Michael, eu amo essa mulher. Namoramos por três anos, você tem noção disso? Eu sofri como um condenado por ela e eu mereço uma explicação! Sabe, há pouco tempo eu me noivei com uma mulher incrível que eu conheci no Japão. Mas mesmo assim não consegui esquecer a Eliza, e eu sou capaz até de perdoá-la por tudo que fez comigo e esquecer o passado. Você deve saber o que estou passando. - se ele não estivesse tão aflito, quebraria sua cara em dois tempos

A única coisa que eu sei é que não permitirei que Louis chegue perto da minha mulher. Tenho que fazer alguma coisa para afastá-lo de Mercedes em definitivo.

-E você me procurou pra que?

-Primeiro para me dar essa confirmação. Eliza sempre foi reservada e achei que você como sócio dela poderia me dar informações sobre... Mercedes. Me ajude, Michael! Preciso dar um rumo na minha vida!

-O melhor que você deve fazer é deixá-la em paz.

-O que? - bom, por mais que eu ame Mercedes, serei obrigado a tocar em um ponto que tanto me fere

-Louis, essa mulher não é pra você. Mercedes, ou Eliza, já está em outra. Ela e meu irmão estão juntos. Eles estão apaixonados, pretendem até se casar. Eu imagino como se sente, mas você tem que seguir sua vida. Você tem uma noiva te esperando e eu tenho certeza que ela vai te fazer feliz.

-Mas eu preciso nem que seja entender o porquê dela ter me deixado!

-Chega uma hora que o passado mal resolvido volta para cobrar. Tenho certeza que não tinha nada a ver com você, e sim com algo particular dela.

-Como sabe dessas coisas?

-Porque eu também vivi isso. Estou divorciado pelo mesmo motivo, um passado mal resolvido.

-Você está certo. - ele abaixa a cabeça e suspira - Acho que me tornei um homem obcecado e isso só tem me feito mal. Ficar de frente com Eliza só vai bagunçar minha cabeça. E se eu soubesse que ela já tinha reconstruído sua vida, provavelmente eu teria lhe arrancado do meu coração.

-Então faça isso, Louis. As vezes isso nem é amor, e sim uma obsessão. Agora que você a reencontrou, não vai mais se torturar com isso.

-Você tem razão. Eu me sinto um otário. Me desculpe tomar seu tempo, desabafando sobre a minha vida e...

-Imagina, cara! - devolvo um sorriso falso. Estou surpreso com a calma que consegui reunir - Nenhuma mulher pode ter o poder de virar nossa vida do avesso. Não podemos permitir!

-Isso é mais difícil que imagina... Bom, acho que também te ajudei a saber mais sobre a Eliza. Você me pareceu muito surpreso.

-Oh, sim... Não faz ideia de como me ajudou... - tento esconder meu sorriso vitorioso

-Bom, acho melhor eu ir. Estou apenas de passagem por Nova York e também não quero tomar mais seu tempo. Obrigado, Michael.

-Imagina. Se cuida, Louis. - ele apenas acena e deixa a sala cabisbaixo

-Caramba... - me jogo na poltrona e fecho meus olhos

Ainda estou chocado e de certo modo aliviado com o que descobri. Tudo bem que não gostei nada de saber do envolvimento entre os dois, mas só de pensar que Mercedes não teve coragem de se vender para um milionário, eu sinto meu coração em paz.
A foto está nas minhas mãos e eu a observo maravilhado com a sua beleza.

-É... Agora você está nas minhas mãos, Eliza... - sorrio largamente e beijo sua foto - Vamos ver qual será sua reação quando eu disser que já sei de tudo...


Capítulo 42

Mercedes


     Hoje nem a maquiagem conseguiu disfarçar minhas profundas olheiras. Passei toda a noite chorando e me xingando por ter aceitado o pedido de casamento de Edgar. As vezes acho que fui longe demais e não sei como vou sair dessa situação. A única coisa que posso fazer é agilizar a investigação de Edgar. Estou contando até mesmo com a ajuda do meu advogado. 
Depois de passar horas no telefone com meu cabeleireiro, finalizo a ligação para dar seguimento ao meu trabalho, que eu odeio mais a cada dia que passa.

-Por favor, marque o horário às 14:00 horas. Quero retocar a raiz do meu cabelo. Obrigada! - desligo o telefone, mas me assusto ao escutar a voz de Michael

-Pretendendo mudar o visual? - viro a cadeira de frente e enxergo uma certa ironia em seu olhar

-Apenas um retoque. O que, agora se interessa pelos meus cuidados de beleza?

-Não não... É que achei interessante... - ele dá uma tossida e puxa a cadeira para se sentar - Já pensou em ficar loira? - crio um vinco na testa, desconfiada dessas perguntas sem sentido

-Hmm.. Não cai bem em mim.

-Eu não acredito! - rebate de forma escandalosa - Tenho certeza absoluta que você ficaria linda, Eliza. - me engasgo com o café e por pouco não o entorno na mesa - Nossa, você está bem?

-Do... Do que me chamou?

-Oh me desculpe... Você não deve gostar de apelidos. Posso te chamar de Elizabeth? - certo. Ele já sabe de tudo. É inútil eu tentar negar

-Como soube disso? Andou me investigando?- ele sorri vitorioso, recosta na cadeira e leva dois dedos ao queixo

-Se eu tivesse investigado não teria tanto sucesso como hoje. Foi o seu namorado que me passou sua ficha completa.

-Louis esteve aqui?

-Olha como sua memória é boa! Sim, ele esteve aqui. Queria te ver a todo custo e queria também que eu falasse tudo que sei de você.

-Não disse nada, não é mesmo?

-Oh não... Eu não sou X9. Mas se bem que ele me contou tanta coisa... Você é muito mais esperta do que eu pensei...

-Quando eu cheguei aqui, Michael, eu lhe disse isso. "Não sabe com quem está se metendo". Esqueceu?

-Não, eu não esqueci. Só que você não contava que eu saberia de tudo. Você sabe que posso te denunciar a qualquer momento, não sabe?

-Você não teria coragem... - Michael se levanta e inclina o corpo sob a mesa

-E por que eu não teria? Acha que é a única que dita as regras por aqui? Você fez uso de duas documentações, se eu levar isso pra polícia você será acusada de falsidade ideológica. Já pensou no estrago que farei na sua reputação?

-Não admito que se meta na minha vida! - parto para cima de Michael, mas ele me impede; me segura pela cintura e me pressiona contra a parede. Estamos bem próximos um do outro e seus olhos estão fixos nos meus

-Acha mesmo que eu faria isso, Mercedes? Apesar de eu ter motivos de sobra, eu não sou como você. - abaixo minha cabeça, mas ele a ergue delicadamente com os dedos - Só quero entender por que mentiu pra mim. Por que me fez acreditar que havia dado um golpe em Gregory Navarro?

-Porque eu queria dar motivos para você me odiar. Provocar sua ira seria muito mais interessante pra mim. Além do mais isso é íntimo demais e não seria com você que eu ia me abrir.

-Acha mesmo que eu conseguiria te odiar? - Michael desliza os dedos pelo meu rosto, fazendo uma delicada carícia - Apesar de todas as coisas que você tem feito contra mim desde que voltou, eu nunca, nunca consegui lhe odiar um pouco sequer, muito pelo contrário. Você só me faz te amar cada dia mais. - confesso que tremi dos pés à cabeça com sua declaração. Por mais que eu tente acreditar que ele está mentindo, eu continuo tão mexida quanto na época que nos conhecemos

-Para de mentir... Quem ama de verdade não faz nem a metade do que você fez comigo. - Michael enxuga a maldita lágrima que rola pelo meu rosto. Ele beija minha bochecha e me aperta com mais força

-Nada que eu fizer ou disser vai mudar o que aconteceu. Mas se você me desse uma chance, uma única oportunidade...

-Chega desse assunto. Não estou afim de entrar nessa discussão, pois sempre saímos ainda mais machucados do que já estamos.

-Tudo bem, você tem razão. Sempre tive curiosidade de saber qual rumo você seguiu. Como encontrou seu pai?

-Se realmente estivesse interessado no meu destino, não tinha me trocado pela sua esposa. - me desvencilho dos seus braços, pretendendo deixar a sala

-Ex.

-O que?

-Ex-esposa. Assinei o divórcio essa manhã. - volto dois passos para trás, curiosa com a notícia

-Assim tão fácil?

-Não, não foi nada fácil. Mas o que importa é que Agnes vai ficar comigo e que agora eu sou um homem livre. Totalmente livre! - ele dá um tapa em meu bumbum e deixa a sala com um irritante sorriso sarcástico no rosto

(...)
 
  Termino meu banho e sento na cama. Já se passam das duas da manhã e eu ainda não consegui dormir. Edgar está me pressionando de todas as formas para transar e eu já não sei mas o que inventar, mas se eu continuar o enrolando ele vai acabar desconfiando de mim.
    Fecho os olhos e novamente tento pegar no sono, mas então ouço batidas na porta e sinto um calafrio só de pensar que possa ser Edgar. Me levanto e a passos lentos me aproximo da porta. Encosto meu ouvido e ouço uma voz sussurrando.

-Merche, abre aí!

-Michael? O que você quer? - sussurro de volta

-Preciso te ver, destranque a porta por favor!

-Mas eu não tranquei... - forço a maçaneta, mas ela simplesmente não abre - Michael, eu estou trancada!

-Como assim? Não tem chave? - ele aumenta o tom de voz

-Fala baixo! Não, não tem chave nenhuma, estou trancada! - começo a me desesperar e tento a todo custo abrir a porta

-Merche, fica calma, ok? Me espera na varanda.

-O que vai fazer?

-Vá logo! Estou indo lá pra fora. - ouço seus passos se afastarem e mesmo sem entender nada, faço o que ele pediu

Visto meu hobby e fico à sua espera, e então me surpreendo ao vê-lo debaixo da minha varanda. Não, ele não pode estar pensando que eu vou pular, não é mesmo?

-Dá pra explicar qual é o seu plano, gênio?

-Pula. Se você calcular bem vai cair direto nos meus braços. - ele sorri cinicamente, o que me faz crer que isso não é uma brincadeira

-Michael, eu não vou pular! Não vê que é alto?

-Alto? Era você que entrava no meu quarto pela janela. Está lembrada?

-Eu tinha dezoito anos. - reviro os olhos e ele ri

-Você está com tudo em cima e se não notou, eu não sou mais o magricelo de antes. Aguento você, querida.

-E se o Edgar ver?

-A janela do quarto dele é para o outro lado, agora pare de enrolar e desça! - ordena. Respiro fundo e encho o peito de ar

-Que droga... - passo uma perna pela grade, firmo minhas mãos com força e passo a outra perna

-Isso, agora é só pular. - fecho meus olhos e me jogo de uma vez só

Eu tinha certeza que ia me estabanar no chão, mas como Michael garantiu, caí diretamente no seu colo. Gemo pelo aperto que ele me dá, que acaba se transformando em um abraço carinhoso.

-Não disse pra confiar em mim?

-Idiota... Qual a sua ideia agora?

-Vem comigo. - ele pega na minha mão, mas eu travo

-Enlouqueceu, Michael? Aonde pensa que vai me levar?

-Para um lugar mais reservado. Ou vai querer transar aqui no jardim? - sinto minha bochecha queimar pela vergonha que senti. Ele sorri, me cobre com o seu roupão e me abraça - Vem comigo...

Capítulo 43

Mercedes


Já que eu não tenho mais voz ativa, deixo Michael me conduzir pelos jardins da mansão. Já estamos bem afastados da casa principal e antes que eu começasse um novo interrogatório, avisto uma pequena casinha distante.

-Michael...- ele sorri, captando minha dúvida

-É a casa do caseiro.

-Mas não temos caseiro.

-Exatamente! - ele pega na minha mão e me força a andar mais rápido

Michael acende uma luz fraca para poder enxergar a fechadura da porta. Ele finalmente abre e como um perfeito homem gentil, permite que eu entre primeiro. Acendo a luz e até que me surpreendo com a simplicidade e meiguice do lugar. É o tipo de casa que sempre sonhei em morar.

-Algum problema, Mercedes?

-Não, nenhum... Quer dizer, sim! Michael, você perdeu o juízo?

-Olha quem fala... - ele ri - Quem foi que transou comigo no quarto de empregada podendo ser flagrada a qualquer momento?

-Para de me lembrar isso... - murmuro. Michael tranca a porta, chega mais perto de mim e enlaça minha cintura

-E você pare de resistir. Acha que eu não percebo que cada provocação sua é um desejo reprimido? - ele me vira de frente e cola seu corpo no meu

-Você é muito convencido!

-E você é... - Michael morde o lábio inferior e suspira - Bom, é melhor eu tirar a prova antes de falar. - ele envolve uma mão no meu pescoço e a outra na minha cintura

   Iniciamos um beijo urgente e desgovernado. Michael praticamente engole meus lábios. Sua língua quente e inquieta percorre toda a minha boca e eu a chupo, sugando seu beijo. Michael me encaixa em seu colo, e sem parar de me beijar, nos leva ao quarto.
     A luz está apagada e a única iluminação no quarto vem da janela, causada pela enorme Lua no céu. Michael me joga na cama e eu gemo ao bater as costas no colchão. Ele sorri e começa a tirar sua roupa lentamente.

-Strip tease? - me sento na cama e observo a maravilhosa cena bem na minha frente. Ele ignora minha pergunta e apenas sorri, terminando de se despir totalmente

-Respondi sua pergunta? - Michael põe as mãos na cintura e eu não me aguento de tanto rir

-Você perdeu toda a vergonha que tinha, né?

-Cala a boca! - ele se deita sob mim e volta a me beijar carinhosamente enquanto tira minha camisola

    Suas mãos hábeis agora percorrem meu corpo, apertando e  pressionando com força meus seios. Abafo meus gemidos, colando minha boca na sua e me atrevo a também lhe tocar. Levo minha mão até seu membro e inicio uma carícia ousada.

-Oh Merche... - ele geme e aperta os olhos, sentindo prazer

     Seu membro já está ereto, grosso, molhado e com as veias alteradas. Parece estar delicioso. Peço para Michael se deitar e deixar que eu comande daqui pra frente. Ele concorda e eu me sinto pronta para começar. Abaixo minha cabeça e começo a massagear seu sexo com as minhas mãos. Distribuo leves beijinhos no seu membro até deixá-lo todo molhado com a minha saliva.

-Eu não aguento mais. - falo, olhando fixamente para o seu pau

    Coloco meus lábios em volta dele e começo a chupar gostoso com a boca molhada. Seu membro está cada vez mais inchado, principalmente agora com meus lábios grudados nele, lambendo com uma vontade absurda. 
   Mas apesar disso, eu não estou com pressa nenhuma. Dou chupões fortes por alguns segundos e volto a lamber, olhando fixamente suas expressões.

-Porra, Merche! Você quer me matar? - apenas sorrio e prossigo

   Volto a chupar seu membro, enquanto brinco com seus testículos, apertando e massageando. Chupo seu pau, mordisco e sugo, nesta mesma sequência.

-Isso meu amor... Vai me fazer gozar rapidinho.

Quando sinto seu orgasmo vir, me afasto, abro minha boca e coloco a língua toda pra fora, introduzindo seu membro novamente, devagar, centímetro por centímetro. Já com ele todo na minha boca, passo a abocanhar seu pau sem parar.

-Fode minha boca, Michael! -ele geme algum palavrão e morde o lábio com força

   Suas mãos cobrem minha cabeça e ele começa a estocar. Uma, duas, três, quatro vezes. Após isso sucessivas estocadas fodem minha boca. Quando não posso mais segurar o fôlego, Michael urra, se contorce e por fim goza na minha boca. Ele se joga na cama e respira descompassadamente.

-Você foi definitivamente maravilhosa. Que delicia.

-Você que é delicioso. - ele acaricia meu rosto e me puxa para perto. Percebo seus olhar devorador em meus seios.

-Chupe eles. Sei que está louco pra fazer isso.

    Me ajoelho na cama e Michael se senta novamente, inclinando a cabeça e começando a chupar meu seio vagarosamente, um de cada vez. Eles estão ainda mais inchados e Michael gosta do que vê. Ele lambe, chupa, suga e morde. Minha mão continua a brincar com seu pênis, subindo e descendo em toda sua extensão úmida.

   A cada sugada sua, perco mais um pouco da minha sanidade. Arranho suas costas, peitos e braços, além de gemer feito uma louca o seu nome. Dou uma forte mordida em seu pescoço e Michael geme de dor.

-Desgraçada! - ele finge estar bravo

-Bate na minha cara. - ele arregala os olhos, assustado, mas ri

-O que pediu?

-Essa é a sua chance de descontar toda a raiva que eu te fiz passar. Bate, seu gostoso. Isso me excita muito!

-Você é completamente pirada e eu amo isso!

Ele bate de leve, mas eu não me contento e peço novamente, agora querendo mais forte. Ele me obedece e seu tapa me faz virar o rosto. Michael se assusta com minha reação, na verdade ele começa a se desesperar.

-Merche, me desculpe! Eu te machuquei? - começo a rir e ele me olha confuso

-Michael, relaxa! Está tudo bem. Eu adorei e agora estou muito, muito excitada... - beijo todo o seu rosto e ele logo amolece

Ele me empurra na cama, se levanta e puxa minha calcinha. Abre as minhas pernas e o vejo lamber os lábios ao ver minha intimidade encharcada. Michael se ajoelha no chão, apoia os cotovelos na cama e enterra sua cabeça no meio das minhas pernas.

-Agora você vai ver o que é excitante!

Michael começa a pincelar sua língua na minha intimidade e quando encontra meu clítoris, passa a lamber com vontade.

-Mike...

-Calada!

Ele enfia dois dedos na minha entrada, que desliza facilmente para dentro. Ele levanta a cabeça para captar minhas reações e abaixa novamente, voltando a chupar meu clítoris. Minha barriga treme incessantemente, assim como todo meu corpo.

-Quero senti-lo dentro de mim, Michael...

-Vai sentir. Depois que tiver se derramado na minha boca. - Michael separa meus lábios vaginas e me penetra de uma só vez com a sua língua, fazendo um vai e vem enlouquecedor

   Agarro meus dedos no lençol, libero um grito alto e sôfrego e então me desmancho em meu primeiro orgasmo. Michael se levanta, posiciona seu membro na minha entrada, mas não me penetra. Em vez disso, ele volta a me beijar sensualmente e mesmo estando louca para tê-lo dentro de mim, só de sentir sua cabecinha na minha entrada, meu tesão vai as alturas.
    Estou completamente envolvida nesse beijo e aí percebo que Michael quer me surpreender, pois ele usa uma de suas mãos para brincar com o meu seio e a outra para acariciar meu queixo. Ele se afasta, me olha de um jeito sexy e fala.

-Eu te amo tanto, Mercedes... Tanto! - fico sem palavras, pois estou emocionada. Na verdade acho que nunca senti uma emoção tão forte como agora

-Eu... 

-Você...? - fecho meus olhos e então tomo coragem de me assumir

-Eu também te amo. - Michael sorri, deixa algumas lágrimas rolarem e volta a me beijar apaixonadamente

   O fogo reacende e agora estamos ainda mais excitados, loucos para nos amar. Michael puxa meu cabelo, suspira e aproveita minha distração para se enterrar em mim. De uma vez só. Sem pensar. Bem fundo. Nossas pélvis se unem, nossos olhos se encontram, e tudo parece mágica Começamos uma dança controlada. Um vai e vem sincronizado. Seu pau desliza pela minha intimidade, tocando meus pontos mais sensíveis.

   Michael estoca mais veloz, bate forte no meu bumbum, aperta meus seios e me beija. Percebo que estamos arrepiados, suados e a ponto de atingirmos o clímax. Das nossas bocas não saíam som de nenhuma palavra, apenas gemidos, gurnidos de prazer.

  Senti que ia gozar. Michael também. Aperto seu membro e ele grita alto, gozando dentro de mim. Eu também não aguento mais de prazer e explodo em um orgasmo intenso, misturando meu prazer com o dele.

-Vai, Michael... Se você parar eu te mato! - ele me obedece e continua estocando até perdemos todo nosso fôlego

   Ele se deita ao meu lado, fecha os olhos e sorri. Foco meu olhar na lua cheia lá fora e nesse momento um filme passa na minha cabeça. De repente me vem várias lembranças. Me lembrei de quando conheci Michael pela primeira vez, de quando nos tornamos amigos e também de quando nos apaixonamos. Isso me faz lembrar do principal motivo de ter me apaixonado - sua ingenuidade e seu coração maravilhoso. 
     Quando me lembro desse Michael, não consigo acreditar que ele poderia ser responsável pela maior desgraça da minha vida. E vendo ele hoje, dizer com toda sua sinceridade que me ama, me faz criar dúvidas que eu imaginei que nunca teria.

-Por que está tão pensativa? Se arrependeu?

-Michael... - respiro fundo e tento encontrar a melhor forma de perguntar

-Sim? - meus olhos se enchem de lágrimas, mas eu prossigo

-Quero que olhe nos meus olhos e me diga que nunca teve nada, absolutamente nada a ver com aquele incêndio! - Michael se senta na cama, parece surpreso

  Ao ver meu choro descontrolado, ele me abraça forte, enxuga minhas lágrimas e beija minha testa. Agora ele me olha fixamente com uma seriedade que eu nunca vi.

-De certa forma eu fui sim o culpado. Por culpa minha, pela minha imaturidade e covardia eu lhe deixei sozinha. Eu deveria ter ficado ao seu lado, deveria saber que meu pai era um monstro. Essa é a minha culpa. Mas se quer saber, eu preferiria tirar minha própria vida do que fazer essa monstruosidade ainda mais com a única mulher que amei e continuo amando.

   Sinto uma sensação desconhecida até então por mim. Pela primeira vez depois de doze anos abri meu coração para ouvi-lo. Não sei o que isso quer dizer, mas eu sei que algo mexeu aqui dentro do meu coração.

-Vamos voltar, Michael. O dia de amanhã será decisivo para mim.

-O que quer dizer com isso? O que você vai fazer?- visto minha camisola e me levanto

-Vou dar uma chance para o meu coração.


Capítulo 44

Mercedes

     Não foi fácil dormir essa noite, na verdade eu não dormi. Assim que voltamos, Michael me levou até a dispensa da casa e me entregou uma cópia da chave do quarto, que encontramos depois de um longo tempo procurando. 
    Depois de um banho demorado, tomo uma decisão. Arrumo minhas malas, recolho tudo que é meu e os guardo. Assim que amanhecer sairei desta casa. 
     Já se passavam das cinco da manhã e como minha cabeça estava me bombardeando com pensamentos, opto por ficar acordada. Ainda são 06:00 horas, e como eu já não suporto mais ficar no quarto, decido ir para a empresa. Escondo as malas em baixo da cama, pretendendo levá-las para o meu apartamento quando anoitecer.
     Agradeço mentalmente à Deus por não cruzar com ninguém desta casa. Ainda não sei como se sentirei estando perto de Edgar e Michael. Ainda não engoli o que aconteceu ontem a noite, tenho certeza que Edgar me trancou no quarto. 
    Sou a primeira a chegar na empresa. Vou pra minha sala, me sento na poltrona e em poucos minutos o sono vem. Fecho meus olhos, apoio minha cabeça na mesa acabo adormecendo.

(...)

    Sinto um cheiro de café bem próximo das minhas narinas. Abro meus olhos e vejo Michael sentado na minha mesa, tomando uma caneca de café. Ele percebe que eu acordei, sorri e afasta meus cabelos do rosto.

-Bom dia, dorminhoca! Não dormiu direito?

-Eu não dormi nada, literalmente. Que horas são?

-8:30. Não se preocupe, ninguém viu sua cara amassada. - tampo meu rosto com as mãos e ele ri

-Está aqui faz tempo?

-Uma hora mais ou menos. Beba o café para você despertar.

-Está aqui há uma hora e por que não me acordou? - levo a caneca até a boca e bebo um gole

-Não tive coragem. Fora que sempre gostei de te ver dormindo. Parece um anjo, mas quando acorda...

-O que quer dizer com isso? - ele ri

-Nada... Está bom o café?

-Sim. Você que fez? Ou foi a cafeteira? - Michael faz uma careta e se levanta

-Bom, é melhor eu ir pra minha sala. Acho que seu namoradinho não vai gostar de me ver aqui.

-Psiu! Se vê-lo no corredor, peça para vir aqui, por favor? - ele lança o dedo do meio e sai da sala, me deixando entregue às risadas

(...)

-Com licença, Dona Mercedes. Aqui estão os balanços semanais que me pediu.

-Obrigada, Judith. Sabe se o Edgar está aí? Já são quase cinco da tarde e nada dele.

-Ele não veio, senhora. Ele ligou, mas como você estava em reunião, ele mandou avisar que tinha uma viagem de última hora.

-Sei... - rio - Na certa foi roubar mais um pouco a empresa. Você está guardando todas as provas, não é mesmo?

-Claro! Estou fazendo o dossiê assim como seu advogado pediu.

-Ótimo! Tudo que você descobrir vai anexando. Na hora certa eu vou precisar... - ela assente - Já são quase cinco horas, se quiser pode ir pra casa.

-Deixa comigo, senhora. Obrigada, até amanhã!

-Até.

Assim como sempre costumo fazer, fico na empresa além do horário de expediente. Estou focada em provar os roubos de Edgar e não vou descansar enquanto não ferrar com desgraçado. 
Ouço dois toques na porta e imaginando ser Michael, permito sua entrada.

-Pode entrar! - então para o meu desgosto, é Edgar

-Oi meu amor. Espero que Judith tenha te dado o recado. Me desculpe, tive uma viagem de última hora. - ele tenta me beijar, mas eu esquivo - Algum problema, Mercedes?

-Quem te deu o direito de me trancar no quarto?

-Como? - ele ri, desconcertado

-Não se faça de desentendido, Edgar. Eu reparei essa noite que minha porta estava trancada. Vai negar que foi você?

-E o que te fez perceber? Por acaso quis dar uma saidinha pela noite? - tento controlar meus nervos, mas eu não tenho sangue de barata

-Não te interessa o motivo! Eu não sou uma cachorrinha que você prende na gaiola e solta quando quer! Isso é doença, você precisa se tratar urgente! - passo por Edgar, querendo deixar a sala, mas ele aperta o meu braço e começa a se relar em mim

-Amor, desculpa... É que eu fico louco só de saber que está sob o mesmo teto que o Michael...

-Ai de novo isso, Michael? - calo a boca, mas quando vi já era tarde

Edgar trava o maxilar, seu olhar enfurece e vejo um semblante sombrio em seu rosto. Ele me empurra contra a parede e sacode meus ombros.

-Admita que ainda pensa nesse filho da puta! É por isso que me rejeita! Ainda acha que estou errado? Está louca para trepar com ele, ainda mais agora que você tirou Dominique do seu caminho! - ele grita a plenos pulmões, me fazendo encolher de medo

-Você é louco! De onde tirou todos esses absurdos?

-Eu sou louco sim e a culpa é toda sua! Você quer brincar comigo, está me tirando do sério! 

-Edgar, se controle! Você está vendo coisa onde não tem!!

-Então me prova! Me prove que está falando a verdade!

-O que mais quer que eu faça? Eu vou me casar com você!

-Isso é muito pouco. - ele ri. Agora seu olhar está malicioso e me causa tremores - Quero você, agora! - ele começa a beijar meu pescoço de forma nojenta

-Edgar, para com isso...

-Se me ama tanto como diz, me prova! Seja minha!

-Aqui não é lugar disso, me solta! - tento me desvencilhar, mas ele é mais forte

-Não tem mais ninguém aqui, não se preocupe amorzinho... -suas mãos exploram meu corpo, me apertando e invadindo minha roupa

-Edgar, me solta!! - ele me rouba um beijo extravagante e no impulso, mordo seu lábio

-Mas que droga! - ele urra de dor e eu aproveito para me soltar

Edgar é mais rápido, me pega pela cintura, me joga no sofá e me imobiliza. Ele deita seu corpo sob mim, ignora meus gritos e volta a me beijar.






-Eu fui paciente demais, Mercedes. Fui bonzinho com você e é assim que me retribui? Me olhando com essa cara de nojo? Mas não se preocupe, vou mudar sua opinião agora mesmo!

Desabotoa minha camisa, em seguida seu zíper, mas antes disso, Edgar é empurrado ao chão por Michael, que não satisfeito, começa a socá-lo e esmurrá-lo.

-Você não vai tocar nela nunca mais!! - brada enquanto trava uma luta com Edgar

-Não se meta entre nós ou vai se arrepender! - ameaça, provocando ainda mais a ira de Michael

Se eu não fizer nada, os dois acabarão se matando. Corro até minha mesa, disco o número da recepção e convoco os seguranças até minha sala. Em poucos segundos eles entram e apartam a briga.

-Desgraçado, eu vou matá-lo! - Edgar grita

-Eu que vou te destruir se chegar perto da Mercedes novamente! - Michael tenta se soltar, mas os seguranças o imobilizam

-Pelo amor de Deus, tirem ele daqui! - ordeno para que o segurança suma com Edgar da minha sala

-Tudo bem, pode me soltar! - Michael pede, agora mais calmo. Os seguranças deixam a sala e Michael fecha a porta

Ainda estou apática, encolhida em um cantinho. Tento fechar os botões da minha camisa, mas meus dedos trêmulos não me ajudam. Michael está nervoso, a adrenalina parece não ter cessado.

-Viu só? É isso que você quer pra você? Se envolver com um louco? Foi você que provocou isso! - ele grita ainda mais alto e eu me desmancho em lágrimas. Ele vem até mim e me acolhe em seus braços - Tudo bem, já passou... Já passou... Ele te machucou?

-Não... - murmuro entre soluços

-Deixe eu te ajudar. - Michael abotoa minha camisa e volta a me abraçar, beijando carinhosamente minha testa - Me desculpe por gritar com você, eu fiquei tão nervoso quando vi o que ele estava fazendo...

-Me leva pro meu apartamento? Não tenho condições de dirigir.

-Como assim? Você não vai pra minha casa?

-Não. - enxugo minhas lágrimas e me recomponho - Essa manhã decidi que voltaria para o meu apartamento. Depois do que aconteceu aqui não tem sentido nenhum voltar pra lá.

-Então isso quer dizer que você vai romper com Edgar, certo?

-Não me faça perguntas, Michael. Só me tire daqui, por favor. - ele suspira e concorda

-Tudo bem, vamos... Não vou deixar você sozinha.

Capítulo 45

Michael



    Quando vi Edgar em cima de Mercedes realmente cogitei matá-lo. Se os seguranças não tivessem chegado, eu teria acabado com meu próprio irmão. 
Agora que já estamos na porta do seu apartamento, já sinto meus nervos controlados. Mercedes tentou a todo custo me convencer que está bem, mas eu não acredito. Sei que ela está amedrontada e a minha vontade é de tomá-la em meus braços e não soltá-la mais.

-Obrigada pela carona. E... obrigada também por ter me defendido. - fala em voz baixa, encarando a janela do carro

-Não precisa me agradecer. Só quero que me prometa uma coisa.

-O que? - ela volta seu olhar para mim

-Se afaste do Edgar, por favor! - Mercedes fecha os olhos e nada diz - Você ouviu o que eu disse?

-Eu sei me cuidar, Michael.

-Sabe? - dou uma risada irônica - Não foi isso que pareceu quando entrei naquela sala!

-Chega, por favor! - grita eu um doloroso desabafo - Eu quero ficar sozinha. - ela destrava a porta do carro e desce, ignorando meu chamado

-Mas que droga! - esmurro o volante e suspiro desanimado. Não me resta nada a fazer que não seja ir embora e deixá-la em paz
Mercedes



    Preciso pensar no que fazer a partir de agora. Acho que é o fim da nossa relação e eu não sei se lhe denuncio de uma vez ou espero mais um pouco.
    Depois de andar de um lado para o outro, sou despertada pelo toque da campainha. Tenho certeza absoluta que é Edgar e dessa vez ele não me pegará desprevenida. Corro até o meu quarto, reviro o fundo de uma gaveta e pego meu revólver. Volto pra sala e a escondo dentro de um vazo de flores.
    Agora mais calma, respiro fundo, abro a porta e dou de cara com um Edgar desolado e arrependido.

-Como tem coragem de aparecer na minha casa depois do que fez hoje?

-Mercedes, por favor eu te imploro para que me escute! - ele se ajoelha aos meus pés e abraça minha cintura, fazendo uma cena deplorável

-Edgar, deixa de ser ridículo...

-Eu sei que fui um monstro, mas eu estava fora de mim! Juro que não foi minha intenção te machucar, acredite em mim, meu amor!! - ele começa a chorar copiosamente e eu percebo o quão perturbado Edgar é

-Tudo bem, se levanta. Para de chorar, você não é nenhuma criança. - ele se levanta e enxuga o rosto molhado

-Então você me perdoa? Eu juro que nunca mais vou me descontrolar com você, eu juro! Diz que me perdoa, por favor... - choraminga desesperado

Eu tenho que tomar uma decisão agora. Romper definitivamente e não concluir minha vingança, ou ir até o final com essa história. Tenho muitas dúvidas rondando minha mente e só posso descobrir se tiver a confiança de Edgar. E por isso, darei essa resposta.

-Tudo bem, está perdoado. - ele abre um sorriso e me puxa para um abraço apertado. Engulo o choro e continuo com o teatro - Não posso ficar com raiva de você porque te amo mais que tudo, Edgar!

-Oh meu amor... Você é tão maravilhosa... Então estamos de bem, certo?

-Claro que sim. - tento sorrir - De certa forma eu sou a culpada... Mas vamos esquecer isso, por favor. Vem, vamos beber alguma coisa. Vou pedir uma pizza, você quer?

-Claro, claro! Você tem toda razão, meu amor! Prometo que serei o melhor marido do mundo pra você. - Edgar me beija e eu tento a todo custo correspondê-lo. Finalmente ele me solta e eu aproveito para servir as bebidas

(...)

Já se passaram aproximadamente duas horas e eu mantive Edgar ativo no álcool a todo momento. Com ele agora mais soltinho, estará sucetível à qualquer insinuação que eu fizer.

-Quer mais um pouquinho de vinho, amor? - pergunto. Edgar está esparramado no sofá, rindo de orelha a orelha

-Claro! Mas só se brindar comigo! -brindamos nossas taças e ele bebe tudo em quase duas goladas. Beberico um pouco do vinho para despistar

-Quero confessar algumas coisas, Ed... - ele arca a sobrancelha e sorri - Desde aquela época que nos conhecemos, eu... Ai, fico até envergonhada...

-Oh minha linda, pode falar...

-É que eu sentia algo diferente por você, mas como eu estava com o Michael, fiquei quieta.

-Nossa, eu nunca poderia imaginar! Se tivesse me contado na época, poderia ser tudo diferente... - ele murmura, provavelmente pensando em voz alta

-Tenho outra coisa para confessar também.

-É mesmo? O que mais essa mulher misteriosa tem para me dizer?

-Eu sempre odiei aquele bairro e todo o resto. Odiava ser pobre, ter que conviver com aquela gentalha favelada... Quando conheci o Michael achei que ia mudar de vida, mas então a Dominique apareceu e bem, você já sabe...

-Tá falando sério? - ele sorri, chocado - Agora sim você me surpreendeu. Mas pensando bem, tudo faz sentido, afinal você se casou com um ricasso!

-E foi graças ao Michael. Não sabe como fiquei feliz e satisfeita quando aquela maldita galeria pegou fogo! Graças à esse incêndio, eu finalmente pude me libertar daquele lugar! E pra ser sincera, isso me fez admirar o Michael. Sempre achei que ele fosse um covarde até que soube que ele foi o responsável pelo crime. Isso mostrou o quão severo e corajoso ele sabe ser... - Edgar me interrompe ao iniciar uma crise de riso

-Ah Mercedes, eu tenho que rir... - ele dá gargalhada atrás de outra, me deixando confusa

-Algum problema?

-Mercedes, olha bem pra cara do Michael! Acha que aquele idiota teria inteligência pra bolar um plano tão... cruel? - diz entre gargalhadas. Ele bebe mais um gole e continua - Se quer agradecer alguém, que seja a mim, baby...

-Como... como assim? - sinto que meu coração irá sair pela boca, mas eu tento manter a calma

-A ideia foi minha. Meu pai estava com ódio de você e eu aproveitei isso para dar a ideia. Aproveitamos que o meu irmãozinho fugiu pra Milão e então...

-Incendiaram o galpão... - concluo automaticamente

-É... - responde, orgulhoso - A minha intenção era cuidar de você, assim ficaríamos juntos. Mas você sumiu e eu te perdi. Tá vendo, meu amor? Se você tivesse confessado o que sentia por mim, estaríamos juntos agora.

-Então quer dizer que... que o Michael não sabia de nada...? - tento firmar minha voz antes que os soluços lhe atropelem. Edgar ri

-Sério que chegou a pensar nisso? Ah, meu amor... Michael é o maior otário do universo. Teria se borrado todinho! É por isso que meu pai se livrou dele... Viu só, minha vida? Sempre estivemos predestinados a ficar juntos... - sua voz sai arrastada e embolada, denunciando sua fraqueza - Agora vem cá me dar um beijo, amor... - ele tenta se aproximar, mas eu me levanto em um pulo e corro em direção ao banheiro

Me inclino sob o vaso sanitário e começo a vomitar. É como se eu estivesse colocando pra fora todo o nojo que sinto, o rancor que guardei por todos esses anos, por todas as mentiras... Vomito até perder minhas forças. Me desabo no chão e me encolho, sentindo o chão ruir e me engolir. Vejo o teto girar, minha visão escurece e eu apago.



Capítulo 46

Mercedes


   Abro meus olhos e encaro o teto do banheiro por quase uma hora. Estou em um profundo estado de choque; meu corpo não obedece os comandos do cérebro e eu permaneço inerte no chão. Com muito custo me levanto, dou a descarga, lavo o rosto e me olho no espelho. Minha maquiagem está completamente borrada e eu não dou a mínima.
     E então eu volto pra sala e encontro Edgar dormindo em um sono profundo. Só de olhar para ele sinto vontade de vomitar novamente, mas eu respiro fundo e me apoio na mesa. Meus olhos rolam pela sala e eu me deparo com o vaso de flores. Vou até ele, pego meu revólver e posiciono em direção à Edgar. Tudo que minha mente me intui é para dar um fim a todo esse sofrimento; pagar na mesma moeda por todas as atrocidades que esse homem fez comigo. 
  Fecho meus olhos, deixo as lágrimas rolarem e levo um dedo ao gatilho. Minhas mãos estão trêmulas, mas a vontade de estourar os miolos desse desgraçado só aumenta. Eu não sei se teria coragem ou não, se não tivesse sido interrompida pelo toque do meu celular. Isso parece ter me despertado. Me ajoelho ao chão e deixo a arma cair da minha mão, como uma perfeita covarde que sou. 

 Engatinho até a poltrona onde está meu celular e ao ver o nome de Michael no visor, desabo em grossas lágrimas que rolam pelo meu rosto violentamente. Pego o aparelho e lanço contra a parede, tentando descontar um pouco do ódio que estou sentindo.

(...)

 O dia logo clareou e continuo na mesma posição horas a fio. Não consegui dormir sequer alguns minutos, pois mantive meus olhos fixos em Edgar, ouvindo sua respiração e desejando a todo momento que esta lhe faltasse aos pulmões. 
 Aos poucos ele se remexe, geme e por fim abre os olhos. Leva as mãos à cabeça e geme novamente.

-Nossa... Minha cabeça vai explodir... - ele tenta se sentar e chama por mim - Merche... Cade você?

-Estou aqui. - respondo firme, com rouquidão em meu tom de voz, ocasionada pelos meus soluços

-Amor... Acho que bebi demais... Parece que um trator passou por cima de mim.

-Tem aspirina e uma caneca de café forte em cima da mesa. Beba. - instruo, ainda sem mudar sequer a posição das minhas retinas





-Você é um anjo! - Edgar me encara, parecendo assustado - Você está bem, Mercedes?





-Sim. É só a ressaca. Nossa noite foi muito agitada.

-Uau! - ele ri - Daria tudo pra lembrar como foi... - ele olha para o relógio no pulso - Ainda são sete horas...

-É melhor ir pra casa. Assim não vamos nos atrasar para a empresa.

-Você tem razão. Só vou tomar um banho, ok?

-Não tem água quente. Tome em casa, assim você não vai gripar. - ele sorri sem graça, mas concorda

-Está certa. Tenho pavor a água gelada. Bom, vou só molhar meu rosto então. - não respondo. Ele segue para o banheiro e logo retorna vindo até mim - Te vejo daqui a pouco, amor?

-Sim. - ele se aproxima para me beijar, mas eu esquivo - Acabei de vomitar.

-Oh sim, eu entendo. Espero que melhore desse porre, amor. Até logo!

 Espero Edgar sair da minha casa para finalmente fechar meus olhos e libertar minhas lágrimas. Saio da posição estática em que eu me encontrava e me levanto. Mecanicamente tomo um banho, coloco uma roupa e saio a pé de casa. 
  Perambulo pelas ruas da cidade, com destino certo ao cemitério Green-Wood, no Brooklyn. O caminho é longo e extenso, mas eu não me sinto cansada. Mesmo estando meus saltos torturando meus pés, me sinto anestesiada e imune à qualquer incômodo. 
 Assim que avisto os portões do cemitério, arranco meus sapatos e começo a correr pelas quadras até chegar no local onde Gina foi enterrada. Ao encontrar seu túmulo, me desabo sobre ele e me entrego a um choro descontrolado.






-Gina!! Me perdoa, por favor... - grito em meio as lágrimas - Eu sou um monstro, um monstro! Eu passei todos esses anos alimentando ódio no meu coração. Eu me tornei uma mulher má e desprezível, eu quis destruir a vida do Michael quando na verdade era tudo mentira! - dou algumas tossidas, que atropelam meus soluços e lágrimas - Por culpa minha eu causei dor à ele e por culpa minha também você se foi. Ai Gina....  Me arrependo tanto... Eu estou perdida!! Por que você não está aqui pra me ajudar? Eu não tenho mais ninguém... - permaneço deitada sob seu túmulo, em silêncio, chorando baixinho enquanto uma chuva fina começa a cair - Você sempre disse que eu era forte, mas olha o que eu me tornei. Não tenho amigos, não tenho mais meu pai, nem meu bebê e agora perdi também o amor do Michael. O que eu vou fazer, Gina? Me responde! - grito - Me responde por favor...

   A chuva vai se intensificando e o céu sombrio e acinzentado escurece a manhã. Me levanto do seu túmulo, e decido ir embora. Por mim eu ficaria aqui ou sumiria no mundo. Qualquer coisa que me tirasse desse inferno.
  Como não levei bolsa e nem meus sapatos peguei, continuo a caminhar pelas ruas. Percebo os olhares em mim e não me importo nenhum pouco. Já não tenho mais forças e eu não sei responder se é físico ou mental. Me sento em uma calçada e fecho meus olhos. Demoro a perceber que alguém falava comigo. 

-Moça? Moça, está tudo bem? - o homem sai da carreta disposto a me socorrer - Foi assaltada? - nego com a cabeça - Meu Deus, vai acabar morrendo nessa chuva! Vem, eu vou te dar uma carona. Para onde quer ir?

-Michael... Eu preciso dele...

-Ele é seu marido? Onde ele mora?

-Michael, me perdoa... 

-Acho que você não tá nada bem! Vem, me deixe te ajudar. - ele me ajuda a subir na carreta e após eu explicar resumidamente o endereço de Michael, ele me leva até o local

 Desço da carreta, agradeço ao homem e começo a caminhar pelo condomínio. Ainda não sei porque vim aqui, na verdade chego a mudar de ideia, e quando viro para ir embora, me deparo com um carro que freia ao chegar perto de mim. 
  Meu coração se alivia ao ver Michael saindo do carro. Ele paralisa ao me ver e eu também. Aos poucos ele "acorda" e corre até mim. Me jogo em seus braços e não falo nada, apenas choro. Ele também não pergunta, apenas me acolhe e me leva para o seu carro.

(...)

-Corine, me ajude aqui! - ouço Michael dizer enquanto me carrega em seu colo - Mercedes precisa de um banho quente e roupas secas! Vou levá-la para o meu quarto. - novamente me deixo vencer pelo cansaço e apago

Quando finalmente acordo, percebo que estou deitada em uma cama. Não estou mais agitada e nem tão nervosa como estava, é como se tudo que vivi nas últimas horas tivesse sido um pesadelo.

-Como se sente, meu bem?

-Corine? - ela se senta ao meu lado e sorri

-Sim, querida. Sou eu. Está mais calma? - balanço a cabeça positivamente - Michael está se trocando e já vem vê-la.

-Edgar está aqui?

-Não, ele foi para a empresa. Michael chegou agora pouco, acho que foi quando ele te encontrou lá fora. O que aconteceu, menina? Estamos todos preocupados, até Agnes, coitadinha!

-Eu, eu não sei... - de fato eu realmente me sinto confusa, minha mente parece estar embaralhada - Me sinto tão cansada.

-Eu imagino. Você desmaiou de fraqueza. Olha, estou fazendo uma sopa pra você. Já volto com ela! - ela beija minha testa e se afasta. Assim que ela sai, Michael entra, me deixando paralisada

Ele se senta ao meu lado, leva sua mão até minha testa e pescoço, e eu ainda estou sem entender.

-O remédio fez efeito, a febre está abaixando. - ele olha pra mim como se esperasse uma explicação

 Mas eu não sei por onde começar. Estou transtornada, confusa e olhar para ele tão preocupado e amoroso comigo, faz com que meu remorso me torture lentamente. Estou envergonhada, não só pela cena lamentável que protagonizei, e sim por tudo que disse e fiz contra ele, por todas as vezes que lhe acusei e lhe ofendi.

-Michael... - sussurro, fechando meus olhos para não ter que encará-lo

-Você precisa descansar, depois nós conversamos, ok? - ele puxa a coberta para me cobrir e beija minha testa - Vou ficar aqui do seu lado. - ele sorri tranquilamente tentando me passar segurança e proteção. Estou esgotada e só de fechar meus olhos, o sono me domina.



Capítulo 47

Michael


   Seja lá o que tenha acontecido com Mercedes, dessa vez parece ser mais grave do que imagino. Há dor em seu olhar, desespero, medo e algo mais forte que eu não consigo decifrar. Seu corpo está aqui, mas sua mente está em outra dimensão. 
    Mercedes permanece dormindo, mas depois de quase uma hora, ela se remexe, inquieta, e por fim, acorda. Aproveito para me levantar e buscar a bandeja com sopa para Mercedes tomar. Ela se senta na cama e eu me aproximo, posicionando a bandeja em seu colo.

-Aposto que não comeu nada hoje, não é? - ela assente, confirmando com a cabeça - Então é melhor tomar. Corine fez especialmente pra você.


-Me desculpe, mas não sinto fome. Na verdade nada está passando pela minha garganta. - me sento na cama, molho a colher na sopa e levo até sua boca. Mercedes tenta protestar, mas como não tem escolha, aceita minha oferta

-Não seja teimosa. Além de ter pego esse temporal não pode ficar desnutrida. Só algumas colheradas e eu lhe deixarei em paz. - ela sorri fraco e não titubeia mais

-Se eu comer mais, vou vomitar. - diz, após mais três colheradas - Não está ruim, é que realmente não consigo.

-Tudo bem. - passo o guardanapo em seus lábios e deixo a bandeja na estante - Se está com um nó na garganta, explodirá a qualquer momento. Por onde quer começar?

Mercedes mantém os olhos fixos na janela, com o olhar perdido, vazio e sofrido e por mais que eu tente transparecer tranquilidade, estou aflito e agoniado. Nunca a vi desse jeito, nem nas nossas piores e mais pesadas discussões.

Tento esperar seu tempo, mas depois de quase cinco minutos em silêncio, decido por um fim nessa angústia.

-Mercedes! - ela pisca os olhos, enxuga uma lágrima e se levanta da cama - Me diga o que aconteceu? Eu preciso saber o que de grave ocorreu para você me aparecer aqui tão devastada! Você queria me ver?

Acompanho seus movimentos com o olhar e a vejo virar de costas para mim. Também me levanto, cruzo meus braços e espero pacientemente por sua resposta.

-Sim, eu vim te ver. - ela se vira e me encara - Preciso te contar uma coisa e é bom que saiba por mim.

-Está me assustando. O que você fez dessa vez?

-É o que eu vou fazer. - ela desvia o olhar de mim e fita o chão - Eu vou me casar com Edgar daqui a poucos dias.

-O que? - rio, pois provavelmente isso é mais uma provocação. Mercedes não esboça nenhuma reação que me comprove essa teoria

-Foi o que ouviu, Michael. - ela raspa a garganta e respira fundo - Foi pra isso que vim aqui.

-Isso é mais uma provocação, não é? Qual o seu problema? Ontem esse homem estava tentando abusar de você e hoje você vem falando de casamento? - explodo, mandando para o inferno todo o autocontrole que tentei manter

-Nós conversamos muito e eu dei uma nova chance.

-Nova chance o cacete! O que ele fez com você? Me fala! - grito, sacudindo seus braços, pressionando-a contra a parede

-Você está me machucando, me solta! - atendo seu pedido antes que eu perdesse a cabeça de vez

Me afasto de Mercedes, caminho de um lado para o outro, aperto meus cabelos com força, tentando raciocinar, encontrar uma explicação para toda essa loucura.

-Mercedes, eu sei que tem sede por vingança, você já repetiu isso mil vezes e por esse motivo eu espero tudo de você, mas pelo amor de Deus, não passe dos limites! Você tem ideia do que está me dizendo? Qual a sua intenção? Me destruir por completo?

Mercedes esconde o rosto com as mãos e caminha até mim. Ela se mantem receosa, se levar em conta minha reação agressiva e descontrolada. Me viro de costas, me apoio na cômoda e sinto o toque tímido da sua mão em meu ombro.

-Você tem que confiar em mim. - ela diz baixinho, mas com uma impressionante convicção em sua voz

-Confiar? - me viro e ela se retrai - Você diz que será mulher do meu irmão e me pede pra confiar? Você nem sabe o que significa isso! - ela sorri fraco, fechando os olhos e deixando uma lágrima rolar na sua face

-Não se pode colher rosas se não aceita os espinhos, Michael. - Mercedes caminha até a porta, prestes a me deixar sozinho com essa bomba nas minhas mãos

-Mercedes, volta aqui! - ela me ignora, desce a escada apressadamente, como se quisesse fugir de mim - Nós ainda não terminamos!

Ela continua a andar apressada, mas estaca assim que vê Edgar entrar na sala. Ele a olha confuso, provavelmente desconfiado de sua visita inesperada.

-O que faz aqui, Merche?

-Eu... - ela olha pra mim como que se suplicasse por compreensão - Eu estava te procurando. Como meu celular quebrou, não sabia se já estava em casa.

-Te esperei na empresa e nada de você aparecer. - ele olha para ela e depois para mim - O que aconteceu para ter que me procurar tão rápido, querida?

-Edgar, eu quero me casar logo. O mais rápido possível. Quero ser sua esposa! - fecho meus olhos antes que minhas lágrimas pudessem denunciar minha decepção

Edgar está tão absorto que esquece da minha presença. Ele puxa Mercedes para um abraço forte e eu aproveito para desaparecer, evaporar. Enquanto se abraçam, olho para trás pela última vez. Mercedes está olhando para mim com lágrimas nos olhos, mas eu garanto que dessa vez ela não tem noção do quanto me magoou. Mercedes conseguiu destruir meu coração.



Capítulo 48

Mercedes



-Amor, você tem certeza? Não está brincando comigo? - Edgar diz em plena euforia, não cabendo em si com tanto egocentrismo

-Estou falando sério. O casamento fará bem para a nossa relação. Assim finalmente poderemos viver em paz!

-Minha linda... Você está me fazendo o homem mais feliz desse mundo! Serei seu marido e agora nem Michael poderá nos infernizar mais!

-Foi exatamente nisso que pensei... - encosto minha cabeça em seu peito, fazendo um esforço escomunal para não esganá-lo com minhas próprias mãos - Acha que em três dias conseguimos?

-Três dias? Por mim eu casava agora, amor. Mas eu não quero um casamento simples. Quero tudo o que temos direito!

Estou cada vez mais impressionada e enojada com sua vaidade, seu ego inflado e deslumbramento. Por isso tenho certeza absoluta que tomei a decisão certa em prosseguir com esse casamento.

-Você está coberto de razão, querido. Mas nós somos ricos e poderosos, isso não será problema! Temos que arrumar uma igreja enorme, pois quero a presença de mais de duzentos convidados, quero a imprensa em cheio e muito luxo!

-Você pensa exatamente como eu... - diz, admirado. Ele pega o celular e disca rapidamente

-O que está fazendo?

-Atendendo seus pedidos, baby. - ele sorri - Vou colocar meus assessores de plantão para que o nosso casamento seja perfeito e pra isso eu pago o preço que for!

-Meu amor, eu te amo tanto! - dou um leve beijo em seus lábios e me afasto antes que eu sinta a repulsa - Eu vou pra casa e agora mesmo escolherei meu vestido!

-Ok, mas cadê sua bolsa? Você me parece um pouco desfeita. Aconteceu alguma coisa enquanto vinha pra cá?

-Eu... eu peguei chuva. - sorrio - Mas não se preocupe, estou bem.

-Tem certeza?

-Claro! Eu já vou e por favor, faça o impossível para o nosso casamento ser do jeito que desejamos. Tenho certeza que será um dia inesquecível para todos nós...

(...)

-Você pode esperar um minuto enquanto eu pego o dinheiro? - pergunto ao taxista que me deixa na porta do meu prédio. Ele concorda e eu acabo pegando a grana emprestada com o porteiro

-Obrigado, madame! - ele resmunga alguma coisa e arranca com o carro

-Yuri, depois acerto com você, ok?

-Sem problemas, dona Mercedes! Ah, a senhora Dorothy chegou aqui agora pouco. Fiz mal em permitir a entrada dela?

-Dorothy? Oh meu Deus... - deixo o pobre porteiro esperando a resposta, mas a vontade de encontrar Dorothy me deixou impaciente

Assim que o elevador para no meu andar, corro pelos corredores e abro a porta do meu apartamento, que nem mesmo fechei quando saí. Já começo a chorar assim que lhe vejo sentada no sofá. Ela abre um sorriso amoroso e nesse momento, me jogo em seus braços e choro. Choro toda a dor, medo e desespero que estou sentindo.

(...)

-É isso... - concluo após relatar tudo o que aconteceu até aqui. Dorothy, apesar de chocada e surpresa, me ouve com paciência e tranquilidade

-Querida, por que não ligou pra mim? Não sabe como me deixou angustiada e preocupada em todos esses meses! - ela faz um carinho gostoso no meu cabelo enquanto estou deitada com a cabeça no seu colo - Eu vim na hora certa, isso sim!

-Não tenha dúvidas. Assim como meu pai apareceu quando eu mais precisei. Ai Dorothy... Eu não sei mais o que fazer da minha vida...

-Não chore mais, minha linda... Você tem que parar de se martirizar assim!

-Me diz como, Dorothy? Eu fui má, incompreensível, desprezível... Desejei tudo de pior ao Michael e em várias vezes lhe prejudiquei! Meu coração dói tanto, tanto... Ainda mais depois de hoje.

-Oh meu bem... Por que não contou a verdade? - me sento no sofá e enxugo minhas lágrimas

-Primeiro, porque a vergonha e o remorso me deixaram do tamanho de um grão de mostarda. A minha vontade era de me jogar em seus braços, dizer que o amo e implorar pelo seu perdão. Mas então naquele momento eu pensei em tudo que vivi até então. Eu não passei boa parte da minha vida lutando e sofrendo em vão. E se eu cheguei até aqui eu vou até o fim! O meu foco agora é único e exclusivamente em Edgar Jackson.

-Mas por que deixou o Michael acreditar nessa farsa? Você mesma disse que ele ficou tão desolado...

-Eu sei e me doeu muito! Mas eu não podia revelar tudo agora. Edgar não é o tolo que eu imaginava e eu estou num estágio que qualquer passo pode ser arriscado. Além do mais, Michael e eu temos muito o que conversar e agora eu não posso dar tanta bandeira. Se eu contasse a verdade pro Michael ele só iria atrapalhar o meu plano.

-Ah, querida... Tenho tanto medo do que esse homem pode fazer com você...

-Eu não me importo mais, Dorothy. Não tenho nada e ninguém a perder. Se antes eu achava a minha vida vazia, imagina agora sabendo de toda a verdade? Eu não tenho mais nada a que devo me prender. Michael provavelmente não me perdoará, eu nunca mais serei mãe e... - tento prosseguir, mas as lágrimas me atropelam

-Você não pode dizer isso, eu não admito! Pensamento de derrota nunca combinou com você. E quer saber? Depois do que acontecer hoje, você e Michael vão se sentar, conversar e o mais importante, vão finalmente se acertar!

-Só você pra me dar esperanças... - dou uma risada fraca

-Eu disse apenas a verdade! Agora volte a ser a minha menina forte e destemida! Você esperou doze anos por esse momento e chegou a hora de realizar seu desejo!

-Chegou, Dorothy... Não posso denunciar ele ou Leon, pois já não existem mais provas do crime, mas esse detalhe não vai me parar. De uma forma ou de outra eu farei da vida deles um inferno. Esse casamento será a ruína de Edgar. Atingirei seus pontos mais fracos. Todos saberão o demônio desgraçado que ele é!

- E quanto ao Michael? Acha que ele vai nessa cerimônia?

-Ele vai... Eu o conheço, Dorothy. Eu só peço a Deus para que ele não sofra mais. Já causei dor demais à ele...

Três dias depois


    Assim como eu havia ordenado, o casamento conseguiu data para ser realizado dentro de três dias, e hoje chegou o momento. Para evitar contato com Michael ou até mesmo com Edgar, me hospedei em um hotel com Dorothy e me mantive trancafiada até o dia de hoje. 
   E agora estou aqui de frente ao espelho, encarando minha própria imagem. Não sei exatamente o que estou sentindo. As vezes acho que estarei em paz quando finalmente me ver vingada, em outros momentos acredito que nem mesmo isso trará alegria ao meu coração novamente.

-Sei que o momento não é pra isso, mas devo dizer que você está linda. Parece uma princesa!

-Sempre pensei que me vestiria assim somente uma vez, Dorothy.

-Está falando do seu primeiro casamento com o Michael, não é? Me lembro de você ter relatado toda a história...

-Eu pensei que seria eterno. Aquele foi o dia mais feliz da minha vida, mas como tudo que é bom, durou pouco. - seco meu olho com um lenço de papel e engulo o choro - Já tem notícias da cerimônia?

-Sim. Sua secretária Judith me informou de tudo. A maioria dos convidados já chegou e a imprensa também.

-Ótimo. E o Michael?

-Nem sinal dele. Acha mesmo que ele vai?

-Maysa disse que tinha conversado com ele.

-Ela sabe da verdade?

-Não totalmente. Eu apenas disse para confiar em mim e realmente ela confia. Ela disse que nunca viu o Michael tão derrotado como nos últimos dias...

-Não volte a chorar, minha linda. Hoje esse pesadelo acaba tanto pra você quanto pra ele. - ela sorri, tentando me confortar

-Pode me deixar sozinha um momento?

-Claro, querida. Imagino que queira um tempo para pensar. Estarei te esperando no carro.

   Assim que ela sai, respiro fundo e descubro o véu do meu rosto. Me olho novamente no espelho e mentalmente me instruo a manter a calma e a concentração. Eu não cheguei até aqui atoa e eu não vou morrer na praia.
   Abro meus olhos novamente e quando foco meu olhar no espelho, me arrepio dos pés à cabeça ao ver Michael. Ele está tão abatido quanto eu, ou talvez até mais. Não tenho coragem de me virar, pois sei que não vou suportar.

-Não quer nem mesmo olhar pra mim, futura Senhora Jackson?


Capítulo 49

Michael


   Minhas pernas fraquejaram assim que coloquei meus olhos em Mercedes. O pior de tudo é que ela está desgraçadamente linda, como uma princesa. E eu que nunca imaginei vê-la vestida assim novamente, ainda mais para se casar com meu próprio irmão.

-O que faz aqui? - pergunta com a voz trêmula e embargada

-Vim pela última vez implorar que não cometa essa loucura! - nesse momento me ajoelho no chão, agarrando suas pernas em uma cena lamentável

-Michael, para com isso...

-Não vou parar até você me escutar! - ela se cala com o meu grito - Mercedes eu sei que te fiz muito mal, que não fui o marido que prometi que seria. Sei que cisma em me culpar de algo que eu não fiz e quer saber? Nada disso me importa. Você pode me ofender, humilhar, tirar tudo que é meu, me deixar na miséria, ou se preferir, me mate de uma vez. Nada disso me machucará mais do que vê-la se casando com outro. - desabafo tudo que estava preso na minha garganta, ou pelo menos uma parte

Mercedes se ajoelha também e enxuga minhas lágrimas, me dando um abraço apertado em seguida. Ela também chora e seus olhos mostram o quanto está infeliz. Mercedes sabe que vai cometer a maior loucura da sua vida e esse orgulho idiota está lhe cegando.

-Michael, eu pedi pra você confiar em mim. Sei que ultimamente só tenho cometido erros, mas tudo que estou fazendo é tentar consertá-los. Eu preciso disso, Michael. Você não entende?

-Nada do que eu disser vai mudar essa ideia absurda, não é? - ela se levanta, seca as lágrimas e se mantém firme novamente

-Não.

-Tudo bem. Não serei hipócrita de desejar sua felicidade, pois sei que jamais será com Edgar. - me viro para deixar o quarto, mas paro ao escutá-la

- E com você eu seria, Michael? - sorrio fraco e lhe respondo

-Eu seria capaz de morrer para fazê-la feliz. Mas eu joguei fora essa chance e agora você faz o mesmo. 

-Te encontro na igreja. - diz enquanto cobre o rosto com o véu

-Tá brincando né? - rio. Ela não diz mais nada. Se vira de frente ao espelho e eu decido sair, pois não há mais nada que eu possa fazer

   Decido seguir para um bar e fazer o que era de costume quando morava em Madri, beber até esquecer meu nome. Mas eu não sou mais um covarde perdedor. Se Mercedes quer a minha presença nesse circo, realizarei sua vontade, mas eu garanto que ela não vai se casar, nem que pra isso eu tenha que cometer uma loucura.

(...)

    A Igreja já está abarrotada de convidados. Pessoas importantes, da alta sociedade, além da presença da imprensa. Imaginei que seria algo nesse nível. Edgar não iria perder a oportunidade de esfregar na cara de todos que finalmente conseguiu fisgar a mulher que um dia me pertenceu. 
   Avisto Maysa sentada na primeira fila e me junto à ela. Quero que Mercedes me veja ali bem próxima dela e quem sabe assim, perceba o equívoco que está cometendo.

-Pensei que você não viria, irmão.

-É claro que vim. Não quero perder esse show de horrores por nada!

-Michael, não precisa ficar aqui pra ver isso. Imagino como deve estar sofrendo...

-Não se importe comigo. - lhe corto - Hoje será um dia decisivo pra mim, Maysa. Se Mercedes ainda assim se casar com Edgar, irei arrancá-la do meu coração para sempre!

-Michael... - suspira em um lamento - Agnes não virá?

-Não. Não quero que ela participe disso. Além do mais, eu não confio nos meus atos. - assim que termino de falar, a marcha nupcial começa a tocar

    Edgar está no altar e nesse momento olha diretamente pra mim. Ele lança um sorriso triunfal, vitorioso, e pela primeira vez na vida, eu abaixo minha cabeça e me dou por vencido.
Todos os convidados giram a cabeça para ver a entrada de Mercedes pelo felpudo tapete vermelho. Ela entra sozinha, segurando um buquê de rosas brancas, véu e grinalda. Seus olhos estão fixos em Edgar, o nariz empinado como sempre trazendo um ar de superioridade. 
     Ela passa por mim e não é capaz nem mesmo de olhar nos meus olhos. Meu sangue ferve ao vê-los de mãos dadas. É como se a minha ficha finalmente estivesse caindo. 
Eles se ajoelham diante do padre, que dá início à cerimônia. Mantenho meus olhos fechados, fazendo um esforço tremendo para não perder o controle. Maysa segura firme a minha mão, como se estivesse lendo meus pensamentos. E finalmente chega o momento mais doloroso para mim.





-Edgar Jackson, é de livre e espontânea vontade que deseja se unir à Mercedes Navarro, na promessa de amá-la e respeitá-la dentre todas as circunstâncias até o último dia de sua vida?

-Sim. Eu aceito!

-Repito a pergunta agora para a senhorita Navarro. É de livre e espontânea vontade que deseja se unir à Edgar, na promessa de amá-lo e respeitá-lo até o último dia de sua vida? - um silêncio se instala na igreja após dez segundos da pergunta feita pelo padre

Mercedes se levanta e Edgar faz o mesmo, parecendo assustado com a atitude da noiva.

-Mercedes, está tudo bem? - leio em seus lábios a pergunta

-Quer que eu repita, senhorita? Aceita se unir em matrimônio com Edgar Jackson? - Mercedes enche o peito de ar, abre os olhos e encara o Padre

-Nem que eu estivesse fora de mim aceitaria me casar com este miserável. A minha resposta é não, Padre. Jamais me casarei com Edgar Jackson! - aos poucos a igreja é tomada por burburinhos abafados de espanto e olhares incrédulos. Permaneço em estado de choque, sem entender o que está acontecendo





-Mercedes, o que está fazendo? - Edgar pergunta, rangendo os dentes

-Eu? Nada do que eu já deveria ter feito há muito tempo. Mais precisamente há doze anos atrás! - ela ri debochadamente e prossegue - Sério mesmo que em algum momento passou na sua cabeça que eu havia me apaixonado por você? Realmente acreditou nisso?

-Mercedes...

-Eu não posso, não quero e não vou me casar com você. E não é só pelo fato de eu amar Michael e estarmos juntos! - assim que ela grita essa revelação, acordo do meu transe

Nesse momentos todos olham para mim e eu não sei se me pronuncio ou continuo sendo um espectador. Mercedes ignora a reação do público e continua.

-Eu tenho nojo de você, Edgar. Nojo! Só de ter que te aturar e ser obrigada a te beijar eu sinto uma vontade louca de vomitar! Você é um nada, porque até lixo tem o seu valor.

-Cale-se! - murmura. Seus olhos estão vermelhos, os punhos cerrados. Provavelmente nunca vi Edgar tão irado como agora

-Não vou me calar! Quero que todos aqui conheçam o verme que você é! - Mercedes caminha pelo altar, mantendo uma postura convicta e impetuosa - Desde que era um moleque sempre ficou na sombra do Michael. Sempre foi um puxa saco daquele velho maldito e ainda assim não conseguiu se tornar superior ao seu irmão! Nem mesmo para me conquistar. Foi preciso bolar um plano cruel e monstruoso para destruir a minha vida! - berra, apontando o dedo contra ele - Você é tão idiota que permitiu ser enganado por mim. Foi um verdadeiro fantoche nas minhas mãos... Logo você que se julga tão esperto... Você é podre, Edgar! E a única razão para eu me aproximar de você foi única e exclusivamente no intuito de destruir sua vida!

-Senhora Mercedes, por favor, está em na casa de Deus...

-Você vai me desculpar, Senhor Padre, mas eu não vou parar. Se Deus fosse tão justo não teria permitido esse desgraçado ferrar a minha vida! Mas se Ele não fez isso por mim, eu faço por conta própria! Nunca me verei satisfeita enquanto não vê-lo passar pelo mesmo que eu passei!

-Maldita seja!!

Edgar explode e parte para cima de Mercedes, sendo contido imediatamente pelas pessoas próximas à ele. A minha vontade também é de defendê-la, mas minhas pernas não obedecem meus comandos.

-Se acalme, meu amor. Eu já disse tudo o que tinha pra dizer. Fique aí com todos os seus convidados, seu luxo... Mas sem sua noiva! - antes de partir, ela vira para ele novamente - E não pense nem por um segundo que eu senti algo além de nojo e desprezo por você. Queime no inferno, por que lá que é o lugar de um demônio! - Mercedes joga o buquê no chão e caminha a passos largos igreja a fora, enquanto Edgar permanece imobilizado por quase dez homens

E se eu pensei que esse tinha sido o ápice, ao ver a entrada da polícia, eu desisto de tentar entender qualquer coisa.

-Mas que merda é essa? - Edgar grunha ao ver os policiais 

-Está preso por furto, extorsão e tentativa de fuga. Podem algemá-lo.

-Mas o que? Não podem me prender, eu não fiz nada! Me solta! - ele grita, esperneia e aos berros ameaça Mercedes e nesse momento me dou conta de que ela não está mais aqui

-Mercedes... Onde ela está, Maysa?

-Eu... eu não sei. Meu Deus, o que está acontecendo? Parece um pesadelo!

Me levanto do banco, disposto a correr para alcançá-la, mas com a confusão e tumulto que está essa igreja, é impossível me locomover.

-Michael, tome aqui! - uma senhora que já vi algumas vezes ao lado de Mercedes me chama, estendendo uma chave - Tenho certeza que ela foi para o apartamento.

-Obrigado! - pego a chave da sua mão e rapidamente a guardo no bolso - Eu, eu vou pra lá agora mesmo!

-Mano, acha que consegue dirigir desse jeito?

-Pode apostar que sim, Maysa! - com muita dificuldade e esbarrões, finalmente consigo sair da igreja

   Entro no meu carro, e com os dedos trêmulos consigo encaixar a chave na ignição. Devo ter extrapolado todos os limites de velocidade, dirigindo o mais rápido possível até o apartamento de Mercedes.
   Assim que o porteiro permite minha entrada, corro para o elevador e aperto o botão do sexto andar. Não foi preciso usar a chave, pois a porta está destrancada. Entro afobado em seu apartamento, mas diminuo os passos assim que a vejo. Mercedes está apoiada na janela e assim que nota minha presença, se vira de frente para mim.
  Tanto eu quanto ela não sabemos como agir. Seu rosto está molhado pelas lágrimas e em meio à emoção e todos os sentimentos contidos, acabamos sorrindo um para o outro. 

 Meu coração grita por Mercedes e eu lhe obedeço sem protestar. Ela parece sentir o mesmo, pois vem ao meu encontro, encaixando-se nos meus braços. Mantenho minha garota agarrada à mim, abraçando-lhe com força e desespero.

-Michael... - ela chora, ri, beija todo o meu rosto e volta a me abraçar

-Princesa... - retribuo seu carinho na mesma intensidade, talvez até com mais urgência

Há poucos minutos eu quase perdi a mulher da minha vida e agora ela está aqui comigo. Não sei o que passou pela sua cabeça, quais foram os seus planos... Temos tanto o que dizer um para o outro, mas agora não é momento. Agora tudo que eu quero é ficar abraçado à ela e não soltá-la nunca mais


Capítulo 50

Mercedes


Finalmente o pesadelo acabou. Ainda não acredito que tive coragem de fazer o que fiz hoje. Apesar de todo sofrimento que isso me causou, sinto minha alma lavada. Mas agora vem o momento mais difícil, pedir perdão à Michael por tudo que fiz contra ele.

-Meu amor, estou tão aliviado... - ele diz no meu ouvido, me aquecendo com seu hálito quente e adocicado

Não consigo controlar minhas emoções. Um misto de sentimentos me invadem, tais como medo, insegurança, alívio e principalmente, remorso. Me aconchego em seus braços e me entrego a um choro descontrolado.

-Querida, por que chora assim? Já passou, meu amor... Já passou... - e quanto mais ele me acalenta, mais sinto a dor do remorso me dilacerar

-Michael, me perdoa... Me perdoa, por favor! - lentamente me ajoelho aos seus pés e eu o vejo sem reação. Ele tenta dizer algo, mas logo lhe corto - Eu fui tão má com você... Meu Deus, eu estou tão envergonhada...

-Merche, do que está falando? Se acalme, por favor...

-Não, eu não posso me acalmar! - digo entre soluços - Durante todos esses anos eu te culpei por ter acabado com a minha vida quando na verdade você era inocente! Eu não acreditei em você e foi preciso o Edgar confessar a verdade para que eu caísse na real. Eu sei que não mereço nem o seu perdão, mas eu vou implorar até perder as minhas forças... - agarro-me nas suas pernas, molhando sua calça com as minhas lágrimas

-Mercedes... - Michael delicadamente puxa meus braços, me levantando novamente - Mercedes, olha pra mim.

-Não posso! Não consigo nem olhar pra você... Eu fui um monstro durante todo esse tempo e sei que mereço seu desprezo e...

-Chega! Não admito que continue dizendo essas bobagens. Mercedes, eu não tenho nada o que perdoar...

-Como não? - me solto dos seus braços e me afasto - Por culpa minha você tem sofrido injustiças, eu te magoei tantas vezes, te ofendi e lhe acusei de coisas terríveis! - pauso meu discurso por conta dos soluços e choro novamente - Eu sei que nada que eu fizer vai mudar o que passou, mas eu juro que eu pudesse voltar atrás, eu nunca teria lhe culpado... - sinto o conforto do seu abraço novamente. Na verdade estou surpresa, pois não esperava essa reação

-Sabe o quanto desejei que esse dia chegasse?

-O dia em que eu teria que implorar pelo seu perdão? Eu não me me importo! Eu me ajoelho aos seus pés, faço tudo que você quiser, mas por favor me perdoe...

-Meu amor, olha pra mim! - ele envolve meu rosto em torno das suas mãos delicadamente, com o olhar profundo em meus olhos - Sempre desejei que a verdade fosse revelada, mas em momento algum queria te ver assim, Merche. Se tem alguém aqui que precisa pedir perdão sou eu. - tento protestar, mas ele impede, levando o dedo polegar aos meus lábios - Já passou da hora de fazer isso, Mercedes. Qualquer um no seu lugar teria me culpado, porque a canalhice que eu cometi deu brecha para você acreditar nisso. Eu não fui correto, te abandonei na primeira dificuldade e se eu tivesse ficado do seu lado, lutado pelo nosso casamento, essa barbárie não teria acontecido... - enxugo suas lágrimas, que assim como as minhas, descem como torrentes

-Não podíamos prever o futuro, Michael. E isso não anula os meus erros.

-Nem os meus. O que temos que fazer é abrir nossos corações e nos perdoar. O passado nunca poderá ser mudado, mas o presente e o futuro sim.

-Realmente me perdoou? Eu te magoei tanto...

-Eu também te magoei e quero que você me perdoe também. Sei que levará tempo para conquistar sua confiança novamente, mas eu prometo que te provarei todos os dias que eu mudei, que não sou mais um covarde...

-Shhi... A única coisa que quero de você é o seu amor, o seu carinho e a sua proteção...

-Oh Merche... - encosto minha cabeça no seu peito e sinto seus lábios beijarem minha testa

-Eu senti tanto sua falta, tanto... Acho que quis forçar minha mente a te culpar para tentar suprir a saudade e a dor de ter te perdido.

-Mas isso passou. E na verdade eu mereci tudo o que sofri e tive que aguentar pelas minhas escolhas erradas. E quer saber? Eu só não desisti porque bem no fundo do meu coração eu tinha uma mísera esperança de te encontrar um dia, de poder olhar nos seus olhos e dizer o quanto te amo.

-E por que não diz agora? - ele ri junto comigo, transformando o semblante triste em um sorriso iluminado

-Te amo, te amo, te amo, minha pequena! - repete, enquanto beija minha boca sem parar

-Eu também te amo tanto, meu amor. Sempre te amei...

-Eu sei... - sussurra no meu ouvido, sorrindo e me beijando carinhosamente

-Faz amor comigo, por favor... Preciso te sentir, preciso do seu amor...

-Não precisa pedir, meu anjo. Mas antes, me deixe fazer uma coisa.

-O que? - ele me olha com malícia e depois fita o meu vestido

-O que desejei fazer no momento que te vi vestida nessa... coisa horrorosa! - antes que eu pudesse questioná-lo, Michael me surpreende ao começar a rasgar meu vestido

-Michael! - ele me ignora e continua a rasgá-lo tão rápido e sem nenhum esforço que me espanta. Agora que estou apenas de lingerie ele sorri satisfeito, me olhando com desejo

-Agora sim... É essa lingerie que pretendia usar na sua lua de mel?

-É com ela que pretendo usar com você. - Michael me puxa pela cintura, colando seu corpo no meu

-Gostosa... Minha gostosa...

   Sinto um frio na barriga me atingir quando ele aproxima seu rosto para os nossos lábios se tocarem. Sua língua trava um intensa briga com a minha, meus hormônios estão a flor da pele, e estou cada vez mas seduzida, bamba e quente. 
    Michael puxa meus cabelos acima da nuca, desfazendo meu penteado; enquanto com a outra mão me aperta a cintura, me deixando completamente louca de tesão. Rapidamente arranca meu sutiã e eu sinto meus pelos arrepiados, meus mamilos enrijecidos roçam seu peito, agora nu, já que também aproveitei para arrancar sua camisa. 
   Ainda me beijando com urgência, ele me pega no colo e me leva até meu quarto, jogando-me em cima da cama. Enquanto se livra da calça jeans, aproveito para tirar minha calcinha, jogando-a contra seu rosto

-Cheiro de mulher... Delícia. - murmura ao inalar minha calcinha de renda branca

   Michael deita seu corpo sob o meu e começa a chupar meus seios com seus lábios suculentos e carnudos. Minha intimidade pulsa, completamente molhada, latejando tamanha excitação que estou sentindo. Seus dedos hábeis e longos tocam minha virilha e nesse momento ele inicia uma torturante e delirante massagem em meu clítoris, utilizando movimentos intensos e profundos, me levando a beira da insanidade.

-Ooh Michael... - grito ao sentir seus dedos penetrarem minha intimidade - Não pare com eles... É tão bom...

-Tão molhadinha... Estou morrendo de vontade de provar seu sabor...

Michael desce sua cabeça até o meio das minhas coxas, seus lábios tocam minha intimidade e sua língua acaricia meu clítoris lentamente. Nesse momento, agarro seu cabelo, enroscando meus dedos entre seus fios negros. Ele continua a me chupar e beijar enquanto suas mãos apertam minhas coxas, alternando em meus seios. Estou extremamente excitada e meus gemidos cada vez mais altos e intensos denunciam a aproximação do meu clímax.

-Cacete... Oh, sua língua é tão gostosa... Céus... - gemo cada vez mais alto seu nome enquanto me desmancho em sua boca. Michael lambe os lábios e meus olhos pairam diretamente no volume notório na sua cueca

Michael volta a me beijar sensualmente, me apertando, beliscando e enchendo-me de chupões e mordidas. Ele rapidamente me vira de costas e começa a beijar minhas costas, arranha e mordisca. Entreabre minhas pernas trêmulas e se debruça em mim

-Empina esse traseiro gostoso, ok? - obedeço sua ordem, levando um tapinha em seguida

   Enquanto me dá leves mordidas na nuca, Michael me penetra com seu membro endurecido e molhado. Solto um gemido abafado quando ele toca minha intimidade lá no fundo. Começa a puxar meus cabelos e os movimentos frenéticos da sua penetração aumentam o vai e vem do seu corpo sob o meu, me deixando louca de prazer. Não consigo segurar os gemidos e grito seu nome cada vez mais alto. Michael continua a meter com força, rebolando deliciosamente seu pau dentro de mim. Novamente gozo como nunca e ele continuava a puxar meus cabelos e apertar minha cintura.

-Quer mais, amor? - pergunta, já sabendo a minha resposta

-Quero muito mais. Quero gozar com você...

Michael me vira para ele e volta a chupar meus seios enquanto a outra mão me masturba novamente. Seus dedos me proporcionam tanto prazer, que passo a empurrá-los para mais fundo na minha intimidade, me fazendo sentir como se estivesse nas nuvens. Novamente começo a gemer loucamente enquanto sinto sua língua pincelar meu mamilo.

-Amor, eu preciso de você... - murmura com a voz cada vez mais rouca - Preciso te amar bem gostoso...

-Então vem, baby...

    Michael me coloca sentada por cima. Nesse momento seu membro me toca fundo, me preenchendo por completo, deixando minha intimidade ainda mais molhada. Cavalgo incansavelmente enquanto ele acaricia meus seios e beija meus lábios com carinho e desejo ardente. 
    Ele passa a apertar minhas nádegas com as duas mãos, ora estapeando, ora beliscando, e mais uma vez gozo freneticamente, dessa vez com Michael. Sinto seu sêmen quente me preencher e se misturar com meu líquido.
   Sua expressão de prazer estampa sua face, o que acaba aumentando meu tesão. Continuamos essa dança sincronizada, erótica e deliciosa até os movimentos diminuírem de intensidade. Então deixo meu corpo cair sobre o dele.
    Apesar do frio dessa tarde chuvosa que entra pela janela, estamos completamente suados e afobados, nos beijando com calma e doçura. Ainda estamos fundidos um no outro e Michael continua acariciando minhas costas e nádegas.
    Aos poucos nossos corpos vão se esfriando,recompomos a respiração e o controle dos nossos batimentos. Lentamente desencaixo nossos corpos e o vejo fazer uma careta. Me viro para o lado e Michael faz o mesmo, deitando de conchinha comigo. Sentir sua respiração tão perto me trás uma paz tão grande, me dando a certeza que tudo que eu fiz valeu a pena. Amar Michael Jackson sempre valerá a pena.


Capítulo 51

Michael


Enlaço meu braço na sua cintura, contornando a ponta dos meus dedos pela sua pele. Sorrio ao ver o arrepio em seu corpo. Mercedes suspira e enlaça nossos dedos.

-Isso é tão bom. - digo, após dar uns beijinhos no seu ombro

-O que?

-Saber que você não vai se levantar dessa cama irritada, arrependida e me xingando dos piores nomes. - Mercedes dá uma risadinha, repousando um beijo na ponta dos meus dedos

-Nunca me levantei arrependida. Irritada sim, mas não arrependida.

-Sempre imaginei isso... - rio. Permanecemos em um silêncio gostoso e agradável

-Amor, você está bem? Dá pra ouvir daqui seus batimentos acelerados. - ela se vira de frente pra mim, levando sua mão ao meu peito

-Nunca me senti tão bem como agora. É só que... é emoção demais em tão pouco tempo. Você estava no altar com Edgar e agora está aqui comigo... Realmente pensei que fosse te perder.

-Me desculpe por isso. Eu pensei em revelar tudo, mas eu precisava ir até o final com meu plano. Sinto muito se te fiz sofrer...

-Então aquele dia que apareceu no portão de casa tão desesperada...

-Eu já sabia da verdade. - conclui - Eu estava transtornada, tão confusa... Minha vontade era de me jogar nos seus braços, mas então eu pensei melhor. Eu não podia transformar todo meu esforço em vão.

-Você se arriscou muito, Mercedes. Edgar deve estar te odiando agora... Falando nisso, por que ele foi preso? Conseguiu provar a culpa dele pelo incêndio?

-Não... - ela suspira, apoiando o queixo no meu peito - Nunca conseguirei provar que ele e Leon fizeram isso, até porque isso não mudará as coisas, não trará minha vida de volta.

-Eu sinto tanto, Mercedes... - fecho meus olhos e deixo uma lágrima de dor rolar pelo meu rosto - Dói muito saber que minha própria família te causou tanto sofrimento. Me sinto tão culpado...

-Não sinta. Leon e eu éramos inimigos antes mesmo de eu te conhecer. De uma forma ou outra ele faria algo para me prejudicar. E quanto a sua pergunta, bem... Recentemente Judith e eu descobrimos que Edgar estava roubando a empresa. Ele vem sendo responsável pelos desfalques e aproveitou o contrato com a empreiteira para despistar.

-Que desgraçado! Como eu nunca percebi? Por que não me contou isso?

-Porque eu precisava de provas, Michael. Se tem uma coisa que eu aprendi ao longo do tempo é ser minuciosa. Eu esperei ter todas as provas em mãos para denunciá-lo. Então eu o denunciei esta manhã. Levei a passagem dele para a lua de mel e disse ao delegado que ele planejava fugir, por isso ele foi preso em flagrante.

-Não dá pra acreditar... Roubo até seria algo de se esperar, mas ainda estou chocado pelo fato dele ter planejado esse incêndio...

-Ele nunca sofrerá o que sofremos, mas hoje eu vi que ferir seu ego é pior que qualquer outra coisa para ele.

-Então esse tempo todo você só quis usá-lo?

-O que você acha? - ela sorri genuinamente e me dá um beijo de leve nos lábios - Minha única intensão foi essa. Ok, não vou mentir... Também quis te provocar. - ela esconde o rosto no meu pescoço e ri quando lhe ataco com cutucadas - Mas agora é sério, eu nunca... Nunca tive nada com ele. Jamais teria estômago pra tal coisa.

-Olha, você não sabe como me deixa feliz dizendo isso... Mas sabe, estou preocupado.

-Com o que?

-Você sabe que ele não passará o resto da vida na cadeia. Agora que ele sabe do seu plano e principalmente depois da senhorita dizer que somos amantes... ele está te odiando, Mercedes. Tenho certeza que vai querer vingança. Tenho medo que ele tente te machucar...

-Estou preparada, Michael. Tive que aprender a me virar sozinha e depois de tudo que passei, não tenho medo de nada e também não tenho nada a perder.

-Como é? - me recosto na cama, lhe encarando com reprovação - Como pode dizer isso?

-Desculpa, vai... - ela se senta no meu colo, beijando-me carinhosamente e me abraça - É que eu passei tanto tempo sozinha que ainda não me acostumei... Afinal, não tem nem uma hora que estamos... juntos.

-Então estamos mesmo juntos? Você não vai me xingar, bater e me enxotar como sempre faz?

-Não! - ela ri - Ao não ser que você queira...

-Jamais! Não quero me afastar de você nunca mais... - me deito novamente, trazendo-a para os meus braços

-As coisas não serão tão fáceis como pensa...

-Eu sei. Temos muito o que acertar, mas vamos lutar juntos. Agora, que tal esquecer tudo isso e aproveitar nossa "lua-de-mel"...? - ela arqueia a sobrancelha e sorri

-Lua-de-mel é? Ótima ideia! - Mercedes se acomoda no meu colo, deslizando os dedos pela minha barba para fazer - Quer saber como conheci meu pai?

-Claro, amor! Me conta.

-Bem, depois que a Gina morreu eu... tive que sair do Brooklyn. Eu estava perdida, desesperada... E cometi a besteira de me jogar na frente de um carro. E então eu acordei em um hospital e que descobri que tinha perdido...

-Perdido o que? - sinto que Mercedes se incomoda com minha pergunta, como se não quisesse tocar no assunto

-Eu tinha perdido... tudo. - ela dá um pigarro e continua - Meus documentos, dinheiro, enfim... Nesse mesmo dia eu descobri que tinha um pai que estava me procurando há dezoito anos.

-Imagino que tenha ficado chocada...

-E muito! Mas então ele me contou toda a história, disse que amava a minha mãe e por culpa do meu avô tiveram que se afastar. Eu consegui entendê-lo e aceitei ir embora com Gregory. Ele foi tão bom comigo... E não digo só por ter me dado dinheiro, luxo e educação. Ele me amava, esteve o tempo todo ao meu lado, foi um anjo. Acho que sem seu amor eu não teria suportado minha vida...

-Eu sinto muito... Você deve ter sofrido muito quando o perdeu.

-Muito. A mesma dor que senti quando perdi a Gina. E por isso eu voltei disposta a me vingar, assim eu manteria minha mente ocupada, teria força e não me permitiria sofrer. É... Eu fui covarde. - ela sorri fraco

-Você foi e é guerreira. Qualquer um no seu lugar teria desistido, mas você deu a volta por cima e eu me orgulho muito da mulher que se tornou, porque eu sempre soube que lá no fundo você não tinha deixado de ser a garota pela qual me apaixonei.

-Você também não deixou de ser o garotinho pelo qual me apaixonei... Eu te amo.

-Também te amo... Gostaria de ter conhecido seu pai.

-Ele diria o mesmo. Tenho certeza que se dariam bem. Você pelo menos teria um sogro amável.

-Sinto muito pelo sogro que te ofereci. - ela ri

-A culpa não é sua por eu ter me apaixonado pelo filho do meu inimigo! Por que está assim? Parece distante...

-É difícil constatar a realidade, Mercedes. Meu pai é um monstro e eu nunca percebi a gravidade.

-Não pense mais nisso. O importante é que você não é como ele e eu sempre vou te amar independente do que ele fizer contra nós.

-Você é tão rara... - trocamos um beijo carinhoso e demorado - Nunca vou conseguir matar toda a saudade que senti.

-Nem eu... Então me abraça, feche os olhos e durma comigo. Estamos fodidamente cansados!

-Você tem razão. - puxo o lençol para nos cobrir e em seguida lhe abraço apertado

Realmente o sono logo veio acompanhado do medo de acordar e ver que tudo não passou de um sonho.

(...)

    Saio do banho e procuro por uma toalha, já que minhas roupas estão espalhadas pela casa. Mercedes continua dormindo profundamente, o que era de se esperar já que ela me confessou que não pregou o olho nos últimos dias. Decido então preparar o café da manhã e me arrisco na cozinha, pois não sei se seu paladar mudou com o passar dos anos. 
Estou tão concentrado que demoro a perceber que ela me chama. Logo Mercedes aparece com a cara assustada. Assim que me vê, ela suspira aliviada e vem até mim.

-Bom dia, gata...

-Nossa, que susto você me deu! - diz, me abraçando forte

-Por que? Pensou que eu tinha metido o pé?

-Pensei que tudo tivesse sido um sonho. Quando acordei e não vi você ali eu fiquei doida!

-Eu também pensei que fosse um sonho. Mas então eu acordei e te vi tão linda do meu lado... Desculpa não te acordar, você parecia bem cansada.

-Tudo bem. Você fez certo, afinal odeio que me acordem! - ela se senta na bancada de frente pra mim. Fito atentamente o contorno do seu corpo por debaixo da minha camisa

-Olha... Ainda conserva alguns hábitos. Principalmente de roubar minha camisa!

-Não gostou? - pergunta, após trocarmos um beijo gostoso

-Está extremamente sexy, mas vou precisar dela, amor.

-Pra que? Já vai embora?

-Infelizmente. Tenho que ir pra casa, ver a Agnes e... quero ter uma conversa séria com o meu pai.

-Pra que mexer nisso, Michael?

-Merche, eu tenho o direito de ouvir a verdade da boca dele! Afinal ele foi o grande responsável por nos afastarmos e sofrermos tanto. Eu preciso disso.

-Tenho medo que se magoe. Você pode querer parecer durão, mas eu sei qual o seu ponto fraco.

-Não se preocupe, linda. Eu tenho você e nada vai tirar essa minha felicidade!

-Hm... Eu posso ir com você? Quero ver a Agnes.

-Claro! Ela te adora, sabia? Você seria uma excelente mãe! - Mercedes muda a fisionomia e se levanta - Disse alguma coisa errada?

-Não. - murmura. Ela pega alguma coisa na geladeira para tentar me despistar

-Amor...

-É sério, está tudo bem. Me diz, o que preparou pra gente? - ela muda de assunto e eu percebo isso imediatamente

-Ok... Fiz panquecas com recheio de brigadeiro.

-Oh meu Deus, você ainda lembra!!

-Ufa... Pensei que não gostava mais disso.

-Tá brincando? - Merche praticamente devora as panquecas e eu me divirto com sua gula que parece ter só aumentado com o tempo - Você tem mãos de fada, amor.

-Não só na cozinha... - sussurro no seu ouvido. Merche geme baixinho ao sentir meu membro enrijecido por baixo da toalha

-Está tão sexy vestido assim, Sr. Jackson... - pego sua mão e lentamente chupo o chocolate que está grudado em seus dedos. Ela feche os olhos e sorri

-Limpinhos! Amor...? - ela abre os olhos novamente

-O que?

-Minha camisa, será que dá pra devolver? - ela revira os olhos

-Você é um porre, sabia? E se quer a camisa, vem tirar... - ela morde o lábio, bem safada, assim como sempre foi

-Merche, não faz isso comigo... Diz que pelo menos está vestindo algo por baixo...

-Não mesmo. - ela nega com a cabeça - E então? Quer ou não quer a camisa? - respiro fundo e me aproximo, começando a desabotoar os primeiros botões

Quando chego na metade, seus seios praticamente pulam pra fora e meu membro começa a latejar. Eles parecem convidativos e sinto uma vontade louca de abocanhá-los. Rasgo o restante dos botões e lhe coloco sentada na bancada.
Enquanto chupo seu seio esquerdo, levo minha mão até sua intimidade molhada e introduzo dois dedos na sua entrada. Mercedes geme, se contorce e também aproveita para tirar minha toalha.

-Não canso de admirar seus dotes... - ela sussurra em meu ouvido, me fazendo rir

-Que tal brincar com ele ao invés de apenas admirá-lo?

-Excelente ideia...

Merche envolve sua mão em torno do meu pau e faz uma lenta e torturante massagem. Meu membro cresce em sua mão e o sinto cada vez mais quente e endurecido. Ela o encaixa na sua entrada e meu pênis desliza fácil pela sua intimidade úmida.

-Que delícia estar dentro de você, bebê...

-Me fode bem gostoso... Oh isso é tão bom...

  Abro bem suas pernas e estoco com força até o fundo. Mercedes grita, arranha meu peito e se esfrega no meu corpo. Perco totalmente o controle e começo a estocar como um animal selvagem no cio. Tive receio de machucá-la, mas suas expressões de prazer me tranquilizam. Ela pede para eu meter cada vez mais forte e eu obedeço sem pensar duas vezes.

-Isso, Mike... Estou quase lá... Não para!!

-Rebola, minha princesa... Deixa eu comer bem gostoso sua bocetinha. Ela está pronta pra mim... Goze comigo...

   Chegamos ao nosso ápice e eu continuo metendo com força. Merche geme mais alto entre intervalos, ora me beijando, ora mordiscando meus lábios. Nos abraçamos forte quando atingimos nossos orgasmos. Continuo rebolando meu pau dentro dela, lento e deliciosamente... 
Merche continua com as pernas enlaçadas na minha cintura, com meu amigo todo preenchido dentro dela. A sensação é tão inebriante que dá vontade de nunca sair dessa posição.

-Linda... Amo você. Amo mais quando geme meu nome bem alto. - ela me dá um tapinha na bochecha e ri

-Metido! Vem, tome um banho comigo. Quem sabe assim não gemo seu nome bem alto outra vez...

Capítulo 52

Mercedes


 É um pouco estranho entrar nessa casa acompanhada de Michael. Acho que não conseguiremos disfarçar nossos olhares apaixonados e eu temo que Agnes perceba e não aprove nossa relação. Sei que é cedo para contarmos, mas ainda assim acho que não será boa ideia, afinal tem pouquíssimo tempo que ele se divorciou de Dominique e pode ser que sua filha estranhe.

-Estou te achando nervoso. - comento assim que estaciono o carro - Tem certeza que quer fazer isso?

-Absoluta. E já disse, não se preocupe comigo. - ele sorri, tentando me passar confiança

Por entre as grades do portão de aço consigo avistar Leon acompanhado da enfermeira. Ótimo, agora que não entro mesmo nesse lugar!

-Olha ele lá. - aponto meu dedo em direção à ele - Acho melhor eu não ir. Não quero causar mais confusão.

-Nada disso! Não vou permitir que ele te insulte.

-Está tudo bem. Olha, eu tenho mesmo que passar no hotel para ver a Dorothy. Outro dia venho ver a Agnes.

-Tudo bem... - ele suspira e eu lhe beijo na boca - Posso te ver mais tarde?

-Tá brincando? - ele ri - Claro. Vou te esperar...

-Eu te amo. - diz ao destravar a porta

-Te amo mais. Se cuida! - nos despedimos com um beijo carinhoso e eu o espero entrar para ir embora, desejando que sua conversa com o pai não lhe machuque como em todas as outras vezes

(...)

-Ai Dorothy, parece um sonho... - suspiro completamente plena após contar os últimos acontecimentos para ela

-Eu fico tão feliz por você, minha linda! Não sabe como desejei ver esse sorriso, esses olhinhos brilhando...

-Eu o amo tanto, tanto... Nem acredito que estamos juntos, sem mágoas, ressentimentos...

-Então vocês falaram sobre tudo? - afirmo, balançando a cabeça - Contou à ele sobre a gravidez também?

-Não. Não tive coragem. Ai, só de lembrar tudo que sofri, eu...

-Não chore, querida. Sei que é difícil relembrar tudo isso, mas acho que ele tem o direito de saber. Afinal esse bebê também era dele.

-E pra que mexer nessa ferida agora? Só vai servir para nos causa dor, remorso... Não quero dividir com ele esse episódio tão triste da minha vida.

-Não concordo, mas entendo seu lado. Mas quando tiverem o filho de vocês, essa dor vai aliviar. - abaixo minha cabeça e fecho os olhos, tentando a todo custo não chorar - O que foi, querida?

-Não vamos ter filhos, você sabe muito bem disso! O médico foi muito direto quando disse que eu dificilmente poderia engravidar novamente.

-Mas não é impossível, querida. Você é nova, é saudável e pode se tratar.

-Eu não quero isso, Dorothy. Ele foi muito claro quando anulou minhas esperanças de um dia ser mãe. - enxugo minhas lágrimas e me recomponho - Até antes de me reconciliar com o Michael isso não me abalava. Eu não queria ser mãe mesmo. Michael já é pai. Ele ama a Agnes e a felicidade dele já está completa.

-E a sua? Não pensa na sua felicidade?

-Eu vou ficar bem. Será que podemos mudar de assunto?

-Claro, me desculpe. Sei que falar disso te fere... Bom, mas o importante é que vocês estão juntos! Finalmente essa vingança acabou! - continuo mantendo um semblante sério e Dorothy percebe - Não me diga que ainda pensa nisso? Querida, você já sabe a verdade, se vingou do Edgar. Não acha que está bom?

-Não é mais questão de vingança, e sim de justiça. Caramba, Dorothy! Leon acabou não só com a minha vida, mas com a de todos os meus amigos! A Gina morreu, Tommy nunca vai se recuperar, na verdade ninguém nunca vai se recuperar! Ainda acha que posso deixar esse homem impune? Me dói profundamente saber que nunca provarei sua culpa, Leon nunca vai receber sua punição.

-E você acha que pode interferir nisso? Você não é Deus, Mercedes!

-Mas sou humana. Infelizmente ainda não sou um espírito evoluído e não posso simplesmente perdoá-lo e viver como se nada tivesse acontecido.

-E quanto ao Michael? Como ele fica nesse história?

-Eu não quero magoá-lo ou prejudicá-lo, assim como não espero que ele me apoie. Eu o amo, quero ficar com ele até o último dia da minha vida, mas não posso fechar meus olhos pra realidade. Esse é o preço de ter me apaixonado pelo filho do meu maior inimigo. Uma hora esse embate teria que acontecer.

-E o que pretende fazer com Leon?

-Eu aprendi que a maior vingança é atingir o ponto fraco do inimigo, independente se esse ponto parece grave ou tolo. Eu feri o orgulho do Edgar e agora falta o Leon. O que ele mais ama nessa vida é o poder e o dinheiro. Ele vai receber a lição dele. Não vou pagar na mesma moeda porque ontem eu vi que ainda resta bondade no meu coração. Só quero que ele aprenda que dinheiro não o torna o rei do universo.

-Entendi e concordo com a sua visão. Eu não posso te convencer do contrário porque eu não estive na sua pele. Sei que é uma boa mulher e só quer os seus direitos. Mas... acha que o Michael vai aceitar isso? Afinal você vai de certa forma prejudicá-la. Vai tomar o dinheiro dele.

-Bom... Aí sim eu vou saber se ele mudou mesmo e aprendeu a andar com as próprias pernas, ou se continua na zona de conforto. Só assim terei a certeza que o passado foi enterrado. Mas eu não quero pensar nisso agora. Pela primeira vez eu parei de planejar. Quero viver o agora e no fundo eu tenho a certeza de que seremos fortes.
Capítulo 53

Michael


   Olhar para o meu pai depois de ter a confirmação do seu crime é a coisa mais dolorosa que posso fazer. É horrível saber que meu próprio pai é um monstro que fez todas essas maldades por dinheiro e ganância. Ainda não sei se terei estômago para enfrentá-lo.
   Depois de passar um tempo brincando com Agnes, decido subir até seu quarto e por um fim a todo esse tormento. Já está na hora de eu me portar como um homem diante de Leon Jackson.
A enfermeira termina de ajeitá-lo na cama e ao me ver, ela nos deixa sozinhos. Leon me olha com surpresa. Percebo que tem alguns fios colados em seu peito e uma tela monitora seus batimentos, que segundo Maysa, foi ocasionado pelas fortes emoções de saber que Edgar foi preso no dia do casamento com Mercedes. Foi demais para o seu coração.

-Olha só quem decidiu visitar os mortos... - decido ignorar seu cinismo

-O que aconteceu com você?

-Nada demais, apenas mais um desgosto na minha vida maldita. - ele é interrompido por uma crise de tosse - As notícias correm, Michael. Descobri pelo jornal que meu próprio filho cometeu a burrada de querer se casar com aquela... - seus batimentos aceleram a medida que ele tenta se referir à Mercedes

-Edgar está começando a pagar por tudo de ruim que nos causou, assim como um dia você pagará por ter destruído a vida da Merche!

-Vejam só... - ele começa a gargalhar - Quer dizer então que está novamente do lado daquela mulher?

-Finalmente resolvemos nossos problemas. Já sabemos que você e Edgar incendiaram o galpão da Mercedes e aproveitaram para me culpar. Não tente negar!

-E você veio aqui para quê, afinal? Acha que vai mudar alguma coisa?

-Então você confessa? Confessa na cara dura que foi sim o responsável, e pior, sem esboçar nenhuma reação?

-A única coisa que lamento é de não ter torrado sua namoradinha naquele incêndio. Não sabe como desejei isso! - sua calma e destreza me impressionam de tal forma que sinto o chão ruir aos meus pés. Nunca pensei que doeria tanto descobrir que meu pai é um demônio

-Agora me diz. Por que? Por que, pai? Já não estava satisfeito de me separar dela? Eu fiz tudo que você me pediu, eu a deixei para me casar com a Dominique. Como teve coragem de pisotear ainda mais no sofrimento dela?

-Eu a odeio! - ele grita - Sempre odiei essa desgraçada! Sabe o que senti quando a vi se aproveitando de você?

-Mercedes sempre me amou!

-Pare de se iludir! Será que até depois de adulto ainda acredita em contos de fada? Ela nunca te amou, só se aproximou de você para me infernizar. E agora ela está fazendo o mesmo! Michael, se você se unir a mim nós poderemos derrotá-la juntos! Edgar já se mostrou ser um imbecil, mas você ainda tem chances!

-Você é doente! - berro, interrompendo seu discurso insano - Nunca vou me unir a você, nunca! - me viro de costas para não ter que olhar para a sua cara. Leon começa a rir, provocando ainda mais a minha ira

-Nunca deixou de ser covarde... Não sei como ainda insisto com você. Mas era de se esperar... Quem nasce bastardo não herda certas coisas. - ouvi-lo dizer essa frase me congela dos pés a cabeça. Meu coração para e minha mente me faz crer que eu ouvi errado

-O que disse? - me viro novamente e o vejo me encarar seriamente

-O que acabou de ouvir. Já passou da hora de por as cartas na mesa. Você não é meu filho. Nada mais é que o fruto da traição da sua mãe!

-Não... Não é verdade. Só está dizendo isso para me provocar!

-Acha mesmo que gostaria de estar revelando essa mancha no meu passado? Você sempre me perguntou porque nunca te tratei como um filho. Está aí a resposta. Como eu poderia amar o filho do homem que sua mãe amava? - me sento na poltrona e tento assimilar tudo que acabo de ouvir. Estou zonzo, confuso e totalmente perdido

-Então é por isso que sempre me detestou... É por isso que afastou minha mãe de nós! Por que fez isso? Por que não simplesmente a deixou em paz?

-Para manchar minha reputação? - ele ri - Jamais. O maior castigo que eu poderia dar à ela era tirar seu amante do meu caminho e obrigá-la a continuar casada comigo. Ela deveria ter me agradecido, pois eu podia ter feito pior. Poderia ter sumido com você, mas não... Eu te aceitei e vi a criatura que eu criei se virar contra mim. Você nunca negou seu sangue!

-Por que não fez isso então? - exaspero, me desligando do torpor - Por que não nos expulsou da sua vida? Teria me polpado de conviver com um ser tão asqueroso feito você!

-Ingrato! É isso que você é! Eu te dei tudo, Michael. Paguei seus luxos, te dei meu sobrenome, te transformei presidente da minha empresa!

-Sim, você me deu tudo isso. Menos o que eu mais precisei. Amor. Você realmente não tinha obrigação de me amar, mas eu não tive culpa. Não tive culpa por ter nascido ainda mais na sua família, na sua mansão! - entramos em um silêncio angustiante

Aos poucos controlo minhas lágrimas e tento recuperar minha calma. Apesar da dor dilacerante que sinto no peito, eu tenho que ser forte, ou parecer forte, mesmo que por dentro eu esteja despedaçado.

-Você deveria ter agradecido pelo esforço que tive de suportá-lo debaixo do meu teto. Você e sua mãe são iguaizinhos e eu sabia que mais cedo ou mais tarde você iria agir exatamente como ela!

-Se agir como ela é ter caráter, eu fico feliz por isso. Minha mãe pode sim ter te traído, mas com toda certeza ela fez isso para tentar escapar do inferno que sempre foi conviver com você! E quer saber, apesar da dor que sinto, é um alívio saber que não carrego seu sangue!

-Não sabe o que está dizendo. Olha à sua volta. Tudo isso aqui é seu, mesmo que não mereça! Eu confiei meu império a você, porque... - ele puxa o ar com dificuldade - Porque no fundo eu sabia que você puxaria os dons do seu pai.

-Do que está dizendo?

-Nada! Não me pergunte mais nada! - diz, rangendo os dentes - Me deixe sozinho, Michael. Não tem mais nada para fazer aqui. Vá!

   Não consigo soltar minha voz ou esboçar qualquer outra emoção. Me sinto sufocado, ultrajado e tudo que quero fazer é sumir daqui. E assim o faço. Preciso ficar sozinho e pensar em tudo que acabo de ouvir. Minha vida é uma completa mentira. Minha mãe, que sempre vi como uma santa, mentiu pra mim. Permitiu que eu convivesse em um lar completamente falso e imoral. Eu não tenho identidade, na verdade nunca tive. Mas agora dói tanto que não sei se vou suportar.

(...)

   Depois de caminhar a esmo por horas a fio, desligado do mundo a minha volta, percebo que praticamente já anoiteceu. Olho para o meu celular e me deparo com milhares de chamadas não atendidas feitas por Mercedes. Por um momento sorrio ao pensar nela. Recordo de todos os momentos que ela esteve ao meu lado tentando me reerguer depois de incansáveis conflitos com Leon, e sei que dessa vez só ela pode me ajudar.

-Michael? - praticamente grita ao abrir a porta e me ver. Ela se assusta ao se dar conta do meu estado

Não consigo dizer nada. Meus olhos se enchem de lágrimas e eu lhe abraço forte, desabafando toda a dor que estou sentindo. Mercedes me acolhe solidariamente, me amparando e consolando, imaginando que essa reação foi causada por mais uma briga com Leon.

-Calma, meu amor... Estou aqui com você... - ela enxuga minhas lágrimas calmamente, sendo extremamente carinhosa e amável - Me conta o que aconteceu, hum?

-É tudo mentira, Mercedes. Minha vida é uma grande mentira!

-Por que diz isso?

-Leon Jackson não é meu pai. Ele me contou toda a verdade. - Merche arregala os olhos, espantada assim como eu fiquei quando soube

-O que? Como... como ele... Michael, eu não sei o que dizer... - ela me aperta contra si, e seus braços miúdos me passam uma proteção tão grande que não sei explicar - Vem aqui, você precisa deitar...

-Agora está tudo explicado... Agora sei porque Leon sempre me odiou; porque afastou minha mãe de nós. Ele quis castigá-la e descontou em mim todo seu ódio!

-Michael, eu sinto tanto...

-Porque minha mãe nunca me disse a verdade? Sabe quanto sofrimento ela poderia ter me polpado?

-Michael, você não sabe o que realmente aconteceu. Infelizmente sua mãe não está mais aqui para te contar toda a história, mas eu tenho certeza que você iria compreendê-la.

-Eu não sei nem o que pensar mais... Não tenho mais história, Mercedes. A única coisa que Leon disse é que minha mãe amava essa cara. Por isso ele me odeia tanto. Porque ele via em mim o homem que minha mãe amava.

-Michael, martelar a cabeça não vai adiantar nada. Sabe o que eu acho? A Corine deve saber de tudo.

-Você acha?

-Michael, ela te viu nascer. Pergunte à ela. Tenho certeza que isso vai te aliviar, pelo menos um pouco...

-Você tem razão. - tento me levantar, mas ela me impede

-Agora não! Michael, você precisa descansar, olha o seu estado. Tente ficar calmo, por favor...

-É tão difícil... Penso que minha vida poderia ter sido totalmente diferente. Por que ela me privou disso?

-Eu sei, amor... Pode parecer tolice o que vou dizer, mas tente olhar o lado bom. Ou... o menos ruim. Você não tem o sangue daquele assassino. Se lembra quantas vezes você desejou não ser filho dele?

-Você tem razão... Parece que rompi as correntes que me prendiam à ele. Mas eu ainda o amo, Mercedes. Mesmo com tudo isso, eu sempre o amei, sempre desejei que ele sentisse o mesmo por mim. Fiz de tudo para ser aceito, para dar orgulho. Mas nada mudaria seu sentimento por mim e mesmo agora sabendo que a culpa não era minha, meu coração está em cacos.

-E você deixa eu tentar colar esse cacos? - em meio a minha tristeza, consigo sorrir ao ver tanta doçura em seus gestos e suas palavras

-Você é a única que pode fazer isso. Sempre foi...

-Prometo que vou fazer de tudo para ver você sorrindo pra mim, Michael. Vou cuidar dessa ferida com todo meu amor e juntos vamos sair dessa. Confia em mim?

-Confio. Eu te amo tanto.

-Eu também te amo. - ela encosta minha cabeça no seu peito e faz uma carícia leve e delicada em meus cabelos

Mercedes sabe exatamente o que fazer e dizer para me acalmar. É incrível como temos uma sintonia tão forte desde o tempo em que éramos apenas amigos. E é justamente por isso que a amo tanto, porque antes de tudo ela é e sempre foi minha melhor amiga e eu confio minha vida em suas mãos.

Capítulo 54

Mercedes


    Ver meu amor tão fragilizado parte meu coração. Pra falar a verdade, na época que conheci a mãe do Michael eu cheguei a pensar nessa hipótese, mas achei que era coisa da minha cabeça e acabei deixando pra lá. Mas mesmo assim não deixei de me surpreender, principalmente com a forma bruta que Michael descobriu. 
   Me sinto impotente em vê-lo assim. Leon sempre foi seu ponto fraco e apesar das suas diferenças, Michael sempre o amou. Não vai ser fácil para ele curar essa dor, mas farei o possível para ajudá-lo. 
    Me certifico de que ele ainda continua dormindo em um sono profundo. Já amanheceu e eu decido me levantar para preparar um café reforçado para ele. Sei que está sem comer desde ontem e eu preciso dele forte para encarar mais um dia.
   Meu celular toca e eu corro para atender antes que Michael acorde. Sei que ele tem o sono leve e eu não quero atrapalhá-lo.

-Mercedes, é a Maysa. - reconheço sua voz aflita - Me diga que o Michael está com você, por favor!

-Não se preocupe, ele está aqui sim. Me desculpe, eu devia ter avisado... Aconteceu alguma coisa?

-Aconteceu. Dominique acaba de levar Agnes com ela.

-O que? - corro para a cozinha para poder falar mais a vontade - Como assim levou a Agnes?

-Ela soube da confusão na igreja e veio buscar a menina. Acusou Michael de ser adúltero e ameaçou pedir a guarda definitiva da Agnes!

-Mas como vocês permitiram isso? Dominique não tem moral nenhuma, esqueceu que ela também traiu o Michael?

-Ela é a mãe, o que eu podia fazer? Entre dois adúlteros, o juiz vai optar pela mãe, não acha?

-Droga, a culpa foi toda minha... Eu, eu vou dar um jeito nisso!

-Nem imagino qual será a reação dele, ainda mais depois de ontem. Já sei o que aconteceu... Mais essa agora...
-Michael não pode saber disso agora. Deixa que eu falo com ele. Olha, vou ter que desligar, acho que ele está acordando. Qualquer coisa me liga! - desligo o celular assim que vejo Michael se aproximar

-Com que falava...?

-Oi amor! Era... era com a Judith.

-Em pleno domingo? Vocês devem ser bem amigas... - ele sorri fraco, ainda desanimado

-Pois é... Como se sente? Está com a carinha um pouco melhor.

-Não sei ao certo como me sinto, mas estou mais conformado. É difícil apagar as lembranças de ontem, mas tem tanta coisa boa acontecendo na minha vida que não quero perder tempo chorando pelos cantos. Principalmente por Leon.

-É assim que quero te ver! Mas me promete que se quiser desabafar você vai falar comigo?

-Claro, princesa. - ele me beija delicadamente e me abraça - Sabe o que pensei? Podemos aproveitar o dia para passear. Eu, você e a Agnes. O que acha? - desvio meus olhos para o chão, tentando encontrar a melhor forma de dar a notícia - O que foi? Não gostou da ideia?

-Michael, eu preciso te contar uma coisa. Mas... preciso que se acalme...

-Por que? O que aconteceu? É com a Agnes? Ela está doente?

-Por favor, se acalme e me deixe falar. Tenho certeza que ela está bem, só que...

-Só que o quê? Me fala, Mercedes! - respiro profundamente e tento dizer

-Era a Maysa no telefone. Ela disse que a Dominique acabou de levar Agnes com ela.

-O que? Como assim levou? Não está dizendo que ela tirou Agnes de mim, não é?

-A culpa foi toda minha, me desculpe... - Michael começa a se desesperar, andando de um lado para o outro - Ela soube do que eu disse sobre nós no casamento e usou isso para pegar a Agnes. Me desculpe, eu juro que não imaginei que ela pudesse fazer isso...

-A culpa não é sua. Dominique disse com todas as letras que estaria na minha cola e que a qualquer momento ela iria tirar a Agnes de mim. Desgraçada! Eu vou buscar minha filha agora mesmo!

-Michael, por favor! - seguro firme seu braço, obrigando-o a me olhar - Não é assim que vai resolver as coisas. Maysa disse que ela foi acompanhada do advogado, fez tudo nos trâmites da lei. Eu sou advogada e infelizmente ela está no seu direito, pelo menos por enquanto.

-Mas isso não é justo, Mercedes! Ela não pode fazer isso e ficar na boa!

-Eu sei, eu sei... Ela te traiu sim e você tem provas. Só que agora ela também tem provas contra você, afinal a imprensa toda filmou quando eu disse claramente que nós somos amantes. Droga, o que eu tinha na cabeça quando fiz isso?

Agora me sinto dez vezes mais culpada. Porra, pela minha irresponsabilidade e impulsividade eu acabei prejudicando Michael seriamente. Eu tenho que fazer alguma coisa para reverter essa situação.

-Eu posso negar tudo. Posso dizer que menti, que fiz de propósito e...

-Você não vai fazer nada disso! - Michael me corta - Já disse que a culpa não foi sua. E quer saber, você não disse nenhuma mentira. Dominique quis se vingar de mim e teria feito isso de qualquer jeito. - ele me abraça carinhosamente, querendo deixar claro que não está me culpando pelo que aconteceu

-Mesmo assim, me desculpe. Eu acabei piorando tudo... Mas, olha pra mim. Eu juro que vou te ajudar no que eu puder!

-Acha que podemos entrar na justiça? Eu vou brigar pela guarda da Agnes e não vou descansar enquanto não ter minha filha de volta!

-Michael, tem certeza que quer fazer isso? Pense na Agnes. Imagina como ela vai ficar no meio de tantas brigas? Espere... Vamos encontrar outra solução.

-Eu sei que está certa, mas até quando vou aguentar isso? Não vou suportar ficar sem a minha filha, Merche...

-Você não vai! Eu juro que logo logo vai ter sua menina ao seu lado. Eu prometo! Pense que ela só está passando uns dias fora. Ela deve estar feliz, não acha? E por mais que Dominique seja pirada, ela não fará nada para prejudicar a Agnes. Você precisa manter a calma.

-Eu sei... Promete pra mim que esse pesadelo vai acabar? Porque sinceramente eu não aguento mais... - Michael encosta sua cabeça no meu ombro e novamente chora

-Eu prometo! Mas pra isso você precisa ser forte. É meio que óbvio que não posso ser sua advogada, mas eu te darei todos os conselhos, tudo que eu sei sobre guarda compartilhada, definitiva... Vai dar tudo certo. Quando foi que eu falhei, hein?

-Até que devo concordar. - ele sorri - Todas as vezes que me pediu pra confiar, você cumpriu com a palavra. E dessa vez não será diferente, me esforço a pensar positivo.

-Vai dar tudo certo. Agora relaxe, ok? Amanhã você conversa com a Dominique, visita a Agnes... Tudo vai voltar ao normal...
Capítulo 55

Michael


   Não adianta nada eu perder o controle e a razão. Se quero recuperar a guarda da minha filha, preciso ter paciência e confiança, por mais que pareça impossível. Nesses últimos dias após ser afastado de Agnes tenho feito de tudo para reverter a situação. Meu advogado pediu uma conciliação com Dominique, mas ela está irredutível. Ela quer se vingar a todo custo e não fará nada para me beneficiar.
   Felizmente para amenizar minha angústia, visito Agnes constantemente, ainda que por pouco tempo. Me dói vê-la perguntando quando voltará para casa e eu sou obrigado a omitir os fatos. Em meio a todo esse caos, conto com Mercedes para me apoiar, me tranquilizar e me amar. Já que não tenho mais Agnes comigo, estou ficando direto no seu apartamento. Pelo menos assim consigo distrair e me sentir um pouco melhor.

-Boa Tarde, Sr. Jackson... - ela entra na minha sala, trazendo um sorriso malicioso nos lábios - Pensei que tinha saído para almoçar.

-Estou sem fome. Onde estava? Passei o dia todo sem te ver. - Merche tranca a porta e vem até mim

-Reuniões com o setor de produção externa. Sorte sua que não precisou comparecer.

-Não é sua praia mesmo, né? - dou uma risada

-Nem a sua. - rebate - Já estava ficando irritada, mas aí pensei em fazer uma visitinha e te propor uma coisa... - Merche se senta na minha mesa, cruzando as pernas sensualmente

-Que proposta?

-Vamos sair hoje, que tal? Como nos velhos tempos... Vamos curtir um show, beber todas e se divertir.

-É sério isso?

-Claro que sim! Amor, eu sei que está triste por causa da Agnes, mas você precisa se animar um pouquinho. Diz que sim, vai...

-Me pedindo com essa carinha é impossível negar... - ela sorri animada, agradecendo-me com um beijo - Mas tenho uma condição. Não farei isso de graça... Terá que me convencer a aceitar.

-E como farei isso? - Mercedes se levanta; para na minha frente e sobe sua saia alguns centímetros, e se senta no meu colo, encaixando suas pernas na minha cintura

-Mercedes...

-A porta está trancada, esqueceu? - Mercedes encosta os lábios no meu pescoço, arrepiando-me com seus beijos - Além do mais, estamos em horário de almoço, precisamos nos alimentar...

-Muito sugestiva sua ideia... - coloco minhas mãos em torno da sua cintura e a puxo para mim

   Beijo seu rosto lentamente, provando a maciez dos seus lábios pintados de vermelho. Ela corresponde avidamente e nosso beijo fica ainda mais quente. Me desmancho ao sentir sua língua dançar dentro da minha boca.
    Enquanto a beijo, começo a desabotoar sua camisa, sentindo a pele macia das suas costas enquanto solto seu sutiã. Agora que está nua da cintura pra cima, descanso minhas mãos em seus seios firmes e, ao meu ver, parecem ainda maiores.

-O que tanto olha? Algum problema? - pergunta

-Nenhum, pelo contrário! Eles parecem maiores, amor... - estou babando praticamente e ela ri

-Ai, Michael para de falar e continua...

   Obedeço sua ordem e passo a sugar seus seios, esfregando minha língua e dando pequenas mordidas nos mamilos. Mercedes geme baixinho, com a respiração pesada e falha.
Mercedes apoia os cotovelos na mesa e inclina seu corpo para trás. Assim, vou abaixando minha cabeça, descendo meus beijos na sua barriga, brincando com a língua em seu umbigo, até ficar bem próximo à sua intimidade. Subo sua saia até a cintura e afasto a calcinha vermelha. 
    Por um momento fico paralisado até que ela segura meus cabelos e afunda minha cabeça na sua intimidade cheirosa e molhada. Começo a chupar, passando a língua entre os lábios macios, dando umas leves mordiscadas, que arrancam gritinhos abafados dela. Minha língua massageia seu clítoris enquanto que minhas mãos se deliciam com a firmeza das suas cochas. Introduzo dois dedos dentro dela, que deslizam fácil pela sua entrada encharcada.

-Amor, isso é tão bom... Oh meu Deus, como é maravilhoso...

Ela não resiste e acaba gozando nos meus dedos. Suas pernas estão trêmulas, ela joga o corpo para trás e tenta recuperar o fôlego. Mercedes me abraça, volta a me beijar e começa a se esfregar no meu volume.

-Parece que tem alguém animado aqui... - sussurra no meu ouvido enquanto continua rebolando em cima de mim

Ela já está começando a se esquentar novamente, então me levanto e a deixo sentada na mesa. Abro o zíper da minha calça e liberto meu membro que chega a doer de tanto que lateja.

-Uau... - comenta, mordendo o lábio

-Viu como me deixa? A culpa é toda sua...

   Encosto a cabeça do meu pênis na entrada da sua intimidade. Mercedes abre ainda mais as pernas, agarra meus ombros e me puxa para dentro de si. Meu membro desliza na sua intimidade quente, que se contrai em torno dele. Começo a meter forte enquanto nos beijamos com loucura. Suas unhas arranham minhas costas com força, e minhas mãos apertam seus seios, esmagando seus mamilos entre meus dedos.

-Gostosa... Merche você me tira do sério... - ela se esfrega em mim e eu empurro meu pau até o fundo

Não demorou para ela gozar pela segunda vez, gritando e envolvendo meu corpo com suas pernas e braços. Ela parece satisfeita, mas eu ainda quero muito mais. Saio de dentro dela e a viro de costas para mim. Empurro seu corpo sob a mesa e ela choraminga ao encostar os seios no vidro gelado. 

-Não sabe o que passa pela minha cabeça ao te ver realizando minhas fantasias...

-Fantasias? - inclino minha cabeça e distribuo beijos nas suas costas

-Sempre desejei te ver entrando nessa sala com o nariz em pé, me insultando, xingando e por fim se entregando a mim...

-Se quiser eu te xingo... Vai, desgraçado, quero você aqui dentro...

- Minha delícia...

Afasto seus pés para abrir mais as pernas expondo sua intimidade molhada. Deito-me sobre ela, encaixando meu membro na sua entrada. Começo a rebolar lentamente e encosto meu rosto no seu ouvido.

–Agora você é todinha minha...– ela apenas geme – Quero ouvir você pedir para te foder - digo ao parar de meter

-Por favor, amor... Me faça sua, vamos logo! - Ela rebola, esfregando sua bunda no meu membro

Volto a rebolar meu membro, estocado com força. Nossos corpos se chocam, os gemidos aumentam e meu suor escorre pelo meu rosto. Enterro meu pau cada vez mais fundo e sou obrigado a tampar sua boca para abafar seus gritos.

-É tão bom sentir você todinho dentro de mim... Não pare nunca, amor...

-Não vou. Quero gozar com você, gata... - aperto meus dedos na sua cintura e continuo estocando rápido e sem parar.

   Repito os movimentos cada vez mais rápido enquanto vejo ela implorar por mais e mais. Sinto meu sangue ferver, estou prestes a atingir meu clímax, levando Mercedes comigo. Seguro seu ombro com minha mão esquerda e com a direita agarro seus cabelos, puxando com força.
   Ela dá um grito, começo a meter pra valer. Estou coberto de suor, minhas pernas doem, estão bambas, mas a sensação é maravilhosa. Ver Mercedes rebolando sua bunda gostosa e implorando por mim é uma cena que jamais deixarei esvair da minha memória. 
Acabamos gozando juntos, enlouquecidos de prazer. Caio exausto na poltrona. Mercedes procura sua camisa e se veste. Logo ela se senta no meu colo, cobrindo meu rosto com beijinhos.

-Será que posso usar seu banheiro? 

-Claro, fique a vontade... - ela me dá mais um beijo e se levanta

Ela retorna do banheiro, ajeita o cabelo em um coque, mas não consigo tirar os olhos dos seus seios.

-Não está esquecendo de nada? - Mercedes leva as mãos aos seios e faz uma careta

-Droga, como pude esquecer! Onde está meu sutiã? - dou uma risadinha baixa, escondendo a peça íntima dentro do meu paletó - Michael, devolve!

-Nem pensar... Está sexy demais assim, fora que... - levo o sutiã ao nariz e inalo o delicioso aroma - Tem o seu perfume aqui...

-Quer que os funcionários me vejam assim? - provoca, tocando no meu ponto fraco - Acho que vão gostar muito do meu visual.

-Vista agora! - jogo o sutiã na sua direção e ela sorri, pegando-o de bom grado

-Te espero lá em casa, ok? E se vista bem sexy. Quero que nossa noite seja incrível!

-Pode apostar que vai...

Capítulo 56

Mercedes

 Volto pra casa mais rápido que nunca, mas antes passei no shopping e fiz umas comprinhas... Estou ansiosa pra essa noite chegar logo, tenho certeza que vou conseguir animá-lo um pouco. Sei que Michael sofre por conta da Agnes e por mais que tente me tranquilizar, eu sei que a culpa foi minha, mas eu garanto que farei o possível para lhe devolver a guarda da sua filha.

    Me olho no espelho e termino de me arrumar. Pela primeira vez depois de muito tempo, abandono os saltos, vestidos justos e jóias, e dou lugar à velha Mercedes que eu fui. Calça jeans, camiseta e tênis. Sinto uma nostalgia gostosa, como se tudo voltasse a ser como era.



-Já vai! - grito ao ouvir a campainha. Abro a porta e me deparo com um Michael sorridente, porém surpreso

   

-Amor, é você? - pergunta ao me olhar de cima a baixo

-Uhum! Estou muito velha pra isso?

-Cala a boca... - ele sorri, me puxa para si e beija o canto da minha boca - Está perfeita como sempre. E eu?

-Hmm... - não consigo despistar minha careta - Ainda bem que eu trouxe umas coisinhas pra você...

-Que cara é essa? E que coisas são essas? Dá pra explicar?

-Michael você tem 34 anos e se veste como se fosse um coroa... Lembra como você odiava esses ternos?

-Ainda odeio. - ele ri - Só que são tantos anos encarnando o homem exemplar que... eu acabei me acostumando.

-Mas você não precisa mais fingir ser o que não é. Somos jovens e livres para fazer o que quisermos, pelo menos essa noite. Agora vem comigo, vou te dar um trato!

(...)

-E então, como estou? - Michael se põe na minha frente, devidamente vestido

-Uau! - me lembrei perfeitamente do dia que eu e Gina demos um banho de loja em Michael. Se não fosse a falta dos cachos longos, eu poderia jurar que voltamos no tempo

-Esse uau é coisa boa ou ruim?

-Boa, amor... Claro que é boa. Você está tão lindo... Só falta uma coisa.

-O que, quer que eu passe lápis de olho? - pergunta, debochando

-Temos que dar um jeito no seu cabelo. - falo, buscando minha tesoura na gaveta

-O que disse?

-Senta aí. - ordeno. Michael se senta no sofá, ainda desconfiado - Mercedes, você está louca?

-Eu não vou cortar seu cabelo, só quero dar uma repicada. Você vai gostar, deixa... - Michael continua resistente, mas acaba cedendo

(...)

-E então? O estrago ficou bom? - dou mais alguns retoques e finalizo, bagunçando seu cabelo

-Perfeito! Olhe no espelho... - ele me obedece e depois de um tempo analisando, acaba sorrindo, encantado - Não parece mais jovem? Agora sim é o meu Michael.






-Seu, é? - ele se vira pra mim e me puxa pela cintura - Você é incrível, sabia? Consegue me fazer feliz mesmo com todo caos que está acontecendo...

-Eu te amo e prometo que vou recuperar o tempo perdido.

-Nós vamos. Quer saber de uma coisa? Agora sou eu quem está animado para essa noite. Vamos? - ele pega na minha mão e eu sorrio, depositando um beijo em seus lábios

(...)

   Ver os olhos de Michael brilhando novamente alegra ainda mais meu coração. Ele parece aquele jovem de 22 anos que acabara de descobrir os prazeres da vida. É como se não tivéssemos nenhuma corrente para nos prender. Somos livres e pelo menos nessa noite quero acreditar nisso.

-Que banda é essa? Nunca ouvi falar! - ele grita no meu ouvido devido ao barulho ensurdecedor da música

-São novos na área, mas fiquei sabendo que mandam bem. - respondo - Hey, traga duas garrafas de cerveja pra gente! - peço ao garçom que rapidamente volta com meus pedidos

-Obrigado. - Michael diz ao rapaz. Ele bebe uma boa golada e ri - Sabia que faz muito tempo que não bebo cerveja? Acostumei com o uísque, conhaque, vinho...

-Bebidas de gente fresca. - rio - Relaxa, eu também fui obrigada a mudar meus gostos para bebida. O professor de etiqueta dizia que cerveja e cachaça não eram nada femininos. - Michael gargalha

-Tá brincando? Não dá pra acreditar que logo você teve aulas de etiqueta!

-Pode zombar, eu mereço... Eu até que aprendi a virar dondoca, mas definitivamente isso não é pra mim. - retiro do bolso minha carteira de cigarro. Arqueio a sobrancelha e Michael ri

-Merche...

-Não me olhe assim. Sei muito bem que fuma aqueles charutos cubanos do seu pai... Ai desculpa...

-Sem problemas. E pra sua informação, eu detesto aquela coisa. Será que posso? - ele olha para o cigarro e eu descarto um para entregá-lo

-Lembra quando te apresentei ao meu mundo? Você precisou de mim para entrar nele e agora precisa de mim para voltar. - acendo o cigarro, dou uma tragada e solto o ar em sua boca

Flash Back

-Se tragar uma vez só garanto que vai perder essa carranca.

-Nem pensar! Isso vicia, garota! Daqui a vinte anos estará com câncer!

-Shii.. - ela o olha despreocupada - Deixa de ser politicamente correto pela menos uma vez. Vai, divide comigo..

Mercedes dá um trago, inclina a cabeça e bafora a fumaça. Em seguida passa o cigarro para Michael

-Como...faz? - pergunta ao encaixar o cigarro entre seus dedos

-É só sugar, depois inspira, respira e dê uma baforada.

-Ok. - Michael faz exatamente o que ela pediu. Dá algumas tossidas, o que faz Mercedes rir - É horrível!

-Porque fez errado! Mais uma vez... - incita

-Ok, mas você vai dividir comigo... - ela franze o cenho e ri quando ele a posiciona em seu colo

Suas pernas estavam encaixadas na cintura de Michael, seus braços em torno dos ombros. Mercedes entreabre os lábios e Michael dá um longo trago no cigarro, baforando a fumaça diretamente na sua boca. Em seguida, ele lhe puxa pela nuca e cola seus lábios sem fazer rodeios. Mercedes corresponde avidamente, tirando o cigarro da sua mão e o jogando no cinzeiro.

-Nada de queimaduras aqui.. - fala ao se afastar minimamente dele

-Uhum... - Michael assente

Fim do Flash Back

-Droga, Mercedes! Como posso te amar tanto assim? - Michael tira o cigarro da minha boca e me beija

Mas não um simples beijo. Foi o mais ardente, apaixonante e intenso que já trocamos em toda nossa vida. Nesse beijo consigo sentir claramente que nosso amor está mais vivo do que nunca; que ele é capaz de suportar todas as tempestades que estamos enfrentando.

- Te amo, te amo, te amo, minha estrela do rock... - Michael ri abertamente, já um pouco mais animado por conta da bebiba

-Você quer me provocar, não é?

-Do que está falando?

-O show de música é aberto ao público. Não se faça de desentendida, conheço essa carinha de quem está aprontando...

-Michael, por favor...

-Não, não precisa pedir. - ele me corta, desfazendo nosso abraço e seguindo para sabe se lá onde

-Mike, onde você vai? Hey, me espera!

-Fique aqui, ok? Deixa a surpresa comigo agora. - Michael sobe no palco, fala alguma coisa com o baterista e em seguida pega o violão

   Meu coração passa a bater mais rápido a medida que o público se aquieta e espera para ver o que Michael fará. Ele chega mais perto do palco, ajeita o microfone à sua altura e nesse momento ele foca em mim.

-Sei que pra vocês deve ser normal ver um cara bêbado subir aqui em cima, falar meia dúzia de merdas e tocar pra valer, mas também devem estar acostumados em ver um bobo apaixonado se declarar para sua amada. E é isso que farei hoje. - sinto minhas bochechas arderem de vergonha quando a platéia começa a botar pilha, incitando Michael a continuar

-Não acredito que ele vai fazer isso... - murmuro, sem conseguir desfazer meu sorriso

-Essa música eu escrevi a quase treze anos atrás. Fiz especialmente pra minha garota, quer dizer, uma das diversas músicas que escrevi pra ela ao longo desses anos. - ele ajeita o violão e continua - Vê se lembra dessa, gata!

Assim que Michael inicia os acordes da introdução, meus olhos derramam as lágrimas que já estavam prontas para rolarem. Deus, parece que voltei no tempo e aqui estou no show de talentos em que Michael se apresentou pela primeira vez. Me lembrei da nossa felicidade quando anunciaram sua vitória e da sua promessa em seguir na carreira musical, de realizar o sonho que tanto amava.

Flash Back

-Eu sabia que você ia vencer, eu sabia!! - repetia com os olhos marejados

-Foi graças a você.. Eu só posso te agradecer, Merche... -seus dedos se enroscaram no colarinho da camisa dele, puxando-o para mais perto dela

-Sua música é maravilhosa.. Você é um excelente compositor.

-Devo isso à minha musa inspiradora.. - Mercedes cora ao ouvir dos seus lábios a tímida declaração

Fim do Flash Back
She always takes it with a heart of stone
'Cause all she does is throws it back to me 
I've spend a lifetime looking for someone 
Don't try to understand me
Just simply do the things I say
Love is a feeling 
Give it when I want it
'Cause I'm on fire
Quench my desire 
Give it when I want it 
Talk to me woman 
Give in to me
Give in to me


   Fiquei tão emocionada e entorpecida que nem notei Michael sumir do palco enquanto o público lhe aplaude, eufórico com o solo de guitarra. E então em meio a toda essa multidão meu olhar cruza com o seu. Enxugo minhas lágrimas e corro para o seu abraço. Não falamos nada, apenas rimos um para o outro. Ele procura meus lábios e me beija apaixonadamente. Nossas línguas iniciam um delirante duelo e só nos afastamos para respirar, só que pra mim isso se torna uma tarefa impossível diante do que ele me diz.

-Casa comigo? - pede, olhando fixamente nos meus olhos

-O que?



Capítulo 57

Michael


   Caímos exaustos na cama depois de tórridas horas de sexo. Transamos no banheiro do bar, no carro e desde o momento que chegamos em casa. Se eu não engravidei essa mulher hoje, capaz de não engravidar nunca! Apesar de estar inebriado por fazer amor com Mercedes, a pergunta que fiz ainda martela na minha cabeça.

-Meu Deus... - ela diz sem fôlego nenhum - O que deu em você, hoje? - ela afasta os cabelos molhados de suor e me encara

-A culpa é sua por ser tão gostosa... Caramba... - digo, resfolegando, mas ainda assim sem deixar de sorrir - Acho que passamos da conta hoje. - ela ri

-Não sinto minhas pernas... Porra o que você tem nesse pau pra ser tão potente?

-É segredo. Só vou revelar quando responder minha pergunta.

-Pensei que aquilo fosse efeito do álcool...

-Eu estava bem lúcido, meu bem. Agora estou mais ainda. Vamos, é só responder sim ou não.

-Não faz essa cara de inocente, até parece que é uma coisa simples. - ela puxa o lençol para cobrir os seios e se senta. Ok, está na hora de falar sério

-Mercedes, nós estamos vivendo um momento maravilhoso, parece um sonho... Mas eu sei também que o mundo lá fora está nos esperando. Sei que nossos problemas não resolverão da noite para o dia, mas o que eu quero que você entenda é que em hipótese alguma abrirei mão de você. Eu não sou mais aquele Michael que fazia promessas e na primeira oportunidade fazia merda. Quero mostrar que mudei, e juntos vamos conseguir lutar. - ela suspira e me olha novamente

-Você tem toda razão no que disse. Ainda tem coisas pendentes, você sabe. São acontecimentos de longos anos para serem resolvidos em um piscar de olhos. Mas eu também não quero abrir mão de você, mas vamos ser prudentes, ok? Nosso casamento desandou por esse motivo. Nos casamos para fugir do seu pai e olha no que deu?

-Você está certa... - concordo, desanimado, mas Mercedes ergue minha cabeça

-Não quer ouvir minha resposta?

-Diga...

-Eu quero me casar com você de novo. - meu sorriso se abre involuntariamente, como uma chama em meu coração

-Jura?

-Uhum... Vamos recuperar a Agnes e depois tratamos de nos casar.

-Puta merda, tá falando sério? - nos abraçamos fortemente e percebo que Mercedes está muito emocionada -Você está chorando, amor? - enxugo suas lágrimas e ela sorri

-É que... não sei o que aconteceu comigo. É um misto de felicidade e ... medo. Quando as coisas ficam perfeitas demais é sinal que tem alguma coisa errada.

-Eu sei que sente medo por tudo que aconteceu entre nós, mas isso não quer dizer que não seremos felizes. Não tenha medo. Nada vai me afastar de você, nada!

-Eu te amo mais que meu próprio ser. Sou capaz de dar minha vida por você, Michael.

-E eu digo o mesmo. Não chore mais por isso. Hoje tivemos o melhor dia de nossas vidas e agora nós temos que comemorar.

-Você tem razão... - ela finalmente abre um sorriso iluminado - Vamos pra banheira? Não tenho pernas pra ficar de pé! - rimos 

- Claro, baby. Vou preparar a banheira e te busco... no colo! - dou uma piscadela e vou para o banheiro preparar nosso banho

(...)

Acordo bem cedo nesta manhã para mais uma vez tentar resolver minha situação com Dominique. Se eu continuar parado, logo ela entrará na justiça para ter a guarda definitiva de Agnes e isso eu não vou suportar.

-Você aqui de novo? - Dominique indaga ao abrir a porta sua nova casa, a qual eu mesmo comprei - Ué, cadê sua amante?

-Sem gracinhas. Vim ver minha filha. - entro na sala sem rodeios, lhe empurrando de leve. Ela ri e grita por Agnes

-Papai!! - minha princesa corre até mim e eu lhe abraço com todas as minhas forças

-Princesinha... Que saudade!! Está feliz de ver o papai?

-Muito!! - ela fala no meu ouvido - Não quero magoar a mamãe, mas estou doida pra voltar pra casa. Sinto sua falta, papai. Da Cori, da tia Maysa e da tia Merche também...

-Olha pra mim. Eu prometo que em breve você vai voltar. Você já é uma mocinha, não é? Fique só mais uns dias com a mamãe fazendo companhia à ela. Ok?

-Ok, papai...

-Será que pode agilizar isso aí? Agnes tem aula.

-Eu não quero ir pra aula, quero ficar com meu pai! - Agnes grita

-Garota, aqui você não manda em nada! Tá vendo o que sua criação fez com ela? É uma mimada! - coloco Agnes no chão e me preparo para rebater, mas somos surpreendidos com a entrada de um homem que no mesmo instante me remete alguma lembrança

-O que faz aqui? - Dominique praticamente grita, parecendo apavorada, como se visse um fantasma

-Milles? - pergunto ao reconhecer o homem como um dos meus acionistas da filial de Milão

Nos conhecemos há uns dez anos quando ele começou a trabalhar comigo. Criamos uma amizade neutra e geralmente ele frequentava minha casa. Nunca entendi porque ele sumiu de uns anos pra cá. Deve ter quase sete anos que não nos vemos direito.

-Me responda! Quero que saia da minha casa agora! - Dominique grita. Agnes se esconde atrás de mim, assustada com a reação da mãe

-Mas o que está acontecendo aqui? - pergunto, afinal - Vamos, me digam!

-Eu só vim buscar o que me pertence. - Milles responde. Ele lança o olhar em Agnes e sorri - Minha filha. Vim buscar a minha filha!

Tanto eu quanto Agnes não esboçamos nenhuma reação. Fico esperando o momento que acordarei desse torpor e ver que tudo isso não passa de uma brincadeira.

-Cala essa boca! - Dominique berra com os olhos banhados de lágrimas, me fazendo crer a cada segundo que isso é a pura realidade

-O que foi que você disse...? - forço minha voz a sair, mesmo que de forma inaudível

- Vim buscar minha filha, não escutou? - ele tenta se aproximar de Agnes, mas eu o empurro contra a parede, apertando o colarinho da sua camisa

-Fique longe da minha filha! - berro - Não sei que drogas andou usando, mas nela você não toca!

-Tire as mãos de mim, Michael! Pergunte à sua esposa se eu usei drogas. Pergunta!

-Papai, o que ele disse é verdade? - olho para Agnes e me deparo com minha garotinha assustada e chorosa. Rapidamente tiro minhas mãos de Milles e corro para amparar Agnes

-Não, meu amor. Tudo isso não passa de uma grande confusão. Vá para o seu quarto, ok?

-Não, eu não vou! Esse homem disse que é o meu pai e agora eu quero saber a verdade!

-Ela me puxou direitinho, Dominique.

Por um momento esqueço a presença de Agnes e parto pra cima de Milles, socando-o tão forte que seu nariz expele uma quantidade absurda de sangue.

-Michael, para por favor!!! - Dominique entra na minha frente, impedindo-me de socá-lo novamente

-Acabe com essa palhaçada agora! Se sua intenção era me provocar, conseguiu! Agora termine com isso! - ela chora copiosamente e vai aumentando a medida em que sacudo seus ombros - Vamos, Dominique! Abra a boca!

-Conta logo a verdade, Dominique! - Milles diz - Conta logo o que vem escondendo por todos esses anos. Diz pra ele que éramos amantes e desse relacionamento nasceu a Agnes!

Sinto como se uma faca fincasse meu peito. Minhas pernas fraquejam e eu apoio minhas mãos na parede para não cair. Sou despertado rapidamente pelo choro assustado de Agnes, que está completamente amedrontada.

-O que está acontecendo aqui? - ouço a voz de Mercedes e me viro ao vê-la entrar na sala - Agnes... - ela tenta acalentá-la, mas Agnes se desvencilha e sobe as escadas correndo

-Agnes! - ela tenta ir atrás, mas Dominique lhe impede

-Nem ouse ir atrás da minha filha! O que está fazendo aqui? Não tem nada a ver com o assunto!

-É claro que tem! - Milles diz, captando minha atenção novamente - Porque foi graças à essa senhorita que eu soube a verdade

Tanto eu quanto Dominique nos viramos para encarar Mercedes. Ela com um semblante possesso e eu em um choque total.

-Você sempre jurou que essa menina era filha do Michael, mas graças a senhorita Navarro, eu soube de toda a verdade. E hoje vim aqui cobrar o acerto de contas!

-Desgraçada, eu vou acabar com você! - Dominique ataca Mercedes, tentando lhe estapear, e Milles ao ver que não reajo, segura Dominique nos braços

-Eu não fiz nada! O que... - Mercedes olha pra mim com os olhos apavorados - Michael, eu não tenho nada a ver com isso, você sabe não é? Michael, olha pra mim! - ela tenta se aproximar, mas eu lhe empurro

-Sai de perto de mim. - digo, rangendo os dentes - Maldita seja! - saio feito um foguete, esmurrando tudo que vejo pela frente

Enquanto caminho em direção ao meu carro, reviro o bolso da calça e encontro minha chave. Logo ouço a voz desesperada de Mercedes gritando meu nome.

-Michael? Michael, me escuta por favor! - ela se põe na frente da porta do carro, me impedindo de entrar - Vamos conversar, eu te imploro!






-Não temos mais nada para conversar. Conseguiu o que queria, não é?






-Michael, eu juro que não fiz nada! Pelo amor de Deus você tem que acreditar em mim! - dou uma risada debochada

-Sabe o que é? Eu não consigo acreditar em nada que me diz. Por que não confessa o que fez? Pode fazer seu drama em dizer que se arrependeu e era tarde demais, assim como colocou aquele vídeo na festa. Ainda quer que eu acredite em você?

-Mesmo que eu soubesse dessa história da paternidade de Agnes, eu jamais tocaria nesse ponto. Se eu fiz aquilo na festa foi porque queria me vingar da Dominique! Acha mesmo que eu teria coragem de te magoar a esse ponto?

-Acho. Não era isso que você queria? Mercedes será que não vê que esse teatro não cola? Se sente tão culpada que veio até aqui!

-Eu só vim atrás de você porque senti que precisava de mim! Por isso eu segui você porque imaginei que se envolveria em outra briga e eu queria estar perto!

-Agora sim você realizou sua maior vingança. Parabéns, Mercedes. - engulo o choro e me mantenho firme

-Michael, não faz isso... Por que não tenta me escutar?

-Engraçado... Você passou doze anos me culpando de algo que não fiz. E todas as vezes que tentei me explicar você nunca deixou. Negou-se a me escutar e continuou me acusando. Sinta agora na pele o que eu senti!

-Michael...

-Saia da minha frente. - ela me olha com os olhos marejados e suplicantes e por fim acaba se afastando. Entro no carro e sem olhar para trás, piso no acelerador e sumo dali

(...)

-Michael? - Maysa se assusta ao me ver entrar descontrolado em seu consultório

-Você tem que me ajudar! - me jogo em seus braços e nesse momento coloco pra fora toda a dor que estou sentindo. Uma dor que parece nunca ter fim...

Capítulo 58

Michael


-Tome esse calmante, irmão. Se continuar assim terá um infarto! - Maysa tenta me tranquilizar depois de eu contar o que aconteceu

-Eu não quero me acalmar, Maysa! Acabo de saber que Agnes não é minha filha... Tem noção do que estou sentindo?

-Irmão, eu sei que sua cabeça está a mil, eu também estou chocada! Mas pelo bem da Agnes você precisa pensar com a cabeça. Ela agora precisa de você mais do que nunca! - enterro minha cabeça entre as mãos e choro copiosamente. Maysa nada diz, apenas tenta me confortar, afagando minhas costas

-O que eu vou fazer agora, Maysa?

-Você vai fazer um exame de DNA. Pelo que parece a Dominique não tem certeza de quem é o... o pai.

-Eu não vou fazer nada! Agnes é minha filha e eu não me importo se tem meu sangue ou não. Jamais farei com ela o que Leon fez comigo.

-Não é questão disso, Michael. Eu sei que não mudará uma vírgula do que sente por Agnes, mas pensa bem. Esse homem que diz ser pai da Agnes pode querer fazer algo contra você.

-Mas e se der negativo, Maysa? Eu não vou suportar tanta dor...

-Confia em mim, ok? Mas você precisa fazer. Pelo bem da Agnes.

-Tudo bem, eu faço. Por mais que meu coração sangre, eu tenho que ser forte... Tudo por culpa dela, da Mercedes!!

-Michael, você tem certeza? Ela gosta tanto da Agnes, não consigo acreditar que tenha feito uma maldade dessa...

-O desejo de vingança dela é maior que qualquer sentimento. Ela conseguiu me destruir, Maysa. Agora sim ela morrerá para mim...

Mercedes


-Eu juro que não fiz nada, Dorothy!

-Eu já entendi, minha linda. Se acalme... - ela me consola. Dorothy é a única pessoa a quem podia recorrer - Mas o que não entendo é porque esse homem culpou você...

-Eu também não sei. Mas está claro que alguém quis prejudicar o Michael e me usou como isca.

-Será que foi o Edgar? Ele odeia o Michael e pode ter aproveitado o fato de você querer se vingar para por a culpa em você.

-Dorothy... Você tem toda razão! Mas como ele descobriu e por que logo agora? Eu vou falar com ele!

-Você está louca? Não vai ver esse homem na cadeia! Aquilo não é lugar pra você, minha linda...

-Mas eu preciso da verdade! Quer saber? Deixa... Acho que nada adianta mais.

-Como assim? Não pode deixar que ele te acuse sem saber da verdade!

-Não posso culpá-lo e muito menos sentir raiva. Depois de tudo que eu fiz é mais que óbvio ele acreditar nisso. A verdade é que Michael e eu nunca seremos felizes juntos. Nunca...

(...)

A minha ideia era sair sem rumo para algum lugar que não me remetesse a lembrança de Michael, por isso descartei meu apartamento ou a empresa, mas então recebo o telefonema do meu advogado, convocando uma reunião comigo na Construtora.

-Queria falar comigo, Dr. Clinton? - nos cumprimentamos e nesse momento vejo Harry entrar

-Sim. Na verdade Harry me procurou para falar sobre a empresa.

-Boa tarde, Sra. Navarro.

-Boa tarde, Harry. Sentem-se. O que têm para me falar?

-Bem... - Harry começa - Estamos correndo um risco sério de perder a empresa.

-Como assim? - pergunto - Sei que a situação não é nada boa, ainda mais depois do rombo que Edgar fez, mas estamos tentando nos reerguer.

-O caso não é esse. - Clinton diz - Um pouco antes de seu pai comprar as ações, Leon Jackson penhorou a construtora, a mansão que mora, ou seja todos os bens pelos empréstimos que pegou. O Banco já tomou parte disso, tanto que agora só lhe restam a casa e a empresa. Só que o prazo está se esgotando. Se a dívida não for quitada, o Banco também vai tomar o restante.

-Meu Deus... Não sabia que o caso era tão grave... Mas ele não pode perder tudo assim, não desse jeito!

-Imaginei que diria isso. - Clinton ri - É por isso que te chamei, Mercedes. Se você quitar esse empréstimo, vai recuperar esses bens e se tornará dona em absoluto. 

-Quer dizer que... Se eu pagar, poderei fazer o que quiser, certo?

-Sim. Você tomará posse da empresa e bem, do que restou dos bens.

-Essa dívida é muito alta? - pergunto

-Não é nada muito exorbitante, mas poderá ser um investimento pra você. É como se tivesse comprado o restante das ações, e de fato a empresa será toda sua.

-Eu pago. - confirmo decidida - Harry e Clinton, preparem tudo.

-Não vai comunicar aos Jackson's? - Harry pergunta

-Sim, mas depois de pagar a dívida. Ainda não sei o que farei em seguida... Preparem tudo, por favor. Temos que resolver isso o mais depressa possível.

(...)

Passamos o restante da tarde trabalhando em função desse novo problema que surgiu. Como são as coisas... Tomar os bens de Leon era a última coisa que eu queria fazer e agora consigo de mão beijada. Eu sei que isso não trará minha felicidade, muito pelo contrário. Mas a minha vida está toda errada mesmo... Mas eu irei consertar meus erros, ou pelo menos amenizá-los.

(...)

   Depois de vomitar todo o café da manhã ou melhor, as migalhas que consegui comer, tomo um banho e tento me vestir. Ontem foi um dos piores dias da minha vida e ultimamente essas emoções me provocam terríveis enjoos. De fato o estresse, a falta de alimentação adequada e noites sem dormir afetam e muito o organismo. 
   Ignoro minha indisposição e me preparo para mais um dia. Clinton já me ligou avisando que a dívida foi paga e a partir da agora os bens de Leon estão nas minhas mãos. Antes de procurar Michael e Maysa, decido fazer o que deveria ter feito há muito tempo. Ter uma conversa de mulher pra mulher com Dominique.

-O que faz na minha casa? - ela ralha, assim que abre a porta e me vê - Veio rir da minha cara, não é?

-Não, Dominique. Vim te fazer uma proposta. Posso entrar?

-Proposta? - ela ri - Entra... - assim que adentro a sala, vejo algumas malas encostadas na escada 

-Vai viajar?

-Vou embora. Eu e minha filha vamos para a Europa. Já está tudo combinado com o meu... Quer saber, não lhe devo satisfações. O que faz aqui?

-Antes de cometer essa loucura, ouça o que eu tenho para dizer.

-Então diga. Não estou com tempo pra suas gracinhas. Tenho que esperar Agnes chegar da escola para irmos embora.


-O que você quer para deixar Michael e Agnes em paz?

-Como é?

-Por favor, Dominique. Não precisa fingir pra mim. Pode até ser que você ame a Agnes, mas você não sabe o que é ser mãe.

-E você sabe? - ela ri

-Não, eu não sei. Mas pelo menos eu não coloquei filho no mundo para sofrer. Dominique você é livre pra fazer o que quiser, não desconte isso na Agnes. E principalmente no Michael. Agora você deve saber que rompemos e que provavelmente nunca daremos certo juntos. Deixa ele ser feliz, Dominique. Dê isso à ele. - ela parece pensativa, como se visse sentido nas minhas palavras

-Agnes é minha filha.

-Mas você sabe que não pode criá-la. É por isso que vim aqui. Quero te oferecer o que quiser para dar a guarda definitiva de Agnes. Se me pedir para me afastar do Michael eu sou capaz de acatar.

-Não farei isso. Já me cansei de você, do Michael, da família dele e de todo esse círculo amoroso. Pela primeira vez estou pensando em mim, na minha felicidade... Eu nasci pra ser livre, Mercedes! Finalmente encontrei alguém que me ama, que me trata como eu mereço.

-E você pretende ir embora com ele?

-Sim! - ela sorri - Vou sumir desse lugar e se Deus quiser não voltarei nunca mais! E quanto a sua proposta... Bem... Você sabe que não sou mais rica e por mais que esse homem me dê o mundo, eu quero minha independência. Dez milhões. Esse é o preço para devolver a Agnes. - apesar de ser um valor altíssimo, eu não me importo de ficar menos rica por uma causa tão nobre

-Tudo bem. Me dê um dia. Amanhã nesse mesmo horário te darei o cheque. Mas terá que cumprir com sua palavra. E lembre-se, isso é segredo nosso. Procure Michael, seu advogado, o que for... Faça sua parte. Te espero amanhã no meu apartamento. Até mais, Dominique.



Capítulo 59

Michael


 Conversar com Agnes, sem dúvida, é a coisa mais difícil que eu tenho que fazer. Eu deveria ter ficado ao lado dela ontem, mas com toda aquela confusão seria impossível. Preferi seguir o conselho de Maysa. Esperar a poeira abaixar e procurá-la hoje. Além disso, levarei Agnes para fazer o maldito exame de DNA. Não quero que ela perceba nada, então serei cauteloso. 
  Assim que o van lhe deixa na porta da escola, corro até ela. É a única forma de falar a sós com a minha filha, sem ninguém para nos interromper.

-Agnes! - ela se vira assim que escuta minha voz. Dói ver sua expressão abatida, principalmente quando olha pra mim. Me aproximo lentamente e agacho à sua altura

-Por que está aqui, pa... - ela se cala

-Continua, filha. Por que não quer me chamar de pai?

-Porque não sei se você é meu pai mais. - ela entorta a boca, fazendo um biquinho para chorar

-Princesa... - puxo Agnes e lhe abraço forte, tentanto acalentar minha menina - Eu sou seu pai, sempre serei!

-Mas aquele homem disse que não sou sua filha! É por isso que estou morando com a mamãe, não é? Você não quer mais ficar comigo!

-Nunca mais diga isso! - falo firme, mas com a voz embargada - Isso não tem nada a ver com você, meu amor. Sua mãe só quer passar um tempo com você... E quanto aquele homem, ele... ele mentiu.

-E por que ele mentiu? - rebate, mostrando que mesmo sendo tão pequena, ela sabe ser esperta

-Porque ele é o tipo de pessoa que não gosta de ver as pessoas felizes. Minha linda, eu sei que está triste com o que aconteceu, mas eu te prometo que isso vai passar. Eu sou o seu verdadeiro pai e isso nunca vai mudar!

-Você jura? Jura pra mim que nunca mais vou ver aquele cara?

-Eu juro. Nós vamos ficar juntos, eu te prometo! Te amo, Agnes. Te amo mais que tudo!

-Eu te amo, papai. - aperto minha menina com mais força e lhe encho de beijos

-Vem comigo. Hoje vamos passar a manhã juntos!

-Sério?

-Aham! Vem, vamos fazer um lanche, ir no parque... A manhã é nossa!

    Me sinto imensamente aliviado de ver minha filha alegre novamente. Passar essa manhã com ela conseguiu até me fazer esquecer a dor que sinto por Mercedes, mas logo tive que me despedir de Agnes, levando comigo um copo com sua saliva que Maysa pediu para eu recolher.
    E agora, após ter minha saliva colhida pela enfermeira, sinto um terrível frio na barriga. Mesmo tendo ciência de que o resultado não importa, no fundo isso me dói. A forma como descobri a verdade é um verdadeiro pesadelo.

-Quando fica pronto, Maysa? - pergunto assim que lhe vejo entrar na sala

-Dentre alguns dias. O procedimento é demorado, mas eu pedi para o laboratório agilizar.

-Nem sei se isso é bom...

-Michael, eu sei que você tem medo. Mas não acho que deva se preocupar. Tenho certeza que você é o pai de Agnes, a ligação entre vocês é inexplicável!

-Eu sinto que ela é minha filha, meu coração não se engana. Bom, para algumas coisas ele se engana sim... - antes que eu começasse a me perder nos pensamentos, ouço o toque do meu celular - Alô?

-Michael, é Dominique. Preciso que me encontre. Tenho um assunto para tratar com você.

-Se for pra dizer que vai entrar na justiça pela guarda de Agnes, fique sabendo que eu não vou permitir!

-Não vou discutir por telefone. Anote o endereço do restaurante.

(...)

 Assim como Dominique pediu, segui para o restaurante escolhido. Não faço ideia do que ela vai aprontar dessa vez. Tento controlar meus nervos ao vê-la se aproximar. Tenho tanto nojo de Dominique que sou capaz de vomitar aqui mesmo.

-Boa tarde, Michael. - ela sorri ao se sentar

-Vá direto ao ponto. Não tenho estômago nem para respirar o mesmo ar que você.

-Não terá mais que se preocupar com isso. Estou indo embora de Nova York e dessa vez é para sempre!

-Como é?

-É isso que ouviu. - ela tira um envelope da bolsa e me entrega - E por esse motivo, está aí o que tanto quer.

-O que é isso?

-É a minha decisão de lhe dar a guarda definitiva da Agnes. Farei o que tanto quer. Deixarei você e Agnes e nunca mais voltarei.

-Por que tomou essa decisão, posso saber? - ela suspira e sorri

-Sim... Eu estou apaixonada por um homem que move céus e terras por mim. Pela primeira vez serei dona de mim, Michael. Terei a liberdade que sempre desejei.

-Desde que suma da minha vida e deixe Agnes em paz, faça o que quiser da sua vida. Mas o que eu não entendo é essa sua súbita mudança. Até ontem queria acabar comigo. Pode falar, vai pedir dinheiro, não é?

-Não, Michael... Não pedirei um centavo do seu dinheiro, até porque eu quero me ver livre desse inferno que é viver com você, com a sua família...

-Realmente você me surpreendeu... Não sei que plano tem por trás disso, mas espero que esteja sendo sincera.

-Por incrível que pareça estou sendo e hoje mesmo estarei partindo para a Suécia com o Matteo. Pode ir buscar a Agnes.

-E você já falou com a sua filha? Pelo menos isso você fará, não é?

-Sim, já conversamos. Mas como era de se esperar, ela não ficou tão desesperada como quando teve que se afastar de você. - ela diz com um certo pesar e nesse momento consigo até mesmo sentir pena de Dominique

-Foi você mesma que procurou isso. Se tivesse dado o carinho de mãe, sua relação com Agnes seria completamente diferente.

-Talvez sua amante tenha razão. Não nasci com o dom de ser mãe, mas isso não quer dizer que eu não goste da minha filha, só que eu sei que ao seu lado ela estará muito melhor do que comigo. - ela enxuga uma tímida lágrima e se levanta - Então é isso. Meu advogado estará me representando, qualquer coisa me ligue. Estarei disponível até o fim dessa noite... - ela sorri e se vira

-Dominique?

-Sim?

-Me desculpe. Eu te acorrentei à mim no dia que obedeci meu pai e te pedi em casamento. Se eu não tivesse te envolvido nisso, com certeza você teria sido feliz.

-Isso não importa mais. O que importa agora é que eu vou atrás da minha felicidade. Deveria fazer o mesmo, Michael Jackson. - ela joga um beijo pra mim e se afasta

    É... realmente por essa eu não esperava. Não imaginei ouvir isso de Dominique, e apesar de ter me magoado tanto, eu não posso culpá-la totalmente. Eu que a meti em toda essa confusão que é a minha vida e agora estou colhendo os frutos. Mas agora só o que interessa é que ninguém vai tirar Agnes de mim, ninguém.

Mercedes


-Querida, tem certeza que não quer que eu chame um médico? Você está péssima...

-Não precisa se preocupar... - mantenho os olhos fechados enquanto mais uma onda de tontura me aflige - Cadê a Dominique, hein? Será que ela mudou de ideia?

-A campainha está tocando. Deve ser ela! - tento me levantar, mas Dorothy me impede - Calminha aí! Eu abro a porta. Enquanto isso você tenta se levantar devagar...

-Ok... - respiro fundo, abro os olhos e me levanto lentamente, seguindo para a sala

-Nossa, você está horrível! - Dominique ri, sem perder a oportunidade de me alfinetar

-Dorothy, nos deixe a sós. Bem, não estamos aqui para falar de mim. - tiro o cheque do bolso da calça e lhe entrego - Pode fazer o depósito.

-Hm... É bom tratar com você, Mercedes.

-Já falou com o Michael?

-Fiz isso agora. Pode comemorar, já abri mão judicialmente da guarda da Agnes.

-Não disse à ele do nosso trato, certo?

-Não costumo descumprir meus acordos. Bom, agora posso ir, mas... Não antes de dizer o quanto lamento por você...

-Do que está falando?

-Olha pra você, Mercedes. Olhe tudo à sua volta! Você conseguiu afastar todos de você, perdeu o Michael de vez! Eu serei feliz ao lado do homem que amo e você? Vai morrer sozinha. Só terá o dinheiro ao seu lado.

-Não sabia que se preocupava tanto comigo. - sorrio fraco - E sim, você está certa. Eu não tenho mais ninguém. Já pode se considerar feliz, não acha?

-Eu não sou má, Mercedes. Posso ter agido errado em vários momentos, mas tudo que fiz foi para tentar salvar meu casamento. Mas agora eu vejo como eu perdi meu tempo. Agora pouco me importa se você e Michael ficarão juntos... Não dou a mínima. Não vivo mais na sombra dele, agora eu sou Dominique Collins novamente!

-Parabéns... Eu realmente espero que consiga ser feliz.

-Pode ter certeza que eu serei, Mercedes. Pode ter certeza! Adeus...

 Assim que Dominique deixa meu apartamento, respiro aliviada. Ao mesmo tempo que dói reconhecer que Dominique está certa, eu sinto pena dela. Não é mais raiva ou ódio, e sim, pena.

-Por que deixou essa mulher dizer aquelas coisas?

-Ela só disse a verdade, Dorothy. - rio

-Ela sim que deveria ficar sozinha! Onde já se viu, depois de todas as safadezas que fez, ir embora sem ser castigada?

-Dominique já está sendo castigada, Dorothy. Quer castigo pior do que viver sem ter o amor da filha? De não ter a oportunidade de ver uma menina tão linda como Agnes crescer e se desenvolver? Esse é o maior castigo dela... É por isso que sinto pena, Dorothy...

-Você está certa. Dominique nunca vai ter o carinho e o amor da filha. Não existe lição maior que essa...

-Ai... - me apoio no braço do sofá ao sentir o teto girar mais uma vez

-O que foi, minha linda? Se sente mal?

-Acho que eu vou desma... - não consigo terminar de falar, pois minha visão escureceu e a partir daí, apago de vez



Capítulo 60

Mercedes


  Acordo sentindo um forte cheiro de álcool nas minhas narinas. Pisco algumas vezes e respiro fundo. Dorothy ao ver que estou acordando, se alegra, certificando de que estou bem.

-Mercedes, está me ouvindo? Fica calma, ok... Já vamos para o hospital.

-Não preciso de hospital, já estou bem...

-Precisa sim! O táxi já está nos esperando. Tente ficar de pé, tá minha linda? - mesmo sob meus protestos, Dorothy me enfia dentro do carro. Desisto de impedi-la, pois sei que seria inútil

(...)

 Os enfermeiros me levam para um quarto, pois cheguei ao hospital me sentindo ainda mais fraca. Eles pedem para eu esperar pelo médico e eu não vejo a hora de ser atendida para sumir deste lugar.

-Merche? Não imaginei que fosse você! - Maysa vem até mim e me abraça, sendo caridosa como sempre - O que está acontecendo?

-Ai que bom que é você! - Dorothy diz - Não é de hoje que Mercedes tem se sentido mal, mas teimosa como é... Só que hoje além dos enjoos, ela desmaiou!

-Dorothy, não exagera... Eu estou bem, Maysa. É só o estresse que tem me feito mal.

-Ok... Vamos ver se é só um exagero. - Maysa se prepara para me examinar e em seguida tira o meu sangue

-Pra que isso? - pergunto, nervosa

-Para sabermos o que está acontecendo, ou melhor, para confirmar minha suspeita.

-E do que você suspeita? - ela olha pra mim e sorri

-Dorothy, você pode esperar lá fora um minutinho? Tenho que fazer umas perguntinhas pra Mercedes.

-Claro! Vou aproveitar para comprar um suco pra você, querida. - Maysa espera Dorothy sair para se voltar para mim

-Pode falar, Maysa. Acha que estou doente? É alguma coisa séria? - ela ri novamente. Assim que a enfermeira entra no quarto, Maysa lhe entrega a cápsula que contém meu sangue

-Leve ao laboratório e peça para examinar agora. É urgente.

-Sim, Doutora. Com licença.

-Então, Mercedes... A pergunta que farei pode soar indelicada, mas...

-Pergunte, Maysa! Está me deixando nervosa...

-Merche, você e Michael costumam... quer dizer, costumavam  manter relações sexuais com proteção?

-Não, acho que nunca usamos. Mas... por que essa pergunta?

-Porque eu acho que está grávida. -  por um momento meu coração chega a bater mais forte, mas então eu lembro das palavras do meu antigo médico

-Não, Maysa. Estou com qualquer coisa, menos gravidez.

-E porque tem essa certeza? - engulo o choro e tento afastar as recordações amargas

-Porque eu não posso mais ter filhos. Então é impossível que eu esteja grávida!

-Mas por que? Você tem alguma doença? Mercedes, antes de tudo eu sou médica, você precisa me dizer.

-Eu não quero falar nada! Por favor, Maysa... Não me faça perguntas.

-Ok, ok... Eu volto logo com o exame e aí sim vamos continuar essa conversa. - Maysa beija minha testa e se levanta da cama

(...)

 Apesar de Dorothy ter me feito companhia nessa última hora, a suspeita de Maysa não sai da minha cabeça. Tá certo que ela não sabe sobre o meu aborto, mas médico nunca erra suas suspeitas. Minha única saída é rezar para que tudo isso seja apenas um equívoco dela, que isso não passe de um simples mal estar.

-Dorothy, não precisa ficar aqui. Sei que tem coisas pra fazer e eu já estou bem. Além disso tenho que conversar com a Maysa sobre a empresa.

-Tudo bem. Eu só vou embora porque sei que precisa conversar com a Maysa. Mas, querida, se não estiver se sentindo bem você me chama, ok?

-Pode deixar... Obrigada por ter vindo.

-Imagina, minha linda. Fica com Deus...

 Agora que estou sozinha, me sinto ainda mais ansiosa, angustiada e nervosa. Quero logo que esse pesadelo acabe para que eu possa ir atrás de Michael. Nós temos que conversar, ainda que seja apenas por causa da empresa.

-Voltei! - Maysa parece animada e isso me deixa desconfiada - Como se sente?

-Melhor. Pode me liberar agora?

-Sim, mas só depois de te dar essa notícia. - ela fala ao me estender um papel

 Enquanto leio as letras, não consigo assimilar o que elas querem dizer, mas ao ler a palavra "positivo", sinto minhas pernas fraquejarem. Pisco meus olhos e leio novamente o resultado, ainda sem conseguir acreditar.

-Maysa...

-Você está grávida, Mercedes. E agora não restam dúvidas.

-Não, não pode ser verdade!! - grito ao sair do estado de choque que me encontrava. Maysa se assusta ao me ver chorar desesperadamente

-Merche, por que reage assim?

-Isso está errado! Eu já disse que não posso ter filhos! Tudo por conta daquele maldito aborto! - despejo pra fora palavras desconexas que acabam me entregando

-O que disse? Como assim aborto? - permaneço virada de costas, mas ela puxa meu braço, forçando a encará-la - Me responda!!

-Eu já estive grávida do Michael. - parece que desfiz um nó na minha garganta, um dos muitos que ainda estão presos

-Como? Me explica isso, Mercedes. Eu exijo!

-Como exige? - grito - Não imagina como é doloroso relembrar esse tormento! - ela se compadece com meu desespero e me abraça

-Me desculpe... Eu estou nervosa, não vê? Por favor, Mercedes. Eu sou sua amiga e como médica eu preciso saber de detalhes. Eles são necessários  por mais dolorosos que sejam.

-Quando me expulsaram do Brooklyn, eu fiquei louca. Literalmente. Eu não tinha ninguém, não tinha para onde ir e... cometi a burrada de me jogar na frente de um carro. Então quando eu acordei no hospital, o médico disse que eu tinha perdido meu bebê e por conta do trauma seria praticamente impossível engravidar novamente. Eu passei todos esses anos me culpando... Eu juro que se soubesse que estava grávida,  jamais teria feito essa loucura! Eu juro...

-Merche, se acalma... - ela diz tentando me consolar - Eu imagino como é doloroso pra você, ainda mais agora, não é?

-Maysa, eu não posso ser mãe! Eu me acostumei e me conformei com esse fardo, como quer que eu me acalme?

-Você pode ser mãe sim! Ou pelo menos pode reproduzir. Provavelmente você sofreu um trauma e isso prejudicaria uma possível ovulação. Mas isso não quer dizer que não possa ter filhos. Eu já vi esse tipo de caso e por isso eu me preocupo.

-Calma aí, Maysa. Eu não estou entendendo nada! Além de dizer que estou grávida, você ainda diz que é preocupante?

-Eu não posso dizer nada enquanto não fizer os exames.

-Pra que exames?

-Mercedes, preciso conhecer e estudar seu organismo. Tenho que ver as condições e a estrutura do seu útero para receber o feto. - ela diz sem olhar para mim, enquanto anota tudo na prancheta

-Eu não quero fazer exames! - digo decidida

-O que?

-Eu não vou passar por isso de novo! Assim que fizer esses exames você vai me dizer que a gravidez é de risco e que provavelmente ela não chegará até o fim. Eu não sou idiota, Maysa. Não quero sofrer de novo!

-Mas não é uma decisão que caiba somente à você. - fecho meus olhos ao me dar conta do detalhe mais importante: estou grávida de um filho do Michael - Você vai contar pra ele, não é?

-Maysa...

-Maysa o que? Não acredito que cogite a ideia de esconder uma gravidez pela segunda vez!

-Eu não sei o que fazer, tá legal? Misericórdia, eu acabei de descobrir que estou grávida, pare de me pressionar!

-Ok, ok... Eu entendo. Vou te dar um prazo, Mercedes. Esfria a cabeça, deixe a ficha cair e pense bem no que fará. Eu não vou compactuar com isso por muito tempo. - sentencia, pronta para deixar o quarto

-Maysa, espera.

-O que?

-Tente me entender. Eu estou perdida... - as lágrimas rolam novamente e eu me vejo completamente desarmada. Maysa suspira demoradamente e me abraça

-Você pode e vai contar comigo. Imagino a confusão que está sua cabeça, mas você vai se acostumar com a ideia de ser mãe.

-Eu tenho tanto medo... Parece que estou vivendo todo aquele pesadelo novamente...

-Agora é diferente, Merche. Pense nisso como uma segunda chance pra você, para o Michael... Para a relação de vocês. - ela me impede de rebater ao beijar minha bochecha

 Ela me abraça forte mais uma vez, me transmitindo proteção e confiança. E então ela me deixa sozinha, completamente sozinha em pensamentos perturbadores. Pela primeira vez em muito tempo eu não tenho noção do que fazer da minha vida.



Capítulo 61

Mercedes


Volto pra casa totalmente desnorteada, nem mesmo liguei para Dorothy vir me buscar. Me enfiei em um táxi e segui direto para o meu apartamento. Minha cabeça está um turbilhão e eu não sei para onde fugir.

-Mercedes! Por que não me ligou para te buscar, minha linda? - não consigo responder Dorothy. Me sento no sofá e continuo encarando o chão - O que aconteceu? Querida, está me deixando preocupada!

-Estou grávida... - é só o que consigo dizer

-O que? - ela abre um sorriso empolgante, o oposto da minha reação - Oh meu Deus... Isso é maravilhoso!!

-Maravilhoso onde, Dorothy? Isso não podia ter acontecido! Não podia!

-Querida, eu sei que está chocada, eu também estou. Mas eu sempre soube que você conseguiria ter filhos novamente!

-Você tem noção do que eu estou sentindo? Passei minha vida toda crente que tinha virado uma fruta seca e agora, justamente agora que Michael e eu rompemos eu descubro que posso engravidar? É demais para minha cabeça...

-Eu entendo, minha linda. Mas eu acredito que tudo tem um propósito. Se você está grávida é porque Deus está dando uma nova chance pra vocês, querida... Tente se alegrar! Você não quer ter o bebê? - por um momento sorrio ao levar timidamente minha mão até a barriga

-Não é isso... É que eu tenho tanto medo... Eu perdi um filho por culpa minha, fiz tantas loucuras desde então porque nunca vi um futuro pra mim. Como eu vou conseguir criar esse bebê? Eu não sei ser mãe, Dorothy.

-É claro que sabe! Veja a Agnes, por exemplo. Desde que você a conheceu, tem feito de tudo para fazê-la feliz. Você acaba de pagar Dominique para deixá-la com o Michael. Você a ama e faz por ela tudo que uma verdadeira mãe faria.

-Você acha? Acha que serei uma boa mãe pra esse bebê?

-Será uma excelente mãe! Assim que esse choque passar você vai se acostumar e a cada dia que passar você vai amá-lo mais e mais. - é impossível não chorar emocionada com as palavras de Dorothy

Devo acreditar que Deus realmente quer me dar uma oportunidade de fazer as coisas certas. Embora eu ainda esteja chocada, no fundo do meu coração eu me sinto agraciada de poder gerar um filho, algo que imaginei nunca mais conseguir.

(...)

Não pude dormir a noite. As palavras de Maysa ao me dar a notícia da gravidez não saíam da minha cabeça. Não só as dela, mas também as do médico que disse que provavelmente eu não conseguiria engravidar mais. Acho que não vou aguentar tantas emoções.
Acordo bem cedo e um pouco mais disposta. Hoje vou procurar Michael e contar sobre a dívida de Leon que paguei. Dependendo da sua resposta eu darei andamento ao meu plano ou desistirei de tudo de uma vez por todas.

-Louise, o Sr. Jackson está na sala dele? - pergunto à sua secretária

-Sim, Sra. Posso anunciar sua entrada?

-Não. Não precisa. Com licença. - respiro fundo, controlo meus nervos e entro na sua sala

Michael parece pensativo, mas "acorda" assim que nota minha presença. Ele muda a fisionomia, mas ao invés de um semblante furioso, vejo um rosto frio e sem emoções.

-O que quer aqui?

-Temos que falar sobre a empresa. Antes que me expulse, devo dizer que é algo do seu interesse. Do interesse de toda sua família. - ele se recosta na poltrona, parecendo confuso

-Então diga. Vou almoçar com a minha filha e não quero me atrasar.

-Estão morando juntos?

-Por que a pergunta? - antes que eu pudesse encontrar uma resposta, Michael me corta - Creio que não veio aqui pra falar sobre Agnes, embora você tenha sido responsável pela dor que estou sentindo agora.

-Já sei que é inútil tocar nesse assunto. Bom, isso aqui é pra você. - deixo em cima da mesa a pasta com documentos

-O que é isso?

-Dívidas que Leon Jackson contraiu com empréstimos bancários. Creio que você não sabia disso, na verdade ninguém sabia. Acontece que ele penhorou todos os bens, inclusive a empresa e a casa. O banco já tomou quase tudo e antes que pudesse tomar a empresa e a mansão, eu quitei o restante da dívida.

-E por que você fez isso? Na certa tem um intuito que, com toda certeza, não é de nos ajudar.

-Será dependendo do que você me disser. Eu tomei posse da penhora e sim, posso tomar o que restou de vocês. E é por isso que estou aqui. Se você me pedir, eu rasgo todas as promissórias, a dívida morre e vocês continuam donos de tudo. Inclusive desisto também de dar o troco em Leon. Tudo depende de você. - Michael parece pensativo. Ele se levanta, checa os documentos e volta a me olhar


-Faça o que você quiser. Seu desejo é se vingar de todos, não é? Vá em frente. Nos deixe na miséria. - ele sorri - Não sou mais um moleque influenciável. Sou um adulto e não tenho mais medo da pobreza. Eu darei a volta por cima e definitivamente, não preciso do seu dinheiro ou do dinheiro do Leon. É todo seu, Mercedes Navarro! - enxugo minha lágrima e lhe respondo

-Ok. Se essa é a sua resposta, farei exatamente isso. Até porque nada que eu fizer vai mudar a visão que tem de mim.

-Só me avise quando pretende tomar posse para que eu deixe o cargo.

-O que? Como assim?

-Ora, Mercedes! Você agora é dona de tudo isso. Não tenho nada para fazer aqui.

-Como não? Michael, eu não quero te prejudicar. Não quero que deixe a empresa, muito menos seu cargo.

-Eu aprendi a ter dignidade, Srta. Navarro. Não quero nada que venha de você. Eu tenho minha filha ao meu lado e não preciso de mais nada. Vou sustentá-la com o dinheiro honesto do meu trabalho. Pela primeira vez terei orgulho de mim.

-Tudo bem... - respiro fundo e engulo o choro - Agora você não precisa mais de mim. Você tem sua família, certo? Espero que seja feliz. Você e Agnes. - deixo sua sala antes que não pudesse segurar as lágrimas

Não tive nem tempo de sofrer pelo desprezo de Michael. Assim que saí da empresa, comecei a me sentir mal novamente, então decidi ver Maysa. Apesar do medo que sinto, não posso fugir das minhas responsabilidades. Farei todos os exames necessários para que eu consiga prosseguir com a gravidez.

-Merche, que bom que está aqui! - nos cumprimentamos com um abraço - Veio fazer os exames, certo? Bem, acredito que você tenha pensado melhor...

-Sim, sim. Eu pensei. Apesar da loucura que é minha vida, esse bebê não tem culpa de nada. Não quero que nada de mal aconteça com ele, então eu te peço para fazer o possível para que dê tudo certo.

-Estou muito feliz por sua decisão. Sabia que quando se acalmasse você pensaria com carinho. E confie em mim. Serei sua médica e confidente, então tudo que sentir você tem que contar pra mim. Agora, vem. Vou te preparar para a bateria de exames.

-Ah, Maysa... Temos que conversar seriamente sobre seu pai. Se possível, podemos falar disso depois do seu horário?

-Claro, Merche. Mas agora não pense em preocupações. Vamos para o quarto.

(...)

Maysa fez diversos exames em mim, até mesmo ultrassom. Ainda não sei porque tive que fazer tantos exames e ela já avisou que amanhã terei que fazer mais. Por mais que Maysa tente passar tranquilidade, sinto que ela me esconde algo. Pode ser apenas uma insegurança minha, quem sabe?

- E então, Maysa? Já pode me dizer alguma coisa? - ela parece tensa e isso me assusta

-Mercedes, alguns exames ficarão prontos em poucos dias e outros vem de imediato.

-E o que deu? Está tudo bem com a gente? - pergunto, segurando firme a minha barriga

-Não, Mercedes. Infelizmente você não está bem. Você desenvolveu alguns problemas tanto emocionais quanto físicos. Sua pressão está totalmente desregulada e seu útero provavelmente não vai segurar o feto até o fim da gestação. Você desenvolveu Placenta Prévia após a curetagem que sofreu... Não posso dizer se a gravidez vai vingar, mas o que posso afirmar é que caso vingue, você terá que decidir.

-De...decidir o quê?

-Se pretende dar andamento à gravidez. Você corre riscos, Mercedes e como sua médica tenho obrigação de lhe informar isso.

-Quer dizer então que eu posso sofrer um aborto a qualquer momento? E que se a gravidez prosseguir eu posso morrer? É isso, Maysa?

-Não gosto de falar nesse tom. Tudo depende, Mercedes. Você será monitorada o tempo todo, mas se preferir você pode... interromper a gestação.

-Não. Eu não vou abortar novamente. Dessa vez eu farei de tudo para o meu filho nascer saudável, nem que para isso eu tenha que abrir mão da minha vida.



Capítulo 62

Mercedes


   Saber que tanto eu quanto meu filho podemos morrer me assusta profundamente, mas eu tomei minha decisão. Meu bebê virá em primeiro lugar e a partir de agora tenho que ser objetiva. Quando meu pai adoeceu tive que aprender a ser forte e racional, e desta vez não será diferente. Decidi também que a única pessoa que saberá do meu estado de saúde será Maysa e Dr. Clinton, pois preciso dele para acertar detalhes importantes.

-Mercedes! Que prazer em vê-la. Já conversou com o Michael Jackson?

-Sim, com ele já. Bem, Michael não demonstrou nenhum interesse. Ele me deu o aval para eu fazer o que quiser com os bens.

-Por isso você parece tão abalada, não é, Merche?






-Não é só por isso, Clinton. Estou grávida e essa gestação é totalmente arriscada. Corro risco de morrer, então por isso vim aqui para fazer meu testamento.

-Como? Mas, Mercedes se essa gravidez é de risco, você tem que interrompê-la!

-Não farei isso de novo. Meu filho é tudo que me resta e por ele sou capaz de tudo. Por favor, Clinton, me ajude. A única pessoa com quem posso contar é você. E então, vai me ajudar ou não? - mesmo contrariado e visivelmente preocupado, Clinton aperta minha mão

-É claro que vou. Prometi ao seu pai que te apoiaria em qualquer decisão e é isso que farei. Conte comigo.

-Eu sabia que você não iria me abandonar. - sorrio aliviada - Bom, acabo de redigir essa procuração. Todos os bens do Leon que deveriam estar no meu nome, serão dos verdadeiros donos: Michael e Maysa. 

-Eu não entendi. Sua ideia não era tirar tudo de Leon?

-E vou. Pretendo expulsar Leon da mansão o mais rápido possível. Quero que ele sofra a maior humilhação da vida dele pelo menos enquanto essa procuração não for reconhecida.

-Deixe eu ver se entendi. Você só quer dar um susto no Leon, certo?

-Sabe, Clinton. Antes de eu descobrir que seria mãe a minha vontade realmente era de me vingar do Leon, vê-lo na miséria. Mas agora... isso perdeu importância na minha vida. Não sei explicar o que estou sentindo. Assim como Dominique, ele nunca será feliz. Esse é o maior castigo dele. Mas apesar de não querer prosseguir com essa vingança, eu quero sentir pelo menos o gostinho de vê-lo sofrer, ainda que seja por pouco tempo.

-Pela primeira vez em muito tempo eu te apoio totalmente. - ele ri - Seu pai ficaria muito orgulhoso da sua decisão.

-Eu sei que ficaria. E esse orgulho aumentaria com o que direi agora.

-Então diga, o que mais tem para me pedir?

-Abrirei mão da Construtora totalmente. Quando os bens voltarem para os Jackson's será com tudo que é deles. Eu comprei as ações para me ajudar na vingança e isso só me trouxe infelicidade, assim como todo o meu dinheiro.

-O que quer dizer com isso?

-Você mais do que ninguém sabe que meu pai só teve ambição de enriquecer-se para me encontrar. Ele nunca foi feliz, mesmo sendo tão rico. E ele também sabia que eu nunca seria feliz com esse dinheiro, até porque ele foi um dos grandes responsáveis por toda a dor que senti na minha vida. Antes de morrer ele me deixou livre para eu fazer o que quiser com sua herança, desde que me trouxesse algum tipo de felicidade. Bom, eu pensei que poderia usar essa fortuna para me vingar e assim poderia ser feliz. Mas foi justamente o contrário... Eu nunca poderei voltar a ser o que era se continuar vestindo essa máscara. Então por isso tomei a decisão de me desfazer de todos os meus bens.

-Mercedes, você tem certeza do que quer fazer? Realmente seu pai nunca se importou com o império que construiu, pois ele fez isso por você. Mas pense bem. Você tem que pensar no seu filho agora.

-Eu sei e é nele que estou pensando. Eu não quero que meu filho seja criado no meio de tanta ganância, pois é isso que o dinheiro trás. É bem provável que ele seja criado pelo Michael e eu sei que estará em boas mãos. - seco minhas lágrimas e dou prosseguimento à minha decisão - O testamento só será reconhecido por firma quando meu filho nascer, então teremos muito tempo.

-Já tem em mente o que pretende fazer?

-Dividirei minha fortuna em partes. Venderei a rede de hotéis assim como os cassinos e as demais empresas que meu pai construiu. Metade da fortuna será revertida à instituições de caridade, de apoio à vítimas de câncer, ao centro de apoio à vitimas de queimadura e também para escolas de música para crianças carentes que visitei em Orlando no ano passado.

-Não imaginei que pudesse concordar com sua escolha, mas ao ver seus planos... Retiro tudo o que disse. - ele ri

-E não parei por aí. Quero destinar parte do dinheiro para a construção de uma nova galeria no Brooklyn. Tenho certeza que meus velhos amigos farão a coisa certa. Finalmente realizarão o sonho de montar a galeria. Bom, outra parte deixarei para a Dorothy. Sempre a consideramos da família e é mais que justo que ela receba a parte dela. Assim como você.

-Eu? Não entendi, Mercedes...

-Você sempre mostrou ser um advogado fiel e um grande amigo. Tenho certeza que meu pai faria o mesmo. Você também receberá sua parte. E por fim... ficarei com uma quantia suficiente para a criação do meu filho e se Deus permitir, realizarei meu maior sonho.

-Eu te agradeço imensamente por ouvir isso. Vocês sempre foram cordiais comigo e eu os respeito muito!

-Eu sei que sim...

-Mas agora me diga, qual é o seu sonho?

-Construir a minha escola de arte. Desde jovem eu tinha esse sonho e agora chegou a minha hora. Eu não sei se viverei por muito tempo, mas tenho certeza que Michael fará isso por mim. - Clinton termina de ler meu testamento e parece inconformado

-Tem certeza que quer ficar com tão pouco?

-Não preciso mais do que isso, que na verdade não ficará para mim e sim para a escola. Eu nunca deixei de ser humilde, Clinton. Sempre tive orgulho de ser uma pobre sonhadora e o dinheiro nunca mudou minha cabeça. Sempre fui livre e o dinheiro nada mais é que correntes que te aprisionam. Posso parecer uma tola hipócrita, mas eu vou escutar meu coração. E ele está certo.

-Eu te admiro muito, Mercedes. A cada dia que passa. Tenho certeza que ainda será muito feliz e Deus vendo todas essas benevolências te dará tudo que você merece.

-A única coisa que eu quero dele é que deixe meu filho nascer. É só isso que eu quero...





Capítulo 63

Narradora


    O estado de saúde de Mercedes preocupa Maysa ainda mais pelo fato de não poder contar ao irmão o que está acontecendo. Ela sabe que esse é um assunto dos dois e pelo menos nisso ela não vai se meter, já que está cuidando de outro problema chamado Milles.
    Tenho certeza que Mercedes não armou para desmascarar Dominique - pensa Maysa. Ela sabe que Mercedes jamais faria algo para prejudicar Agnes. 
Ao conseguir o telefone de Milles com a secretária de Michael, Maysa consegue falar com o ele, inventando ser uma secretária do laboratório de análises clínicas. Ela mente dizendo que Dominique pediu para ele fazer o teste de paternidade, e como Milles tem certeza que é o pai de Agnes, aceitou de imediato. Assim como Edgar lhe disse, tudo está saindo conforme planejado.
    Há alguns meses atrás, exatamente no dia da festa em que Dominique foi desmascarada, Edgar pegou uma conversa dela com uma amiga ao telefone e por coincidência, ele ouviu justamente o momento em que, desesperada, Dominique dizia que Michael acabaria descobrindo do seu envolvimento com Milles há oito anos atrás. Neste momento ele ligou os pontos e para ter a confirmação, procurou por ele.
     E então descobriu que realmente Dominique e Milles foram amantes e que quando Agnes nasceu, ele tinha dúvidas se era o pai da criança. Dominique garantiu que não e mesmo desconfiado, ele esqueceu o assunto, até o momento de Edgar fazer sua proposta: provocar um escândalo tão grande do tamanho do que foi a descoberta da traição de Dominique. 
Após receber um bom dinheiro de Edgar e a promessa de que poderia ganhar muito mais chantageando Michael, Milles acabou aceitando e depois de poucos meses veio à Nova York cumprir com a sua palavra. Mas o ápice do plano de Edgar foi jogar nas costas de Mercedes, aproveitando que ela planejava sua vingança. E tudo saiu perfeitamente como Edgar imaginou.

(...)

-Dr. Maysa, o paciente Milles Levine está aqui fora. Posso permitir sua entrada?

-Claro, Lissy. Peça à ele para entrar e por favor, não nos interrompa. Terei uma conversa séria com esse homem.

-Sim senhora. - em poucos segundos Milles entra no consultório e de imediato reconhece a irmã de Michael

-Espera... Eu te conheço...

-Sim, você me conhece. - Maysa se levanta e o cumprimenta - Maysa Jackson.

-Eu não estou entendendo nada. - ele dá de ombros - Com licença, eu tenho um exame marcado, até mais.

-Você não tem exame nenhum para fazer e não sairá dessa sala tão cedo.

-Ah... Já entendi... - ele ri - Já deve saber que sou o pai da Agnes!

-E é por isso que veio correndo fazer o DNA, certo? Porque tendo a confirmação você pode chantagear meu irmão e tirar dele um bom dinheiro.

-De onde tirou isso? - ele debocha

-Olha, eu  posso não ser a pessoa mais esperta do mundo, mas costumo ser quando quero. Você tem cara de pilantra e pessoas assim reconheço de longe.

-É mesmo? Eu não dou a mínima para o que pensa. Nada mudará os fatos, querida.

-Ah, muda sim. - Maysa sorri ao passear a ponta dos dedos pelo exame em cima de sua mesa - Você não é o pai de Agnes e nunca será. Já tenho a confirmação de que minha sobrinha tem nosso sangue. - Milles tenta esconder o desapontamento e procura entender o que Maysa quer com ele

-Bom, não vejo então motivos para estar aqui. Com licença!

-Com licença nada! Você só sai daqui quando me disser quem te pagou para envolver a Mercedes nessa confusão!

-Você enlouqueceu? Já disse que foi ela quem me procurou me confirmando que sou o pai da Agnes e é por isso que fui atrás da Dominique!

-Já vi que não vai falar a verdade... Ok, quanto quer pra abrir a boca? Posso pagar mais do que você deve ter recebido e eu te garanto que não vai sair dessa armação suja de mãos abanando. Vamos logo, abra o jogo!

-Tá, tá bem! Não adianta mais eu negar, até porque aquele otário tá preso. - ele afrouxa o nó da gravata e continua - O Edgar me procurou há uns meses atrás. Ele disse que já sabia do meu envolvimento com Dominique e eu acabei contando tudo. Ele me garantiu que a Agnes era minha filha e foi por isso que eu topei, quer dizer... pelo dinheiro também. - apesar de lamentar saber que seu próprio irmão armou isso, Maysa não está mais chocada com as maldades de Edgar

-E onde entra a Mercedes nisso?

-Na verdade eu não sei qual foi o intuito, mas ele disse que não queria se comprometer. Edgar avisou que essa Mercedes já tinha desmascarado a Dominique, então não seria problema colocar mais um na conta dela.

-Desgraçado... Infelizmente não me surpreendo mais com nada que venha desse sujeito.

-Pior que agora eu me ferrei com o Michael! Isso que dá cair no papo de um sequelado!

-Você devia ter vergonha do que fez e não digo só por armar com Edgar e sim por ter traído a confiança do Michael! Tem noção da dor que causou à ele?

-Eu estava apaixonado, ok? Sei que pisei na bola, mas Dominique vivia prometendo que o deixaria por mim!

-E você caiu na conversa... Saia da minha sala, por favor. Não chegue perto do Michael nunca mais!

-E o meu dinheiro?

-Dê graças a Deus de continuar com a gorjeta que Edgar te deu. Agora suma daqui antes que fique sem um centavo, pois eu tenho cacife pra isso! - ela ameaça com convicção, amedrontado Milles. Ele se levanta, contrariado e deixa o consultório, já planejando voltar para Madri no primeiro voo que conseguir

Apesar da decepção de saber que o irmão não presta, ela está feliz e aliviada de ter descoberto a verdade e principalmente por ter o DNA em mãos. Maysa tem certeza de que uma parte dos problemas entre Michael e Mercedes serão resolvidos, sem levar em consideração o bebê que está a caminho.
Maysa corre para o telefone e disca o número de Michael, ansiosa para acabar com o sofrimento que aflige o irmão.

-Michael? Vem pra cá agora! - diz, sem deixar de esconder a alegria em seu tom de voz

Capítulo 64

Michael


   Assim que recebi a ligação de Maysa senti um frio na barriga, não só pelo fato dela dizer que o resultado está pronto, mas também porque ela quer me dizer algo importante, na certa já deve estar sabendo que Mercedes agora é dona dos nossos bens.

-Oi Maysa... - tento sorrir, mas não consigo mostrar um pingo de animação sequer

Meu coração cada dia se despedaça um pouco mais e o pior de tudo é que ele grita por Mercedes, mesmo meu cérebro ordenando o contrário. A verdade é que me tornei prisioneiro dessa mulher.

-Tente se animar, irmão...

-Como, Maysa? Não aguento mais esses autos e baixos da minha vida!

-Prometo que eles vão acabar agora. - ela coloca o envelope na minha mão e sorri confiante. Pego-o, mas tenho receio de abrir

-Não... Eu não quero ver! Maysa, eu não vou suportar se...

-Abra, Michael! Por que acha que estou tão confiante? - meu coração acelera e eu abro o envelope com verdadeira rapidez nos dedos

Rolo meus olhos por cada linha do papel e finalmente consigo respirar ao ler o que tanto rezei nesses dias. Já não consigo conter as lágrimas de felicidade e de alívio.

-Ai Maysa... Tem certeza? Tem certeza que está certo?

-Claro que sim, Michael! Agnes tem seu sangue e ninguém vai tirá-la de você! - ela me abraça forte e eu choro como uma criança

-Mas eu não entendo... Nossas características são tão diferenciadas... Droga, quando temos dúvidas, tudo vira motivo né? - rio - Eu... eu vou buscar ela agora!


-Mike, espera! - Maysa segura meu braço e me faz sentar novamente - Tenho outra coisa para te contar.

-Eu pensei que era sobre esse assunto, mas já me mostrou o exame...

-É sobre esse assunto. Michael, Milles esteve aqui hoje.

-Como? Por que? - me altero

-Me escuta! Eu o trouxe até aqui para descobrir a verdade.

-Que verdade, Maysa? Ele já disse tudo... - fecho meus olhos ao me lembrar do pesadelo que foi aquele dia

-Não disse não. - Maysa suspira - Ele mentiu, Michael. A única pessoa que sabia dessa história toda era o Edgar. Nosso irmão foi atrás do Milles e bem, o resto você já sabe. Mercedes foi apenas uma isca.

-Espera, Maysa. Como sabe disso tudo?

-Eu o forcei a me dizer. Pelo que ele me disse, Edgar escutou uma conversa da Dominique com alguém no telefone no dia daquela festa. Ela falava justamente sobre o romance com o Milles. Edgar ligou os pontos e foi atrás dele, que acabou contando tudo. Enfim, Edgar deu toda a ideia dele vir para assumir que era pai da Agnes, e claro, pagou muito bem. E não satisfeito, ele aproveitou que na época a Merche queria se vingar de você e jogou tudo nas costas dela.

   A cada revelação que Maysa diz, é como se uma faca fincasse meu coração. Como eu pude acreditar que Mercedes fez uma maldade como essa? Logo ela que sempre amou Agnes como uma verdadeira mãe... Estou zonzo, absorto e profundamente arrependido.

-Não acredito que fiz isso com ela... - abaixo minha cabeça, sentindo vergonha por todos os meus atos contra Mercedes - Mas que droga! - soco a mesa, tentando descontar a raiva e revolta que estou sentindo

-Michael, calma! Você não tinha como saber, meu irmão...

-Eu fui injusto, Maysa! Eu deveria saber que ela jamais faria algo contra a Agnes. Eu a magoei tanto... Vi nos seus olhos ontem o quanto está machucada...

-Se serve de consolo, ela não está magoada com você. Mercedes sabe que estava em seu direito. Ela é obcecada com a ideia de que não tem moral mais para te julgar pelo fato de ter te acusado tantas vezes.

-Enquanto não esquecermos o passado, nunca seguiremos em frente, caramba! - tento me acalmar aos poucos para encontrar uma solução para toda essa confusão

-Você tem toda razão. Conversa com ela, Mike. Tenho certeza que Mercedes vai te escutar.

-Dr. Maysa, pode vir aqui um minutinho? - sua secretária lhe chama

-Claro! Michael, me espere aqui, ok? Eu já volto.

-Ok...

   Estou impaciente e inquieto. Minha vontade é de ir atrás de Mercedes agora mesmo, mas isso parece ser tão difícil. Preciso me acalmar, colocar a cabeça no lugar e saber exatamente o que dizer agora.
   Ando de um lado para o outro e me entrego à uma mania antiga de fuçar nas coisas. Passeio meus dedos pela mesa de Maysa e meus olhos chamam minha atenção para um exame de ultrassom.

-Como ela consegue enxergar um bebê aqui? - já estava prestes a colocar o exame de volta à mesa quando bato meus olhos no nome da paciente - Mercedes Chavez Navarro...- sinto uma forte tontura e me sento na cadeira. Estou trêmulo e não consigo nem mesmo ler novamente o papel

-Michael, está pálido... O que aconteceu? - Maysa corre até mim, mas ao ver o exame em minhas mãos ela paralisa

-Maysa, eu realmente li o nome dela? Diz que está certo, diz...

-Você leu certo... - ela murmura - Mercedes está grávida.

Não consigo conter a emoção de saber que a mulher que amo está esperando um filho meu. Mas em meio à toda a surpresa, não posso deixar de me sentir ultrajado. Por que Maysa não me contou nada?

-Por mais que seja difícil entender eu compreendo que ela esconderia isso de mim, mas você? Por que não me contou, Maysa?

-Porque não cabe a mim, Michael! Mercedes veio aqui sentindo enjoos e eu fiz os exames... Ela ficou chocada, Michael, e pediu que eu respeitasse o momento dela. Mercedes não planejou esconder nada, ela só pediu um tempo. E como médica, eu não posso fazer isso com um paciente, goste você ou não!

-Eu vou atrás dela agora! - tomo impulso e me levanto da cadeira, mas Maysa me impede

-Só me prometa uma coisa?

-O que, Maysa?

-Não brigue com ela, por favor. Sei que está nervoso, mas não desconte nela!

-Por que diz isso? Realmente defende o que ela fez?

-Sim. Eu defendo porque sei de coisas que você ainda não sabe! Mas estou pedindo isso como médica. - vejo uma preocupação em seu semblante e isso me assusta

-Por que diz isso? - ela parece pensativa, mas não responde minha pergunta

-Só... fique calmo. Tente conversar com ela, por favor. Michael, eu acredito que ainda há chances para o amor de vocês. Não jogue isso fora...

Fecho meus olhos e reflito sobre o que Maysa disse. Realmente agora eu não sei qual será nosso destino. A única coisa que posso afirmar é que meu coração voltou a bater na intensidade que Mercedes sempre provocou. Enquanto corro para chegar até ela, rezo à Deus para que nos dê só mais uma chance para tentar fazer tudo certo dessa vez.


Capítulo 65

Mercedes


Dr. Collins, o oficial de justiça e eu chegamos à casa de Leon. Chegou a hora de colocá- lo em seu devido lugar e por mais que eu esteja de coração partido por Michael e Maysa, não posso deixar de me sentir aliviada por finalmente dar o troco em Leon Jackson.

-Boa Tarde, Corine. - digo. Ela se espanta ao me ver ao lado de dois homens

-Boa tarde... Mercedes. Aconteceu alguma coisa?

-Digamos que sim. - respondo - Viemos falar com o Leon. Ele pode nos receber?

-Sim... Ele acabou de fazer a sessão de fisioterapia e está no quarto descansando. Vou chamá-la...

-Não precisa! - somos interrompidas por Leon, que se aproxima de nós com a cadeira motorizada - O que querem comigo?

-Será que podemos ir para um local mais reservado, Sr. Jackson? - o oficial de justiça pergunta

-Não perderei meu tempo com vocês! Digam logo o que querem e saiam da minha casa!

-Sua casa? - rio - Essa casa não é mais sua, Sr. Jackson. - seu rosto adquire um tom de vermelho e o vejo mudar a fisionomia imediatamente

-O que disse?

-Oh... Além de inválido ficou sequelado? Tudo bem, eu vou refrescar sua mente... - dou alguns passos, desfilando pela sala - Se lembra que penhorou todos os bens porque não tinha um centavo para pagar suas dívidas?

-Como soube disso? - pergunta visivelmente contrariado

-Porque você foi burro demais ao penhorar a empresa que também pertence a mim! Mas não se altere... - debocho - Eu fiz a caridade de pagar o restante das dívidas antes que o Banco tomasse a Construtora e essa casa.

-E qual foi sua intenção em me ajudar?

-Ajudar? - dou uma gargalhada venenosa - A única coisa que ajudei nisso tudo foi à minha vingança contra você! Agora eu sou dona de tudo que você tem, quer dizer, tinha.






-Não pode ser verdade! - exaspera

-Sr. Jackson, tente se acalmar... - Corine pede

-Cala a boca e não se meta! - grita - Essa mulher não tem direito nenhum sob meus bens!

-Ela tem sim, Sr. Jackson. - Collins diz - Tenho em mãos todos os documentos que dão direitos à Mercedes. Quando assinou a penhora, o senhor concordou em transferir o poder para um novo devedor, no caso, a minha cliente, passando assim, a ter apenas o usufruto dos bens.

-Eu fiz isso porque imaginei que Michael pagaria essa divídida!

-Pois imaginou errado! - digo - Agora chega com esse papinho, tenho mais o que fazer! Eu sou a dona de tudo e já descartei você como beneficiário em usufruto, ou seja, você não tem nada para fazer aqui!

-Está me expulsando da minha própria casa?

-Da minha casa! - corrijo - Ainda serei boazinha e lhe darei 24 horas para sumir daqui, levando todas as suas tralhas.

-E para onde eu vou?

-Se vira! - dou de ombros - Não é você o todo poderoso que tem sempre uma carta na mão? Olha, se quiser ajuda... pode ser que tenha um muquifo pra você lá no Brooklyn. Só não posso te garantir se será bem recebido, porque... Eu quero tirar seu poder, já eles querem tirar a sua vida da mesma forma que você fez com a minha amiga! - puxo o ar com dificuldade e percebo que cheguei ao meu limite - Vamos embora, Collins. Amanhã quero entrar na minha casa e não sentir nem o cheiro desse verme!

-Vagabunda! Eu vou acabar com você, me ouviu?

-Você já acabou comigo uma vez, Sr. Jackson. Agora é a minha vez de acabar com você!

(...)

O confronto com Leon não me fez nada bem. Tenho que passar a controlar meus nervos, tenho que me lembrar que tenho um bebezinho muito sensível dentro de mim pedindo a todo momento que eu sossegue.
Assim que termino meu banho, decido me deitar um pouquinho, já que estou sozinha em casa. Quando finalmente pego no sono, a campainha toca e eu sou obrigada a me levantar.

-Michael? - meu coração acelera, imaginando que ele veio aqui para brigar comigo por causa de Leon

-Podemos conversar? - ele parece calmo e eu rapidamente abro a porta

-Claro, entre...

-Licença... - fecho a porta e me viro para ele, sem conseguir olhar nos seus olhos

-Pode falar, Michael.

-Mercedes, eu... Eu vim me desculpar com você. Na verdade vim pedir seu perdão por ter acreditado no que Milles disse.

-Como assim?

-Eu já sei que foi Edgar quem armou tudo isso e jogou a culpa em você. Estou extremamente arrasado e decepcionado comigo mesmo. Você sempre amou minha filha e eu devia saber que jamais lhe faria mal. - seus olhos estão marejados e eu me sinto profundamente emocionada, talvez pelos meus hormônios estarem sensíveis

-Michael, você não tem que me pedir perdão por nada...

-Tenho sim! Sei que vai dizer que você mereceu isso por ter feito o mesmo comigo, mas não é justificativa! Já tínhamos esclarecido tudo e prometemos esquecer o passado. No entanto, no primeiro conflito eu...

-Michael, eu estou sendo sincera com você. Não estou magoada, muito pelo contrário. Na verdade fico aliviada de saber que a verdade foi revelada. Acho que você se sentiu assim quando eu pedi perdão...

-Acho que sim... E agora também sinto o remorso que você sentiu.

-Te garanto que não é tão grande quanto o que eu senti e ainda sinto... Acha que podemos esquecer isso?

-Depende. Não tem mais nada para me contar?

-Como assim? Está falando sobre o prazo que dei ao seu pai?

-Não... Embora Corine já tenha me ligado para contar... Então você realmente cumpriu sua palavra, não é?

-Só fiz o que achei que era certo. - ambos desviamos nossos olhos um do outro, pois sabemos o quão delicado é esse assunto - Se não é sobre isso, é pelo que então?

-Tem certeza que não sabe, Mercedes? - ele me olha bem no fundo dos meus olhos, como se esperasse ouvir a resposta da minha boca

Ele só pode saber da minha gravidez! Maysa com certeza não deve ter aguentado esconder a notícia do irmão e acabou revelando. Levo minha mão à boca e tento segurar o choro.

-Maysa te contou...

-É... ela foi obrigada a me contar. - percebo sua voz embargada e eu me viro para olhá-lo - Por coincidência vi seu ultrassom em cima da mesa dela, quer dizer... o ultrassom do meu filho. - me emociono ao ver as lágrimas rolarem em seu rosto - Pretendia esconder de mim, Mercedes? Porque se essa foi a sua intenção, saiba que pode me magoar profundamente.

-Você só pensa em si mesmo, não é? Mas e no que eu estou sentindo? Tem noção de como está a minha cabeça? - ele se cala - Eu não pretendia esconder de você, até porque seria impossível! Eu só precisava de um tempo...

-Compreendo que esteja em choque, eu também estou. Mas estamos falando de um filho que, querendo ou não, é fruto do nosso amor, e não de uma doença gravíssima! - nesse momento perco totalmente o controle e despejo tudo que está entalado na minha garganta

-Fala assim porque não é você que está passando por isso pela segunda vez! Não foi você que sofreu um aborto, não foi pra você que disseram que eu não poderia engravidar mais e não é você que carrega a culpa de ter perdido o próprio filho! - termino meu desabafo aos berros, com o rosto banhado de lágrimas 

Michael está pálido, imóvel e me olha incrédulo e apavorado. Não estava nos meus planos revelar isso, mas não consigo mais esconder a verdade.

-O que está me dizendo, Mercedes... Pelo amor de Deus, não brinque comigo...

-Quem me dera se isso fosse apenas uma mentira para te provocar. - ele assim como eu também chora ao se dar conta da seriedade das minhas palavras - Eu prometi que jamais revelaria esse segredo, mas o destino faz questão de trazê-lo a tona.

-Esse filho era meu, Merche? Responda!

-Sim, era seu! É claro que era seu! - brado

-Como... Como aconteceu isso? Por favor, eu preciso saber!

-Foi depois que você me deixou, depois do incêndio também. Eu não tinha rumo, estava sozinha, tinha perdido a sanidade. Eu me quis acabar com a minha vida e nessa loucura acabei levando o meu bebê... Eu juro que não sabia, porque se eu soubesse, jamais teria fracassado... - Michael continua em silêncio, chorando baixinho - Eu passei todos esses anos me culpando por ter matado meu filho e acreditando que nunca mais iria engravidar. Por isso não via futuro pra mim, por isso me tornei obcecada por essa vingança, para tentar aplacar o vazio e a dor que eu sentia...

-Você não tinha o direito de esconder isso de mim. Deveria ter me contado toda a verdade, deveria ter ido atrás de mim na época!

-Pra ser enxotada por você e sua família? Como pode ser tão egoísta? Não pode simplesmente ignorar meu sofrimento por um capricho!

-Capricho? Você esperava um filho meu, porra! Não desconte em mim a sua irresponsabilidade!

-Pode ser, mas eu o perdi por culpa sua! - rebato - Se você não tivesse me deixado por medo de ser pobre e se tivesse lutado ao meu lado provavelmente essa criança estaria aqui! - Michael desaba, jogando seu corpo sob o sofá. Ele chora desesperado e eu me arrependo por ter sido tão severa

-O que eu fiz da nossa vida, Mercedes? - diz entre soluços, com a cabeça debruçada sob os joelhos

Me encosto na parede e choro baixinho um choro sofrido e descontrolado. Eu não imaginei que esse momento seria tão doloroso assim.

-Eu estou grávida. - digo, quebrando o longo silêncio entre nós. Michael ergue a cabeça para me encarar - É tão inútil brigar por uma coisa que jamais terá solução... 

-Me perdoe pelo que disse. - murmura

-Me perdoe também. - Michael se levanta e aproxima de mim. Ele me abraça apertado e novamente chora

-Eu vou ser pai. Vou ser pai novamente de um filho seu. Deus eu me sinto tão culpado...

-É por isso que jurei nunca te contar nada. Eu sabia que ficaria assim e isso é algo irremediável. Estou aprendendo tanta coisa desde que soube que seria mãe... - acaricio minha barriga e Michael sorri - Eu me perdoei pelo que aconteceu, Michael. Se posso gerar uma criança é porque Deus me... - minha visão se enturva e minha voz começa a se embolar

-Mercedes? - ouço Michael chamar meu nome e em seguida tudo fica escuro e em um completo silêncio



Capítulo 66

Mercedes


Acordo um pouco mais disposta e me dou conta de que estou em um hospital. Então me lembro da discussão com o Michael e da forte tontura que senti em seguida. Começo a me preocupar, imaginando que sofri outro aborto. Tento me levantar da cama, mas logo Maysa aparece para me impedir.

-Mercedes, não! - ela me ajuda a deitar novamente e certifica de que a agulha fincada na minha veia não se quebrou

-O bebê está aqui, não está? Fala pra mim!

-Está tudo bem, se acalme! Vocês estão bem... - suspiro aliviada e finalmente me tranquilizo - Você teve um pico de pressão. Brigaram, não é?

-A culpa foi minha... Eu acabei contando toda a verdade pro Michael e...

-Não pense nisso, ok? Já passou... Você não pode sofrer emoções, Merche. Está no terceiro mês de gestação e essa fase é propícia para um aborto.

-Já estou de três meses? - sorrio - Então logo vou saber se é menino ou menina?

-Sim, na verdade já podemos saber. Quando quiser é só me falar. Agora me deixe tirar sua pressão. - enquanto Maysa faz seu trabalho, ouso em perguntar sobre Michael

-Maysa... Michael está aí fora?

-Sim. Ele está louco para vê-la e saber como está.

-Você não disse nada sobre meu estado, né?

-Ainda não, mas direi.

-Não faça isso, por favor.

-Mercedes, ele tem o direito de saber. - insiste

-Mas eu não quero! Nem Dorothy sabe do que está acontecendo. Não quero que ele se preocupe e nem que me suporte por medo de perder o filho.

-Então quer dizer que não pretende voltar com ele?

-Por mais que tenhamos esclarecido tantos mal entendidos isso não é o bastante. Nós juntos só sabemos nos magoar e eu não quero mais isso. Muito menos quero que ele esteja comigo caso eu... Você sabe...

-Acho que entendi o que está acontecendo. Tem medo de morrer e não quer que meu irmão veja isso.

-Até o parto, Michael estará conformado com o nosso rompimento e poderá até mesmo ter me esquecido.

-Acha mesmo que um amor que aguentou doze anos de separação vai acabar em seis meses?

-Só não acabou antes porque o passado não estava resolvido. Agora nada nos prende um ao outro, somente nosso filho.

-Eu não sei nem o que fazer mais pra juntar vocês... - ela suspira desanimada

-Não se preocupe. - sorrio para disfarçar minha tristeza - Nós tentamos, né? - Maysa me faz uma leve carícia e sorri

-Eu vou falar com ele... Se cuida.

Michael


Não aguento mais essa demora por notícias. Maysa não aparece para dizer nada e eu temo pelo pior.

-Maysa! - me levanto da cadeira em um pulo e corro até ela - Como ela está? Quer dizer, como eles estão?

-Estão bem, Michael. Mercedes teve um pico de pressão alta, foi só isso. - ela não me olha nos olhos e eu conheço Maysa o suficiente para saber que está mentindo pra mim

-Está me escondendo algo. Aconteceu mais alguma coisa, não é?

-Michael, eu já disse que está tudo bem! Mercedes só está com uma leve anemia, nada mais. Confie em mim.

-Foi tudo culpa minha. Você pediu tanto para que eu não brigasse com ela... Mas é que eu não aguentei quando ela disse sobre o nosso filho. Você sabia, não é?

-Ela me contou no dia que soube da gravidez...

-O mal que fiz à ela foi muito mais grave do que eu podia imaginar...

-Michael, não se culpe. Se todas essas coisas aconteceram foi porque tinham que acontecer. Pensa bem, agora vocês vão ter outro filho e olha que Mercedes nem ao menos poderia engravidar facilmente. Esqueça o passado, meu irmão. Quanto mais viverem dele, mais perderão a oportunidade de mudar o futuro.

-Você está certa... - digo, enxugando as lágrimas - Mas será que algum dia conseguiremos enterrá-lo de vez?

-Tenho certeza que sim, mas vocês precisam tentar. - ela me abraça - Vai lá ver a Merche. E por favor, não briguem novamente.

-A última coisa que quero é brigar com ela. Com licença.

Entro no quarto, abrindo a porta cuidadosamente para não assustá-la. Mercedes está de olhos fechados, acariciando sua barriga. Ela abre os olhos ao escutar meus passos.

-Você... está melhor? - pergunto timidamente

-Sim, o pior já passou. Meu filho está bem e é isso que importa.

-Nosso. - lhe corrijo

-Desculpe. Nosso filho... - me sento ao seu lado e ouso levar minha mão ao seu ventre

-Logo logo vai estar enorme... - ela sorri

-Acho que vou pirar, porque aí sim minha ficha vai cair. Mas eu estou tranquila, porque você será um ótimo pai para ele ou ela.

-Você também será, Mercedes. Não diga como se só eu fosse criá-lo. Por acaso não quer...

-Não, não é isso! - ela me corta - É que... você tem mais experiência e assim como cuida da Agnes, também cuidará dele, mesmo nós não estando juntos...

-E é isso que você quer? Me afastar de você?

-E o que você sugere? Que a gente reate mesmo com tudo que nos aconteceu? Eu não quero mais brigas, Michael. E a melhor forma de vivermos em paz será como amigos. Pelo bem desta criança.

-Tudo bem, se é o que quer... Mas eu só digo uma coisa. Você não vai me afastar tão facilmente. Quero acompanhar a gestação e isso você não pode impedir.

-O que quer dizer com isso?

-Quero dizer que aceito sua proposta de continuar na empresa. Você se lembra do que disse, né?

-É claro que me lembro, mas... por que isso agora?

-Bem, eu preciso de emprego para sustentar dois filhos, não acha? Me deixe ser seu assistente.

-Meu o que? - ela ri

-Seu assistente. Sei que promoveu a Judith e está a procura de alguém para o cargo dela.

-Michael, você é o presidente da Construtora. Como do nada vai virar meu assistente?

-Já disse que não quero mais esse cargo. E não é por orgulho. Você mais do que ninguém sabe que detesto meu trabalho e agora que nada disso me pertence mais, não tem motivo para continuar com esse fardo.

-Então por que quer continuar como meu assistente?

-Quer mesmo que eu responda?


Continua...





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